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Heroína eletrônica (Preciado 2022)

Heroína eletrônica (Preciado 2022)

PRECIADO, Paul. 2022. Heroína eletrônica. In: Dysphoria mundi: o som do mundo desmoronando. Rio de Janeiro: Editora Schwarcz, pp..

VÍCIO ELETRÔNICO

Nos últimos quinze anos, o governo chinês especializou-se em criar uma série de campos de reeducação para “reabilitar” um grupo cada vez mais numeroso do que eles denominam “web junkies”, ou “viciados em internet”. Trata-se em sua maioria de adolescentes acusados pelos pais de abandono das tarefas escolares e dos deveres familiares, que passam entre oito e vinte horas consecutivas conectados à internet, seja através do celular ou do computador — oito horas diárias é a média de tempo de conexão à internet e às redes sociais de um adolescente europeu ou americano. Xu Xiangyang, diretor do centro de educação e formação em Huainan, cidade situada 450 quilômetros ao norte de Shanghai, afirma que a internet funciona como uma espécie de “heroína eletrônica”, que produz no cérebro um efeito químico altamente aditivo, semelhante ao que é produzido pelo consumo de uma droga. Assim como os adictos químicos, aponta o instrutor, os adictos eletrônicos não conseguem abandonar o “vínculo” com a substância” sem um duro processo de reabilitação que, como no caso de uma droga, supõe a privação mais ou menos forçada. Se as declarações de Xiangyang são interessantes é porque reconhecem que a matéria que constitui a internet não é algo externo e inerte, mas um fluxo que nos atravessa, uma “substância eletrônica” que o cérebro contemporâneo consome, da mesma forma que, no século xvii, com a extensão da educação à leitura, passou a consumir “textos”; a partir do século xx, imagens fixas e em movimento; e, durante os séculos do colonialismo industrial, açúcar, carne, tabaco e ópio. A poucos quilômetros do centro de reabilitação de Huainan encontram-se as maiores fábricas de produção de microchips do mundo. Os que nos reabilitam são os mesmos que nos fisgam.

BURROUGHS como NIETZSCHE HEROINÔMANO NA ERA DA REPRODUTIBILIDADE TÉCNICA

[A]pesar [de] traços que, por mais graves que sejam, não deixam de ser convencionais para um homem branco cis na cultura do pós-guerra (misoginia, homofobia, estetização das armas e exaltação da violência etc.), o consumo de peiote e de heroína transformaram seu cérebro numa fábrica experimental que produziu algumas das invenções literárias e políticas mais prodigiosas do século. Como se fosse um Nietzsche heroinômano na era da reprodução mecânica, Burroughs imaginou um exército de jovens com câmeras ocultas sob os casacos, infiltrando-se nos dormitórios e banheiros dos políticos para filmar inconfessáveis cenas sexuais, mas também para registrar seus arrotos e peidos, e sobretudo suas mentiras, para depois divulgá-las decupadas (cut-up), moídas e misturadas com os gritos dos porcos nos matadouros, formando um magma tão indigesto quanto libertador, capaz de fazer o fluxo repetitivo e falso da comunicação cultural entrar em curto-circuito. Para Burroughs, esses atos de sabotagem tinham um objetivo terapêutico, quase orgânico; eram destinados a curar o corpo social: a comunicação de massas havia gerado uma forma de contaminação contra a qual só era possível lutar através de um détournement intencional das máquinas de inscrição. A guerrilha eletrônica era a única que poderia, segundo o autor de Almoço nu, “liberar o vírus contido na palavra, promovendo assim o caos social”.

[A] escrita é um vírus extraterrestre que infectou o corpo e, se não foi reconhecido como um vírus, foi “porque alcançou um estado de simbiose com o hóspede”.5 Como o vírus, a escrita é uma entidade que desafia os limites entre o vivo e o morto, o orgânico e o inorgânico: nem bactéria nem puramente organismo, a linguagem penetra no corpo e usurpa as características da vida. O vírus da escrita é, para Burroughs, uma pequena unidade de palavra e imagem ativada biologicamente para atuar como uma entidade viral comunicável.

[R]ecuperar a potência política de pensar a linguagem como um parasita que coloniza nosso sistema nervoso. Ao encarar a linguagem como uma matéria plástica e orgânica capaz de circular do corpo humano para as máquinas e vice-versa, Burroughs, pela mão do artista conceitual Brion Gysin, formula duas intuições centrais para a filosofia contemporânea, para pensar em tempos de covid, mas também de revolução. A primeira é que a comunicação é contágio. A teoria da performatividade da linguagem de Burroughs é viral: escrever ou falar não é transmitir informação, mas contaminar. A escrita é sempre infecção. Por isso é tão difícil calar a voz interior que, como um febril burocrata kafkiano, não para de escrever num invisível teclado bioquímico dentro de nossas cabeças. O corpo humano é para Burroughs uma máquina branda (soft machine)6 constantemente ameaçada pelos parasitas da linguagem, sendo por isso importante recorrer a práticas meditativas e à ingestão de peiote ou ayahuasca como estratégias para “deter a máquina” de escrever instalada em nosso sistema neuronal. […] A segunda intuição deriva precisamente de sua experiência de mais de cinquenta anos como heroinômano: a adição é o modelo orgânico que Burroughs propõe para pensar a relação do corpo contemporâneo com o poder. Não entramos numa relação de submissão ou de obediência com o poder, mas numa adição. Segundo o direito romano arcaico, o addictus era o devedor insolvente que, por falta de pagamento, era entregue como escravo a seu credor, que tanto podia encarcerá-lo quanto vendê-lo ou inclusive matá-lo. O addictus pagava suas dívidas através de sua adição ao credor e, paradoxalmente, conservava o estatuto de cidadão, embora perdesse a liberdade. Dívida e adição, em lugar de necessidade e desejo, são as forças que constituem a subjetividade contemporânea.

VICIADOS EM PODER e CAPITAL (pílula, microchip, gênero, reprodução assistida e pornografia digital)

Nossa dificuldade para abandonar o capitalismo petrossexorracial […] deriva de estarmos […] numa relação de adição com o poder e o capital. A dívida transforma o cidadão em adicto, no sentido legal do termo romano; ao mesmo tempo, a adição opera dentro do seu organismo como uma espécie de dívida metabólica. Somos corpos perpetuamente endividados e adictos das formas de consumo e distribuição de energia específicas do capitalismo colonial da reprodução heteropatriarcal (petróleo, carvão, gás, glicose, álcool, café, fármacos, tabaco etc.) e cibernética: códigos semióticos, informação, linguagem e imagens em movimento que se difundem e entram em nosso corpo através de circuitos eletroquímicos… Mais, mais, mais. Sempre demais. Nunca suficiente.

Estas definições de comunicação como contágio e de poder como adição são fundamentais para entender a mutação das tecnologias de governo no capitalismo farmacopornográfico, bem como as novas formas de dissidência e antagonismo. Depois da Segunda Guerra Mundial, assistimos à transformação das tecnologias da guerra em técnicas de gestão do corpo e da comunicação.9 A Arpanet, uma rede de computadores criada para descentralizar a comunicação em caso de ataque nuclear aos Estados Unidos, transformou-se pouco a pouco na internet: um novo mercado global e, ao mesmo tempo, uma ágora virtual de comunicação. Por outro lado, os avanços médicos, bioquímicos e genéticos proporcionados pela pesquisa realizada durante o período das duas grandes guerras voltam-se agora, pela mão da indústria, para o corpo individual e para a produção da subjetividade: modificação dos afetos, do desejo, da sexualidade, da capacidade de produzir e reproduzir. A comercialização em grande escala da pílula (este composto hormonal destinado a separar heterossexualidade e reprodução é o produto farmacológico mais produzido e consumido no mundo desde 1960), a miniaturização do computador e sua transformação em tecnologia digital conectada e portátil, a invenção da noção de gênero e de tecnologias de reprodução assistida fora do útero e a transformação da pornografia em cultura digital de massas são alguns dos indicadores desta mutação farmacopornográfica ainda em curso

VACINA REVOLUCIONÁRIA

A tarefa do escritor e do ativista é, para Burroughs, trabalhar a linguagem como inoculação, como vacina. Derrida teria dito phármakon. Estamos doentes de linguagem e só podemos sarar através de um détournement intencional das máquinas semióticas com as quais nos construímos e aprendemos a dizer “eu”. Num mundo dominado pela infecção linguística não pode haver diferença entre o poeta e o filósofo, entre o revolucionário e o experimentador conceitual; todos são, ou somos, contaminadores ou artistas diante da linguagem. A proposta de Burroughs é que nos vacinemos, que sejamos inoculados com fragmentos de linguagem: trata-se de fortalecer a subjetividade contra as formas mais nocivas da linguagem — as palavras dos políticos, dos meios de comunicação, dos militares, dos psiquiatras, dos publicitários. Tendo isso em vista, Burroughs convidava seus concidadãos a reapropriar-se criticamente das máquinas de inscrição (em sua época, gravadores e primeiras câmeras portáteis de vídeo) e a virar as máquinas semióticas do poder contra si mesmas.

REVOLUÇÃO (smartphone como telecorpo)

[A]s indústrias de telecomunicação e teleconsumo, ávidas por ampliar e globalizar sua clientela (aumentar o número de “adictos”), disseminaram câmeras novas e mais potentes, moedoras e distribuidoras de linguagens entre aqueles corpos que até então não haviam tido o direito de utilizar essas máquinas de instrução: mulheres, crianças, pessoas racializadas, imigrantes, homossexuais, pessoas com deficiência, trans, trabalhadores pobres…

A miniaturização das funções informáticas permitiu a invenção, na segunda década do novo milênio, de um novo simbionte associado a um pequeno e relativamente acessível dispositivo de consumo de massas: agregando ao telefone as funções de gravador e câmera portátil de vídeo, mas sobretudo conectado ao espaço cibernético da internet, o smartphone transformou-se na “arma de longo alcance para misturar e anular linhas associativas estabelecidas pelos meios de comunicação de massas”10 com que sonhava Burroughs. O corpo individual era um objeto anatômico do século xv. A internet, um espaço virtual característico de fins do século xx. Até então, existia entre eles um abismo ontológico. Eram duas modalidades de existência: analógica contra digital, orgânica contra inorgânica, carbono contra silício, metabolismo da glicose contra consumo de energia elétrica. O smartphone é a ponte eletrônica que permite uni-las, criando uma nova forma de existência ciborgue. O telecorpo. […] Uma insurreição transciborgue já está em curso.

O que as ativistas do coletivo artístico vns Matrix chamaram de “vírus da nova desordem mundial” não era o sars-cov-2, mas sua própria imaginação insurrecional propulsada pela rede cibernética e anunciada nos textos de Monique Wittig e Ursula K. Le Guin, na ciberficção de Pat Cadigan e Octavia E. Butler, alimentada ao mesmo tempo pelo tecno e pelo rap, pela voz e pela eletricidade. […] O cut-up de Darnella Frazier, a jovem que filmou e postou na internet o assassinato de George Floyd pela polícia de Minneapolis, ultrapassa todas as conjecturas lisérgicas de Burroughs. […] Em Hong Kong, enquanto celulares se tornavam câmeras portáteis de autovigilância por meio de aplicativos de reconhecimento facial, rastreamento e geolocalização, os próprios usuários começaram a hackear os aplicativos de reconhecimento facial para filmar os rostos dos agentes que os agrediam e expor suas identidades publicamente.[…] E então, em ondas agitadas, o mundo inteiro começou a gritar: milhares de adictos digitais, corpos disfóricos armados apenas com celulares, deixaram a escuridão brilhante da internet, saíram de suas jaulas cibernéticas urbanas e se arrastaram pelas ruas, alucinando com sua história não contada e apagada, com sonhos, com pesadelos, expulsos das academias dos futuros desempregados, andando em direção a fazendas verticais solitárias, sabendo que não terão aposentadoria, sem buscar nada daquilo que lhes foi prometido pelos mais velhos, furiosos, tremendo, pacificamente, viraram seus telefones e filmaram a polícia que os encurralava. […] Agora, as máquinas brandas, corpos adictos em agenciamento com as tecnologias farmacológicas e cibernéticas, rebelam-se e gritam. O cut-up global está em marcha.”

Imagem gerada em https://deepdreamgenerator.com/generate com o prompt “electronic heroin”.

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