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A vida de laboratório (Latour e Woolgar 1997 [1988])

A vida de laboratório (Latour e Woolgar 1997 [1988])

LATOUR, Bruno; WOOLGAR, Steve. 1997. A vida de laboratório: a produção dos fatos científicos. (Trad. Angela R. Vianna) Rio de Janeiro: Relume Dumará. [1988]

:::::::::: CAPÍTULO 1 – A ETNOGRAFIA DAS CIÊNCIAS :.

WOOLGAR:

Após dois anos de presença ininterrupta no coração deste laboratório, uni-me, na hora de redigir, a Steve Woolgar, sociólogo inglês que concluia uma tese sobre a descoberta dos pulsar (Woolgar, 1978) e que se apaixonara pela etnometodologia, assim como pelo problema da reflexividade (Woolgar, 1976a, b). Decidimos redigir em conjunto esta primeira etnografia de um laboratório. (Latour; Woolgar 1997:17)

ETNOGRAFIA DO CENTRO:

Centenas de etnólogos visitaram todas as tribos imagináveis, penetraram florestas profundas, repertoriaram os costumes mais exóticos, fotografaram e documentaram as relações familiares ou os cultos mais complexos. E, no entanto, nossa indústria, nossa técnica, nossa ciência, nossa administração permanecem bem pouco estudadas. Expulsos do campo na África, na América Latina ou na Ásia, os etnólogos só se sentem capazes de estudar, em nossas sociedades, o que é mais parecido com os campos que acabavam de deixar: as artes e tradições populares, a bruxaria, as representações simbólicas, os camponeses, os marginais de todos os tipos, os guetos. É com temor e escrúpulo que avançam em nossas cidades. Chegando ao cerne delas, estudam a sociabilidade dos habitantes, mas não analisam as coisas feitas pelos urbanistas, pelos engenheiros do metrô ou pela câmara municipal; quando penetram de salto alto em uma fábrica, estudam os operários, que ainda se parecem um pouco com os pobres exóticos e mudos que os etnólogos têm o hábito de sufocar sob seus comentários, mas não os engenheiros e os patrões. Têm um pouco mais de coragem quando se trata da medicina, reputada como uma ciência “mole”. Mesmo neste caso, contudo, eles estudam de preferência a etnomedicina ou as medicinas paralelas. Os médicos própriamente ditos, as medicinas centrais não são objeto de qualquer estudo meticuloso. Nem falemos da biologia, da física, das matemáticas. Ciência da periferia, a antropologia não sabe voltar-se para o centro. […] Ao levantar nossa bibliografia, percebemos que não havia um único livro, nem mesmo um único artigo que descrevesse a prática científica de primeira mão, independentemente do que os próprios cientistas pudessem dizer, e que fosse simétrica em suas explicações, redefinindo também as noções vagas das ciências humanas. (Latour e Woolgar 1997:17-8)

DESCONFIANÇA METODOLÓGICA:

O que sabemos da sociedade, de seu funcionamento, de sua prática? Muito pouca coisa, uma vez que os sociólogos trabalham com questionários e entrevistas, e que os mestres da observação, isto é, os etnógrafos, nunca estudam as sociedades complexas, industriais, centrais e modemas. Muito cedo percebemos que, para ultrapassar os limites da literatura que nos precedia, seria preciso não acreditar nos cientistas – o que é bem fácil-, mas também não acreditar nos sociólogos, o que é mais árduo. (Latour e Woolgar 1997:22)

SIMETRIZAÇÃO DE BLOOR (o verdadeiro e o falso):

A doutrina de Bloor é límpida mesmo quando exige praticamente o abandono de toda filosofia da ciência: ou as explicações sociais, psicológicas, econômicas são usadas apenas para explicar por que um cientista enganou-se, e então elas não têm valor, ou devem ser empregadas simetricamente, de modo a explicar por que esse cientista errou e por que aquele outro acertou. Fazer sociologia para compreender por que os franceses acreditam na astrologia, mas não para compreender por que eles acreditam na astronomia, isso e assimétrico. Fazer sociologia para entender o medo que os franceses têm do átomo, mas não fazê-la para a descoberta do átomo pelos físicos nucleares, isso é assimétrico (Latour, 1985). Ou bem é possível fazer uma antropologia do verdadeiro, assim como do falso, do científico, como do pré-científico, do central, como do periférico, do presente, como do passado, ou então é absolutamente inútil dedicar-se à antropologia, que nunca passaria de um meio perverso de desprezar os vencidos, dando a impressão de respeitá-los, como o mui ilustre O pensamento selvagem, de Lévi-Strauss (1962). (Latour e Woolgar 1997:23)

SIMETRIZAÇÃO DE LATOUR (o natural e o social):

A noção de simetria implica, para nós, algo mais do que para Bloor: cumpre não somente tratar nos mesmos termos os vencedores e os vencidos da história das ciências, mas também tratar igualmente e nos mesmos termos a natureza e a sociedade. […] O trabalho de campo que aqui apresentamos é, por conseguinte, duas vezes simétrico: aplica-se ao verdadeiro e ao falso, esforça-se por reelaborar a construção da natureza e da sociedade. (Latour e Woolgar 1997:24)

O ESPECIALISTA E O ETNÓGRAFO:

Essa ideia de que um bacharel em ciências exatas pode falar com maior intimidade sobre o mundo da pesquisa do que um observador que nele se imiscuiu durante vários anos é claramente um preconceito que derrubamos sem o menor pesar. (Latour e Woolgar 1997:27)

O PROBLEMA DA ETNOMETODOLOGIA:

A etnometodologia é o nome desse movimento de reação contra o abuso, em sociologia, da metalinguagem que recobre o que os atores sociais dizem e fazem na prática (Bernes e Law, 1976; Garfinkel, 1967; Lynch, 1982, 1985a, 1985b; Woolgar, 1983). Em lugar de imputar aos atores sociais, a cada vez, interesses, cálculos, classes, hábitos, estruturas, supondo-os marionetes da sociedade, a etnometodologia quer esvaziar a sociologia de toda a sua metalinguagem e quer tomar o ator e sua prática como o único sociólogo competente. Entre o sociólogo falastrão e o ator, é melhor confiar no ator. Entre o sociólogo que põe ordem e o ator que acrescenta desordem, é melhor confiar no ator […]. Nossa regra de higiene – não usar o discurso dos cientistas para explicar o que fazem – parece estar em contradição com a etnometodologia. Exigimos uma profunda desconfiança com relação aos nossos informantes no próprio momento em que, em outros lugares, tanto na antropologia exótica como na sociologia, o informante está plenamente reabilitado. (Latour e Woolgar 1997:28)

SIMETRIA:

A acusação de relativismo ou de autocontradição só é pesada para aqueles que acham que a verdade se enfraquece quando dela se faz uma construção ou um relato. Nós, que só buscamos os materiais dessa construção e a natureza dos relatos, consideramo-nos em igualdade de condições com aqueles que estudamos. Eles contam, nós contamos, eles experimentam, nós experimentamos, eles constroem, nós construímos. As diferenças virão depois. Estaremos, portanto, tão atentos à elaboração de nossos próprios relatos quanto aos relatos dos cientistas. (Latour e Woolgar 1997:30-1)

O TERRITÓRIO E A REDE:

A grande diferença entre a etnografia clássica e a das ciências reside no fato de que o campo da primeira confunde-se com um território, enquanto o da segunda toma a forma de uma rede. (Latour e Woolgar 1997:31)

DROSÓFILA:

O laboratório que escolhemos estudar é a drosófila da filosofia das ciências. Alguns caracteres interessantes encontram-se aí exagerados, como para favorecer os desígnios do observador. (Latour e Woolgar 1997:31)

Nosso laboratório é uma drosófila ideal para estudar o trabalho empírico, mas não se pode contar com ele para aprender muito sobre a construção e as teorias. (Latour e Woolgar 1997:33)

A QUESTÃO CENTRAL (como é feito um fato):

[U]ma única questão antropológica domina este relato: como a objetividade que não tem a sociedade por origem é produzida por essa sociedade? Para falar como Bachelard, como o feito um fato? Para falar como Serres (1987), como o objeto chega ao coletivo? Para falar como Shapin e Schaffer (1985), como a política da experiência produz uma experiência infinitamente distante de toda política. Para dizer como Bloor, como o conteúdo emerge de seu contexto? É unicamente com relação a essa questão diversamente formulada que se deve julgar os limites desta primeira pesquisa de campo. (Latour e Woolgar 1997:34)

LEITOR TATEANTE:

O leitor deve apreender o conteúdo e o contexto no mesmo movimento. Como o próprio etnógrafo, ele deve penetrar às apalpadelas na selva dos fatos, sem possuir mapa ou bússola. (Latour e Woolgar 1997:34)

:::::::::: CAPÍTULO 2: VISITA DE UM ANTROPÓLOGO AO LABORATÓRIO :.

A QUESTÃO DA METALINGUAGEM:

Se, para saber o que é a ciência na sua prática, adotássemos a versão que dela dão os cientistas, iríamos aprender muito pouco: o observador apenas iria macaquear um cientista que serve de guia a uma visita no laboratório. (Latour e Woolgar 1997:36)

O OBSERVADOR:

O observador ocupa, portanto, uma posição intermediária entre a do noviço (caso ideal inexistente) e a do membro da equipe (quanto mais ele se integra, menos consegue se comunicar produtivamente com a comunidade de seus colegas observadores). É provável que, em certos estágios de avanço de sua pesquisa, o observador experimente uma tendência irresistível com relação a um ou a outro dos extremos. Será preciso, no entanto, que ele escolha um princípio organizador capaz de lhe fomecer uma visão do laboratório suficientemente diferente daquela que os cientistas têm, mas que também possa interessar tanto aos biólogos quanto aos leigos. Esse princípio organizador deve ser o fio de Ariadne que guia o observador no labirinto em que reinam o caos e a confusão. (Latour e Woolgar 1997:36-7)

A MESA:

A mesa surge como o eixo central de nossa unidade de produção, uma vez que é sobre ela que se fabricam novos esboços de artigos, por justaposição dos dois tipos de literatura: a que vem do exterior e a produzida no laboratório. (Latour e Woolgar 1997:40)

ESCRITA e REGISTRO:

Enquanto os que trabalham nos escritórios dedicam-se a escrever novos textos, o resto do laboratório parece um enxame fervilhando de escrita. Músculos seccionados, feixes luminosos e até mesmo pedaços de papel absorvente acionam aparelhos de registro, que produzem as inscrições, pontos de partida da escrita dos pesquisadores. (Latour e Woolgar 1997:44)

INSCRITORES:

Iremos mais precisamente designar com este vocábulo [“inscritores”] todo elemento de uma montagem ou toda combinação de aparelhos capazes de transformar uma substância material em uma figura ou em um diagrama diretamente utilizáveis por um daqueles que pertencem ao espaço do “escritório”. (Latour e Woolgar 1997:44)

A noção de inscritor é sociológica por sua própria natureza. Ela permite descrever toda uma série de atividades que se desenvolvem no interior do laboratório, sem que nos tenhamos que preocupar com a grande diversidade de material. Por exemplo, um “bioteste de TRF” conta como um único inscritor, embora ocupe cinco pessoas durante três semanas e se espalhe por várias peças de um laboratório. Seu traço distintivo é produzir, ao final de um percurso, uma figura. (Latour e Woolgar 1997:45 nota 5)

A noção de inscritor tem uma conseqüência essencial: ela estabelece uma relação direta com a “substância original”. As discussões sobre a propriedade da substância têm como foco o esquema ou a curva. A atividade que separa essas duas etapas e os processos – por vezes longos e caros – que elas desencadearam ficam ocultados quando se discute o significado dos dados obtidos. (Latour e Woolgar 1997:45)

Apesar de sua diversidade (bioteste, testes in vitro e in vivo, testes diretos e indiretos, testes radioimunológicos e bio1ógicos), todas essas atividades estão fundadas no mesmo princípio (Rodgers, 1974). Um aparelho de registro (miógrafo, computador gama ou simples papel milimetrado) é ligado a um organismo (célula, músculo ou animal inteiro), que pode, desse modo, produzir um traço facilmente legível. Administra-se no organismo em questão uma substância, cujo efeito, para fins de controle, é conhecido. O efeito produzido sobre o organismo é inscrito, e seu traço serve como marca. Administra-se em seguida uma substância desconhecida, cujo efeito também é registrado. Resulta daí uma diferença entre os dois traços, diferença sobre a qual se podem emitir juízos a partir de uma percepção direta (“são as mesmas”, “uma sobe”, “há um pico”). Interpreta-se a diferença detectada, no caso de ela existir, como o sinal de uma “atividade” da substância desconhecida. (Latour e Woolgar 1997:55)

A forma pela qual os inscritores são utilizados no laboratório distingue- se por um traço essencial: uma vez que se dispõe do produto final – a inscrição -, rapidameme é esquecido o conjunto das etapas intermediárias que tornaram possível sua produção. A atenção concentra- se sobre os esquemas ou figuras, enquanto são esquecidos os procedimentos materiais que lhes deram nascimento, ou melhor, há um acordo para relegá-los ao domínio da pura técnica. Desse modo, acaba-se, em primeiro lugar, por considerar as inscrições como indicadores diretos da substância que constitui o objeto de estudo. (Latour e Woolgar 1997:60)

Na realidade, o laboratório distingue-se pela configuração particular dos aparelhos que chamamos de inscritores. O que os torna tão importantes é o fato de que nenhum dos fenômenos “aos quais eles se referem” poderia existir sem eles. […] Na verdade, os fenômenos dependem do material, eles são totalmente constituídos pelos instrumentos utilizados no laboratório. Construiu-se, com a ajuda dos inscritores, uma realidade artificial, da qual os atores falam como se fosse uma entidade objetiva. Essa realidade, que Bachelard (1953) chama de “fenômenotécnica”, toma a aparência do fenômeno no próprio processo de sua construção pelas técnicas materiais. (Latour e Woolgar 1997:61)

MITOLOGIA:

O termo “mitologia” não tem qualquer conotação pejorativa. Cumpre entendê-lo como um quadro de referência no sentido amplo, no interior do qual se podem localizar as atividades e as práticas de uma cultura particular (Barthes, 1957). (Latour e Woolgar 1997:48)

LABORATÓRIO:

O laboratório aprópria-se do gigantesco potencial produzido por dezenas de outros domínios de pesquisa, tomando emprestado um saber bem instituido e incorporando-o sob a forma de uma aparelhagem ou de uma seqüência de manipulações. (Latour e Woolgar 1997:66)

A cadeia de acontecimentos à qual toda curva deve sua existência é muito longa para que um observador, técnico ou pesquisador dela se recordem. E, no entanto, cada uma das etapas é crucial: caso seja omitida ou mal desempenhada, todo o processo é reduzido a nada. (Latour e Woolgar 1997:67)

QUESTÃO LANCINANTE:

[P]or que um milhão e meio de doólares (1975) são gastos por ano para permitir que 25 pessoas escrevam cerca de quarenta artigos? (Latour e Woolgar 1997:69)

OS DOIS OBJETIVOS DO LABORATÓRIO DE NEUROENDOCRINOLOGIA DE LATOUR:

[N]osso laboratório tem dois objetivos principais: a purificação de substâncias naturais e a fabricação de análogas de substâncias conhecidas. (Latour e Woolgar 1997:69)

Quando o observador dividiu o orçamento anual do laboratório pelo número de artigos publicados (com exceção dos artigos puramente de divulgação), pôde calcular que o custo de produção de um artigo chegava a 60 mil dólares, em 1975, e 30 mil dólares, em 1976. Mercadoria bastante cara! As despesas parecem exageradas quando os artigos não têm impacto. Ao contrário, parecem até baratas quando eles têm implicações essenciais para a pesquisa fundamental ou aplicada. (Latour e Woolgar 1997:73)

ITEM:

Usamos o termo “item” para designar os diferentes tipos de materiais publicados: artigos, resumos, conferências etc. (Latour e Woolgar 1997:73 nota 17)

A INSCRIÇÃO E O FATO:

A função da inscrição literária é conseguir persuadir os leitores, mas estes só ficam plenamente convencidos quando todas as fontes de persuasão parecem já ter desaparecido. Em outras palavras, os atores consideram que as diversas operações de escrita e de leitura que apóiam um argumento não correspondem aos “fatos”, puros produtos dessas mesmas operações. Há, portanto, uma congruência essencial entre um “fato” e o sucesso do andamento dos diversos processos de inscrição literária. Deste modo, um texto ou um enunciado podem ser lidos como “contendo” um fato, ou ”’estando submetidos” a um fato, quando os leitores têm a convicção de que não há debate a esse respeito e de que os processos de inscrição foram esquecidos. (Latour e Woolgar 1997:76-7)

ENUNCIADOS DE TIPO 5:

Os enunciados referentes a um fato tido como adquirido foram chamados enunciados de tipo 5. Nosso observador notou que, precisamente porque eram tomados como adquiridos, esses enunciados nunca surgiam nas discussões entre os membros do laboratório, exceto quando os novatos pediam que se explicasse de onde eles tinham saído. Quanto maior a ignorância do novato, mais o informante deve penetrar profundamente nas camadas do conhecimento implícito, e mais se avança em direção ao passado. Além de um determinado ponto, o novato, que irá levantar questões incessantes sobre “coisas que todo mundo sabe”, será considerado socialmente incapaz. (Latour e Woolgar 1997:77-8)

ENUNCIADOS DE TIPO 4:

Embora a relação apresentada no enunciado não esteja sob questão, ela é claramente expressa, ao contrário dos enunciados do tipo 5. Essa classe de enunciados é muitas vezes considerada como protótipo de uma afirmação científica. (Latour e Woolgar 1997:78)

ENUNCIADOS DE TIPO 3:

Eles contêm enunciados sobre outros enunciados, e a isso nosso observador qualifica como modalidades. Quando se subtraem as modalidades características dos enunciados de tipo 3, é possível obter enunciados de tipo 4, que só possuem como modalidade o nome de seu enunciador. (Latour e Woolgar 1997:79)

MODALIDADE:

No sentido lógico tradicional, “modalidade” é uma proposição que modifica ou qualifica um predicado. Em sentido mais moderno, modalidade designa todo enunciado sobre um outro enunciado (Ducrot e Todorov, 1972). (Latour e Woolgar 1997:79 nota 19)

ENUNCIADO DE TIPO 2:

Nosso observador tem a impressão de que os enunciados desse tipo [2] aproximam-se mais de afirmações do que de fatos aceitos. A impressão surge porque as modalidades que acompanham as expressões das relações de base parecem atrair a atenção para circunstâncias que afetam essa relalção de base. […] Mais precisamente, os enunciados de tipo 2 são aqueles que contêm modalidades nas quais se insiste sobre a generalidade dos dados de que se dispõe (ou não). As relações de base são em seguida embutidas em apelos ao “que é geralmente conhecido”, ou “ao que se pode razoavelmente pensar que acontece”. Nos enunciados de tipo 2 as modalidades por vezes tomam a forma de hipóteses possíveis que devem ser sistematicamente testadas por pesquisas posteriores, de modo a elucidar o valor da relalção estudada. (Latour e Woolgar 1997:80)

ENUNCIADOS DE TIPO 1:

Finalmente, os enunciados de tipo 1 contêm conjecturas ou especulações (sobre uma relação) que figuram geralmente ao final dos artigos ou em conversas privadas (Latour e Woolgar 1997:80)

ENUNCIADO DE TIPO 6:

Pode-se, além disso, acrescentar um tipo 6, que corresponde aos fatos de tal modo tornados tácitos, de tal modo incorporados na prática, que nem chegam a constituir objeto de uma formulação explicita, mesmo quando são ignorados. (Latour e Woolgar 1997:81)

GRAU DE FACTICIDADE DE UM ENUNCIADO (de 1 a 6):

Em um plano geral, parece plausível que as mudanças de tipo de enunciado correspondam às mudanças de facticidade. Mas no plano da verificação empírica, esse esquema geral esbarra em algumas dificuldades. (Latour e Woolgar 1997:81)

AUMENTANDO OU DIMINUINDO O GRAU DE FACTICIDADE DE UM ENUNCIADO:

Mas, para atingirmos nossos objetivos, basta notar que a mudança de tipo de enunciado oferece a possibilidade de modificar o grau de facticidade dos enunciados. Mesmo que, para cada instância particular, estejamos impossibilitados de especificar, sem ambigüidade, a direção da mudança de facticidade, ainda permanece aberta a possibilidade de que estas mudanças correspondam às transformações de tipo de enunciado. (Latour e Woolgar 1997:82)

FORMA-CONTEÚDO:

Embora não tenha compreendido muita coisa do conteúdo dos arrigos que lera, ele construiu uma técnica gramatical simples, que lhe permite diferenciar os tipos de enunciado. Este era um meio de se aproximar da substância dos enunciados científicos sem se ver obrigado a recorrer aos pesquisadores para pedir esclarecimentos ou ajuda. Além do mais, como as mudanças de forma gramatical dos enunciados dos cientistas oferecem a possibilidade de mudar seu conteúdo (ou seu grau de facticidade), o observador pôde descrever a atividade do laboratório como uma luta constante para criar e fazer aceitar certos tipos particulares de enunciado. (Latour e Woolgar 1997:82-3)

O OBJETIVO DO LABORATÓRIO (transformação de enunciados):

A atividade do laboratório transforma enunciados de um tipo em outro. O objetivo desse jogo é criar tantos enunciados de tipo 4 quanto for possivel, de modo a fazer face a uma variedade de pressões que tendem a mergulhar as assertivas em modalidades que irão transformá-las em artefatos. Em resumo, o objetivo é persuadir os colegas a deixar de lado todas as modalidades utilizadas com uma assertiva particular e fazê-los aceitar e retomar essa assertiva como um fato estabelecido, de preferência citando o artigo no qual ela aparece. (Latour e Woolgar 1997:83)

OBJETIVAÇÃO:

Em termos simples, os membros do laboratório aceitam melhor o fato de que uma inscrição esteja relacionada, sem ambigüidade, a uma substância que pertence ao mundo “exterior” (out there) quando conseguem encontrar uma outra inscrição similar a ela. Do mesmo modo, quando os outros reconhecem um enunciado similar, isso desempenha um papel importante na aceitação de um enunciado. A combinação de dois ou mais enunciados aparentemente similares concretiza a existência de um objeto exterior ou de uma condição objetiva da qual esses enunciados são considerados como indicadores. (Latour e Woolgar 1997:86)

Pode acontecer também que nossos pesquisadores rejeitem um pico sobre um espectro de um cromatógrafo, atribuindo-o a um ruído de fundo. Mas quando ele aparece mais de uma vez (em circunstâncias consideradas independentes), a tendência é reconhecer a presença de uma substância da qual esse pico é um indício. Quando vários enunciados e várias informações são superpostos de maneira que todos os enunciados estejam relacionados com alguma coisa que se situa fora ou além da subjetividade do leitor ou do autor, pode-se dizer que se chegou a um “objeto”. Do mesmo modo, quando se introduz – ou melhor, reintroduz – um laço entre a subjetividade do autor e a produção de um enunciado, pode-se diminuir o grau de facticidade deste mesmo enunciado. No laboratório, chegam-se a “objetos” superpondo-se vários documentos produzidos por diversos inscritores do próprio laboratório, ou artigos que emanam dos pesquisadores extemos ao laboratório (ver capítulo 4). Nenhum enunciado pode ser emitido sem referência a documentos existentes. Esses enunciados estão portanto carregados de documentos e de modalidades que constituem seu aval. Por conseguinte, as modalidades gramaticais (“talvez”, “definitivamente estabelecidos”, “improvável”, “não confirmado”) agem muitas vezes como se estivessem conferindo um preço aos enunciados, ou, para utilizar uma analogia mecânica, agem como a expressão do peso de um enunciado. Ao acrescentar ou suprimir níveis de documentos, os pesquisadores aumentam ou diminuem o alcance de um enunciado, e seu peso modifica-se proporcionalmente. (Latour e Woolgar 1997:86-7)

OBJETO e OBJETIVIDADE no LABORATÓRIO:

Utiliza-se aqui a noção de “objeto” porque ela tem uma raiz comum com a “objetividade”. O fato de que um enunciado dado seja objetivo ou subjetivo não pode ser determinado fora do contexto do laboratório. Este trabalho tem exatamente por finalidade construir um objeto sobre o qual se pode afirmar que existe além de qualquer subjetividade (ver capítulo 4). Como diz Bachelard, “a ciência não é objetiva, ela é projetiva”. (Latour e Woolgar 1997:87 nota 20)

OPERAÇÕES ENUNCIATÓRIAS:

Armado com a noção de operações entre (e sobre) enunciados na literatura, nosso observador readquire confiança em sua capacidade de compreender a organização dos artigos. (Latour e Woolgar 1997:88)

REFERENCIALIZAÇÃO E OBJETIVAÇÃO:

Dessa acumulação de referências destaca-se um efeito de objetividade: o “fato” de que “a substância sintética B iniba GH nos ratos” pode ser considerado pelo leitor como independente da subjetividade do autor, e, portanto, como fato digno de crédito. (Latour e Woolgar 1997:89)

RECEPÇÃO:

O SCI revela que, entre 1974 e 1977, o artigo foi objeto de 62 citações explicitas em 53 outros artigos. Dentre estes, 31 simplesmente só levavam em conta a conclusão (ou seja, que a substância sintética B inibe GH, assim como a substância natural atua sobre o rato) como um fato, e dela se utilizavam na introdução; oito artigos estavam apenas interessados nas operações deônticas descritas ao final do artigo original e retomavam a sugestão de que era necessário desenvolver trabalhos complementares; dois artigos do mesmo autor citavam o original como uma confirmação de seus trabalhos anteriores; e quatro artigos usavam novos dados para confirmar o enunciado original. Um único artigo formulava dúvidas sobre o teste utilizado para a elaboração de uma das figuras mencionadas no quinto enunciado (“há divergências entre seus resultados e os nossos”). O artigo que analisamos forneceu temas para toda uma série de operações presentes nos artigos posteriores. O peso que ele tem depende, ao mesmo tempo, do uso que fez da literatura precedente, dos inscritores, dos documentos, dos enunciados, assim como das reações que provocou. (Latour e Woolgar 1997:90)

O LABORATÓRIO COMO FÁBRICA DE FATOS:

Os pesquisadores de um laboratório passam seu tempo efetuando operações sobre enunciados: acréscimos de modalidades, citações, aprimoramentos, subtrações, empréstimos, proposição de novas combinações. Cada uma dessas operações pode resultar em um enunciado diferente ou mais apropriado. Por sua vez, cada enunciado toma-se um foco de atenção para o desenvolvimento de operações similares em outros laboratórios. É assim que os membros da equipe ordenam conscienciosamente o que acontece
com seus próprios enunciados: como são rejeitados, tomados de empréstimo, citados, ignorados, confirmados ou suprimidos pelos outros. Certos laboratórios desencadeiam uma intensa atividade de manipulação de enunciados que, em outros lugares, eram vistos como relativamente inertes. […] No centro desse movimento browniano, constituiu-se um fato. Este é um acontecimento relativamente raro. Mas quando ele se produz, o enunciado integra-se ao estoque das aquisições científicas, desaparecendo silenciosamente das preocupações da atividade cotidiana dos pesquisadores. O fato é incorporado aos manuais universitários, ou, por vezes, torna-se a ossatura de um novo aparelho. Diz-se freqüentemente que esses fatos são os reflexos condicionados dos “bons” cientistas, ou que são parte integrante da “lógica do raciocínio”. (Latour e Woolgar 1997:90-1)

O antropólogo sustenta obstinadamente que eles são escritores e leitores que buscam se convencer e convencer aos outros. Se, de início, esse ponto de vista parecia estéril, quando não absurdo, agora parece bem mais razoável. Trata-se, para os atores, de convencer os leitores de artigos (e dos esquemas e figuras que deles fazem parte) a aceitar seus enunciados como se fossem fatos. Foi com essa finalidade que sangraram e decapitaram ratos, esfolaram rãs, consumiram produtos químicos, gastou-se tempo. Foi por isso que se construíram carreiras, enquanto outras se desfizeram, que se fabricaram e acumularam inscritores no laboratório. Com sua teimosia imperturbável, nosso antropólogo observador resistiu à tentação de se deixar convencer pelos fatos. Isso levou-o a ver na atividade do laboratório uma organização da persuasão pela inscrição literária. (Latour e Woolgar 1997:92)

:::::::::: CAPÍTULO 3 – A CONSTRUÇÃO DE UM FATO: O CASO DO TRF(H) :.

COMO SE CONSTRÓI UM FATO:

Em resumo, por meio de que processos chega-se a eliminar o contexto social e histórico de que depende a construção de um fato? Para responder a essa questão, iremos nos restringir a um caso concreto: a construção de um fato particular. E iremos determinar onde se situam, no processo de construção de um fato, o momento e o lugar preciso da transformação pela qual o enunciado toma-se fato, liberando-se assim das circunstâncias de sua produção. (Latour e Woolgar 1997:101)

A HISTÓRIA DO A-HISTÓRICO:

Quando se pretende escrever a história de um fato, esbarra-se em uma dificuldade essencial: ele perdeu, por definição, qualquer referencial histórico. (Latour e Woolgar 1997:102)

CONSTRUÇÃO SOCIAL:

Nosso estudo da gênese do TRF tem como objetivo fomecer o pano de fundo para os capítulos seguintes, explicar a influência que o laboratório desempenha e o crédito que ele pode reclamar para si, e reforçar o ponto de vista de que os fatos brutos são perfeitamente compreensíveis em termos de sua construção social. (Latour e Woolgar 1997:103)

MÉTODO:

É essencial – para evitar um desvio de nosso objetivo sociológico e para não cair em um dos principais truques da análise histórica anteriormente citados – não partir de um conhecimento qualquer do que “realmente é o TRF(H)”. Começamos, portanto, especificando os diversos sentidos da palavra TRF(H) segundo o contexto em que é utilizada. (Latour e Woolgar 1997:104)

REDE:

Quando definimos uma rede como um conjunto de posições nas quais um objeto como o TRF adquire um significado, fica evidente que a facticidade de um objeto é relativa apenas para uma rede ou para redes particulares. É fácil avaliar a extensão de uma rede. Basta indagar quantos são os que conhecem o significado do termo TRF(ou TRH). (Latour e Woolgar 1997:104)

Deste modo, o TRF adquire um significado extremamente diferente segundo a rede particular de indivíduos para os quais ele se dirige. (Latour e Woolgar 1997:106)

Mesmo um fato bem instituído perde o sentido quando separado de seu contexto. (Latour e Woolgar 1997:107)

A situação ainda é complicada porque as redes diferem entre si no espaço e no tempo. (Latour e Woolgar 1997:107)

NOISE GATE:

O fato de utilizar em um teste uma substância bem caracterizada, em vez de uma fração impura, permite aos pesquisadores eliminar uma das inúmeras variáveis desconhecidas em ação (ver capítulo 4). O TRF tem, portanto, nesses artigos, uma função de instrumento, no sentido de que poupa uma preocupação ao pesquisador, ou, dito de outro modo, poupa-lhe uma fonte de ruído. (Latour e Woolgar 1997:106)

TRANSIÇÃO DE REDES:

Em 1970, o TRH desloca-se de uma rede a outra. Entre 1962 e 1970, 64 artigos foram publicados por um grupo de menos de 25 pessoas que tratavam exclusivamente do isolamento do TRH, e não de seus modos de ação. Depois de 1970, o TRH aparece em artigos assinados por um número bem maior de autores. A interação entre as redes é evidente pela permanência das citações de alguns artigos anteriores a 1970, depois que aconteceu a grande virada. […] A transição de uma rede a outra pode também ser vista pela mudança de autoria dos artigos cujos títulos mencionam o TRH. Antes de 1970, quase todos eram de neuroendocrinólogos que tentavam isolar a substância ou estudar seus modos de ação (ver capítulo 2). Depois disso, os autores passaram a vir de diversas áreas afins. […] Esses três fatores (número de artigos publicados, modelos das citações e especialidade dos autores) indicam que os atores dividem-se em duas comunidades: os da área e os de fora dela. (Latour e Woolgar 1997:108)

TRANSIÇÃO ENTRE REDES E CONSTRUÇÃO DO FATO:

As questões centrais abordadas neste capítulo são saber como e por que essa transição ocorreu. (Latour e Woolgar 1997:109)

BASE SOCIAL DA CIÊNCIA:

Os critérios epistemológicos de validade ou falsidade são inseparáveis da noção sociológica de tomada de decisão. (Latour e Woolgar 1997:121)

RETOMANDO O ARGUMENTO DESTE CAPÍTULO:

Após ter identificado as diferentes redes nas quais o TRF adquire sentido e de ter apresentado sua área de formulação, descrevemos a transição que deu nascimento ao campo do TRF e à subordinação da fisiologia à química, decorrente de um novo imperativo da pesquisa: “obter a estrutura a qualquer preço”. A nova estratégia aumentou ao mesmo tempo o custo do programa e ampliou as regras de trabalho de pesquisa. Os neuroendocrinólogos em seu conjunto reconheceram a validade do programa financiado por organismos de pesquisa norte-americanos. A nova estratégia provocou, contudo, a eliminação dos trabalhos das equipes concorrentes do Japão, da Tchecoslováquia e da Inglaterra. Agora iremos nos interessar pelo campo do TRF propriamente dito. (Latour e Woolgar 1997:126)

A GÊNESE DO OBJETO:

De um ponto de vista puramente etnográfico, o objeto resultava, no início, da superposição de dois picos obtidos por meio de várias tentativas. Em outros termos, ele foi construído a partir da diferença entre picos de duas curvas. Vamos explicitar isso descrevendo brevemente o processo que permitiu que se chegasse à construção de um novo objeto. (Latour e Woolgar 1997:127)

CONCRETIZAÇÃO GRADUAL DO OBJETO:

Encara- se de maneira mais séria a eventualidade da presença da nova substância anunciada quando uma mesma fração persiste provocando a mesma atividade. Em outros termos, os critérios de repetição e de similaridade são suficientes para que ocorra o anúncio. Em seguida, atribui-se a essa fração qualidades coerentes, e o nome (TRF) começa a ganhar corpo. Mesmo nessas condições, as profissionais evitam afirmar categoricamente que a substância em questão é mesmo o TRF. (Latour e Woolgar 1997:128)

CONSTRUÇÃO GRADUAL DO OBJETO:

[I]nsistimos na importância de não “reificar” o processo de afirmação da existência de uma substância. Pode-se dizer que um objeto só existe como diferença entre duas inscrições. Em outras palavras, um objeto não passa de um sinal que se distingue do ruído de fundo geral do campo e do ruído produzido pelos instrumentos. Coisa ainda mais importante: a extração de um sinal e o reconhecimento de seu caráter distintivo dependem do procedimento dificultoso e caro que é posto em operação para que se disponha de uma base estável para o bioteste. Esse empreendimento só pode ter resultados graças à mão de ferro de um pesquisador que controlava a organização das tarefas rotineiras e havia cuidado para que fossem tomadas todas as precauções necessárias ao bom desempenho da experiência no laboratório. Mais uma vez, dizer que o TRF é uma construção não significa pôr em dúvida sua solidez como fato. Indica que é preciso levar em conta o procedimento, o lugar e a motivação que contribuíram para que esse fato fosse estabelecido. (Latour e Woolgar 1997:129)

FAZER O FATO:

Opusemos aos cientistas que sustentam a idéia de que as inscrições podem ser representações ou indicadores de uma substância “exterior” (out there) o argumento de que essas substâncias só eram construídas pelo próprio uso das inscrições [MELHOR SERIA: “…essas substâncias eram construídas apenas pelo próprio uso das inscrições”; “…we have argued that such entities were constituted solely through the use of these inscriptions” (Latour e Woolgar 1986:128]. Não se trata simplesmente do fato de que as curvas indicam a presença de uma substância, mas sim de que as curvas que manifestam as substâncias apresentam diferenças perceptíveis. Por esse motivo, abstivemo-nos de usar expressões como: “A substância foi descoberta por meio de um bioteste”, ou “verificou-se que o objeto resulta da identificação de diferenças entre dois picos”. Empregar tais expressões seria veicular a falsa impressão de que certos objetos estão presentes a priori, apenas esperando que algum sábio queira revelar sua existência. Não atribuímos absolutamente aos cientistas a intenção de utilizar estratégias como o desvelamento de verdades dadas e até então dissimuladas. Na realidade, os objetos (neste caso, as substâncias) são constituídos pelo talento criativo dos homens de ciência. […] Fica extremamente difícil formular descrições de atividades científicas que não geram a falsa impressão de que a ciência trata da descoberta (mais do que da criatividade e da construção). (Latour e Woolgar 1997:131-2)

SÓCIO-LÓGICAS:

É importante ter presente que, quando se diz que uma dedução não é lógica, quando se afirma que uma possibilidade lógica foi afastada em nome de uma convicção, ou, ainda, quando se admite a possibilidade de outras deduções subseqüentes, isso é feito por meio de um recuo, e esse recuo estabelece um outro contexto, dentro do qual se pode avaliar o caráter lógico ou ilógico de uma dedução. O conjunto das possibilidades alternativas que nos permitem avaliar o caráter lógico de uma dedução é sociologicamente (e não logicamente) determinado. É por isso que fica mais elegante falar de sócio-lógicas. (Latour e Woolgar 1997:141)

O ESPECTRÔMETRO DE MASSA como CAIXA PRETA:

O espectrômetro de massa é uma caixa preta. Exatamente por isso, ele constitui a maior parte do caráter “duro” do domínio (ver capítulo 6). O protótipo imponente dos anos trinta tornou-se um aparelho compacto e comum, contendo um computador que efetua a maioria das interpretações iniciais. Foi aplicado à química orgânica durante 30 anos, e mais especificamente à química dos peptidíos a partir de 1959. A extensão de seu uso para os fatores de liberação representa apenas uma etapa relativamente pequena de sua história. Uma vez estipulada a estratégia de Guillemin, não se dispunha de qualquer outra prova final. A potência do equipamento reside no fato de que a inscrição (o espectro) é obtida por contato direto do fluxo de elétrons com a amostra de moléculas (Beynon, 1960). Embora o número de mediações seja muito grande (Bachelard, 1934), cada uma das indicações é concebida como uma caixa preta e considerada como um elemento do cenário. Por conseguinte, o resultado final é julgado não sujeito a controvérsias. (Latour e Woolgar 1997:154 nota 13)

A VIRADA:

Atingimos aqui uma virada na história do TRF. Nenhum pesquisador da disciplina diz mais que o TRF natural tem um espectro “similar a” Pyro-Glu-His-Pro-NH2, nem que o TRF era “como” um composto de síntese Pyro-Glu-His-Pro-NH2. Produziu-se uma mudança ontológica maior (ver capítulo 4). Os atores passaram a dizer, desse momento em diante, que o TRF é Pyro-Glu-His-Pro-NH2. O predicado tomou-se absoluto, todas as modalidades foram abandonadas e o nome químico tornou-se o nome de uma estrutura real. O estatuto do TRF foi imediatamente transformado: ele tornou-se fato, e passaram a se difundir expressões como: “Guillemin e Schally estabeleceram que o TRF é Pyro-Glu-His-Pro-NH2.” (Latour e Woolgar 1997:155-6)

:::::::::: CAPÍTULO 4 – MICRO-SOCIOLOGIA DOS FATOS :.

RETOMANDO:

O primeiro contato com o laboratório nos permitiu estabelecer o papel central que nele desempenha a inscrição literária. Nele, são permanentemente produzidos documentos de natureza diversa, tendo por finalidade operar uma transformação entre vários tipos de enunciados, transformação que lhes confere ou subtrai o estatuto de fato científico. No capítulo anterior examinamos historicamente a gênese de um fato particular e mostramos que o contexto do laboratório influi sobre o número de enunciados altemativos que podem ser formulados. Um enunciado só adquire estatuto de fato em virtude da defasagem entre as duas redes de circulação. (Latour e Woolgar 1997:159)

SOCIO-LÓGICA:

Propomos considerar o caráter aparentemente lógico do raciocínio apenas como uma parte de um fenômeno bem mais complexo, que Augé (1975) chama “práticas de interpretação” e que é feito de negociações locais, tácitas, de avaliações constantemente modificáveis, de gestos inconscientes ou institucionalizados. (Latour e Woolgar 1997:160)

EMPIRISMO:

Os observadores familiarizados com as noções que lhes foram fornecidas pelos epistemólogos julgam que seja fácil identificar as instâncias do discurso científico na atividade prática dos pesquisadores. E os pesquisadores parecem agir cientificamente, porque são pesquisadores. Essa é uma tautologia. Nossa posição consiste em afimar que, se existem essas diferenças, sua existência deve ser demonstrada empiricamente. É por isso que tentaremos evitar o uso de conceitos epistemológicos em nossa descrição da atividade científica. (Latour e Woolgar 1997:161)

SEMIÓTICA DA CIÊNCIA:

Os semióticos vêem a ciência como uma forma de discurso entre outras (Foucault, 1966), da qual um dos efeitos é o “efeito de verdade” que (à maneira de outros efeitos literários) emerge a partir das características textuais, como o tempo dos verbos, a estrutura do enunciado, as modalidades etc. A despeito das enormes diferenças entre os estudos anglo-saxões sobre o papel da indexicabilidade e os da semiótica européia continental, todo mundo está de acordo em negar ao discurso científico qualquer estatuto privilegiado. A ciência não se caracteriza nem por sua capacidade de escapar da indexicabilidade, nem pela ausência de dispositivos retóricos ou persuasivos. (Latour e Woolgar 1997:162-3 nota 2)

CRÍTICA À EPISTEMOLOGIA COMO SUBSTITUTA DE UMA SOCIOLOGIA DA CIÊNCIA:

Em lugar de contentar-se em fazer demandas, Bloom formula seu pedido insistindo sobre a importância da pesquisa. Dito de outro modo, as formulações epistemológicas ou em termos de avaliação da atividade científica são destinadas a resolver uma negociação social. (Latour e Woolgar 1997:167)

Instead of simply asking for them, Flower casts his request in terms of the importance of the investigation. In other words, epistemological or evaluative formulations of scientific activity are being made to do the work of social negotiation. (Latour e Woolgar 1986:157)

SOBRE A ESPECIFICIDADE SOCIOLÓGICA DA ATIVIDADE CIENTÍFICA:

For our present purposes, the most important characteristic of these kinds of exchange is that they are devoid of statements which are “objective” in the sense that they escape the influence of negotiation between participants. Moreover, there is no indication that such exchanges comprise a kind of reasoning process which is markedly different from those characteristic of exchanges in nonscientific settings. Indeed, for an observer, any presupposed difference between the quality of “scientific” and “commonsense” exchanges soon disappears. If, as this suggests, there are similarities between conversational exchanges in the laboratory and those which take place outside, it is possible that differences between scientific and common sense activity are best characterised by features other than differences in reasoning processes (see Ch. 6). (Latour e Woolgar 1986:158)

O que, a nosso ver, caracteriza essencialmente essas trocas é que elas são desprovidas de enunciados “objetivos”, no sentido de que eles escapam à influência da negociação entre os participantes. Além do mais, nada indica que esses intercâmbios ou trocas integrem um tipo de processo de raciocínio radicalmente diferente daqueles que caracterizam os intercâmbios em ambientes não científicos. Se, como fica sugerido, há similitudes entre as trocas que tomam a forma de conversas no laboratório e aquelas que se passam no exterior, é possível que as diferenças entre a atividade científica e as de senso comum sejam melhor caracterizadas por outros aspectos que não os processos de raciocínio (ver capítulo 6). (Latour e Woolgar 1997:167-8)

DISPOSITIVO MATERIAL REAL – ACTUAL MATERIAL SETTINGS

Os exemplos de conversas entre pesquisadores mostram que uma rede complexa de avaliações está presente em qualquer dedução ou decisão. No último exemplo, tratava-se de avaliar o nível de exigência da prática profissional, as imposições de tempo, a eventualidade de futuras controvérsias e a urgência relativa de interesses concomitantes de pesquisa. A abundância de avaliações impede que se concebam processos de pensamento ou procedimentos de raciocínio que se desenvolveriam separadamente do dispositivo material real em que essas conversas aconteceram. Estudemos mais precisamente a maneira como esses diferentes tipos de preocupação entram em jogo nos intercâmbios entre pesquisadores. (Latour e Woolgar 1997:170)

TIPOLOGIA (não) EXAUSTIVA DOS INTERESSES QUE ENTRAM EM JOGO NAS DISCUSSÕES ENTRE PESQUISADORES

Pode-se […] discernir, embora de maneira preliminar, quatro tipos principais de trocas em conversas, cada qual correspondendo a uma nova série de preocupações expressas pelos atores. (Latour e Woolgar 1997:170-1)

PRIMEIRO TIPO DE TROCA (exchange):

o primeiro tipo de troca faz referência aos “fatos conhecidos”. Raramente as discussões versam sobre fatos há muito estabelecidos: isso só acontece quando eles têm relação com algum ponto de atualidade. É mais freqüente a discussão de fatos conhecidos e recentemente comprovados. […] É claro que esse tipo de intercâmbio funciona como difusão da informação, permitindo que os membros da equipe apelem continuamente para os conhecimentos e as habilidades uns dos outros, de modo a aumentar seus próprios conhecimentos e seu próprio grau de habilidade. Esses intercâmbios ajudam a reencontrar as práticas, os artigos e as idéias do passado que estão ligados às preocupações do momento. (Latour e Woolgar 1997:171-2)

SEGUNDO TIPO (conversa técnica):

“Quantos ratos devo usar para o controle?”, “Onde você pôs as amostras?” “Passe a pipeta”, “Já aplicamos a injeção há dez minutos”. Trata-se de componentes verbais de um conjunto de trocas não-verbais que muitas vezes referem-se à maneira correta de fazer as coisas. Essas trocas realizam-se entre técnicos, ou entre pesquisadores e técnicos (ou entre pesquisadores atuando como técnicos). Em sua forma mais elaborada, elas tratam da avaliação da confiabilidade deste ou daquele método. (Latour e Woolgar 1997:172)

As discussões técnicas não diferem intrinsecamente das outras; elas correspondem a uma determinada etapa e a certas pressões no interior do campo de controvérsias. A transição que Guillemin opera entre as questões teóricas (“Como você explica esse organismo?”) e as questões técnicas gerais (“Que teste, você tentou?”) depende da confiança que se deposita nos colegas. (Latour e Woolgar 1997:173 nota 5)

TERCEIRO TIPO (questões teóricas)

Com isso queremos dizer que não se fazia qualquer referência ao estado anterior dos conhecimentos, à eficácia relativa das diferentes técnicas ou a artigos ou pesquisadores em particular. […] Se argumentarem que interpretamos uma discussão teórica superestimando o ambiente, e que este é uma construção artificial, podemos responder que os cientistas passam seu tempo fazendo tal tipo de interpretação quando avaliam seus programas de pesquisa. (Latour e Woolgar 1997:174-5)

QUARTO TIPO (discussões sobre outros pesquisadores)

Por vezes trata-se de evocar lembranças do que se fez no passado. Isso habitualmente acontece depois do almoço, ou à noite, quando se relaxa a tensão do trabalho. Na maior parte das vezes, as conversas têm por objetivo avaliar o crédito dos indivíduos em particular. Elas freqüentemente acontecem durante a discussão de um argumento desenvolvido em um artigo. Em lugar de avaliar o enunciado nele mesmo, os atores tendiam a falar do autor e a explicar o enunciado em termos de estratégia social dos autores ou de suas características psicológicas. […] O autor de um enunciado conta tanto quanto o próprio enunciado (ver capítulo 5). Em um certo sentido, essas discussões constituem uma sociologia e uma psicologia das ciências complexas feitas pelos próprios atores. (Latour e Woolgar 1997:175-6)

AGONÍSTICA:

Chamamos de “agonísticas” as relações de concorrência, de competição, de estimulação, talvez de brincadeira e de colaboração. Essas relações não são tão antagonísticas assim. O termo, importado da retórica, é também empregado na neuroendocrinologia. (Latour e Woolgar 1997:177 nota 7)

MICROPROCESSAMENTO:

Cada pergunta de Guillemin antecipa uma objeção de fundo com relação aos resultados do teste. A capacidade de responder ou de antecipar essas questões depende totalmente do contexto local. Em outros termos, era possível que o teste não fosse confiável, ou que os resultados fossem fruto da presença de uma outra substância. Os participantes dessa troca puseram-se, em seguida, a manipular figuras, a considerar objeções eventuais, a se perguntar sobre o valor de suas interpretações de enunciados e sobre a validade das diferentes afirmações. Durante toda a discussão, não hesitaram em consultar um artigo e a retomar os argumentos aí expostos, de modo a evitar as armadilhas que podiam ser preparadas para eles, a elas opondo objeções de fundo. A lógica deles não era a da dedução intelectual. Correspondia antes às práticas profissionais de um grupo que se debatia para dominar todas as alternativas possíveis de se prever. Ao colocar em operação esses microprocessos, eles tentavam orientar um enunciado rumo a uma direção particular. (Latour e Woolgar 1997:178-9)

O DISCURSO e o ENUNCIADO CIENTÍFICO:

Todo discurso pode ser situado no centro das linhas de interseção e é passível de mudanças bruscas por interferência de qualquer série de preocupações aqui indicada. As séries principais são os fatos já construídos (etapas 4 e 5), os principais atores que contribuíram para a sua construção, a série de assertivas no processo de fabricação (etapas 1 a 3), e, enfim, o corpo das práticas e dos inscritores que permitem efetuar as operações. Todo discurso, portanto, é a integração dessas inúmeras avaliações. É nesse sentido que podemos dizer que um enunciado científico é socialmente construído. (Latour e Woolgar 1997:180 Figura 4.1)

RETOMANDO

Propomos ao leitor a seguir-nos no percurso do estudo do laboratório e, depois disso, no exame microssociológico de um fato isolado. Na seção precedente examinamos como os traços efetuados em conversas influem na construção dos fatos. (Latour e Woolgar 1997:181)

DA IMPOSSIBILIDADE DE UMA SOCIOLOGIA DO PENSAMENTO:

O observador-sociólogo não poderia de modo algum demonstrar o caráter social do pensamento, porque ele encontra-se impossibilitado de apresentar qualquer registro escrito do processo de pensamento. (Latour e Woolgar 1997:181)

METODOLOGIA LATOURIANA E O PENSAMENTO:

Uma das principais vantagens de nossa perspectiva sociológica é que ela fundamenta-se sobre uma abundância de documentos escritos: artigos, livros de registro, artigos de jornal, cartas e mesmo transcrições das conversas. À medida que se dispõe desses documentos escritos, pode-se aplicar sobre eles os instrumentos da semiótica, da exegese e da etnometodologia. À primeira vista, contudo, os “processos de pensamento” não se prestam a esse tipo de tratamento. (Latour e Woolgar 1997:181 nota 8 )

SOCIOLOGIA DA INVENÇÃO:

É uma anedota do tipo “um dia fulano teve uma ideia”, que se encontra com freqüência – os historiadores da ciência sabem disso – nos relatos de memória dos homens de ciência. O fato de observar que esta é uma anedota tem uma conseqüência importante. Mais do que se extasiar com o caráter genial da ideia de Slovik e com a maravilhosa justeza de sua intuição, será formulada uma versão diferente dessa descoberta, utilizando-se argumentos de ordem sociológica fundamentados sobre o material constituído pelas entrevistas. (Latour e Woolgar 1997:182)

AS DUAS VERSÕES:

Por ora, observe-se que o fato de ter uma ideia (como conta a primeira versão) resume uma situação material complicada. Uma vez estabelecido o laço entre o teor de selênio e o teste, todas as circunstâncias concomitantes desaparecem. Ao transformar a segunda versão na primeira, o narrador transforma uma série de circunstâncias localizadas, heterogêneas e materiais (em que os fatores sociais são bem visíveis) na súbita emergência de uma ideia pessoal e abstrata, que não traz em si qualquer traço de construção social. (Latour e Woolgar 1997:184-5)

A DETERMINAÇÃO SOCIAL DO DISCURSO (sociologia do pensamento)

Esse exemplo tende a indicar que nenbum processo de pensamento escaparia ao estudo dos sociólogos ou dos psicólogos. Queremos com isso dizer que as ideias e os processos de pensamento individuais resultam de uma forma particular de apresentação e de simplificação de toda uma série de condições sociais materiais e coletivas. Se o observador leva esse gênero de anedotas ao pé da letra, será difícil ele mostrar o caráter social da construção de um fato. Se, ao contrário, trata-os como “contos” que obedecem a certas leis do “genero”, ele poderá a um só tempo ampliar a análise da construção de um fato e compreender a origem de certos relatos sobre as ideias e os pensamentos. (Latour e Woolgar 1997:185)

A noção de ideia compreendida como resumo de uma série de circunstâncias que estaria de acordo com a crença na existência de um eu pensante deve muito à maneira como Nietzsche trata a verdade científica. (Latour e Woolgar 1997:185 nota 20)

The notion of ideas as a summarised account which enhances belief in the existence of a thinking self, owes much to Nietzsche’s (1974a; 1974b) treatment of scientific truth. (Latour e Woolgar 1997:185 nota 9)

DIFICULDADE DE VULTO DA ETNOGRAFIA DA CIÊNCIA:

A etnografia das ciências vê-se diante de uma dificuldade de vulto: geralmente chega muito tarde ao teatro de operações e fica reduzida a recolher as anedotas em que se relata retrospectivamente como uma ideia veio à mente de um pesquisador. Essa dificuldade pode ser parcialmente superada quando se observa in situ a construção de um novo enunciado e as anedotas que surgem depois de sua formulação. (Latour e Woolgar 1997:186)

ANALOGIA na CIÊNCIA:

Percebeu-se que as conexões lógicas da forma “A e B” são apenas uma parte de uma familia de conexões analógicas da forma “A me lembra B”, e “pode ser que A seja B”. Esse tipo de liame analógico revela-se particularmente heurístico em questão científica, a despeito de sua imprecisão lógica. (Latour e Woolgar 1997:188)

FATO e PERFORMANCE:

A palavra [fato] tem duas acepções contraditórias. De um lado, podemos tomá-la, na perspectiva quase antropológica que adotamos, no sentido etimológico: fato é derivado da raiz facere, factum (fazer). De outro lado, um fato é considerado proveniente de uma entidade objetiva independente, que, por conta de sua exterioridade, “out-thereness“, não pode ser modificado à vontade e não pode ser mudado sob uma circunstância qualquer. A tensão entre um saber existente a priori e um saber criado pelos atores é um tema que há bastante tempo preocupa os filósofos (Bachelard, 1953) e os sociólogos das ciências. (Latour e Woolgar 1997:190)

PÓS-ILUMINISMO?

Não basta mostrar que algo é uma ilusão, como aconselhava Kant. É preciso também compreender por que a ilusão é necessária. (Latour e Woolgar 1997:191)

OS AGENTES SABEM QUE OS FATOS SÃO FEITOS:

Os próprios atores estão sempre conscientes de que estão engajados em um processo de construção. (Latour e Woolgar 1997:191-15)

O FATO NÃO PREEXISTE SUA CONSTRUÇÃO:

Tivemos o cuidado de mostrar que a maneira pela qual determinamos o ponto de estabilização – o momento em que o enunciado desembaraça-se de todos os determinantes de tempo e lugar e de qualquer referência àqueles que o produziram, assim como ao processo de sua produção – não depende de nossa hipótese de que [não depende de que assumamos que; “did not depend on our assumption that” (p.176)] o “verdadeiro TRF” simplesmente estava esperando ser descoberto e acabou por se tornar visível em 1969. O TRF podia revelar-se um artefato. […] O ponto de estabilização depende das condições que prevalecem em um contexto particular. A estabilização de um enunciado faz com que ele perca qualquer referência ao processo de sua construção. É desse modo que se caracteriza a construção de um fato. (Latour e Woolgar 1997:192)

FATOS e ARTEFATOS:

Os fatos e os artefatos não correspondem a enunciados respectivamente verdadeiros e falsos. Os enunciados situam-se sobre um continuum em que sua posição depende do grau em que eles apelam para as condições de sua construção. Não queremos dizer que os fatos não são reais ou que eles são puramente artificiais. Não afirmamos apenas que os fatos são socialmente construídos. Queremos mostrar também que o processo de construção põe em jogo a utilização de certos dispositivos pelos quais fica muito difícil detectar qualquer traço de sua produção. (Latour e Woolgar 1997:192-3; itálicos no original)

PROCESSO de CONCRETIZAÇÃO:

Os membros do laboratório não têm condições de operar uma distinção dos enunciados entre os verdadeiros e os falsos, os objetivos e subjetivos, os bastante verossímeis ou os somente prováveis no momento em que são formulados. Enquanto dura o processo agonístico, as modalidades são constantemente acrescentadas, suprimidas, invertidas ou modificadas. Mas uma vez que o enunciado começa a estabilizar-se, produz-se uma importante mudança. O enunciado torna-se entidade cindida. De um lado, ele é uma seqüência de palavras que enunciam algo sobre um objeto. De outro, ele mesmo é um objeto que anda com as próprias pernas. É como se o enunciado de origem tivesse projetado uma imagem virtual dele mesmo, que existiria fora dele (Latour, 1980). Antes da estabilização, os cientistas ocupavam-se de enunciados. No momento em que ela se opera, aparecem ao mesmo tempo objetos e enunciado sobre esses objetos. Um pouco depois, atribui-se cada vez mais realidade ao objeto e há cada vez menos enunciados sobre o objeto. Produz-se, conseqüentemente, uma inversão: o objeto torna-se a razão pela qual o enunciado foi formulado na origem. No começo da estabilização o objeto é a imagem virtual do enunciado; em seguida, o enunciado torna-se a imagem no espelho da realidade “exterior”. (Latour e Woolgar 1997:193)

AS PALAVRAS E AS COISAS:

Não é um grande milagre que os enunciados pareçam corresponder exatamente às entidades externas: eles são uma única e mesma coisa. (Latour e Woolgar 1997:194)

AXIOMA:

Afirmamos que o grau de correspondência entre objetos e enunciados provém da cisão e da inversão de um enunciado no interior do contexto do laboratório. (Latour e Woolgar 1997:194; itálicos no original)

CIÊNCIA e FILOSOFIA:

Os próprios cientistas passam um bom tempo perguntando-se se este ou aquele enunciado tem “verdadeiramente” relação com um objeto “exterior”, se ele não é um produto da imaginação ou um artefato, resultado dos procedimentos utilizados. É por isso que não se pode dizer que os homens de ciência ocupam-se dos temas científicos deixando aos filósofos os debates entre realismo e relativismo. (Latour e Woolgar 1997:196)

SOCIOLOGIA DESTOTALIZADORA:

Para o sociólogo, é uma tarefa importante mostrar que a construção da realidade não deve ser ela própria reificada. Isso pode ser demonstrado quando se consideram todas as etapas do processo de construção da realidade e quando se resiste à tentação de fomecer uma explicação geral do fenômeno. (Latour e Woolgar 1997:196)

An important task for the sociologist is to show that the construction of reality should not be itself reified. This can be shown by considering all stages of the process of reality construction and by resisting the temptation to provide a general explanation for the phenomenon. (Latour e Woolgar 1986:179)

ENTRE FATO e ARTEFATO:

Quando o estatuto de um enunciado tende para um fato sob o impulso de uma série de forças agonísticas, há outras forças que, ao contrário, tendem a fazer dele um artefato. Isso pode ser visto nos intercâmbios entre pesquisadores citados no início deste capítulo. O estatuto local de um enunciado a todo instante depende da resultante dessas forças (Figura 4.2). A observação direta permite seguir o processo de formação e de abandono de um dado enunciado: o que era visto como um “objeto exterior”, de repente é qualificado como “pura cadeia de palavras”, “ficção” ou “artefato” (Latour, 1978). Observar a transformação do estatuto de um enunciado de fato em artefato significa um trunfo da maior importância: quando se consegue mostrar que o “efeito de verdade” da ciência está submetido a um movimento de fluxo e refluxo, torna-se bem mais difícil sustentar que o fato distingue-se do artefato, porque estaria fundado na realidade, enquanto o segundo artefato seria o mero produto das circunstâncias locais ou de estados psicológicos. A distinção entre realidade e condições locais só existe depois que um enunciado estabilizou-se como fato. (Latour e Woolgar 1997:197-9)

PROBLEMAS GRAVÍSSIMOS DA TRADUÇÃO:

Em outras palavras, o argumento de “realidade” só [sic] pode ser usado para explicar o processo pelo qual o enunciado torna-se fato, uma vez que é somente depois que ele se tomou um fato que surge o efeito de realidade. […] Não usamos, como os cientistas, [sic] a noção de realidade para explicar a estabilização de um enunciado (ver capítulo 3), porque essa realidade é uma consequência daquela estabilização. (Latour e Woolgar 1997:199)

To summarize the argument in another way, “reality” cannot be used to explain why a statement becomes a fact, since it is only after it has become a fact that the effect of reality is obtained. […] Like scientists themselves we do not use the notion of reality to account for the stabilisation of a statement (see Ch. 3), because this reality is formed as a consequence of this stabilisation. (Latour e Woolgar 1986:180)

A REALIDADE É CONSEQUÊNCIA (e não CAUSA) da CIÊNCIA:

Que não sejamos malcompreendidos: longe de nós a ideia de que os fatos – ou a realidade – não existem. Neste ponto não somos relativistas. Apenas afirmamos que essa “exterioridade” é a conseqüência do trabalho científico, e não sua causa. (Latour e Woolgar 1997:199)

LABORATÓRIO

A observação da atividade do laboratório mostra que o caráter “objetivo” de um fato é a conseqüência do trabalho do laboratório. (Latour e Woolgar 1997:200)

É impossível provar que um dado enunciado é verificável fora do laboratório, uma vez que a própria existência desse enunciado depende do contexto do laboratório. (Latour e Woolgar 1997:201)

EMPIRISMO:

[S]implesmente queremos colocar o problema em uma posição empírica, de modo a abrir seu estudo para os sociólogos da ciência. Em uma base empírica, nem o TRF nem a somatostatina escapam às malhas sociais e materiais em que são permanentemente construídos e desconstruídos. (Latour e Woolgar 1997:201 nota 23)

REDE:

Não se trata de negar a existência da somatostatina, nem o fato de que ela e atuante, mas de dizer que ela não pode sair da rede das práticas sociais que tornam sua existência possível. (Latour e Woolgar 1997:201-2)

AS PALAVRAS E AS COISAS:

a coisa e o enunciado são correspondentes pela simples razão de que têm a mesma origem. Sua separação é apenas a etapa final do processo de sua construção. (Latour e Woolgar 1997:202)

REDES (extensão e custo):

Ninguém fica espantado de que a primeira máquina a vapor de Newcastle tenha se desenvolvido para formar uma rede de estradas de ferro que atualmente se estende pelo mundo inteiro. Do mesmo modo, ninguém considera essa extensão como a prova de que uma máquina pode circular, mesmo que não haja trilhos! Assim, é importante lembrar que a extensão de uma rede é uma operação cara e que as máquinas a vapor só circulam em trilhos sobre os quais foram concebidas para circular. Do mesmo modo, os observadores da ciência muitas vezes extasiam-se com a”verificação” de um fato no interior da rede no qual ele foi construído. Ao mesmo tempo, eles esquecem com facilidade o custo da extensão da rede. (Latour e Woolgar 1997:202 nota 24)

SÍNTESE DO CAPÍTULO:

Com essa introdução ao microprocesso de produção dos fatos quisemos mostrar três coisas: em primeiro lugar, o exame detalhado da vida de um laboratório nos fornece um meio para enfrentar problemas que habitualmente são da alçada dos epistemólogos. Em segundo lugar, a análise desses microprocessos não requer absolutamente a aceitação a priori de qualquer especificidade da atividade científica. Em terceiro lugar, finalmente, devemos abster-nos de invocar a realidade exterior ou o caráter operacional do que a ciência produz para explicar a estabilização dos fatos, porque essa realidade e essa operacionalidade são a conseqüência, e não a causa da atividade científica. (Latour e Woolgar 1997:203)

:::::::::: CAPÍTULO 5 – A CREDIBILIDADE CIENTÍFICA :.

RETOMANDO:

No capítulo 2, adotamos uma abordagem de tipo antropológico, na qual sublinhamos a importância desempenhada pela inscrição literária. No capítulo 3, a análise histórica permitiu-nos mostrar que o ambiente material tem um papel relevanta na construção de um fato. […] Pudemos analisar também, no capítulo 3, a atividade científica, sem nos situarmos de um ou do outro lado da barreira que se ergue entre fato e artefato.[…] No capítulo 4, invadimos o terreno da epistemologia para revelar os microprocessos que entram em operação quando se “têm idéias”, quando se “utilizam argumentos lógicos” e quando se obtêm “provas”. (Latour e Woolgar 1997:205)

NEUTRALIDADE AXIOLÓGICA INICIAL:

[T]entamos […] não adotar nem o ponto de vista relativista nem o realista. Evitamos nos posicionar com relação a essas distinções essenciais, porque constatamos que elas eram utilizadas de maneira variável e “acalorada” pelos atores do laboratório. Uma vez que essas distinções demonstraram ser constituídas pela própria atividade do laboratório, pareceu-nos supérfluo recorrer a elas para compreender o que acontece. (Latour e Woolgar 1997:205)

UNIDADE DE ANÁLISE:

[F]alamos muito pouco sobre os pesquisadores como indivíduos. Em particular, evitamos tomar o pesquisador como ponto de partida ou como elemento principal da análise, o que pode parecer estranho em um ensaio que declara interessar-se pela construção social dos fatos. Mas isso corresponde exatamente ao que observamos no laboratório: a impressão geral que formamos a partir das notas tomadas em campo é que, mais que um indivíduo ou um espírito, cada um de nossos interlocutores é membro de um laboratório. Por conseguinte, as sequências de trabalho, as redes técnicas de discussão – e não os indivíduos – aparecem espontaneamente como unidades mais apropriadas à nossa análise. (Latour e Woolgar 1997:206; itálico no original)

CONCEPÇÕES HETEROGÊNEAS:

Guillemin tinha uma representação da ciência simplesmente positivista e que ele retirava de Claude Bernard (1865). Outro, Burgus, tinha uma visão mística da ciência e relacionava seu trabalho a uma abordagem religiosa fundamentalista. Um terceiro, Brown, tinha uma concepção comercial de sua atividade e adotava uma epistemologia de nouveau riche. Um quarto trabalhava com um modelo econômico de investimento. (Latour e Woolgar 1997:208 nota 2)

AS QUATRO ASCEPÇÕES DE CRÉDITO NO DISCURSO DOS CIENTISTAS:

Primeiro, o crédito é uma mercadoria que se pode trocar. […] Em segundo lugar, o crédito pode ser dividido […] [.] Em terceiro lugar, ele pode ser roubado […] [.] Em quarto lugar, o crédito pode ser acumulado ou desperdiçado. (Latour e Woolgar 1997:211-2)

CRÉDITO é SECUNDÁRIO:

Pode-se evidentemente pretender que os pesquisadores são motivados pela busca de crédito, mesmo quando não falam disso ou quando rejeitam a idéia de que foram estimulados pelo prêmio do crédito-reconhecimento. Mas, para isso, seria preciso que existisse um sistema de recalque que explicasse por que o motivo real (o crédito) aparece tão raramente entre as motivações expressas. […] Se, por exemplo, nossos interlocutores dizem ter escolhido certo método porque ele produz dados confiáveis, a menção à confiabilidade deve ser considerada uma forma disfarçada de busca de crédito? Quando um deles nos conta que quer resolver o problema do funcionamento do processo de aprendizagem no plano do cerebro, deve-se ver ai uma forma obscura de dizer que ele está querendo mesmo é obter um crédito? (Latour e Woolgar 1997:214)

CIENTISTA-CAPITALISTA:

Se os investimentos no trabalho de Dietrich não se mostrassem rentáveis, ele perderia sua credibilidade. Sob este ângulo, o comportamento dos pesquisadores é marcado pela notável proximidade com o de um investidor capitalista: é preciso que ele tenha acumulado previamente um estoque de credibilidade. Quanto maior é esse estoque, maiores serão os lucros que o investidor recolherá, aumentando, assim, um capital em constante aumento. (Latour e Woolgar 1997:219)

O caráter essencial desse ciclo é o ganho de credibilidade que permite o reinvestimento – e um ganho posterior de credibilidade. Por conseguinte, não há outro objetivo último do investimento científico além do desdobramento contínuo de recursos acumulados. É nesse sentido que relacionamos a credibilidade dos pesquisadores a um ciclo de investimento de capital. (Latour e Woolgar 1997:220)

Uma das principais vantagens da noção de ciclo é que ela nos libera da necessidade de especificar a motivação psicológica última que subjaz à atividade social observada. Mais precisamente, pode-se sugerir que a formação de um ciclo sem fim é a responsável pelo extraordinário sucesso da ciência. Os comentários de Marx sobre a súbita conversão do valor de uso em valor de troca podem ser aplicados com sucesso à produção científica dos fatos. A razão pela qual se produzem tantos enunciados e que cada qual, isoladamente, não tem valor de uso, mas um valor de troca que permite a conversão e acelera a reprodução do ciclo de credibilidade. Esse ponto de vista tem também implicações sobre o que chamamos de relações entre ciência e indústria (Latour, 1983). (Latour e Woolgar 1997:224 nota 6)

Suponhamos agora que os pesquisadores sejam investidores de credibilidade. Daí resulta a criação de um mercado. A informação adquiriu valor, como já vimos anteriormente. Ela autoriza os outros pesquisadores a produzir informação que possibilite o retorno do capital investido. Da parte dos investidores, há uma demanda por informação que pode aumentar o poder de seus próprios inscritores. E há uma oferta de informação por parte dos outros investidores. As leis da oferta e da demanda criam o valor da mercadoria, que flutua constantemente segundo os montantes da oferta, da demanda, do número de pesquisadores e do equipamento dos produtores. Levando em conta a flutuação desse mercado, os pesquisadores investem sua credibilidade onde ela tem mais chances de ser remunerada. A avaliação que fazem dessas flutuações explica ao mesmo tempo a referência que os pesquisadores fazem aos “problemas interessantes”, aos “temas rentáveis”, aos “bons métodos” e aos “colegas em quem se pode ter confiança”, e explicam por que os pesquisadores gastam seu tempo mudando de área, lançando novos projetos de colaboração, confirmando e afastando hipóteses ao sabor das circunstâncias, substituindo um método por outros, tudo isso submetido à extensão do ciclo de credibilidade. […] Qual é então o equivalente da compra em nosso modelo econômico da atividade cientifica? […] De fato, nossos pesquisadores dispõem de um meio bem mais sutil do que o dinheiro para explicar o sucesso ou simplesmente para medir os retomos. O sucesso de cada investimento é avaliado em função da rapidez com a qual ele favorece a conversão de credibilidade e a progressão do pesquisador no ciclo. […] O objetivo da atividade de mercado é estender e acelerar o ciclo da credibilidade tomado como um todo. Os que não conhecem a atividade cotidiana dos cientistas poderão achar esse quadro estranho, até tomarem consciência de que raramente o objeto da “compra” é a informação. O que se “compra” é a capacidade do cientista produzir uma informação no futuro. A relação entre cientistas parece mais com as que vigoram entre as pequenas empresas do que as vigentes entre um dono de armazém e seu freguês. As empresas medem seu sucesso observando o crescimento de suas operações e a intensidade da circulação de capital. (Latour e Woolgar 1997:231-3)

O laço entre a produção científica dos fatos e a economia capitalista moderna provavelmente é bem mais profundo do que uma simples relação (Latour e Woolgar 1997:233 nota 9)

CRÉDITO-RECONHECIMENTO x CRÉDITO-CREDIBILIDADE:

Distinguir o crédito-reconhecimento do crédito-credibilidade não é um mero jogo de palavras. O crédito-reconhecimento refere-se ao sistema de reconhecimentos e de prêmios que simbolizam o reconhecimento, pelos pares, de uma obra científica passada. A credibilidade baseia-se na capacidade que os pesquisadores têm para efetivamente praticar a ciência. […] Quando se supõe que os pesquisadores investem mais na credibilidade do que na vontade de obter reconhecimento, pode-se facilmente interpretar inúmeros casos de comportamento científico, que, de outro modo, poderiam parecer estranhos, porque os pesquisadores convertem uma forma de credibilidade em outra. (Latour e Woolgar 1997:220-1)

Para um pesquisador em atividade, a questão mais vital não é: “Paguei minha dívida sob a forma de reconhecimento pelo bom artigo que escrevi?”. Mas: “Ele está confiável a ponto de se acreditar nele? Posso confiar nele/no que diz? Será capaz de me fomecer fatos brutos?” Desse modo, os pesquisadores interessam-se pelos outros, não porque são obrigados a isso por um sistema especial de normas de reconhecimento dos trabalhos alheios, mas porque cada um tem necessidade do outro para aumentar sua própria produção de informação confiável. (Latour e Woolgar 1997:227)

0 que a informação tem de útil e de crucial é que ela permite engendrar uma nova informação – a concessão de reconhecimento é somente uma preocupação secundária para o pesquisador. (Latour e Woolgar 1997:230)

CRÍTICA A HAGSTROM (potlach científico):

Com Hagstrom, temos uma explicação de um sistema de trocas em termos de normas que é ao mesmo tempo empiricamente indemonstrável e que o próprio autor considera um arcaísmo inexplicável e paradoxal. […] Por que Hagstrom deveria usar uma analogia com uma forma primitiva de troca para explicar as relações entre pesquisadores? Parece-nos, ao contrário, que o investimento constante e a transformação de credibilidade no laboratório refletem operações econômicas típicas do capitalismo modemo. (Latour e Woolgar 1997:228-9)

NÃO É RACIONALISMO ECONÔMICO:

[N]ossa finalidade certamente não é propor um modelo de comportamento no qual os indivíduos fazem cálculos para maximizar seus lucros. Isso seria recair na economia benthamiana. As questões de cálculo dos meios, de maximização e da presença do indivíduo estão de tal modo em perpétua mutação que não podemos considerá-las como pontos de partida. (Latour e Woolgar 1997:234 nota 10)

CICLO DE CREDIBILIDADE:

As diferentes expressões das motivações são os temas de configuração psicológica, climas ideológicos, pressões de grupo, da moda, de nacionalidade etc. Como o cicio de credibilidade é um círculo único através do qual uma forma de crédito pode ser convertida em outra, pouco importa que os cientistas coloquem em primeiro lugar, para justificar suas motivações, o amor pela ciência ou o financiamento. Seja qual for a seção do ciclo que tenham escolhido privilegiar ou considerar como o objetivo de seu investimento, eles terão necessariamente que passar por todas as outras seções. (Latour e Woolgar 1997:234-5)

VIRADA NO CAPÍTULO:

Na primeira parte deste capítulo discutimos os investimentos dos pesquisadores que estudamos como investimentos de credibilidade. Agora vamos tentar aplicar a noção de credibilidade à situação particular de nossos pesquisadores no laboratório. (Latour e Woolgar 1997:235)

O CURRICULUM VITAE (credibilidade-investimento):

O curriculum vitae (CV) de um pesquisador representa um balanço de todos os seus investimentos até o dia de hoje. […] Essa lista de qualificações representa o que se poderia chamar a credibilidade do pesquisador. Ela não é uma condição suficiente para fazer do indivíduo em questão um pesquisador, mas lhe permite ser admitido no jogo. Em termos de investimento, esse indivíduo tem as referências necessárias para arriscar. Essas referências representam o retorno formal de um amplo empréstimo de dinheiro feito pelos contribuintes (ou, por vezes, por fundos privados) e investido na formação do indivíduo. (Latour e Woolgar 1997:235)

Os diplomas de um pesquisador constituem um capital cultural que é o resultado de investimentos múltiplos em termos de dinheiro, de tempo, de energia e de capacidade. Os pesquisadores e os técnicos de nosso laboratório acumularam mais de 130 anos-homens de universidade e de educação superior. (Latour e Woolgar 1997:236)

É depois da leitura do curriculum vitae e das cartas de recomendação, que dão a medida do valor de um indivíduo, que se toma a decisão de lhe atribuir um cargo, de lhe conceder subvenção, de aliciá-lo ou simplesmente de colaborar com ele em um programa de pesquisas específico. O CV também pode ser comparado ao relatório financeiro anual de uma empresa. (Latour e Woolgar 1997:238)

POSIÇÃO = GRAU UNIVERSITÁRIO + ESPECIALIDADE + SITUAÇÃO GEOGRÁFICA:

[T]oda posição é constituída ao mesmo tempo por um grau universitário (como uma bolsa de pós-doutorado ou um cargo de professor), de uma posição na especialidade (a natureza dos problemas abordados e os métodos utilizados) e por uma situação geográfica (o laboratório em particular e a identidade dos colegas). Essas três facetas da posição são cruciais para compreender como desenvolve-se a carreira dos pesquisadores. (Latour e Woolgar 1997:238)

CAMPO:

A palavra campo aqui utilizada denota simultaneamente o campo científico e a idéia de um “campo agonístico”. Na segunda acepção, a palavra “campo” (usada por Bourdieu) denota o efeito de um indivíduo sobre os movimentos de todos as outros e refere-se mais a afirmações do que a uma organização. (Latour e Woolgar 1997:239 nota 11)

METÁFORAS:

Embora não forneçamos dados quantitativos de apoio, tivemos a impressão de que as metáforas mais amiúde utilizadas no laboratório são, em primeiro lugar, epistemológicas (“prova”, “argumento”, “convincente” etc.); em segundo lugar, econômicas; em terceiro, militares; e, finalmente, psicológicas (“prazer”, “esforços” e “paixões”). (Latour e Woolgar 1997:239 nota 12)

POSIÇÃO NO CAMPO:

[A] posição ocupada por um pesquisador é o resultado de sua trajetória de carreira, da situação reinante na disciplina, dos recursos que ele detém e das vantagens oferecidas pela posição em que ele investiu. (Latour e Woolgar 1997:240)

CAMPO METAESTÁVEL:

Esse campo só existe à medida que é percebido por aqueles que dele fazem parte. E mais, a natureza precisa dessa percepção depende do modo pelo qual os atores nele se situam no ponto de partida. (Latour e Woolgar 1997:240)

RECONFIGURAÇÃO POR ESTABILIZAÇÃO DE UMA ASSOCIAÇÃO:

O grupo ganhou corpo. Tinha mais peso. Os pesquisadores obtinham cada vez mais crédito, atraiam mais assistentes, criavam conceitos. O campo modificou-se em torno de novas posições. (Latour e Woolgar 1997:241)

CIÊNCIA e ESTRATÉGIA:

[E]les [os pesquisadores] são estrategistas que escolhem o momento oportuno, envolvem-se em colaborações potencialmente ricas, avaliam, aproveitam oportunidades e correm atrás de informações confiáveis. […] Os pesquisadores investem suas capacidades políticas no próprio âmago da ciência. Quanto melhores suas qualidades de políticos e de estrategistas, melhor é a ciência que produzem. (Latour e Woolgar 1997:241)

RELATIVISMO:

Não devemos contudo negligenciar a fato de que a posição, no sentido em que aqui a entendemos, define-se de maneira puramente relativa. Dito de outro modo, ela não tem sentido sem um campo ou uma coleção de estratégias. Quanto ao campo, ele é o conjunto das posições avaliadas por um ator. Além disso, uma estratégia só tem sentido no interior de um campo e em relação às posições percebidas pelos outros. Não se deve reificar a noção de posição. Uma posição não existe enquanto tal, simplesmente à espera de alguém que a venha ocupar, mesmo que o ator perceba-a desse modo. A natureza das posições a serem conquistadas está constantemente no centro das negociações. As posições só são definidas como posições vagas retrospectivamente. (Latour e Woolgar 1997:242)

GRUPO:

No que se refere à produção de fatos, pode-se dizer que um grupo é formado pela convergência de múltiplas trajetórias. Sua organização pode ser interpretada como a acumulação dos movimentos e dos investimentos de seus membros. (Latour e Woolgar 1997:244)

DIRETOR-CAPITALISTA:

Ele [o diretor do laboratório] tem capital de credibilidade suficiente para tornar desnecessário seu reinvestimento direto no trabalho das bancadas do laboratório. É um capitalista por excelência, uma vez que pode ter seu capital substancialmente aumentado, sem ter ele próprio que se engajar diretamente na pesquisa. O trabalho dele é o de um investidor em tempo integral. Em lugar de produzir dados e de levantar hipóteses, seu papel é garantir que as pesquisas irão se desenvolver em terrenos promissores, que os dados produzidos serão confiáveis, que o laboratório irá receber a maior parte possível de crédito, financiamentos e colaboradores, e que as convenções de um tipo de crédito em outro irão se dar da maneira mais sutil possível. (Latour e Woolgar 1997:254)

DINÂMICA DE GRUPO:

Para compreender a dinâmica do grupo, é preciso examinar a história de seus investimentos, a partir da reconstrução dos currículos e das entrevistas. Ocasionalmente, quando um antropólogo tem a sorte de estar presente no momento da desintegração de uma tribo e da subsequente criação de um novo tipo de organização, ele imediatamente forma uma ideia sobre as regras de comportamento que permanecem ocultas durante períodos de atividade normal. Por sorte, presenciamos, durante o período de estudo no laboratório, a negociação de um contrato de pesquisa totalmente novo e assistimos à diáspora do grupo. (Latour e Woolgar 1997:254)

CONCORRÊNCIA CAPITALISTA-CIENTÍFICA:

Comparou-se Guillemin a um capitalista, no sentido de que sua atividade de tempo integral consistia em gerenciar seu capital, e não em trabalhar diretamente na produção de dados confiáveis. Como vimos, no entanto, seus assalariados também eram investidores no mesmo mercado. Estavam, por conseguinte, em condições de fazer concorrência direta com ele. E foi exatamente o que aconteceu. (Latour e Woolgar 1997:261)

CIENTISTA-EMPRESÁRIO:

A produção de dados confiáveis, como vimos, é um meio de ativar o ciclo de credibilidade e de pôr em movimento o “comércio da ciência”, ou, como diz Foucault (1978), “a economia política da verdade”. Mais tarde, os pesquisadores podem empenbar-se para converter credibilidade em proveito próprio. Podem então afirmar que “tiveram ideias” (p. 172 e seguintes), que se trata do laboratório “deles”, que foram eles que conseguiram atrair dinheiro e equipamentos para garantir uma base para suas operações. Desse ponto de vista, não estão muito distantes dos homens de negócios. (Latour e Woolgar 1997:262)

:::::::::: CAPÍTULO 6 – A ORDEM CRIADA A PARTIR DA DESORDEM :.

RETOMANDO…

Quando examinamos a construção dos fatos em um laboratório, apresentamos a organização geral da instalaçãoo vista por um profano em ciência (capítulo 2). Mostramos como a história de alguns sucessos do laboratório podia ser utilizada para explicar a estabilização de um fato “duro” (capítulo 3). Em seguida, analisamos alguns microprocessos que intervêm na construção dos fatos, insistindo no paradoxo contido na noção de fato (capítulo 4). Interessamo-nos, em seguida, pelos indivíduos que trabalham no laboratório, tentando encontrar um sentido para suas carreiras e buscando avaliar a solidez de suas produções (capítulo 5). Em cada um desses capítulos definimos termos que se distinguem daqueles que os cientistas, os historiadores, os epistemólogos e os sociólogos das ciências empregam. Agora estamos prontos para resumir o que já tematizamos nos capítulos anteriores, tentando relacionar de maneira mais sistemática os diferentes conceitos utilizados. (Latour e Woolgar 1997:265)

No decorrer do capítulo 3, por exemplo, acompanhamos a construção coletiva de uma estrutura química e mostramos como – depois de oito anos fazendo os inscritores funcionarem sobre extratos purificados de cérebros – 0 enunciado foi suficientemente estabilizado para permitir que ele passasse para uma outra rede. 0 TRF não era tanto condicionado por forças sociais, como era construído e constituído por fenômenos microssociais. No capítulo 4, mostramos que os enunciados sofrem uma “modalização” e uma “desmodalização” constantes durante conversas travadas nas bancadas do laboratório. A discussão entre pesquisadores transforma alguns enunciados em puros produtos da imaginação de uma subjetividade individual, e outros, em fatos da natureza. (Latour e Woolgar 1997:266)

PRIMEIRO CONCEITO: CONSTRUÇÃO:

O primeiro elemento de nossa argumentação é a construção (Knorr, 1981). A construção refere-se ao processo material lento e prático pelo qual as inscrições se superpõem e as descrições são mantidas ou refutadas. Isso reforça, portanto, nossa afirmação de que as diferenças entre objeto e sujeito e entre fatos e artefatos não deveriam ser o ponto de partida do estudo da atividade científica. Ele deveria ser, antes, o acompanhamento das operações práticas que transformam um enunciado seja em fato, seja em artefato. (Latour e Woolgar 1997:266)

LABORATÓRIO COMO FÁBRICA DE FATOS:

Essa constante flutuação da facticidade dos enunciados permite-nos, grosso modo, descrever os diferentes estágios da construção dos fatos, como se um laboratório fosse uma usina onde fatos fossem objetos produzidos em uma linha de montagem. (Latour e Woolgar 1997:266)

A DESMISTIFICAÇÃO DO FATO:

A desmistificação da diferença entre fatos e artefatos era necessária para nossa discussão (no final do capítulo 4) sobre a maneira pela qual o termo “fato” pode designar ao mesmo tempo o que é e o que não é fabricado. Ao observar a construção de artefatos, mostramos que a realidade era a consequência da regulamentação de uma disputa, e não a causa. Embora evidente, esse ponto foi desdenhado por vários analistas da ciência, que tomaram como aceita a diferença entre fato e artefato, não se dando conta do processo pelo qual os cientistas do laboratório esforçam-se por fazer do fato qualquer coisa de dado. (Latour e Woolgar 1997:266-7)

SEGUNDO CONCEITO: AGONÍSTICA:

O segundo conceito essencial que constantemente usamos é o de agonística. Se os fatos são construídos por operações concebidas para se livrar de modalidades relacionadas a um enunciado particular, e – o que é mais importante – se a realidade é a consequência, e não uma causa dessa construção, isso significa que a atividade do cientista é dirigida, não para a “realidade”, mas para essas operações realizadas sobre enunciados. A resultante de todas essas operações é o campo agonístico. A noção de agonística contrasta muito com o ponto de vista segundo o qual os cientistas ocupam-se da “natureza”. Na verdade, evitamos invocar a natureza em nossa argumentação, exceto para mostrar que um dos seus elementos atuais, ou seja, a estrutura do TRF, fora criado e incorporado ao nosso conhecimento atual do corpo. A natureza é um conceito que só pode ser usado como subproduto da atividade agonística. Ela não nos ajuda a explicar a atitude dos cientistas. Uma das vantagens da noção de agonística é que ela integra ao mesmo tempo várias características do conflito social (controvérsias, relações de força e alianças) e explica os fenômenos descritos até aqui em termos epistemológicos (prova, fato e validade, por exemplo). Uma vez que se admite que as ações dos pesquisadores são orientadas para o campo agonístico, pouco se ganha com a insistência na distinção entre a “política” da ciência e sua “verdade”. As mesmas qualidades “políticas” são postas em operação – mostramos isso nos capítulos 4 e 5 – para realizar um avanço e para pôr um concorrente fora de combate. […] Um campo agonístico é, em muitos aspectos, similar a qualquer outro campo de controvérsias, como as políticas, por exemplo. […] o uso que fazemos da agonística não tem por finalidade insinuar que existe um atributo pernicioso ou desonesto que caracterizaria os pesquisadores. […] Em nossa argumentação, nem a agonística nem a construção foram usadas para minar a solidez dos fatos científicos. (Latour e Woolgar 1997:267-9)

TERCEIRO CONCEITO: MATERIALIZAÇÃO:

[N]ão se deve tomar como adquirida a diferença entre o equipamento “material” e os componentes “intelectuais” da atividade do’ laborat6rio: a mesma série de componentes intelectuais será integrada, como se pode demonstrar, como peça de um aparelho, alguns anos mais tarde. Do mesmo modo, mencionamos brevemente, no final do capítulo 5, como os investimentos do laboratório acabam par materializar-se em estudos clínicos e na indústria farmacêutica. Chamaremos esse processo de materialização ou reificação (Sartre, 1943), de modo a insistir sobre a importância de sua dimensão temporal. Uma vez que um enunciado é estabilizado no campo agonístico, ele é reificado e integra-se às habilidades tácitas ou ao equipamento material de um laboratório. (Latour e Woolgar 1997:269-70)

QUARTO CONCEITO: CRÉDITO:

O quarto conceito que abordamos foi o de credibilidade (Bourdieu, 1976). Usamos esse termo para designar os diferentes investimentos feitos pelos pesquisadores e as conversões entre diferentes aspectos do laboratório. A credibilidade facilita a síntese das noções econômicas (como o dinheiro, o orçamento e o rendimento) com as noções epistemológicas (certeza, dúvida e prova). […] Além do mais, ela permite insistir sobre o fato de que a informação é cara. […] A noção de credibilidade permite ligar uma rede de conceitos, tais como concessão de crédito, referências profissionais (em inglês, credential), o crédito dado às crenças (“credo”, “crível”) e as contas a serem prestadas (“prestar contas de seus atos”, “prestação de contas”, “crédito em conta”). Isso fornece ao observador uma visão homogênea da construção dos fatos e embaralha as divisões arbitrárias entre os fatores econômicos, epistemológicos e sociológicos. (Latour e Woolgar 1997:270-1)

QUINTO CONCEITO: CIRCUNSTÂNCIA:

O quinto conceito que usamos em nossa argumentação, mesmo que apenas de um ponto de vista programático, é o de circunstâncias. Em geral, consideram-se as circunstâncias (o que está à volta) de maneira independente da prática da ciência. Nosso argumento pode ser resumido em uma tentativa de mostrar que elas estão ligadas a essa prática. Não dizemos simplesmeme que o TRF está envolvido, é influenciado, é parcialmente dependente ou causado pelas circunstâncias. Chegamos ao ponto de afirmar que a ciência é inteiramente produto das circunstâncias. E mais: é precisamente pelas práticas específicas e localizadas que a ciência parece escapar de qualquer circunstância. (Latour e Woolgar 1997:271)

Pode-se caracterizar o empreendimento filosófico como a tentativa de eliminar qualquer traço de circunstância. Desse modo, a tarefa de Sócrates, em Apologia de Sócrates, de Platão, consiste em eliminar as circunstâncias fornecidas pelo artista, pelo homem de lei etc. Essa eliminação é o preço pago para se estabelecer a existência de uma “ideia”. Sohn Rethel (1975) mostrou que esse tipo de operação filosófica desempenhava um papel essencial no desenvolvimento da ciência e da economia. Pode-se portanto sustentar que a tarefa de reconstruir as circunstâncias é fundamentalmente entravada pela herança da maior parte de nossa tradição filosófica. (Latour e Woolgar 1997:271 nota 9)

O capítulo 2 é uma análise das circunstâncias que tornam possível a existência de objetos estáveis em neuroendocrinologia. O capítulo 3 mostra em que redes o TRF pode circular fora do laboratório no qual foi construído. No final do capítulo 4, lembramos que o mesmo acontece para a somatostatina. Mostramos também, no capítulo 4, que as conversações diárias tornam presentes circunstâncias locais ou idiossincráticas. No capítulo 5, usamos a noção de posição para explicar o caráter circunstancial das carreiras. Mais do que uma estrutura ou um esquema ordenado, uma área é formada por posições que influenciam as outras de maneira não ordenada (ver p. 227 e seguintes). A noção de posição permite-nos falar do momento “justo”, do “teste “bom”, ou, para retomar os termos de Habermas (1971), de restaurar a historicidade na ciência (Knorr, 1978). (Latour e Woolgar 1997:271-2)

SEXTO CONCEITO: RUÍDO:

O sexto e último conceito que utilizamos é o de ruído (ou, mais exatamente, a relação do sinal com o ruido), tomado de empréstimo da teoria da informação (Brillouin, 1962). […] [C]onservamos a ideia central de que a informação é medida com referência a um pano de fundo de acontecimentos equiprováveis. O conceito de ruído corresponde – pelo menos metaforicamente – às observações que os atores fizeram quando estavarn ocupados em ler os traçados escritos que saíam dos inscritores (ver capítulo 2, p. 38 e seguintes). A noção de alternativas equiprováveis permite-nos igualmente descrever a construção final do TRF no capítulo 3: o apelo à espectrometria de massa delimita o número de eventos prováveis. No capítulo 5, a noção de demanda, que nos permitiu desenvolver a idéia de um mercado de informação e que explica como funciona o ciclo de credibilidade, estava fundamentada sobre a premissa de que toda diminuição de ruído da operação de um ator eleva a capacidade que um outro ator tem de fazer com que o ruído diminua também em outro lugar. (Latour e Woolgar 1997:272)

SÍNTESE DOS SEIS ELEMENTOS E O MOMENTO DE INVERSÃO (com graves problemas de tradução):

O resultado da construção de um fato é que ele parece não ter sido construído. O resultado da persuasão retórica em um campo agonístico é que os participantes ficam convencidos de que não estão bem [de que não foram] convencidos. O resultado da materialização é que as pessoas podem jurar que as considerações materiais são apenas um componente menor do “processo de pensamento”. O resultado do investimento em credibilidade é que os participantes podem afirmar que a economia e as convicções não intervêm de modo algum na solidez da ciência. Quanto às circunstâncias, elas simplesmente desaparecem dos relatórios, reservados [reservadas] antes à análise política do que a uma apreciação do mundo duro e sólido dos fatos! Embora esse tipo de inversão não seja específico da ciência, ele é tão importante que dedicamos grande parte de nosso argumento para especificar e descrever o momento preciso em que essa inversão se produziu. (Latour e Woolgar 1997:272-3)

FE(I)TICHES:

É possível […] que se consiga fazer uma reaproximação útil entre a noção de fetichismo, de Marx, e a de fato científico. (O fato e o fetiche têm a mesma origem etimológica.) Nos dois casos, estão em jogo diversos processos complexos, e os atores esquecem que o que é “exterior” (out there) é o produto de seu próprio trabalho “alienado”. (Latour e Woolgar 1997:273 nota 10)

PSICOLOGIA = SOCIOLOGIA:

[T]entamos rninimizar as distinções entre a autopersuasão e o ato de persuadir os outros. Nas entrevistas, a passagem de uma coisa à outra era tão comum (“Eu queria estar certo, não queria que Untel chegasse e me contradissesse”) que renunciamos a fazer essa distinção artificial entre psicologia e sociologia. Nossa experiência sugere que, no recôndito de sua própria consciência, um pesquisador argumenta com o conjunto do campo agonístico e antecipa cada uma das objeções que seus colegas poderiam lhe opor. Um pesquisador nunca esta só. (Latour e Woolgar 1997:274 nota 12)

ASSIMETRIA ECONÔMICA:

Como introduzir a desigualdade em um conjunto de enunciados igualmente prováveis, fazendo com que um enunciado seja considerado mais provável do que outros? A técnica mais frequentemente empregada pelos pesquisadores é aumentar o custo, para os outros, daquilo que se espera das altemativas também prováveis. (Latour e Woolgar 1997:275)

O POSSÍVEL e o COMPOSSÍVEL:

Não se trata de dizer que toda contestação é por princípio impossível quando se trata de uma medida dada por espectrômetro de massa. Mas será tão difícil e caro modificar os fundamentos da teoria que ninguém, na prática, vai tentar fazer isso. (A exceção talvez seja o que acontece durante uma revolução científica.) A diferença entre o que é possível “em princípio” e o que pode ser feito “na prática” é o pivô de nossa argumentação. Como diz Leibniz: “Tudo é possível, mas nem tudo é compossível.” O processo pelo qual a área da compossibilidade é estendida foi explorado no capítulo 3. O espectrômetro de massa não é mais digno de confiança do que a cromatografia em camadas finas. Simplesmente ele é mais potente. (Latour e Woolgar 1997:275 nota 14)

CAIXA PRETA:

Uma vez que um grande número de argumentos anteriores foi incorporado em uma caixa preta, o custo da formulação de alternativas torna-se proibitivo. (Latour e Woolgar 1997:276)

A atividade de criar caixas pretas, de distinguir os itens, de saber das circunstâncias de sua criação é precisamente aquela à qual os cientistas dedicam a maior parte de seu tempo. A maneira como funcionam as caixas pretas na ciência reveste-se, portanto, de grande interesse para a pesquisa sociológica. Uma vez que um aparelho ou um conjunto de gestos aparece em um laboratório, toma-se muito difícil transformá-los de novo em um objeto sociológico. (Latour e Woolgar 1997:276 nota 15)

O CUSTO DE UMA OBJEÇÃO:

Tudo o que foi aceito, seja por que razão for, será reificado, de modo a aumentar o custo das objeções que poderiam ser levantadas. […] A regra do jogo é avaliar o custo dos investimentos com relação à sua capacidade de produzir efeitos de retorno. (Latour e Woolgar 1997:277-8)

REALIDADE = AQUILO QUE NÃO PODE SER CONTESTADO:

[O] conjunto dos enunciados considerados muito caros para serem modificados constitui o que entendemos por realidade. A atividade científica não trata da “natureza”, ela é uma luta renhida para construir a realidade. O laboratório é o local de trabalho e o conjunto das forças produtivas que torna essa construção possível. Cada vez que um enunciado é estabilizado, ele é reintroduzido no laboratório (sob a forma de máquina, de inscritor, de saber, de rotina, de pré-requisitos, de dedução, de programa etc.), e aí é utilizado para aumentar a diferença entre diversos enunciados. É tão caro pôr em causa o enunciado reificado que essa se torna uma tarefa impossível. A realidade é, então, secretada. (Latour e Woolgar 1997:278)

Se a realidade significa alguma coisa, ela é o que “resiste” à pressão de uma força. A discussão entre realistas e relativistas é exacerbada pela ausência de uma definição adequada da realidade. Pode ser que isso baste: o que não pode ser mudado à vontade é aquilo que conta como real (Latour, 1984, primeira parte). (Latour e Woolgar 1997:278 nota 17)

DEMÔNIO DE MAXWELL:

Urn demônio que está sobre urn fogão frio deve ser capaz de aumentar a quantidade de calor fazendo com que as moléculas mais rápidas se reúnam de um lado e mantendo-as ali. Para isso, o demônio deve possuir uma informação sobre o estado das moléculas, assim como deve possuir um truque para atraí-las ou repeli-las de acordo com suas qualidades, além de uma caixa fechada que impede as moléculas cuidadosamente selecionadas de escaparem e voltarem ao estado de movimento aleatório. Sabemos agora que o próprio demônio consome uma pequena quantidade de energia para curnprir sua tarefa. “É impossível obter qualquer coisa a partir do nada, nem mesma a informação”, diz o novo provérbio. (Latour e Woolgar 1997:279)

O que separa os cientistas do caos é uma parede de arquivos, de etiquetas, de livros de protocolos, de números e de artigos. […] [E]ssa massa de documentos fomece o único meio de criar mais ordem e, assim – tal como o demônio de Maxwell -, de aumentar a quantidade de informação em um lugar. Conservar um traço é o único meio de ver uma organização emergir da desordem. […] Os finos traços legíveis (produzidos pelos inscritores) são registrados, produzindo um foco de ordem no qual nem tudo é igualmente provável. (Latour e Woolgar 1997:281-2)

O demônio de Maxwell fornece uma metáfora da atividade do laboratório, no sentido em que ele mostra ao mesmo tempo que a ordem é criada e que essa ordem não pré-existe, de modo algum, às manipulações do demônio. A realidade científica é um foco de ordem criado a partir da desordem, e isso é feito capturando-se cada sinal que corresponde ao que já está fechado e ao que fecha, custe o que custar. (Latour e Woolgar 1997:282)

BRILLOUIN (conceito materialista de informação):

Ignorado pela maior parte dos sociólogos da ciência, Brillouin deu destacadas contribuições para uma análise materialista da produção da ciência. Ele considera toda atividade científica (aí incluídos seus aspectos ditos “intelectuais” e “cognitivos”) como operações rnateriais em todos os pontos análogas ao objeto usual da física. Como fornece uma ponte entre matéria e informação, ele preenche igualmente a fossa – tão crucial para o estudo da ciência – entre os fatores intelectuais e os materiais. (Latour e Woolgar 1997:280 nota 18)

ORDEM-DESORDEM:

A desordem não é somente o ruído no qual se diluem os enunciados emitidos pelos técnicos ineficazes. Paradoxalmente, o laboratório está também empenhado na produção da desordem. Registrando todos os acontecimentos e conservando os traços que saem de todos os inscritores, o laboratório está submergido em listas saídas dos computadores, em folhas de dados, livros de protocolos, esquemas etc. Mesmo que ele resista com sucesso à desordem exterior, o próprio laboratório gera desordem dentro de suas paredes. (Latour e Woolgar 1997:282)

A PRINCÍPIO e NA PRÁTICA:

A princípio, todo lance individual pode ser jogado não importa onde. Na prática, o preço de rejeitar uma jogada necessária é proibitivo. (Latour e Woolgar 1997:284)

ACASO e NECESSIDADE em BIOLOGIA:

O fato de que a vida seja uma configuração ordenada que emerge da desordem pelo surgimento de mutações aleatórias e o fundo no qual repousam todas as representações biológicas da vida. Para Monod, por exemplo, o acaso (desordem) e a necessidade (mecanismo de classificação) bastam para explicar a emergência de uma organização complexa. (Latour e Woolgar 1997:286)

NEGENTROPIA:

A desordem deve ser considerada a regra, e a ordem seria a exceção. O argumento tornou-se familiar desde que se passou a considerar a vida como um acontecimento negentrópico, tendência que se opõe a outra, bem mais comum, em favor da entropia. Essa imagem foi recentemente ampliada para incluir a própria ciência como caso limite de um certo tipo de organismo social, caso particular, mas não estranho, de negentropia (Monod, 1970; Jacob, 1981; Serres, 1977a e 1977b). A parte que nos interessa nessa argumentação é a afirmativa de que a construção da ordem repousa sobre a existência da desordem (Atlan, 1972; Morin, 1977). (Latour e Woolgar 1997:288)

COMUNICAÇÃO FORMAL/INFORMAL:

[A] comunicação informal é a regra. A comunicação formal é a exceção, como racionalização a posteriori que é do processo real. […] As circunstâncias da descoberta e o processo de troca informal são cruciais para o processo de produção: são o que fazem com que a ciência exista. (Latour e Woolgar 1997:289)

RETOMANDO…

No capítulo 1, recusamo-nos a aceitar a diferença entre o que emerge do social e 0 que emerge da técnica. No capítulo 2, fomos levados a afastar qualquer distinção de natureza entre fatos e artefatos. No capítulo 3, mostramos que a diferença entre fatores internos e fatores extemos era a consequência da elaboração dos fatos, e não um ponto de partida para compreender sua gênese. No capítulo 4, tomamos posição a favor da suspensão das distinções a priori entre o senso comum e o raciocínio científico. Mesmo a distinção entre “pensamento” e habilidade deve ser evitada como meio de explicação, porque ela surge como consequência do trabalho científico no laboratório. Da mesma forma, no capítulo 5, afirmamos que a maneira pela qual os pesquisadores definem-se como indivíduos resulta dos conflitos de apropriação ocorridos no contexto do laboratório. (Latour e Woolgar 1997:291)

NÃO HÁ PRIVILÉGIO EPISTEMOLÓGICO:

Há uma distinção essencial entre a natureza de nossa própria construção e aquela utilizada por nossos objetos? A resposta deve ser um não categórico. (Latour e Woolgar 1997:292)

A CONTROVÉRSIA E A FIGURA:

Aos interlocutores que argumentavam que sua afirmação não tinha sentido, mostrou a figura que produzira, o que produziu o efeito [de] acalmar o auditório, pelo menos provisoriamente. (Latour e Woolgar 1997:293)

AS CURVAS das CIÊNCIAS “DURAS” e “MOLES”:

Algumas aproximações entre a construção da curva de citações e a da curva padrão do MSH são evidentes. Na verdade, elas compartilham vários traços característicos. De início, os inscritores que eles usam têm por finalidade isolar um pequeno número de itens em meio a uma grande massa de dados. Cinco ou dez nomes dentre os muitos milhões que constituem o SCI, alguns fragmentos de pele no conjunto formado pelo organismo complexo de uma rã. Depois, os efeitos passíveis de registro são privilegiados pelo pesquisador. Os dados são isolados, de modo a produzir picos facilmente disceníveis do ruído de fundo. Finalmente, os números obtidos são usados como peças de convencimento em uma discussão. Esses pontos em comum fazem com que seja difícil sustentar a ideia de que existe uma diferença fundamental entre os métodos da ciencia “dura” e os da ciencia “mole”. (Latour e Woolgar 1997:294)

CIÊNCIA como HERMENÊUTICA:

Parece que o protótipo básico da atividade científica não deve ser procurado na área das matemáticas ou da lógica, mas, como afirmam com frequência Nietzsche e Spinoza, no trabalho de exegese. A exegese e a herrnenêutica são os instrumentos em torno dos quais a idéia de produção científica foi historicamente forjada (Derrida, 1967). (Latour e Woolgar 1997:297 nota 23)

ELES (neuroendocrinologistas) e NÓS (sociólogos):

Nossa descrição da construção de um fato em um laboratório de biologia não é nem superior nem inferior às descrições produzidas pelos próprios cientistas. Ela não é superior porque não pretende dispor de um melhor acesso à “realidade”, assim como não pretendemos escapar da própria descrição que fizemos da atividade científica: a construção dos fatos a partir das circunstâncias, sem se fazer apelo a qualquer ordem pré-existente. Em um sentido fundamental, nossa descrição não passa de uma ficção. Mas isso não a torna inferior à atividade dos membros do laboratório. Eles também ocupam-se da construção de descrições que serão lançadas no campo agonístico, conferindo-lhes diversas cargas de credibilidade, de modo que, uma vez convencidos, ou outros integram-nas – como se elas já fossem adquiridas, ou como se fossem fatos estabelecidos – em suas próprias construções da realidade. Também não há diferença entre as fontes de credibilidade nas quais eles – e nós – se baseiam para forçar as pessoas a abandonarem as modalidades dos enunciados propostos. A única diferença é que eles têm um laboratório. Quanto a nós, temos um texto, o presente texto. (Latour e Woolgar 1997:297)

O OFÍCIO DO SOCIÓLOGO selon LATOUR

Construindo uma descrição, inventando personagens (por exemplo, o observador do capítulo 2), pondo em cena conceitos, invocando fontes, relacionando argumentos do campo da sociologia, tentamos diminuir as fontes de desordem e propor enunciados mais verossímeis que outros, criando bolsões de ordem. Mas essa descrição também assumirá um papel determinante de um campo de enunciação. Quantas pesquisas futuras, gerando investimentos, quantas redefinições do campo e quantas transformações daquilo que conta como argumento aceitável são necessárias para tornar esse relato mais plausível do que as outros? (Latour e Woolgar 1997:297-8)

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