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VocabuLaSPA – Episódio [4]: Neoliberalismo – por Gabriel S. Escada
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Episódio [4]: Neoliberalismo – por Gabriel S. Escada (27/05/2026). |
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Você sabe definir o que é o neoliberalismo?
No episódio de hoje, Gabriel Sobral Escada explica para nós o conceito de neoliberalismo a partir de autores como Friedrich Hayek, Michel Foucault, Pierre Dardot e Christian Laval.
Gabriel Sobral Escada vem pesquisando o neoliberalismo há cerca de 13 anos. Ele é formado em Relações Econômicas Internacionais pela Universidade Federal de Minas Gerais, a UFMG e possui mestrado em História Econômica pelo Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Econômico do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp, onde desenvolveu sua dissertação sobre os liberalismos. Atualmente, o Gabriel é doutorando por este mesmo programa e é um dos integrantes do LaSPA.
Este podcast integra o Projeto de Jornalismo Científico “Projeto de Divulgação Científica do Laboratório de Sociologia dos Processos de Associação (LaSPA)” financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), processo n° 2025/13701-4, e conta com apoio do Departamento de Sociologia (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).
Concepção, Produção, Edição e Arte: Rodrigo Fessel Sega
Trilha Sonora: Arthur Prando do Prado
Áudios:
CBS. Bush On Economic Crisis. YouTube, 25 set. 2008. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=1SFz6AsUUrQ.
verdadhistoricachile. Preseidente Augusto Pinochet 1985: “cuando los chilenos vean lo que hace el comunismo entenderán”. YouTube, 19 set. 2014. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=N8LJEk5hNHU.
Perplessio. Stock market/office noise. Freesound, 2013. Disponível em: https://freesound.org/s/179301/.
tono2511. caja registradora.mp3. Freesound, 2023. Disponível em: https://freesound.org/s/650489/.
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Referências citadas
DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.
FOUCAULT, Michel. Nascimento da biopolítica: curso dado no Collège de France (1978-1979). São Paulo: Martins Fontes, 2008.
HAYEK, Friedrich A. von. O caminho da servidão. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010.
TRANSCRIÇÃO DO EPISÓDIO
Gabriel Sobral Escada:
E foi através desse tipo de racionalidade que se justificou a injeção de um trilhão de dólares na economia. Ou seja, que neoliberalismo é esse em que o Estado vai lá e injeta um trilhão em certas instituições escolhidas por ele pra salvar a economia? E aí a provocação nesse sentido vem pra gente pensar um pouquinho sobre o próprio neoliberalismo, porque se é a não intervenção do Estado na economia, por que então houve esse tipo de ação?
Rodrigo Fessel Sega:
Você sabe definir o que é o neoliberalismo?
Está começando agora mais um episódio do VocabuLaSPA, o podcast do LaSPA, o Laboratório de Sociologia dos Processos de Associação.
Eu sou Rodrigo Fessel Sega, sociólogo e coordenador deste podcast.
No episódio de hoje, Gabriel Sobral Escada explica para nós o conceito de neoliberalismo a partir de autores como Friedrich Hayek, Michel Foucault, Pierre Dardot e Christian Laval.
Gabriel Sobral Escada vem pesquisando o neoliberalismo há cerca de 13 anos. Ele é formado em Relações Econômicas Internacionais pela Universidade Federal de Minas Gerais, a UFMG e possui mestrado em História Econômica pelo Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Econômico do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp, onde desenvolveu sua dissertação sobre os liberalismos. Atualmente, o Gabriel é doutorando por este mesmo programa e é um dos integrantes do LaSPA.
Ouça, agora, o Gabriel.
Gabriel Sobral Escada:
Você já deve ter alguma ideia do que é o neoliberalismo, mas você conseguiria colocar em palavras uma explicação sobre esse tema?
Certamente você conhece algumas definições populares e corriqueiras sobre esse fenômeno. Que o sintetizam em torno da ideia de Estado mínimo ou de concorrência empreendedora. Essas definições não são de todo equivocadas, mas eu queria provocar o nosso ouvinte, trazendo a percepção de que essas definições são bastante imprecisas, e dependendo do contexto, podem ser até falsas.
Eu gostaria de começar falando sobre o neoliberalismo a partir de dois livros. O primeiro é A Nova Razão do Mundo, escrito pela dupla Pierre Dardot e Christian Laval. Eles chegaram a lançar outras obras depois dessa e outros escritos sobre o tema, mas ali, nesse livro, já tem alguns entendimentos importantes e que são o suficiente para darmos conta de grande parte desse tema. O outro livro que eu queria trazer aqui é O Nascimento da Biopolítica, de Michel Foucault. E, na verdade, esse é um livro que foi produzido a partir da transcrição de uma série de aulas que ele deu no Collège de France, no ano de 1979. Só que antes da gente embricar numa conversa sobre essas obras, sobre esses livros, gostaria de retomar a provocação inicial.
Vocês já ouviram, possivelmente, essa história de que o neoliberalismo é a redução do Estado, um Estado mínimo? Enfim. Pois é, mas e se eu te disser que essa definição ela mais atrapalha do que ajuda para construir o entendimento desse fenômeno social que é o neoliberalismo?
Isso porque nós temos experiências neoliberais, como aquela que é considerada a primeira de todas, no Chile, em 1973. É uma experiência ditatorial, que combina então aí a ditadura com o neoliberalismo. Então, que Estado mínimo seria esse num Estado ditatorial?
Mas aí você pode vir com outra argumentação do tipo: “ah, mas quando a gente fala de Estado mínimo, está dizendo respeito à intervenção do Estado na economia”, certo? E aí eu até entendo esse argumento, mas há não muito tempo, aqui na crise de 2007, 2008, durante a chamada “crise do subprime”, o governo dos Estados Unidos criou uma política para salvar as instituições financeiras. E esse tipo de ação do governo norte-americano estadunidense ficou popularizada sob o nome de “Too Big to Fail”, ou na tradução ao português seria “grande demais para falir” ou “para falhar”. E a ideia era de que certas instituições financeiras, se elas quebrassem, isso geraria um risco sistêmico, que poderia gerar problemas de grandes proporções para a economia e para a nossa sociedade. Lembrando que nossa sociedade está toda globalizada, então os fluxos econômicos geram riscos sistêmicos. Se a gente tem um abalo em uma economia, isso impacta diretamente todas as outras ao redor do globo. E foi através desse tipo de racionalidade que se justificou a injeção de um trilhão de dólares na economia. Ou seja, que neoliberalismo é esse em que o Estado vai lá e injeta um trilhão em certas instituições escolhidas por ele pra salvar a economia? E aí a provocação nesse sentido vem de a gente pensar um pouquinho sobre o próprio neoliberalismo, porque se é a não intervenção do Estado na economia, por que então houve esse tipo de ação?
E falo mais: não foi só algo pontual em 2007, 2008. A gente teve outro momento semelhante a esse recentemente, agora na pandemia, em que a gente viu diversos governos lançando políticas econômicas intervencionistas a fim de promover a manutenção do sistema econômico e coisas do tipo. Então, qual seria uma boa definição de neoliberalismo, se essa do estado mínimo, da não intervenção, não funciona pra tudo?
E aí, indo no livro do Dardot e Laval, A Nova Razão do Mundo, eles trazem a noção de que o neoliberalismo seria o espalhamento da noção de concorrência de mercado para todas as esferas da vida.
Rodrigo Fessel Sega:
O Gabriel está citando o livro dos pesquisadores franceses Pierre Dardot e Christian Laval que se chama A Nova Razão do Mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. Este livro foi publicado originalmente na França em 2009, em um contexto de intensificação dos debates acadêmicos e políticos sobre as transformações do capitalismo contemporâneo após as reformas neoliberais das décadas finais do século XX e início do XXI.
Dardot e Laval são intelectuais ligados ao campo da filosofia e da sociologia crítica, com atuação voltada principalmente para o estudo das formas de racionalidade política modernas, das teorias do Estado e das dinâmicas do neoliberalismo. Ao longo de suas trajetórias, ambos desenvolveram pesquisas que dialogam fortemente com a tradição da filosofia política francesa contemporânea, especialmente com Michel Foucault. É por isso que o Gabriel traz estes três autores para o diálogo.
A Nova Razão do Mundo tornou-se uma das obras mais influentes sobre o tema nas últimas décadas por propor uma leitura do neoliberalismo como racionalidade política, e não apenas como política econômica. O livro teve ampla circulação no meio acadêmico e foi traduzido para diversos idiomas, consolidando-se como referência central em debates sobre Estado, mercado e subjetividade no capitalismo contemporâneo.
Vamos continuar ouvindo o Gabriel falar sobre esses dois autores.
Gabriel Sobral Escada:
E aí, para a gente entender um pouquinho isso, queria destrinchar em algumas partes.
Segundo esses dois, em um certo momento histórico, o que passou aconteceu foi o seguinte: a sociedade compreendeu que deveria se regular ou se organizar em torno de uma noção de concorrência. Isso, de alguma forma, foi algo que veio do darwinismo e daquela ideia de seleção natural ou de seleção do mais apto, se a gente for falar de forma mais precisa. E aí perceba que nessa proposição de seleção do mais apto está embutido, na verdade, uma noção de eficiência, e mais para frente a gente vai falar um pouquinho também uma noção de justiça. Ou seja, se o mais apto ali seria automaticamente aquele que venceu a concorrência, os processos mais eficientes então seriam selecionados logicamente por essa dinâmica, não precisando então de intervenção.
Mas percebendo essa questão, a gente pode ir para o livro do Foucault, O Nascimento da Biopolítica, que é onde a gente vai entender um pouquinho melhor como isso se transforma numa noção de justiça. Então ele (Michel Foucault) vai delimitar o neoliberalismo como sendo uma governamentalidade. E por governamentalidade a gente pode entender aqui que são as práticas de poder na condução de condutas.
Bom, vamos com calma aqui, ou destrinchar um pouquinho melhor essa ideia, que seria a forma então como o poder incide nas relações e conduz as pessoas, produzindo uma certa organização social singular. E então, a chave de leitura disso aqui, e é a mais interessante, talvez seja a de que o neoliberalismo, como uma governamentalidade, ele é um fenômeno distinto, e uma noção de justiça que se constitui no seio da sociedade contemporânea.
Então, as noções de condução de conduta dos outros, de governança ou de governamento das populações, passa a estar fundamentada na noção de concorrência de mercado, que é voltado não para uma noção de distribuição e igualdade no jogo, mas talvez para uma noção de que o resultado é justo, dado que o que a gente está procurando selecionar é aquele que é mais apto.
Inclusive, a gente observa isso na obra do Hayek (que é um dos grandes autores neoliberais, um austríaco que foi ganhador do prêmio Nobel em 1974) quando ele defende a ideia de que a sociedade não precisa ser meritocrática, não precisa se fundamentar no mérito, mas de que o mérito estaria, na verdade, associado a essa seleção natural, àquele processo que foi mais eficiente. E aí ele dá prioridade para uma sociedade que não necessariamente é igualitária.
E assim, para finalizar então a conversa, eu queria dizer que a gente pode entender o neoliberalismo como tendo uma questão forte, centrada não necessariamente na liberdade, mas sim na competição.
E é também muito importante compreender que o fenômeno do neoliberalismo tem um caráter multifacetado, ou seja, ele aparece sob diversas faces ao longo da história e no espaço também, em diversas sociedades que constituem localidades geográficas distintas.
É um fenômeno que é muito difundido e difuso, e ele tem um caráter de descontinuidade, tanto quando a gente observa o debate acadêmico, quanto as práticas políticas contemporâneas na história.
Rodrigo Fessel Sega:
Esperamos que você tenha gostado da nossa discussão.
Este episódio foi produzido e editado por mim, Rodrigo Fessel Sega. A trilha sonora é uma produção autoral de Arthur Prando do Prado. O áudio utilizado neste episódio está na descrição.
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Este podcast integra o projeto de jornalismo científico financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, a FAPESP, e conta com o apoio do Departamento de Sociologia da Universidade Estadual de Campinas, a UNICAMP.
Até o próximo VocabuLaSPA.






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