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VocabuLaSPA – Episódio [3]: Não humanos em Latour – por Pedro P. Ferreira

VocabuLaSPA – Episódio [3]: Não humanos em Latour – por Pedro P. Ferreira

Episódio [3]: Não humanos em Latour – por Pedro P. Ferreira (13/05/2026).


Para você, uma cadeira pode estar repleta de humanidade? Qual a diferença entre o humano e o não humano? Talvez essa diferença seja uma daquelas definições que parecem evidentes até que precisemos explicar.

Neste episódio, o Professor Pedro P. Ferreira explica para nós qual é a diferença entre humanos e não humanos a partir da visão do cientista social francês Bruno Latour.

Pedro P. Ferreira é professor livre-docente do Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas, a UNICAMP. Sua obra se destaca por explorar as relações entre tecnologia, cultura e sociedade, abordando desde a música eletrônica até práticas científicas e tecnológicas contemporâneas.

Este podcast integra o Projeto de Jornalismo Científico “Projeto de Divulgação Científica do Laboratório de Sociologia dos Processos de Associação (LaSPA)” financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), processo n° 2025/13701-4, e conta com apoio do Departamento de Sociologia (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

Concepção, Produção, Edição e Arte: Rodrigo Fessel Sega
Trilha Sonora: Arthur Prando do Prado
Áudios:
SUONIDIBOLOGNA. 189636. Áudio. Disponível em: https://freesound.org/people/suonidibologna/sounds/189636/.
INFINITA08. 546447. Áudio. Disponível em: https://freesound.org/people/Infinita08/sounds/546447/
ESCORTMARIUS. 140438. Áudio. Áudio. Disponível em: https://freesound.org/people/escortmarius/sounds/140438/

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Referências
LATOUR, Bruno. 1994. Redistribuição. In: Jamais fomos modernos: ensaio de antropologia simétrica. (trad. Carlos Irineu da Costa) Rio de Janeiro: Ed.34, p. 129-43.

LATOUR, Bruno. 1994. Pragmatogonies: a mythical account of how humans and nonhumans swap properties. American Behavioral Scientist 37(6):791-808.

LATOUR, Bruno. 1999. A collective of humans and nonhumans. In: Pandora’s hope: essays on the reality of science studies. Cambridge: Harvard University Press, p.174-215

TRANSCRIÇÃO DO EPISÓDIO
Pedro P. Ferreira:
A diferença entre humanos e não humanos é uma daquelas coisas que parecem evidentes até que precisemos explicar. A princípio, parece óbvio: eu sou um ser humano, mas a cadeira na qual eu estou sentado não. Mas se começarmos a pensar mais, veremos que eu estou repleto de objetos que não poderiam ser considerados humanos pelos mesmos critérios que eu: minhas roupas, meus óculos, meus documentos etc. E por outro lado, a cadeira na qual estou sentado está repleta de humanidade, pois se encaixa perfeitamente às dimensões de um corpo humano, e é feita de materiais sobre os quais um ser humano pode se sentar. Mas então qual é a diferença entre humanos e não humanos?

Rodrigo Fessel Sega:
E pra você que está me ouvindo, qual a diferença entre humano e não humano? Como é que você definiria essa diferença? Está começando agora mais um episódio do VocabuLaSPA, o podcast do LaSPA, o Laboratório de Sociologia dos Processos de Associação.

Eu sou Rodrigo Fessel Sega, sociólogo e coordenador deste podcast. Neste episódio, o professor Pedro P. Ferreira explica para nós qual é a diferença entre humanos e não humanos a partir da visão do cientista social francês Bruno Latour.

Pedro P. Ferreira é professor livre-docente do Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas, a UNICAMP. Ele é coordenador do LaSPA, e também do Grupo de Estudos Gilbert Simondon, o GREGS. Ouça, agora, o professor Pedro.

Pedro P. Ferreira:
A diferença entre humanos e não humanos é uma daquelas coisas que parecem evidentes até que precisemos explicar. A princípio, parece óbvio: eu sou um ser humano, mas a cadeira na qual eu estou sentado não. Mas se começarmos a pensar mais, veremos que eu estou repleto de objetos que não poderiam ser considerados humanos pelos mesmos critérios que eu: minhas roupas, meus óculos, meus documentos etc. E por outro lado, a cadeira na qual estou sentado está repleta de humanidade, pois se encaixa perfeitamente às dimensões de um corpo humano, e é feita de materiais sobre os quais um ser humano pode se sentar – a cadeira é, poderíamos dizer, antropomórfica. E se levarmos isso adiante, podemos também concluir que meus cabelos, ou minhas mãos, não são seres humanos, são apenas partes dependentes de um organismo humano, que pode sobreviver sem elas. Minha vida não seria a mesma, é claro sem meus cabelos, ou sem minhas mãos, mas eu não acho que deixaria de ser humano.
E a cadeira, por outro lado, nem sequer existiria sem seres humanos, pois foi feita completamente por seres humanos e para seres humanos, por isso foi feita com esses materiais, e por isso tem esse tamanho. Mas então qual é a diferença entre humanos e não humanos?

Bruno Latour foi um cientista social francês que dedicou alguma reflexão a este assunto, pois os não humanos assumiram um papel importante em suas investigações sobre práticas científicas e tecnológicas. Afinal, máquinas e objetos científicos são geralmente considerados não humanos. E muitas vezes é possível aproveitar o trabalho de Latour para falar das relações entre humanos e não humanos como se soubéssemos quem é quem. Nesse sentido, podemos falar da “agência da cadeira” como uma agência não humana, e da “minha agência” como uma agência humana. Mas essa não me parece ser a maneira mais interessante de aproveitar o trabalho de Latour nesse campo, afinal, já vimos que essas distinções não sobrevivem ao escrutínio.

Minha sugestão é que, em primeiro lugar, assumamos que apesar de não ser possível distinguir, em absoluto, humanos de não humanos, essa distinção é feita o tempo todo, por todos nós, em nossas vidas cotidianas. Eu, por exemplo, só me sento inconsequentemente em minha cadeira, sem nem mesmo pedir licença, pois não a considero um ser humano. E é por reconhecer a humanidade nas pessoas que, por exemplo. eu não sento nelas, pelo menos não sem antes obter o consentimento. Em outras palavras, eu normalmente não digo “bom dia” para minha cadeira (apesar de isso não ser impossível), mas busco dizê-lo para as pessoas com quem me comunico pela manhã (apesar de nem sempre fazê-lo).

Essa capacidade de distinguir humanos e não humanos é cultural, e a usamos sem pensar muito no assunto, como se fosse óbvio. Aceitar essa obviedade é assumir um ponto de vista cultural, humano. Assim, se o objetivo de um cientista social é produzir conhecimento sobre a sociedade, assumir um ponto de vista pode ser o primeiro passo nesse sentido de descobrir o que torna uma agência humana ou não-humana, para um certo grupo, ou tipo de pessoa. Em outras palavras, apesar de não ser possível distinguir absolutamente humanos de não humanos, essa distinção é possível, e até sociologicamente necessária, em situações concretas. E, portanto, essas distinções são feitas cotidianamente, e são acessíveis a cientistas sociais como Latour.

Pois bem, então descobrimos três coisas até agora: (1) que não é possível distinguir em absoluto humanos de não humanos; (2) que mesmo assim, essa distinção é feita o tempo todo por nós mesmos em nossas vidas cotidianas; e (3) que é o fato de essa distinção ser feita o tempo todo que a torna acessível à análise sociológica. Mas porque a análise dessa distinção foi tão importante para Latour em suas investigações sobre práticas científicas e tecnológicas?

Num sentido mais simples, podemos responder essa pergunta repetindo o que já dissemos antes: é que máquinas (como microscópios) e objetos científicos (como os microrganismos que vemos pelo microscópio) são geralmente considerados não humanos. Assim, podemos falar dessas agências como “não humanas”, e isso pode sem dúvida gerar pesquisas interessantes. Mas já vimos que essas distinções não sobrevivem ao escrutínio, e que microscópios e microrganismos podem ser tão antropomórficos quanto qualquer ser humano, assim como minha cadeira. Então existiria alguma outra maneira, mais interessante, de aproveitar essa distinção entre humanos e não humanos? Acredito que sim, e envolve 3 passos.

O primeiro passo seria duvidar do que já sabemos sobre a humanidade. Ou seja, suspender nossas certezas sobre o que é humano, e transformá-las em perguntas: o que é, afinal humano? O segundo passo, seria buscar a resposta para essa pergunta justamente nas distinções feitas pelas pessoas entre humanos e não humanos. Ou seja, buscar definições de humanidade a partir daquilo que ela exclui de si mesma para se constituir. E o terceiro passo seria desistir da ideia de que seja possível definir o humano em absoluto, para além de suas sempre dadas definições situadas e parciais. Esse terceiro passo talvez seja o mais difícil para muitas pessoas, pois implica em abrir mão do sonho da certeza, e acordar para a certeza do sonho, i.e., para o fato de que todo fato é feito, tanto aqueles que investigamos, quanto aqueles que construímos a partir de nossas investigações. E que esse limite ao conhecimento é parte constitutiva dele, e o motivo pelo qual a ciência vai sempre avançar rumo a novas descobertas.

Isso pode estar meio confuso, então vamos pegar um caso concreto. A substituição do trabalho humano por máquinas sempre foi um assunto controverso, desde o ludismo do início do século XIX até as inteligências artificiais de hoje em dia. Mas a própria ideia de que essa substituição seja possível prova o ponto que estou aqui tentando argumentar. Desde a primeira pedra lascada até os computadores atuais, toda ação desempenhada por um objeto técnico já foi, em algum momento, desempenhada por seres humanos. E é deixando de desempenhar essas ações, delegando-as a máquinas e a outros objetos técnicos, que transformamos nossa própria humanidade. Não estou dizendo que essas transformações são necessariamente para melhor, apenas que é nesse processo de delegação de ações humanas a não humanos que a humanidade se transforma, e, portanto, se redefine constantemente.

Rodrigo Fessel Sega:
Para quem não se lembra, ou não conhece, o ludismo, que o Pedro citou, foi um movimento organizado por trabalhadores da Inglaterra que ocorreu durante a Revolução Industrial, entre mais ou menos 1811 e 1816. Esses trabalhadores começaram a quebrar as máquinas das fábricas porque percebiam que elas estavam substituindo seus empregos e piorando muito as condições de trabalho. Então dá pra perceber que apesar da gente estar falando do ludismo, que aconteceu lá no começo de 1800, esse debate é ainda bastante atual. Um exemplo recente disso foi a Uber. O aplicativo de corridas chegou no brasil em 2014 e começou a se popularizar em meados de 2015. Entretanto, naquela época, aumentaram também os protestos dos taxistas contra o aplicativo e o número de casos de taxistas atacando e depredando os carros dos motoristas que usavam o aplicativo da uber. Então pensar a partir desses casos concretos nos ajuda a entender essa última frase do Pedro

Pedro P. Ferreira:
Não estou dizendo que essas transformações são necessariamente para melhor, apenas que é nesse processo de delegação de ações humanas a não humanas que a humanidade se transforma, e, portanto, se redefine constantemente.

Rodrigo Fessel Sega:
Esse é um ponto muito importante da nossa conversa.

Pedro P. Ferreira:
A pergunta que um sociólogo latouriano deve se fazer, portanto, é: quais ações humanas estão, em cada contexto histórico, sendo delegadas para não humanos, e o que isso nos ensina sobre o que é ser humano nesse contexto? Hoje em dia, por exemplo, vivemos 24 horas, 7 dias por semana, conectados na Internet e praticamente todos os aspectos de nossa vida estão sendo digitalizados. Temos o mundo na palma de nossa mão, e ao mesmo tempo estamos na palma da mão de muitas pessoas, além de algumas poucas empresas. Isso significa que uma parte cada vez maior de nossas vidas está sendo vivida na forma de padrões eletromagnéticos, i.e., na forma de volts, hertz, watts, ohms, farads e amperes. Isso significa que estamos nos tornando menos humanos? Claro que não, isso seria pressupor que sabemos o que é o humano, e já vimos que, se quisermos tirar algum proveito da ideia de não humano, não devemos fazer isso. O melhor seria assumir que somos tão humanos quanto sempre fomos, apenas sempre diferentes. E é a descoberta dessa diferença que a ideia latouriana de não humanos torna possível.

Rodrigo Fessel Sega:
Esperamos que você tenha gostado dessa nossa discussão. Este episódio foi produzido e editado por mim, Rodrigo Fessel Sega. A trilha sonora é uma produção autoral de Arthur Prando do Prado. Os áudios utilizados neste episódio estão na descrição e disponíveis para uso livre em FreeSound.org. Você pode acompanhar o LaSPA no Instagram, @laspa.unicamp, e no site laspa.slg.br.

Este podcast integra o projeto de jornalismo científico financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, a FAPESP, e conta com o apoio do Departamento de Sociologia da Universidade Estadual de Campinas, a UNICAMP.

Até o próximo VocabuLaSPA.