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Humanos e não-humanos em Latour (1994 [1991])

Humanos e não-humanos em Latour (1994 [1991])

LATOUR, Bruno. 1994. Jamais fomos modernos: ensaio de antropologia simétrica. (trad. Carlos Irineu da Costa) Rio de Janeiro: Ed.34. [1991]

O PROBLEMA DO HUMANISMO MODERNO

A modernidade é muitas vezes definida através do humanismo, seja para saudar o nascimento do homem, seja para anunciar sua morte. Mas o próprio hábito é moderno, uma vez que este continua sendo assimétrico. Esquece o nascimento conjunto da “não-humanidade” das coisas, dos objetos ou das bestas, e o nascimento, tão estranho quanto o primeiro, de um Deus suprimido, fora do jogo. A modernidade decorre da criação conjunta dos três, e depois da recuperação deste nascimento conjunto e do tratamento separado das três comunidades enquanto que, embaixo, os híbridos continuavam a multiplicar-se como uma consequência direta deste tratamento em separado. É esta dupla separação que precisamos reconstituir, entre o que está acima e o que está abaixo, de um lado, entre os humanos e os não-humanos, de outro. (Latour 1994:19)

A NOVIDADE DOS TESTEMUNHOS NÃO-HUMANOS

Até então [até Boyle], os testemunhos haviam sempre sido humanos ou divinos – nunca não-humanos. Os textos haviam sido escritos por homens ou inspirados por Deus – jamais inspirados ou escritos por não-humanos. As cortes de justiça viram passar inúmeros processos humanos e divinos – nunca causas que colocassem em jogo os comportamentos de não-humanos em um laboratório transformado em tribunal de justiça. […] Eis que intervém, na escrita de Boyle, um novo ator reconhecido pela nova Constituição: corpos inertes, incapazes de vontade e de preconceito, [mas] capazes de mostrar, de assinar, de escrever e de rabiscar sobre os instrumentos de laboratório testemunhos dignos de fé. Estes não-humanos, privados de alma, mas aos quais é atribuído um sentido, chegam a ser mais confiáveis que o comum dos mortais, aos quais é atribuida uma vontade, mas que não possuem a capacidade de indicar, de forma confiável, os fenômenos. De acordo com a constituição, em caso de dúvida, mais vale apelar aos não-humanos para refutar os humanos. Dotados de seus novos poderes semióticos, aqueles irão contribuir para uma nova forma de texto, o artigo de ciência experimental, híbrido entre o estilo milenar da exegese bíblica – até então aplicado exclusivamente às Escrituras e aos clássicos – e o novo instrumento que produz novas inscrições. A partir de então, será em torno da bomba de ar em seu espaço fechado, e a respeito do comportamento dotado de sentido dos não-humanos, que as testemunhas irão continuar seus debates. (Latour 1994:29)

TEMPO e HISTÓRIA

Se houvéssemos sido capazes de recalcar atrás de nós, por mais tempo, as multidões humanas e o ambiente não humano, provavelmente poderíamos continuar acreditando que os tempos modernos realmente passavam, eliminando tudo em sua passagem. Mas o que foi recalcado está de volta. As massas humanas estão novamente presentes, as do Leste como a do Sul e a infinita variedade das massas não humanas, as de Toda Parte. Elas não podem mais ser exploradas. Elas não podem mais ser superadas porque nada mais as ultrapassa. Não há nada maior do que a natureza ambiente; os povos do Leste não estão mais reduzidos a suas vanguardas proletárias; quanto às massas do Terceiro Mundo, nada irá circunscrevê-las. Como se livrar delas, perguntam-se os modernos, angustiados. Como modernizar todas elas? Era possível, acreditáva-se que fosse possível, não é mais possível acreditar. Como um grande navio freado e depois atolado no mar de Sargaços, o tempo dos modernos finalmente parou. Mas o tempo nada tem a ver com a história. É a ligação entre as seres que constitui o tempo. É a ligação sistemática dos contemporâneos em um todo coerente que constituía o fluxo do tempo moderno. Agora que este fluxo laminar tornou-se turbulento, podemos abandonar as análises sobre o quadro vazio da temporalidade e retornar ao tempo que passa, quer dizer, aos seres e a suas relações, as redes construtoras de irreversibilidade e reversibilidade. (Latour 1994:75-6)

GENERALIZAÇÃO DO PRINCÍPIO EXISTENCIALISTA (Sartre)

O que Sartre dizia dos humanos, que sua existência precede sua essência, é válido para todos os actantes, a elasticidade do ar, a sociedade, a matéria e a consciência. (Latour 1994:85)

A CIÊNCIA E O EXCEPCIONALISMO OCIDENTAL

“Nós, ocidentais, somos completamente diferentes dos outros”, este é o grito de vitória ou a longa queixa dos modernos. A Grande Divisão entre Nós, os ocidentais, e Eles, todos os outros, dos mares da China até o Yucatán, dos inuit aos aborígenes da Tansmânia sempre nos perseguiu. […] Porque o Ocidente se pensa assim? Porque justamente ele, e apenas ele, seria algo mais que uma cultura? Para compreender a profundidade desta Grande Divisão entre Eles e Nós, é preciso retornar a esta outra Grande Divisão entre os humanos e os não-humanos […]. De fato, [a] primeir[a] é a exportação d[a] segund[a]. Nós, ocidentais, não podemos ser apenas mais uma cultura entre outras porque mobilizamos também a natureza. Não mais, como fazem as outras sociedades, uma imagem ou representação simbólica da natureza, mas a natureza como ela é, ou ao menos tal como as ciências a conhecem, ciências que permanecem na retaguarda, impossíveis de serem estudadas, jamais estudadas. No centro da questão do relativismo encontra-se, portanto, a questão da ciência. (Latour 1994:96-7)

AS 2 GRANDES DIVISÕES FALAM SOBRETUDO SOBRE COMO OS MODERNOS SE AUTO-ENGANAM

A antropologia [simétrica] contorna a questão e transforma as duas Grandes Divisões [entre humanos e não-humanos, e entre Nós e Eles] não mais em algo que descreve a realidade – tanto a nossa quanto a dos outros –, mas em algo que define a forma particular que os ocidentais têm de estabelecer suas relações com os outros. (Latour 1994:101)

A peculiaridade dos ocidentais foi a de ter imposto, através da Constituição, a separação total dos humanos e dos não-humanos – Grande Divisão interior – tendo assim criado artificialmente o choque dos outros. […] Mas a própria noção de cultura é um artefato criado por nosso afastamento da natureza. Ora, não existem nem culturas – diferentes ou universais – nem uma natureza universal. Existem apenas naturezas-culturas, as quais constituem a única base possível para comparações. A partir do momento em que levamos em conta tanto as práticas de mediação quanto as práticas de purificação, percebemos que nem bem os modernos separam os humanos dos não-humanos nem bem os “outros” superpõem totalmente os signos e as coisas (Latour 1994:102)

SOLUÇÃO SIMETRIZANTE

A solução surge no mesmo momento em que o artefato das culturas se dissolve. Todas as naturezas-culturas são similares por construírem ao mesmo tempo os seres humanos, divinos e não-humanos. Nenhuma delas vive em um mundo de signos ou de símbolos arbitrariamente impostos a uma natureza exterior que apenas nós conhecemos. Nenhuma delas, e sobretudo não a nossa, vive em um mundo de coisas. Todas distribuem aquilo que receberá uma carga de símbolos e aquilo que não receberá […]. Se existe uma coisa que todos fazemos da mesma forma é construir ao mesmo tempo nossos coletivos humanos e os não-humanos que os cercam. (Latour 1994:104)

MODERNIDADE E ESCALA (as volutas da espiral)

Todos os coletivos se parecem, a não ser por sua dimensão, assim como as volutas sucessivas de uma espiral. Que sejam necessários ancestrais e estrelas fixas em um dos círculos, ou genes e quasares em outro, mais excêntrico, isto pode ser explicado pela dimensão dos coletivos em questão. Um número muito maior de objetos exige muito mais sujeitos. Muito mais subjetividade requer muito mais objetividade. […] É isto que permite respeitar ao mesmo tempo as diferenças (as volutas têm, de fato, dimensões diferentes) e as semelhanças (todos os coletivos misturam da mesma forma as entidades humanas e não-humanas). […] As ciências e as técnicas não são notáveis por serem verdadeiras ou eficazes […], mas sim porque multiplicam os não-humanos envolvidos na construção dos coletivos e porque tornam mais íntima a comunidade que formamos com estes seres. É a extensão da espiral, a amplitude dos envolvimentos que irá suscitar, a distância cada vez maior onde irá recrutar estes seres que caracterizam as ciências modernas e não algum corte epistemológico que romperia de uma vez por todas com seu passado pré-científico. Os saberes e os poderes modernos não são diferentes porque escapam à tirania do social, mas porque acrescentam muito mais híbridos a fim de recompor o laço social e de aumentar ainda mais sua escala. Não apenas a “bomba de vácuo, mas também os micróbios, a eletricidade, os átomos, as estrelas, as equações de segundo grau, os autômatos e os robôs, os moinhos e os pistões, o inconsciente e os neurotransmissores. (Latour 1994:106-7)

A IMPENSABILIDADE DOS NÃO-HUMANOS COMO MÁQUINA DE CRIAR DIFERENÇAS (o trickster, objeto construtor do social)

Os modernos de fato diferem dos pré-modernos porque se recusam a pensar os quase-objetos como tais. Os híbridos representam para eles o horror que deve ser evitado a qualquer custo através de uma purificação incessante e maníaca. Por si mesma, esta diferença na representação constitucional importaria muito pouco, uma vez que não seria suficiente para separar os modernos dos outros. Haveria tantos coletivos quantas fossem as representações. Mas a máquina de criar diferenças é ativada por esta recusa de pensar os quase-objetos, porque ela gera a proliferação inédita de um certo tipo de ser: o objeto construtor do social, uma vez expulso do mundo social, atribuído a um mundo transcendente que no entanto não é divino, e que produz, por contraste, um sujeito flutuante portador de direito e de moralidade. A bomba de vácuo de Boyle, os micróbios de Pasteur, a polia composta de Arquimedes são objetos deste tipo. Estes novos não-humanos possuem propriedades miraculosas, uma vez que são ao mesmo tempo sociais e não-sociais, produtores de naturezas e construtores de sujeitos. São os tricksters da antropologia comparada. Através desta brecha, as ciências e as técnicas irão irromper de forma tão misteriosa na sociedade que este milagre vai forçar os ocidentais a se pensarem como sendo totalmente diferentes dos outros. O primeiro milagre gera um segundo – por que os outros não fazem o mesmo? – e depois um terceiro – por que nós somos tão excepcionais? É esta característica que irá engendrar, em cascata, todas as pequenas diferenças, as quais serão recolhidas, resumidas e amplificadas pela grande narrativa do Ocidental radicalmente à parte de todas as culturas. (Latour 1994:110)

(NOVAS) IGUALDADE, LIBERDADE E FRATERNIDADE

O mundo moderno, para seu próprio bem, não pode mais estender-se sem voltar a ser aquilo que na prática jamais deixou de ser, ou seja, como todos os outros, um mundo não moderno. Esta fraternidade é essencial para absorver os dois conjuntos que a modernização revolucionária deixava atrás de si: as multidões naturais que não dominamos mais, as multidões humanas que ninguém mais domina. A temporalidade moderna dava a impressão de uma aceleração contínua, relegando ao vazio do passado massas cada vez maiores de uma mistura de humanos e não-humanos. A irreversibilidade mudou de campo. Se há uma coisa da qual não podemos mais nos livrar é das naturezas e das massas, ambas igualmente globais. A tarefa política recomeça da estaca zero. Foi preciso mudar completamente a fabricação de nossos coletivos para absorver o cidadão do século XVIII e o operário do XIX. Será preciso uma transformação equivalente para abrir espaço para os não-humanos criados pelas ciências e técnicas. (Latour 1994:134)

O NÃO-HUMANO É PARTE DO HUMANO

O humano, como podemos compreender agora, só pode ser captado e preservado se devolvermos a ele esta outra metade de si mesmo, a parte das coisas. Enquanto o humanismo for feito por contraste com o objeto abandonado à epistemologia, não compreenderemos nem o humano, nem o não-humano. (Latour 1994:134)

O HUMANO É O MEDIADOR ENTRE HUMANOS E NÃO-HUMANOS (o antropos como morfismo)

Se por um lado o humano não possui uma forma estável, isso não quer dizer que não tenha nenhuma forma. Se, ao invés de a ligarmos a um dos pólos da Constituição, nós o aproximarmos do meio, ele mesmo se torna o mediador e o permutador. O humano não é um dos pólos da Constituição que se oporia aos não-humanos. As duas expressões de humanos ou de não-humanos são resultados tardios que não bastam mais para designar a outra dimensão. A escala de valores não consiste em fazer deslizar a definição do humano ao longo da linha horizontal que conecta o pólo do objeto ao do sujeito, mas sim em fazê-la deslizar ao longo da dimensão vertical que define o mundo não moderno. […] A expressão “antropomórfico” subestima nossa humanidade, em muito. Deveríamos falar em morfismo. Nele se entrecruzam os tecnomorfismos, os zoomorfismos, os fisimorfismos, os ideomorfismos, os teomorfismos, os sociomorfismos, os psicomorfismos. São suas alianças e suas trocas, como um todo, que definem o antropos. Uma boa definição para ele seria a de permutador ou recombinador de morfismos. Quanto mais próximo desta repartição, mais humano ele será. (Latour 1994:135)

O humano está no próprio ato de delegação, no passe, no arremesso, na troca contínua das formas. (Latour 1994:136)

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