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VocabuLaSPA – Episódio [2]: As formas elementares da vida religiosa – por Pedro P. Ferreira

VocabuLaSPA – Episódio [2]: As formas elementares da vida religiosa – por Pedro P. Ferreira

Episódio [2]: As formas elementares da vida religiosa – por Pedro P. Ferreira (29/04/2026).


Para Durkheim, as formas elementares da vida religiosa não seriam religiões simples ou primitivas, mas sim características que podemos encontrar em qualquer religião, não importa quão simples ou primitiva nosso preconceito nos faça acreditar que são. E quais seriam essas características? Ora, justamente os títulos dos livros dois e três de seu livro “As Crenças” e “Os Rituais”.

Neste nosso segundo episódio, o coordenador do LaSPA, o Pedro, compartilha sua leitura da obra “As Formas Elementares da Vida Religiosa”, de Émile Durkheim, e como o autor define as características que podemos encontrar em qualquer religião.

Pedro Peixoto Ferreira é professor livre-docente do Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas, a UNICAMP. Sua obra se destaca por explorar as relações entre tecnologia, cultura e sociedade, abordando desde a música eletrônica até práticas científicas e tecnológicas contemporâneas.

Este podcast integra o Projeto de Jornalismo Científico “Projeto de Divulgação Científica do Laboratório de Sociologia dos Processos de Associação (LaSPA)” financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), processo n° 2025/13701-4, e conta com apoio do Departamento de Sociologia (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

Concepção, Produção, Edição e Arte: Rodrigo Fessel Sega
Trilha Sonora: Arthur Prando do Prado
Áudio: “Temple of the Winning Daruma” de pophey1957 e disponível para uso livre em https://freesound.org/people/pophey1957/sounds/832451/

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Referência Citada
DURKHEIM, Émile. 1996 [1912]. As formas elementares da vida religiosa: o sistema totêmico na. Austrália. (Trad. Paulo Neves) São Paulo: Martins Fontes

TRANSCRIÇÃO DO EPISÓDIO
Pedro Peixoto Ferreira:
…para Durkheim, as formas elementares da vida religiosa não seriam religiões simples ou primitivas, mas sim características que podemos encontrar em qualquer religião, não importa quão simples ou primitiva nosso preconceito nos faça acreditar que são. E quais seriam essas características? Ora, justamente os títulos dos livros dois e três de seu livro “As Crenças” e “Os Rituais”.

Rodrigo Fessel Sega:
Para Émile Durkheim, o que todas as religiões tem em comum?

Olá. Este é o VocabuLaSPA, o podcast do LaSPA — o Laboratório de Sociologia dos
Processos de Associação.

O objetivo deste podcast é apresentar e discutir termos e conceitos das Ciências Sociais, especialmente do campo dos Estudos Sociais da Ciência e da Tecnologia, os CTS, e do que chamamos de Ciências Sociais Engajadas, tornando esses conceitos mais claros e acessíveis.

O LaSPA é coordenado pelo professor Pedro Peixoto Ferreira, da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp.

Eu sou Rodrigo Fessel Sega, sociólogo e coordenador do VocabuLaSPA.

Neste nosso segundo episódio, o coordenador do LaSPA, o Pedro, compartilha sua leitura da obra “As Formas Elementares da Vida Religiosa”, de Émile Durkheim, e como o autor define as características que podemos encontrar em qualquer religião.

Pedro Peixoto Ferreira é professor livre-docente do Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas, a UNICAMP.
Ele é coordenador do Laboratório de Sociologia dos Processos de Associação, o LaSPA, e também do Grupo de Estudos Gilbert Simondon, o GREGS.
Agora, vamos ouvir o professor Pedro.

Pedro Peixoto Ferreira:
O título do último grande livro de Émile Durkheim é “As formas elementares da vida religiosa:
o sistema totêmico na Austrália”. Isso levou e ainda leva muita gente a acreditar que o
sistema totêmico na Austrália seria uma das formas elementares da vida religiosa. Isso não está totalmente errado. De fato, o texto de Durkheim muitas vezes leva a entender que o totemismo australiano seria uma forma elementar da vida religiosa. Mas essa não é a melhor maneira de interpretar o título da obra do sociólogo francês. E é isso que eu gostaria de argumentar aqui hoje.

VINHETA

Logo no início do seu livro, Durkheim afirma que propõe ali estudar “a religião mais primitiva e mais simples atualmente conhecida” e explica que por primitiva, ele quer dizer a religião mais simples. Aquela religião que pode ser explicada “sem fazer referência a nenhuma outra”.
Isso dá a entender que a religião mais primitiva e simples seria também a mais elementar. E ele até mesmo diz isso quando nomeia um dos capítulos do livro, como “O Totemismo Como Religião Elementar”. Então por que não seria essa a melhor maneira de interpretar o título do livro?

VINHETA

Bem, se olharmos para a estrutura do livro, veremos que ele é dividido em três partes principais. Ele chama de três livros mesmo. O primeiro livro intitulado “Questões Preliminares” e é o último capítulo desse primeiro livro que Durkheim intitula “O Totemismo Como A Religião Elementar”. Mas esse é só o primeiro livro. O segundo livro tem o título “As Crenças Elementares” e o terceiro livro, intitulado “As Principais Atitudes Rituais”. E é nesses dois últimos livros que Durkheim de fato desenvolve a sua teoria sobre as formas elementares da vida religiosa.

Se buscarmos o argumento principal de Durkheim, veremos que a ideia por trás de seu estudo é encontrar aquelas características que seriam comuns a todas as religiões, não importa o quão simples ou primitivas sejam. Aliás, a ideia de que uma religião seria simples, primitiva ou elementar é em si mesma problemática, pois diz mais sobre a ignorância de quem fala do que sobre a religião de que se fala.

Em outras palavras, chamar uma religião de simples, primitiva ou elementar é um preconceito que revela mais a ignorância de quem fala do que qualquer coisa sobre a própria religião sobre a qual se está falando. E Durkheim sabia disso, mas precisava usar as palavras de sua época para desenvolver seu argumento.

Assim, para Durkheim, as formas elementares da vida religiosa não seriam religiões simples ou primitivas, mas sim características que podemos encontrar em qualquer religião, não importa quão simples ou primitiva nosso preconceito nos faça acreditar que são. E quais seriam essas características? Ora, justamente os títulos dos livros dois e três de seu livro “As Crenças” e “Os Rituais”.

Rodrigo Fessel Sega:
Aqui, é importante fazer um pequeno esclarecimento: quando o Pedro menciona o “livro dois e três”, ele não está falando de obras diferentes, mas da divisão interna proposta por Émile Durkheim em “As Formas Elementares da Vida Religiosa”. Este livro foi publicado em 1912 e o Durkheim organiza ele em três grandes partes: no livro um, ele define o que é o fenômeno religioso. É aqui que ele define religião não através do "sobrenatural" ou de "divindades", mas pela divisão do mundo em duas esferas: a do sagrado, ou seja, das coisas protegidas por interdições, e profano, que são, sucintamente, onde as coisas podem ser manipuladas sem restrições religiosas.; no livro dois, como disse o Pedro, ele desenvolve a análise das crenças; e, no livro três, ele trata dos rituais. Vamos continuar ouvindo a explicação do Pedro.

Pedro Peixoto Ferreira:
Crenças, para Durkheim, são maneiras coletivas de pensar. Remetem a aspectos subjetivos, abstratos, mentais, teóricos, simbólicos, da vida social. São maneiras coletivas de representar o mundo e os acontecimentos. Já rituais são maneiras coletivas de agir que remetem aspectos subjetivos, concretos, corporais, práticos, materiais da vida social. São maneiras coletivas de desempenhar o mundo e os acontecimentos. Crenças são coisas que pensamos juntos e rituais são coisas que fazemos juntos.

O ponto chave para Durkheim é que algo muito especial acontece conosco quando nossas maneiras coletivas de agir correspondem às nossas maneiras coletivas de pensar e vice-versa. E o que acontece é que nossos laços sociais se renovam, se fortalecem, ganham novas dimensões, se enriquecem quando conseguimos juntos colocar em prática nossas teorias e teorizar nossas práticas. Cria se uma espécie de ressonância interna à vida social, na qual as coisas que acontecem fazem sentido, têm razão de ser. Durkheim chamou de “efervescência” essa ressonância interna, esse momento especial no qual essa correspondência acontece, pois sentimos essa ressonância, essa correspondência, como um influxo de energia emocional que nos carrega, que nos leva a fazer coisas e a pensar coisas que não faríamos ou pensaríamos se estivéssemos sozinhos ou se a correspondência não acontecesse.

Nota se assim uma interessante relação entre isso que me chamou de formas elementares da vida religiosa e aquilo que ele chamou de fato social. Afinal, se fatos sociais são maneiras de agir, pensar e sentir que se impõe como condição para nossa ação, então, de onde eles retiram sua força impositiva e coercitiva? Ora, são essas experiências de efervescência coletiva, quando as coisas que acontecem fazem sentido, quando nossas ações correspondem às nossas ideias e vice-versa, que nos dão o sentimento profundo de que estamos agindo e pensando da maneira correta. Essa certeza emocional que concede a força necessária ao fato social para se impor como condição para nossa ação.

Não é por acaso que este último grande livro de Durkheim é muitas vezes considerado sua obra mais importante. É que ali ele consegue, de certa forma, fechar um argumento iniciado muitos anos antes, quando propôs seu conceito de fato social. E ele faz isso amadurecendo e refinando bastante suas ideias iniciais sobre a relação entre nossa vida individual e nossa vida social, para além das oposições mais simplistas de seus primeiros escritos.

Rituais e crenças são, assim, as formas elementares da vida religiosa, pois são encontrados em todas as religiões conhecidas. Em todas as religiões, não importa quão antigas, novas, simples ou complexas. Existe um conjunto de crenças que explica e racionaliza os acontecimentos do mundo e um conjunto de rituais que coloca em prática essas crenças e as confirma. E se é dessa correspondência entre crenças e rituais que qualquer instituição social tira sua força e sua resistência às transformações, também é dela que essas mesmas instituições recebem novos influxos coletivos de criatividade para se transformarem.

Rodrigo Fessel Sega:
Com essa fala, o Pedro nos mostra que, para Durkheim, a religião é muito mais do que apenas um sistema de fé; é o espelho da própria força social. Essa articulação entre crenças e rituais não apenas sustenta a continuidade das religiões ao longo do tempo, mas também ajuda a entender como elas mudam. É nessa dinâmica que as formas religiosas se mantêm, se reorganizam e se transformam historicamente.

VINHETA

Obrigado por você ter ouvido este episódio e um agradecimento ao professor Pedro Peixoto Ferreira por enriquecer este debate com sua leitura. Se este episódio te fez perceber como crenças e rituais se articulam na forma como entendemos e vivemos o mundo, então ele já cumpriu o seu papel.

Este episódio foi produzido e editado por mim, Rodrigo Fessel Sega. A trilha sonora é uma produção autoral de Arthur Prando do Prado. O áudio utilizado neste episódio chama-se "Temple of the Winning Daruma", é de pophey1957 e disponível para uso livre em FreeSound.org.

Você pode acompanhar o LaSPA no Instagram, @laspa.unicamp, e no site laspa.slg.br.

Este podcast integra o projeto de jornalismo científico financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, a FAPESP, e conta com o apoio do Departamento de Sociologia da Universidade Estadual de Campinas, a UNICAMP.

Até o próximo VocabuLaSPA.