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VocabuLaSPA – Episódio [1]: Fato social – por Pedro P. Ferreira

VocabuLaSPA – Episódio [1]: Fato social – por Pedro P. Ferreira

Episódio [1]: Fato social – por Pedro P. Ferreira (15/04/2026).


Por que é tão difícil mudar a sociedade? Por que é tão difícil transformar costumes já estabelecidos?

Neste primeiro episódio, convidamos o coordenador do LaSPA, Pedro P. Ferreira, para compartilhar sua leitura de um conceito clássico da sociologia, o conceito de “Fato Social”, de Émile Durkheim.

O professor Pedro P. Ferreira é um sociólogo brasileiro, pesquisador e professor livre docente associado à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Sua obra se destaca por explorar as relações entre tecnologia, cultura e sociedade, abordando desde a música eletrônica até práticas científicas e tecnológicas contemporâneas.

Este podcast integra o Projeto de Jornalismo Científico “Projeto de Divulgação Científica do Laboratório de Sociologia dos Processos de Associação (LaSPA)” financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), processo n° 2025/13701-4, e conta com apoio do Departamento de Sociologia (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

Concepção, Produção, Edição e Arte: Rodrigo Fessel Sega
Trilha Sonora: Arthur Prando do Prado
Áudio: ‘Mulheres contra Cunha’ é um registro de Paisagem Sonora Unila, disponível para uso livre em https://freesound.org/s/342152/

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Referência Citada
DURKHEIM, Émile. 1995. As regras do método sociológico. (Trad. Paulo Neves) São Paulo: Martins Fontes. [1895]

TRANSCRIÇÃO DO EPISÓDIO
Por Pedro P. Ferreira

Por que é tão difícil mudar a sociedade? Por que é tão difícil transformar costumes já estabelecidos? Todos sabemos que a sociedade resiste aos nossos desejos de mudança, e que qualquer mudança nas nossas formas de vida exige muito esforço e trabalho. Mas de onde vem essa resistência?

A resistência da sociedade às mudanças às quais cada um de nós gostaria de submetê-la foi justamente o ponto de partida do conceito de “fato social”, criado por Émile Durkheim, filósofo francês que ajudou a criar a sociologia no final do século XIX. Para Durkheim, a sociedade deveria ser considerada como uma “coisa”, pois assim como as coisas que nos rodeiam, ela resiste ao nosso desejo de transformá-la, e se impõe sobre nós com a força de um fato.

Para Durkheim, sempre foi muito importante poder falar da sociedade como um “fato”. Afinal, ele estava envolvido na construção de uma nova ciência, a sociologia, que pretendia ser a ciência da sociedade. E ciências trabalham com fatos, i.e., proposições que não são questionadas, ou que não podem ser questionadas sem levantar, justamente, alguma resistência. Se as ciências naturais trabalham com fatos naturais, nada mais lógico, para Durkheim, do que esperar que as ciências sociais trabalhem com fatos sociais. Em outras palavras, para Durkheim (e para a maior parte dos cientistas até hoje), a ciência trabalha apenas com fatos, com coisas que existem inquestionavelmente, e portanto exclui de seu universo as opiniões, os achismos, as suposições.

Existem dimensões da vida social que são mais abertas à negociação e à transformação. Eu posso, por exemplo, escolher a roupa que vou usar hoje. Posso também, por exemplo, escolher as palavras que vou usar para dizer alguma coisa. Tenho uma certa liberdade de fazer isso, e portanto essas escolhas podem ter as mais diversas motivações, sendo assim impossível determinar exatamente o que me levou a escolher essa ou aquela roupa, essa ou aquela palavra. Mas não tenho liberdade total.

Só posso escolher dentre as roupas disponíveis para mim, e dentre as palavras que eu conheço. E existem roupas, ou palavras, que, se eu usar, vão causar reações adversas, às vezes negativas e antagônicas, nas pessoas ao meu redor. Além disso, eu não poderia escolher simplesmente não usar nenhuma roupa. Isso inclusive seria considerado um crime passível de punição legal. E o uso de certas palavras, em certos contextos, também.

Existem, poderíamos dizer, duas dimensões na nossa vida social. Em uma delas, temos liberdade para escolher a maneira como preferimos fazer as coisas, e muitas vezes isso pode até ser esperado de nós em alguns momentos, como quando se espera que sejamos originais e criativos. Essa é a dimensão aberta da sociedade, sua dimensão passível de transformação. É por meio dessa dimensão que o coletivo permite que as transformações sociais ocorram. Essa é uma dimensão da sociedade mais aberta às vontades e à criatividade individual, e portanto mais difícil de investigar cientificamente. Afinal, se não é possível determinar exatamente o que levou a uma dada escolha, então só podemos fazer suposições, e isso não é ciência.

É a outra dimensão da sociedade, aquela que nos constrange a seguir a norma, aquela que nos obriga a agir da maneira correta e esperada, que Durkheim identificou como sendo passível de investigação científica. Pois nessa dimensão, as escolhas individuais nunca são realmente individuais, mas sim determinadas pela coletividade, pelas tradições e pelo costume. E essas tradições, esses costumes, geralmente já existiam quando nascemos, e provavelmente continuarão existindo quando morrermos. Não foram inventados por nós, e se impõem sobre nós com a força de um fato inquestionável.

O conceito de fato social acabou se tornando um importante conceito sociológico, e até hoje continua sendo estudado nos cursos de Ciências Sociais. É um conceito muito útil para transmitir a ideia da impotência do indivíduo frente às normas sociais, ou pelo menos da grande resistência encontrada quando tentamos questionar algum costume ou norma estabelecida. É uma maneira de explicar essa resistência sem apelar para intenções individuais, mas fazendo referência apenas à sociedade e a comportamentos coletivos.

Durkheim definiu esse conceito originalmente em 1894, logo no primeiro capítulo de seu livro As regras do método sociológico [DURKHEIM, Émile. 1995. As regras do método sociológico (Trad. Paulo Neves) São Paulo: Martins Fontes. [1895]]. Ali, ele escreveu que fatos sociais são “maneiras de agir, de pensar e de sentir, exteriores ao indivíduo, e que são dotadas de um poder de coerção em virtude do qual esses fatos se impõem a ele”. É uma definição forte, que ainda funciona, mas que tem alguns inconvenientes.

Por exemplo, fala que os fatos sociais são “exteriores ao indivíduo”, quando hoje essa noção atomizada de indivíduo já se tornou insustentável, pelo menos fora do discurso neoliberal. Outro inconveniente é a ênfase de Durkheim na coerção, quando hoje já temos métodos bastante eficazes para investigar os fatos sociais em seu aspecto criativo e inventivo, para além da coerção. Ou seja, mesmo quando escolho livremente a roupa ou as palavras que vou usar, sabemos que essa liberdade nunca é total, e existem metodologias, como a etnografia, que nos permitem investigar a dimensão coletiva dessas escolhas. Por fim, hoje não somos mais prisioneiros da imagem de ciência do final do século XIX, para a qual existem fatos naturais e fatos sociais inquestionáveis que caberia ao cientista apenas descobrir. Hoje em dia, e isso graças a avanços importantes no campo dos Estudos Sociais das Ciências e das Tecnologias, sabemos que a inquestionabilidade dos fatos é construída laboriosamente por admiráveis cientistas, que são seres sociais, e que, portanto, todo fato natural é sempre, também, um fato social, sem que isso diminua em nada a sua naturalidade.

Assim, quando falamos, hoje, em “fato social”, acredito que queremos nos referir, por um lado, à maneira como o mundo, natural e social, resiste à nossa ação, e por outro lado, à necessidade de que essa ação seja adequadamente negociada com o mundo, para que seja bem sucedida. A sociedade continua sendo muito difícil de transformar, mas agora entendemos melhor por que: é que queremos que nossas ações no mundo sejam eficazes, queremos que nossas escolhas de roupa, de palavras etc, funcionem para nossos objetivos, e para isso precisamos que elas se adequem ao mundo e às pessoas que nele vivem. E o fato social nada mais é do que a necessidade dessa adequação.