![VocabuLaSPA – Episódio [8]: Alienação – por Elena de Medeiros Batista VocabuLaSPA – Episódio [8]: Alienação – por Elena de Medeiros Batista](https://www.laspa.slg.br/wp-content/uploads/2026/08/IMAGEM-ELENA-1024x1024.png)
VocabuLaSPA – Episódio [8]: Alienação – por Elena de Medeiros Batista
![]() |
Episódio [8]: Alienação – por Elena de Medeiros Batista (17/08/2026). |
Podcast (vocabulaspa): Play in new window | Download
Como falar de alienação a partir de Gilbert Simondon e Franz Fanon? O que é a alienação técnica e a cultura dos objetos? Como conectar essa discussão com raça e alienação colonial?
O episódio de hoje recebe a Elena de Medeiros Batista que propõe um criativo debate sobre alienação, técnica e a perspectiva decolonial a partir doa autores Frantz Fanon e Gilbert Simondon.
A Elena é Doutoranda em Antropologia Social pela Unicamp e sua trajetória transita na interface entre a Psicologia e a Antropologia. Ela traz uma bagagem prática densa desde a atuação na saúde mental em Salvador, na Bahia, o trabalho com populações atingidas por desastres ambientais, até a bioética do cuidado paliativos em saúde. Em cada uma dessas experiências, o que costurava o seu olhar era a presença marcante dos objetos, resíduos e materiais hospitalares percebendo como as coisas em sobra insistiam em ficar, informando afetos nas relações de vida e cuidado em saúde mental.
Hoje, em sua pesquisa de doutorado, a Elena investiga a vida social dos plásticos na Praia do Porto da Barra, em Salvador. A grande provocação do trabalho dela e que conecta diretamente com o nosso episódio de hoje é nos fazer olhar para os objetos não como coisas neutras, mas como agentes carregados de história, política e raça. E mais do que isso nos convida a pensar como, ao longo da história colonial, a própria alienação reduziu não apenas a potencialidade dos objetos, mas corpos negros a meros bens de uso e consumo.
Este podcast integra o Projeto de Jornalismo Científico “Projeto de Divulgação Científica do Laboratório de Sociologia dos Processos de Associação (LaSPA)” financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), processo n° 2025/13701-4, e conta com apoio do Departamento de Sociologia (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).
Concepção, Produção, Edição e Arte: Rodrigo Fessel Sega
Trilha Sonora: Arthur Prando do Prado
Áudios:
LA VANGUARDIA. La escena casi bíblica de 5.000 personas extrayendo cobalto en una mina de la RD Congo. YouTube, 8 nov. 2022. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=LA6_BchB71I
Você também pode acessar as produções do LaSPA acessando nossos canais:
website https://www.laspa.slg.br/
e-mail laspa@unicamp.br
Instagram https://www.instagram.com/laspa.unicamp/
Reddit https://www.reddit.com/user/laspa_unicamp/
TikTok https://www.tiktok.com/@laspa.unicamp
YouTube https://www.youtube.com/@LaSPA.Unicamp
Referências Citadas:
FANON, Frantz. Os condenados da terra. Tradução de Enio Giachini. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2005.
FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Tradução de Renato da Silva Queiroz. Salvador: EDUFBA, 2008.
SIMONDON, Gilbert. Do modo de existência dos objetos técnicos. Tradução de Pedro Peixoto Ferreira. Rio de Janeiro: Contraponto, 2020.
TRANSCRIÇÃO DO EPISÓDIO:
Elena de Medeiros Batista:
Em uma das suas principais obras, Os Modos de Existência dos Objetos Técnicos, Simondon já apresenta sua questão principal logo de início: de que os objetos técnicos possuem um modo de existência, isto é, os objetos que criamos não são apenas instrumentos passivos, mas possuidores de agência.
Pensemos, por exemplo, no celular. Ele nos aparece frequentemente apenas como um objeto de consumo individual. No entanto, a sua existência envolve uma série de relações conectadas.
Por exemplo, a extração predatória do cobalto na República Democrática do Congo, as cadeias globais de montagem, semicondutores em países como Taiwan e Índia, os algoritmos de inteligência artificial desenvolvidos no Vale do Silício e, no fim do ciclo, as toneladas de lixo eletrônico descartadas em países do Sul Global, alimentando a própria crise climática e ambiental.
A alienação técnica ocorre justamente quando ignoramos tudo isso e enxergamos apenas o uso imediato e, ao mesmo tempo, desaparecem todas as relações que tornam esse objeto possível.
Rodrigo Fessel Sega:
Como falar de alienação trazendo para o debate Gilbert Simondon e Frantz Fanon? O que é alienação técnica e a cultura dos objetos? Como conectar essa discussão com raça e alienação colonial?
Para conduzir essa conversa sobre alienação, técnica e a perspectiva decolonial de Frantz Fanon e Gilbert Simondon, o episódio de hoje recebe a Elena de Medeiros Batista.
Está começando agora mais um episódio do VocabuLaSPA, o podcast do LaSPA, o Laboratório de Sociologia dos Processos de Associação. Eu sou Rodrigo Fessel Sega, sociólogo e coordenador deste podcast.
Elena de Medeiros Batista é doutoranda em Antropologia Social pela Unicamp e colaboradora do nosso laboratório. Sua trajetória transita na interface entre psicologia e antropologia. Ela traz uma bagagem prática densa, desde a atuação na saúde mental em Salvador, na Bahia, o trabalho com populações atingidas por desastres ambientais, até a bioética do cuidado paliativo em saúde.
Em cada uma dessas experiências, o que costurava o seu olhar era a presença marcante dos objetos, resíduos e materiais hospitalares, percebendo como as coisas em sobra insistiam em ficar, informando afeto nas relações de vida e cuidado em saúde mental.
Hoje, em sua pesquisa de doutorado, a Elena investiga a vida social dos plásticos na Praia do Porto da Barra, em Salvador. A grande provocação do trabalho dela e que conecta diretamente com o nosso episódio de hoje é nos fazer olhar para os objetos não como coisas neutras, mas como agentes carregados de história, política e raça.
E mais do que isso: nos convida a pensar como, ao longo da história colonial, a própria alienação reduziu não apenas a potencialidade dos objetos, mas corpos negros a meros bens de uso e consumo.
Ouça agora a Elena.
Elena de Medeiros Batista:
A ideia é pensar que, embora a alienação esteja associada a uma ideia de relação com o trabalho, a discussão de Simondon desloca esse problema para uma relação mais ampla entre humanos e objetos técnicos, tocando no que tange a relação cultural que constituímos com o nosso mundo material.
Para Simondon, o problema da alienação não está apenas no fato do trabalhador não possuir o produto do seu trabalho, mas de que maneira os humanos deixam de compreender os objetos técnicos como realidades dotadas de história, gênese e organização própria, reduzindo-se ao consumo e à banalidade de utilizar aquele objeto por um instante de segundos.
Dito isso, a questão que proponho em diálogo com a decolonialidade é: se a alienação técnica é uma ruptura da relação entre humanos e a técnica produzida na criação de um determinado objeto, como essa ruptura é vivenciada por corpos historicamente marcados pelo colonialismo?
Em uma das suas principais obras, Os Modos de Existência dos Objetos Técnicos, Simondon já apresenta sua questão principal logo de início: de que os objetos técnicos possuem um modo de existência, isto é, os objetos que criamos não são apenas instrumentos passivos, mas possuidores de agência.
Pensemos, por exemplo, no celular. Ele nos aparece frequentemente apenas como um objeto de consumo individual. No entanto, a sua existência envolve uma série de relações conectadas.
Por exemplo, a extração predatória do cobalto na República Democrática do Congo, as cadeias globais de montagem, semicondutores em países como Taiwan e Índia, os algoritmos de inteligência artificial desenvolvidos no Vale do Silício e, no fim do ciclo, as toneladas de lixo eletrônico descartadas em países do Sul Global, alimentando a própria crise climática e ambiental.
A alienação técnica ocorre justamente quando ignoramos tudo isso e enxergamos apenas o uso imediato e, ao mesmo tempo, desaparecem todas as relações que tornam esse objeto possível.
Então, Simondon considera a relação de alienação do trabalhador em relação ao trabalho, mas sobretudo ele considera que a modernidade criou uma relação contraditória com a técnica que seria uma espécie de fratura cultural, ontológica e relacional com os objetos.
Cultural porque a nossa sociedade separa o conhecimento técnico do conhecimento humanístico; ontológica porque impede de compreender a técnica como uma forma de existência; e sobretudo relacional porque altera a maneira como nós, humanos, nos relacionamos consigo mesmo e com os seus mundos.
Rodrigo Fessel Sega:
Para entender esse conceito de alienação, vale voltar brevemente aos escritos de Karl Marx. Nos Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844, Marx parte de uma questão bastante concreta: o trabalhador produz algo, uma mercadoria, mas aquilo que ele produz aparece diante dele como uma força que lhe é estranha.
A alienação aparece na relação do trabalhador com o próprio trabalho. Aquilo que ele produz deixa de aparecer como uma expressão da sua própria atividade e passa a existir como algo separado e estranho a ele. O trabalhador produz o mundo, mas não necessariamente reconhece a si mesmo naquilo que produz. Aquilo que deveria expressar a criatividade e a potência humana aparece como algo externo, autônomo e, em determinadas condições, dominante.
E aqui está o grande diferencial da análise da Elena: ela articulou até agora, de forma muito criativa, a teoria do filósofo francês Gilbert Simondon para expandir esse debate.
Se Marx nos permite perguntar o que acontece quando o trabalhador perde a relação com o próprio trabalho e com aquilo que produz, o Simondon nos permite perguntar o que acontece quando a sociedade perde a relação com os próprios objetos que produz tecnicamente.
O objeto técnico aparece como uma coisa pronta, fechada e destinada ao uso, enquanto, como mostrou muito bem a Elena, desaparecem os conhecimentos, as relações, os processos e os materiais que constituíram sua existência.
Nesse sentido, a alienação técnica é uma alienação da própria cultura técnica. Nós produzimos objetos cada vez mais complexos, mas podemos nos tornar cada vez menos capazes de compreender como eles existem, como funcionam e quais relações humanas e materiais estão condensadas neles.
O som que você ouviu na abertura deste episódio vem direto de uma mina de cobalto na República Democrática do Congo. Você já tinha se perguntado qual é o som da matéria-prima que faz o seu celular funcionar? Consegue imaginar quem são as pessoas que trabalham nessas minas?
Essa paisagem sonora é parte fundamental da existência dos nossos objetos técnicos, mas costuma ser completamente apagada do nosso cotidiano. É justamente sobre isso que a Elena vai comentar a seguir: as violências coloniais que reduziram os corpos negros a mercadorias, propriedades e ferramentas de trabalho.
Elena de Medeiros Batista:
Dito isso, eu retomo a pergunta que fiz anteriormente, em que tem a intenção de propor um diálogo com a perspectiva decolonial, que é: como essa ruptura com a matéria dos objetos e a técnica atravessam os corpos historicamente marcados pelo colonialismo?
Precisamos olhar para a trajetória de Frantz Fanon nesse caso. Nascido na Martinica em 1925, o psiquiatra produziu uma obra situada no contexto de emancipação dos países que eram colonizados ali na região do Caribe.
Em 1952, ele publica um livro super importante chamado Peles Negras, Máscaras Brancas, focado no impacto psíquico do racismo na linguagem, na alienação do negro no contexto antilhano e francês.
Anos depois, em 1961, já no fim de vida, ele lança Os Condenados da Terra, expandindo essa análise para uma violência estrutural da guerra, da libertação nacional e as práxis políticas das colônias.
Se essa discussão sobre alienação frequentemente parte da ideia de que o ser humano constrói sua essência e sua liberdade através do trabalho e da ação prática e dialética com o mundo, Fanon nos lembra que o sujeito negro sofreu uma fratura radical nessa própria possibilidade de existência.
A grande reflexão de Fanon é que, na estrutura colonial, as pessoas negras foram historicamente reduzidas a mercadorias, vistas e tratadas como meros objetos. Elas nunca foram alienadas porque foram transformadas em propriedade, em bens de uso cuja a única função era a capacidade física de produzir e reproduzir.
Um exemplo nítido disso no contexto brasileiro era o papel das amas de leite, nas quais a dimensão biológica, materna e afetiva do corpo negro foi capturada para servir como uma ferramenta útil da casa-grande.
Por isso, a alienação colonial não é meramente econômica, mas abriga uma dimensão fundamental que é a dimensão ontológica.
O sujeito negro é permanentemente colocado diante de uma imagem produzida pelo olhar colonial e passa a ser interpretado por signos impostos como o de inferioridade, a desumanização das pessoas negras e a incapacidade e ausência de racionalidade das pessoas negras.
A alienação acontece porque o sujeito é separado da possibilidade de existir a partir da sua própria relação consigo, uma dimensão psíquica importante na construção da noção psíquica de eu, de self, e da nossa relação com o mundo.
Essa tentativa foi uma forma de sobreviver a uma estrutura dominada pela branquitude em que Fanon passa a perceber que esse processo se dá através da máscara colonial.
Se em Simondon a alienação reduz o objeto técnico a um mero utensílio de consumo sem história, em Fanon nós aprendemos como o colonialismo operou algo ainda mais violento, que foi reduzir o próprio corpo negro a um objeto técnico e de uso, confiscando a sua humanidade, a sua linguagem e a sua dimensão psíquica.
Portanto, sintetizando o que discutimos até aqui, a grande ponte entre Simondon e Fanon está na necessidade de avivar as nossas relações materiais e imateriais, vivas e não vivas.
Se Simondon nos alerta para a urgência de superar a alienação técnica ao resgatar a cultura dos objetos e a nossa relação com a matéria, Fanon nos mostra que não é possível falar da técnica sem falar da política de raça e da colonização. Não é possível.
A verdadeira superação da alienação, tanto a técnica quanto a colonial, exige em devolver ao corpo a sua dignidade e a sua capacidade inventiva.
Pensar essa convergência a partir do Sul Global é um convite para desnaturalizarmos tanto o consumo passivo das tecnologias dos objetos quanto a captura de corpos.
É sobre integrar a técnica à dimensão política e a subjetividade na produção do nosso próprio conhecimento.
Rodrigo Fessel Sega:
Esperamos que você tenha gostado dessa nossa discussão. Este episódio foi produzido e editado por mim, Rodrigo Fessel Sega.
A trilha sonora é uma produção autoral de Arthur Prado do Prado. O áudio utilizado neste episódio está na descrição.
Você pode acompanhar o LASPA no Instagram @laspa.unicamp e no site laspa.ifch.unicamp.br.
Este podcast integra o projeto de jornalismo científico financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, a FAPESP, e conta com o apoio do Departamento de Sociologia da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp.
Até o próximo VocabuLaSPA!






O Laboratório de Sociologia dos Processos de Associação (LaSPA) é sediado no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (