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VocabuLaSPA – Episódio [7]: Raça – por Mário Carneiro

VocabuLaSPA – Episódio [7]: Raça – por Mário Carneiro

Episódio [7]: Raça – por Mário Carneiro (07/08/2026).


O conceito de raça carrega inúmeras contradições, implicações históricas e sociais profundas, debates políticos acalorados, e foi apropriado de diferentes formas discursivas pelos mais diversos grupos. Para compreender toda essa complexidade, o episódio de hoje recebe o Mário Carneiro, que vai explicar como esse conceito foi construído, transformado e mobilizado ao longo da história.

E no episódio de hoje, o Mário vai explicar pra gente o conceito de raça a partir das contribuições de autoras e autores como Franz Boas, Frantz Fanon, Lélia Gonzalez, Aimé Césaire, entre outros.

O Mário Carneiro é mestre em Ciências Humanas e Sociais Aplicadas pela Faculdade de Ciências Aplicadas da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp, e doutorando em Ciências Sociais pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, também da Unicamp. Há 10 anos ele vem se dedicando ao estudo dos jogos digitais em suas intersecções com os marcadores sociais da diferença com enfoque no conceito de raça. Para além do trabalho acadêmico, o Mário é escritor, tendo publicado em 2021 o livro “Ei”, e também é músico, sendo idealizador do projeto “Campinarana”.

Este podcast integra o Projeto de Jornalismo Científico “Projeto de Divulgação Científica do Laboratório de Sociologia dos Processos de Associação (LaSPA)” financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), processo n° 2025/13701-4, e conta com apoio do Departamento de Sociologia (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

Concepção, Produção, Edição e Arte: Rodrigo Fessel Sega
Trilha Sonora: Arthur Prando do Prado
Áudios:
O TEMPO. “Eu tenho um sonho”: assista ao discurso de Martin Luther King legendado. YouTube, 28 ago. 2019. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=aWlhPFHOl-Y

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Referências Citadas:
BARBOSA E SILVA, Rosangela Maria de Nazaré; SANTOS, Raquel Amorim dos. Racismo científico no Brasil: um retrato racial do Brasil pós-escravatura. Educar em Revista, [S. l.], v. 34, n. 68, p. p.253–268, 2018. Disponível em: https://revistas.ufpr.br/educar/article/view/53577. Acesso em: 28 jul. 2026.

BOAS, Franz. Antropologia cultural. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.

CÉSAIRE, Aimé. Discurso sobre o colonialismo. São Paulo: Veneta, 2020.

CHAVES, Alaor. Origens do Racismo. [S. l.], 2020. Disponível em: http://alaorchaves.com.br/wp-content/uploads/2020/06/ORUGENS-DIO-RACISMO-baixar.pdf. Acesso em: 28 jul. 2026.

FANON, F. Peles negras, máscaras brancas. Salvador: Edufba, 2008.

FERNANDES, Florestan. A integração do negro na sociedade de classes. São Paulo: Editora Contracorrente, 2025. 896 p.

FREYRE, Gilberto. Casa-grande & senzala. 51. ed. São Paulo: Global Editora, 2006. 728 p.

GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. 1. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.

JÁCOME NETO, Fernando. A recusa da interação: um ensaio historiográfico sobre etnocentrismo e racismo na Grécia Antiga. Revista Brasileira de História, [s. l.], ano 21, v. 40, ed. 84, p. 41, 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbh/a/SYTmZPCd4yDKBCvNsJmg83F/?lang=pt#. Acesso em: 28 jul. 2026.

MOURA, Clóvis. Sociologia do negro brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 2019.

NASCIMENTO, Beatriz. O negro visto por ele mesmo: ensaios, entrevistas e prosa. São Paulo: Ubu Editora, 2022. 240 p.

PEREIRA, Beatriz; MELO, Mônica de (org.). Raça e Gênero: discriminações, interseccionalidades e resistências. São Paulo: EDUC, 2020.

RAMOS, Guerreiro. A Redução sociológica: introdução ao estudo da razão sociológica. 2. ed. São Paulo: Ubu Editora, 2024. 256 p.

RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. 3. ed. São Paulo: Global, 2015.

UNESCO. Declaração sobre a raça e os preconceitos raciais. Paris: [s. n.], 1978. Disponível em: https://www.oas.org/dil/port/1978%20Declara%C3%A7%C3%A3o%20sobre%20Ra%C3%A7a%20e%20Preconceitos%20Raciais.pdf. Acesso em: 28 jul. 2026.

UNESCO statements on race. In: WIKIPEDIA: the free encyclopedia. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/UNESCO_statements_on_race. Acesso em: 28 jul. 2026.

SCHOLL, Camille Johann. Léopold Sédar Senghor em perspectiva: entre a ideia de descolonização e os partidos políticos, entre a negritude e a mestiçagem (1945-1960). Revista Vernáculo, [s. l.], 2021. Disponível em: https://revistas.ufpr.br/vernaculo/article/download/74490/43140. Acesso em: 28 jul. 2026.

TRANSCRIÇÃO DO EPISÓDIO:
Martin Luther King Jr.:
I still have a dream. It is a dream deeply rooted in the American dream. I have a dream that one day this nation will rise up and live out the true meaning of its creed. We hold these truths to be self-evident, that all men are created equal.

Mário Carneiro:
Por um lado, regimes autoritários e movimentos políticos de extrema-direita reanimaram concepções de pureza racial e segregação para legitimar práticas xenófobas e políticas de exclusão e extermínio, mantendo viva a dimensão opressiva do termo. Por outro, o conceito foi ressignificado por mobilizações políticas amplas, como os movimentos de libertação colonial em África e na América Latina, e o surgimento dos movimentos sociais, sobretudo o movimento negro e indígena nos Estados Unidos, na África do Sul e na América do Sul. O conceito converteu-se assim em lente crítica para análise e combate ao racismo, em vez de meio para a sua naturalização.

Martin Luther King Jr.:
…be transformed into an oasis of freedom and justice. I have a dream that my pour little children will one day live in a nation where they will not be judged by the color of their skin but by the content of their character. I have a dream today!

Rodrigo Fessel Sega:
O conceito de raça carrega inúmeras contradições, implicações históricas e sociais profundas, debates políticos acalorados, e foi apropriado de diferentes formas discursivas pelos mais diversos grupos. Para compreender toda essa complexidade, o episódio de hoje recebe o Mário Carneiro, que vai explicar como esse conceito foi construído, transformado e mobilizado ao longo da história.

Está começando agora mais um episódio do Vocabulaspa, o podcast do LASPA, o Laboratório de Sociologia dos Processos de Associação.

Eu sou Rodrigo Fessel Sega, sociólogo e coordenador deste podcast.

E no episódio de hoje, o Mário vai explicar pra gente o conceito de raça a partir das contribuições de autoras e autores como Franz Boas, Frantz Fanon, Lélia Gonzalez, Aimé Césaire, entre outros.

O Mário Carneiro é mestre em Ciências Humanas e Sociais Aplicadas pela Faculdade de Ciências Aplicadas da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp, e doutorando em Ciências Sociais pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, também da Unicamp. Há 10 anos ele vem se dedicando ao estudo dos jogos digitais em suas intersecções com os marcadores sociais da diferença com enfoque no conceito de raça. Para além do trabalho acadêmico, o Mário é escritor, tendo publicado em 2021 o livro “Ei”, e também é músico, sendo idealizador do projeto “Campinarana”.

Ouça agora o Mário.

Mário Carneiro:
Quando se fala em “raça”, tanto como conceito analítico que transita entre as mais variadas ciências, quanto como palavra que está na boca do povo, é comum que sua definição assuma uma postura a princípio essencialmente negativa. Sobretudo, é necessário deixar claro o que não é raça.

Recuperando o histórico de sua conceptualização até a definição, no século XIX, do posteriormente chamado “racismo científico”, desembocando em suas reverberações e continuidades até os dias atuais. Do determinismo geográfico dos filósofos da antiguidade, como Hipócrates, passando pela influência da cosmologia e cosmogonia cristã na Idade Média, e desembocando na ciência iluminista, com suas categorias, padrões e métodos de distinção, noções acerca da ideia de raça buscaram diferenciar não só a humanidade como, no limite, todos os seres vivos, associando características fenotípicas ou até mesmo puramente estéticas a comportamentos, tendências e temperamentos mais ou menos sociais. Isto é, que estabeleceriam a priori dinâmicas de coesão entre indivíduos que compartilhem de determinadas características.

Nomes como Linneu, ao classificar variações naturais associando traços fenotípicos a atributos comportamentais como “indolência” ou “engenhosidade”, exemplificam a produção de um conhecimento que, sob pretexto científico, serviu de justificativa a empresas coloniais, regimes escravocratas e políticas de subalternização sistêmica.

Rodrigo Fessel Sega:
Quando o Mário fala de Linneu, ele está se referindo ao naturalista sueco Carl von Linné, um cientista que se dedicava a observar, descrever e classificar a natureza. Em 1735, ele publicou uma obra chamada Systema Naturae, que mudaria a história da ciência. Nela, Linneu organizou milhares de plantas e animais em um grande sistema de classificação. Mas tem um detalhe bastante importante: os seres humanos também faziam parte dessa classificação.

Linneu dividiu a humanidade em quatro grandes grupos, associados aos continentes: os europeus, os nativos das Américas, os asiáticos e os africanos. Até aí, poderíamos pensar em uma classificação baseada na localização geográfica da humanidade. O problema é que, além das características físicas, ele atribuiu a cada grupo características de personalidade e inteligência.

Os europeus eram descritos como “branco, sanguíneo, musculoso, cabelos loiros e longos, olhos azuis, ágil, muito inteligente, inventivo, veste roupas justas, é governado por leis”. Já os africanos apareciam como “negro, fleumático, relaxado, cabelos negros e crespos, pele sedosa, nariz achatado, lábios grossos, astuto, preguiçoso, negligente, é governado pelo arbítrio ou capricho”.

Ou seja, a cor da pele deixava de ser apenas uma característica física e passava a ser apresentada como uma explicação para o comportamento humano. É sobre essa comparação arbitrária que o Mário está falando quando mencionou Linneu e a sua classificação natural que associava traços fenotípicos a atributos comportamentais.

Hoje, a gente sabe que essas afirmações não têm nenhum fundamento científico e que refletiam os preconceitos da Europa do século XVIII. Mas, justamente por estarem em um livro escrito por um dos maiores naturalistas da história, ganharam enorme credibilidade. Essa noção de raça ajudou a fortalecer a ideia de que existiriam povos naturalmente superiores e inferiores, povos mais inteligentes e mais preguiçosos por natureza, argumentos esses que seriam mobilizados para justificar a expansão colonial, a escravidão e outras formas de dominação ao longo dos séculos seguintes.

A seguir, o Mário vai falar sobre as consequências desse tipo de classificação.

Mário Carneiro:
Entretanto, a virada crítica sobre o conceito irrompeu no século XX, particularmente por intermédio das ciências humanas e sociais. O antropólogo Franz Boas emergiu como figura central de contraposição ao essencialismo biológico, que se desdobrava na chamada antropologia física, demonstrando que a variabilidade cultural constitui o principal vetor explicativo das diferenças entre povos, a despeito de supostas predisposições biológicas.

Em termos mais amplos, posteriormente aos debates das primeiras décadas do século XX, mais restritos aos círculos acadêmicos, no contexto pós-Segunda Guerra Mundial e em face da barbárie do Holocausto, a UNESCO promulgou declarações enfáticas que afirmavam a inexistência de fundamento biológico para o conceito de raça, classificando-o como construção social desprovida de lastro genético consistente.

Paralelamente, surgiam, inclusive, cada vez mais estudos comparativos de genética populacional que corroboravam tal posição, ao evidenciar que a diversidade intragrupal supera amplamente a variabilidade intergrupal. Ou seja: a possibilidade de variação genética entre você em relação aos moradores da rua da sua casa pode ser maior do que se comparada até mesmo à população de outro continente.

Não obstante seu esvaziamento enquanto determinação biológica, o verbete “raça” não perdeu operacionalidade social. Antes, suas apropriações no decorrer do século XX se revelaram profundas e controversas. Por um lado, regimes autoritários e movimentos políticos de extrema-direita reanimaram concepções de pureza racial e segregação para legitimar práticas xenófobas e políticas de exclusão e extermínio, mantendo viva a dimensão opressiva do termo.

Por outro, o conceito foi ressignificado por mobilizações políticas amplas, como os movimentos de libertação colonial em África e na América Latina, capitaneados por atores e autores como Léopold Senghor e Aimé Césaire, e o surgimento dos movimentos sociais, sobretudo o movimento negro e indígena nos Estados Unidos, na África do Sul e na América do Sul. Tais atores coletivos reivindicaram a categoria raça como instrumento político de resistência e denúncia, transformaram o estigma em vetor de identidade e mobilização, erigindo a raça em categoria social e analítica capaz de desvelar desigualdades estruturais e pautar demandas por direitos e reparação. O conceito converteu-se assim em lente crítica para análise e combate ao racismo, em vez de meio para a sua naturalização.

Vale mencionar que, no Brasil, “raça” sempre teve um papel preponderante no arcabouço conceptual de nossos teóricos e pensadores sobre a nação. Aqui também o termo teve origens, em termos analíticos, profundamente marcadas pela ciência eugenista da virada do século XIX para o XX, em pensadores como Oliveira Viana e Nina Rodrigues. Sua primeira contraposição de vigor surgiu com a tese da “democracia racial” de Gilberto Freyre, tese que, apesar do consenso atual acerca de seu caráter controverso, para dizer o mínimo, teve papel relevante à época para sufocar a hegemonia do pensamento essencialista.

Posteriormente, a compreensão da violência racista enquanto componente basilar da sociedade brasileira ganharia preponderância em autores como Florestan Fernandes e Darcy Ribeiro. Porém, a crítica radical de autores como Clóvis Moura, Guerreiro Ramos, Lélia Gonzalez e Beatriz Nascimento só receberia seu merecido reconhecimento nas décadas mais recentes, em grande parte a partir de novas formulações legatárias desses autores e autoras.

Na contemporaneidade, em termos amplos, o estatuto do verbete “raça” permanece profundamente marcado por disputas e ressignificações. Como constructo analítico, ele se manteve operante nas ciências humanas, frequentemente assinalado entre aspas, para investigar dinâmicas de poder, discriminação e formação identitária. No plano do cotidiano, a palavra mantém vitalidade discursiva e encontra-se submetida a controvérsias acirradas acerca de seus usos e sentidos.

Observa-se, por um lado, o ressurgimento de organizações políticas cujos programas se estruturam a partir de noções explícitas de segregação e xenofobia, principalmente na Europa e na América do Norte, buscando reatualizar categorias pretensamente superadas. Por outro lado, a palavra é reafirmada com convicção por amplos contingentes populacionais que, mediante a ação política antirracista, demandam reparação histórica, equidade de oportunidades e transformação estrutural. Movimentos negros, feministas e indígenas em âmbito global frequentemente se congregam e utilizam a raça não como sina de destino biológico, mas como plataforma de agenciamento político e reivindicação de cidadania substantiva.

Em síntese, o debate acerca da raça exige distinção rigorosa entre sua base biológica, que é inexistente, e sua eficácia social, que é inegável. A palavra nos convoca a confrontar nosso passado, interrogar nosso presente e, quiçá, construir um futuro em que tal categoria, relacionada à diferença e à pluralidade, não mais possa servir como ferramenta de dominação e opressão, mas como vetor de desenvolvimento pleno das capacidades, devires e desejos, parafraseando o filósofo martinicano Frantz Fanon, “dos condenados da terra”.

Rodrigo Fessel Sega:
Esperamos que você tenha gostado dessa nossa discussão. Este episódio foi produzido e editado por mim, Rodrigo Fessel Sega. A trilha sonora é uma produção autoral de Arthur Prando do Prado. O áudio utilizado neste episódio está na descrição.

Você pode acompanhar o LASPA no Instagram @laspa.unicamp e no site laspa.slg.br.

Este podcast integra o projeto de jornalismo científico financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, a FAPESP, e conta com o apoio do Departamento de Sociologia da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp.

Até o próximo Vocabulaspa!