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VocabuLaSPA – Episódio [5]: Desobediência Tecnológica – por Rafael Malhão

VocabuLaSPA – Episódio [5]: Desobediência Tecnológica – por Rafael Malhão

Episódio [5]: Desobediência Tecnológica – por Rafael Malhão (26/06/2026).


O que você faz quando um objeto quebra e você não encontra as peças de reposição e não existe assistência técnica para consertá-lo?

Em uma sociedade de consumo, a resposta normalmente é: comprar outro. Mas em Cuba, durante o chamado Período especial em tempos de paz, isso muitas vezes não era possível. A escassez de produtos, peças de reposição e matérias-primas obrigou a população a desenvolver uma relação diferente com os objetos.

E no episódio de hoje, o Rafael Malhão explica para nós o conceito de Desobediência Tecnológica a partir do contexto histórico cubano e do autor Ernesto Oroza.

Rafael Malhão é cientista social, formado em 2010 pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a UFRGS. Concluiu o mestrado em 2014 e o doutorado em 2018, ambos pela Unicamp. Depois disso, realizou um estágio de pós-doutorado na UFRGS na rede COVID-19 Humanidades, onde pesquisou os impactos da pandemia entre DJs e músicos. Também desenvolveu um projeto de pós-doutorado financiado pelo CNPq, investigando a rede Fab Lab Livre SP, que é a rede pública de laboratórios de fabricação digital da cidade de São Paulo. Atualmente, ele atua como professor substituto de sociologia na Universidade Federal de Pelotas.

Este podcast integra o Projeto de Jornalismo Científico “Projeto de Divulgação Científica do Laboratório de Sociologia dos Processos de Associação (LaSPA)” financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), processo n° 2025/13701-4, e conta com apoio do Departamento de Sociologia (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

Concepção, Produção, Edição e Arte: Rodrigo Fessel Sega
Trilha Sonora: Arthur Prando do Prado
Áudios:
GUZMAN, David Rodriguez. Rikimbili en cuba. 12 dez. 2018. YouTube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=YrlEq3MlXhk
INSTITUT NATIONAL DE L’AUDIOVISUEL (INA). Discurso de Fidel Castro en la ONU / Discours de Fidel Castro à l’ONU. INA Éclaire l’actu. Disponível em: https://www.ina.fr/ina-eclaire-actu/video/vdd13019951/discurso-de-fidel-castro-en-la-onu-discours-de-fidel-castro-a-l-onu

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Referências Citadas:
CUBA. Con nuestros propios esfuerzos: algunas experiencias para enfrentar el período especial en tiempo de paz. La Habana, década de 1990.

CUBA. Libro de la Familia. La Habana, início da década de 1990.

OROZA, Ernesto. Desobediencia tecnológica. Havana: Artedar, 2015.

OROZA, Ernesto. Rikimbili: una historia de la desobediencia tecnológica y otros inventos. Madrid: Turner, 2009.

TRANSCRIÇÃO DO EPISÓDIO:
Rafael Malhão:
A desobediência tecnológica foi o método encontrado pela população cubana de produzir soluções para os problemas cotidianos, transbordando a dimensão normativa da economia que, na maioria das vezes, tenta restringir as possibilidades de acesso aos códigos técnicos.

O conhecimento técnico e dos materiais funcionou ali como forma de superação das limitações econômicas, permitindo o desenvolvimento de diferentes dimensões da vida social. A normatividade técnica tem a ver com conhecimento, mercado e política. Logo, subverte os códigos hegemônicos e coloca em questão outras possibilidades de pensar e viver em coletivo, possibilitando táticas que busquem desarticular as tentativas de dominação produzidas pela hegemonia econômica. Nesse sentido, a desobediência tecnológica encontra as fissuras da normatividade econômica por meio do domínio dos códigos técnicos e utiliza esses espaços como ponto de partida para a renovação da condição material ordinária.

Rodrigo Fessel Sega:
O que você faz quando um objeto quebra e você não encontra as peças de reposição e não existe assistência técnica para consertá-lo?

Em uma sociedade de consumo, a resposta normalmente é: comprar outro. Mas em Cuba, durante o chamado Período especial em tempos de paz, isso muitas vezes não era possível. A escassez de produtos, peças de reposição e matérias-primas obrigou a população a desenvolver uma relação diferente com os objetos.

Está começando agora mais um episódio do VocabuLaSPA, o podcast do LaSPA, o Laboratório de Sociologia dos Processos de Associação.

Eu sou Rodrigo Fessel Sega, sociólogo e coordenador deste podcast.

E no episódio de hoje, o Rafael Malhão explica para nós o conceito de Desobediência Tecnológica a partir do contexto histórico cubano e do autor Ernesto Oroza.

Rafael Malhão é cientista social, formado em 2010 pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a UFRGS. Concluiu o mestrado em 2014 e o doutorado em 2018, ambos pela Unicamp. Depois disso, realizou um estágio de pós-doutorado na UFRGS na rede COVID-19 Humanidades, onde pesquisou os impactos da pandemia entre DJs e músicos. Também desenvolveu um projeto de pós-doutorado financiado pelo CNPq, investigando a rede Fab Lab Livre SP, que é a rede pública de laboratórios de fabricação digital da cidade de São Paulo. Atualmente, ele atua como professor substituto de sociologia na Universidade Federal de Pelotas.

Ouça, agora, o Rafael Malhão.

Rafael Malhão:
Em nosso cotidiano estamos cercados por objetos que foram projetados por alguém e colocados no mercado para suprirem os desejos e necessidades de consumo. Mas o que acontece quando o nosso contexto material é bastante adverso? É aí que o domínio dos códigos técnicos emerge como um fator significativo para a transformação das condições materiais dadas. O conceito-prática “desobediência tecnológica” (OROZA, 2015), desenvolvido pelo designer cubano Ernesto Oroza em um contexto histórico, econômico e técnico limítrofe no desenvolvimento do capitalismo contemporâneo expõe como práticas simples e cotidianas que ocorrem na ilha cubana, podem ser vistas como desvios conscientes dos diferentes níveis de normatividades inscritos nos produtos industriais.

No final década de 1980 e início da década de 1990 ocorreram dois eventos disjuntivos no cenário internacional, que naquele momento foram muito relevantes para ilha caribenha: a queda do muro de Berlim (1989) e a dissolução da União Soviética (1991). A disjunção geopolítica advinda desses dois eventos indicava a mudança inevitável no cenário socioeconômico e histórico, que seria particularmente experienciado em Cuba. No início da década de 1960, os Estados Unidos impõem um embargo econômico a Cuba, que permanece até o presente. Com o colapso do bloco do leste europeu, se inviabiliza o apoio da União Soviética à Cuba, momento que o Estado cubano denominará Período especial em tempos de paz. O suporte econômico e a transferência de tecnologia fornecida pela União Soviética cessam, bem como a indústria local entra em um processo de retração. O processo de travamento das máquinas industriais por meio do embargo não foi uma simples desarticulação da esfera político-econômica de Cuba, mas um travamento das máquinas da revolução constante. A partir dessas condições, novas formas de pensar a relação com os materiais e com os objetos começaram a emergir nas práticas cotidianas.

Diante disso, o próprio Estado cubano adota algumas medidas para contornar as dificuldades que se anunciavam. Uma das mais importantes e que influenciou diretamente o modo como a população interagia com os objetos, foi a publicação do “Libro de la familia”, uma espécie de grande compilação de artigos científicos e técnicos dirigidos à não especialistas, com intuito de disseminar os mais diferentes tipos de conhecimento, desde técnicas culinárias, passando por sobrevivência na selva e produção de artefatos de defesa, utilizando os materiais fornecidos pelo ambiente, até princípios de engenharia elétrica e mecânica. A publicação foi organizada não só para tentar antecipar as consequências da degradação das condições materiais no cotidiano a partir da dissolução da União Soviética aliada ao embargo, mas também porque o governo cubano acreditava que a ilha poderia sofrer uma intervenção militar a qualquer momento, e caso ocorresse, seria necessário que a população se refugiasse fora das cidades e soubesse como enfrentar as adversidades que surgissem. Poucos anos após essa publicação, surgiu uma segunda na qual são apresentadas as experiências proporcionadas pela primeira publicação e acrescentam-se novas informações sobre as mais variadas técnicas, desde a produção agrícola até a produção de material para educação esportiva. A segunda publicação foi intitulada “Con nuestros proprios esfuerzos: algunas experiencias para enfrentar el período especial en tiempo de paz”.

A desobediência tecnológica foi o método encontrado pela população cubana de produzir soluções para os problemas cotidianos, transbordando a dimensão normativa da economia que, na maioria das vezes, tenta restringir as possibilidades de acesso aos códigos técnicos. A lógica de funcionamento da desobediência tecnológica é, ao mesmo tempo, um ato político, econômico e de produção de conhecimento. Essa desobediência gera alternativas viáveis e aplicáveis por qualquer um, tendo como fundamento o código técnico orientado por interesses econômicos que primam pela exclusão dos não especialistas no processo de projeto e manutenção dos objetos. Portanto, o terreno em disputa na dimensão normativa da técnica inscrita nos objetos, irradia seus resultados de forma transversal em outras áreas da vida social, principalmente porque expõe as tensões que acompanham a normatividade técnica, o que obriga a repensar a condição de usuários-consumidores reservada dentro dessa lógica. O conhecimento técnico e dos materiais funcionou ali como forma de superação das limitações econômicas, permitindo o desenvolvimento de diferentes dimensões da vida social. A normatividade técnica tem a ver com conhecimento, mercado e política. Logo, subverte os códigos hegemônicos e coloca em questão outras possibilidades de pensar e viver em coletivo, possibilitando táticas que busquem desarticular as tentativas de dominação produzidas pela hegemonia econômica. Nesse sentido, a desobediência tecnológica encontra as fissuras da normatividade econômica por meio do domínio dos códigos técnicos e utiliza esses espaços como ponto de partida para a renovação da condição material ordinária.

Rodrigo Fessel Sega:
Imagine você abrir um livro e encontrar uma página inteira dedicada a uma máquina de lavar. Não uma propaganda, nem um simples manual de instruções, mas uma aula de engenharia didática e bastante pontual. Este é o “Livro da Família”, que o Rafael acabou de citar. No topo da página 223, por exemplo, aparece o desenho de uma máquina de lavar vista por fora: um objeto comum, presente em muitas casas, desenhado de forma simples e bem didática. A esquerda, ainda na parte superior, vemos o desenho de uma máquina de lavar doméstica retangular, com uma tampa dividida em dois compartimentos, um painel de controle com botões, as alças laterais da máquina e uma base elevada. O desenho é simples e lembra os manuais de manutenção.

Porém, ao lado dessa ilustração aparecem duas colunas de texto explicando o funcionamento do motor, das correias, do agitador, do processo de lavagem e da centrífuga. Setas apontam para cada componente, identificando cada peça de um todo.

É como se esse desenho tivesse sido rabiscado num guardanapo, na mesa da nossa casa, por um amigo próximo que começou a nos explicar, passo a passo, como a máquina funciona. Por isso, a máquina deixa de ser uma caixa fechada que apenas lava e seca as roupas e passa a ser apresentada como um conjunto de mecanismos compreensíveis e interconectados. Ou seja, o objetivo do livro não é apenas mostrar as máquinas, mas explicar os princípios mecânicos e funções de cada objeto que compõe o todo.

A máquina de lavar não aparece como um objeto misterioso ou inacessível, mas como algo que pode ser entendido, desmontado, reparado, adquirir novas funções e, se necessário, reinventado. Em outras palavras, “O Livro da Família” é um exemplo prático  de recusar a ideia de que um objeto só pode ser usado da maneira prevista pelo fabricante. É isso o que o Rafael Malhão está chamando de desobediência tecnológica e mostrando como o Estado cubano incentivou esse processo ao publicar esses dois livros.

Por isso, a desobediência tecnológica, de acordo com o Rafael, não é apenas uma prática de sobrevivência ou produção de manuais técnicos. Ela também é uma forma de produção de conhecimento. Ao reparar um objeto, a pessoa deixa de ser apenas consumidora e passa a compreender como aquele objeto funciona. Ao modificá-lo, ela passa a participar do processo técnico que antes estava restrito aos especialistas, ou, como disse o Rafael, “subverte os códigos hegemônicos e coloca em questão outras possibilidades de pensar e viver em coletivo, possibilitando táticas que busquem desarticular as tentativas de dominação produzidas pela hegemonia econômica.”

A seguir, o Rafael Malhão vai explicar como o Ernesto Oroza descreve os três níveis da desobediência tecnológica.

Rafael Malhão:
A desobediência tecnológica caracteriza-se pelo modo imanente como a criatividade produtiva emerge na relação direta com os objetos, além dessa característica, ela ainda contou com o esforço sistemático do Estado na divulgação de conhecimentos que potencializam o traço de inventividade no âmbito da resolução de problemas cotidianos, através da alteração dos objetos. Oroza se vale da descrição das diferentes atitudes necessárias para a realização efetiva da desobediência como tática para a elaboração do conceito, que são: reparação, refuncionalização e reinvenção (OROZA, 2015). Essas três formas de desobediência são listadas a partir de uma gradação crescente do seu caráter desobediente:

Reparação: é o processo pelo qual se intervém a fim de que os objetos conservem suas funções originais. A reparação é a ação que devolve, parcial ou totalmente, as características, sejam elas técnicas, estruturais, de uso, de funcionamento ou estéticas, que foram perdidas por algum motivo. A reparação estabelece um novo modo de relação com o objeto, uma relação que supera o simples uso. Ocorre uma simetrização da relação, uma vez que anterior ao reparo, apenas é a dependência do usuário em relação ao funcionamento do objeto. Após o reparo, a conservação do funcionamento depende da ação do usuário em seu conjunto técnico, a fim de destravar as condições que limitam ou impedem seu bom funcionamento. Ou seja, há um reequilíbrio da relação objeto-usuário por meio da intervenção técnica. A reparação funciona como uma iniciação no pensamento técnico que abrirá as possibilidades de ingresso nas ações de refuncionalização e de reinvenção.

Refuncionalização: é o processo que se vale das características — matéria, forma, função — de um objeto estragado a fim de que ele atue de uma nova forma em seu contexto original ou em um novo contexto. Portanto, é um processo operacional que produz uma metamorfose, tanto no objeto quanto no contexto ao qual ele era destinado.

Reinvenção: é o ato de desobediência, por excelência, aos padrões técnicos propostos pela produção industrial. É o processo pelo qual se cria um objeto novo valendo-se dos componentes e sistemas de objetos descartados. Vale-se dos materiais, das formas e funções dos sistemas operativos como ponto de partida para a criação do novo, por meio da imaginação, se recriam os princípios técnicos preexistentes e os materializam em novos objetos ou técnicas.

Os três modos de intervenção técnica (reparação, refuncionalização e reinvenção), podem ser considerados “saltos imaginativos” (OROZA, 2015:5), e postos em oposição aos modos de uso do conceito de inovação, feitos em favor das lógicas comerciais estabelecidas. Os saltos imaginativos, ao contrário, incentivam as atitudes criativas por parte dos usuários, se é que ainda seria possível utilizar esta classificação baseada no conhecimento técnico com distinções das bases normativas propostas, principalmente pelos modelos disseminados pela grande indústria.

Por um lado, muito da potência imaginativa da desobediência tecnológica advém de duas ações, a primeira é a acumulação. Que garante a constituição de um acervo material que serve de base objetiva para intervenções técnicas futuras. Por outro lado, temos a standardização dos objetos disponíveis que, por sua vez, facilita não só a aquisição de peças de reposição para os casos de reparos, mas também para a combinação de diferentes objetos entre si. As combinações entre diferentes partes de diferentes objetos abrem o caminho para a padronização das adaptações que se proliferaram por toda a ilha. Essa situação fica clara no caso da antena de televisão produzida com bandejas dos refeitórios públicos e das fábricas, ou as bicicletas motorizadas, conhecidas como rikimbili.

A desobediência tecnológica, portanto, não é uma simples negação e transgressão de uma pretendida autoridade que se apresenta mais ostensivamente na figura jurídica do copyright, dos objetos industriais e dos modos de vida que tentam induzir e projetar. As práticas que que deram origem ao conceito desobediência tecnológica são, antes de qualquer coisa, um desvio das condições econômicas pouco favoráveis por meio da subversão das limitações de adaptação dos objetos que são mascaradas como normatividades técnicas.

Rodrigo Fessel Sega:
É desta forma que o Rafael Malhão mostra que para o Ernesto Oroza, a criatividade técnica dos cubanos não foi apenas uma resposta à escassez econômica. Ela revelou que os objetos poderiam ser compreendidos, modificados e reinventados por seus próprios usuários, como mostrou no exemplo acima do rikimbili, que é uma bicicleta adaptada com motor, criada por cubanos para suprir a falta de meios de transporte.

A desobediência tecnológica é justamente esse processo, como mostrou muito bem o Rafael, de transformação do consumidor passivo em alguém capaz de subverter as limitações dos objetos e a dominação produzidas pela hegemonia econômica.

Esperamos que você tenha gostado dessa nossa discussão.

Este episódio foi produzido e editado por mim, Rodrigo Fessel Sega. A trilha sonora é uma produção autoral de Arthur Prando do Prado. O áudio utilizado neste episódio está na descrição

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Este podcast integra o projeto de jornalismo científico financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, a FAPESP, e conta com o apoio do Departamento de Sociologia da Universidade Estadual de Campinas, a UNICAMP.

Até o próximo VocabuLaSPA.