{"id":914,"date":"2021-07-14T21:51:51","date_gmt":"2021-07-14T21:51:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=914"},"modified":"2021-07-14T21:54:02","modified_gmt":"2021-07-14T21:54:02","slug":"o-campo-da-antropologia-em-1960-segundo-levi-strauss-2013-1960","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2021\/07\/14\/o-campo-da-antropologia-em-1960-segundo-levi-strauss-2013-1960\/","title":{"rendered":"O campo da antropologia em 1960, segundo L\u00e9vi-Strauss (2013 [1960])"},"content":{"rendered":"<p>L\u00c9VI-STRAUSS, Claude. 2013. O campo da antropologia. In: <em>Antropologia estrutural dois<\/em>. (Trad.: Beatriz Perrone-Mois\u00e9s) S\u00e3o Paulo: Cosac Naify, pp.11-43.[1960]<\/p>\n<p><strong>NUMEROLOGIA L\u00c9VISTRAUSSIANA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Foi h\u00e1 pouco mais de um ano, em 1958, que o Coll\u00e8ge de France criou uma cadeira de antropologia social. [&#8230;] A pr\u00f3pria data de sua delibera\u00e7\u00e3o, caros colegas, atesta \u2013 pelo curioso retorno do n\u00famero 8, j\u00e1 ilustrado pela aritm\u00e9tica de Pit\u00e1goras, pela tabela peri\u00f3dica dos corpos qu\u00edmicos e pela lei de simetria dos polvos \u2013 que, proposta em 1958, a cria\u00e7\u00e3o de uma cadeira de antropologia social renova uma tradi\u00e7\u00e3o da qual n\u00e3o poderia escapar este que vos fala, ainda que o desejasse. [&#8230;] Cinquenta anos antes da decis\u00e3o inicial aqui tomada, Sir James George Frazer proferia na Universidade de Liverpool a aula inaugural da primeira cadeira no mundo a receber o nome de antropologia social. Cinquenta anos antes \u2013 acaba de completar-se um s\u00e9culo \u2013 nasciam, em 1858, dois homens, Franz Boas e \u00c9mile Durkheim, que a posteridade confirmar\u00e1 como fundadores, ou pelo menos mestres de obra que edificaram, um nos Estados Unidos e o outro na Fran\u00e7a, a antropologia tal como a conhecemos hoje. (L\u00e9vi-Strauss 2013:11-2)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>PASTEUR e DURKHEIM no BRASIL<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[C]aros colegas, alguns de voc\u00eas, que compartilham comigo velhas lembran\u00e7as, poder\u00e3o confirmar que por volta de 1935, quando nossos amigos brasileiros queriam nos explicar o que os tinha levado a escolher miss\u00f5es francesas para formar suas primeiras universidades, citavam sempre dois nomes. O primeiro, evidentemente, era Pasteur. O outro era Durkheim. (L\u00e9vi-Strauss 2013:12)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A MISS\u00c3O de MAUSS: EXORCIZAR DURKHEIM<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Mesmo em suas reflex\u00f5es mais ousadas, Mauss nunca sentiu que se afastava da linha durkheimiana. [&#8230;] A miss\u00e3o de Mauss foi dar acabamento ao prodigioso edif\u00edcio surgido do solo na passagem do demiurgo. Era preciso exorcizar dele alguns fantasmas metaf\u00edsicos que continuavam arrastando suas correntes, coloc\u00e1-lo ao abrigo dos ventos glaciais da dial\u00e9tica, do trovejar dos silogismos, do relampejar das antinomias&#8230; Mas Mauss protegeu a escola durkheimiana de outros perigos. (L\u00e9vi-Strauss 2013:13)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CR\u00cdTICA \u00e0s <em>REGRAS DO M\u00c9TODO SOCIOL\u00d3GICO<\/em><\/strong><\/p>\n<blockquote><p>quando relemos hoje <em>As regras do m\u00e9todo sociol\u00f3gico<\/em>, n\u00e3o podemos evitar pensar que Durkheim foi um tanto parcial na aplica\u00e7\u00e3o desses princ\u00edpios. Invocou-os para constituir o social como categoria independente, mas sem se dar conta de que essa nova categoria, por sua vez, abarcava todas as sortes de especificidades, correspondentes aos diversos aspectos sob os quais a apreendemos. Antes de afirmar que a l\u00f3gica, a linguagem, o direito, a arte ou a religi\u00e3o s\u00e3o proje\u00e7\u00f5es do social, n\u00e3o teria sido conveniente esperar que ci\u00eancias particulares tivessem aprofundado o modo de organiza\u00e7\u00e3o e a fun\u00e7\u00e3o diferencial de cada um desses c\u00f3digos, possibilitando assim a compreens\u00e3o da natureza das rela\u00e7\u00f5es que h\u00e1 entre eles? (L\u00e9vi-Strauss 2013:14)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A TOTALIDADE FOLHADA de MAUSS (o social na experi\u00eancia como rede de interrela\u00e7\u00f5es funcionais entre planos)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[N]a teoria do \u201cfato social total\u201d [&#8230;], a no\u00e7\u00e3o de totalidade \u00e9 menos importante do que o modo muito particular como Mauss a concebe: folhada, dir\u00edamos, formada por m\u00faltiplos planos distintos e conectados. Em vez de surgir como um postulado, a totalidade do social se manifesta na experi\u00eancia: inst\u00e2ncia privilegiada que \u00e9 poss\u00edvel apreender no n\u00edvel da observa\u00e7\u00e3o, em ocasi\u00f5es bem precisas, quando se \u201cp\u00f5em em a\u00e7\u00e3o [&#8230;] a totalidade da sociedade e de suas institui\u00e7\u00f5es\u201d ([1924a] 2003: 309). Ora, essa totalidade n\u00e3o suprime o car\u00e1ter espec\u00edfico dos fen\u00f4menos, que seguem sendo \u201cao mesmo tempo jur\u00eddicos, econ\u00f4micos, religiosos, e mesmo est\u00e9ticos e morfol\u00f3gicos\u201d, diz Mauss no <em>Ensaio sobre a d\u00e1diva<\/em> (loc. cit.); tanto que ela consiste, finalmente, na rede de inter-rela\u00e7\u00f5es funcionais entre todos esses planos. (L\u00e9vi-Strauss 2013:14)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A SOLU\u00c7\u00c3O SOCIOL\u00d3GICA PR\u00c9-FABRICADA de DURKHEIM (desencarna\u00e7\u00e3o e automatismo)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A sociologia durkheimiana corria o risco de desencarna\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m outro, de que Mauss a protegeu, com igual sucesso: o automatismo. Frequentemente, desde Durkheim \u2013 e mesmo em autores que se consideravam livres de sua ascend\u00eancia doutrinal \u2013 a sociologia apareceu como produto de um saque apressado \u00e0 hist\u00f3ria, \u00e0 psicologia, \u00e0 lingu\u00edstica, \u00e0 ci\u00eancia econ\u00f4mica, ao direito e \u00e0 etnografia. Contentava-se em acrescentar aos frutos dessa pilhagem suas receitas: qualquer que fosse o problema que se lhe colocasse, podia-se ter a certeza de que receberia uma solu\u00e7\u00e3o \u201csociol\u00f3gica\u201d pr\u00e9-fabricada. (L\u00e9vi-Strauss 2013:15)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A S\u00cdNTESE EMP\u00cdRICA e SUBJETIVA do FATO SOCIAL<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Os fatos sociais n\u00e3o s\u00e3o meros fragmentos esparsos, s\u00e3o vividos por homens e essa experi\u00eancia subjetiva, tanto quanto suas caracter\u00edsticas objetivas, \u00e9 uma forma da realidade deles. [&#8230;] Tal s\u00edntese emp\u00edrica e subjetiva fornece a \u00fanica garantia de que a an\u00e1lise pr\u00e9via, levada at\u00e9 as categorias inconscientes, nada deixou escapar. (L\u00e9vi-Strauss 2013:16)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ANTROPOCENTRISMO ANTROPOL\u00d3GICO (anntrop\u00f3logo como engenheiro social)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[J]amais saberemos se o outro, com o qual n\u00e3o podemos apesar de tudo nos confundir, opera, a partir dos elementos de sua exist\u00eancia social, uma s\u00edntese exatamente correspondente \u00e0quela que elaboramos. Mas n\u00e3o \u00e9 preciso ir t\u00e3o longe. Basta \u2013 e para isso o sentimento interno \u00e9 suficiente \u2013 que a s\u00edntese, ainda que aproximativa, perten\u00e7a \u00e0 experi\u00eancia humana. Devemos ter certeza disso, pois que estudamos homens. E como n\u00f3s mesmos somos homens, isso nos \u00e9 poss\u00edvel. (L\u00e9vi-Strauss 2013:16)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Percebe-se desde logo a originalidade da antropologia social: em vez de opor explica\u00e7\u00e3o causal e compreens\u00e3o, ela consiste em descobrir um objeto que seja ao mesmo tempo objetivamente muito afastado e subjetivamente muito concreto, e cuja explica\u00e7\u00e3o causal possa fundar-se nessa compreens\u00e3o que n\u00e3o \u00e9, para n\u00f3s, sen\u00e3o uma forma suplementar de prova. Uma no\u00e7\u00e3o como a de empatia nos inspira muita desconfian\u00e7a, naquilo que implica de irracionalismo e misticismo acrescentados. Ao formularmos uma exig\u00eancia de prova suplementar, imaginamos a antropologia mais a partir do modelo do engenheiro, que concebe e constr\u00f3i m\u00e1quinas mediante uma s\u00e9rie de opera\u00e7\u00f5es racionais \u2013 mas \u00e9 preciso que funcionem, a certeza l\u00f3gica n\u00e3o basta. A possibilidade de testar em si mesmo a experi\u00eancia \u00edntima do outro \u00e9 apenas um dos meios dispon\u00edveis para obter essa \u00faltima satisfa\u00e7\u00e3o emp\u00edrica, de que sentem necessidade igualmente as ci\u00eancias f\u00edsicas e as ci\u00eancias humanas \u2013 menos uma prova, talvez, do que uma garantia. (L\u00e9vi-Strauss 2013:17)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>De todas as ci\u00eancias, ela \u00e9 certamente a \u00fanica que faz da subjetividade mais \u00edntima um meio de demonstra\u00e7\u00e3o objetiva. Pois \u00e9 objetivo o fato de o mesmo esp\u00edrito que se entregou \u00e0 experi\u00eancia e deixou-se moldar por ela tornar-se palco de opera\u00e7\u00f5es mentais que n\u00e3o abolem as precedentes e contudo transformam a experi\u00eancia em modelo, possibilitando outras opera\u00e7\u00f5es mentais. No fim das contas, a coer\u00eancia l\u00f3gica destas \u00faltimas se assenta na sinceridade e na honestidade daquele que, como o p\u00e1ssaro explorador da f\u00e1bula, pode dizer \u201cEstive l\u00e1, isso aconteceu comigo \u2013 \u00c9 como se voc\u00eas l\u00e1 estivessem\u201d, e consegue, de fato, comunicar tal convic\u00e7\u00e3o. (L\u00e9vi-Strauss 2013:24-5)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ANTROPOLOGIA SOCIAL = SEMIOLOGIA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O que \u00e9, afinal, a antropologia social? [&#8230;] Parece-me que ningu\u00e9m chegou mais perto de defini-la [&#8230;] do que Ferdinand de Saussure, quando, ao apresentar a lingu\u00edstica como parte de uma ci\u00eancia ainda por vir, reserva-lhe o nome de <em>semiologia<\/em>, e lhe atribui como objeto o estudo da vida dos signos no seio da vida social. (L\u00e9vi-Strauss 2013:17-8)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>&#8220;O QUE ISSO SIGNIFICA?&#8221; = &#8220;PARA QUE SERVE?&#8221;<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Quando consideramos um sistema de cren\u00e7a \u2013 o totemismo, digamos \u2013 ou uma forma de organiza\u00e7\u00e3o social \u2013 cl\u00e3s unilineares, casamento bilateral \u2013, a pergunta que nos fazemos \u00e9 exatamente \u201co que isso significa?\u201d; e, para a respondermos, procuramos <em>traduzir<\/em> em nossa linguagem regras que s\u00e3o primariamente dadas numa linguagem diferente. [&#8230;] Ocorreria o mesmo quanto a outros aspectos da realidade social, tais como o instrumental, as t\u00e9cnicas, os modos de produ\u00e7\u00e3o e de consumo? Trata-se, aparentemente, de objetos e n\u00e3o de signos, uma vez que o signo \u00e9, segundo a c\u00e9lebre defini\u00e7\u00e3o de Peirce, \u201co que substitui algo para algu\u00e9m\u201d. O que, afinal, um machado substitui, e para quem? [&#8230;] Consideradas isoladamente, t\u00e9cnicas podem se apresentar como um dado bruto, heran\u00e7a hist\u00f3rica ou resultado de um compromisso entre as necessidades do homem e as conting\u00eancias do meio. Por\u00e9m, quando as situamos nesse invent\u00e1rio geral das sociedades que a antropologia se esfor\u00e7a por constituir, aparecem sob uma nova luz, j\u00e1 que as imaginamos como equivalendo a escolhas que cada sociedade parece fazer (linguagem c\u00f4moda, que \u00e9 preciso livrar de seu antropomorfismo) entre muitas poss\u00edveis, cujo quadro estabeleceremos. Nesse sentido, concebe-se que certo tipo de machado de pedra possa ser um signo: num determinado contexto, ocupa, para o observador capaz de compreender seu uso, o lugar de um instrumento diferente que outra sociedade utiliza com os mesmos fins. (L\u00e9vi-Strauss 2013:18-9)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CARBONO 14<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Na \u00e9poca em que foi formulada, por volta de 1920, essa concep\u00e7\u00e3o, inspirada na distin\u00e7\u00e3o durkheimiana entre <em>circumfusa<\/em> e <em>praeterita<\/em>, marcava uma rea\u00e7\u00e3o salutar aos abusos da escola difusionista. Mas desde ent\u00e3o a \u201chist\u00f3ria conjectural\u201d, como dizia Radcliffe-Brown, n\u00e3o sem desprezo, aperfei\u00e7oou e refinou seus m\u00e9todos, notadamente gra\u00e7as \u00e0s escava\u00e7\u00f5es estratigr\u00e1ficas, \u00e0 introdu\u00e7\u00e3o da estat\u00edstica em arqueologia, \u00e0 an\u00e1lise dos p\u00f3lens, \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o do carbono 14 e, sobretudo, gra\u00e7as \u00e0 colabora\u00e7\u00e3o cada vez mais estreita que se instaura entre etn\u00f3logos e soci\u00f3logos de um lado, arque\u00f3logos e pr\u00e9-historiadores, do outro. De modo que podemos nos perguntar se a desconfian\u00e7a de Radcliffe-Brown quanto \u00e0s reconstitui\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas n\u00e3o corresponderia a uma etapa do desenvolvimento cient\u00edfico que em breve ser\u00e1 ultrapassada. (L\u00e9vi-Strauss 2013:20-1)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>At\u00e9 alguns poucos anos atr\u00e1s, admitia-se que as institui\u00e7\u00f5es aristocr\u00e1ticas da Polin\u00e9sia eram fatos de introdu\u00e7\u00e3o recente, de uns poucos s\u00e9culos, por grupos de conquistadores vindos de alhures. Mas eis que a medi\u00e7\u00e3o da radioatividade residual de vest\u00edgios org\u00e2nicos provenientes da Melan\u00e9sia e da Polin\u00e9sia revela que a dist\u00e2ncia entre as datas de ocupa\u00e7\u00e3o dessas duas regi\u00f5es \u00e9 menor do que se supunha e \u00e9 preciso, diante disso, modificar as concep\u00e7\u00f5es quanto \u00e0 natureza e unidade do sistema feudal, pois, pelo menos nessa parte do mundo, j\u00e1 n\u00e3o se exclui \u2013 desde os belos estudos de Guiart \u2013 que ele seja anterior \u00e0 chegada dos conquistadores e que certas formas de feudalismo possam surgir em humildes sociedades de horticultores. (L\u00e9vi-Strauss 2013:21)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>O encurtamento da pr\u00e9-hist\u00f3ria do Velho Mundo e o alongamento da do Novo Mundo \u2013 que o carbono 14 permite considerar \u2013 talvez levem \u00e0 conclus\u00e3o de que as civiliza\u00e7\u00f5es que se desenvolveram dos dois lados do Pac\u00edfico foram ainda mais aparentadas do que parece, e, tomando-as cada qual em si, a entend\u00ea-las de outro modo. (L\u00e9vi-Strauss 2013:22)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Por mais importante que seja a perspectiva hist\u00f3rica, s\u00f3 poderemos atingi-la ap\u00f3s longas pesquisas que \u2013 a medida da radioatividade e o estudo dos p\u00f3lens s\u00e3o prova disso \u2013 nem sempre s\u00e3o de nossa al\u00e7ada. (L\u00e9vi-Strauss 2013:27)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A SOCIEDADE como UM SER TOTAL (naturalcultural), CONCRETO e CONECTADO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>N\u00e3o basta, com efeito, que fen\u00f4menos possam ser ditos sociais para que a antropologia os reivindique para si. [&#8230;] [O]s fatos sociais que estudamos se manifestam em sociedades que s\u00e3o, cada uma delas, <em>um ser total, concreto e conectado<\/em>. Nunca perdemos de vista o fato de que as sociedades existentes resultam de grandes transforma\u00e7\u00f5es advindas na esp\u00e9cie humana em determinados momentos da pr\u00e9-hist\u00f3ria e em certos pontos da Terra, e que uma cadeia ininterrupta de eventos reais liga tais fatos \u00e0queles que podemos observar. [&#8230;] Essa continuidade cronol\u00f3gica e espacial entre a ordem da natureza e a ordem da cultura [&#8230;] tamb\u00e9m fundamenta o historicismo de Boas. Ela explica por que a antropologia, mesmo social, declara-se solid\u00e1ria da antropologia f\u00edsica, cujas descobertas espreita com certa avidez. (L\u00e9vi-Strauss 2013:22-3)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>EXPERIMENTA\u00c7\u00c3O e MODELO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Ocorre que, em antropologia, a experimenta\u00e7\u00e3o precede tanto a observa\u00e7\u00e3o como a hip\u00f3tese. Uma das originalidades das pequenas sociedades que estudamos est\u00e1 em que cada uma delas constitui uma experi\u00eancia feita, em raz\u00e3o de sua relativa simplicidade e do n\u00famero restrito de vari\u00e1veis necess\u00e1rias para explicar seu funcionamento. Por outro lado, por\u00e9m, essas sociedades est\u00e3o vivas, e n\u00e3o temos nem tempo nem meios de agir sobre elas. Em compara\u00e7\u00e3o com as ci\u00eancias naturais, gozamos de uma vantagem e sofremos um inconveniente: encontramos nossas experi\u00eancias j\u00e1 preparadas, mas elas s\u00e3o incontrol\u00e1veis. \u00c9 normal, assim, que tentemos substitui-las por modelos, isto \u00e9, sistemas de s\u00edmbolos que salvaguardem as propriedades caracter\u00edsticas da experi\u00eancia mas que, diferentemente da experi\u00eancia, podemos manipular. (L\u00e9vi-Strauss 2013:24)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>FINITO ILIMITADO (caleidosc\u00f3pio)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Num caleidosc\u00f3pio, a combina\u00e7\u00e3o de elementos id\u00eanticos sempre produz novos resultados. (L\u00e9vi-Strauss 2013:25)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ESTRUTURA em DEVIR (Durkheim)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>&#8220;N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que os fen\u00f4menos que concernem \u00e0 estrutura tem algo de mais est\u00e1vel do que os fen\u00f4menos funcionais; mas, entre as duas ordens de fatos, h\u00e1 apenas diferen\u00e7as de grau. A pr\u00f3pria estrutura est\u00e1 no devir [&#8230;] Ela se forma e se recomp\u00f5e incessantemente; ela \u00e9 a vida em certo grau de consolida\u00e7\u00e3o, e distingui-la da vida de que ela deriva, ou da vida que ela determina, equivale a dissociar coisas insepar\u00e1veis.&#8221; (Durkheim <em>apud<\/em> L\u00e9vi-Strauss 2013:26-7)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O SONHO SECRETO da ANTROPOLOGIA SOCIAL<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>ela pertence \u00e0s ci\u00eancias humanas, seu nome proclama isso suficientemente, mas, se fica conformada com seu purgat\u00f3rio junto \u00e0s ci\u00eancias sociais, \u00e9 porque n\u00e3o deixa de ter esperan\u00e7a de acordar entre as ci\u00eancias naturais na hora do ju\u00edzo final. (L\u00e9vi-Strauss 2013:28)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ESTRUTURA, EVENTO e TRANSFORMA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Na verdade, \u00e9 a natureza dos fatos que estudamos que nos leva a distinguir neles o que diz respeito \u00e0 estrutura e o que pertence ao evento. [&#8230;] Existe, com efeito, uma rela\u00e7\u00e3o muito estreita entre as no\u00e7\u00f5es de transforma\u00e7\u00e3o e de estrutura, que ocupa um lugar t\u00e3o importane em nossos trabalhos. [&#8230;] Para que um arranjo seja estruturado, \u00e9 preciso que satisfa\u00e7a duas condi\u00e7\u00f5es: que seja um sistema, regido por uma coes\u00e3o interna, e que tal coes\u00e3o, imposs\u00edvel de perceber num sistema isolado, se revele no estudo das transforma\u00e7\u00f5es, gra\u00e7as \u00e0s quais podem ser encontradas propriedades similares em sistemas aparentemente diferentes. (L\u00e9vi-Strauss 2013:27)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong><\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[O]s signos e os s\u00edmbolos s\u00f3 podem desempenhar seu papel na medida em que pertencem a sistemas regidos por leis internas de implica\u00e7\u00e3o e exclus\u00e3o; e [&#8230;] o que caracteriza um sistema de s\u00edmbolos \u00e9 o ser transform\u00e1vel, em outras palavras, <em>traduz\u00edvel<\/em> na linguagem de outro sistema mediante substitui\u00e7\u00f5es. (L\u00e9vi-Strauss 2013:28)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A VERDADE RACIONAL da ANTROPOLOGIA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Mediante idas e vindas sucessivas entre o laborat\u00f3rio e o campo, buscar\u00edamos ir preenchendo progressivamente a lacuna entre as duas s\u00e9ries, uma conhecida e a outra desconhecida, intercalando uma s\u00e9rie de formas intermedi\u00e1rias. No final, n\u00e3o ter\u00edamos feito sen\u00e3o elaborar uma linguagem, cujos \u00fanicos m\u00e9ritos seriam o ser coerente, como qualquer linguagem, e explicar com um n\u00famero reduzido de regras fen\u00f4menos at\u00e9 ent\u00e3o considerados muito d\u00edspares. Na falta de uma inacess\u00edvel verdade factual, ter\u00edamos atingido uma verdade racional. (L\u00e9vi-Strauss 2013:30)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>DURKHEIM e MAUSS PR\u00c9-ESTRUTURALISTAS INSTINTIVOS<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Mas n\u00e3o estar\u00edamos dando as costas para essa natureza humana quando, para extrair nossas invariantes, substitu\u00edmos os dados da experi\u00eancia por modelos que ent\u00e3o submetemos a opera\u00e7\u00f5es abstratas, como o algebrista com suas equa\u00e7\u00f5es? Fomos acusados disso. Por\u00e9m, al\u00e9m de a obje\u00e7\u00e3o ter pouco peso para o pr\u00e1tico \u2013 que sabe com que fidelidade obsessiva \u00e0 realidade concreta ele paga a liberdade que oferece a si mesmo de sobrevo\u00e1-la por breves instantes \u2013 eu gostaria de lembrar que, ao faz\u00ea-lo, a antropologia social apenas recupera para si uma parte esquecida do programa que Durkheim e Mauss lhe haviam tra\u00e7ado. [&#8230;] No pref\u00e1cio da segunda edi\u00e7\u00e3o das <em>Regras do m\u00e9todo sociol\u00f3gico<\/em>, Durkheim se defende da acusa\u00e7\u00e3o de ter abusivamente separado o \u201ccoletivo do individual. A separa\u00e7\u00e3o, diz ele, \u00e9 necess\u00e1ria, mas ele n\u00e3o exclui a possibilidade de, \u201cno futuro, chegar-se a conceber a possibilidade de uma psicologia formal, que seria uma esp\u00e9cie de terreno compartilhado pela psicologia individual e a sociologia [&#8230;] O que seria preciso fazer\u201d, prossegue Durkheim, \u201cseria buscar, pela compara\u00e7\u00e3o dos temas m\u00edticos e das tradi\u00e7\u00f5es populares, das l\u00ednguas, de que modo as representa\u00e7\u00f5es sociais se atraem e se excluem, fundem-se umas nas outras ou se distinguem [&#8230;]\u201d (Durkheim [1895] 1950: XXV). Essa investiga\u00e7\u00e3o, observa ele para concluir, diz antes respeito \u00e0 l\u00f3gica abstrata. [&#8230;] Mauss orienta a antropologia \u201cpara a busca do que \u00e9 comum aos homens [&#8230;] Os homens comunicam-se por s\u00edmbolos [&#8230;] por\u00e9m, mais precisamente, eles s\u00f3 podem ter esses s\u00edmbolos e se comunicar por eles, porque possuem os mesmos instintos\u201d ([1924b] 2003: 329). (L\u00e9vi-Strauss 2013:34-5)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>PORQUE (+PRIMITIVOS)=(+UNIVERSAL)? (motivos [1] filos\u00f3ficos, [2] brindes de objetividade)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p> Se seu objetivo final, dir\u00e3o, \u00e9 atingir certas formas universais de pensamento e de moralidade (pois o <em>Ensaio sobre a d\u00e1diva<\/em> encerra com conclus\u00f5es de moral), por que privilegiar as sociedades que voc\u00eas chamam de primitivas? Por hip\u00f3tese, n\u00e3o dever\u00edamos chegar aos mesmos resultados partindo de quaisquer sociedades?(L\u00e9vi-Strauss 2013:35)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Quais s\u00e3o, ent\u00e3o, as raz\u00f5es de nossa predile\u00e7\u00e3o por essas sociedades que, na falta de termo melhor, chamamos primitivas, embora n\u00e3o o sejam de modo algum? (L\u00e9vi-Strauss 2013:36)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>\u00c9 na medida em que as sociedades primitivas est\u00e3o muito afastadas da nossa que podemos atingir, nelas, os \u201cfatos de funcionamento generalizado\u201d de que falava Mauss ([1924a] 2003: 311), que t\u00eam chance de ser \u201cmais universais\u201d e de possuir \u201cuma vantagem de realidade\u201d. Nessas sociedades, cito ainda Mauss (loc. cit.), \u201capreendemos homens, grupos e seus comportamentos [&#8230;] vemo-los moverem-se como em mec\u00e2nica se movem massas e sistemas\u201d. Essa observa\u00e7\u00e3o privilegiada, porque distanciada, implica certamente algumas diferen\u00e7as de natureza entre essas sociedades e a nossa: a astronomia n\u00e3o exige apenas que os corpos celestes estejam distantes, \u00e9 tamb\u00e9m preciso que o tempo n\u00e3o passe neles no mesmo ritmo, ou a Terra teria deixado de existir muito tempo antes de a astronomia surgir. (L\u00e9vi-Strauss 2013:38)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ANTROPOLOGIA=FILOSOFIA (=\/= SOCIOLOGIA)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Como escreveu Merleau-Ponty, \u201ctoda vez que o soci\u00f3logo [<em>mas \u00e9 no antrop\u00f3logo que ele est\u00e1 pensando<\/em>] volta \u00e0s fontes vivas de seu saber, \u00e0quilo que nele opera como meio de compreender as forma\u00e7\u00f5es culturais mais afastadas dele, pratica espontaneamente filosofia\u201d ([1960] 1991: 118-19). Com efeito, a pesquisa de campo, pela qual come\u00e7a toda carreira em etnologia, \u00e9 m\u00e3e e ama da d\u00favida, atitude filos\u00f3fica por excel\u00eancia. Essa \u201cd\u00favida antropol\u00f3gica\u201d n\u00e3o consiste apenas em saber que nada se sabe, mas em expor claramente o que se acreditava saber e sua pr\u00f3pria ignor\u00e2ncia aos insultos e desmentidos que infligem \u00e0s ideias e aos h\u00e1bitos mais caros que podem contradiz\u00ea-los mais radicalmente. Ao inverso do que indica a apar\u00eancia, \u00e9, cremos, por seu m\u00e9todo estritamente filos\u00f3fico que a etnologia se distingue da sociologia. O soci\u00f3logo objetiva, temendo ser enganado. O etn\u00f3logo n\u00e3o tem esse temor, porque a sociedade distante que estuda n\u00e3o \u00e9 nada para ele, e porque ele n\u00e3o se v\u00ea de sa\u00edda condenado a extirpar dela todas as nuances e detalhes, at\u00e9 mesmo os valores; ou, resumindo, tudo aquilo em que o observador de sua pr\u00f3pria sociedade corre o risco de se ver implicado. (L\u00e9vi-Strauss 2013:36)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O PROBLEMA DA ALTERIDADE<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Ao escolher sujeitos e objetos radicalmente distanciados, o antrop\u00f3logo corre, no entanto, um risco, o de que a consci\u00eancia que se toma do objeto n\u00e3o atinja suas propriedades intr\u00ednsecas, limitando-se a exprimir sua posi\u00e7\u00e3o relativa e sempre cambiante do sujeito em rela\u00e7\u00e3o a ele. \u00c9 bem poss\u00edvel, efetivamente, que o suposto conhecimento etnol\u00f3gico esteja condenado a permanecer t\u00e3o bizarro e inadequado quanto o que um visitante ex\u00f3tico poderia ter de nossa pr\u00f3pria sociedade. [&#8230;] A seu modo, os etn\u00f3logos poderiam estar cedendo \u00e0 mesma tenta\u00e7\u00e3o quando se permitem \u2013 como fazem com frequ\u00eancia \u2013 reinterpretar costumes e tradi\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas com o objetivo n\u00e3o declarado de melhor enquadr\u00e1-los nas teorias em voga. [&#8230;] Assim, a teoria do totemismo constituiu-se \u201cpara n\u00f3s\u201d, n\u00e3o \u201cem si\u201d, e nada garante que, na forma atual, n\u00e3o continue sendo gerada por uma ilus\u00e3o compar\u00e1vel. (L\u00e9vi-Strauss 2013:36-7)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>HIST\u00d3RIA (quente, afastamentos diferenciais) e ESTRUTURA (fria, consenso) como DISTIN\u00c7\u00c3O TE\u00d3RICA que JUSTIFICA A ANTROPOLOGIA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>\u00c9 claro que as sociedades ditas primitivas est\u00e3o na hist\u00f3ria; seu passado \u00e9 t\u00e3o antigo quanto o nosso, pois que remonta \u00e0s origens da esp\u00e9cie. [&#8230;] Mas se especializaram em caminhos diferentes daqueles que n\u00f3s escolhemos. Talvez tenham permanecido pr\u00f3ximas de condi\u00e7\u00f5es de vida muito antigas, em certos aspectos; o que n\u00e3o exclui que, em outros, tenham-se afastado delas mais do que n\u00f3s. [&#8230;] Mesmo estando na hist\u00f3ria, essas sociedades parecem ter elaborado ou conservado uma sabedoria particular, que as impele a resistir desesperadamente a qualquer modifica\u00e7\u00e3o de sua estrutura capaz de permitir que a hist\u00f3ria irrompa em seu seio. Aquelas que, ainda recentemente, haviam protegido melhor suas caracter\u00edsticas distintivas se apresentam a n\u00f3s como sociedades cuja principal preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 perseverar em seu ser. O modo como exploram o meio garante, ao mesmo tempo, um n\u00edvel de vida modesto e a prote\u00e7\u00e3o dos recursos naturais. Apesar de sua diversidade, as regras de casamento que elas aplicam apresentam, no ver dos dem\u00f3grafos, a caracter\u00edstica comum de limitar ao extremo e manter constante a taxa de natalidade. Finalmente, uma vida pol\u00edtica fundada no consenso, e que s\u00f3 admite decis\u00f5es tomadas em unanimidade, parece ter sido concebida para excluir o emprego do motor da vida coletiva que utiliza afastamentos diferenciais entre poder e oposi\u00e7\u00e3o, maioria e minoria, exploradores e explorados. [&#8230;] Numa palavra, essas sociedades que poder\u00edamos chamar \u201cfrias\u201d, porque seu meio interno est\u00e1 pr\u00f3ximo do zero de temperatura hist\u00f3rica, se distinguem, por suas popula\u00e7\u00f5es reduzidas e seu modo mec\u00e2nico de funcionamento, das sociedades \u201cquentes\u201d, surgidas em diversos pontos do globo ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o neol\u00edtica, onde diferencia\u00e7\u00f5es entre castas e classes s\u00e3o constantemente solicitadas para gerar devir e energia. [&#8230;] Essa distin\u00e7\u00e3o tem um alcance sobretudo te\u00f3rico, pois n\u00e3o h\u00e1 provavelmente sociedade concreta alguma que, no conjunto e em cada uma de suas partes, corresponda exatamente a um tipo ou ao outro. E, tamb\u00e9m noutro sentido, a distin\u00e7\u00e3o permanece relativa, se for verdade, como cremos, que a antropologia social responde a uma dupla motiva\u00e7\u00e3o: retrospectiva, visto que os g\u00eaneros de vida primitivos est\u00e3o \u00e0 beira do desaparecimento e precisamos nos apressar em registrar suas li\u00e7\u00f5es; e prospectiva, na medida em que, tomando consci\u00eancia de uma evolu\u00e7\u00e3o cujo ritmo est\u00e1 se acelerando, j\u00e1 nos sentimos os \u201cprimitivos\u201d de nossos bisnetos, e buscamos validar a n\u00f3s mesmos, aproximando-nos daqueles que foram \u2013 e ainda s\u00e3o, por pouco tempo \u2013 tais como parte de n\u00f3s persiste em permanecer. [&#8230;] Por outro lado, as sociedades que eu chamava de \u201cquentes\u201d tampouco possuem tal car\u00e1ter no absoluto. Quando, logo ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o neol\u00edtica, as grandes cidades-estado da bacia mediterr\u00e2nea e do Extremo Oriente impuseram a escravid\u00e3o, constru\u00edram um tipo de sociedade em que os afastamentos diferenciais entre os homens \u2013 uns dominadores, outros dominados \u2013 podiam ser utilizados para produzir cultura num ritmo at\u00e9 ent\u00e3o inconceb\u00edvel e insuspeitado. Em rela\u00e7\u00e3o a essa f\u00f3rmula, a revolu\u00e7\u00e3o maquin\u00e1ria do s\u00e9culo XIX representa menos uma evolu\u00e7\u00e3o orientada no mesmo sentido do que o esbo\u00e7o impuro de uma solu\u00e7\u00e3o diferente, por muito tempo ainda fundada nos mesmos abusos e injusti\u00e7as, enquanto possibilitava a transfer\u00eancia para a <em>cultura<\/em> da fun\u00e7\u00e3o din\u00e2mica de que a revolu\u00e7\u00e3o proto-hist\u00f3rica incumbira a <em>sociedade<\/em>. [&#8230;] Se \u2013 Deus nos livre \u2013 fosse esperado de um antrop\u00f3logo que pressagiasse o futuro da humanidade, ele certamente n\u00e3o o conceberia como um prolongamento ou uma supera\u00e7\u00e3o das formas atuais, mas antes ao modo de uma integra\u00e7\u00e3o, unificando progressivamente as caracter\u00edsticas pr\u00f3prias das sociedades frias e quentes. Sua reflex\u00e3o reataria com o velho sonho cartesiano de colocar, como aut\u00f4matos, as m\u00e1quinas a servi\u00e7o dos homens; seguiria seu rastro na filosofia social do s\u00e9culo XVIII, e at\u00e9 Saint-Simon. Pois este, anunciando a passagem \u201cdo governo dos homens para a administra\u00e7\u00e3o das coisas\u201d, antecipava ao mesmo tempo a distin\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica entre cultura e sociedade e a convers\u00e3o cuja possibilidade os progressos da teoria da informa\u00e7\u00e3o e da eletr\u00f4nica nos permitem ao menos entrever, de um tipo de civiliza\u00e7\u00e3o que inaugurou outrora o devir hist\u00f3rico, mas \u00e0 custa da transforma\u00e7\u00e3o dos homens em m\u00e1quinas, para uma civiliza\u00e7\u00e3o ideal que conseguisse transformar as m\u00e1quinas em homens. Ent\u00e3o, tendo a cultura sido incumbida integralmente da fabrica\u00e7\u00e3o do progresso, a sociedade estaria livre de uma maldi\u00e7\u00e3o milenar que a obrigava a sujeitar os homens para que houvesse progresso. Doravante, a hist\u00f3ria se faria sozinha, e a sociedade, situada fora e acima da hist\u00f3ria, poderia assumir, novamente, a estrutura regular e como que cristalina que n\u00e3o contradiz, como nos ensinam as sociedades primitivas mais bem preservadas, a humanidade. Nesse panorama, ainda que ut\u00f3pico, a antropologia social encontraria sua mais alta justifica\u00e7\u00e3o, pois que as formas de vida e pensamento que estuda n\u00e3o mais teriam um interesse meramente hist\u00f3rico e comparativo. Corresponderiam a uma chance permanente do homem, sobre a qual a antropologia social, sobretudo nas horas mais sombrias, teria por miss\u00e3o velar. [&#8230;] Nossa ci\u00eancia n\u00e3o poderia montar essa guarda vigilante \u2013 e nem mesmo teria concebido a import\u00e2ncia e a necessidade disso \u2013 se, em regi\u00f5es long\u00ednquas da terra, homens n\u00e3o tivessem resistido obstinadamente \u00e0 hist\u00f3ria e n\u00e3o tivessem permanecido como prova viva do que queremos salvar. (L\u00e9vi-Strauss 2013:38-40)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ANTROPOLOGIA e COLONIALISMO (Renascimento)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Se a sociedade est\u00e1 na antropologia, a pr\u00f3pria antropologia est\u00e1 na sociedade, pois a antropologia foi capaz de alargar progressivamente seu objeto de estudo, at\u00e9 abarcar a totalidade das sociedades humanas. Contudo, ela surgiu num per\u00edodo tardio da hist\u00f3ria destas, e num pequeno setor da terra habitada. Mais do que isso, as circunst\u00e2ncias de seu aparecimento t\u00eam um sentido, que s\u00f3 se pode compreender devolvendo-as ao contexto de um desenvolvimento social e econ\u00f4mico particular. Pode-se ent\u00e3o imaginar que vieram acompanhando uma crise de consci\u00eancia, quase um remorso, de que a humanidade tenha podido permanecer alienada de si mesma por tanto tempo e, principalmente, de que a fra\u00e7\u00e3o da humanidade que produziu a antropologia seja precisamente a mesma que fez de tantos outros homens objeto de execra\u00e7\u00e3o e desprezo. Dizem alguns que nossa pesquisa \u00e9 uma sequela do colonialismo. As duas coisas com certeza est\u00e3o ligadas, mas nada seria mais equivocado do que tomar a antropologia como o \u00faltimo avatar do esp\u00edrito colonial, uma ideologia vergonhosa, que lhe daria a chance de sobreviver. [&#8230;] O que chamamos de Renascimento foi, para o colonialismo e para a antropologia, um verdadeiro nascimento. Entre ambos, confrontados desde sua origem comum, travou-se durante quatro s\u00e9culos um di\u00e1logo equ\u00edvoco. Se o colonialismo n\u00e3o tivesse existido, o surgimento da antropologia teria sido menos tardio; mas talvez a antropologia n\u00e3o tivesse sido incitada \u2013 o que veio a ser seu papel \u2013 a colocar o homem inteiro em causa em cada um de seus exemplos particulares. Nossa ci\u00eancia atingiu a maturidade no dia em que o homem ocidental come\u00e7ou a entender que jamais entenderia a si mesmo enquanto na face da terra uma ra\u00e7a, ou um s\u00f3 povo sequer, continuasse sendo tratado por ele como objeto. Somente ent\u00e3o a antropologia pode se afirmar no que ela \u00e9: um esfor\u00e7o, renovando e expiando o Renascimento, de estender o humanismo \u00e0 medida da humanidade. (L\u00e9vi-Strauss 2013:42)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>HOMENAGEM aos AMER\u00cdNDIOS (&#8220;selvagens&#8221;)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Permitam-me pois, caros colegas, depois de ter prestado homenagem aos mestres da antropologia social no in\u00edcio desta aula, dirigir minhas \u00faltimas palavras aos selvagens, cuja obscura tenacidade nos permite ainda atribuir aos fatos humanos sua verdadeira dimens\u00e3o. Homens e mulheres que, no momento em que vos falo, a milhares de quil\u00f4metros daqui, nalguma savana comida por queimadas ou numa floresta banhada de chuva, retornam ao acampamento para compartilhar o ex\u00edguo alimento e evocar juntos seus deuses. Esses \u00edndios dos tr\u00f3picos e seus semelhantes que me ensinaram seu parco saber, o qual no entanto cont\u00e9m o essencial dos conhecimentos que fui incumbido por voc\u00eas de transmitir a outros; que em breve, lamentavelmente, estar\u00e3o a caminho da extin\u00e7\u00e3o, sob o choque das doen\u00e7as e dos modos de vida \u2013 para eles mais horr\u00edveis ainda \u2013 que levamos a eles. Para com quem contra\u00ed uma d\u00edvida da qual jamais serei liberado, mesmo que no lugar onde voc\u00eas me colocaram, eu pudesse fazer justi\u00e7a \u00e0 ternura que me inspiram e ao meu reconhecimento para com eles, continuando a me mostrar tal como fui entre eles e n\u00e3o gostaria de deixar de ser entre voc\u00eas: seu aprendiz, e testemunha. (L\u00e9vi-Strauss 2013:42-3)<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>L\u00c9VI-STRAUSS, Claude. 2013. O campo da antropologia. In: Antropologia estrutural dois. (Trad.: Beatriz Perrone-Mois\u00e9s) S\u00e3o Paulo: Cosac Naify, pp.11-43.[1960] NUMEROLOGIA L\u00c9VISTRAUSSIANA Foi h\u00e1 pouco mais de um ano, em 1958, que o Coll\u00e8ge de France criou uma cadeira de antropologia social. [&#8230;] A pr\u00f3pria data de sua delibera\u00e7\u00e3o, caros colegas, atesta \u2013 pelo curioso retorno do n\u00famero 8, j\u00e1 ilustrado [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":915,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[41],"class_list":["post-914","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-fichamento","tag-levi-strauss"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/L-S_AE2.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/914","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=914"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/914\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":918,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/914\/revisions\/918"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/915"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=914"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=914"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=914"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}