{"id":900,"date":"2021-07-07T13:50:06","date_gmt":"2021-07-07T13:50:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=900"},"modified":"2021-07-31T18:46:00","modified_gmt":"2021-07-31T18:46:00","slug":"o-sociomorfismo-elementar-das-classificacoes-durkheim-e-mauss-2001-1902","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2021\/07\/07\/o-sociomorfismo-elementar-das-classificacoes-durkheim-e-mauss-2001-1902\/","title":{"rendered":"O sociomorfismo elementar das classifica\u00e7\u00f5es (Durkheim e Mauss 2001 [1902])"},"content":{"rendered":"<p>DURKHEIM, \u00c9mile; MAUSS, Marcel. 2001. Algumas formas primitivas de classifica\u00e7\u00e3o. In: Marcel Mauss. <em>Ensaios de sociologia<\/em>. (Trad.: Luiz J. Gaio; J. Guinsburg) S\u00e3o Paulo: Perspectiva, pp.399-455. [1902]<\/p>\n<p><strong>MOTE<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>CONTRIBUI\u00c7\u00d5ES PARA O ESTUDO DAS REPRESENTA\u00c7\u00d5ES COLETIVAS (Durkheim e Mauss 2001:399)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A IDEIA DE<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>ver nos m\u00e9todos do pensamento cient\u00edfico verdadeiras institui\u00e7\u00f5es sociais cuja g\u00eanese s\u00f3 a sociologia pode descrever e explicar (Durkheim e Mauss 2001:400)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ARIST\u00d3TELES<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Existe, no fundo de nossa concep\u00e7\u00e3o da classe, a ideia de uma circunscri\u00e7\u00e3o de contornos fixos e definidos. Ora, poder-se-ia quase dizer que esta concep\u00e7\u00e3o da classifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o vai al\u00e9m de Arist\u00f3teles. (Durkheim e Mauss 2001:400)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>PR\u00c9-HIST\u00d3RIA DA CLASSIFICA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>N\u00e3o somente nossa no\u00e7\u00e3o atual de classifica\u00e7\u00e3o tem uma hist\u00f3ria, mas esta mesma hist\u00f3ria sup\u00f5e uma consider\u00e1vel pr\u00e9-hist\u00f3ria. (Durkheim e Mauss 2001:400)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>SUPERA\u00c7\u00c3O EUROPEIA DA CONFUS\u00c3O PRIMITIVA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Contudo, esta mentalidade n\u00e3o subsiste mais, hoje, nas sociedades europeias, a n\u00e3o ser em estado de sobreviv\u00eancia e, mesmo sob esta forma, s\u00f3 \u00e9 encontrada em certas fun\u00e7\u00f5es, claramente localizadas, do pensamento coletivo. (Durkheim e Mauss 2001:401)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CONFUS\u00c3O MENTAL GENERALIZADA e DE BOA F\u00c9<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>\u00c9 de boa f\u00e9 que um bororo imagina ser uma arara; ao menos, se n\u00e3o deve assumir sua forma caracter\u00edstica a n\u00e3o ser depois da morte, j\u00e1 a partir desta vida ele \u00e9 para o animal aquilo que a lagarta \u00e9 para a borboleta. \u00c9 de boa f\u00e9 que os Trumai s\u00e3o tidos como animais aqu\u00e1ticos. [&#8230;] Os animais, os homens, os objetos inanimados foram quase sempre concebidos na origem como mantendo entre si rela\u00e7\u00f5es da mais perfeita identidade. [&#8230;] De resto, tal estado mental n\u00e3o difere mui sensivelmente daquele que, ainda agora, em cada gera\u00e7\u00e3o, serve de ponto de partida para o desenvolvimento individual. [&#8230;] Isto est\u00e1 \u00e0 direita e isto est\u00e1 \u00e0 esquerda, isto \u00e9 do passado e isto \u00e9 do presente, isto se parece com aquilo, isto acompanhou aquilo, eis mais ou menos tudo o que poderia produzir mesmo o esp\u00edrito adulto, se a educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o viesse inculcar-lhe maneiras de pensar que jamais poderia ter instaurado por suas pr\u00f3prias for\u00e7as e que s\u00e3o o fruto de todo o desenvolvimento hist\u00f3rico. (Durkheim e Mauss 2001:402)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CLASSIFICAR N\u00c3O \u00c9 NATURAL<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Bem longe, pois, de o homem classificar espontaneamente e por uma esp\u00e9cie de necessidade natural, no in\u00edcio faltam \u00e0 humanidade as condi\u00e7\u00f5es mais indispens\u00e1veis da fun\u00e7\u00e3o classificadora.  (Durkheim e Mauss 2001:402)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Longe de podermos admitir como coisa fundada que os homens classifiquem naturalmente, por uma esp\u00e9cie de necessidade interna de seu entendimento individual, cumpre, ao contr\u00e1rio, interrogar-se sobre o que os levou a dispor suas ideias sob esta forma e onde puderam encontrar o plano desta not\u00e1vel disposi\u00e7\u00e3o. (Durkheim e Mauss 2001:403)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CLASSIFICAR \u00e9 RELACIONAR<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[C]lassificar, n\u00e3o \u00e9 apenas constituir grupos: \u00e9 dispor estes grupos segundo rela\u00e7\u00f5es muito especiais. N\u00f3s os representamos como coordenados ou subordinados uns aos outros, dizemos que estes (as esp\u00e9cies) est\u00e3o inclu\u00eddos naqueles (os g\u00eaneros), que os segundos agrupam os primeiros. H\u00e1 os que dominam, outros que s\u00e3o dominados, outros que s\u00e3o independentes entre si. Toda classifica\u00e7\u00e3o implica uma ordem hier\u00e1rquica da qual nem o mundo sens\u00edvel nem nossa consci\u00eancia nos oferecem o modelo. Deve-se, pois, perguntar onde fomos procur\u00e1-lo. As pr\u00f3prias express\u00f5es de que nos servimos para caracteriz\u00e1-lo nos autorizam a presumir que todas estas no\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas s\u00e3o de origem extral\u00f3gica. Dizemos que as esp\u00e9cies de um mesmo g\u00eanero mant\u00eam rela\u00e7\u00f5es de parentesco; designamos certas classes com o nome de fam\u00edlias; o pr\u00f3prio termo g\u00eanero n\u00e3o designava primitivamente um grupo familial (<em>\u03b3\u03ad\u03bd\u03bf\u03c2<\/em>)? (Durkheim e Mauss 2001:403)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>I<\/strong><\/p>\n<p><strong>O MUNDO \u00c9 CLASSIFICADO A PARTIR DE CLASSIFICA\u00c7\u00d5ES SOCIAIS<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Cada tribo \u00e9 dividida em duas grandes sec\u00e7\u00f5es fundamentais designadas pelo termo fratrias. Cada fratria, por seu turno, compreende um n\u00famero de cl\u00e3s, isto \u00e9, grupos de indiv\u00edduos portadores do mesmo totem. [&#8230;] Al\u00e9m desta divis\u00e3o em cl\u00e3s, cada fratria \u00e9 dividida em duas classes que chamamos matrimoniais. [&#8230;] <em>Ora, a classifica\u00e7\u00e3o das coisas [re]produz esta classifica\u00e7\u00e3o dos homens<\/em>. (Durkheim e Mauss 2001:404-5)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>J\u00e1 o Sr. Cameron [\u201cNotes on some tribes of New South Wales\u201d, <em>J.A.I.<\/em>, XIV, p.350] havia observado que, entre os Ta-ta-this \u201ctodas as coisas do universo s\u00e3o divididas entre os diversos membros da tribo\u201d. \u201cUns, diz, atribuem-se as \u00e1rvores, alguns outros as plan\u00edcies, outros os c\u00e9u, o vento, a chuva e assim por diante\u201d. (Durkheim e Mauss 2001:405)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>\u201dToda a natureza, diz ele [Sr. Palmer. \u201cNotes on some Australian tribes\u201d. <em>J.A.I.<\/em>, XIII, p.300, cf. p.248], \u00e9 repartid[a] segundo os nomes das fratrias. As coisas s\u00e3o divididas em machos e f\u00eameas. O sol, a lua e as estrelas s\u00e3o homens e mulheres e pertencem a tal ou tal fratria, assim como os pr\u00f3prios negros\u201d. (Durkheim e Mauss 2001:405)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>[A] divis\u00e3o das fratrias \u00e9 considerada \u201ccomo uma lei universal da natureza\u201d. \u201cTodas as coisas, animadas e inanimadas, diz Curr [<em>Australian race<\/em>, III, p.43], segundo o Sr. Bridgmann, s\u00e3o divididas por estas tribos em duas classes chamadas Yungaroo e Wootaroo\u201d. \u201cDividem as coisas entre si, refere a mesma testemunha (Br. Smyth [<em>The aborigines of Victoria<\/em> (1887), vol.I, p.91]). Dizem que os jacar\u00e9s s\u00e3o yungaroo e que os cangurus s\u00e3o wootaroo. O sol \u00e9 yungaroo, a lua wootaroo, e assim por diante para as constela\u00e7\u00f5es, as \u00e1rvores, as plantas, etc.\u201d. E Fison [Fison e Howitt, <em>Kamilaroi and Kurnai<\/em>, p.168]: \u201cTudo na natureza reparte-se, segundo eles, entre as duas fratrias. O vento pertence a uma, a chuva a outra . . . Se os interrogarmos sobre determinada estrela em particular, dir\u00e3o a que divis\u00e3o (fratria) pertence\u201d. (Durkheim e Mauss 2001:405-6)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>COMPLEXIDADE<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Tal classifica\u00e7\u00e3o \u00e9 de extrema simplicidade visto ser simplesmente bipartida. Todas as coisas s\u00e3o ordenadas em duas categorias que correspondem \u00e0s duas fratrias. O sistema torna-se mais complexo quando n\u00e3o h\u00e1 somente a divis\u00e3o em fratrias, mas tamb\u00e9m em quatro classes  matrimoniais que serve de quadro para a distribui\u00e7\u00e3o dos seres. (Durkheim e Mauss 2001:406)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Efetivamente, a fratria \u00e9 o g\u00eanero, a classe matrimonial \u00e9 a esp\u00e9cie; ora, o nome do g\u00eanero conv\u00e9m \u00e0 esp\u00e9cie, o que n\u00e3o significa que a esp\u00e9cie n\u00e3o tenha o seu pr\u00f3prio. Da mesma forma como o gato pertence \u00e0 classe quadr\u00fapede e pode ser designado por este nome, as coisas da esp\u00e9cie cargila dependem do g\u00eanero superior malera (fratria) e podem, por conseguinte, ser chamadas elas mesmas malera. \u00c9 a prova de que n\u00e3o estamos diante de uma simples dicotomia das coisas em dois g\u00eaneros opostos, mas, em cada um destes g\u00eaneros, diante de uma verdadeira inclus\u00e3o de conceitos hierarquizados. (Durkheim e Mauss 2001:407)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CLASSIFICA\u00c7\u00c3O GERAL<\/strong><\/p>\n<blockquote><p> A import\u00e2ncia desta classifica\u00e7\u00e3o \u00e9 tal que se estende a todos os fatos da vida; encontra-se sua marca em todos os principais ritos. [&#8230;] A mesma organiza\u00e7\u00e3o de ideias serve de base \u00e0s previs\u00f5es; \u00e9 tomada como premissa para interpretar os sonhos, para determinar as causas, para definir as responsabilidades. (Durkheim e Mauss 2001:407-8)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>INFORMA\u00c7\u00c3O PRIMEIRA?<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Esta ordem l\u00f3gica \u00e9 t\u00e3o r\u00edgida, o poder coercitivo destas categorias sobre o esp\u00edrito do australiano \u00e9 t\u00e3o poderoso que em certos casos, v\u00ea-se todo um conjunto de atos, de sinais, de coisas ser disposto segundo tais princ\u00edpios. Quando deve ocorrer uma cerim\u00f4nia de inicia\u00e7\u00e3o, o grupo local que toma a iniciativa de convocar os outros grupos locais pertence ao mesmo cl\u00e3 tot\u00eamico, adverte-os enviando-lhes \u201cum bast\u00e3o de mensagem\u201d que deve pertencer \u00e0 mesma fratria do remetente e do portador [Howitt, \u201cOn some australian ceremonies of initiation\u201d, <em>J.A.I.<\/em>, XIII, p.438, n.2. Cf. <em>J.A.I.<\/em>, XVIII, prancha XIV, fig.13.]. [&#8230;] Mas a mesma regra se aplica \u00e0s mensagens destinadas a marcar um encontro de classe e, aqui, o remetente, o destinat\u00e1rio, o mensageiro, a madeira da mensagem, a ca\u00e7a designada, a cor de que \u00e9 pintada, tudo se harmoniza rigorosamente de acordo com o princ\u00edpio estabelecido pela classifica\u00e7\u00e3o [Howitt, \u201cAustral. message sticks\u201d, <em>J.A.I.<\/em>, XVIII, p.326; <em>J.A.I.<\/em>, XVIII, prancha XIV, fig.16, 25, 136.]. [&#8230;] Assim, tudo se segue aqui \u00e0 maneira de um teorema: o remetente, o destinat\u00e1rio, o objeto e a escritura da mensagem, a madeira empregada, s\u00e3o todos aparentados. Todas estas no\u00e7\u00f5es parecem ao primitivo serem comandadas e se implicarem com necessidade l\u00f3gica.  (Durkheim e Mauss 2001:408-9)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>TOTEMISMO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Outro sistema de classifica\u00e7\u00e3o, mais completo e talvez mais caracter\u00edstico \u00e9 aquele em que as coisas s\u00e3o repartidas n\u00e3o mais em fratrias e em classes matrimoniais, mas em fratrias e em cl\u00e3s ou totens. [&#8230;] \u201cOs totens australianos, diz Fison, t\u00eam cada um seu valor pr\u00f3prio. Alguns repartem n\u00e3o somente a humanidade, mas todo o universo naquilo que se pode chamar de divis\u00f5es gent\u00edlicas. [<em>Kamilaroi and Kurnai<\/em>, p.168] [&#8230;] H\u00e1 para isto uma raz\u00e3o muito simples. \u00c9 que, se o totemismo \u00e9, de um lado, o agrupamento dos homens em cl\u00e3s de acordo com os objetos naturais (esp\u00e9cies tot\u00eamicas associadas), \u00e9 tamb\u00e9m, inversamente, um agrupamento dos objetos naturais segundo os agrupamentos sociais. (Durkheim e Mauss 2001:409)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>N\u00d3S x ELES<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>As divis\u00f5es sociais aplicadas \u00e0 massa primitiva das representa\u00e7\u00f5es puderam sem d\u00favida estabelecer um certo n\u00famero de quadros delimitados, mas o interior destes quadros permaneceu num estado relativamente amorfo que d\u00e1 mostras da lentid\u00e3o e da dificuldade com a qual se estabeleceu a fun\u00e7\u00e3o classificadora. (Durkheim e Mauss 2001:411)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>II<\/strong><\/p>\n<p><strong>CLASSIFICA\u00c7\u00c3O e PODER<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Onde quer que se veja um cl\u00e3 ou uma confraria religiosa exercer poderes m\u00e1gico-religiosos sobre esp\u00e9cies de coisas diferentes, \u00e9 leg\u00edtimo perguntar-se se n\u00e3o existe a\u00ed o ind\u00edcio de uma antiga classifica\u00e7\u00e3o que atribui a este grupo social estas diferentes esp\u00e9cies de seres. (Durkheim e Mauss 2001:417 nota 76)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>MANIFESTO\/TRANSFORMADO; ASSOCIA\u00c7\u00c3O\/DISSOCIA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[E]m muitos casos em que tais classifica\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o mais imediatamente manifest[a]s, n\u00e3o se deixa de reencontr\u00e1-las, mas sob uma forma diferente daquela que acabamos de descrever. Sobrevieram mudan\u00e7as na estrutura social, que alteraram a economia destes sistemas, mas n\u00e3o at\u00e9 o ponto de torn\u00e1-la completamente irreconhec\u00edvel. Ali\u00e1s, tais mudan\u00e7as s\u00e3o em parte devidas a estas mesmas classifica\u00e7\u00f5es que poderiam ser suficientes para manifest\u00e1-las. [&#8230;] O que caracteriza estas \u00faltimas \u00e9 que as ideias s\u00e3o a\u00ed organizadas segundo um modelo fornecido pela sociedade. Mas uma vez que a organiza\u00e7\u00e3o da mentalidade coletiva existe, \u00e9 suscept\u00edvel de reagir sobre sua causa e contribuir para modific\u00e1-la. Vimos como as esp\u00e9cies de coisas, classificadas num cl\u00e3, servem de totens secund\u00e1rios ou subtotens; isto significa que, no interior do cl\u00e3, tal ou tal grupo particular de indiv\u00edduos, sob a influ\u00eancia de causas que ignoramos, acaba por sentir-se mais especialmente relacionado com tais ou tais coisas que s\u00e3o atribu\u00eddas, de modo geral, ao cl\u00e3 inteiro. Se agora este, j\u00e1 demasiado volumoso, tender a segmentar-se, a segmenta\u00e7\u00e3o em apre\u00e7o se far\u00e1 segundo as linhas marcadas pela classifica\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se deve crer, com efeito, que estas secess\u00f5es sejam necessariamente o produto de movimentos revolucion\u00e1rios e tumultuosos. No mais das vezes parece que ocorreram segundo um processo perfeitamente l\u00f3gico. Assim foi que, em grande n\u00famero de casos, as fratrias se constitu\u00edram e se dividiram. [&#8230;] Efetivamente, o subcl\u00e3 que assim se emancipou leva consigo, em seu dom\u00ednio ideal, al\u00e9m da coisa que lhe serve de totem algumas outras tidas como solid\u00e1rias da primeira. Estas coisas, no novo cl\u00e3, desempenham o papel de subtotens, e podem, se for o caso, tornar-se outros tantos centros em torno dos quais mais tarde se produzir\u00e3o novas segmenta\u00e7\u00f5es. (Durkheim e Mauss 2001:418-9)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Enquanto os subcl\u00e3s, sa\u00eddos de um mesmo cl\u00e3 origin\u00e1rio, conservam a lembran\u00e7a de sua origem comum eles sentem que s\u00e3o parentes, associados, que n\u00e3o s\u00e3o mais do que partes de um mesmo todo; por conseguinte, seus totens e as coisas classificadas sob estes mesmos totens continuam subordinados, de certa forma, ao totem comum do cl\u00e3 total. Mas, com o tempo, tal sentimento se apaga. A independ\u00eancia de cada sec\u00e7\u00e3o aumenta e acaba por converter-se em autonomia completa. Os v\u00ednculos que uniam todos estes cl\u00e3s e subcl\u00e3s numa mesma fratria se distendem ainda mais facilmente e toda a sociedade acaba por dissolver-se numa poeira de pequenos grupos aut\u00f4nomos, iguais entre si, sem subordina\u00e7\u00e3o alguma. Naturalmente, a classifica\u00e7\u00e3o se modifica como consequ\u00eancia. As esp\u00e9cies de coisas atribu\u00eddas a cada uma dessas subdivis\u00f5es constituem outros tantos g\u00eaneros separados, situados no mesmo plano. Toda a hierarquia desapareceu. [&#8230;] [C]ada subtotem acabar\u00e1 por ser elevado \u00e0 dignidade de totem, cada esp\u00e9cie, cada variedade subordinada ter-se-\u00e1 tornado um g\u00eanero principal. Ent\u00e3o, a antiga classifica\u00e7\u00e3o ter\u00e1 dado lugar \u00e0 simples divis\u00e3o sem nenhuma organiza\u00e7\u00e3o interna, a uma reparti\u00e7\u00e3o das coisas por cabe\u00e7as, e n\u00e3o mais por troncos. Mas, ao mesmo tempo, como se faz em um n\u00famero consider\u00e1vel de grupos, acabar\u00e1 incluindo quase o universo inteiro. [&#8230;] \u00c9 neste estado que se encontra a sociedade dos Aruntas [Spender e Gillen]. (Durkheim e Mauss 2001:420-1)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>EVOLUCIONISMO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>H\u00e1, portanto, um v\u00ednculo estreito, e n\u00e3o uma rela\u00e7\u00e3o acidental, entre este sistema social [totemismo australiano] e este sistema l\u00f3gico [classifica\u00e7\u00e3o em g\u00eanero, esp\u00e9cie, classe etc]. Veremos agora como, a esta forma primitiva de classifica\u00e7\u00e3o, e poss\u00edvel ligar outras que apresentam um grau mais alto de complexidade. (Durkheim e Mauss 2001:425)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>III<\/strong><\/p>\n<p><strong>MITO-SOCIOL\u00d3GICA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Entre eles [os Zu\u00f1is], a no\u00e7\u00e3o que a sociedade tem de si mesma e a representa\u00e7\u00e3o que ela faz do mundo se acham totalmente entrela\u00e7adas e confundidas, de modo que se p\u00f4de justamente qualificar sua organiza\u00e7\u00e3o de \u201cmito-sociol\u00f3gica\u201d [Cushing, \u201cZu\u00f1i creation myths\u201d, p.367 e passim]. (Durkheim e Mauss 2001:425)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Com efeito, encontramos entre os Zu\u00f1is um verdadeiro arranjo do universo. Todos os seres e todos os fatos da natureza, \u201co sol, a lua, as estrelas, o c\u00e9u, a terra e o mar com todos os seus fen\u00f4menos e todos os seus elementos, os seres inanimados como tamb\u00e9m as plantas, os animais e os homens\u201d s\u00e3o classificados, rotulados, colocados num lugar determinado no \u201csistema\u201d \u00fanico e solid\u00e1rio e cujas partes s\u00e3o todas coordenadas e subordinadas umas \u00e0s outras segundo os graus de parentesco\u201d [Cushing]. (Durkheim e Mauss 2001:426)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>N\u00e3o s\u00f3 a divis\u00e3o das coisas por regi\u00f5es e a divis\u00e3o da sociedade por cl\u00e3s se correspondem exatamente, mas elas s\u00e3o inextricavelmente entrela\u00e7adas e confundidas. Tanto se pode dizer que as coisas s\u00e3o classificadas ao Norte, ao Sul, etc., como dizer que s\u00e3o classificadas nos cl\u00e3s do Norte, do Sul, etc.  (Durkheim e Mauss 2001:428-9)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>EVOLUCIONISMO (australianos=>americanos)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>\u00c9 permitido, pois, crer, de acordo com aquilo que precede, que o sistema dos Zu\u00f1is \u00e9 na realidade um desenvolvimento e uma complica\u00e7\u00e3o do sistema australiano. (Durkheim e Mauss 2001:433)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>PRIMEIRO AS AG\u00caNCIAS DO MUNDO S\u00c3O ASSOCIADAS AOS GRUPOS, DEPOIS S\u00c3O ASSOCIADAS AO ESPA\u00c7O A PARTIR DA ESPACIALIZA\u00c7\u00c3O DOS GRUPOS<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>As coisas foram, em primeiro lugar, classificadas em cl\u00e3s e em totens. Mas [a] [&#8230;] localiza\u00e7\u00e3o estrita dos cl\u00e3s [&#8230;] acarretou for\u00e7osamente uma localiza\u00e7\u00e3o correspondente das coisas atribu\u00eddas aos cl\u00e3s. [&#8230;] Por conseguinte, se o campo for orientado de um modo definido, todas as suas partes ser\u00e3o orientadas automaticamente com tudo aquilo que abrangem, coisas e pessoas. Em outras palavras, todos os seres da natureza doravante ser\u00e3o concebidos como mantendo rela\u00e7\u00f5es determinadas com por\u00e7\u00f5es igualmente determinadas do espa\u00e7o. Sem d\u00favida, somente o espa\u00e7o tribal \u00e9 assim dividido e repartido. Mas do mesmo modo como a tribo constitui para o primitivo toda a humanidade e o fundador da tribo \u00e9 o pai e o criador dos homens, assim tamb\u00e9m a ideia do campo confunde-se com a ideia do mundo [Nota 191: Encontram-se ainda em Roma vest\u00edgios destas ideias: <em>mundus<\/em> significa, ao mesmo tempo, o mundo e o lugar onde se reuniam os com\u00edcios. A identifica\u00e7\u00e3o da tribo (ou da cidade) e da humanidade n\u00e3o \u00e9, pois, devida simplesmente \u00e0 exalta\u00e7\u00e3o do orgulho nacional, mas a um conjunto de concep\u00e7\u00f5es que fazem da tribo o <em>microcosmo do universo<\/em>]. O acampamento \u00e9 o centro do universo e todo o universo est\u00e1 a\u00ed em miniatura. Portanto, o espa\u00e7o mundial e o espa\u00e7o tribal s\u00f3 se distinguem de maneira imperfeita e o esp\u00edrito passa de um ao outro sem dificuldade, quase sem ter consci\u00eancia disso. [&#8230;] [F]oi por interm\u00e9dio dos totens que as coisas foram ligadas \u00e0s regi\u00f5es. [&#8230;] Mas se os grupos tot\u00eamicos, t\u00e3o curiosamente hierarquizados, se desvanescessem e fossem substitu\u00eddos por grupos locais, simplesmente justapostos uns aos outros e na medida em que o fossem, a classifica\u00e7\u00e3o por origens seria doravante a \u00fanica poss\u00edvel. (Durkheim e Mauss 2001:440-1)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>REPRESENTA\u00c7\u00d5ES SOCIOM\u00d3RFICAS<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Assim, os dois tipos de classifica\u00e7\u00e3o que acabamos de estudar [Arunta e Zu\u00f1i] nada mais fazem sen\u00e3o exprimir, sob diferentes aspectos, as pr\u00f3prias sociedades no seio das quais elas foram elaboradas: a primeira era modelada de acordo com a organiza\u00e7\u00e3o jur\u00eddica e religiosa da tribo, a segundo segundo a organiza\u00e7\u00e3o morfol\u00f3gica. Quando se tratou de estabelecer la\u00e7os de parentesco entre as coisas, de constituir fam\u00edlias sempre mais vastas de seres e de fen\u00f4menos, procedeu-se com a ajuda das no\u00e7\u00f5es que a fam\u00edlia, o cl\u00e3, a fratria forneciam e partiu-se dos mitos tot\u00eamicos. Quando se tratou de estabelecer rela\u00e7\u00f5es entre os espa\u00e7os, as rela\u00e7\u00f5es espaciais que os homens mant\u00eam no interior da sociedade \u00e9 que serviram de ponto de refer\u00eancia. Aqui, o quadro foi fornecido pelo pr\u00f3prio cl\u00e3, l\u00e1, pela marca material que o cl\u00e3 p\u00f4s sobre o solo. Mas ambos os quadros s\u00e3o de origem social. (Durkheim e Mauss 2001:441-2)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>IV<\/strong><\/p>\n<p><strong>O CASO CHIN\u00caS<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Resta-nos agora descrever, ao menos em seus princ\u00edpios, o \u00faltimo tipo de classifica\u00e7\u00e3o que apresenta todos os caracteres essenciais daqueles que precedem, salvo o fato de ser, desde que foi conhecido, independente de toda a organiza\u00e7\u00e3o social. O melhor caso do g\u00eanero, o mais not\u00e1vel e o mais instrutivo, \u00e9-nos oferecido pelo sistema divinat\u00f3rio astron\u00f4mico, astrol\u00f3gico, geom\u00e2ntico e horosc\u00f3pico dos chineses. [&#8230;] [E]le exprime o \u201ctao\u201d, isto \u00e9, a natureza. Est\u00e1 na base de toda a filosofia e de todo o culto que vulgarmente se chama tao\u00edsmo. Em suma, rege todos os pormenores da vida no mais imenso agrupamento que a humanidade jamais conheceu. (Durkheim e Mauss 2001:442)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>TEMPO\/ESPA\u00c7O<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Em todos os sistemas de pensamento de que acabamos de falar, a considera\u00e7\u00e3o dos tempos \u00e9 paralela \u00e0 dos espa\u00e7os. (Durkheim e Mauss 2001:444)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Tal classifica\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os, dos tempos, das coisas, das esp\u00e9cies animais domina toda a vida chinesa \u00c9 o pr\u00f3prio princ\u00edpio da famosa doutrina do fung-shui (Durkheim e Mauss 2001:446)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O CASO GREGO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A atribui\u00e7\u00e3o dos elementos, dos metais aos planetas \u00e9 um fato grego, talvez caldeu, tanto quanto chin\u00eas. (Durkheim e Mauss 2001:447-8)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>COSMOS-CORPO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>teoria do microcosmo (Durkheim e Mauss 2001:448)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ADIVINHA\u00c7\u00c3O e CLASSIFICA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Nada, ali\u00e1s \u00e9 mais natural do que a rela\u00e7\u00e3o assim constatada entre a adivinha\u00e7\u00e3o e as classifica\u00e7\u00f5es das coisas. Todo rito divinat\u00f3rio, por mais simples que seja, baseia-se numa simpatia pr\u00e9via entre certos seres, num parentesco tradicionalmente admitido entre determinado sinal e determinado acontecimento futuro. [&#8230;] Existe assim, na base do sistema de adivinha\u00e7\u00e3o, um sistema ao menos impl\u00edcito, de classifica\u00e7\u00e3o. (Durkheim e Mauss 2001:448)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>MITOLOGIA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Cada mitologia \u00e9, no fundo, uma classifica\u00e7\u00e3o, mas que haure seus princ\u00edpios das cren\u00e7as religiosas, e n\u00e3o das no\u00e7\u00f5es cient\u00edficas. (Durkheim e Mauss 2001:448-9)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Poder-se-ia quase dizer que as classifica\u00e7\u00f5es mitol\u00f3gicas, quando s\u00e3o completas e sistem\u00e1ticas, quando abra\u00e7am o universo, anunciam o fim das mitologias propriamente ditas; Pan, Brama, Praj\u00e2pati, g\u00eaneros supremos, seres absolutos e puros s\u00e3o figuras m\u00edticas quase t\u00e3o pobres de imagens quanto o Deus transcendental dos crist\u00e3os. (Durkheim e Mauss 2001:450)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>\u00c1PICE CHIN\u00caS-GREGO DAS FORMAS PRIMITIVAS<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>E por a\u00ed, prece que nos aproximamos insensivelmente dos tipos abstratos e relativamente racionais que se acham no \u00e1pice das primeiras classifica\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas. J\u00e1 \u00e9 certo que a filosofia chinesa, quando \u00e9 propriamente tao\u00edsta, baseia-se essencialmente no sistema de classifica\u00e7\u00e3o que descrevemos. Na Gr\u00e9cia, sem nada querer afirmar com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 origem hist\u00f3rica das doutrinas, n\u00e3o se pode deixar de notar que os dois princ\u00edpios do ionismo heracliteano, a guerra e a paz, os de Emp\u00e9docles, o amor e o \u00f3dio, dividem entre si as coisas, como o fazem o <em>yin<\/em> e o <em>yang<\/em> na classifica\u00e7\u00e3o chinesa.  (Durkheim e Mauss 2001:450)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>V<\/strong><\/p>\n<p><strong>CI\u00caNCIA (hierarquia e especula\u00e7\u00e3o)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>As classifica\u00e7\u00f5es primitivas n\u00e3o constituem, portanto, singularidades excepcionais, sem analogia com aquelas que est\u00e3o em uso entre povos mais cultivados; ao contr\u00e1rio, parecem ligar-se, sem solu\u00e7\u00e3o de continuidade, \u00e0s primeiras classifica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas. [&#8230;] Em primeiro lugar, exatamente como as classifica\u00e7\u00f5es dos cientistas, s\u00e3o sistemas de no\u00e7\u00f5es hierarquizadas. [&#8230;] Ademais, estes sistemas, exatamente como os da ci\u00eancia, t\u00eam uma finalidade totalmente especulativa.  (Durkheim e Mauss 2001:450)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CLASSIFICA\u00c7\u00d5ES CIENT\u00cdFICAS =\/= TECNOL\u00d3GICAS<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Tais classifica\u00e7\u00f5es s\u00e3o, pois, destinadas, antes de tudo, a unir as ideias entre si, a unificar o conhecimento; a este t\u00edtulo, pode-se dizer sem inexatid\u00e3o que s\u00e3o obra de ci\u00eancia e constituem uma primeira filosofia da natureza. [Nota 225: Por a\u00ed distinguem-se nitidamente daquilo que se poderia chamar as classifica\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas. \u00c9 prov\u00e1vel que, desde sempre, o homem tenha classificado de maneira mais ou menos clara as coisas de que se alimenta segundo os processos que emprega para apanh\u00e1-las: por exemplo, em animais que vivem na \u00e1gua, ou nos ares, ou sob a terra. Mas inicialmente, os grupos assim constitu\u00eddos n\u00e3o s\u00e3o ligados uns aos outros e sistematizados. S\u00e3o divis\u00f5es, distin\u00e7\u00f5es de no\u00e7\u00f5es, n\u00e3o quadros de classifica\u00e7\u00e3o. Ademais, \u00e9 evidente que tais distin\u00e7\u00f5es s\u00e3o estritamente associadas na pr\u00e1tica e rela\u00e7\u00e3o \u00e0 qual nada mais fazem sen\u00e3o exprimir certos aspectos. \u00c9 por esta raz\u00e3o que n\u00e3o falamos delas neste trabalho onde procuramos sobretudo esclarecer um pouco as origens do procedimento l\u00f3gico que est\u00e1 na base das classifica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas.] (Durkheim e Mauss 2001:451)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>SOCIOMORFISMO (o anti-Frazer)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Muito longe de serem as rela\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas das coisas que servem de base \u00e0s rela\u00e7\u00f5es sociais dos homens, como parece admitir o Sr. Frazer, na realidade s\u00e3o estas que serviram de prot\u00f3tipo \u00e0quela. Segundo ele, os homens ter-se-iam dividido em cl\u00e3s de acordo com uma classifica\u00e7\u00e3o pr\u00e9via das coisas; ora, muito ao contr\u00e1rio, eles classificaram as coisas porque estavam divididos em cl\u00e3s. (Durkheim e Mauss 2001:451)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>A sociedade n\u00e3o foi simplesmente um modelo segundo o qual o pensamento classificador teria trabalhado; foram seus pr\u00f3prios quadros que serviram de quadros ao sistema. As primeiras categorias l\u00f3gicas foram categorias sociais; as primeiras classes de coisas foram classes de homens nas quais tais classes foram integradas. Foi porque os homens estavam agrupados e viam-se em pensamento em forma de grupos que agruparam idealmente os outros seres, e as duas maneiras de agrupamento come\u00e7aram a confundir-se a ponto de se tornar indistintas. As fratrias foram os primeiros g\u00eaneros; os cl\u00e3s, as primeiras esp\u00e9cies. (Durkheim e Mauss 2001:451)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>N\u00e3o s\u00f3 a forma exterior das classes, mas as pr\u00f3prias rela\u00e7\u00f5es que as unem umas \u00e0s outras s\u00e3o de origem social. \u00c9 porque os grupos sociais se encaixam uns nos outros, o sub-cl\u00e3 [no cl\u00e3], o cl\u00e3 na fratria, a fratria na tribo, que os grupos de coisas se disp\u00f5em de acordo com a mesma ordem. A extens\u00e3o regularmente decrescente, \u00e0 medida que se passa do g\u00eanero \u00e0 esp\u00e9cie, da esp\u00e9cie \u00e0 variedade, etc., vem da extens\u00e3o igualmente decrescente que apresentam as divis\u00f5es sociais, \u00e0 medida que a gente se afasta das mais amplas e das mais antigas para aproximar-se das mais recentes e das mais derivadas. E se a totalidade das coisas \u00e9 concebida como um sistema uno, \u00e9 porque a pr\u00f3pria sociedade \u00e9 concebida da mesma maneira. Ela \u00e9 um todo, ou antes ela \u00e9 o <em>todo<\/em> \u00fanico ao qual tudo \u00e9 referido. Assim a hierarquia l\u00f3gica n\u00e3o \u00e9 mais do que outro aspecto da hierarquia social e a unidade do conhecimento n\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o a pr\u00f3pria unidade da coletividade, estendida ao universo. [&#8230;] H\u00e1 mais: os pr\u00f3prios v\u00ednculos que unem seja os seres de um mesmo grupo, seja os diferentes grupos entre si, s\u00e3o concebidos como v\u00ednculos sociais. Lembr\u00e1vamos no come\u00e7o que as express\u00f5es pelas quais ainda hoje designamos tais rela\u00e7\u00f5es t\u00eam uma significa\u00e7\u00e3o moral; mas, enquanto que para n\u00f3s quase n\u00e3o passam de met\u00e1foras,  primitivamente tinham todo o seu sentido. As coisas de uma mesma classe eram realmente consideradas como parentes dos indiv\u00edduos do mesmo grupo social e, por conseguinte, como parentes umas das outras. Elas s\u00e3o \u201cda mesma carne\u201d, da mesma fam\u00edlia. As rela\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas constituem ent\u00e3o, em certo sentido, rela\u00e7\u00f5es dom\u00e9sticas. \u00c0s vezes at\u00e9, [&#8230;] s\u00e3o totalmente compar\u00e1veis \u00e0quelas que existem entre o senhor e a coisa possu\u00edda entre o chefe e seus subordinados.  (Durkheim e Mauss 2001:452)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>AFETOS SOCIAIS<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[O]s mesmos sentimentos que est\u00e3o na base da organiza\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica, social, etc., presidiram tamb\u00e9m tal reparti\u00e7\u00e3o l\u00f3gica das coisas. Estas se atraem ou se op\u00f5em da mesma maneira como os homens s\u00e3o ligados pelo parentesco ou opostos pela desforra. Confundem num pensamento comum. Aquilo que faz com que umas se subordinem \u00e0s outras \u00e9 algo totalmente an\u00e1logo \u00e0quilo que faz com que um objeto possu\u00eddo apare\u00e7a como inferior a seu propriet\u00e1rio e o s\u00fadito a seu senhor. S\u00e3o, portanto estados de alma coletiva que deram origem a estes agrupamentos e, ademais, tais estados s\u00e3o manifestamente afetivos. H\u00e1 afinidades sentimentais entre as coisas assim como entre os indiv\u00edduos, e \u00e9 de acordo com estas afinidades que elas s\u00e3o classificadas. (Durkheim e Mauss 2001:453)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>As coisas s\u00e3o antes de tudo sagradas ou profanas, puras ou impuras, amigas ou inimigas, favor\u00e1veis ou desfavor\u00e1veis; isto significa que seus caracteres mais fundamentais limitam-se a exprimir a maneira pela qual afetam a sensibilidade social. As diferen\u00e7as e as semelhan\u00e7as que determinam a maneira pela qual se agrupam s\u00e3o mais afetivas do que intelectuais. Eis como as coisas mudam, de certa forma, de natureza de acordo com as sociedades; \u00e9 que elas afetam de maneira diferente os sentimentos dos grupos. [&#8230;] \u00c9 que cada regi\u00e3o tem seu valor afetivo pr\u00f3prio. Sob a influ\u00eancia de sentimentos diversos, ela \u00e9 referida a um princ\u00edpio religioso especial e, por conseguinte, \u00e9 dotada de virtudes <em>sui generis<\/em> que a distinguem de qual outra. E \u00e9 este valor emocional as no\u00e7\u00f5es que desempenha o papel preponderante na maneira pela qual as ideias se aproximam ou se separam. \u00c9 el[e] que serve de car\u00e1ter dominador na classifica\u00e7\u00e3o. (Durkheim e Mauss 2001:454)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ANTROPOCENTRISMO (indiv\u00edduo) N\u00c3O, SOCIOCENTRISMO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O que foi dito precedentemente permite precisar melhor em que consiste tal antropocentrismo, que seria melhor chamar de <em>sociocentrismo<\/em>. O centro dos primeiros sistemas da natureza n\u00e3o \u00e9 o indiv\u00edduo; \u00e9 a sociedade. Ela \u00e9 que se objetiva, e n\u00e3o mais o homem. [&#8230;] \u00c9 em virtude da mesma disposi\u00e7\u00e3o mental que tantos povos situaram o centro do mundo, \u201co umbigo da terra\u201d, em sua capital pol\u00edtica ou religiosa, isto \u00e9, la onde se encontra o centro de sua vida moral. Da mesma forma ainda, mas em outra ordem de ideias, a for\u00e7a criadora do universo e de tudo aquilo que a\u00ed se encontra foi concebido inicialmente como o antepassado m\u00edtico, gerador da sociedade.  (Durkheim e Mauss 2001:454)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CONCEITO CIENT\u00cdFICO x EMO\u00c7\u00c3O RELIGIOSA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Ora, o conceito \u00e9 a no\u00e7\u00e3o de um grupo de seres claramente determinado; seus limites podem ser marcados com precis\u00e3o. Ao contr\u00e1rio, a emo\u00e7\u00e3o \u00e9 uma coisa essencialmente vaporosa e inconsciente. Sua ess\u00eancia contagiosa brilha muito al\u00e9m de seu ponto de origem, estende-se a tudo aquilo que a cerca, sem que se possa dizer onde se det\u00e9m sua pot\u00eancia de propaga\u00e7\u00e3o. Os estados de natureza emocional participam necessariamente do mesmo car\u00e1ter. N\u00e3o se pode dizer nem onde come\u00e7am nem onde acabam; perdem-se uns nos outros, misturam suas propriedades de modo que n\u00e3o se pode categoriz\u00e1-los com rigor. De outro lado, para poder marcar os limites de uma classe, \u00e9 necess\u00e1rio ainda ter analisado os caracteres pelos quais se reconhecem os seres reunidos nesta classe e que os distinguem. Ora, a emo\u00e7\u00e3o \u00e9 naturalmente refrat\u00e1ria \u00e0 an\u00e1lise ou, ao menos, dificilmente se presta a isto, porque \u00e9 demasiado complexa. Sobretudo quando \u00e9 de origem coletiva, desafia o exame cr\u00edtico e l\u00f3gico. A press\u00e3o exercida pelo grupo social sobre cada um de seus membros n\u00e3o permite que os indiv\u00edduos julguem livremente as no\u00e7\u00f5es que a pr\u00f3pria sociedade elaborou e onde ela p\u00f4s alguma coisa de sua personalidade. Semelhantes constru\u00e7\u00f5es s\u00e3o sagradas para os particulares. Por isso, a hist\u00f3ria da classifica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u00e9, em \u00faltima an\u00e1lise, a pr\u00f3pria hist\u00f3ria das etapas no decurso das quais este elemento de afetividade social se enfraqueceu progressivamente deixando sempre mais o lugar livre ao pensamento refletido dos indiv\u00edduos. Mas falta muito para que estas influ\u00eancias long\u00ednquas que acabamos de estudar tenham cessado de se fazer sentir em nossos dias. Deixaram atr\u00e1s de si um efeito que sobrevive a elas e que est\u00e1 sempre presente: \u00e9 o pr\u00f3prio quadro de toda classifica\u00e7\u00e3o, \u00e9 todo este conjunto de h\u00e1bitos mentais em [virtude] dos quais nos representamos os seres e os fatos sob a forma de grupos coordenados e subordinados uns aos outros. (Durkheim e Mauss 2001:455)<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>DURKHEIM, \u00c9mile; MAUSS, Marcel. 2001. Algumas formas primitivas de classifica\u00e7\u00e3o. In: Marcel Mauss. Ensaios de sociologia. (Trad.: Luiz J. Gaio; J. Guinsburg) S\u00e3o Paulo: Perspectiva, pp.399-455. [1902] MOTE CONTRIBUI\u00c7\u00d5ES PARA O ESTUDO DAS REPRESENTA\u00c7\u00d5ES COLETIVAS (Durkheim e Mauss 2001:399) A IDEIA DE ver nos m\u00e9todos do pensamento cient\u00edfico verdadeiras institui\u00e7\u00f5es sociais cuja g\u00eanese s\u00f3 a sociologia pode descrever e explicar [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":901,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[25,88],"class_list":["post-900","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-fichamento","tag-durkheim","tag-mauss"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/QFPC.png","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/900","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=900"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/900\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":937,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/900\/revisions\/937"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/901"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=900"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=900"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=900"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}