{"id":83,"date":"2021-04-13T17:51:11","date_gmt":"2021-04-13T17:51:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=83"},"modified":"2021-04-14T03:01:32","modified_gmt":"2021-04-14T03:01:32","slug":"a-perspectiva-do-virus-galloway-e-thacker-2007","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2021\/04\/13\/a-perspectiva-do-virus-galloway-e-thacker-2007\/","title":{"rendered":"A perspectiva do v\u00edrus (Galloway e Thacker 2007)"},"content":{"rendered":"<p>GALLOWAY, Alexander R.; THACKER, Eugene. 2007. <em>The exploit: a theory of networks<\/em>. Minneapolis: University of Minnesota Press.<\/p>\n<p><strong>Segue abaixo a tradu\u00e7\u00e3o das principais passagens do livro ligadas a v\u00edrus, entre as p\u00e1ginas 82 e 91.<\/strong><\/p>\n<p><em>O objetivo para a resist\u00eancia pol\u00edtica em redes vitais deveria ser a descoberta de brechas<\/em> [<em>exploits<\/em>]<em> \u2013 melhor ainda seria a heur\u00edstica inversa: procure por brechas, e voc\u00ea encontrar\u00e1 pr\u00e1ticas pol\u00edticas.<\/em><\/p>\n<p>[&#8230;]<\/p>\n<p><em>Em termos de compreens\u00e3o reticular, uma das maiores li\u00e7\u00f5es dos v\u00edrus de computador e seus parentes (worms e cavalos de Tr\u00f3ia) \u00e9 que, como v\u00edrus biol\u00f3gicos, eles exploram brechas no funcionamento normal de seus hospedeiros para produzirem mais c\u00f3pias de si mesmos. V\u00edrus s\u00e3o vida explorando a vida.<\/em><\/p>\n<p>[&#8230;]<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que muitos pensam, nem todos os v\u00edrus de computador s\u00e3o destrutivos (o mesmo pode ser dito em biologia). V\u00edrus de computador podem certamente deletar dados, mas podem tamb\u00e9m ser demonstrativos (<em>e.g.<\/em>, demonstrar uma viola\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a), exploradores (<em>e.g.<\/em>, ganhar acesso), ou baseados no dist\u00farbio em vez da destrui\u00e7\u00e3o (<em>e.g.<\/em>, re-roteando tr\u00e1fego de rede, sobrecarregando a largura de banda da rede).<\/p>\n<p>[&#8230;]<\/p>\n<p><em>V\u00edrus de computador prosperam em ambientes com baixa diversidade.<\/em><\/p>\n<p>Onde houver monop\u00f3lio tecnol\u00f3gico, haver\u00e3o v\u00edrus. Eles se aproveitam da estandardiza\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica para se propagarem pela rede. [&#8230;] V\u00edrus e <em>worms<\/em> exploram brechas, e nesse sentido s\u00e3o um bom \u00edndice para praticas reticulares oposicionistas. Eles propagam atrav\u00e9s de brechas na estrutura l\u00f3gica do c\u00f3digo de computador. Quando uma brecha \u00e9 descoberta, a grande homogeneidade de redes computacionais permite ao v\u00edrus se propagar amplamente com relativa facilidade. Redes s\u00e3o, nesse sentido, um tipo de amplificador massivo para a a\u00e7\u00e3o. Algo pequeno pode se transformar em algo grande muito facilmente.<\/p>\n<p><em>Basta possuir um computador para saber que a disputa entre os v\u00edrus e os antiv\u00edrus muda diariamente; \u00e9 um jogo de gato-e-rato. Novos v\u00edrus s\u00e3o constantemente reescritos e lan\u00e7ados, e novos pacotes e atualiza\u00e7\u00f5es s\u00e3o constantemente carregadas em websites.<\/em><\/p>\n<p>[&#8230;]<\/p>\n<p>V\u00edrus de quinta gera\u00e7\u00e3o, ou v\u00edrus \u201cpolim\u00f3rficos\u201d, integram aspectos da vida artificial e s\u00e3o capazes de modificarem a si mesmos <em>enquanto eles se replicam e propagam atrav\u00e9s das redes<\/em>. Tais v\u00edrus cont\u00eam uma se\u00e7\u00e3o de c\u00f3digo \u2013 uma \u201cm\u00e1quina de muta\u00e7\u00e3o\u201d &#8211; cuja fun\u00e7\u00e3o \u00e9 continuamente modificar o seu c\u00f3digo de assinatura, desta forma escapando, ou ao menos confundindo, o programa antiv\u00edrus. S\u00e3o, poder\u00edamos dizer, exemplos de vida artificial.<\/p>\n<p><em>V\u00edrus como os v\u00edrus de computador polim\u00f3rficos s\u00e3o definidos pela sua habilidade de replicar sua diferen\u00e7a. Eles exploram brechas na rede.<\/em><\/p>\n<p>[&#8230;]<\/p>\n<p>V\u00edrus nunca s\u00e3o exatamente iguais. Este \u00e9 um dos aspectos centrais e mais perturbadores dos v\u00edrus biol\u00f3gicos \u2013 sua habilidade de introduzirem muta\u00e7\u00f5es de maneira r\u00e1pida e cont\u00ednua em seus c\u00f3digos gen\u00e9ticos. [&#8230;] Essa habilidade permite ao v\u00edrus n\u00e3o apenas explorar organismos hospedeiros que anteriormente n\u00e3o lhe eram acess\u00edveis, mas tamb\u00e9m cruzar sem esfor\u00e7o fronteiras entre esp\u00e9cies, por meio de organismos hospedeiros. Existe uma certa \u201canimalidade\u201d espec\u00edfica ao v\u00edrus biol\u00f3gico, j\u00e1 que age como um conector entre formas vivas, atravessando esp\u00e9cies, g\u00e9neros, filos e reinos. No final do s\u00e9culo XX e in\u00edcio do XXI, organiza\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de sa\u00fade como a World Healt Organization (WHO) e os Centers for Disease Control and Prevention (CDC) come\u00e7aram a ver uma nova classe emergente de doen\u00e7as, doen\u00e7as causadas por micr\u00f3bios com alta taxa de muta\u00e7\u00e3o e que eram capazes de se espalhar pelo mundo em quest\u00e3o de dias.<\/p>\n<p><em>Essas \u201cdoen\u00e7as infecciosas emergentes\u201d s\u00e3o compostas por agregados de formas vivas: micr\u00f3bio-pulga-macaco-humano, micr\u00f3bio-galinha-humano, micr\u00f3bio-vaca-humano, our humano-micr\u00f3bio-humano. Em certo sentido, isso vale para qualquer epidemia: em meados do s\u00e9culo XIV, a Peste Negra foi um conjunto de bacilo-pulga-rato-humano, uma rede de cont\u00e1gio parcialmente percorrida por navios de mercadorias ao longo de rotas de trocas.<\/em><\/p>\n<p>V\u00edrus biol\u00f3gicos s\u00e3o conectores que transgridem os sistemas de classifica\u00e7\u00e3o e nomenclaturas que definimos como sendo o mundo natural ou as ci\u00eancias da vida. Os efeitos dessa rede s\u00e3o, evidentemente, muito pouco desej\u00e1veis. Mas seria equivocado atribuir mal\u00edcia e intencionalidade a uma cadeia de RNA e a um revestimento prot\u00e9ico [protein coating], mesmo que n\u00f3s humanos insistamos incansavelmente em antropomorfizar os n\u00e3o-humanos com os quais interagimos. Qual \u00e9, ent\u00e3o, a perspectiva do v\u00edrus? Talvez a microbiologia contempor\u00e2nea possa nos dar uma pista, j\u00e1 que o estudo dos v\u00edrus na era da dupla h\u00e9lice se tornou quase indistingu\u00edvel da ci\u00eancia da informa\u00e7\u00e3o. Essa perspectiva do v\u00edrus n\u00e3o tem nada a ver com natureza, animais ou humanos; ela s\u00f3 diz respeito a opera\u00e7\u00f5es sobre um c\u00f3digo (neste caso, uma cadeia \u00fanica de RNA) que tem dois efeitos \u2013 a c\u00f3pia desse c\u00f3digo dentro de um organismo hospedeiro, e a muta\u00e7\u00e3o desse c\u00f3digo para ganhar acesso a uma c\u00e9lula hospedeira.<\/p>\n<p><em>Replica\u00e7\u00e3o e criptografia s\u00e3o, portanto, as duas atividades que definem o v\u00edrus. O que importa n\u00e3o \u00e9 se o h\u00f3spede \u00e9 uma \u201cbact\u00e9ria\u201d, um \u201canimal\u201d ou um \u201chumano\u201d, mas sim qual \u00e9 o seu c\u00f3digo \u2013 o n\u00famero, ou numerologia, do animal.<\/em><\/p>\n<p>Reiteramos que a perspectiva do v\u00edrus funciona por meio da replica\u00e7\u00e3o e da criptografia, uma conjun\u00e7\u00e3o de dois procedimentos. [&#8230;] [O] tipo de criptografia envolvido \u00e9 baseado na muta\u00e7\u00e3o e na morfologia, na recombina\u00e7\u00e3o e no rec\u00e1lculo como meios de nunca-ser-o-mesmo. A perspectiva do v\u00edrus \u00e9 \u201ccriptogr\u00e1fica\u201d pois ele replica essa diferen\u00e7a, esse status paradoxal de nunca-ser-o-mesmo. Sempre novamente, ele nunca \u00e9 o mesmo. O que nos surpreende n\u00e3o \u00e9 que o virus seja de alguma maneira \u201ctransgressivo\u201d, cruzando fronteiras espec\u00edficas (no caso de v\u00edrus biol\u00f3gicos) ou diferentes plataformas (no caso dos v\u00edrus de computador). A perspectiva do v\u00edrus, se de fato podemos compreender sua qualidade n\u00e3o-humana, n\u00e3o \u00e9 qualquer peda\u00e7o de c\u00f3digo rebelde ou intruso infiltrando \u201co sistema\u201d. O que nos surpreende \u00e9 que a perspectiva do v\u00edrus apresenta o ser animal e a vida criatural [creaturely life] de maneira <em>ileg\u00edvel<\/em> e <em>incalcul\u00e1vel<\/em>, como uma quest\u00e3o de c\u00e1lculo tel\u00farico [chthonic] e replica\u00e7\u00e3o oculta. Essa \u00e9 a estranha numerologia do animal, que torna irrelevantes as fronteiras entre esp\u00e9cies.<\/p>\n<p>[&#8230;]<\/p>\n<p><em>V\u00edrus s\u00e3o entidades que existem apenas em virtude da cont\u00ednua replica\u00e7\u00e3o de diferen\u00e7a num\u00e9rica.<\/em><\/p>\n<p>[&#8230;]<\/p>\n<p>Se os v\u00edrus s\u00e3o realmente definidos por sua habilidade para replicar sua diferen\u00e7a, podemos perguntar, o que permanece id\u00eantico atrav\u00e9s das mudan\u00e7as? Uma resposta \u00e9 que o que permanece igual \u00e9 a estrutura particular da mudan\u00e7a \u2013 permuta\u00e7\u00f5es de c\u00f3digo gen\u00e9tico ou digital. Existe um <em>devir-n\u00famero<\/em> espec\u00edfico aos v\u00edrus, biol\u00f3gicos ou computacionais, uma matem\u00e1tica ou combinat\u00f3ria na qual a pr\u00f3pria transforma\u00e7\u00e3o \u2013 via explora\u00e7\u00e3o sempre nova de brechas na rede \u2013 \u00e9 a identidade do v\u00edrus.<\/p>\n<p><em>Se  v\u00edrus de computador \u00e9 um fen\u00f4meno tecnol\u00f3gico envolto numa met\u00e1fora biol\u00f3gica, doen\u00e7as infecciosas emergentes s\u00e3o um fen\u00f4meno biol\u00f3gico envolto num paradigma tecnol\u00f3gico. Assim como nos v\u00edrus de computador, doen\u00e7as infecciosas emergentes constituem um exemplo de fen\u00f4meno de contra-protocolo.<\/em><\/p>\n<p>Dessa forma, a epidemiologia se tornou um m\u00e9todo apropriado para estudar v\u00edrus de computador. Doen\u00e7as infecciosas emergentes dependem de, e usam, as mesmas propriedades topol\u00f3gicas que constituem as redes. A mesma coisa que d\u00e1 \u00e0 rede seu car\u00e1ter distribu\u00eddo, sua horizontalizada, \u00e9 assim transformada em uma ferramenta para a destrui\u00e7\u00e3o da rede.<\/p>\n<p>Um exemplo \u00e9 a identifica\u00e7\u00e3o da Severe Acute Respiratory Syndrome (SARS) em 2003. [&#8230;] Muito mais do que uma rede biol\u00f3gica, a SARS une redes de transporte, institucionais e de comunica\u00e7\u00e3o (de maneiras que \u00e0s vezes lembram um romance m\u00e9dico [a medical thriller novel]). Em novembro de 2002, os primeiros casos de SARS (ent\u00e3o chamada de \u201cpneumonia at\u00edpica\u201d) apareceu na prov\u00edncia de Guangdong, no sul da China. Em meados de fevereiro de 2003, a WHO e outras ag\u00eancias de sa\u00fade foram alertadas sobre um novo tipo de pneumonia saindo da China. O governo chin\u00eas relatou cerca de 300 casos, muitos na regi\u00e3o da prov\u00edncia de Guangdong. No final de fevereiro, um m\u00e9dico que havia cuidado de pacientes com pneumonia at\u00edpica em Guangdong retornou ao se hotel em Hong Kong. A rede biol\u00f3gica se cruzou com a rede de transporte. A WHO estima que esse m\u00e9dico havia, no trajeto, infectado pelo menos doze outras pessoas, que depois viajaram para o Vietn\u00e3, Canad\u00e1 e EUA. Alguns dias depois, m\u00e9dicos de Hong Kong relataram os primeiros casos daquilo que eles come\u00e7aram a chamar de \u201cSARS\u201d. Algumas semanas depois, em meados de mar\u00e7o, agentes de sa\u00fade em Toronto, Manila e Singapura relataram os primeiros casos de SARS. Intermediando redes institucionais e de comunica\u00e7\u00e3o, a WHO emitiu uma advert\u00eancia de viagem [&#8230;], estimulando o controle da passagem em aeroportos para v\u00f4os de e para locais como Toronto e Hong Kong. Ao mesmo tempo, a WHO organizou uma teleconfer\u00eancia internacional entre agentes e administradores da \u00e1rea da sa\u00fade (incluindo a CDC), concordando em compartilhar informa\u00e7\u00f5es relativas a casos de SARS. O carregamento de dados de pacientes ligados \u00e0 SARS para a base de dados da WHO come\u00e7ou imediatamente. A rede profissional se mediou com [interfaced with] a rede institucional, se estendendo at\u00e9 a rede de computadores. Em meados de mar\u00e7o, cientistas na CDC sugeriram que um novo [mutated] coronavirus (que causa a gripe comum em muitos mam\u00edferos) pode estar ligada \u00e0 SARS. Ent\u00e3o, em 14 de abril, cientistas no Michael Smith Genome Sciences Centre, em Vancouver, sequenciaram o DNA do coronavirus SARS em seis dias (o que seria repetido por cientistas alguns dias depois). Em abril de 2003, a SARS continuou a dominar as manchetes dos notici\u00e1rios, reiteradamente nas capas da <em>Time<\/em>, <em>Newsweek<\/em> e <em>U.S. News<\/em>.<\/p>\n<p>Apesar da not\u00e1vel coordena\u00e7\u00e3o e coopera\u00e7\u00e3o via diferentes redes, no n\u00edvel biol\u00f3gico a SARS continuava a transformar e a afetar essas mesmas redes. No in\u00edcio de abril de 2003, o governo dos EUA emitiu uma ordem executiva permitindo a quarentena de pessoas saud\u00e1veis suspeitas de estarem infectadas com SARS, mas que ainda n\u00e3o tinham sintomas. Entre mar\u00e7o e abril de 2003, medidas de quarentena foram tomadas em Ontario, Hong Kong, Singapura e Beijing. Pr\u00e9dios residenciais, hospitais e espa\u00e7os p\u00fablicos como supermercados, cinemas e shopping centers foram todos isolados e sofreram quarentena. Pessoas de Toronto a Beijing foram vistas frequentemente usando m\u00e1scaras cir\u00fargicas para evitar a infec\u00e7\u00e3o. No final de abril, o avan\u00e7o da SARS parecia ter se estabilizado. Agentes da WHO afirmaram que os casos de SARS atingiram o pico no Canad\u00e1, Singapura, Hong Kong e Vietnam (mas n\u00e3o na China). Muitos pa\u00edses relataram um decr\u00e9scimo no n\u00famero de casos de SARS, apesar de nenhuma vacina ter sido desenvolvida. No final de maio de 2003, agentes de sa\u00fade dos EUA alertaram que o v\u00edrus SARS muito provavelmente reaparecer\u00e1 na pr\u00f3xima esta\u00e7\u00e3o de gripe.<\/p>\n<p>Devemos imediatamente notar algo sobre a SARS como uma doen\u00e7a infecciosa emergente. Ela \u00e9, em primeiro lugar, um exemplo de rede biol\u00f3gica. Mas ela \u00e9 tamb\u00e9m mais do que biol\u00f3gica.<\/p>\n<p><em>SARS e outras doen\u00e7as infecciosas emergentes s\u00e3o as novas virologias da globaliza\u00e7\u00e3o; o pr\u00f3prio sentido do termo \u201cdoen\u00e7a infecciosa emergente\u201d implica isso. Doen\u00e7as infecciosas emergentes s\u00e3o produtos da globaliza\u00e7\u00e3o. Isso pois elas s\u00e3o altamente dependentes de uma ou mais redes.<\/em><\/p>\n<p>O coronavirus SARS usou tr\u00eas tipos de redes e as uniu em uma s\u00f3: (1) a rede biol\u00f3gica de infec\u00e7\u00e3o (muitas vezes dentro de centros m\u00e9dicos); (2) a rede de transporte de aeroportos e hot\u00e9is; e (3) as redes de comunica\u00e7\u00e3o de not\u00edcias, websites, bases de dados e teleconfer\u00eancias internacionais. Sem uma rede de transporte, o v\u00edrus SARS poderia bem ter sido um fen\u00f4meno chin\u00eas localizado, nunca chegando t\u00e3o longe quanto Toronto. E enquanto os relatos jornal\u00edsticos nos EUA serviram principalmente para educar um p\u00fablico preocupado, eles tamb\u00e9m serviram para aumentar a ansiedade de uma popula\u00e7\u00e3o j\u00e1 sensibilizada para o bioterrorismo. Mais importante ainda \u00e9, talvez, a maneira como o v\u00edrus SARS explorou essas redes at\u00e9 o seu esgotamento: pr\u00e9dios em quarentena, imposi\u00e7\u00e3o de restri\u00e7\u00f5es a viagens a\u00e9reas, pessoas sendo realocadas ou isoladas.<\/p>\n<p><em>Doen\u00e7as infecciosas emergentes como a SARS n\u00e3o apenas operam simultaneamente atrav\u00e9s de diferentes redes, mas ao faz\u00ea-lo tamb\u00e9m transgridem algumas fronteiras. A li\u00e7\u00e3o aqui \u00e9 que a flexibilidade e a robustez da rede s\u00e3o consonantes com a transgress\u00e3o de fronteiras.<\/em><\/p>\n<p>O v\u00edrus SARS, por exemplo, cruza as fronteiras das esp\u00e9cies quando pula de animais para humanos. Ele tamb\u00e9m cruza fronteiras nacionais em suas viagens entre China, Canad\u00e1, EUA e sudeste da \u00c1sia. Ele cruza fronteiras econ\u00f4micas, afetando a avia\u00e7\u00e3o comercial, o turismo e as ind\u00fastrias de entretenimento, mas tamb\u00e9m oferecendo iniciativa e novos mercados para corpora\u00e7\u00f5es farmac\u00eauticas. Finalmente, ele cruza a fronteira entre a natureza e o artif\u00edcio, ao juntar v\u00edrus, organismos, computadores, bases de dados e o desenvolvimento de vacinas. Sua t\u00e1tica \u00e9 a <em>inunda\u00e7\u00e3o<\/em>, um antigo antagonista da rede.<\/p>\n<p>Mas redes biol\u00f3gicas como no caso da SARS n\u00e3o s\u00e3o limitadas apenas a doen\u00e7as que poderiam ser entendidas como ocorrendo naturalmente. Seus efeitos de rede podem ser vistos em outro tipo de rede biol\u00f3gica \u2013 aquela do bioterrorismo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GALLOWAY, Alexander R.; THACKER, Eugene. 2007. The exploit: a theory of networks. Minneapolis: University of Minnesota Press. 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