{"id":73,"date":"2021-04-13T17:25:27","date_gmt":"2021-04-13T17:25:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=73"},"modified":"2021-04-14T02:14:41","modified_gmt":"2021-04-14T02:14:41","slug":"o-fato-social-elementar-em-tarde-2011","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2021\/04\/13\/o-fato-social-elementar-em-tarde-2011\/","title":{"rendered":"O fato social elementar em Tarde (2011)"},"content":{"rendered":"<p>TARDE, Gabriel. 2011. <em>As leis sociais: um esboc\u0327o de sociologia<\/em>. (Trad.: Francisco T. Fuchs) Nitero\u0301i: Editora da UFF. [1898]<\/p>\n<p><strong>PORMENORES-INFINITESIMAL (com refer\u00eancia \u00e0 ideia de elementos qu\u00edmicos)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Eu creio que e\u0301 impossi\u0301vel explicar as dessemelhanc\u0327as a\u0300s quais me refiro &#8211; mesmo que fossem apenas essas desigualdades de posic\u0327a\u0303o e essa caprichosa distribuic\u0327a\u0303o de mate\u0301ria atrave\u0301s do espac\u0327o &#8211; pela hipo\u0301tese, ta\u0303o cara aos qui\u0301micos (que sa\u0303o, quanto a isso, os verdadeiros metafi\u0301sicos), de elementos ato\u0302micos perfeitamente semelhantes. Creio que a pretensa lei de Spencer sobre a <em>instabilidade do homoge\u0302neo<\/em> nada explica, e que, por conseque\u0302ncia, a u\u0301nica maneira de explicar a florac\u0327a\u0303o de exuberantes diversidades a\u0300 superfi\u0301cie dos feno\u0302menos e\u0301 admitir no fundo das coisas uma tumultuosa infinidade de elementos caracterizados individualmente. Assim, do mesmo modo que as similitudes de massa foram resolvidas em similitudes de pormenor, as diferenc\u0327as de massa, grosseiras e bem visi\u0301veis, se transformaram em diferenc\u0327as de pormenor infinitamente sutis. E assim como as similitudes de pormenor permitem explicar por si mesmas as similitudes de conjunto, as diferenc\u0327as de pormenor, essas originalidades elementares e invisi\u0301veis que eu vislumbro, permitem igualmente explicar por si mesmas as diferenc\u0327as aparentes e grandiosas, o pitoresco do universo visi\u0301vel. (Tarde 2011:26)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>HEREDITARIEDADE (h\u00e1bito exteriorizado) COMO REPETI\u00c7\u00c3O VITAL<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>E a <em>biologia<\/em>, si\u0301ntese da zoologia e da bota\u0302nica, nasceu no dia em que a teoria celular mostrou que, tanto nos animais como nas plantas, a ce\u0301lula era o elemento infinitamente repetido, primeiramente a ce\u0301lula germinal, e depois todas as outras que dela procedem; e que o feno\u0302meno vital elementar e\u0301 a repetic\u0327a\u0303o indefinida, em cada ce\u0301lula, dos modos de nutric\u0327a\u0303o e de atividade, de crescimento e de proliferac\u0327a\u0303o, cujo depo\u0301sito tradicional ela recebeu de heranc\u0327a e transmitira\u0301 fielmente a\u0300 sua posteridade. Essa conformidade aos precedentes que se chama de ha\u0301bito ou de hereditariedade &#8211; digamos, numa palavra, hereditariedade, ja\u0301 que o ha\u0301bito e\u0301 uma hereditariedade interna e a hereditariedade e\u0301 um ha\u0301bito exteriorizado &#8211; e\u0301 a forma propriamente vital da repetic\u0327a\u0303o; tal como a ondulac\u0327a\u0303o ou, em geral, o movimento perio\u0301dico, e\u0301 sua forma fi\u0301sica, tal como a imitac\u0327a\u0303o, como veremos, e\u0301 sua forma social. (Tarde 2011:27)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O FATO SOCIAL ELEMENTAR \u00e9 INTER-CEREBRAL<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Felizmente, a\u0300 sombra e ao abrigo dessas ambiciosas generalizac\u0327o\u0303es, trabalhadores mais modestos se esforc\u0327avam, com mais sucesso, para anotar leis de pormenor de uma solidez bem diferente. Eles eram linguistas, mito\u0301logos, sobretudo economistas. Esses especialistas da sociologia perceberam va\u0301rias relac\u0327o\u0303es interessantes entre fatos consecutivos ou concomitantes, relac\u0327o\u0303es que se reproduziam a cada instante nos limites do pequeno domi\u0301nio que eles estudavam: encontra-se na <em>Riqueza das Nac\u0327o\u0303es<\/em> de Adam Smith, na <em>Grama\u0301tica comparada das li\u0301nguas indo-europe\u0301ias<\/em> de Bopp e na obra de Dietz, para ficar nesses tre\u0302s exemplos, uma enorme quantidade de observac\u0327o\u0303es desse ge\u0302nero, nas quais se exprime uma similitude entre inumera\u0301veis ac\u0327o\u0303es humanas como a pronu\u0301ncia de certas consoantes ou de certas vogais, as compras e as vendas, a produc\u0327a\u0303o e o consumo de certos artigos, etc. E\u0301 verdade que essas similitudes, nelas mesmas, deram lugar a leis imperfeitas, relativas ao <em>plerumque fit<\/em>, quando os linguistas ou economistas tentaram formula\u0301-las em leis; mas e\u0301 porque se teve demasiada pressa para enuncia\u0301-las, antes mesmo de se discernir, no seio dessas verdades parciais, a verdade geral que elas implicam, o <strong>fato social elementar<\/strong> que a sociologia persegue obscuramente e que ela deve atingir para realizar-se. [&#8230;] Muitas vezes pressentiu-se que essa explicac\u0327a\u0303o geral das leis ou pseudo-leis (econo\u0302micas, lingui\u0301sticas, mitolo\u0301gicas ou outras) cabia a\u0300 psicologia. Ningue\u0301m compreendeu isso com mais forc\u0327a e clareza do que Stuart Mill. No fim de sua <em>Lo\u0301gica<\/em>, ele concebeu a sociologia como a psicologia aplicada. O problema e\u0301 que ele na\u0303o exprimiu seu pensamento com suficiente precisa\u0303o, e a psicologia a\u0300 qual ele se dirigiu para obter a chave dos feno\u0302menos sociais era a psicologia meramente individual, aquela que estuda as relac\u0327o\u0303es internas entre impresso\u0303es ou imagens no interior de um mesmo ce\u0301rebro, e que acredita dar conta de tudo, nesse domi\u0301nio, pelas <em>leis de associac\u0327a\u0303o<\/em> desses elementos internos. Assim concebida, a sociologia se tornava uma espe\u0301cie de associacionismo ingle\u0302s aumentado e exteriorizado, e perdia sua originalidade. Na\u0303o e\u0301 exatamente ou unicamente a essa psicologia <em>intra<\/em>-cerebral, e\u0301 antes de tudo a\u0300 psicologia <em>inter<\/em>-cerebral, que estuda o estabelecimento de relac\u0327o\u0303es conscientes entre muitos indivi\u0301duos, que conve\u0301m pedir o <strong>fato social elementar<\/strong>, cujos grupamentos ou combinac\u0327o\u0303es mu\u0301ltiplas constituem os feno\u0302menos ditos simples, objetos das cie\u0302ncias sociais particulares. O contato de um espi\u0301rito com outro e\u0301, com efeito, na vida de cada um deles, um acontecimento a\u0300 parte, que se destaca vivamente do conjunto de seus contatos com o resto do universo e da\u0301 lugar aos estados de alma mais imprevisi\u0301veis (e mais inexplica\u0301veis pela psicologia fisiolo\u0301gica). (Tarde 2011:30-1)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>QUANTIFICA\u00c7\u00c3O, SOCIOLOGIA e ESTAT\u00cdSTICA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Quando eu disse que toda cie\u0302ncia verdadeira chega a um domi\u0301nio pro\u0301prio de repetic\u0327o\u0303es elementares, inumera\u0301veis e infinitesimais, e\u0301 como se eu ja\u0301 houvesse dito que toda cie\u0302ncia verdadeira fundamenta-se em quantidades que lhe sa\u0303o especi\u0301ficas. A quantidade, com efeito, e\u0301 a possibilidade de se\u0301ries infinitas e de repetic\u0327o\u0303es infinitamente pequenas. Eis porque eu me permiti insistir sobre o cara\u0301ter quantitativo das duas energias mentais que, como dois rios divergentes, banham a dupla face do eu, sua atividade mental e sua atividade volunta\u0301ria. Negar esse cara\u0301ter e\u0301 declarar a impossibilidade da sociologia. Mas na\u0303o se pode nega\u0301-lo sem recusar a evide\u0302ncia, e esta e\u0301 a prova de que as quantidades em questa\u0303o sa\u0303o propriamente sociais: sua natureza quantitativa aparece tanto melhor, e fere o espi\u0301rito com maior vivacidade e clareza, quando sa\u0303o consideradas em massas mais amplas, sob a forma de correntes de fe\u0301 ou de paixa\u0303o popular, de convicc\u0327o\u0303es tradicionais ou opiniaticidades costumeiras, abrac\u0327ando grupos humanos mais numerosos. Quanto mais cresce uma coletividade, e mais se eleva ou apequena uma opinia\u0303o, ou seja, a crenc\u0327a ou o querer nacional, afirmativo ou negativo, em relac\u0327a\u0303o a um objeto dado &#8211; alta ou baixa exemplarmente expressa pelas cotac\u0327o\u0303es da Bolsa &#8211; mais ela se torna susceti\u0301vel de medida e compara\u0301vel aos movimentos de pressa\u0303o atmosfe\u0301rica ou a\u0300 forc\u0327a viva de uma queda d\u2019a\u0301gua. E\u0301 por isso que a estati\u0301stica se desenvolve com crescente facilidade a\u0300 medida que os Estados crescem; o e\u0302xito da estati\u0301stica, cujo objeto pro\u0301prio e\u0301 pesquisar e discernir quantidades verdadeiras na barafunda dos fatos sociais, e\u0301 proporcional a\u0300 sua obstinac\u0327a\u0303o de medir, no fundo, por meio dos atos humanos que adiciona, massas de crenc\u0327as e de desejos. A estati\u0301stica dos valores da Bolsa exprime as variac\u0327o\u0303es da confianc\u0327a pu\u0301blica no sucesso de tais ou tais empresas, na solve\u0302ncia de tais ou tais Estados devedores, e as variac\u0327o\u0303es do desejo pu\u0301blico, do interesse pu\u0301blico, ao qual se da\u0301 satisfac\u0327a\u0303o por essas di\u0301vidas e por essas empresas. A estati\u0301stica industrial e agri\u0301cola exprime a importa\u0302ncia das necessidades gerais que reclamam a produc\u0327a\u0303o de tais ou tais artigos e a suposta convenie\u0302ncia dos meios necessa\u0301rios para satisfaze\u0302-las. A consulta da estati\u0301stica judicia\u0301ria, em suas enumerac\u0327o\u0303es de processos e delitos, so\u0301 e\u0301 interessante porque a travessia de suas linhas permite, ano apo\u0301s ano, a leitura da progressa\u0303o ou regressa\u0303o dos desejos pu\u0301blicos engajados em vias processuais ou delituosas: por exemplo, a tende\u0302ncia ao divo\u0301rcio ou ao roubo, e tambe\u0301m a proporc\u0327a\u0303o de esperanc\u0327as pu\u0301blicas voltadas para certos processos ou delitos. A estati\u0301stica populacional, que sob muitos aspectos e\u0301 meramente biolo\u0301gica e diz respeito a\u0300 propagac\u0327a\u0303o da espe\u0301cie, tambe\u0301m e\u0301 sociolo\u0301gica na medida em que diz respeito a\u0300 durac\u0327a\u0303o e aos progressos das instituic\u0327o\u0303es sociais, e exprime o crescimento ou o decre\u0301scimo do desejo de paternidade e de maternidade, bem como da crenc\u0327a geral de que a felicidade e\u0301 obtida a partir do casamento e das unio\u0303es fecundas. (Tarde 2011:33-4)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>FATO SOCIAL e IMITA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Voltemos ao casal social elementar que mencionei anteriormente, na\u0303o o casal do homem e da mulher que se amam &#8211; esse casal, considerado do ponto de vista sexual, e\u0301 puramente vital &#8211; mas o casal de duas pessoas, seja qual for o sexo a que elas pertencem, no qual uma age espiritualmente sobre a outra. Eu afirmo que a relac\u0327a\u0303o entre essas duas pessoas e\u0301 o elemento u\u0301nico e necessa\u0301rio da vida social, e que ele consiste sempre, originalmente, em uma imitac\u0327a\u0303o de um pelo outro. [&#8230;] O incontesta\u0301vel e\u0301 que dizendo, fazendo, pensando na\u0303o importa o que, uma vez engajados na vida social, no\u0301s imitamos outrem a cada instante, a menos que no\u0301s inovemos, o que e\u0301 raro; e ainda e\u0301 fa\u0301cil mostrar que nossas inovac\u0327o\u0303es sa\u0303o, em sua maior parte, combinac\u0327o\u0303es de exemplos anteriores, e que elas permanecem estranhas a\u0300 vida social enquanto na\u0303o forem imitadas. [&#8230;] Assim, o cara\u0301ter constante de um fato social, seja ele qual for, e\u0301 imitativo; e esse cara\u0301ter e\u0301 pro\u0301prio e exclusivo dos fatos sociais. [&#8230;] Com efeito, na\u0303o e\u0301 evidente que povos rivais ou mesmo inimigos tendem a se fundir a\u0300 medida que assimilam suas instituic\u0327o\u0303es? Assim, e\u0301 certo que cada novo ato de imitac\u0327a\u0303o tende a conservar ou fortificar o lac\u0327o social, na\u0303o apenas entre indivi\u0301duos ja\u0301 associados, mas tambe\u0301m entre indivi\u0301duos ainda na\u0303o associados, de modo que a imitac\u0327a\u0303o prepara a associac\u0327a\u0303o de amanha\u0303, ou seja, tece agora, por meio de fios invisi\u0301veis, aquilo que ira\u0301 se tornar um lac\u0327o manifesto. (Tarde 2011:35-7)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>SOCIOLOGIA MODERNA \u00e9 INFINITESIMAL<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O que eu tenho a ressaltar no momento e\u0301 que a sociologia, assim compreendida, difere das antigas concepc\u0327o\u0303es que reinavam sob esse nome tal como a astronomia moderna difere da dos gregos, ou tal como a biologia, a partir da teoria celular, difere da histo\u0301ria natural de outrora. Dito de outro modo, ela repousa sobre um fundamento de similitudes e de repetic\u0327o\u0303es elementares e verdadeiras, infinitamente numerosas e extremamente precisas, que substitui\u0301ram, como mate\u0301ria primeira da elaborac\u0327a\u0303o cienti\u0301fica, um pequeno nu\u0301mero de falsas ou vagas &#8211; e decepcionantes &#8211; analogias. (Tarde 2011:38-9)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O ANTI-DURKHEIM<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Em resumo, essa concepc\u0327a\u0303o e\u0301 quase o inverso da concepc\u0327a\u0303o professada pelos <em>evolucionistas unilineares<\/em> e tambe\u0301m por Durkheim: ao inve\u0301s de explicar tudo pela pretensa imposic\u0327a\u0303o de uma <em>lei de evoluc\u0327a\u0303o<\/em> que constrangeria os feno\u0302menos de conjunto a se reproduzir, a se repetir identicamente numa certa ordem, ao inve\u0301s de explicar o <em>pequeno<\/em> pelo <em>grande<\/em>, o <em>detalhe<\/em> pelo <em>conjunto<\/em>, eu explico as similitudes de conjunto pela acumulac\u0327a\u0303o de pequenas ac\u0327o\u0303es elementares, o <em>grande<\/em> pelo <em>pequeno<\/em>, o <em>conjunto<\/em> pelo <em>pormenor<\/em>. Essa maneira de ver esta\u0301 destinada a produzir na sociologia as mesmas transformac\u0327o\u0303es que a introduc\u0327a\u0303o da ana\u0301lise infinitesimal produziu na matema\u0301tica. (Tarde 2011:39 nota 25)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>FAZER <em>A<\/em> CI\u00caNCIA SOCIAL A PARTIR <em>DAS<\/em> CI\u00caNCIAS SOCIAIS (o anti-organicista)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Antes que se descobrisse algum fato astrono\u0302mico elementar, como a atrac\u0327a\u0303o descrita pela lei newtoniana, ou pelo menos a gravitac\u0327a\u0303o eli\u0301ptica, houve <em>conhecimentos<\/em> astrono\u0302micos heteroge\u0302neos &#8211; uma cie\u0302ncia da Lua, <em>selenologia<\/em>, uma cie\u0302ncia do Sol, <em>heliologia<\/em> &#8211; mas na\u0303o a astronomia. Antes que se descobrisse um fato qui\u0301mico elementar (afinidades, combinac\u0327o\u0303es em proporc\u0327o\u0303es definidas), houve <em>conhecimentos<\/em> qui\u0301micos, <em>qui\u0301micas<\/em> especiais, do ferro, do estanho, do cobre, etc., mas na\u0303o <em>a<\/em> qui\u0301mica. Antes que se descobrisse o fato fi\u0301sico essencial &#8211; a comunicac\u0327a\u0303o ondulato\u0301ria do movimento molecular &#8211; houve <em>conhecimentos<\/em> fi\u0301sicos: o\u0301tica, acu\u0301stica, termologia, eletrologia, mas na\u0303o <em>a<\/em> fi\u0301sica. A fi\u0301sica tornou-se fi\u0301sico-qui\u0301mica, a cie\u0302ncia da natureza inorga\u0302nica inteira, quando entreviu a possibilidade de explicar tudo pelas leis fundamentais da meca\u0302nica, ou seja, quando acreditou descobrir, como fato inorga\u0302nico elementar, a reac\u0327a\u0303o igual e contra\u0301ria a\u0300 ac\u0327a\u0303o, a conservac\u0327a\u0303o da energia, a reduc\u0327a\u0303o de todas as forc\u0327as em formas de movimento, o <em>equivalente meca\u0302nico<\/em> do calor, da eletricidade, da luz, etc. Enfim, antes da descoberta das analogias existentes, do ponto de vista da reproduc\u0327a\u0303o, entre os animais e as plantas, nem mesmo havia uma bota\u0302nica e uma zoologia, mas <em>bota\u0302nicas<\/em> e <em>zoologias<\/em>, ou seja, uma hipologia, uma cinologia, etc. Mas a descoberta de similitudes so\u0301 conferia uma unidade muito parcial a todas essas cie\u0302ncias esparsas, a esses <em>membra disjecta<\/em> da futura biologia. A biologia somente nasceu de fato quando a teoria celular veio mostrar o fato vital elementar, o funcionamento da ce\u0301lula (ou do elemento histolo\u0301gico) e sua proliferac\u0327a\u0303o, perpetuada pelo o\u0301vulo, ele mesmo ce\u0301lula, de modo que a nutric\u0327a\u0303o e a gerac\u0327a\u0303o passaram a ser encaradas sob um mesmo a\u0302ngulo. [&#8230;] Muito bem, trata-se agora de fazer, similarmente, <em>a <\/em>cie\u0302ncia social a partir <em>das<\/em> cie\u0302ncias sociais. Ja\u0301 houve, com efeito, cie\u0302ncias sociais, ao menos esboc\u0327adas, prelu\u0301dios de cie\u0302ncia poli\u0301tica, de lingui\u0301stica, de mitologia comparada, de este\u0301tica, de moral, uma economia poli\u0301tica ja\u0301 bem avanc\u0327ada, muito antes que houvesse o embria\u0303o de uma sociologia. <strong><em>A<\/em> sociologia supo\u0303e um fato social elementar<\/strong>. E ela o supo\u0303e com tal forc\u0327a que, enquanto na\u0303o havia chegado a descobri-lo &#8211; talvez porque ele estivesse na sua cara, se me perdoam essa expressa\u0303o &#8211; ela sonhava com ele, ela o imaginava sob a forma de uma dessas similitudes va\u0303s e imagina\u0301rias que atravancam o berc\u0327o de todas as cie\u0302ncias, e acreditava dizer algo de profundamente instrutivo ao conceber uma sociedade como um grande organismo, o indivi\u0301duo (ou, segundo outros, a fami\u0301lia) como a ce\u0301lula social, e toda forma de atividade social como uma func\u0327a\u0303o de tipo celular. Eu ja\u0301 fiz os maiores esforc\u0327os, juntamente com a maior parte dos socio\u0301logos, para desembarac\u0327ar a cie\u0302ncia nascente dessa estorvante concepc\u0327a\u0303o. (Tarde 2011:41-2)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ELEMENTO MATEM\u00c1TICO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[F]oi somente a partir da invenc\u0327a\u0303o do ca\u0301lculo infinitesimal, quando se desceu ate\u0301 o elemento matema\u0301tico indecomponi\u0301vel cujas repetic\u0327o\u0303es indefinidas tudo explicam, que a fecundidade matema\u0301tica apareceu em sua plenitude. (Tarde 2011:44 nota 26)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>F\u00cdSICA e QU\u00cdMICA (dos 4 elementos \u00e0 tabela peri\u00f3dica)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A fi\u0301sica e a qui\u0301mica, tal como a astronomia, comec\u0327aram com falsos contra\u0301rios. Os <em>quatro elementos<\/em> concebidos pelos primeiros fi\u0301sicos se opunham dois a dois: a a\u0301gua e o fogo, o ar e a terra. Imaginavam-se antipatias inatas entre determinadas substa\u0302ncias. Vieram a\u0300 luz ideias mais sa\u0303s sobre a verdadeira natureza das oposic\u0327o\u0303es fi\u0301sicas e qui\u0301micas quando se descobriu o cara\u0301ter de algum modo oposto dos a\u0301cidos e bases, e sobretudo das eletricidades de nome contra\u0301rio, assim como a polaridade luminosa. A ideia de polaridade, que desempenhou um papel ta\u0303o grande nas teorias fi\u0301sico-qui\u0301micas, marcou um enorme progresso sobre as concepc\u0327o\u0303es anteriores; e agora ela mesma esta\u0301 sendo explicada pela noc\u0327a\u0303o de ondulac\u0327a\u0303o, que a abrange ou esta\u0301 em vias de abranger. Assim como a luz, o calor e a eletricidade aparecem como propagac\u0327o\u0303es esfe\u0301ricas ou lineares de vibrac\u0327o\u0303es infinitesimais e infinitamente ra\u0301pidas, a combinac\u0327a\u0303o qui\u0301mica tende a ser considerada como um entrelac\u0327amento de ondas harmoniosamente unidas: mas aqui no\u0301s ja\u0301 tocamos nos domi\u0301nios da <em>adaptac\u0327a\u0303o<\/em>. Ate\u0301 mesmo a atrac\u0327a\u0303o foi muitas vezes explicada por presso\u0303es de vibrac\u0327o\u0303es ete\u0301reas. Seja como for, e\u0301 evidente que as gravitac\u0327o\u0303es eli\u0301pticas dos astros, apesar da diferenc\u0327a de dimensa\u0303o, sa\u0303o compara\u0301veis a\u0300s ondas fi\u0301sicas, esse vai-e-vem de mole\u0301culas segundo elipses muito alongadas, e que nos dois casos existe ritmo ondulato\u0301rio. Em suma, podemos ver como o progresso das cie\u0302ncias estendeu e aprofundou o campo da oposic\u0327a\u0303o, substituindo vagas oposic\u0327o\u0303es <em>qualitativas<\/em> por <strong>oposic\u0327o\u0303es <em>quantitativas<\/em> precisas e ritmadas, tecido da teia do mundo<\/strong>. A maravilhosa simetria das formas cristalinas pro\u0301prias a cada substa\u0302ncia qui\u0301mica e\u0301 a traduc\u0327a\u0303o gra\u0301fica, a expressa\u0303o visual dessas oposic\u0327o\u0303es ri\u0301tmicas entre os inumera\u0301veis movimentos que a constituem. E na\u0303o seria precisamente a essa ritmicidade dos movimentos interiores dos corpos que se deveria pedir a explicac\u0327a\u0303o u\u0301ltima da lei de Mendeleev, que nos mostra os grupos de substa\u0302ncias formando escalas superpostas e periodicamente repetidas, teclado ao qual faltam, aqui e ali, algumas teclas que descobriremos com o passar do tempo? (Tarde 2011:51)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>HESITA\u00c7\u00c3O INDIVIDUAL e REVOLU\u00c7\u00c3O SOCIOL\u00d3GICA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Os economistas ja\u0301 prestaram um valoroso servic\u0327o a\u0300 cie\u0302ncia social substituindo a guerra, como fator-chave da histo\u0301ria, pela concorre\u0302ncia, espe\u0301cie de guerra na\u0303o apertas adocicada e atenuada, mas ao mesmo tempo reduzida e multiplicada. Por fim, se nosso ponto de vista for adotado, sera\u0301 preciso considerar que, no a\u0302mago daquilo que os economistas chamam de concorre\u0302ncia dos consumidores ou dos coprodutores, existe uma concorre\u0302ncia de desejos e de crenc\u0327as; e se essa luta que constatamos entre as formas industriais for generalizada e estendida a todas as formas lingui\u0301sticas, religiosas, poli\u0301ticas, arti\u0301sticas e morais da vida social, veremos que <strong><em>a verdadeira oposic\u0327a\u0303o social elementar<\/em> deve ser buscada no pro\u0301prio seio de cada indivi\u0301duo social sempre que ele <em>hesita<\/em><\/strong> entre adotar ou rejeitar um novo modelo que lhe e\u0301 proposto: uma nova locuc\u0327a\u0303o, um novo rito, uma nova ideia, uma nova escola de arte, uma nova conduta. Essa hesitac\u0327a\u0303o, essa pequena batalha interna, que se reproduz milho\u0303es de vezes a cada momento da vida de um povo, e\u0301 a oposic\u0327a\u0303o infinitesimal e infinitamente fecunda da histo\u0301ria. Ela introduz em sociologia uma tranquila e profunda revoluc\u0327a\u0303o. (Tarde 2011:55)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>RAIOS IMITATIVOS, IRRADIA\u00c7\u00c3O IMITATIVA e HESITA\u00c7\u00c3O COMO FATO SOCIAL ELEMENTAR<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Eis porque eu tinha raza\u0303o ao dizer que <strong>e\u0301 preciso buscar a oposic\u0327a\u0303o social elementar<\/strong>, pore\u0301m na\u0303o, como se poderia acreditar a\u0300 primeira vista, na relac\u0327a\u0303o entre dois indivi\u0301duos que se contradizem ou se contrariam, e sim <strong>nos duelos lo\u0301gicos e teolo\u0301gicos, nos combates singulares de teses e anti\u0301teses, de quereres e <em>na\u0303o-quereres<\/em> cujo teatro e\u0301 a conscie\u0302ncia do indivi\u0301duo social<\/strong>. Sem du\u0301vida e\u0301 possi\u0301vel que me perguntem: mas enta\u0303o qual e\u0301 a diferenc\u0327a entre a oposic\u0327a\u0303o simplesmente psicolo\u0301gica e a oposic\u0327a\u0303o social? Ela e\u0301 diferente em virtude de sua causa e, sobretudo, pelos seus efeitos. Em virtude da causa: um solita\u0301rio recebe em seus sentidos duas percepc\u0327o\u0303es aparentemente contradito\u0301rias, e hesita entre dois jui\u0301zos sensitivos: um que lhe diz que determinada mancha vista a dista\u0302ncia e\u0301 um lago, outro que lhe diz o contra\u0301rio; eis uma oposic\u0327a\u0303o interna cuja origem e\u0301 inteiramente psicolo\u0301gica, e que e\u0301 um caso infinitamente raro. Pode-se afirmar sem medo de errar que todas as du\u0301vidas e hesitac\u0327o\u0303es de que sofre o mais isolado dos homens, nascido na mais selvagem das tribos, devem-se a um encontro nele ocorrido, seja entre dois raios de exemplos que vieram interferir em seu ce\u0301rebro, seja pelo cruzamento entre um raio de exemplos e uma percepc\u0327a\u0303o dos sentidos. Ao escrever, eu hesito frequentemente entre duas locuc\u0327o\u0303es sino\u0302nimas, e cada uma delas apresenta-se como preferi\u0301vel a\u0300 outra na circunsta\u0302ncia dada: aqui, dois raios imitativos interferiram em mim, ou seja, duas se\u0301ries de homens que, a partir do primeiro inventor de uma dessas palavras e do primeiro inventor da outra, chegaram ate\u0301 mim. Pois eu aprendi cada uma dessas palavras de um indivi\u0301duo que a aprendeu de outro, e assim por diante, remontando ate\u0301 o primeiro indivi\u0301duo que a pronunciou. (Mais uma vez, e\u0301 isso que eu chamo de <em>raio imitativo<\/em>; e a totalidade de raios desse ge\u0302nero, provenientes de um inventor, de um iniciador, de um inovador qual\u00ad quer cujo exemplo se propagou, e\u0301 o que eu chamo de <em>irradiac\u0327a\u0303o<\/em> imitativa. A vida social se compo\u0303e de um denso entrecruzamento de irradiac\u0327o\u0303es desse ge\u0302nero, entre as quais ocorrem inumera\u0301veis interfere\u0302ncias.) Outros exemplos: eu sou juiz e hesito entre uma opinia\u0303o que se funda sobre uma se\u0301rie de deciso\u0303es baseadas nas orientac\u0327o\u0303es de determinado autor, por exemplo, Marcade\u0301 ou Demolombe, e uma opinia\u0303o oposta que se apoia numa outra se\u0301rie de deciso\u0303es emanadas de tal outro comentador; mais uma vez, interfere\u0302ncia entre dois raios imitativos. A mesma coisa acontece quando eu hesito entre o ga\u0301s e a eletricidade para iluminar meu apartamento. Mas quando um jovem campone\u0302s, diante do po\u0302r do sol, na\u0303o sabe se deve acreditar na palavra de seu professor (que lhe assegura que o cair da noite deve-se a um movimento da Terra e na\u0303o do Sol) ou no testemunho de seus sentidos, que lhe dizem o contra\u0301rio, existe um u\u0301nico raio imitativo que, por interme\u0301dio de seu professor, liga-o a Galileu. Tanto faz, pois isso basta para que sua hesitac\u0327a\u0303o, sua oposic\u0327a\u0303o interna e individual, seja social em virtude de sua causa. [&#8230;] Mas e\u0301 sobretudo pelos seus efeitos (ou melhor, por sua inefica\u0301cia) que a oposic\u0327a\u0303o simplesmente individual difere da oposic\u0327a\u0303o social elementar, que tambe\u0301m e\u0301, entretanto, individual. <strong>Por vezes a hesitac\u0327a\u0303o do indivi\u0301duo permanece encerrada nele<\/strong>, e na\u0303o se propaga (nem tende a se propagar) imitativamente entre seus vizinhos; nesse caso, o feno\u0302meno permanece puramente individual. Na maioria dos casos, pore\u0301m, a pro\u0301pria du\u0301vida e\u0301 quase ta\u0303o contagiosa quanto a fe\u0301, e todo aquele que deve\u0301m ce\u0301tico num meio fervoroso logo se tornara\u0301 o foco de um ceticismo que ira\u0301 irradiar-se ao seu redor: sera\u0301 possi\u0301vel, nesse caso, negar o cara\u0301ter social do estado de luta interna que caracteriza cada um dos indivi\u0301duos desse grupo? (Tarde 2011:62-4)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>FEN\u00d4MENOS SOCIAIS e CI\u00caNCIA t\u00eam SENTIDOS INVERSOS<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Detenho-me para notar que, por causa dessa passagem do pequeno ao grande, do pequeno muito numeroso ao grande extremamente raro, a evoluc\u0327a\u0303o da guerra, e de todo feno\u0302meno social em geral, parece contradizer a evoluc\u0327a\u0303o das cie\u0302ncias tal como vem sendo exposta aqui. No entanto, ela constitui, de fato, sua contra\u00ad prova e confirmac\u0327a\u0303o. E\u0301 justamente porque tudo no mundo dos fatos caminha do pequeno ao grande que, no mundo das ideias, espelho invertido do primeiro, tudo caminha do grande para o pequeno e, pelo progresso da ana\u0301lise, so\u0301 atinge os fatos elementares verdadeiramente explicativos em u\u0301ltimo lugar. (Tarde 2011:67)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CONCORR\u00caNCIA, MONOP\u00d3LIO e ASSOCIA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Em resumo, a concorre\u0302ncia se desenvolve em ci\u0301rculos conce\u0302ntricos que va\u0303o se ampliando. Mas a ampliac\u0327a\u0303o da concorre\u0302ncia tem como condic\u0327a\u0303o e como raza\u0303o de ser a ampliac\u0327a\u0303o da associac\u0327a\u0303o. Da associac\u0327a\u0303o ou do monopo\u0301lio, objetar-se-a\u0301. Que seja, mas o monopo\u0301lio e\u0301 apenas uma das duas soluc\u0327o\u0303es possi\u0301veis para o problema da concorre\u0302ncia, assim como a unidade imperial e\u0301 apenas uma das duas soluc\u0327o\u0303es possi\u0301veis para o problema da guerra. Um desses problemas pode ser resolvido pela associac\u0327a\u0303o dos indivi\u0301duos, assim como o outro pode ser resolvido pela confederac\u0327a\u0303o dos povos. De resto, o pro\u0301prio monopo\u0301lio, a\u0300 forc\u0327a de estender-se, se torna mais brando, e caso ele se tornasse universal em certas modalidades de produc\u0327a\u0303o (termo ao qual ele tende e que Paul Leroy-Beaulieu julgou, erroneamente a meu ver, para sempre e absolutamente inatingi\u0301vel), seria provavelmente mais suporta\u0301vel, em certos casos, do que o estado de concorre\u0302ncia aguda que ele teria substitui\u0301do. A concorre\u0302ncia tende a uma monopolizac\u0327a\u0303o, ao menos parcial e relativa, ou a uma associac\u0327a\u0303o de concorrentes, tal como a guerra tende ao esmagamento do perdedor ou a um tratado favora\u0301vel com ele, a uma pacificac\u0327a\u0303o igualmente parcial e relativa. O crescimento dos Estados conquistadores contribuiu para isso. Estou ciente de que os grandes Estados modernos, tomando o lugar dos feudos da Idade Me\u0301dia, fizeram reinar uma paz bastante incompleta, e ate\u0301 aqui bastante curta, mas cuja extensa\u0303o e durac\u0327a\u0303o va\u0303o aumentando, tal como os exe\u0301rcitos grandiosos de hoje em dia. Negar que a concorre\u0302ncia culmine no monopo\u0301lio (ou na associac\u0327a\u0303o) e imaginar que se esta\u0301 defendendo a concorre\u0302ncia de seus detratores e\u0301, ao contra\u0301rio, recusar a u\u0301nica desculpa que se poderia alegar: como se, para defender o militarismo dos ataques de que ele e\u0301 objeto, nos esforc\u0327a\u0301ssemos para demonstrar que a guerra na\u0303o produz a paz depois da vito\u0301ria. \u00c9 bem verdade que a guerra so\u0301 produz a paz para renascer da pro\u0301pria paz, e numa escala ainda maior; do mesmo modo, a concorre\u0302ncia so\u0301 se apazigua momentaneamente na associac\u0327a\u0303o para renascer da pro\u0301pria associac\u0327a\u0303o, sob a forma de rivalidades entre associac\u0327o\u0303es, corporac\u0327o\u0303es, sindicatos e assim por diante; mas chega-se assim, finalmente, a associac\u0327o\u0303es gigantes que, na\u0303o podendo mais expandir-se, so\u0301 podera\u0303o, depois de travarem seus combates, associar-se. (Tarde 2011:72-3)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>OPOSI\u00c7\u00c3O, ASSOCIA\u00c7\u00c3O e REPETI\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[\u00c9] repetindo-se por imitac\u0327a\u0303o que a <strong>invenc\u0327a\u0303o &#8211; a adaptac\u0327a\u0303o social elementar<\/strong> &#8211; se difunde e se fortifica, tendendo, pelo encontro de uma de suas irradiac\u0327o\u0303es imitativas com uma irradiac\u0327a\u0303o imitativa emanada de alguma outra invenc\u0327a\u0303o, antiga ou nova, a suscitar ora novas lutas, ora (diretamente ou por meio dessas lutas) novas e mais complexas invenc\u0327o\u0303es, que em breve tambe\u0301m ira\u0303o irradiar imitativamente, e assim por diante, ao infinito. Notemos que tanto o duelo lo\u0301gico como a si\u0301ntese lo\u0301gica, tanto o elemento social da oposic\u0327a\u0303o-luta como o elemento social da adaptac\u0327a\u0303o te\u0302m necessidade da repetic\u0327a\u0303o imitativa para socializar-se, para generalizar-se e crescer. A u\u0301nica diferenc\u0327a e\u0301 que a propagac\u0327a\u0303o imitativa do estado de disco\u0301rdia interior entre duas ideias, ou mesmo do estado de disco\u0301rdia exterior entre dois homens que escolheram uma dessas ideias, ira\u0301 fatalmente sofrer um desgaste e po\u0302r fim a essa disco\u0301rdia dentro de um determinado tempo, pois todo combate e\u0301 fatigante e culmina numa vito\u0301ria; enquanto a propagac\u0327a\u0303o imitativa do estado de harmonia (ao mesmo tempo interno e externo) alcanc\u0327ado pela iluminac\u0327a\u0303o de uma nova verdade, si\u0301ntese de nossos conhecimentos anteriores e comunha\u0303o de nosso espi\u0301rito com todos os espi\u0301ritos que comungam com ela, na\u0303o tem raza\u0303o alguma para deter-se e se fortificara\u0301 ao avanc\u0327ar. Dos tre\u0302s termos comparados entre si, o primeiro e o u\u0301ltimo ultrapassam largamente o segundo em altura, em profundidade, em importa\u0302ncia e talvez em durac\u0327a\u0303o. A u\u0301nica utilidade do segundo, a oposic\u0327a\u0303o, e\u0301 a de provocar uma tensa\u0303o das forc\u0327as antagonistas aptas a suscitar o ge\u0302nio inventivo: a invenc\u0327a\u0303o militar que, ao dar a vito\u0301ria a um dos lados, momentaneamente po\u0303e fim a\u0300 guerra; a invenc\u0327a\u0303o industrial que, adotada ou monopolizada por um dos rivais da indu\u0301stria, lhe assegura o triunfo, e momentaneamente po\u0303e fim a\u0300 concorre\u0302ncia; a invenc\u0327a\u0303o filoso\u0301fica, cienti\u0301fica, juri\u0301dica ou este\u0301tica que interrompe bruscamente inumera\u0301veis discusso\u0303es, mesmo que seja para dar origem, mais tarde, a novas discusso\u0303es. Eis ai\u0301 a u\u0301nica utilidade, a u\u0301nica raza\u0303o de ser da oposic\u0327a\u0303o; mas quantas vezes a invenc\u0327a\u0303o pela qual ela clama deixa de atender ao seu chamado! Quantas vezes a guerra abate o ge\u0302nio ao inve\u0301s de estimula\u0301-lo! E quantos talentos sa\u0303o esterilizados pelas pole\u0302micas da imprensa, pelos de\u00ad bates parlamentares, pela va\u0303 esgrima dos Congressos! Tudo que se pode afirmar &#8211; e que confirma o que ja\u0301 foi dito &#8211; e\u0301 que a ordem histo\u0301rica de prepondera\u0302ncia sucessiva das tre\u0302s formas de luta e\u0301 precisamente a de sua aptida\u0303o a estimular a inventividade: com efeito, passa-se de uma era em que a guerra e\u0301 preponderante a uma fase em que a concorre\u0302ncia predomina, e enfim a discussa\u0303o. Ale\u0301m disso, numa sociedade que se civiliza, a troca se desenvolve mais rapidamente do que a concorre\u0302ncia, a conversac\u0327a\u0303o se desenvolve mais rapidamente do que a discussa\u0303o, e o internacionalismo, mais rapidamente do que o militarismo. (Tarde 2011:78-9)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>GRAUS de ADAPTA\u00c7\u00c3O (a si e aos outros)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Um agregado qualquer e\u0301 um composto de seres adaptados entre si, seja uns com os outros, seja num conjunto subordinado a uma func\u0327a\u0303o comum. Agregado significa <em>adaptat<\/em>. Mas, ale\u0301m disso, diversos agregados que possuem relac\u0327o\u0303es entre si podem ser coadaptados, constituindo um <em>adaptat<\/em> de um grau superior. Seria possi\u0301vel distinguir, desse modo, uma infinidade de graus. Para simplificar, fac\u0327amos uma distinc\u0327a\u0303o entre apenas dois graus de adaptac\u0327a\u0303o. A adaptac\u0327a\u0303o de primeiro grau e\u0301 aquela que ocorre entre os elementos do sistema considerado; a adaptac\u0327a\u0303o de segundo grau e\u0301 aquela que os une aos sistemas que os cercam, a\u0300quilo que podemos chamar, muito vagamente, de seu \u201cmeio\u201d. <strong>O ajustamento a si mesmo difere muito, em toda ordem de fatos, do ajustamento a outrem<\/strong>, tal como a repetic\u0327a\u0303o de si (ha\u0301bito) difere da repetic\u0327a\u0303o de outrem (hereditariedade e imitac\u0327a\u0303o), tal como a oposic\u0327a\u0303o a si mesmo (hesitac\u0327a\u0303o, du\u0301vida) difere da oposic\u0327a\u0303o a outrem (luta, concorre\u0302ncia). <strong>Muitas vezes esses dois tipos de adaptac\u0327a\u0303o, em certa medida, se excluem mutuamente<\/strong>; e\u0301 o caso das constituic\u0327o\u0303es poli\u0301ticas, onde se observa com bastante freque\u0302ncia que as mais coerentes, as mais logicamente deduzidas (apresentando portanto o mais alto grau de adaptac\u0327a\u0303o de primeiro grau) sa\u0303o as menos adaptadas a\u0300s exige\u0302ncias de seu meio tradicional e costumeiro, e que, reciprocamente, as mais pra\u0301ticas sa\u0303o as menos lo\u0301gicas. A mesma observac\u0327a\u0303o aplica-se a\u0300s grama\u0301ticas de tantas li\u0301nguas, a\u0300s religio\u0303es, a\u0300s belas-artes, etc.: a u\u0301nica grama\u0301tica perfeita, com regras sem nenhuma excec\u0327a\u0303o, e\u0301 a do&#8230; volapuque. Ela tambe\u0301m e\u0301 aplica\u0301vel aos organismos: ha\u0301 entre eles alguns que sa\u0303o perfeitos, mas que na\u0303o sa\u0303o via\u0301veis, e que se tornariam mais via\u0301veis se fossem menos perfeitos. A perfeic\u0327a\u0303o de sua acomodac\u0327a\u0303o pode atrapalhar sua flexibilidade. (Tarde 2011:85-6)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>FINALISMO INDUTIVO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Os partida\u0301rios das causas finais fizeram tudo o que podiam para desacreditar a ideia de finalidade. Na\u0303o e\u0301 menos certo, no entanto, que os primeiros balbucios da cie\u0302ncia datam do momento em que essa noc\u0327a\u0303o foi introduzida, mesmo que de forma mi\u0301stica e bem pouco racional, na concepc\u0327a\u0303o do mundo. Diante da visa\u0303o do ce\u0301u estrelado, com que sonhou a cie\u0302ncia primitiva? Com uma adaptac\u0327a\u0303o imensa, u\u0301nica, quime\u0301rica, nascida da ilusa\u0303o que aprendemos a chamar de geoce\u0302ntrica, segundo a qual todas as estrelas existem <em>para<\/em> a Terra; a Terra, e sobre ela uma cidade ou um burgo seriam o u\u0301nico foco de interesse do firmamento, perpetuamente inquieto acerca do destino desses seres ef\u00eameros que no\u0301s somos. A astrologia foi o desenvolvimento lo\u0301gico dessa grandiosa e imagina\u0301ria adaptac\u0327a\u0303o do ce\u0301u a\u0300 Terra e ao homem. A verdadeira astronomia na\u0303o somente fez desaparecer essa absurda harmonia, mas tambe\u0301m quebrou a unidade da harmonia celeste ao dividi-la em va\u0301rias harmonias parciais, ta\u0303o numerosas quantos os pro\u0301prios sistemas solares, coerentes neles mesmos e simetricamente coordenados, pore\u0301m ligados entre si por liames muito vagos e duvidosos, agrupados em nebulosas informes, em constelac\u0327o\u0303es esparsas de resplandecente desordem. Desde sempre apaixonada pela ordem, a raza\u0303o humana logo teve de renunciar a\u0300 sua busca pelas marcas mais evidentes de uma coordenac\u0327a\u0303o divina na totalidade do mundo &#8211; o Cosmos, o mais alto objeto de sua admirac\u0327a\u0303o. Ela teve de descer ao sistema solar para encontra\u0301-las, e quanto mais ela conhecia deste pequeno mundo, mais encontrava nos detalhes, e na\u0303o no conjunto desse belo agrupamento de massas, os motivos para extasiar-se. Mais do que as relac\u0327o\u0303es entre os pro\u0301prios planetas, era a relac\u0327a\u0303o de cada um deles com seus sate\u0301lites, e mais ainda, era a superfi\u0301cie de cada um desses globos, sua formac\u0327a\u0303o geolo\u0301gica, seu regime de a\u0301guas, que revelavam um acordo perfeito e surpreendente. Doravante, ja\u0301 na\u0303o e\u0301 mais em direc\u0327a\u0303o a\u0300 imensa abo\u0301bada celeste que a alma religiosa deve voltar-se para adorar a sabedoria profunda que move este mundo; agora, e\u0301 para o cadinho do qui\u0301mico que ela devera\u0301 olhar se quiser escrutar o miste\u0301rio das harmonias fi\u0301sicas mais precisas e maravilhosas, ainda mais admira\u0301veis do que a mixo\u0301rdia estrelada: as combinac\u0327o\u0303es qui\u0301micas. Se, por meio do uso de um microsco\u0301pio suficientemente forte, pude\u0301ssemos perceber o interior de uma mole\u0301cula, ficari\u0301amos muito mais fascinados pela mescla prodigiosa de movimentos eli\u0301pticos e circulares que provavelmente a constituem do que com o jogo, no fim das contas bastante simples, dos grandes pio\u0303es celestes! [&#8230;] Se passarmos do mundo fi\u0301sico ao mundo da vida, tambe\u0301m constataremos que o primeiro procedimento da raza\u0303o foi conceber a criac\u0327a\u0303o orga\u0302nica inteira, vegetal e animal, como uma u\u0301nica e grandiosa adaptac\u0327a\u0303o aos fins da humanidade, destinada a\u0300 sua nutric\u0327a\u0303o, diversa\u0303o, protec\u0327a\u0303o, e tambe\u0301m para avisa\u0301-la sobre perigos ocultos. As pra\u0301ticas divinato\u0301rias e o totemismo, difundidos desde as origens entre todos os povos, te\u0302m o mesmo fundamento. E os progressos do saber podem muito bem ter dissipado essa ilusa\u0303o antropoce\u0302ntrica, mas algo dela permaneceu no erro cienti\u0301fico que reinou durante tanto tempo entre os filo\u0301sofos naturalistas: o de representar a se\u0301rie paleontolo\u0301gica como uma ascensa\u0303o em linha reta ate\u0301 o homem, e o de encarar cada espe\u0301cie viva ou extinta como uma nota num grande concerto chamado de Plano divino da natureza, edifi\u0301cio ideal e regular cujo apogeu era o homem. Penosamente, a\u0300 forc\u0327a dos desmentidos acumulados pela observac\u0327a\u0303o, ele precisou desprender-se de uma ideia que lhe era ta\u0303o cara, reconhecendo que na\u0303o e\u0301 nas grandes linhas da evoluc\u0327a\u0303o dos seres (ta\u0303o ramificadas e tortuosas), e nem mesmo nos grandes agrupamentos de espe\u0301cies diferentes em faunas e floras regionais (apesar da nota\u0301vel adaptac\u0327a\u0303o revelada nos casos de comensalismo ou em determinadas relac\u0327o\u0303es entre insetos e flores) que a natureza demonstra no mais alto grau sua maravilhosa pote\u0302ncia de harmonia, mas sim nos detalhes de cada organismo. A meu ver, os partida\u0301rios das causas finais comprometeram a ideia de finalidade ao emprega\u0301-la de maneira abusiva e erro\u0302nea, mas na\u0303o excessiva; ao contra\u0301rio, eu poderia critica\u0301-los por terem feito dessa ideia, com seus ha\u0301bitos mentais unificadores, um uso demasiadamente restrito. Na\u0303o existe um fim na natureza, um fim em relac\u0327a\u0303o ao qual todo o resto seria um meio; <strong>o que existe e\u0301 uma multida\u0303o infinita de fins que tentam servir-se uns dos outros<\/strong>. Cada organismo, e cada ce\u0301lula de cada organismo, e talvez cada elemento celular dentro de cada ce\u0301lula, possui sua pro\u0301pria pequena provide\u0302ncia particular. Assim, tal como antes, tambe\u0301m aqui somos levados a pensar que a forc\u0327a harmonizadora &#8211; ao menos aquela com a qual a cie\u0302ncia tem o direito de ocupar-se, sem negar a possibilidade de que alguma outra exista &#8211; na\u0303o e\u0301 imensa e u\u0301nica, exterior e superior, mas infinitamente multiplicada, infinitesimal e interna. A bem dizer, a fonte de todas as harmonias vitais (a\u0300s quais temos um acesso cada vez mais restrito a\u0300 medida que nos afastamos desse ponto de partida para abranger um campo mais vasto) e\u0301 o o\u0301vulo fecundado, intersec\u0327a\u0303o viva de linhagens que se encontraram ali, num cruzamento a\u0300s vezes feliz, ini\u0301cio de novas aptido\u0303es que ira\u0303o, por sua vez, se difundir e propagar, grac\u0327as a\u0300 selec\u0327a\u0303o dos mais aptos ou a\u0300 eliminac\u0327a\u0303o dos menos aptos. (Tarde 2011:86-9)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A ADAPTA\u00c7\u00c3O SOCIAL ELEMENTAR \u00e9 INTRA-CEREBRAL<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Diremos agora que a <em>adaptac\u0327a\u0303o social elementar<\/em> e\u0301, no fundo, a que existe entre dois homens, um dos quais responde, com palavras ou ac\u0327o\u0303es, a\u0300 questa\u0303o proposta pelo outro, plenamente verbalizada ou ta\u0301cita? Pois a satisfac\u0327a\u0303o de uma necessidade, assim como a soluc\u0327a\u0303o de um problema, e\u0301 uma resposta a uma questa\u0303o. Diremos enta\u0303o que essa harmonia elementar consiste na relac\u0327a\u0303o entre dois homens, na qual um deles ensina e o outro aprende, um ordena e o outro obedece, um produz e o outro consome, na qual um e\u0301 ator, poeta, artista, e o outro e\u0301 espectador, leitor, amador? Ou diremos que eles se reuniram e fizeram uma obra em colaborac\u0327a\u0303o? Sim, e\u0301 isso que diremos, pois embora nessa relac\u0327a\u0303o entre dois homens esteja implicada uma relac\u0327a\u0303o entre modelo e co\u0301pia, trata-se de algo bem diferente. [&#8230;] A meu ver, no entanto, e\u0301 preciso levar a ana\u0301lise ainda mais longe e, como ja\u0301 indiquei, <strong>buscar a adaptac\u0327a\u0303o social elementar no pro\u0301prio ce\u0301rebro, no ge\u0302nio individual do inventor<\/strong>. A invenc\u0327a\u0303o que esta\u0301 destinada a ser imitada &#8211; pois aquela que permanece encerrada no espi\u0301rito de seu autor na\u0303o e\u0301 socialmente relevante &#8211; e\u0301 uma harmonia de ideias que e\u0301 a ma\u0303e de todas as harmonias entre os homens. Para que exista uma troca entre produtor e consumidor, e para que, em primeiro lugar, exista um dom para o consumidor, o dom da coisa produzida (pois a troca e\u0301 a da\u0301diva tornada mu\u0301tua, e como tal, vem depois da da\u0301diva unilateral), e\u0301 preciso que o produtor tenha inicialmente duas ideias: a da necessidade do consumidor ou donata\u0301rio, e a de um meio apto a satisfaze\u0302-la. A adaptac\u0327a\u0303o exterior que chamamos de da\u0301diva, e em seguida de troca, na\u0303o teria sido possi\u0301vel sem essa adaptac\u0327a\u0303o interior de duas ideias. Do mesmo modo, a divisa\u0303o de trabalho entre va\u0301rios homens que executam as diversas tarefas de uma mesma operac\u0327a\u0303o, anteriormente executada por um u\u0301nico homem, na\u0303o teria sido possi\u0301vel se ele na\u0303o tivesse a ideia de conceber essas diversas tarefas como partes de um mesmo todo, como meios para um mesmo fim. <strong>No fundo de qualquer associac\u0327a\u0303o entre homens, existe originariamente<\/strong>, repito, <strong>uma associac\u0327a\u0303o entre as ideias de um mesmo homem<\/strong>. (Tarde 2011:92-3)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>RELA\u00c7\u00c3O ENTRE PROGRESSOS (em extens\u00e3o e em compreend\u00e3o)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>E\u0301 desse progresso intri\u0301nseco que queremos falar, ou seja, da tende\u0302ncia de uma invenc\u0327a\u0303o, de uma adaptac\u0327a\u0303o social dada, a se complicar e intensificar ao adaptar-se a outra invenc\u0327a\u0303o, a outra adaptac\u0327a\u0303o, engendrando desse modo uma nova adaptac\u0327a\u0303o que, por meio de outros encontros e outras alianc\u0327as lo\u0301gicas do mesmo ge\u0302nero, conduzira\u0301 a uma si\u0301ntese mais alta, e assim por diante. <strong>Esses dois progressos &#8211; o progresso de uma invenc\u0327a\u0303o <em>em extensa\u0303o<\/em> por meio de sua propagac\u0327a\u0303o imitativa, e seu progresso <em>em compreensa\u0303o<\/em>, de algum modo, por meio de uma se\u0301rie de alianc\u0327as lo\u0301gicas &#8211; sa\u0303o certamente muito distintos, pore\u0301m<\/strong> longe de serem inversamente proporcionais (apesar da oposic\u0327a\u0303o habitual, concernente a outros aspectos, entre a extensa\u0303o e a compreensa\u0303o das ideias), eles <strong>marcham paralelamente e sa\u0303o insepara\u0301veis<\/strong>. A cada alianc\u0327a cerebral de duas invenc\u0327o\u0303es em uma terceira \u2014quando, por exemplo, a ideia da roda e a ideia da domesticac\u0327a\u0303o do cavalo, depois de se propagarem independentemente (talvez durante se\u0301culos), se fundiram e harmonizaram na ideia de carro &#8211; foi preciso, necessariamente, que a imitac\u0327a\u0303o operasse para aproxima\u0301-las em um mesmo ce\u0301rebro, tal como foi preciso, para o surgimento de cada uma delas, que seus elementos fossem trazidos para o espi\u0301rito de seus autores por meio de diversas irradiac\u0327o\u0303es de exemplos. Melhor ainda, a cada si\u0301ntese de novas invenc\u0327o\u0303es, geralmente e\u0301 preciso uma irradiac\u0327a\u0303o imitativa mais vasta que as precedentes. <strong>Existe um entrelac\u0327amento conti\u0301nuo entre essas duas progresso\u0303es, a progressa\u0303o imitativa, uniformizadora, e a progressa\u0303o inventiva, sistematizadora<\/strong>. Elas esta\u0303o ligadas entre si por um vi\u0301nculo que, sem du\u0301vida, nada tem de rigoroso (pois, por exemplo, uma se\u0301rie de a\u0301rduos teoremas po\u0302de desenrolar-se no ce\u0301rebro de um Arquimedes ou de um Newton sem nenhuma contribuic\u0327a\u0303o de elementos trazidos por sa\u0301bios estrangeiros no decorrer de cada uma dessas descobertas), mas esse vi\u0301nculo e\u0301 suficientemente costumeiro para nos fazer acreditar que constataremos um crescimento da extensa\u0303o do campo social e da intensidade das comunicac\u0327o\u0303es sociais, e uma ampliac\u0327a\u0303o e aprofundamento das nacionalidades (sena\u0303o dos Estados), sempre que crescerem a riqueza das li\u0301nguas, a beleza arquiteto\u0302nica das teologias, a coesa\u0303o das cie\u0302ncias, a complexidade e a codificac\u0327a\u0303o das leis, a organizac\u0327a\u0303o esponta\u0302nea ou a regulamentac\u0327a\u0303o dos trabalhos industriais, o regime financeiro, a coordenac\u0327a\u0303o e a complicac\u0327a\u0303o administrativas, os refinamentos e a variedade da literatura e das belas-artes. (Tarde 2011:95-6)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ACOPLAMENTOS L\u00d3GICOS<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[Q]uer se trate de uma si\u0301ntese de ac\u0327o\u0303es, de uma invenc\u0327a\u0303o cienti\u0301fica ou industrial, religiosa ou este\u0301tica (em uma palavra, teo\u0301rica ou pra\u0301tica), podemos chamar de \u201c<strong>acoplamento lo\u0301gico<\/strong>\u201d o procedimento elementar que a formou. Com efeito, <strong>qualquer que seja o nu\u0301mero de ideias ou atos sintetizados numa teoria ou ma\u0301quina, jamais existe uma combinac\u0327a\u0303o de mais do que dois elementos de cada vez, adaptados entre si no ce\u0301rebro do inventor<\/strong> ou de cada um dos inventores que colaboraram sucessivamente para sua formac\u0327a\u0303o. Em sua <em>Se\u0301mantique<\/em>, Michel Bre\u0301al fez uma observac\u0327a\u0303o muito perspicaz a respeito da linguagem que sustenta esta minha observac\u0327a\u0303o geral: \u201cqualquer que seja o comprimento\u201d, diz ele, \u201cde uma palavra composta, ela jamais compreende mais do que dois termos. Essa regra na\u0303o e\u0301 arbitra\u0301ria: ela decorre da natureza de nosso espi\u0301rito que associa suas ideias em pares.\u201d Em outra passagem relativa a\u0300s figuras esquema\u0301ticas pelas quais James Darmesteter tentou tornar visi\u0301vel a evoluc\u0327a\u0303o dos sentidos das palavras de acordo com diferentes vias, o mesmo autor escreve: \u201ce\u0301 preciso lembrar que essas figuras complicadas so\u0301 te\u0302m valor para o linguista: aquele que inventa o novo sentido (de uma palavra) esquece momentaneamente todos os sentidos anteriores, salvo um, de maneira que as ideias sempre se associam de duas em duas.\u201d E isso sempre acontece, tal como nas oposic\u0327o\u0303es entre ideias, como ja\u0301 vimos. Seria fa\u0301cil, pore\u0301m tedioso, mostrar a generalidade desse processo; bastaria flagrar sucessivamente cada descoberta ou aperfeic\u0327oamento no momento em que ela e\u0301 adicionada a\u0300 descoberta anterior, seja na esfera cienti\u0301fica, juri\u0301dica, econo\u0302mica, poli\u0301tica, arti\u0301stica ou moral. Em vez disso, e\u0301 preferi\u0301vel indicar por que e\u0301 assim, e como isso se torna possi\u0301vel e necessa\u0301rio. [&#8230;] Por um lado, isso se deve essencialmente ao fato de que a marcha do espirito, seu funcionamento elementar, consiste em passar de uma ideia a outra ligando as duas por um jui\u0301zo ou por uma volic\u0327a\u0303o: por um jui\u0301zo que mostra a ideia do atributo implicada na ideia do sujeito, ou por um ato de vontade que encara a ideia do meio como estando implicada na ideia da finalidade. Por outro lado, se o espi\u0301rito passa de um jui\u0301zo a outro jui\u0301zo mais complexo, e de uma volic\u0327a\u0303o a outra, mais compreensiva, e\u0301 porque a\u0300 forc\u0327a de repetir-se mentalmente em virtude dessa dupla forma de imitac\u0327a\u0303o de si mesmo, que chamamos de memo\u0301ria e ha\u0301bito, um jui\u0301zo termina por enrodilhar-se numa noc\u0327a\u0303o, fusa\u0303o de seus dois termos doravante soldados e indistintos; e uma volic\u0327a\u0303o, um desi\u0301gnio, acaba transformando-se num reflexo cada vez menos consciente. Por causa dessa transformac\u0327a\u0303o inevita\u0301vel &#8211; que ocorre em larga escala, socialmente, sob os nomes respeita\u0301veis de tradic\u0327a\u0303o e costume &#8211; nossos antigos jui\u0301zos tornam-se aptos a integrar, agora como noc\u0327o\u0303es, um novo jui\u0301zo; e nossos antigos desi\u0301gnios tornam-se aptos a integrar um novo desi\u0301gnio. Da mais baixa a\u0300 mais alta operac\u0327a\u0303o de nosso entendimento e de nossa vontade, esse procedimento e\u0301 o mesmo; e na\u0303o existe descoberta teo\u0301rica que seja algo ale\u0301m da junc\u0327a\u0303o judicia\u0301ria de um atributo, ou seja, de antigos jui\u0301zos, a um novo sujeito, assim como na\u0303o ha\u0301 descoberta pra\u0301tica que seja algo ale\u0301m da junc\u0327a\u0303o volunta\u0301ria de um meio, ou seja, de um antigo fim, anteriormente desejado por si mesmo, a um novo fim. Por meio dessa alterna\u0302ncia, ao mesmo tempo ta\u0303o simples e ta\u0303o fecunda, de mudanc\u0327as inversas que se sucedem indefinidamente, <strong>o jui\u0301zo e a finalidade de ontem se tornam a noc\u0327a\u0303o simples e o simples meio de hoje, que suscitara\u0303o o jui\u0301zo ou a finalidade de amanha\u0303<\/strong>, e assim por diante; e foi de acordo com esse ritmo social, e tambe\u0301m psicolo\u0301gico, que todos os grandes edifi\u0301cios de descobertas e invenc\u0327o\u0303es que despertam nossa admirac\u0327a\u0303o foram construi\u0301dos: nossas li\u0301nguas, nossas religio\u0303es, nossas cie\u0302ncias, nossos co\u0301digos, nossas administrac\u0327o\u0303es, e decerto nossa organizac\u0327a\u0303o militar, nossas indu\u0301strias, nossas artes. [&#8230;] Quando consideramos uma dessas grandes coisas sociais &#8211; uma grama\u0301tica, um co\u0301digo, uma teologia &#8211; o espi\u0301rito individual parece ta\u0303o diminuto ao pe\u0301 desses monumentos, que a ideia de enxergar nele o u\u0301nico construtor dessas gigantescas catedrais parece ridi\u0301cula aos olhos de alguns socio\u0301logos; e como estes na\u0303o percebem que com isso renunciam a\u0300 possibilidade de explica\u0301-las, pode-se perfeitamente desculpa\u0301-los por serem levados a dizer que tais obras sa\u0303o eminentemente impessoais. Apenas mais um passo levaria a postular (como meu ilustre adversa\u0301rio Durkheim) que, longe de serem <em>func\u0327o\u0303es<\/em> do indivi\u0301duo, elas sa\u0303o seus <em>fatores<\/em>, existindo independentemente das pessoas humanas e governando-as despoticamente ao projetar sobre elas sua sombra opressiva. Mas como essas realidades sociais &#8211; pois se eu combato a ideia do organismo social, estou longe de contradizer a de um certo <em>realismo<\/em> social, que precisaria ser definido &#8211; como, repito, essas realidades sociais foram produzidas? <strong>Eu admito de bom grado que, uma vez que foram produzidas, elas se impo\u0303em ao indivi\u0301duo, a\u0300s vezes de maneira coercitiva<\/strong>, o que e\u0301 raro, e mais frequentemente por persuasa\u0303o, por sugesta\u0303o, pelo prazer singular de que gozamos, desde o berc\u0327o, ao nos impregnar com os exemplos dos mil modelos existentes em nosso ambiente, como uma crianc\u0327a ao sugar o leite de sua ma\u0303e. Eu admito isso, mas como esses monumentos grandiosos aos quais me refiro foram construi\u0301dos, e por quem, a na\u0303o ser por homens e esforc\u0327os humanos? (Tarde 2011:98-100)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>S\u00cdNTESE<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>\u00c9 hora de terminar, e para rematar, fac\u0327amos um resumo das principais concluso\u0303es a\u0300s quais fomos conduzidos e busquemos sua significac\u0327a\u0303o de conjunto. Vimos que <strong>toda cie\u0302ncia vive de similitudes, de contrastes ou de simetrias, e de harmonias &#8211; ou seja, de repetic\u0327o\u0303es, oposic\u0327o\u0303es e adaptac\u0327o\u0303es<\/strong> &#8211; e indagamos qual e\u0301 a lei de cada um desses tre\u0302s termos, bem como a relac\u0327a\u0303o de cada um deles com os demais. Vimos que o espi\u0301rito humano, apesar de sua propensa\u0303o natural &#8211; que a princi\u0301pio parece ta\u0303o legi\u0301tima &#8211; a ater-se aos maiores feno\u0302menos, aos mais imponentes, aos mais prestigiosos, para explicar os menos visi\u0301veis, foi irresistivelmente conduzido a encontrar o princi\u0301pio das coisas, em toda ordem de fatos, nos fatos mais reco\u0302nditos, cuja fonte, a bem dizer, continua insonda\u0301vel para ele. Essa constatac\u0327a\u0303o deveria causar-lhe uma grande surpresa, mas na\u0303o foi assim, pois o ha\u0301bito da observac\u0327a\u0303o cienti\u0301fica nos familiarizou com essa reversa\u0303o da ordem sonhada pelo pensamento nascente. <strong>Assim, a lei da repetic\u0327a\u0303o<\/strong>, quer se trate da repetic\u0327a\u0303o ondulato\u0301ria e gravitacional do mundo fi\u0301sico, ou da repetic\u0327a\u0303o heredita\u0301ria e <em>habitual<\/em> do mundo vivo, ou da repetic\u0327a\u0303o imitativa do mundo social, <strong>e\u0301 a tende\u0302ncia de passar por via de amplificac\u0327a\u0303o progressiva de um infinitesimal relativo a um infinito relativo<\/strong>. <strong>A lei de oposic\u0327a\u0303o<\/strong> na\u0303o e\u0301 diferente: ela <strong>consiste em uma tende\u0302ncia a amplificar-se numa esfera sempre crescente a partir de um ponto vital<\/strong>. Socialmente, esse ponto e\u0301 o ce\u0301rebro de um indivi\u0301duo, a ce\u0301lula desse ce\u0301rebro onde se produz, pela interfere\u0302ncia de ondas imitativas vindas de fora, uma contradic\u0327a\u0303o entre duas crenc\u0327as ou dois desejos. Essa e\u0301 a oposic\u0327a\u0303o social elementar, princi\u0301pio inicial das mais sangrentas guerras, assim como a repetic\u0327a\u0303o social elementar e\u0301 o fato individual do primeiro imitador, ponto de partida de um imenso conta\u0301gio de moda. <strong>A lei de adaptac\u0327a\u0303o<\/strong>, por fim, assemelha-se a\u0300s anteriores: <strong>a adaptac\u0327a\u0303o social elementar e\u0301 a invenc\u0327a\u0303o individual a ser imitada<\/strong>, ou seja, a feliz interfere\u0302ncia entre duas imitac\u0327o\u0303es, inicialmente num u\u0301nico espi\u0301rito; e a tende\u0302ncia dessa harmonia &#8211; que na origem e\u0301 toda interior &#8211; e\u0301 na\u0303o somente exteriorizar-se ao se difundir, mas ainda acoplar-se logicamente, grac\u0327as a essa difusa\u0303o imitativa, com alguma outra invenc\u0327a\u0303o, e assim por diante, ate\u0301 que, por meio de complicac\u0327o\u0303es e harmonizac\u0327o\u0303es sucessivas de harmonias, aparec\u0327am essas grandes obras coletivas do espi\u0301rito humano: uma grama\u0301tica, uma teologia, uma enciclope\u0301dia, um corpo de direito, uma organizac\u0327a\u0303o natural ou artificial do trabalho, uma este\u0301tica, uma moral. [&#8230;] Assim, em resumo, e\u0301 certo que <strong>tudo vem do infinitesimal, e acrescentemos, e\u0301 prova\u0301vel que tudo a ele retorne<\/strong>. Ele e\u0301 o alfa e o o\u0302mega. Tudo o que constitui o universo visi\u0301vel, acessi\u0301vel a\u0300s nossas observac\u0327o\u0303es, tudo isso prove\u0301m, como sabemos, do invisi\u0301vel e do impenetra\u0301vel, de um nada aparente do qual sai, de maneira inesgota\u0301vel, toda a realidade. Se no\u0301s refleti\u0301ssemos sobre esse estranho feno\u0302meno, ficari\u0301amos admirados com a pote\u0302ncia do preconceito, ao mesmo tempo popular e cienti\u0301fico, que faz com que todo mundo &#8211; tanto um Spencer como um desavisado &#8211; olhe para o infinitesimal como algo insignificante, ou seja, homoge\u0302neo, neutro, sem nada de caracteri\u0301stico ou espiritual. Ilusa\u0303o inextirpa\u0301vel! E ainda mais inexplica\u0301vel na medida em que tambe\u0301m no\u0301s, como todos os seres, estamos destinados a voltar em breve, pela morte, a esse infinitesimal de onde sai\u0301mos, esse infinitesimal ta\u0303o desprezado, que poderia muito bem ser, no fundo &#8211; quem sabe? &#8211; todo o verdadeiro ale\u0301m, o u\u0301nico refu\u0301gio po\u0301stumo, procurado em va\u0303o nos espac\u0327os infinitos&#8230; Seja como for, que raza\u0303o teri\u0301amos para julgar <em>a priori<\/em>, sem conhecer o mundo elementar, que apenas o mundo visi\u0301vel, o mundo espac\u0327oso e volumoso, e\u0301 o teatro do pensamento, a sede de feno\u0302menos variados e viventes? Como podemos supor tal coisa, quando a cada instante vemos emergir um ser individual, com sua fisionomia pr\u00f3pria e radiante, do fundo de um o\u0301vulo fecundado, do fundo de uma parte desse o\u0301vulo, de uma parte que quanto mais a procuramos, mais vai se circunscrevendo e esvanecendo, ate\u0301 na\u0303o sei que ponto inimagina\u0301vel? Esse ponto, fonte de tamanha diferenc\u0327a, como julg\u00e1-lo indiferenciado? Eu sei bem qual e\u0301 a objec\u0327a\u0303o que me aguarda: a pretensa lei da instabilidade do homoge\u0302neo. Mas ela e\u0301 falsa, ela e\u0301 arbitra\u0301ria, ela foi imaginada expressamente para conciliar um preconceito (o de acreditar que aquilo que e\u0301 indistinto aos nossos olhos e\u0301 indiferenciado em si mesmo) com a evide\u0302ncia das diversidades fenomenais, das exuberantes variac\u0327o\u0303es viventes, psicolo\u0301gicas e sociais. A verdade e\u0301 que apenas o heteroge\u0302neo e\u0301 insta\u0301vel, e que o homoge\u0302neo e\u0301 essencialmente esta\u0301vel. A estabilidade das coisas esta\u0301 em raza\u0303o direta de sua homogeneidade. A u\u0301nica coisa na Natureza que e\u0301 (ou parece ser) perfeitamente homoge\u0302nea e\u0301 o Espac\u0327o geome\u0301trico, que na\u0303o mudou desde Euclides. Tem-se a intenc\u0327a\u0303o de dizer simplesmente que o menor germe de heterogeneidade, ao ser introduzido num agregado relativamente homoge\u0302neo, como o fermento na massa, provocara\u0301 nele uma diferenciac\u0327a\u0303o crescente? Isso eu contesto: num pai\u0301s ortodoxo, de unanimidade religiosa ou poli\u0301tica, a introduc\u0327a\u0303o de uma heresia ou de uma disside\u0302ncia tem muito mais chances de ser rapidamente reabsorvida ou expulsa do que de crescer a\u0300s expensas da Igreja ou da poli\u0301tica reinantes. Eu na\u0303o nego a lei de diferenciac\u0327a\u0303o em suas aplicac\u0327o\u0303es orga\u0302nicas ou sociais, mas ela estara\u0301 sendo muito mal compreendida caso impec\u0327a a visa\u0303o da lei de uniformizac\u0327a\u0303o crescente que se mistura e se entrelac\u0327a com ela. Na realidade, <strong>a diferenciac\u0327a\u0303o da qual se quer falar e\u0301 antes a adaptac\u0327a\u0303o<\/strong> da qual falamos; por exemplo, a <strong>divisa\u0303o do trabalho<\/strong> em nossas sociedades na\u0303o passa da associac\u0327a\u0303o ou coadaptac\u0327a\u0303o progressiva de trabalhos diversos por meio de invenc\u0327o\u0303es sucessivas. Circunscrita em seus primo\u0301rdios a\u0300s <em>tarefas caseiras<\/em>, ela vai se repetindo e ampliando sem cessar, estendendo-se primeiramente a\u0300 cidade, na qual as diversas tarefas, outrora semelhantes umas a\u0300s outras, pore\u0301m diferenciadas interiormente, tornam-se diferentes umas das outras, mas separadamente mais homoge\u0302neas; depois torna-se nacional, e em seguida internacional. Assim, na\u0303o e\u0301 verdade que a diferenc\u0327a va\u0301 aumentando, pois se a cada instante aparecem novidades e outras diferenc\u0327as, tambe\u0301m desaparecem antigas diferenc\u0327as; e levando em conta essa considerac\u0327a\u0303o, na\u0303o teremos nenhuma raza\u0303o para pensar que a soma das diferenc\u0327as, se e\u0301 que e\u0301 possi\u0301vel somar coisas que na\u0303o te\u0302m uma medida comum, tenha aumentado no universo. <strong>Algo muito mais importante do que um simples aumento de diferenc\u0327a acontece sem cessar: a diferenciac\u0327a\u0303o da pro\u0301pria diferenc\u0327a. A pro\u0301pria mudanc\u0327a vai mudando<\/strong>, e num sentido determinado, que nos encaminha de uma era de diferenc\u0327as cruas e justapostas, como de cores berrantes que na\u0303o combinam, para uma era de diferenc\u0327as harmoniosamente nuanc\u0327adas. Seja la\u0301 o que se possa pensar dessa maneira de ver, e\u0301 inconcebi\u0301vel que, segundo a hipo\u0301tese de uma substa\u0302ncia homoge\u0302nea eternamente submetida a\u0300 disciplina niveladora e coordenadora das leis cienti\u0301ficas, tivesse jamais podido existir um universo como o nosso, deslumbrante em seu desmedido luxo de surpresas e caprichos. O que poderia nascer a partir do perfeitamente semelhante e perfeitamente regra\u00ad do, a na\u0303o ser um mundo eterna e imensamente tedioso? Do mesmo modo, a essa concepc\u0327a\u0303o corrente do <strong>universo<\/strong> como formado por uma poeira infinita de elementos, todos semelhantes no fundo e dos quais a diversidade teria emergido sabe-se la\u0301 como, eu me permito opor minha concepc\u0327a\u0303o particular que o representa como <strong>a realizac\u0327a\u0303o de uma multida\u0303o de virtualidades elementares, cada qual caracterizada e ambiciosa, cada qual trazendo em si seu universo distinto, seu universo pro\u0301prio e de sonho<\/strong>. Pois o nu\u0301mero de projetos abortados por ele e\u0301 infinitamente maior do que o nu\u0301mero de projetos desenvolvidos; e <strong>e\u0301 entre os sonhos concorrentes, entre os programas rivais, muito mais do que entre os seres, que acontece a grande batalha pela vida que elimina os menos adaptados<\/strong>. Dessa forma, o subsolo misterioso do mundo fenomenal seria ta\u0303o rico em diversidades &#8211; embora sejam <strong>outras diversidades<\/strong> &#8211; quanto o patamar das realidades superficiais. (Tarde 2011:109-13)<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>TARDE, Gabriel. 2011. As leis sociais: um esboc\u0327o de sociologia. (Trad.: Francisco T. Fuchs) Nitero\u0301i: Editora da UFF. [1898] PORMENORES-INFINITESIMAL (com refer\u00eancia \u00e0 ideia de elementos qu\u00edmicos) Eu creio que e\u0301 impossi\u0301vel explicar as dessemelhanc\u0327as a\u0300s quais me refiro &#8211; mesmo que fossem apenas essas desigualdades de posic\u0327a\u0303o e essa caprichosa distribuic\u0327a\u0303o de mate\u0301ria atrave\u0301s do espac\u0327o &#8211; pela hipo\u0301tese, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":74,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[26],"class_list":["post-73","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-fichamento","tag-tarde"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/TARDE_Leis-sociais.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/73","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=73"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/73\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":75,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/73\/revisions\/75"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/74"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=73"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=73"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=73"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}