{"id":70,"date":"2021-04-13T17:17:43","date_gmt":"2021-04-13T17:17:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=70"},"modified":"2021-04-14T03:01:46","modified_gmt":"2021-04-14T03:01:46","slug":"comte-e-progresso-em-durkheim-2007","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2021\/04\/13\/comte-e-progresso-em-durkheim-2007\/","title":{"rendered":"Comte e progresso em Durkheim (2007)"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>PROGRESSO HUMANO \u00e9 IDEOLOGIA (pois n\u00e3o existe humanidade ou natureza humana-psicol\u00f3gica, apenas sociedades particulares ou esp\u00e9cies sociais)<\/strong><\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">[A]t\u00e9 o presente, a sociologia tratou mais ou menos exclusivamente n\u00e3o de coisas, mas de conceitos. <strong>Comte<\/strong>, \u00e9 verdade, proclamou que os fen\u00f4menos sociais s\u00e3o fatos naturais, submissos a leis naturais. Deste modo, ele implicitamente reconheceu seu car\u00e1ter de coisas, pois na natureza s\u00f3 existem coisas. Mas, quando, saindo dessas generalidades filos\u00f3ficas, ele tenta aplicar seu princ\u00edpio e extrair a ci\u00eancia nele contida, s\u00e3o id\u00e9ias que ele toma por objeto de estudo. Com efeito, o que faz a mat\u00e9ria principal de sua sociologia \u00e9 o <strong>progresso da humanidade<\/strong> no tempo. Ele parte da id\u00e9ia de que h\u00e1 uma evolu\u00e7\u00e3o cont\u00ednua do g\u00eanero humano que consiste numa realiza\u00e7\u00e3o sempre mais completa da natureza humana, e o problema que ele trata \u00e9 descobrir a ordem dessa evolu\u00e7\u00e3o. Ora, supondo que essa evolu\u00e7\u00e3o exista, sua realidade s\u00f3 pode ser estabelecida uma vez feita a ci\u00eancia; portanto, s\u00f3 se pode fazer dessa evolu\u00e7\u00e3o o objeto mesmo da pesquisa se ela for colocada como uma concep\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito, n\u00e3o como uma coisa. E, de fato, \u00e9 t\u00e3o claro que se trata de uma representa\u00e7\u00e3o inteiramente subjetiva que, na pr\u00e1tica, <strong>esse progresso da humanidade n\u00e3o existe. O que existe, a \u00fanica coisa dada \u00e0 observa\u00e7\u00e3o, s\u00e3o sociedades particulares que nascem, se desenvolvem e morrem independentemente umas das outras<\/strong>. Se pelo menos as mais recentes continuassem as que as precederam, cada tipo superior poderia ser considerado como a simples repeti\u00e7\u00e3o do tipo imediatamente inferior, com alguma coisa a mais; poder-se-ia, pois, alinh\u00e1-las umas depois das outras, por assim dizer, confundindo as que se encontram no mesmo grau de desenvolvimento, e a s\u00e9rie assim formada poderia ser vista como representativa da humanidade. Mas os fatos n\u00e3o se apresentam com essa extrema simplicidade. <strong>Um povo que substitui outro n\u00e3o \u00e9 simplesmente um prolongamento deste \u00faltimo com algumas caracter\u00edsticas novas; ele \u00e9 outro, tem algumas propriedades a mais, outras a menos; constitui uma individualidade nova<\/strong>, e todas essas individualidades distintas, sendo heterog\u00eaneas, n\u00e3o podem se fundir numa mesma s\u00e9rie cont\u00ednua, nem, sobretudo, numa s\u00e9rie \u00fanica. Pois a seq\u00fc\u00eancia das sociedades n\u00e3o poderia ser figurada por uma linha geom\u00e9trica; ela assemelha-se antes a uma \u00e1rvore cujos ramos se orientam em sentidos divergentes. Em suma, Comte tomou por <strong>desenvolvimento hist\u00f3rico<\/strong> a no\u00e7\u00e3o que dele possu\u00eda e que n\u00e3o difere muito da que faz o vulgo. Vista de longe, de fato, a hist\u00f3ria adquire bastante claramente esse aspecto serial e simples. Percebem-se apenas indiv\u00edduos que se sucedem uns aos outros e marcham todos numa mesma dire\u00e7\u00e3o, porque t\u00eam uma mesma natureza. Ali\u00e1s, como n\u00e3o se concebe que a evolu\u00e7\u00e3o social possa ser outra coisa que n\u00e3o o desenvolvimento de uma <strong>id\u00e9ia<\/strong> humana, parece natural defini-la pela id\u00e9ia que dela fazem os homens. Ora, procedendo assim, n\u00e3o apenas se permanece na <strong>ideologia<\/strong>, mas se d\u00e1 como objeto \u00e0 sociologia um conceito que nada tem de propriamente sociol\u00f3gico. (Durkheim 2007:19-21)<\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi por ter desconhecido a exist\u00eancia de <strong>esp\u00e9cies sociais<\/strong> que Comte julgou poder representar o <strong>progresso<\/strong> das sociedades humanas como id\u00eantico ao de um povo \u00fanico &#8220;ao qual seriam idealmente referidas todas as modifica\u00e7\u00f5es consecutivas observadas nas popula\u00e7\u00f5es distintas&#8221;. \u00c9 que, de fato, se existe apenas uma \u00fanica esp\u00e9cie social, as sociedades particulares n\u00e3o podem diferir entre si a n\u00e3o ser em graus, conforme apresentem mais ou menos completamente os tra\u00e7os constitutivos dessa esp\u00e9cie \u00fanica, conforme &#8216;exprimam&#8217; mais ou menos perfeitamente a humanidade. Se, ao contr\u00e1rio, <strong>existem tipos sociais qualitativamente distintos uns dos outros<\/strong>, n\u00e3o se poder\u00e1 fazer que eles se unam exatamente como as se\u00e7\u00f5es homog\u00eaneas de uma reta geom\u00e9trica, por mais que os aproximemos. O desenvolvimento hist\u00f3rico perde deste modo a unidade ideal e sim- plista que lhe atribu\u00edam; ele se fragmenta, por assim dizer, numa infinidade de peda\u00e7os que, por diferirem especificamente uns dos outros, n\u00e3o poderiam ligar-se de maneira cont\u00ednua. A famosa met\u00e1fora de Pascal, retomada depois por Comte [ <sub>Comte (1978:69, 70) apresenta a \u201cc\u00e9lebre f\u00f3rmula filos\u00f3fica de Pascal\u201d como \u201ca primeira no\u00e7\u00e3o racional de progresso humano\u201d, consistindo em \u201cfazer predominar de modo progressivo os eminentes atributos que distinguem a mais nobre humanidade da simples animalidade, a saber, de uma parte, a intelig\u00eancia, de outra, a sociabilidade, faculdades naturalmente solid\u00e1rias que mutuamente se servem de meio e de fim\u201d. COMTE, Auguste. 1978. Catecismo positivista. 13<sup>a<\/sup> Confer\u00eancia (Transi\u00e7\u00e3o Peculiar ao Ocidente). (Trad.: Miguel Lemos) In: <em>Os Pensadores<\/em>. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, pp.117-318. [1852]<\/sub>], mostra-se assim desprovida de verdade. [&#8230;] Mas como fazer para constituir tais esp\u00e9cies? (Durkheim 2007:78-9)<\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cUma vez, diz ele [Comte], que o fen\u00f4meno social, concebido em totalidade, n\u00e3o \u00e9, no fundo, <em>sen\u00e3o um simples desenvolvimento da humanidade, sem nenhuma cria\u00e7\u00e3o de faculdades quaisquer, <\/em>tal como estabeleci anteriormente, todas as disposi\u00e7\u00f5es efetivas que a observa\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica puder sucessivamente revelar dever\u00e3o portanto se verificar, pelo menos em germe, nesse tipo primordial que a biologia construiu de antem\u00e3o para a sociologia.&#8221; [<em>Cour de philos. pos.<\/em>, p.333.] \u00c9 que o fato dominante da vida social, segundo ele, \u00e9 o progresso e, por outro lado, <strong>o progresso depende de um fator exclusivamente ps\u00edquico, a saber, a tend\u00eancia que leva o homem a desenvolver cada vez mais sua nature<\/strong><strong>z<\/strong><strong>a<\/strong>. Os fatos sociais derivariam inclusive t\u00e3o imediatamente da natureza humana que, nas primeiras fases da hist\u00f3ria, poderiam ser diretamente deduzidos sem necessidade de recorrer \u00e0 observa\u00e7\u00e3o [<em>Cour de philos. pos.<\/em>, p.345.]. \u00c9 verdade que, como Comte reconhece, \u00e9 imposs\u00edvel aplicar esse m\u00e9todo dedutivo aos per\u00edodos mais avan\u00e7ados da evolu\u00e7\u00e3o. Mas essa impossibilidade \u00e9 puramente pr\u00e1tica. Deve-se ao fato de a dist\u00e2ncia entre o ponto de partida e o ponto de chegada ser muito grande para que o esp\u00edrito humano, se resolvesse percorr\u00ea-la sem guia, n\u00e3o corresse o risco de se extraviar [<em>Cour de philos. pos.<\/em>, p.346.]. Mas a rela\u00e7\u00e3o entre as leis fundamentais da natureza humana e os resultados \u00faltimos do progresso n\u00e3o deixa de ser anal\u00edtica. <strong>As formas mais complexas da civiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o sen\u00e3o vida ps\u00edquica desenvolvida<\/strong>. Assim, ainda que as teorias da psicologia n\u00e3o sejam suficientes como premissas ao racioc\u00ednio sociol\u00f3gico, elas s\u00e3o a pedra de toque capaz de provar sozinha a validade das proposi\u00e7\u00f5es indutivamente estabelecidas. &#8220;Nenhuma lei de sucess\u00e3o social, diz Comte, indicada pelo m\u00e9todo hist\u00f3rico, mesmo com toda a autoridade poss\u00edvel, dever\u00e1 ser finalmente admitida sen\u00e3o ap\u00f3s ter sido racionalmente ligada, de uma maneira direta ou indireta, mas sempre incontest\u00e1vel, \u00e0 teoria positiva da natureza humana.\u201d [<em>Cour de philos. pos.<\/em>, p.335.] Portanto [para Comte] \u00e9 sempre a psicologia que ter\u00e1 a \u00faltima palavra. (Durkheim 2007:100-1)<\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>EXPLICAR DE MANEIRA CAUSAL (i.e., um fato explicando o outro) O PROGRESSO<\/strong><\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">[S]e realmente a <strong>evolu\u00e7\u00e3o social<\/strong> tivesse sua origem na constitui\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica do homem, n\u00e3o se percebe como ela teria podido se produzir. Pois ent\u00e3o seria preciso admitir que ela tem por motor algum impulso interior \u00e0 <strong>natureza humana<\/strong>. Mas qual poderia ser esse impulso? Seria aquela esp\u00e9cie de <strong>instinto<\/strong> de que fala Comte e que leva o homem a realizar cada vez mais sua natureza? Mas isso \u00e9 responder \u00e0 pergunta com a pergunta e explicar o progresso por uma tend\u00eancia inata ao progresso, verdadeira entidade metaf\u00edsica cuja exist\u00eancia, de resto, nada demonstra; pois as esp\u00e9cies animais, inclusive as mais elevadas, de maneira nenhuma s\u00e3o movidas pela necessidade de progredir, e, <strong>mesmo entre as sociedades humanas, h\u00e1 muitas que se comprazem em permanecer indefinidamente estacion\u00e1rias<\/strong>. Seria esse impulso, como parece acreditar Spencer, a necessidade de uma maior felicidade, que as formas cada vez mais complexas da civiliza\u00e7\u00e3o estariam destinadas a realizar sempre mais completamente? Seria preciso ent\u00e3o estabelecer que a felicidade aumenta com a civiliza\u00e7\u00e3o, <em>e <\/em>expusemos alhures todas as dificuldades que essa hip\u00f3tese levanta [DTS]. N\u00e3o \u00e9 tudo. Ainda que um ou outro desses dois postulados devesse ser admitido, nem por isso o desenvolvimento hist\u00f3rico se tornaria intelig\u00edvel; pois a explica\u00e7\u00e3o resultante seria puramente finalista, e mostramos mais acima que os fatos sociais, assim como todos os fen\u00f4menos naturais, n\u00e3o s\u00e3o explicados pelo simples fato de se mostrar que eles servem a algum fim. Quando se provou que as organiza\u00e7\u00f5es sociais cada vez mais elaboradas que se sucederam ao longo da hist\u00f3ria tiveram por efeito satisfazer sempre mais esta ou aquela de nossas inclina\u00e7\u00f5es fundamentais, nem por isso se fez compreender como elas se produziram. <strong>O <\/strong><strong>f<\/strong><strong>ato de serem \u00fateis n\u00e3o nos ensina o que as fez existir<\/strong>. Ainda que se explicasse como chegamos a imagin\u00e1-las, tra\u00e7ando como que o plano antecipado capaz de nos representar os servi\u00e7os que poder\u00edamos esperar delas \u2013 e o problema j\u00e1 \u00e9 dif\u00edcil \u2013, o desejo do qual elas seriam assim o objeto n\u00e3o teria a virtude de tir\u00e1-las do nada. Em uma palavra, admitindo-se que essas inclina\u00e7\u00f5es s\u00e3o os meios necess\u00e1rios para atingir o objetivo perseguido, a quest\u00e3o permanece inteira: como, isto \u00e9, de que e atrav\u00e9s de que esses meios foram constitu\u00eddos? (Durkheim 2007:110-2)<\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o se costuma dizer que a hist\u00f3ria tem precisamente por objeto encadear os acontecimentos segundo sua ordem de sucess\u00e3o? Mas \u00e9 imposs\u00edvel conceber de que maneira o estado em que a civiliza\u00e7\u00e3o se encontra num momento dado poderia ser a causa determinante do estado seguinte. As etapas que a humanidade percorre sucessivamente n\u00e3o se engendram umas \u00e0s outras. Compreende-se bem que os progressos realizados numa \u00e9poca determinada na ordem jur\u00eddica, econ\u00f4mica, pol\u00edtica, etc, tornem poss\u00edveis novos progressos; mas em que os primeiros predeterminam os segundos? Eles s\u00e3o um ponto de partida que permite ir mais adiante; mas <strong>o que \u00e9 que nos incita a ir mais adiante?<\/strong> Seria preciso admitir ent\u00e3o uma tend\u00eancia interna que leva a humanidade a ultrapassar constantemente os resultados adquiridos, seja para se realizar completamente, se- ja para aumentar sua felicidade, e o objeto da sociologia seria descobrir a ordem segundo a qual se desenvolveu essa tend\u00eancia. Mas, sem voltar \u00e0s dificuldades que semelhante hip\u00f3tese implica, a lei que exprime esse desenvolvimento nada teria de causal. Uma rela\u00e7\u00e3o de causalidade, com efeito, s\u00f3 pode se estabelecer entre dois fatos dados; ora, tal tend\u00eancia, que se sup\u00f5e ser a causa desse desenvolvimento, n\u00e3o \u00e9 dada; \u00e9 apenas postulada e constru\u00edda pelo esp\u00edrito com base nos efeitos que se atribuem a ela. Trata-se de uma esp\u00e9cie de faculdade motora que imaginamos sob o movimento, a fim de explic\u00e1-lo; mas <strong>a causa eficiente de um movimento s\u00f3 pode ser um outro movimento, n\u00e3o uma virtualidade<\/strong> desse g\u00eanero. Portanto, tudo o que obtemos experimentalmente, aqui, \u00e9 uma s\u00e9rie de mudan\u00e7as entre as quais n\u00e3o existe v\u00ednculo causal. O estado antecendente n\u00e3o produz o conseq\u00fcente, mas a rela\u00e7\u00e3o entre eles \u00e9 exclusivamente cronol\u00f3gica. Assim, nessas condi\u00e7\u00f5es, toda previs\u00e3o cient\u00edfica \u00e9 imposs\u00edvel. Podemos perfeitamente dizer como as coisas se sucederam at\u00e9 o presente, n\u00e3o em que ordem elas se suceder\u00e3o daqui por diante, porque a causa de que supostamente dependem n\u00e3o \u00e9 cientificamente determinada, nem determin\u00e1vel. Geralmente, \u00e9 verdade, admite-se que a evolu\u00e7\u00e3o prosseguir\u00e1 no mesmo sentido do passado, mas isso em virtude de um simples postulado. Nada nos garante que os fatos realizados exprimam de maneira bastante completa a natureza dessa tend\u00eancia para que se possa prejulgar o termo a que ela aspira com base naqueles pelos quais passou sucessivamente. Inclusive, por que seria retil\u00ednea a dire\u00e7\u00e3o que ela segue e imprime? [&#8230;] Eis a\u00ed, de fato, a raz\u00e3o de o n\u00famero das rela\u00e7\u00f5es causais, estabelecidas pelos soci\u00f3logos, ser t\u00e3o restrito. Com poucas exce\u00e7\u00f5es, das quais Montesquieu \u00e9 o mais ilustre exemplo, a antiga filosofia da hist\u00f3ria limitou-se unicamente a descobrir o sentido geral em que se orienta a humanidade, sem procurar ligar as fases dessa evolu\u00e7\u00e3o a alguma condi\u00e7\u00e3o concomitante. Por mais que Comte tenha prestado alguns grandes servi\u00e7os \u00e0 filosofia social, os termos nos quais ele coloca o problema sociol\u00f3gico n\u00e3o diferem dos precedentes. Assim, sua famosa <strong>lei dos tr\u00eas estados<\/strong> nada possui de uma rela\u00e7\u00e3o de causalidade; ainda que fosse exata, ela n\u00e3o \u00e9 e <strong>n\u00e3o pode ser mais que emp\u00edrica<\/strong>. Trata-se de uma vis\u00e3o sum\u00e1ria da hist\u00f3ria transcorrida do g\u00eanero humano. \u00c9 muito <strong>arbitrariamente<\/strong> que Comte considera o terceiro estado como o estado definitivo da humanidade. Quem nos diz que n\u00e3o surgir\u00e1 outro no futuro? Do mesmo modo, a lei que domina a sociologia de Spencer n\u00e3o parece ser de outra natureza. Ainda que fosse verdade que tendemos atualmente a buscar nossa felicidade numa civiliza\u00e7\u00e3o industrial, nada assegura que, posteriormente, n\u00e3o venhamos a busc\u00e1-la em outra parte. Ora, o que faz a generalidade e a persist\u00eancia desse m\u00e9todo \u00e9 que na maioria das vezes se viu no meio social um meio pelo qual o progresso se realiza, n\u00e3o a causa que o determina. (Durkhei 2007:118-20)<\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O PROGRESSO \u00c9 INTERNO \u00c0 CADA POVO (nascimento, juventude, vida adulta, decl\u00ednio, morte), MAS COMPAR\u00c1VEL ENTRE DIFERENTES POVOS (desde que comparados na mesma idade)<\/strong><\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">[U]ma sociedade n\u00e3o cria completamente sua organiza\u00e7\u00e3o; ela a recebe pronta, em parte, das sociedades que a precederam. O que lhe \u00e9 assim transmitido, no decorrer de sua hist\u00f3ria, n\u00e3o \u00e9 o produto de um desenvolvimento seu, portanto n\u00e3o pode ser explicado se n\u00e3o sairmos dos limites da esp\u00e9cie de que ela faz parte. Somente os acr\u00e9scimos que se juntam a esse fundo primitivo e o transformam podem ser tratados dessa maneira. Por\u00e9m, <strong>quanto mais nos elevamos na escala social, tanto menor \u00e9 a import\u00e2ncia dos caracteres adquiridos por cada povo comparados aos caracteres transmitidos<\/strong>. Ali\u00e1s, essa \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o de todo <strong>progresso<\/strong>. Assim, elementos novos que introduzimos no direito dom\u00e9stico, no direito de propriedade, na moral, desde o come\u00e7o de nossa hist\u00f3ria, s\u00e3o relativamente pouco numerosos e pouco importantes, comparados aos que o passado nos legou. As novidades que se produzem n\u00e3o poderiam portanto ser compreendidas se primeiro n\u00e3o fossem estudados aqueles fen\u00f4menos mais fundamentais que s\u00e3o suas ra\u00edzes, e estes s\u00f3 podem ser estudados com o aux\u00edlio de compara\u00e7\u00f5es muito mais extensas. Para poder explicar o estado atual da fam\u00edlia, do casamento, da propriedade, etc., seria preciso conhecer quais s\u00e3o suas origens, quais os elementos simples que comp\u00f5em essas institui\u00e7\u00f5es, e, sobre esses pontos, a hist\u00f3ria comparada das grandes sociedades europ\u00e9ias n\u00e3o nos daria grandes esclarecimentos. \u00c9 preciso remontar mais acima. [&#8230;] Conseq\u00fcentemente, para explicar uma institui\u00e7\u00e3o social, pertencente a uma esp\u00e9cie determinada, iremos comparar as formas diferentes que ela apresenta n\u00e3o apenas nos povos dessa esp\u00e9cie, mas em todas as esp\u00e9cies anteriores. Trata-se, por exemplo, da organiza\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica? Constituiremos primeiramente o tipo mais rudimentar que possa ter existido, para em seguida acompanhar passo a passo a maneira como ele progressivamente se complicou. Esse m\u00e9todo, que poder\u00edamos chamar gen\u00e9tico, efetuaria de uma s\u00f3 vez a an\u00e1lise e a s\u00edntese do fen\u00f4meno. Pois, por um lado, nos mostraria em estado dissociado os elementos que o comp\u00f5em, pelo simples fato de nos mostrar esses elementos acrescentando-se sucessivamente uns aos outros; ao mesmo tempo, gra\u00e7as ao extenso campo de compara\u00e7\u00e3o, ele seria bem mais capaz de determinar as condi\u00e7\u00f5es de que dependem a forma\u00e7\u00e3o e associa\u00e7\u00e3o desses mesmos elementos. <em>Conseq\u00fcentemente, <\/em>s\u00f3 <em>se pode explicar um<\/em><em> fato social de alguma complexidade se se acompanhar seu desenvolvimento integral atrav\u00e9s de todas as esp\u00e9cies sociais<\/em><em>. <\/em>A sociologia comparada n\u00e3o \u00e9 um ramo particular da sociologia; \u00e9 a sociologia mesma, na medida em que ela deixa de ser puramente descritiva e aspira a explicar os fatos. [&#8230;] No decorrer dessas compara\u00e7\u00f5es extensas, comete-se com freq\u00fc\u00eancia um erro que falseia os resultados. Algumas vezes, para julgar em que sentido se desenvolvem os acontecimentos sociais, simplesmente se comparou o que se passa no decl\u00ednio de cada esp\u00e9cie com o que se produz no come\u00e7o da esp\u00e9cie seguinte. Procedendo deste modo, acreditou-se poder afirmar, por exemplo, que o enfraquecimento das cren\u00e7as religiosas e de todo tradicionalismo nunca podia ser mais que um fen\u00f4meno passageiro da vida dos povos, porque ele s\u00f3 aparece no \u00faltimo per\u00edodo de sua exist\u00eancia para cessar assim que uma nova evolu\u00e7\u00e3o recome\u00e7a. Mas, com semelhante m\u00e9todo, corre-se o risco de tomar como marcha regular e necess\u00e1ria do progresso o que \u00e9 efeito de uma causa muito diferente. De fato, o estado em que se encontra uma sociedade jovem n\u00e3o \u00e9 simplesmente o prolongamento do estado em que haviam chegado no final de sua carreira as sociedades que ela substitui, mas prov\u00e9m em parte dessa pr\u00f3pria juventude que impede que os produtos das experi\u00eancias feitas pelos povos anteriores sejam todos imediatamente assimil\u00e1veis e utiliz\u00e1veis. Assim, a crian\u00e7a recebe de seus pais faculdades e predisposi\u00e7\u00f5es que s\u00f3 tardiamente entram em jogo em sua vida. Portanto \u00e9 poss\u00edvel, para retomar o mesmo exemplo, que o retorno do tradicionalismo observado no come\u00e7o de cada hist\u00f3ria seja devido, n\u00e3o ao fato de que um recuo do mesmo fen\u00f4meno s\u00f3 pode ser transit\u00f3rio, mas \u00e0s <strong>condi\u00e7\u00f5es especiais em que se acha colocada toda sociedade que come\u00e7a<\/strong>. A compara\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode ser demonstrativa se eliminamos esse fator da idade, que a perturba; para tanto, <em>bastar\u00e1 considerar as sociedades comparadas no mesmo per\u00edodo de seu desenvolvimento. <\/em>Assim, para saber em que sentido evolui um fen\u00f4meno social, iremos comparar o que ele \u00e9 na juventude de cada esp\u00e9cie com aquilo em que se transforma na juventude da esp\u00e9cie seguinte, e, conforme apresentar, de uma etapa a outra, maior, menor ou igual intensidade, diremos que ele progride, recua ou se mant\u00e9m. (Durkheim 2007:240-3)<\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">DURKHEIM, \u00c9mile. 2007. <em>As regras do m\u00e9todo sociol\u00f3gico<\/em>. (Trad.:Paulo Neves) S\u00e3o Paulo: Martins Fontes. [1994]<\/p>\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PROGRESSO HUMANO \u00e9 IDEOLOGIA (pois n\u00e3o existe humanidade ou natureza humana-psicol\u00f3gica, apenas sociedades particulares ou esp\u00e9cies sociais) [A]t\u00e9 o presente, a sociologia tratou mais ou menos exclusivamente n\u00e3o de coisas, mas de conceitos. Comte, \u00e9 verdade, proclamou que os fen\u00f4menos sociais s\u00e3o fatos naturais, submissos a leis naturais. Deste modo, ele implicitamente reconheceu seu car\u00e1ter de coisas, pois na natureza [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":72,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[25],"class_list":["post-70","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-fichamento","tag-durkheim"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/DURKHEIM_xEmile-Durkheim-gallery-1.jpg.pagespeed.ic_.ie44KamS3Lthis-853x1024-1.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=70"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":71,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70\/revisions\/71"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/72"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=70"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=70"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=70"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}