{"id":555,"date":"2021-04-19T01:55:29","date_gmt":"2021-04-19T01:55:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=555"},"modified":"2021-04-19T02:14:56","modified_gmt":"2021-04-19T02:14:56","slug":"cultura-tecnocientifica-hottois-1993","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2021\/04\/19\/cultura-tecnocientifica-hottois-1993\/","title":{"rendered":"Cultura tecnocient\u00edfica (Hottois 1993)"},"content":{"rendered":"<p>Na Introdu\u00e7\u00e3o de <em>Simondon et la philosophie de la &#8220;culture technique&#8221;<\/em> [<em>Simondon e a filosofia da &#8220;cultura t\u00e9cnica<\/em>&#8220;] (Buxelles: De Boeck-Wesmael, 1993), Gilbert Hottois afirma:<\/p>\n<blockquote><p>Para G. Simondon, \u00e9 por meio da Pesquisa e Desenvolvimento tecnocient\u00edficos que o devir da humanidade \u00e9 atualmente buscado. Assim, \u00e9 a coevolu\u00e7\u00e3o do homem e da t\u00e9cnica que se deve pensar, prevenindo os riscos de bloqueio e de dissocia\u00e7\u00e3o, a fim de tornar essa coevolu\u00e7\u00e3o autenticamente vi\u00e1vel, isto \u00e9, sensata. O fil\u00f3sofo deve se voltar para o local onde a quest\u00e3o do sentido est\u00e1 em jogo; \u00e9 por isso que a elabora\u00e7\u00e3o de uma cultura tecnocient\u00edfica, condi\u00e7\u00e3o de uma gest\u00e3o simb\u00f3lica progressiva da coevolu\u00e7\u00e3o do homem e da t\u00e9cnica, se tornou a tarefa essencial e urgente da filosofia. (Hottois 1993:9-10)<\/p><\/blockquote>\n<p>O importante aqui, parece-me, \u00e9 menos a especificidade disciplinar da filosofia e mais a atitude filos\u00f3fica proposta por Simondon e apresentada por Hottois: buscar uma compreens\u00e3o consistente do sentido da t\u00e9cnica, participar da constru\u00e7\u00e3o daquilo que Simondon chamou de &#8220;cultura t\u00e9cnica&#8221; e que Hottois prefere chamar de &#8220;cultura tecnocient\u00edfica&#8221;.<\/p>\n<p>O livro de Hottois \u00e9 extremamente \u00fatil para refletir sobre as complexidades e implica\u00e7\u00f5es de tal tarefa. A seguir, eu me limito a apresentar uma s\u00edntese pessoal do pr\u00f3logo [<em>Liminaire<\/em>] do livro, onde Hottois apresenta as linhas gerais do &#8220;debate em torno da &#8216;cultura tecnocient\u00edfica'&#8221;.<\/p>\n<p>O pr\u00f3logo come\u00e7a comparando, o diagn\u00f3stico de C.P. Snow (contempor\u00e2neo, ali\u00e1s, de Simondon) a respeito da exist\u00eancia de duas culturas (uma tradicional-liter\u00e1ria, e outra moderna-cient\u00edfica), \u00e0 perene querela entre os Antigos e os Modernos. Trata-se de uma oposi\u00e7\u00e3o entre duas dimens\u00f5es da vida humana: uma operat\u00f3ria (a\u00e7\u00e3o) e a outra simb\u00f3lica (representa\u00e7\u00e3o). Leroi-Gourhan \u00e9 citado como exemplo de express\u00e3o dessa oposi\u00e7\u00e3o quando op\u00f5e a\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e linguagem em <em>Le geste et la parole<\/em>.<\/p>\n<p>Na se\u00e7\u00e3o &#8220;<strong>1. N\u00e3o existe &#8216;cultura tecnocient\u00edfica&#8217;<\/strong>&#8220;, Hottois cita M. Henry (<em>La barbarie<\/em>) e J. Ellul (<em>Le bluff technologique<\/em>) como exemplos de autores que op\u00f5em radicalmente &#8220;cultura&#8221; (entendida como linguagem simb\u00f3lica e representativa) e &#8220;tecnologia&#8221; (entendida como a\u00e7\u00e3o operat\u00f3ria e pragm\u00e1tica), tornando assim imposs\u00edvel a exist\u00eancia de qualquer coisa parecida com uma &#8220;cultura tecnocient\u00edfica&#8221;. Trata-se, segundo Hottois, de uma nega\u00e7\u00e3o <em>a priori<\/em>, ou &#8220;anal\u00edtica&#8221;, pois que baseada em conceitos falhos de &#8220;cultura&#8221;, &#8220;tecnologia&#8221; e &#8220;ci\u00eancia&#8221;. Ele ent\u00e3o se pergunta:<\/p>\n<blockquote><p>[O] que deve ser a ci\u00eancia contempor\u00e2nea e a cultura humana para que qualquer coisa como uma cultura cient\u00edfica ou t\u00e9cnica seja propriamente inconceb\u00edvel?&#8221; (Hottois 1993:18)<\/p><\/blockquote>\n<p>E a resposta \u00e9 dada na forma de dois pressupostos:<\/p>\n<blockquote><p>(a) a ci\u00eancia contempor\u00e2nea \u00e9 definida como tecnoci\u00eancia; (b) a cultura \u00e9 principalmente o dom\u00ednio da express\u00e3o ling\u00fc\u00edstica.&#8221; (Hottois 1993:18)<\/p><\/blockquote>\n<p>O ser humano \u00e9 assim visto como essencialmente simbolizador e, portanto, como essencialmente distinto do dom\u00ednio tecnocient\u00edfico, o que torna inconceb\u00edvel uma &#8220;cultura&#8221; propriamente &#8220;tecnocient\u00edfica&#8221;.<\/p>\n<p>Na se\u00e7\u00e3o &#8220;<strong>2. Breve retorno \u00e0s &#8216;duas culturas&#8217; de Snow<\/strong>&#8220;, Hottois confirma os pressupostos da nega\u00e7\u00e3o de uma cultura tecnocient\u00edfica plena ou aut\u00eantica (no sentido simondoniano), pois tamb\u00e9m para Snow:<\/p>\n<blockquote><p>[A] ci\u00eancia contempor\u00e2nea \u00e9 tecnoci\u00eancia e a cultura \u00e9 fundamentalmente assun\u00e7\u00e3o verbal da condi\u00e7\u00e3o humana, ent\u00e3o n\u00e3o pode haver qualquer coisa como uma &#8220;cultura tecnocient\u00edfica&#8221;. (Hottois 1993:20).<\/p><\/blockquote>\n<p>Na se\u00e7\u00e3o &#8220;<strong>3. Os dois postulados da recusa da &#8216;cultura tecnocient\u00edfica&#8217;<\/strong>&#8220;, Hottois deriva dos pressupostos j\u00e1 mencionados o principal problema da recusa da &#8220;cultura tecnocient\u00edfica&#8221; no sentido simondoniano: a separa\u00e7\u00e3o, o isolamento, da cultura e da t\u00e9cnica, da l\u00edngua e do gesto, do sentido e da a\u00e7\u00e3o. Ele afirma:<\/p>\n<blockquote><p>A tecnoci\u00eancia n\u00e3o deixa nenhum lugar leg\u00edtimo \u00e0 express\u00e3o especulativa. Essa ruptura com a cultura verbal, que \u00e9 tamb\u00e9m o culto do Verbo, come\u00e7a explicitamente com o nascimento da ci\u00eancia moderna. (Hottois 1993:22).<\/p><\/blockquote>\n<p>No entanto, Hottois faz notar, tal isolamento \u00e9 problem\u00e1tico pois existem de fato in\u00fameras sobreposi\u00e7\u00f5es entre esses p\u00f3los, <em>e.g.<\/em>, os &#8220;meios simb\u00f3licos de c\u00e1lculo e comunica\u00e7\u00e3o&#8221; da pr\u00f3pria tecnoci\u00eancia e &#8220;as t\u00e9cnicas e as pr\u00e1ticas, isto \u00e9, os instrumentos e os meios f\u00edsicos [&#8230;] que permitem a adapta\u00e7\u00e3o e a intera\u00e7\u00e3o de um grupo cultural e de seu meio natural&#8221; (p.22-3). Mesmo assim, \u00e9 a oposi\u00e7\u00e3o aprior\u00edstica e problem\u00e1tica entre &#8220;cultura&#8221; e &#8220;tecnologia&#8221; que far\u00e1 com que, atualmente, a tecnoci\u00eancia coloque seus valores internos (sua &#8220;cultura&#8221; no sentido fraco do termo) contra e acima das representa\u00e7\u00f5es e ideologias pol\u00edticas e culturais (tamb\u00e9m no sentido fraco do termo) que lhes seriam exteriores. O t\u00e9cnico-cient\u00edfico (objetivo, quantific\u00e1vel, factual) como superior ao &#8220;meramente&#8221; pol\u00edtico (subjetivo, ideol\u00f3gico, mat\u00e9ria de opini\u00e3o).<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Homo loquax&#8221; dever\u00e1 ent\u00e3o, no n\u00edvel da determina\u00e7\u00e3o mesma de sua ess\u00eancia, dar lugar ao &#8220;Homo faber&#8221;, o que ent\u00e3o suprimir\u00e1 a possibilidade mesma de toda determina\u00e7\u00e3o de ess\u00eancia, isto \u00e9, de toda totaliza\u00e7\u00e3o [<em>bouclage<\/em>] especulativa, de toda totaliza\u00e7\u00e3o simb\u00f3lico-sem\u00e2ntica. (Hottois 1993:25)<\/p><\/blockquote>\n<p>Na \u00faltima se\u00e7\u00e3o, &#8220;<strong>4. O que \u00e9 a &#8216;cultura tecnocient\u00edfica&#8217;?<\/strong>&#8220;, Hottois refor\u00e7a a diferen\u00e7a entre os sentidos fraco e forte do termo &#8220;cultura tecnocient\u00edfica&#8221;, i.e., aquele que mant\u00e9m a oposi\u00e7\u00e3o &#8220;cultura&#8221;\/&#8221;t\u00e9cnica&#8221; e aquele que a supera. Indo na dire\u00e7\u00e3o do segundo sentido, ele afirma:<\/p>\n<blockquote><p>A cultura tecnocient\u00edfica \u00e9 ao mesmo tempo cognitiva e pr\u00e1tica. ela deve tornar poss\u00edvel uma rela\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo livre e respons\u00e1vel entre o indiv\u00edduo e o meio social tecnocient\u00edfico (Hottois 1993:26).<\/p><\/blockquote>\n<p>E mais adiante:<\/p>\n<blockquote><p>Uma tal cultura tecnocient\u00edfica seria universal e liberadora ao mesmo tempo para os homens e os artefatos, pois ela comporta a capacidade de organizar as m\u00e1quinas em sistemas e em redes e de desenvolv\u00ea-las no sentido de seu aperfei\u00e7oamento. Dessa perspectiva, a cultura implica tamb\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o direta, concreta, com o universo t\u00e9cnico. [&#8230;] Gra\u00e7as \u00e0 cultura t\u00e9cnica, o homem se torna o mediador-organizador do conjunto das m\u00e1quinas e t\u00e9cnicas que j\u00e1 garantem, elas mesmas, uma media\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es entre os homens e entre os homens e o mundo. Ela permite, enfim, aceder ao sentido da beleza t\u00e9cnica, que postula que se compreenda a opera\u00e7\u00e3o, a fun\u00e7\u00e3o e a estrutura dos artefatos. (Hottois 1993:28)<\/p><\/blockquote>\n<p>Aqui Hottois toca diretamente na quest\u00e3o da tecnoest\u00e9tica e em como ela se liga ao conceito de &#8220;cultura tecnocient\u00edfica&#8221;.<\/p>\n<p>O problema central de Hottois \u00e9, portanto, a possibilidade de exist\u00eancia de uma &#8220;cultura&#8221; que n\u00e3o seja &#8220;nem um simples jogo metaf\u00f3rico-meton\u00edmico e nem uma mistifica\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica&#8221;, mas sim &#8220;um trabalho simb\u00f3lico-verbal de elabora\u00e7\u00e3o sem\u00e2ntico-especulativa (que comporta tamb\u00e9m, e n\u00e3o de maneira marginal, a express\u00e3o e a cristaliza\u00e7\u00e3o diferenciada do desejo, do afetivo e da sensibilidade)&#8221; (p.29) sobre a tecnoci\u00eancia enquanto tal. Para defender tal possibilidade, ele coloca &#8220;t\u00e9cnica&#8221; (instrumentos e habilidades) e &#8220;cultura&#8221; (s\u00edmbolos e representa\u00e7\u00f5es) lado a lado como meios sempre parciais que n\u00f3s seres humanos usamos para nos &#8220;adaptar&#8221; ao nosso meio, e apresenta a &#8220;cultura t\u00e9cnica&#8221; como sendo uma totaliza\u00e7\u00e3o tecnocultural dessas parcialidades.<\/p>\n<p>Em  conclus\u00e3o, Hottois esclarece ainda mais a distin\u00e7\u00e3o entre os dois sentidos, fraco e forte, da express\u00e3o &#8220;cultura tecnocient\u00edfica&#8221;: aquela parcial e ilus\u00f3ria, oficializada por Snow, que se op\u00f5e a uma &#8220;cultura tradicional-liter\u00e1ria&#8221;; e aquela totalizante e aut\u00eantica, proposta por Simondon, que re\u00fane os saberes t\u00e9cnico e filos\u00f3fico em um s\u00f3 sistema. Eu cito:<\/p>\n<blockquote><p>Uma cultura que ignora ou desvaloriza sua rela\u00e7\u00e3o com o pensamento especulativo, isto \u00e9, que se recusa ao trabalho simb\u00f3lico e reflexivo sobre sua pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica e, simultaneamente, de seu pr\u00f3prio e constante questionamento radical, carece de uma dimens\u00e3o essencial, t\u00e3o essencial que poder-se-ia perguntar se se trata efetivamente ainda de uma cultura. (Hottois 1993:32)<\/p><\/blockquote>\n<p>Minha pr\u00f3pria conclus\u00e3o quanto ao texto de Hottois pode ser resumida da seguinte forma: <em>\u00e9 preciso legitimar a extens\u00e3o das quest\u00f5es da tecnoci\u00eancia para al\u00e9m dos t\u00e9cnicos e cientistas, sobretudo pois as conseq\u00fc\u00eancias de tais quest\u00f5es ser\u00e3o inevitavelmente estendidas para o resto da sociedade. <\/em>Em outras palavras, \u00e9 o futuro do humano que est\u00e1 em jogo, e n\u00e3o podemos ficar apenas observando, sofrendo as conseq\u00fc\u00eancias de a\u00e7\u00f5es sem sentido (sentindo o insensato). O problema, para mim, \u00e9 saber como \u00e9 poss\u00edvel o desenvolvimento de uma tal &#8220;cultura tecnocient\u00edfica&#8221; sem que todos se tornem tecnocientistas. <\/p>\n<p>HOTTOIS, Gilbert. 1993. <em>Simondon et la philosophie de la &#8220;culture technique&#8221;<\/em>. Buxelles: De Boeck-Wesmael.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na Introdu\u00e7\u00e3o de Simondon et la philosophie de la &#8220;culture technique&#8221; [Simondon e a filosofia da &#8220;cultura t\u00e9cnica&#8220;] (Buxelles: De Boeck-Wesmael, 1993), Gilbert Hottois afirma: Para G. Simondon, \u00e9 por meio da Pesquisa e Desenvolvimento tecnocient\u00edficos que o devir da humanidade \u00e9 atualmente buscado. 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