{"id":535,"date":"2021-04-18T18:39:17","date_gmt":"2021-04-18T18:39:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=535"},"modified":"2021-04-19T01:35:44","modified_gmt":"2021-04-19T01:35:44","slug":"warhol-picabia-big-bands-man-ray-e-os-maquinismos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2021\/04\/18\/warhol-picabia-big-bands-man-ray-e-os-maquinismos\/","title":{"rendered":"Warhol, Picabia, Big Bands, Man Ray e os maquinismos desejantes de Deleuze e Guattari (2010 [1972])"},"content":{"rendered":"<p>Em um \u00f3timo ensaio sobre o devir-m\u00e1quina de Andy Warhol, Thierry de Duve (1989:10) mostra como &#8220;[d]esde que Delaroche, Champfleury ou Baudelaire expressaram o medo, inspirado pela fotografia, de que o pintor fosse substitu\u00eddo pela m\u00e1quina, pintores modernos \u2013 os grandes, aqueles que merecem ser chamados de vanguarda \u2013 responderam com a manifesta\u00e7\u00e3o de seu desejo de ser uma&#8221;, de &#8220;se tornar[e]m, no desejo e na pr\u00e1tica, n\u00e3o o fot\u00f3grafo, mas o seu instrumento&#8221;. Andy Warhol, que &#8220;queria ser uma m\u00e1quina&#8221; \u00e9, para De Duve (1989:3,9, 13), &#8220;a m\u00e1quina tornada perfeita&#8221;, a realiza\u00e7\u00e3o da necessidade hist\u00f3rica do pintor de &#8220;querer ser uma m\u00e1quina&#8221;, pois &#8220;[e]le sabia n\u00e3o apenas como se comportar como uma m\u00e1quina pintora, mas tamb\u00e9m como uma m\u00e1quina filmadora, uma m\u00e1quina impressora, uma m\u00e1quina gravadora, e como a m\u00e1quina registradora do mercado de arte&#8221;.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/warhol_cri_000000342622.jpg\" alt=\"\" \/><strong>Fig.01<\/strong>: &#8220;Self-Portrait&#8221; (Andy Warhol 1966).<\/p>\n<p>William A. Camfield (1966:309) notou que &#8220;a fun\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina \u00e9 freq\u00fcentemente um elemento vital da pintura&#8221; de Francis Picabia. Picabia passou a se dedicar ao &#8220;estilo maquinista&#8221; em 1915, ap\u00f3s uma viagem aos Estados Unidos na qual ele percebeu que &#8220;o g\u00eanio do mundo moderno est\u00e1 na maquinaria&#8221; (Francis Picabia <em>apud<\/em> Camfield 1966:309) &#8211; ele abandonou o estilo oito anos depois, numa das diversas rupturas que marcaram sua vida art\u00edstica). Segundo Camfield (1966:318), as m\u00e1quinas de Picabia &#8220;funcionam&#8221; tanto quanto qualquer m\u00e1quina t\u00e9cnica (suas pe\u00e7as primando n\u00e3o pela &#8220;expressividade&#8221;, mas sim pela obten\u00e7\u00e3o de um &#8220;efeito&#8221;), desde que n\u00e3o se confunda o funcionalismo desta com o daquelas. Gilles Deleuze e F\u00e9lix Guattari (2010) poderiam dizer que, se num caso estamos diante de um funcionalismo mec\u00e2nico, no outro estamos diante de um funcionalismo maqu\u00ednico. Camfield cita diversos exemplos: &#8220;Voil\u00e0 Haviland&#8221; (1915), que retrata Paul Haviland como uma l\u00e2mpada sem soquete; &#8220;Ici, c&#8217;est ici Stieglitz&#8221; (1915), que retrata Alfred Stieglitz como uma m\u00e1quina fotogr\u00e1fica quebrada; &#8220;Voil\u00e0 Elle&#8221; (1915), que retrata uma mulher como uma &#8220;m\u00e1quina de amor autom\u00e1tica&#8221;; &#8220;Portrait de Marie Laurencin&#8221; (1916-7), que a retrata como uma esp\u00e9cie de ventilador, e muitos outros. <\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/picabia_b39d30842f3f005987c31a2ed2014aa7576aba35.jpg\" alt=\"\" \/><strong>Fig.02<\/strong>: &#8220;Ici, c&#8217;est ici Stieglitz&#8221; (Francis Picabia 1915).<\/p>\n<p>Segundo Joel Dinerstein (2001), as Big Bands norte-americanas das primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, eram &#8220;uma m\u00e1quina feita de humanos&#8221;. Com isso ele n\u00e3o pretendeu afirmar que o Jazz e o Swing que elas tocavam soavam como o barulho de m\u00e1quinas, mas sim que, enquanto um conjunto, as Big Bands funcionavam como m\u00e1quinas: &#8220;de quatorze a dezoito homens em roupas id\u00eanticas sentados calmamente em se\u00e7\u00f5es atr\u00e1s de partituras carimbadas com o nome da companhia esperando para explodir de maneira controlada&#8221;. Dinerstein (2001) viu nessa &#8220;est\u00e9tica da m\u00e1quina&#8221; uma maneira encontrada pelas pessoas de &#8220;participar das paisagens tecnol\u00f3gicas&#8221; que se disseminavam inexoravelmente naquele in\u00edcio de s\u00e9culo, &#8220;dan\u00e7ando para dentro de seus sistemas individuais as mudan\u00e7as industriais geradas pelas m\u00e1quinas Big Band&#8221;, m\u00e1quinas verdadeiramente desejantes &#8211; no sentido de Deleuze e Guattari (2010) &#8211; cujas pe\u00e7as humanas &#8220;geralmente pareciam adorar seu trabalho&#8221;. Parece ser mais por afec\u00e7\u00e3o maqu\u00ednica do que por qualquer compara\u00e7\u00e3o formal que os sons das Big Bands acabavam por se ligar, como que por maquina\u00e7\u00f5es inconscientes, aos sons das m\u00e1quinas t\u00e9cnicas do ambiente da \u00e9poca. Isso ajuda a entender o cr\u00edtico musical que, ap\u00f3s sair de uma apresenta\u00e7\u00e3o de Benny Goodman na Nova Iorque de 1936, &#8220;ainda podia escutar a m\u00fasica &#8216;soando logo acima&#8217; e pulsando sob seus p\u00e9s, &#8216;como se ela viesse do solo americano sob esses pr\u00e9dios, ruas e autom\u00f3veis (o que \u00e9 verdade)'&#8221;.<br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/big-band-jazz-greats-Duke-Ellington-Otto.jpg\" alt=\"\" \/><strong>Fig.03<\/strong>: Big Band de Duke Ellington (d\u00e9cada de 1920).<\/p>\n<p>E o que dizer do devir-m\u00e1quina da pintura de um Man Ray habitante de Manhattan no final dos anos 1910?: &#8220;Eles estavam construindo o metr\u00f4 da avenida Lexington e o barulho das betoneiras e britadeiras era constante. Era m\u00fasica para mim, e mesmo uma fonte de inspira\u00e7\u00e3o&#8221; (Man Ray <em>apud<\/em> Zabel 1989:73). N\u00e3o por acaso, seu &#8220;Dancer\/Danger (L&#8217;Impossible)&#8221; (1920) foi citado por Deleuze e Guattari (2010) como exemplo da impossibilidade que coloca em movimento toda m\u00e1quina desejante:<\/p>\n<blockquote><p><em>Dancer\/Danger<\/em> de Man ray, subtitulado \u201ca impossibilidade\u201d, apresenta dois graus de absurdidade: nem os grupos de rodas dentadas e nem a grande roda de transmissa\u0303o podem funcionar. Supondo que esta ma\u0301quina represente o rodopio do danc\u0327arino espanhol, podemos dizer: ela traduz mecanicamente, por absurdo, a impossibilidade de uma ma\u0301quina efetuar por si um tal movimento (o danc\u0327arino na\u0303o e\u0301 uma ma\u0301quina). Mas podemos tambe\u0301m dizer: deve haver ai\u0301 um danc\u0327arino como pec\u0327a de ma\u0301quina; esta pec\u0327a de ma\u0301quina so\u0301 pode ser um danc\u0327arino; eis a ma\u0301quina de que o danc\u0327arino e\u0301 uma pec\u0327a. Ja\u0301 na\u0303o se trata de confrontar o homem e a ma\u0301quina para avaliar as corresponde\u0302ncias, os prolongamentos, as substituic\u0327o\u0303es possi\u0301veis ou impossi\u0301veis entre ambos, mas de leva\u0301-los a comunicar entre si para mostrar como o homem compo\u0303e pec\u0327a com a ma\u0301quina, ou compo\u0303e pec\u0327a com outra coisa para constituir uma ma\u0301quina. (Deleuze e Guattari 2010:508)<\/p><\/blockquote>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/manray_man-ray_dancer-danger_impossible.jpg\" alt=\"\" \/><strong>Fig.03<\/strong>: &#8220;Dancer\/Danger (L&#8217;Impossible)&#8221; (Man Ray 1920).<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><br \/>\nCAMFIELD, William A. 1966. The Machinist Style of Francis Picabia. <em>The Art Bulletin<\/em> 48(3\/4):309-22.<br \/>\nDE DUVE, Thierry. 1989. Andy Warhol, or The Machine Perfected. <em>October<\/em> 48:3-14.<br \/>\nDELEUZE, Gilles; GUATTARI, F\u00e9lix. 2010. <em>O anti-\u00c9dipo: capitalismo e esquizofrenia 1<\/em>. (Trad. Luiz B. Orlandi) S\u00e3o Paulo: Ed.34. [1972]<br \/>\nDINERSTEIN, Joel. 2001. American Modernity: Jazz Rhythms and Machine Aesthetics. <em>Mickle Street Review <\/em>15.<br \/>\nZABEL, Barbara. 1989. Man Ray and the Machine. <em>Smithsonian Studies in American Art<\/em> 3(4):66-83.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em um \u00f3timo ensaio sobre o devir-m\u00e1quina de Andy Warhol, Thierry de Duve (1989:10) mostra como &#8220;[d]esde que Delaroche, Champfleury ou Baudelaire expressaram o medo, inspirado pela fotografia, de que o pintor fosse substitu\u00eddo pela m\u00e1quina, pintores modernos \u2013 os grandes, aqueles que merecem ser chamados de vanguarda \u2013 responderam com a manifesta\u00e7\u00e3o de seu desejo de ser uma&#8221;, de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":542,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[91],"tags":[111,112,68,113,58,114],"class_list":["post-535","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-comentario","tag-camfield","tag-de-duve","tag-deleuze","tag-dinerstein","tag-guattari","tag-zabel"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/picabia_fe8e228db0fa7bb486017560acc345c4.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/535","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=535"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/535\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":552,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/535\/revisions\/552"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/542"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=535"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=535"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=535"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}