{"id":526,"date":"2021-04-18T16:53:49","date_gmt":"2021-04-18T16:53:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=526"},"modified":"2021-04-18T16:55:04","modified_gmt":"2021-04-18T16:55:04","slug":"breakbeat-science-a-ciencia-da-batida-quebrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2021\/04\/18\/breakbeat-science-a-ciencia-da-batida-quebrada\/","title":{"rendered":"<em>Breakbeat Science<\/em>: a ci\u00eancia da batida quebrada"},"content":{"rendered":"<p><strong>:::::::::: O <em>BREAK<\/em> E O <em>BREAKBEAT<\/em> :.<\/strong><br \/>\nExistem muitas maneiras de definir o <em>break<\/em>: &#8220;uma c\u00e9lula percussiva internamente complexa&#8221; (Toop 2000a:92); &#8220;a parte da m\u00fasica na qual a bateria assume&#8221; (Toop 2000b:14); &#8220;a parte de uma faixa de Funk ou Disco que traz apenas percuss\u00e3o, o pico no qual os dan\u00e7arinos disparam e realizam seus passos mais impressionantes&#8221; Reynolds 1999:252; cf. p.120); a parte do disco na qual &#8220;o n\u00edvel de energia da sala inteira disparava&#8221; (Brewster e Broughton 2000:208); a parte da m\u00fasica que &#8220;te agarra&#8221; (DJ Afrika Bambaataa, in: Poschardt 1998:162 nota 43).<\/p>\n<p>Por\u00e9m, o conceito de <em>break<\/em> parece ter surgido muito antes do Funk e da Disco. J\u00e1 nos discos de Jazz dos anos 1920 o termo era usado para designar os solos de percuss\u00e3o e bateria (cf. Brewster e Broughton 2000:207; Toop 2000b:142-3; Shapiro 2000e:152). A diferen\u00e7a \u00e9 que os <em>breaks<\/em> de Jazz, via de regra, n\u00e3o tiveram, nas m\u00e3os dos DJs, o mesmo efeito dan\u00e7ante que os <em>breaks<\/em> de Rock, Soul, Funk, Disco e de outros estilos j\u00e1 dos anos 1960 e 1970.<\/p>\n<p>Toop (2000b:13-4, 60-2) distinguiu os &#8220;DJs de discoteca&#8221; dos &#8220;DJs de festas de periferia&#8221; da Nova Iorque dos anos 1970. Segundo Toop,  os &#8220;DJs de discoteca&#8221; criavam um contexto para o <em>break<\/em>, toda uma sequ\u00eancia musical que culminava nessa parte da m\u00fasica e que partia dela para outro <em>break<\/em> mais adiante. Diferentemente, os  &#8220;DJs de festas de periferia&#8221; faziam da repeti\u00e7\u00e3o ininterrupta de <em>breaks<\/em> um contexto para a exibi\u00e7\u00e3o de movimentos espetaculares de dan\u00e7a (<em>breakdance<\/em>), da fala (Rap) e, mais tarde, de suas pr\u00f3prias habilidades (<em>turntablism<\/em>). No entanto, seja como uma quebra contextualizada, seja como um contexto para (re)quebrar, o <em>break<\/em> \u00e9 sempre uma parte <em>curta<\/em> da m\u00fasica que se sobressai pelo seu <em>efeito<\/em> motor e transitivo (cf. Needham 1967), como um est\u00edmulo \u00e0 dan\u00e7a, \u00e0 mudan\u00e7a do movimento.<\/p>\n<p>De uma perspectiva hist\u00f3rica, a descoberta do efeito de captura do movimento pelo <em>break<\/em> foi fruto da experi\u00eancia direta e repetida de DJs, em meados da d\u00e9cada de 1970, com a maneira como certos trechos de certos discos tinham um potencial maior para provocar explos\u00f5es de euforia e dan\u00e7a no p\u00fablico. As m\u00fasicas eram geralmente aquelas com influ\u00eancias africanas ou latinas, e os trechos eram geralmente aqueles em que os instrumentos harm\u00f4nicos sa\u00edam de cena abrindo espa\u00e7o para solos percussivos. Tal parte da m\u00fasica foi chamada de <em>break<\/em>; ponto em que a m\u00fasica &#8220;quebrava&#8221;; esp\u00e9cie de &#8220;articula\u00e7\u00e3o&#8221; da m\u00fasica que tinha o poder de estimular as articula\u00e7\u00f5es corporais do p\u00fablico. Os padr\u00f5es percussivos que caracterizavam tais <em>breaks<\/em> foram chamados de <em>breakbeats<\/em>.<\/p>\n<p><strong>:::::::::: A CI\u00caNCIA DA BATIDA QUEBRADA :.<\/strong><br \/>\nFoi Eshun quem melhor mostrou como funciona a captura do movimento pelo <em>break<\/em>, aquilo que ele chamou de &#8220;a ci\u00eancia da batida quebrada&#8221; (<em>breakbeat science<\/em>):<\/p>\n<blockquote><p>A ci\u00eancia da batida quebrada [<em>breakbeat science<\/em>] [&#8230;] \u00e9 quando Grandmaster Flash e DJ Kool Herc e todos aqueles caras isolam o <em>breakbeat<\/em>, quando eles literalmente v\u00e3o para o ponto do disco no qual a melodia e a harmonia s\u00e3o suprimidas e as batidas da bateria e do baixo v\u00eam para o primeiro plano. Ao isolarem isso, eles ligaram um tipo de eletricidade, tornando a batida port\u00e1til, extraindo a batida. Eu chamo isso de captura do movimento [<em>Motion Capture<\/em>]. Em filmes [&#8230;] com anima\u00e7\u00e3o por computador, a captura do movimento \u00e9 o dispositivo atrav\u00e9s do qual eles sintetizam e virtualizam o corpo humano. Eles pegam um cara dan\u00e7ando lentamente e fixam luzes em cada uma de suas articula\u00e7\u00f5es, que depois s\u00e3o mapeadas numa interface e pronto, voc\u00ea literalmente capura o movimento de um humano e agora pode virtualiz\u00e1-lo. Eu acho que foi isso que Flash e os demais fizeram com a batida. Eles pegaram uma batida em potencial que sempre esteve l\u00e1, isolando-a do motor Funk [<em>funk motor<\/em>; ele tamb\u00e9m fala de &#8220;motorritmo&#8221; [<em>rhythmengine<\/em>]&#8221; e de &#8220;motores cinest\u00e9ticos que capturam o seu movimento&#8221;] e materializando-a como uma por\u00e7\u00e3o de vinil que poderia ser repetida. Eles ligaram o potencial material do <em>break<\/em>, que permaneceu adormecido durante muito tempo. (Eshun 1999:176)<\/p><\/blockquote>\n<p>Eterno opositor da &#8220;escuta retroa[udi]tiva [<em>[r]earview hearing<\/em>]&#8221;. Eshun prop\u00f5e a interpreta\u00e7\u00e3o do <em>breakbeat<\/em> enquanto dispositivo de captura do movimento como uma alternativa \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o retr\u00f3grada que faz dele um &#8220;retorno da percuss\u00e3o africana&#8221;: &#8220;o <em>breakbeat<\/em> deveria ir para frente. Pense nele como um dispositivo de captura do movimento feito de vinil, antes que existissem os equipamentos digitais usados atualmente. Se pudesse, Grandmaster Flash teria sido um <em>designer<\/em> gr\u00e1fico; se ele tivesse sido um desenhista de anima\u00e7\u00e3o, ele estaria fazendo captura do movimento. Ele apenas fez tudo antes no vinil.&#8221; (Eshun 1999:181).<\/p>\n<p>Segundo Eshun, a &#8220;ci\u00eancia da batida quebrada&#8221; \u00e9 uma &#8220;ci\u00eancia da intensifica\u00e7\u00e3o das sensa\u00e7\u00f5es&#8221;, uma &#8220;ci\u00eancia de engenheria sensorial&#8221; que &#8220;mistura a l\u00f3gica causal, abre uma nova il\u00f3gica da hipercuss\u00e3o e supercuss\u00e3o [<em>opens up a new illogic of hypercussion and supercussion<\/em>]&#8221;: &#8220;a f\u00edsica do ritmo&#8221;, &#8220;o futuro fugitivo [<em>runaway future<\/em>] da m\u00fasica de computador, no qual o som alfanum\u00e9rico <em>escapa<\/em> do laborat\u00f3rio, replicando em es\u00fadios caseiros [<em>bedroom studios<\/em>] numa s\u00e9rie de opera\u00e7\u00f5es ocultas&#8221;, &#8220;a tecnologia secreta de ordenar geneticamente o som [<em>gene-splicing sound<\/em>], a ci\u00eancia n\u00e3o-oficial de quebrar o ritmo do <em>break<\/em> at\u00e9 que ele se torne uma passagem para a viagem-bateria e o truque-bateria [<em>a passage into the drumtrip and the drumtrick<\/em>], uma escalada de timbrefeitos r\u00edtmicos [<em>an escalation of rhythmic timbreffects<\/em>]&#8221; e o cientista \u00e9 aquele que &#8220;atreavessa o limiar do baterista humano para investigar as hiperdimens\u00f5es do <em>breakbeat<\/em> desmaterializado&#8221; (Eshun 1999:68, 70, 177).<\/p>\n<p><strong>:::::::::: REFER\u00caNCIAS :.<\/strong><br \/>\nBREWSTER, Bill; BROUGHTON, Frank. 2000. <em>Last night a DJ saved my life: the history of the disc jockey<\/em>. New York: Grove Press. [1999]<br \/>\nESHUN, Kodwo. 1999. <em>More brilliant than the Sun: adventures in sonic fiction<\/em>. London: Quartet Books.<br \/>\nNEEDHAM, Rodney. 1967. Percussion and transition. <em>Man<\/em> 2(4):606-14.<br \/>\nPOSCHARDT, Ulf. 1998. <em>DJ-Culture<\/em>. (Trad. Shaun Whiteside) London: Quartet Books. [1995]<br \/>\nREYNOLDS, Simon. 1999. <em>Generation Ecstasy: into the world of techno and rave culture<\/em>. New York: Routledge. [1998]<br \/>\nSHAPIRO, Peter. 2000. Breakbeats. In: Peter Shapiro; Iara Lee (eds.). <em>Modulations; a history of electronic music: throbbing words on sound<\/em>. New York: Caipirinha, pp.152-3.<br \/>\nTOOP, David. 2000a. Hip Hop &#8211; iron needles of death and a piece of wax. In: Peter Shapiro; Iara Lee (eds.). <em>Modulations; a history of electronic music: throbbing words on sound<\/em>. New York: Caipirinha, pp.88-101.<br \/>\n__________. 2000b. <em>Rap attack #3: African Rap to Global Hip Hop<\/em>. London: Serpent&#8217;s Tail. [1984]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>:::::::::: O BREAK E O BREAKBEAT :. Existem muitas maneiras de definir o break: &#8220;uma c\u00e9lula percussiva internamente complexa&#8221; (Toop 2000a:92); &#8220;a parte da m\u00fasica na qual a bateria assume&#8221; (Toop 2000b:14); &#8220;a parte de uma faixa de Funk ou Disco que traz apenas percuss\u00e3o, o pico no qual os dan\u00e7arinos disparam e realizam seus passos mais impressionantes&#8221; Reynolds 1999:252; [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":527,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[91],"tags":[103,104,105,106,107,97,108,109],"class_list":["post-526","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-comentario","tag-brewster","tag-broughton","tag-eshun","tag-needham","tag-poschardt","tag-reynolds","tag-shapiro","tag-toop"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/more_brilliant_than_the_sun_ke.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/526","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=526"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/526\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":530,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/526\/revisions\/530"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/527"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=526"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=526"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=526"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}