{"id":519,"date":"2021-04-18T16:30:58","date_gmt":"2021-04-18T16:30:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=519"},"modified":"2021-04-18T16:33:03","modified_gmt":"2021-04-18T16:33:03","slug":"acao-rede-em-bruno-latour","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2021\/04\/18\/acao-rede-em-bruno-latour\/","title":{"rendered":"A\u00e7\u00e3o-rede em Bruno Latour"},"content":{"rendered":"<p>[Este post \u00e9 uma vers\u00e3o editada de uma se\u00e7\u00e3o de Ferreira (2017)]<\/p>\n<p>Latour foi um dos poucos cientistas sociais contempor\u00e2neos que pensaram seriamente o processo de reticula\u00e7\u00e3o nos coletivos humanos. A a\u00e7\u00e3o-rede latouriana pode ser entendida como uma \u201cuma grande rede, em forma de estrela, de mediadores que entram e saem dela\u201d e que \u201cexiste em fun\u00e7\u00e3o de seus la\u00e7os\u201d (Latour 2005:217; cf. Fig.01). Ou, numa outra formula\u00e7\u00e3o, como: \u201cuma forma de estrela com um centro rodeado por muitas linhas irradiando com todo tipo de pequenos canais de sa\u00edda e de entrada\u201d (Latour 2005:177).<br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/latour_centro-de-calculo.png\" alt=\"\"><br \/>\n<font size=\"1pt\"><strong>Fig.01<\/strong>: Centro de c\u00e1lculo. <strong>Fonte<\/strong>: Latour (2004:55).<\/font><\/p>\n<p>A ideia latouriana do \u201ccentro de c\u00e1lculo\u201d como \u201cponto de passagem obrigat\u00f3rio\u201d e \u201c<em>posi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica<\/em>\u201d sintetiza a imagem da a\u00e7\u00e3o-rede como uma media\u00e7\u00e3o entre centro e periferia: o centro agindo sobre a periferia gra\u00e7as \u00e0 a\u00e7\u00e3o informadora da periferia sobre o centro. O centro de c\u00e1lculo se torna, assim, um ponto estrat\u00e9gico, privilegiado, ponto de distribui\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o, ponto de passagem obrigat\u00f3rio para a exist\u00eancia dessa a\u00e7\u00e3o-rede, ponto de convers\u00e3o entre as perspectivas do envolvido e do envolvente.<\/p>\n<blockquote><p>Quando algu\u00e9m pergunta de que modo a geometria ou a matem\u00e1tica \u201cabstrata\u201d pode influenciar a \u201crealidade\u201d, na verdade est\u00e1 admirando a <em>posi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica<\/em> assumida por aqueles que trabalham nos centros com formas de formas. Estes deveriam ser os mais fracos, por estarem mais distantes (como muitas vezes se diz) de qualquer \u201caplica\u00e7\u00e3o\u201d, mas, ao contr\u00e1rio, podem ser os mais fortes pela mesma raz\u00e3o, j\u00e1 que os centros acabam por controlar o espa\u00e7o e o tempo: eles desenham redes que se interligam nuns poucos pontos de passagem obrigat\u00f3rios. Uma vez que todos os tra\u00e7ados tenham sido n\u00e3o s\u00f3 escritos no papel, mas reescritos de forma geom\u00e9trica e re-reescritos na forma de equa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 de admirar que quem controla a geometria e a matem\u00e1tica seja capaz de intervir em quase todos os lugares. Quanto mais \u201cabstrata\u201d sua teoria, maior sua capacidade de ocupar centros dentro de centros (Latour 2000a:398-9).<\/p><\/blockquote>\n<p>No centro, posi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica, se encontra todo o instrumental da matem\u00e1tica e da geometria; na periferia, agem os referidos \u201clugares\u201d, a \u201crealidade\u201d, o espa\u00e7o, o tempo, i.e., tudo o que puder ser controlado \u00e0 dist\u00e2ncia, de maneira distribu\u00edda, a partir do centro; entre os dois, transitam aqueles que \u201ccontrola[m] a geometria e a matem\u00e1tica\u201d, sendo capazes de \u201cintervir em quase todos os lugares\u201d, os m\u00f3veis imut\u00e1veis que circulam incessantemente, levando informa\u00e7\u00e3o da periferia para o centro (<em>input<\/em>), e a\u00e7\u00e3o do centro para a periferia (<em>output<\/em>). Como corol\u00e1rio dessa a\u00e7\u00e3o-rede-como-centro-de-c\u00e1lculo, temos que: <em>\u00e9 a capacidade dos matem\u00e1ticos e ge\u00f4metras (m\u00f3veis imut\u00e1veis) de estabelecerem correspond\u00eancias entre as formas e f\u00f3rmulas (centro) e a \u201crealidade\u201d (periferia), que faz os ge\u00f4metras e matem\u00e1ticos munidos de formas e f\u00f3rmulas efetivamente envolverem aquilo que os envolve (i.e., a \u201crealidade\u201d)<\/em>.<\/p>\n<p>\u201cPrestemos aten\u00e7\u00e3o\u201d, Latour (2004a:46-7) pede, \u201c\u00e0 invers\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a entre aquele que viaja numa paisagem e aquele que percorre com o olhar o mapa rec\u00e9m-desenhado\u201d:<\/p>\n<blockquote><p>[M]apas e placas, alinhados uns aos outros e mantidos ambos por grandes institui\u00e7\u00f5es [\u2026] nos permitem passar do mapa ao territ\u00f3rio, negociando com cautela a enorme mudan\u00e7a de n\u00edvel que separa um peda\u00e7o de papel, que dominamos pelo olhar, de um lugar onde moramos e que nos cerca por todos os lados (Latour 2004a:60).<\/p><\/blockquote>\n<p>Envolver aquilo que nos envolve, ressoar de maneira mais completa com o meio, pode ser visto como o \u00edndice de uma certa tens\u00e3o pr\u00e9-individual com o meio (cf. Ferreira 2017). O viajante com mapa \u00e9 um m\u00f3vel imut\u00e1vel, um viajante capaz de mobilizar, localmente \u2013 i.e., na periferia do esquema -, recursos distribu\u00eddos por todo o territ\u00f3rio, mas que permaneceriam distantes e inacess\u00edveis, sem a\u00e7\u00e3o capitalizadora do centro \u2013 i.e., sem os mapas, que concentram informa\u00e7\u00f5es antes distribu\u00eddas pelo territ\u00f3rio, propiciando a a\u00e7\u00e3o sobre ele. Passando de um viajante-envolvido-por-uma-paisagem, para um viajante-que-envolve-uma-representa\u00e7\u00e3o-fiel-do-territ\u00f3rio-mais-amplo-no-qual-se-encontra-essa-paisagem, o viajante consegue colocar um p\u00e9 no centro de c\u00e1lculo e, assim, impulsionar sua a\u00e7\u00e3o na periferia. Como corol\u00e1rio dessa a\u00e7\u00e3o-rede cartogr\u00e1fica, temos que: <em>\u00e9 a capacidade dos viajantes (m\u00f3veis imut\u00e1veis) de estabelecerem correspond\u00eancias entre o mapa (centro) e a paisagem (periferia), que faz viajantes com mapas efetivamente envolverem aquilo que os envolve (i.e., o territ\u00f3rio)<\/em>.<\/p>\n<p>Outro exemplo instrutivo da a\u00e7\u00e3o-rede latouriana \u00e9 o caso do moinho de vento, que se tornou um ponto de passagem obrigat\u00f3rio quando uniu, mecanicamente, a for\u00e7a indom\u00e1vel do vento ao movimento regular de um moedor:<\/p>\n<blockquote><p>Como se valer do vento? Como lev\u00e1-lo a relacionar-se com o trigo e o p\u00e3o? Como translacionar sua for\u00e7a de tal maneira que, seja l\u00e1 o que ele fa\u00e7a ou deixe de fazer, o trigo fique sempre bem mo\u00eddo? [&#8230;] [Como] interessar o vento na fabrica\u00e7\u00e3o do p\u00e3o [?] [&#8230;] Complicadas negocia\u00e7\u00f5es precisam estar sendo feitas o tempo todo [&#8230;] para que as alian\u00e7as provis\u00f3rias n\u00e3o se rompam. [&#8230;] Por exemplo, os grupos de fazendeiros que foram reunidos podem [&#8230;] perder o interesse. Quanto ao vento, [&#8230;] [ele pode s]implesmente varrer com seu sopro moinhos fr\u00e1geis, rasgando p\u00e1s e asas. O que o mec\u00e2nico deve fazer para manter o vento em seu sistema de alian\u00e7as, apesar do modo como ele muda de dire\u00e7\u00e3o e de for\u00e7a? Precisa negociar. Precisa criar uma m\u00e1quina que seja receptiva ao vento, mas tamb\u00e9m imune a seus efeitos indesej\u00e1veis [&#8230;]. Naturalmente, h\u00e1 um pre\u00e7o para isso, pois agora \u00e9 necess\u00e1rio ter um n\u00famero maior de manivelas e um complicado sistema de rodas, mas o vento estar\u00e1 transformado em aliado confi\u00e1vel. Por mais que ele sopre, seja qual for sua vontade, o moinho reagir\u00e1 como uma s\u00f3 pe\u00e7a, resistindo \u00e0 dissocia\u00e7\u00e3o, apesar ou por causa do maior n\u00famero de pe\u00e7as de que agora \u00e9 constitu\u00eddo. O que acontece \u00e0s pessoas que se re\u00fanem em torno do moleiro? Elas tamb\u00e9m est\u00e3o definitivamente \u201cinteressadas\u201d no moinho. Queiram o que quiserem, por melhores que sejam no manejo do pil\u00e3o, o caminho delas agora passa pelo moinho. Assim, elas s\u00e3o mantidas sob controle, <em>tanto quanto<\/em> o vento. [&#8230;] [O] moinho transformou-se em ponto de passagem obrigat\u00f3rio das pessoas, por causa do trigo e do vento. (Latour 2000a:213-4)<\/p><\/blockquote>\n<p>Duas realidades, antes disparatadas, entraram em comunica\u00e7\u00e3o gra\u00e7as a uma media\u00e7\u00e3o disparadora de uma nova individua\u00e7\u00e3o coletiva: a realidade envolvente (a periferia, i.e., a energia do vento, o trigo, as pessoas etc.) e a realidade envolvida (o centro, i.e., o mecanismo do moinho) entram em correspond\u00eancia por meio de complicadas negocia\u00e7\u00f5es e alian\u00e7as provis\u00f3rias, coordenadas por um mec\u00e2nico (m\u00f3vel imut\u00e1vel). Como corol\u00e1rio dessa a\u00e7\u00e3o-rede mec\u00e2nica, temos que: <em>\u00e9 a capacidade dos mec\u00e2nicos (m\u00f3veis imut\u00e1veis) de estabelecerem correspond\u00eancias entre o mecanismo do moinho (centro) e o mundo (periferia), que faz os mec\u00e2nicos efetivamente envolverem aquilo que os envolve (i.e., o mundo)<\/em>.<\/p>\n<p>Um ponto de passagem obrigat\u00f3rio \u00e9, para Latour (2000a:230) um tipo de caixa-preta que \u201cconcentra em si o maior n\u00famero poss\u00edvel de solid\u00edssimas associa\u00e7\u00f5es\u201d, um \u201cn\u00famero [&#8230;] t\u00e3o desproporcional [de associa\u00e7\u00f5es] que realmente mant\u00e9m no lugar a multid\u00e3o de aliados\u201d; um n\u00f3 de rede, uma a\u00e7\u00e3o-rede, um ponto privilegiado a partir do qual \u00e9 poss\u00edvel acessar, localmente, pot\u00eancias distribu\u00eddas, que s\u00e3o inacess\u00edveis de outra forma, mas que tamb\u00e9m passa a dominar e coagir as a\u00e7\u00f5es que ele atrai e processa. Ao representar graficamente esse processo (cf. Fig.02), Latour, enfatizou a maneira como novas ag\u00eancias s\u00e3o compostas pela estabiliza\u00e7\u00e3o de associa\u00e7\u00f5es de outras ag\u00eancias.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/latour03_corrigido_branco_krop.jpg\" alt=\"\"><br \/>\n<font size=\"1pt\"><strong>Fig.02<\/strong>: Processos de associa\u00e7\u00e3o. <strong>Fonte<\/strong>: vers\u00e3o editada de Latour (1994:37).<\/font><\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><br \/>\nFERREIRA, Pedro P. 2017. Reticula\u00e7\u00f5es: a\u00e7\u00e3o-rede em Latour e Simondon. <em>Eco-P\u00f3s<\/em> 20(1):104-35.<br \/>\nLATOUR, Bruno. 1994. On technical mediation: Philosophy, Sociology, Genealogy. <em>Common Knowledge<\/em> 3(2):29-64.<br \/>\n__________. 2000. <em>Ci\u00eancia em a\u00e7\u00e3o: como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora<\/em>. (Trad.: Ivone C. Benedetti) S\u00e3o Paulo: Editora UNESP.<br \/>\n__________. 2004. Redes que a raz\u00e3o desconhece: laborat\u00f3rios, bibliotecas, cole\u00e7\u00f5es. In: Andr\u00e9 Parente (org.). <em>Tramas da rede: novas dimens\u00f5es filos\u00f3ficas, est\u00e9ticas e pol\u00edticas da comunica\u00e7\u00e3o<\/em>. (Trad. Marcela Mortara) Porto Alegre: Sulina, pp.39-63.<br \/>\n__________. 2005. <em>Reassembling the social: an introduction to actor-network theory<\/em>. Oxford: Oxford University Press.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[Este post \u00e9 uma vers\u00e3o editada de uma se\u00e7\u00e3o de Ferreira (2017)] Latour foi um dos poucos cientistas sociais contempor\u00e2neos que pensaram seriamente o processo de reticula\u00e7\u00e3o nos coletivos humanos. 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