{"id":487,"date":"2021-04-17T16:56:37","date_gmt":"2021-04-17T16:56:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=487"},"modified":"2021-04-17T16:56:52","modified_gmt":"2021-04-17T16:56:52","slug":"porque-simondon-e-anticapitalista-sem-falar-em-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2021\/04\/17\/porque-simondon-e-anticapitalista-sem-falar-em-capitalismo\/","title":{"rendered":"Porque Simondon \u00e9 anticapitalista sem falar em capitalismo"},"content":{"rendered":"<blockquote><p>Por meio do objeto t\u00e9cnico se cria [&#8230;] uma rela\u00e7\u00e3o interhumana que \u00e9 o modelo da <em>transindividualidade<\/em>. Isso pode ser entendido como uma rela\u00e7\u00e3o que n\u00e3o coloca os indiv\u00edduos em rela\u00e7\u00e3o por meio de suas individualidades constitu\u00eddas (separando-os uns dos outros), e nem por meio daquilo que existe de id\u00eantico em todo sujeito humano (por exemplo, as formas <em>a priori<\/em> da sensibilidade), mas por meio dessa carga de realidade pr\u00e9-individual, dessa carga de natureza que \u00e9 conservada com o ser individual, e que cont\u00e9m potenciais e virtualidade. O objeto que resulta da inven\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica traz consigo algo do ser que o produziu, exprime deste ser aquilo que, nele, \u00e9 menos ligado a um <em>hic et nunc<\/em> [aqui e agora]; poder\u00edamos dizer que existe algo da natureza humana no ser t\u00e9cnico, desde que a palavra natureza designe isso que permanece de original, de anterior mesmo \u00e0 humanidade constitu\u00edda no ser humano; o ser humano inventa e coloca em funcionamento seu pr\u00f3prio suporte natural, esse \u1f04\u03c0\u03b5\u03b9\u03c1\u03bf\u03bd [<em>\u00e1peiron<\/em>] que permanece ligado a cada ser individual. Nenhuma antropologia que parta do homem como ser individual pode dar conta da rela\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica transindividual. O trabalho, entendido como produtivo, na medida em que prov\u00e9m do indiv\u00edduo localizado <em>hic et nunc<\/em>, n\u00e3o pode dar conta do ser t\u00e9cnico inventado; n\u00e3o \u00e9 o indiv\u00edduo que inventa, \u00e9 o sujeito, mais vasto que o indiv\u00edduo, mais rico que ele, e comportando, para al\u00e9m da individualidade do ser individuado, uma certa carga de natureza, de ser n\u00e3o individuado. O grupo social de solidariedade funcional, como a comunidade de trabalho, s\u00f3 coloca em rela\u00e7\u00e3o os seres individuados. Por isso, ele necessariamente os localiza e os aliena, inclusive fora de qualquer modalidade econ\u00f4mica do tipo descrito por Marx sob o nome de capitalismo: pode-se definir uma aliena\u00e7\u00e3o pr\u00e9-capitalista, essencial ao trabalho enquanto trabalho. [&#8230;] N\u00e3o queremos dizer que a aliena\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica n\u00e3o existe; mas pode ser que a principal causa de aliena\u00e7\u00e3o esteja essencialmente no trabalho, e que a aliena\u00e7\u00e3o descrita por Marx n\u00e3o passe de uma das modalidades dessa aliena\u00e7\u00e3o: a no\u00e7\u00e3o de aliena\u00e7\u00e3o merece ser generalizada, de forma a situar o seu aspecto econ\u00f4nico; se fizermos isso, a aliena\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica estaria j\u00e1 no n\u00edvel das superestruturas, e suporia um fundamento mais impl\u00edcito, que \u00e9 a aliena\u00e7\u00e3o essencial envolvida na situa\u00e7\u00e3o do ser individual no trabalho. (Gilbert Simondon. 2008. <em>Du mode d&#8217;existence des objets techniques<\/em>. Paris: Aubier, pp.248-9).<\/p><\/blockquote>\n<p>Aqui Simondon argumenta que o trabalho \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o individual (org\u00e2nica, vital) com o mundo, e que a rela\u00e7\u00e3o transindividual (coletiva, subjetiva, propriamente humana) com o mundo n\u00e3o corresponde ao trabalho, e sim \u00e0 inven\u00e7\u00e3o (que \u00e9 coletiva-subjetiva). O capitalismo, aqui, aparece como uma consequ\u00eancia, um desdobramento, da manuten\u00e7\u00e3o-continua\u00e7\u00e3o, em seres j\u00e1 potencialmente humanos, de uma rela\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o propriamente humana com o mundo (i.e., mediada pelo trabalho individual). Muito importante aqui me parece ser o uso da express\u00e3o <em>hic et nunc<\/em> (aqui e agora) para precisar que: aquilo que h\u00e1 de humano <em>no<\/em> objeto t\u00e9cnico corresponde \u00e0quilo que o humano compartilha com o mundo n\u00e3o humano, a sua interface com esse mundo, algo que sempre existiu, mas que o objeto t\u00e9cnico torna medi\u00e1vel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por meio do objeto t\u00e9cnico se cria [&#8230;] uma rela\u00e7\u00e3o interhumana que \u00e9 o modelo da transindividualidade. 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