{"id":457,"date":"2021-04-17T12:13:27","date_gmt":"2021-04-17T12:13:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=457"},"modified":"2021-04-17T13:11:21","modified_gmt":"2021-04-17T13:11:21","slug":"um-pacifista-no-meio-do-fogo-cruzado-latour-2014-2020","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2021\/04\/17\/um-pacifista-no-meio-do-fogo-cruzado-latour-2014-2020\/","title":{"rendered":"Um pacifista no meio do fogo cruzado (Latour 2014, 2020)"},"content":{"rendered":"<p><strong>Latour pol\u00edtico?<\/strong><br \/>\nO texto \u201cPara distinguri amigos e inimigos no tempo do Antropoceno\u201d, de Bruno Latour <strong>[1]<\/strong>, coloca todas as conquistas de sua Teoria Ator-Rede (TAR) a servic\u0327o de uma tomada de partido com relac\u0327a\u0303o ao negacionismo cienti\u0301fico. E\u0301 um texto importante, tanto para uma compreensa\u0303o mais ampla da sua sociologia da cie\u0302ncia, quanto para uma possi\u0301vel tomada de partido do pro\u0301prio leitor. E\u0301, talvez, o texto mais poli\u0301tico (no sentido de propositalmente parcial, assumindo partido) de Latour que eu ja\u0301 li.<\/p>\n<p><strong>Antropoceno como oportunidade<\/strong><br \/>\nO texto comec\u0327a argumentando que filmes como <em>Gravidade<\/em> (Alfonso Cuaron 2013) e <em>Melancolia<\/em> (Lars von Trier 2011) nos forc\u0327am a testemunhar \u201ca destruic\u0327a\u0303o gradual da velha ideia galileana da Terra como um corpo entre outros corpos espaciais\u201d, e a \u201ctrazer nosso olhar de volta a\u0300 Gaia sublunar, ta\u0303o ativamente modificada pela ac\u0327a\u0303o humana que ingressou em um novo peri\u0301odo, que os geo\u0301logos-feitos-filo\u0301sofos propo\u0303em chamar de Antropoceno\u201d (p.12). Uma transic\u0327a\u0303o, enfim, de \u201cum corpo entre outros\u201d, para \u201cGaia\u201d.<\/p>\n<p>O conceito de \u201cAntropoceno\u201d e\u0301 enta\u0303o apresentado pragmaticamente como uma oportunidade para: \u201cevitar o perigo da naturalizac\u0327a\u0303o\u201d (p.12); chamar nossa atenc\u0327a\u0303o para o fim da \u201cbifurcac\u0327a\u0303o da natureza\u201d entre objetividade e subjetividade (p.13); e \u201csair da noc\u0327a\u0303o de modernizac\u0327a\u0303o\u201d (p.13). Latour propo\u0303e que a diferenc\u0327a geolo\u0301gica entre \u201cHoloceno\u201d e \u201cAntropoceno\u201d seja vista como a diferenc\u0327a entre a modernizac\u0327a\u0303o (que partia da diferenc\u0327a entre a natureza objetiva-cienti\u0301fica e a sociedade subjetiva-poli\u0301tica) e os hi\u0301bridos (simultaneamente objetivos e subjetivos, naturais e sociais, cienti\u0301ficos e poli\u0301ticos). Em outras palavras: ja\u0301 que os geo\u0301logos esta\u0303o falando em Antropoceno, uma era geolo\u0301gica na qual humanidade e natureza na\u0303o podem mais ser dissociadas, enta\u0303o porque na\u0303o aproveitar para mostrar como elas sempre estiveram ligadas?<\/p>\n<p><strong>Vacina anti-negacionismo<\/strong><br \/>\nO principal ponto de ataque do texto e\u0301 \u201co debate espu\u0301rio sobre a cie\u0302ncia do clima\u201d (p.14). Por um lado, \u201cna\u0303o ha\u0301 debate algum\u201d (p.14), pois o aquecimento global e a previsa\u0303o de crises globais ja\u0301 foi provada e confirmada cientificamente de todas as formas possi\u0301veis. Ou seja, na\u0303o ha\u0301 debate pois na\u0303o existe du\u0301vida, entre cientistas, de que o planeta Terra (Gaia) ja\u0301 entrou num processo de radical transformac\u0327a\u0303o ambiental que pode ser letal para a humanidade (ou para a maior parte dela). Por outro lado, o debate na\u0303o tem fim, pois \u201cna\u0303o ha\u0301 a menor chance de chegarmos a uma conclusa\u0303o final, uma vez que o sucesso dos negacionistas na\u0303o reside em vencer algum conflito, mas simplesmente em assegurar que o resto do pu\u0301blico esteja convencido de que ha\u0301 um conflito\u201d (p.16).<\/p>\n<p>O objetivo dos negacionistas, longe de ser chegar a um consenso, e\u0301 estender indefinidamente o estado de du\u0301vida e incerteza num \u201cpseudo-tribunal, cujo objetivo na\u0303o e\u0301 chegar a um veredito\u201d (p.16-7); manter a d\u00favida \u00e9 favorecer a continuidade de seus interesses poli\u0301ticos e econo\u0302micos. Trata-se da \u201cestrate\u0301gia de Luntz\u201d, que propo\u0303e, como principal arma contra (sim, contra) as poli\u0301ticas de enfrentamento ao aquecimento global, \u201ccontinuar a fazer da falta de certeza cienti\u0301fica uma questa\u0303o central\u201d (p.16). Outro nome, emprestado por Latour de James Proctor, para se referir a\u0300 estrate\u0301gia negacionista, e\u0301 \u201cagnotologia\u201d, ou \u201ca produc\u0327a\u0303o deliberada de ignora\u0302ncia\u201d (p.17). Para Latour, levantar du\u0301vidas sobre fatos so\u0301 faz sentido se for para colocar outros fatos no lugar, sendo condena\u0301vel e destrutiva a atitude de apenas levantar du\u0301vidas. E\u0301 neste sentido que Latour compara os negacionistas clima\u0301ticos aos negacionistas do nazismo, lamentando que so\u0301 existam leis contra os segundos (p.14).<\/p>\n<p>O problema, segundo Latour, reside no \u201c<em>reperto\u0301rio cie\u0302ncia versus poli\u0301tica<\/em>\u201d (p.16), algo que ele ja\u0301 chamou de \u201cconstituic\u0327a\u0303o moderna\u201d, e que agora podemos chamar de reperto\u0301rio \u201choloce\u0302nico\u201d. E\u0301 esse reperto\u0301rio que (numa imagem cara em nosso dias atuais de Covid-19) mina nosso \u201csistema imunolo\u0301gico\u201d (p.16). Precisamos, segundo Latour, ser vacinados contra esse reperto\u0301rio. Precisamos, enfim, de \u201cum reperto\u0301rio alternativo muito mais razoa\u0301vel e, de modo geral, muito mais racional\u201d, i.e, que na\u0303o oponha cie\u0302ncia a poli\u0301tica, natureza a sociedade, objetividade a subjetividade. Sem isso, somos presas fa\u0301ceis do vi\u0301rus negacionista. E\u0301 nesse sentido que Latour propo\u0303e a divisa\u0303o do campo em \u201cdois lados\u201d: o lado daqueles que opo\u0303em cie\u0302ncia e poli\u0301tica (que ele nomeia como \u201cacordo do Holoceno\u201d, outra expressa\u0303o para a \u201cconstituic\u0327a\u0303o moderna\u201d); contra \u201caqueles que compreenderam que essa antiga <em>epistemologia poli\u0301tica<\/em> [&#8230;] e\u0301 o que enfraquece tanto a cie\u0302ncia como a poli\u0301tica\u201d (que ele apresenta  como um deseja\u0301vel \u201cacordo do Antropoceno\u201d) (p.17).<\/p>\n<p><strong>Acordo do Antropoceno<\/strong><br \/>\nUm \u201cacordo do Antropoceno\u201d exigiria, assim, que: a poli\u0301tica na\u0303o fosse reduzida apenas a \u201cdistorcer os fatos\u201d, mas contribui\u0301sse fundamentalmente para \u201cconstruir uma politeia\u201d (p.18), um coletivo com alguma autodeterminac\u0327a\u0303o; e a cie\u0302ncia na\u0303o fosse reduzida apenas ao \u201ccampo de fatos incontroversos e incontesta\u0301veis\u201d, mas fosse encarada como a \u201cproduc\u0327a\u0303o, por meio da instituic\u0327a\u0303o de muitas disciplinas e do monitoramento de muitos instrumentos, de um amplo acesso a um grande nu\u0301mero de entidades com as quais a politeia deve ser construi\u0301da\u201d (p.18). Sempre agindo em conjunto, nunca em oposic\u0327a\u0303o, cie\u0302ncia e poli\u0301tica te\u0302m como \u201ctarefas essenciais\u201d: \u201cdefinir <em>quantas entidades<\/em> devem ser consideradas e <em>como elas podem permanecer juntas<\/em> de maneira via\u0301vel\u201d (p.18).<\/p>\n<p><strong>Guerra!<\/strong><br \/>\nA parte mais fortemente poli\u0301tica do texto, a meu ver, comec\u0327a quando Latour diz que \u201c[o] deslocamento de uma <em>cie\u0302ncia versus poli\u0301tica<\/em> para uma <em>cie\u0302ncia com poli\u0301tica<\/em> certamente na\u0303o se da\u0301 sem perigo\u201d(p.19). E\u0301 a partir daqui que a oposic\u0327a\u0303o no\u0301s\/eles ganha forc\u0327a, sendo \u201celes\u201d os negacionistas-capitalistas, e \u201cno\u0301s\u201d este coletivo que Latour deseja ajudar a compor, aparentemente simpa\u0301tico a uma cie\u0302ncia mais humana. E\u0301 a partir daqui tambe\u0301m que Latour declara as vantagens de se \u201cimitar o que as feministas chamam de &#8216;essencialismo estrate\u0301gico&#8217;\u201d, e de se \u201cempregar, quando necessa\u0301rio, uma forma de &#8216;positivismo estrate\u0301gico&#8217;\u201d. \u201cTrata-se\u201d, nas palavras de Latour, \u201cde uma questa\u0303o de tomar conhecimento de &#8216;fatos desconforta\u0301veis&#8217; relacionados a questo\u0303es urgentes que dizem respeito ao pro\u0301prio solo habitado por todos\u201d, a \u201cconflitos que produzem antagonismos entre diferentes definic\u0327o\u0303es da Terra a\u0300s quais as va\u0301rias politeias esta\u0303o ancoradas\u201d, a \u201cuma guerra pela ocupac\u0327a\u0303o, definic\u0327a\u0303o e composic\u0327a\u0303o daquilo a que [&#8230;] Gaia [&#8230;] se assemelha\u201d (p.20-1).<\/p>\n<p>Se \u201celes\u201d dizem que \u201cno\u0301s\u201d na\u0303o fazemos cie\u0302ncia, e sim poli\u0301tica, devemos responder: \u201cSim, claro, onde voce\u0302s estiveram? E o que voce\u0302s esta\u0303o fazendo?\u201d (p.19). E se eles afirmam que o Painel Intergovernamental sobre Mudanc\u0327as Clima\u0301ticas (IPCC) e\u0301 \u201cum lobby\u201d, devemos responder:<\/p>\n<p>&#8220;E\u0301 claro que e\u0301 um lobby, agora vamos ver quantos sa\u0303o voce\u0302s, de onde vem o dinheiro de voce\u0302s. E, ja\u0301 que estamos nisso, ja\u0301 que voce\u0302s esta\u0303o nos acusando de sermos tendenciosos devido a uma \u2018ideologia\u2019, vamos colocar todas as cartas na mesa: em que mundo voce\u0302s vivem, onde, com que recursos, por quanto tempo, que futuro voce\u0302s vislumbram para seus filhos, que tipo de educac\u0327a\u0303o voce\u0302s desejam dar a eles, em que paisagem voce\u0302s gostariam que eles vivessem.&#8221; (p.23)<\/p>\n<p>\u201cHa\u0301 decerto\u201d, insiste Latour, \u201cuma guerra pela definic\u0327a\u0303o e controle da Terra: uma guerra que coloca uns contra os outros\u201d (p.23). Uma guerra entre um mundo que pode continuar sendo destrui\u0301do indefinidamente, e outro que deseja se curar. Uma guerra que, sintetizada na palavra-oportunidade \u201cAntropoceno\u201d, oferece a condic\u0327a\u0303o urgente que exige o abandono da constituic\u0327a\u0303o moderna, do acordo holoce\u0302nico, em nome de uma pragma\u0301tica da mobilizac\u0327a\u0303o.<\/p>\n<p>Se ha\u0301 algo que todos sa\u0303o capazes compreender e\u0301 que quando a vida de uma pessoa e\u0301 posta em questa\u0303o, quando o territo\u0301rio em que ela vive e\u0301 ameac\u0327ado, quando ela e\u0301 atacada por outros povos que querem o seu lugar, sua terra, seu solo, seu estimado pedac\u0327o de cha\u0303o, o que se costumava chamar de sua \u201cterra-ma\u0303e\u201d, eles decerto na\u0303o esperam que os <em>experts<\/em> concordem. Eles precisam identificar rapidamente aqueles que podem ajudar e aqueles [&#8230;] que correm o risco de <em>trai\u0301-los<\/em>. [&#8230;] O sentimento a que poderi\u0301amos chamar de <em>mobilizac\u0327a\u0303o<\/em> e\u0301 perigoso, inco\u0302modo e intranqui-lo, uma fonte de conseque\u0302ncias mal definidas; mas uma coisa e\u0301 certa: em caso de guerra, a atitude na\u0303o e\u0301 de complace\u0302ncia, apaziguamento e delegac\u0327a\u0303o aos <em>experts<\/em>. (p.22)<\/p>\n<p>O uso que os negacionistas-capitalistas fazem da cie\u0302ncia (para favorecer a du\u0301vida e a incerteza sobre a urge\u0302ncia de transformac\u0327o\u0303es) e\u0301 comparado por Latour ao uso, feito por exe\u0301rcitos, das inscric\u0327o\u0303es \u201cDeus esta\u0301 conosco\u201d (\u201c<em>Gott mitt Uns<\/em>\u201d). Basta substituir \u201cDeus\u201d por \u201cNatureza\u201d, para perceber que, para ale\u0301m de um \u201cpositivismo estrate\u0301gico\u201d, nem um, nem a outra, esta\u0301 realmente do lado de nenhum dos exe\u0301rcitos em guerra. Em lugar de opor \u201cfatos cienti\u0301ficos<br \/>\nincontesta\u0301veis\u201d a \u201copinio\u0303es poli\u0301ticas contesta\u0301veis\u201d como fazem os modernos- holoce\u0302nicos-negacionistas-capitalistas, Latour propo\u0303e uma \u201cGaia-grafia\u201d baseada no delineamento do mundo proposto por cada lado da guerra, na forma de respostas a questo\u0303es \u201ccosmograma\u0301ticas\u201d (refere\u0302ncia a John Tresch) do tipo: \u201co que voce\u0302 esta\u0301 defendendo\u201d?; \u201cquanto vale a Terra\u201d?; \u201ccom que outros organismos, com que tipo de solo, com que tipo de paisagem, com que tipo de indu\u0301stria, com que tipo de come\u0301rcio voce\u0302 gostaria de sobreviver\u201d? (p.23-4). Se um territo\u0301rio e\u0301 \u201cisso sem o qual na\u0303o poderi\u0301amos viver\u201d, enta\u0303o \u201c[l]istemos todos esses seres, essas age\u0302ncias sem as quais nada seria possi\u0301vel\u201d (p.24).<\/p>\n<p><strong>Covid-19 como oportunidade<\/strong><br \/>\nEsta parte deste texto me lembrou o fechamento de outro texto de Latour: \u201cImaginar gestos que barrem o retorno da produc\u0327a\u0303o pre\u0301- crise\u201d <strong>[2]<\/strong>. Nesse outro texto, publicado ja\u0301 durante a pandemia global de Covid-19 (em 29\/03\/2020), Latour propo\u0303e seis questo\u0303es para que \u201c[a]proveitemos a suspensa\u0303o forc\u0327ada da maior parte das atividades para fazer um inventa\u0301rio daquelas que gostari\u0301amos que na\u0303o fossem retomadas e daquelas que, pelo contra\u0301rio, gostari\u0301amos que fossem ampliadas\u201d:<\/p>\n<p><strong>1<sup>a<\/sup> pergunta<\/strong>: Quais as atividades agora suspensas que voce\u0302 gostaria que na\u0303o fossem retomadas?<br \/>\n<strong>2<sup>a<\/sup> pergunta<\/strong>: Descreva por que essa atividade lhe parece prejudicial \/ supe\u0301rflua \/ perigosa \/ sem sentido e de que forma o seu desaparecimento \/ suspensa\u0303o \/ substituic\u0327a\u0303o tornaria outras atividades que voce\u0302 prefere mais fa\u0301ceis \/ pertinentes. (Fac\u0327a um para\u0301grafo separado para cada uma das respostas listadas na pergunta 1).<br \/>\n<strong>3<sup>a<\/sup> pergunta<\/strong>: Que medidas voce\u0302 sugere para facilitar a transic\u0327a\u0303o para outras atividades daqueles trabalhadores \/ empregados \/ agentes \/ empresa\u0301rios que na\u0303o podera\u0303o mais continuar nas atividades que voce\u0302 esta\u0301 suprimindo?<br \/>\n<strong>4<sup>a<\/sup> pergunta<\/strong>: Quais as atividades agora suspensas que voce\u0302 gostaria que fossem ampliadas \/ retomadas ou mesmo criadas a partir do zero?<br \/>\n<strong>5<sup>a<\/sup> pergunta<\/strong>: Descreva por que essa atividade lhe parece positiva e como ela torna outras atividades que voce\u0302 prefere mais fa\u0301ceis \/ harmoniosas \/ pertinentes e ajuda a combater aquelas que voce\u0302 considera desfavora\u0301veis. (Fac\u0327a um para\u0301grafo separado para cada uma das respostas listadas na pergunta 4).<br \/>\n<strong>6<sup>a<\/sup> pergunta<\/strong>: Que medidas voce\u0302 sugere para ajudar os trabalhadores \/ empregados \/ agentes \/ empresa\u0301rios a adquirir as capacidades \/ meios \/ receitas \/ instrumentos para retomar \/ desenvolver \/ criar esta atividade?<\/p>\n<p>Trata-se de um esforc\u0327o ativo de imaginac\u0327a\u0303o de outro mundo possi\u0301vel, um mundo no qual certas age\u0302ncias deveriam continuar ou ser expandidas, e outras deveriam ser interrompidas ou diminui\u0301das. Acredito que todos no\u0301s, \u201cterranos\u201d, deveri\u0301amos refletir sobre essas questo\u0303es, e tentar responde\u0302-las. Na\u0303o e\u0301 fa\u0301cil.<\/p>\n<p><strong>Paz?<\/strong><br \/>\nO texto de Latour termina com uma digressa\u0303o sobre aquilo que ele chama de \u201c<em>paz poli\u0301tica<\/em>\u201d: diferentemente da \u201cpaz pedago\u0301gica obtida por meio do reperto\u0301rio cie\u0302ncia-versus-poli\u0301tica\u201d, a paz poli\u0301tica e\u0301 \u201cnegociada pelas facc\u0327o\u0303es be\u0301licas que, tendo exaurido todas as outras opc\u0327o\u0303es e sabendo que nem o &#8216;Deus&#8217; nem a &#8216;Natureza&#8217; bordados em seus estandartes esta\u0303o realmente por detra\u0301s deles, aventuram-se em <em>um acordo como se na\u0303o houvesse arbi\u0301trio algum acima deles<\/em>\u201d (p.25). A questa\u0303o da temporalidade e\u0301 central no fechamento do texto, uma vez que a urge\u0302ncia apresentada anteriormente como sendo devida ao estado de guerra e\u0301, no final, apresentada como uma diferenc\u0327a entre um tempo que flui do presente para o futuro e outro, que flui do futuro para o presente. Se no primeiro caso (do presente para o futuro), podemos vislumbrar uma marcha que poderi\u0301amos chamar de progresso, no segundo (do futuro para o presente) podemos vislumbrar uma urge\u0302ncia que poderi\u0301amos chamar de apocali\u0301ptica, reveladora da necessidade de \u201cagir sem postergar\u201d (p.27).<\/p>\n<p>Cabe comentar, como conclusa\u0303o, que apesar de a e\u0302nfase de Latour na \u201cguerra\u201d me incomodar, foi difi\u0301cil para mim n\u00e3o acompanhar o belicismo de Latour neste texto, talvez por eu mesmo simpatizar excessivamente com o lado que ele escolheu defender nessa guerra. Na\u0303o obstante, ainda acredito que reconhecer que estamos em guerra na\u0303o significa que precisemos guerrear. Cabe a\u0300 realidade mostrar-ensinar como (ou se) e\u0301 possi\u0301vel ser pacifista no meio do fogo cruzado.<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><br \/>\n<strong>[1]<\/strong> LATOUR, Bruno. 2014. Para distinguir amigos e inimigos no tempo do Antropoceno. (Trad.: Renato Sztutman) <em>Revista de Antropologia<\/em> 57(1):11-31. O texto foi originalmente proferido como palestra no simpo\u0301sio <em>Thinking the Anthropocene<\/em>, realizado na E\u0301cole d\u2019Hautes E\u0301tudes en Sciences Sociales (EHESS) em 14 de novembro de 2013. Em 2015 foi inclui\u0301do no livro <em>The Anthropocene and the Global Environment Crisis: Rethinking Modernity in a New Epoch<\/em> (London, Routledge), editado por Clive Hamilton et al..<\/p>\n<p><strong>[2]<\/strong> LATOUR, Bruno. 2020. Imaginer les gestes-barrieres contre le retour a la production d&#8217;avant-crise. <em>AOC<\/em> 29 de mar\u00e7o. Acess\u00edvel em: https:\/\/aoc.media\/opinion\/2020\/03\/29\/imaginer-les-gestes-barrieres-contre-le-retour-a-la-production-davant-crise\/. Uma traduc\u0327a\u0303o de De\u0301borah Danowski pode ser encontrada no site do Bruno Latour: http:\/\/www.bruno-latour.fr\/sites\/default\/files\/downloads\/P-202- AOC-03-20-PORTUGAIS_1.pdf.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Latour pol\u00edtico? O texto \u201cPara distinguri amigos e inimigos no tempo do Antropoceno\u201d, de Bruno Latour [1], coloca todas as conquistas de sua Teoria Ator-Rede (TAR) a servic\u0327o de uma tomada de partido com relac\u0327a\u0303o ao negacionismo cienti\u0301fico. 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