{"id":418,"date":"2021-04-16T15:55:05","date_gmt":"2021-04-16T15:55:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=418"},"modified":"2021-04-16T15:55:05","modified_gmt":"2021-04-16T15:55:05","slug":"esboco-de-uma-teoria-geral-da-magia-mauss-e-hubert-2003-1902-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2021\/04\/16\/esboco-de-uma-teoria-geral-da-magia-mauss-e-hubert-2003-1902-3\/","title":{"rendered":"Esbo\u00e7o de uma teoria geral da magia (Mauss e Hubert 2003 [1902-3])"},"content":{"rendered":"<p>MAUSS, Marcel; HUBERT, Henri. 2003. Esbo\u00e7o de uma teoria geral da magia. In: Marcel Mauss. <em>Sociologia e Antropologia<\/em>. (trad. Paulo Neves) S\u00e3o Paulo: Cosac &amp; Naify, pp. 47-181. [1902-3]<\/p>\n<p><strong>II. Defini\u00e7\u00e3o da magia.<\/strong><\/p>\n<p><strong>CI\u00caNCIA (objetiva) e SENSO COMUM (subjetivo)<\/strong>:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Devemos fazer essa defini\u00e7\u00e3o [de magia] por nossa conta, pois n\u00e3o podemos nos contentar em chamar de m\u00e1gicos os fatos que foram designados como tais por seus atores ou por seus espectadores. Estes se colocavam em pontos de vista subjetivos, que n\u00e3o s\u00e3o necessariamente os da ci\u00eancia.&#8221; (Mauss e Hubert 2003:55)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A PARTE (fra\u00e7\u00e3o) e O TODO<\/strong>:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Para n\u00f3s, devem ser ditas m\u00e1gicas apenas as coisas que foram realmente tais para <strong>toda <\/strong>uma sociedade, e n\u00e3o as que foram assim qualificadas apenas por uma <strong>fra\u00e7\u00e3o <\/strong>de sociedade.&#8221; (Mauss e Hubert 2003:55)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>&#8220;A forma dos ritos \u00e9 eminentemente transmiss\u00edvel e \u00e9 sancionada pela <strong>opini\u00e3o<\/strong>. Donde se segue que atos estritamente <strong>individuais<\/strong>, como as pr\u00e1ticas supersticiosas particulares dos jogadores, n\u00e3o podem ser chamadas de m\u00e1gicas.&#8221; (Mauss e Hubert 2003:56)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>SOBRE A PROVISORIEDADE DE QUALQUER DEFINI\u00c7\u00c3O INICIAL (cf. Weber) E SOBRE O PROBLEMA DA RELA\u00c7\u00c3O MAGIA-RELIGI\u00c3O<\/strong>:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;N\u00e3o esperamos portanto encontrar de imediato os termos de uma defini\u00e7\u00e3o perfeita, que s\u00f3 poder\u00e1 vir como conclus\u00e3o de um trabalho sobre as rela\u00e7\u00f5es da magia e da religi\u00e3o.&#8221; (Mauss e Hubert 2003:55)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>OS 3 ELEMENTOS DA MAGIA (agentes, atos e representa\u00e7\u00f5es; comparar com a teoria da arte de Gell)<\/strong>:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;chamamos <strong>m\u00e1gico <\/strong>o indiv\u00edduo que efetua atos m\u00e1gicos, mesmo quando n\u00e3o \u00e9 um profissional; chamamos <strong>representa\u00e7\u00f5es m\u00e1gicas <\/strong>as id\u00e9ias e as cren\u00e7as que correspondem aos atos m\u00e1gicos; quanto aos atos, em rela\u00e7\u00e3o aos quais definimos os outros elementos da magia, chamamo-los <strong>ritos m\u00e1gicos<\/strong>.&#8221; (Mauss e Hubert 2003:55).<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>TRADI\u00c7\u00c3O, REPETI\u00c7\u00c3O e EFIC\u00c1CIA (totalidade e cren\u00e7a)<\/strong>:<br \/>\nOs ritos m\u00e1gicos, e a magia como um todo, s\u00e3o, em primeiro lugar, fatos de <strong>tradi\u00e7\u00e3o<\/strong>. Atos que n\u00e3o <strong>se repetem <\/strong>n\u00e3o s\u00e3o m\u00e1gicos. Atos em cuja <strong>efic\u00e1cia <\/strong>todo um grupo n\u00e3o cr\u00ea, n\u00e3o s\u00e3o m\u00e1gicos. (Mauss e Hubert 2003:55-6)<\/p>\n<p><strong>CONFUS\u00c3O de ATOS M\u00c1GICOS com outras PR\u00c1TICAS TRADICIONAIS: (1) ATOS JUR\u00cdDICOS (&#8220;palavras e gestos que obrigam e vinculam&#8221;, &#8220;formas solenes&#8221;, &#8220;car\u00e1ter ritual&#8221;); (2) T\u00c9CNICAS; e (2) RITOS RELIGIOSOS<\/strong>. (Mauss e Hubert 2003:56)<\/p>\n<p><strong>ATOS JUR\u00cdTICOS x ATOS RITUAIS (efic\u00e1cia particular)<\/strong>:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Na medida em que [os atos jur\u00eddicos] t\u00eam uma efic\u00e1cia particular, em que fazem mais do que estabelecer rela\u00e7\u00f5es contratuais entre indiv\u00edduos, eles n\u00e3o s\u00e3o jur\u00eddicos, mas m\u00e1gicos ou religiosos. Os atos rituais, ao contr\u00e1rio, s\u00e3o, por ess\u00eancia, capazes de produzir algo mais do que conven\u00e7\u00f5es; s\u00e3o eminentemente eficazes; s\u00e3o criadores; eles fazem. Os ritos m\u00e1gicos s\u00e3o mesmo mais particularmente concebidos dessa maneira; a tal ponto que, com frequ\u00eancia, tiraram seu nome desse car\u00e1ter efetivo&#8221; (Mauss e Hubert 2003:56)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>T\u00c9CNICA e MAGIA (rela\u00e7\u00e3o meios-fim; efic\u00e1cia):<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Em geral, [&#8230;] a magia acompanha a t\u00e9cnica e a auxilia. [&#8230;] A efic\u00e1cia dos ritos [como a magia] e da arte [ou t\u00e9cnica] n\u00e3o s\u00e3o distinguidas, mas claramente pensadas em conjunto [geralmente]. [&#8230;] A s\u00e9rie dos gestos do artes\u00e3o \u00e9 t\u00e3o uniformemente regulada quanto a s\u00e9rie dos gestos do m\u00e1gico.&#8221; (Mauss e Hubert 2003:56-7)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>T\u00c9CNICA x RITO M\u00c1GICO (causalidade: mec\u00e2nica-f\u00edsica-homog\u00eanea X sui generis-especial):<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>&#8220;No entanto, as artes e a magia foram em toda parte distinguidas, porque se percebia entre elas alguma inapreens\u00edvel diferen\u00e7a de m\u00e9todo. Nas t\u00e9cnicas, o efeito \u00e9 concebido como produzido mecanicamente. Sabe-se que ele resulta diretamente da coordena\u00e7\u00e3o dos gestos, dos instrumentos e dos agentes f\u00edsicos. Vemo-lo seguir imediatamente a causa; os produtos s\u00e3o homog\u00eaneos aos meios; o disparo faz partir o dardo e o cozimento se faz com fogo. [&#8230;] A exist\u00eancia mesma das artes depende da percep\u00e7\u00e3o cont\u00ednua dessa homogeneidade das causas e dos efeitos. Quando uma t\u00e9cnica \u00e9 ao mesmo tempo m\u00e1gica e t\u00e9cnica, a parte m\u00e1gica \u00e9 a que escapa a essa defini\u00e7\u00e3o. Assim, numa pr\u00e1tica m\u00e9dica, as palavras, os encantamentos, as observ\u00e2ncias rituais ou astrol\u00f3gicas s\u00e3o m\u00e1gicas; \u00e9 a\u00ed que jazem as for\u00e7as ocultas, os esp\u00edritos, e que reina todo um mundo de id\u00e9ias que faz que os movimentos, os gestos rituais, sejam reputados detentores de <strong>uma efic\u00e1cia muito especial, diferente de sua efic\u00e1cia mec\u00e2nica<\/strong>. N\u00e3o se concebe que o efeito sens\u00edvel dos gestos seja o verdadeiro efeito. Este ultrapassa sempre aquele e, normalmente, n\u00e3o \u00e9 da mesma ordem, como quando, por exemplo, se faz chover agitando a \u00e1gua de uma fonte com um bast\u00e3o. Eis a\u00ed o que \u00e9 pr\u00f3prio dos <strong>ritos<\/strong> e que podemos chamar <strong>atos tradicionais de uma efic\u00e1cia sui generis<\/strong>.&#8221; (Mauss e Hubert 2003:57)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>QUEST\u00c3O<\/strong>: Seguindo os avan\u00e7os recentes de Latour (2005), n\u00e3o seria a distin\u00e7\u00e3o maussiana entre &#8220;efic\u00e1cia mec\u00e2nica&#8221; e &#8220;efic\u00e1cia sui generis&#8221; (que L\u00e9vi-Strauss mais tarde chamar\u00e1 de &#8220;efic\u00e1cia simb\u00f3lica&#8221;) uma conting\u00eancia das ferramentas de an\u00e1lise social dispon\u00edveis no in\u00edcio do s\u00e9culo XX? N\u00e3o se trata de eliminar a diferen\u00e7a entre os dois tipos de efic\u00e1cia, mas sim de reformul\u00e1-la, talvez (seguindo, entre outros, Kugler e Turvey 1987) como uma diferen\u00e7a entre as dimens\u00f5es mec\u00e2nica e informacional (ou talvez pud\u00e9ssemos dizer &#8220;maqu\u00ednica&#8221;, seguindo Deleuze e Guattari 1976) de qualquer processo.<\/p>\n<p><strong>A DISTIN\u00c7\u00c3O entre RITOS M\u00c1GICOS e RELIGIOSOS \u00e9 feita em di\u00e1logo com FRAZER<\/strong>: (Mauss e Hubert 2003:57-8)<\/p>\n<p><strong>RITOS RELIGIOSOS x RITOS M\u00c1GICOS<\/strong>:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Entre os ritos, h\u00e1 alguns que s\u00e3o certamente religiosos: s\u00e3o os ritos solenes, p\u00fablicos, obrigat\u00f3rios, regulares, como as festas e os sacramentos. [&#8230;] H\u00e1 outros ritos, ao contr\u00e1rio, que s\u00e3o regularmente m\u00e1gicos. S\u00e3o os malef\u00edcios. [&#8230;] Il\u00edcitos, s\u00e3o expressamente proibidos e punidos. [&#8230;] Esses dois extremos formam, por assim dizer, os dois p\u00f3los da magia e da religi\u00e3o: p\u00f3lo do sacrif\u00edcio, p\u00f3lo do malef\u00edcio. [&#8230;] Entre esses dois p\u00f3los disp\u00f5e-se uma massa confusa de fatos, cujo car\u00e1ter espec\u00edfico n\u00e3o \u00e9 imediatamente evidente. [&#8230;] Mas, seja qual for o interesse que apresente para n\u00f3s a continuidade da magia e da religi\u00e3o, importa-nos antes de tudo, por enquanto, classificar os fatos e, para isso, enumerar um certo n\u00famero de caracteres exteriores pelos quais se possa reconhec\u00ea-los. Pois o parentesco n\u00e3o impediu as pessoas de perceberem a diferen\u00e7a das duas esp\u00e9cies de ritos e de pratic\u00e1-los de modo a marcar que a percebiam. Devemos portanto buscar sinais que nos permitam fazer essa triagem.&#8221; (Mauss e Hubert 2003:58-9)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>DIFEREN\u00c7AS entre MAGIA e RELIGI\u00c3O (agente, locus, periodicidade)<\/strong>:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;em primeiro lugar, os ritos m\u00e1gicos e os ritos religiosos t\u00eam com frequ\u00eancia agentes diferentes [i.e., o m\u00e1gico e o sacerdote]; eles n\u00e3o s\u00e3o efetuados pelos mesmos indiv\u00edduos. [&#8230;] Enquanto o rito religioso busca em geral a luz do dia e o p\u00fablico, o rigo m\u00e1gico os evita. [&#8230;] O tributo prestado \u00e0s divindades por ocasi\u00e3ode um voto, de um sacrif\u00edcio expiat\u00f3rio por causa de doen\u00e7a, \u00e9 sempre, em \u00faltima inst\u00e2ncia, uma homenagem regular, obrigat\u00f3ria, necess\u00e1ria mesmo, ainda que seja volunt\u00e1ria. O rito m\u00e1gico, ao contr\u00e1rio, embora seja \u00e0s vezes fatalmente peri\u00f3dico (\u00e9 o caso da magia agr\u00edcola), ou necess\u00e1rio, quando feito em vista de certos fins (de uma cura, por exemplo), \u00e9 sempre considerado como irregular, anormal e, pelo menos, pouco estim\u00e1vel. [&#8230;] H\u00e1 necessidade, e n\u00e3o obriga\u00e7\u00e3o moral, no recurso [&#8230;] ao m\u00e1gico.&#8221; (Mauss e Hubert 2003:59-60)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>DEFINI\u00c7\u00c3O PROVISORIAMENTE SUFICIENTE DO RITO M\u00c1GICO<\/strong>:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;todo rito que n\u00e3o faz parte de um culto organizado, rito privado, secreto, misterioso, e que tende no limite ao rito proibido. [&#8230;] Percebe-se que n\u00e3o definimos a magia pela forma de seus ritos, mas pelas condi\u00e7\u00f5es nas quais eles se produzem e que marcam o lugar que ocupam no conjunto dos h\u00e1bitos sociais.&#8221; (Mauss e Hubert 2003:61)<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MAUSS, Marcel; HUBERT, Henri. 2003. Esbo\u00e7o de uma teoria geral da magia. In: Marcel Mauss. Sociologia e Antropologia. (trad. Paulo Neves) S\u00e3o Paulo: Cosac &amp; Naify, pp. 47-181. [1902-3] II. Defini\u00e7\u00e3o da magia. 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