{"id":367,"date":"2021-04-16T02:29:43","date_gmt":"2021-04-16T02:29:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=367"},"modified":"2022-09-01T19:19:31","modified_gmt":"2022-09-01T19:19:31","slug":"planolandia-abbott-2002-1884","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2021\/04\/16\/planolandia-abbott-2002-1884\/","title":{"rendered":"Planol\u00e2ndia (Abbott 2002 [1884])"},"content":{"rendered":"<p>ABBOTT, Edwin A. 2002. <em>Planol\u00e2ndia: um romance de muitas dimens\u00f5es<\/em>. (trad. Leila de S. Mendes) S\u00e3o Paulo: Conrad. [1884]<\/p>\n<p>Obs: a pagina\u00e7\u00e3o indicada se refere a um arquivo pdf [entre colchetes a pagina\u00e7\u00e3o da edi\u00e7\u00e3o impressa].<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/ABBOTT_01.png\" alt=\"\" \/><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/ABBOTT_01B.png\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p><strong>TEXTO INICIAL:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p><em>\u00d3, dia e noite, como isto \u00e9 <strong>maravilhosamente estranho<\/strong>. [&#8230;] Que vergonha, como eu <strong>enquadro <\/strong>desvairadamente meu discurso!<\/em> (Abbott 2002:4 [11])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Aos<br \/>\nHabitantes do ESPA\u00c7O EM GERAL<br \/>\nE a H. C. [Howard Candler, matem\u00e1tico amigo de Abbott, professor na mesma escola em que lecionava tamb\u00e9m Charles Howard Hinton] em PARTICULAR<br \/>\nEsta Obra \u00e9 Dedicada<br \/>\nPor um Humilde Nativo de Planol\u00e2ndia<br \/>\nNa Esperan\u00e7a de que<br \/>\nDa mesma forma que ele foi Iniciado nos Mist\u00e9rios<br \/>\nDas TR\u00caS Dimens\u00f5es<br \/>\nTendo sido anteriormente versado<br \/>\nEm APENAS DUAS<br \/>\nOs Cidad\u00e3os daquela Regi\u00e3o Celeste<br \/>\nPossam aspirar cada vez mais<br \/>\nAos segredos das QUATRO, CINCO OU AT\u00c9 MESMO SEIS Dimens\u00f5es<br \/>\nDessa forma contribuindo<br \/>\npara o Engrandecimento DA <strong>IMAGINA\u00c7\u00c3O<\/strong><br \/>\nE o poss\u00edvel Desenvolvimento<br \/>\nDo rar\u00edssimo e excelente Dom da <strong>MOD\u00c9STIA<\/strong><br \/>\nEntre as Ra\u00e7as Superiores<br \/>\nDa HUMANIDADE TRIDIMENSIONAL (Abbott 2002:5 [12])<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>PREF\u00c1CIO \u00c0 SEGUNDA EDI\u00c7\u00c3O REVISTA, 1884, PELO EDITOR<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>\u00c9 verdade que de fato temos em Planol\u00e2ndia uma terceira <strong>dimens\u00e3o n\u00e3o percebida<\/strong>, denominada &#8216;altura&#8217;, da mesma forma voc\u00eas t\u00eam em Espa\u00e7ol\u00e2ndia uma quarta dimens\u00e3o n\u00e3o percebida, que no momento ainda n\u00e3o tem nome, mas que eu vou chamar de &#8216;altura extra&#8217;. Assim como n\u00e3o conseguimos tomar conhecimento de nossa &#8216;altura&#8217;, voc\u00eas n\u00e3o conseguem tomar conhecimento de sua &#8216;altura extra&#8217;. Mesmo eu &#8211; que estive na Espa\u00e7ol\u00e2ndia e tive o privil\u00e9gio de compreender por 24 horas o significado de &#8216;altura&#8217; &#8211; hoje n\u00e3o consigo compreend\u00ea-la, nem perceb\u00ea-la por meio da vis\u00e3o ou por qualquer processo racional. Posso apreend\u00ea-la t\u00e3o-somente por meio da f\u00e9. [&#8230;] A raz\u00e3o \u00e9 \u00f3bvia. <strong>Dimens\u00e3o implica dire\u00e7\u00e3o, medida, o mais e o menos. <\/strong>Ora, todas as nossas linhas s\u00e3o <em>igual <\/em>e <em>infinitesimalmente <\/em>espessas (ou altas, como quiser); conseq\u00fcentemente, n\u00e3o h\u00e1 nada nelas que sugira a nossas mentes o conceito daquela dimens\u00e3o. Nenhum &#8216;micr\u00f4metro de precis\u00e3o&#8217; &#8211; como foi sugerido por um a\u00e7odado cr\u00edtico de <em>Espa\u00e7ol\u00e2ndia <\/em>&#8211; seria de qualquer utilidade para n\u00f3s, porque <strong>n\u00e3o saber\u00edamos o <em>que medir, nem em qual dire\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong>. Quando vemos uma linha, vemos algo que \u00e9 extenso e <em>brilhante<\/em>; o <em>brilho<\/em>, assim como a extens\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio a exist\u00eancia de uma linha. Se o brilho desaparece, a linha se extingue. Por isso, todos os meus amigos de <em>Planol\u00e2ndia<\/em> &#8211; com os quais eu falo sobre a dimens\u00e3o n\u00e3o percebida que \u00e9 de alguma forma vis\u00edvel em uma linha &#8211; dizem: &#8216;Ah, voc\u00ea quer dizer <em>brilho<\/em>&#8216;. E quando eu respondo: &#8216;N\u00e3o, estou falando de uma dimens\u00e3o de fato&#8217;, eles imediatamente retrucam: &#8216;Ent\u00e3o a mensure, ou nos diga em que dire\u00e7\u00e3o ela se estende&#8217;. E isso me silencia, porque n\u00e3o posso fazer nenhuma das duas coisas. (Abbott 2002:6-7 [14])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Suponha que uma pessoa da quarta dimens\u00e3o, decidida a visit\u00e1-lo, dissesse: &#8216;Todas as vezes que voc\u00ea abre os olhos, <strong>voc\u00ea v\u00ea um plano <\/strong>(que tem duas dimens\u00f5es) <strong>e infere um s\u00f3lido <\/strong>(que tem tr\u00eas), mas na realidade voc\u00ea tamb\u00e9m v\u00ea (embora n\u00e3o perceba) uma quarta dimens\u00e3o, que n\u00e3o \u00e9 cor, brilho nem qualquer coisa do tipo, e, sim, <strong>uma dimens\u00e3o de verdade, embora eu n\u00e3o possa lhe mostrar sua dire\u00e7\u00e3o, nem voc\u00ea possa mensur\u00e1-la<\/strong>&#8216;. O que voc\u00ea diria a tal visitante? Voc\u00ea mandaria prend\u00ea-lo? Bem, essa \u00e9 a minha sina [&#8230;]. Ai de n\u00f3s, <strong>a cegueira e o preconceito <\/strong>s\u00e3o tra\u00e7os comuns \u00e0 humanidade em todas as dimens\u00f5es! Pontos, linhas, quadrados, cubos, cubos extras &#8211; somos todos pass\u00edveis dos mesmos erros, todos igualmente <strong>escravos de nossos respectivos preconceitos dimensionais <\/strong>(Abbott 2002:7 [15])<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>PARTE I &#8211; Este mundo<\/strong><\/p>\n<blockquote><p><em>Seja paciente, porque o mundo \u00e9 <strong>largo e vasto<\/strong><\/em>. (Abbott 2002:8 [17])<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>1. Da natureza de Planol\u00e2ndia<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Veja, por exemplo, um tri\u00e2ngulo eq\u00fcil\u00e1tero &#8211; que representa entre n\u00f3s um <strong>comerciante da classe m\u00e9dia<\/strong>. A figura 1 representa o comerciante como voc\u00ea o veria quando estivesse inclinado sobre ele; as figuras 2 e 3 representam o comerciante como voc\u00ea o veria com os olhos mais pr\u00f3ximos do n\u00edvel da mesa, ou quase ao n\u00edvel dela; e, se seus olhos estivessem no n\u00edvel da mesa (e \u00e9 dessa forma que o vemos em Planol\u00e2ndia), <strong>tudo o que voc\u00ea veria seria uma linha reta<\/strong>. (Abbott 2002:9 [20])<\/p><\/blockquote>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/ABBOTT_02.png\" alt=\"\" \/><\/p>\n<blockquote><p>Se nosso amigo se aproxima de n\u00f3s, vemos sua linha ficar maior. Se ele se afasta, fica menor, mas ainda assim ele se parece com uma linha reta. Seja ele tri\u00e2ngulo, quadrado, pent\u00e1gono, hex\u00e1gono, c\u00edrculo. <strong>O que seja, ele parece ser uma linha reta e nada al\u00e9m disso<\/strong>. (Abbott 2002:10 [20-1])<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>2. Do clima e das casas de Planol\u00e2ndia<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Como no seu caso, tamb\u00e9m temos quatro pontos cardeais: <strong>norte, sul, leste, oeste.<\/strong> (Abbott 2002:10 [22])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Segundo uma Lei da nossa Natureza, h\u00e1 uma <strong>atra\u00e7\u00e3o constante para o sul<\/strong>, e, embora nos climas temperados ela seja muito fraca [&#8230;], o efeito restritivo dessa atra\u00e7\u00e3o \u00e9 suficiente para servir de b\u00fassola na maioria dos lugares da nossa terra. Al\u00e9m disso, a <strong>chuva <\/strong>(que cai a intervalos fixos), que sempre vem do norte, \u00e9 uma ajuda adicional, e nas cidades temos a orienta\u00e7\u00e3o das <strong>casas<\/strong>, que obviamente t\u00eam as paredes laterais em sua maior parte na dire\u00e7\u00e3o norte-sul, de modo que os telhados as protejam da chuva que vem do norte. (Abbott 2002:10 [22])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Antigamente, uma quest\u00e3o interessante e muito investigada por nossos eruditos era: &#8220;<strong>Qual \u00e9 a origem da luz?<\/strong>&#8220;, e a resposta foi repetidamente buscada, tendo como \u00fanico resultado a lota\u00e7\u00e3o de nossos manic\u00f4mios com os candidatos a descobridores. Em conseq\u00fc\u00eancia, depois de tentativas infrut\u00edferas de <strong>reprimir <\/strong>tais investiga\u00e7\u00f5es indiretamente, tornando-as sujeitas a pesado <strong>imposto<\/strong>, o Legislativo, em uma \u00e9poca comparativamente recente, <strong>proibiu-as <\/strong>totalmente. Eu &#8211; ai de mim, somente eu em Planol\u00e2ndia &#8211; sei hoje muit\u00edssimo bem a verdadeira solu\u00e7\u00e3o desse misterioso problema, mas meu conhecimento n\u00e3o pode ser tornado intelig\u00edvel para nenhum de meus compatriotas. (Abbott 2002:11 [23])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>A forma mais comum de constru\u00e7\u00e3o de casas \u00e9 a de cinco lados ou <strong>pentagonal<\/strong>, como na figura abaixo. Os dois lados voltados para o norte, RO e OF, formam o telhado, que em sua maioria n\u00e3o tem portas. No lado leste h\u00e1 uma pequena porta para as mulheres; no lado oeste, uma porta bem maior para os homens; o lado sul ou ch\u00e3o em geral n\u00e3o tem porta. (Abbott 2002:11 [23])<\/p><\/blockquote>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/ABBOTT_03.png\" alt=\"\" \/><\/p>\n<blockquote><p>N\u00e3o s\u00e3o permitidas casas quadradas e triangulares pelo seguinte motivo: como os \u00e2ngulos de um quadrado (e ainda mais os \u00e2ngulos de um tri\u00e2ngulo eq\u00fcil\u00e1tero) s\u00e3o muito mais pontudos do que os de um pent\u00e1gono, e como as linhas dos objetos inanimados (tais como casas) s\u00e3o mais indistintas do que as linhas dos homens e das mulheres, segue-se que o perigo de que as <strong>pontas <\/strong>de uma casa quadrada ou triangular possam <strong>ferir <\/strong>seriamente um viajante desatencioso ou talvez distra\u00eddo que v\u00e1 de encontro a elas n\u00e3o \u00e9 pequeno. E, j\u00e1 no s\u00e9culo onze de nossa era, <strong>casas triangulares <\/strong>eram universalmente <strong>proibidas por lei<\/strong>, sendo as \u00fanicas exce\u00e7\u00f5es fortifica\u00e7\u00f5es, pai\u00f3is de p\u00f3lvora, quart\u00e9is e outros pr\u00e9dios p\u00fablicos, dos quais a popula\u00e7\u00e3o em geral n\u00e3o deve se aproximar sem circunspe\u00e7\u00e3o. Nessa \u00e9poca, <strong>casas quadradas <\/strong>ainda eram permitidas, embora <strong>desencorajadas por um imposto espec\u00edfico<\/strong>. Mas, uns tr\u00eas s\u00e9culos depois, a justi\u00e7a decidiu que em todas as cidades com popula\u00e7\u00e3o superior a 10 mil, <strong>o \u00e2ngulo do pent\u00e1gono <\/strong>seria o menor \u00e2ngulo permitido nas casas consistentemente com a seguran\u00e7a p\u00fablica. O bom senso da comunidade apoiou os esfor\u00e7os do Legislativo, e hoje, mesmo no campo, a constru\u00e7\u00e3o pentagonal suplantou todas as outras. Atualmente, s\u00f3 em algum distrito agr\u00edcola distante e atrasado \u00e9 que um antiqu\u00e1rio poder\u00e1 ainda descobrir uma casa quadrada. (Abbott 2002:11-2 [24])<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>3. Sobre os habitantes de Planol\u00e2ndia<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Nossas <strong>mulheres <\/strong>s\u00e3o linhas retas. [&#8230;] Nossos <strong>soldados <\/strong>e as classes mais baixas de <strong>trabalhadores <\/strong>s\u00e3o tri\u00e2ngulos com dois lados iguais [&#8230;] e uma base ou terceiro lado t\u00e3o curto [&#8230;] que eles formam nos v\u00e9rtices um \u00e2ngulo muito agudo e perigoso. Na verdade, quando suas bases s\u00e3o do tipo mais degradado (n\u00e3o passando de alguns mil\u00edmetros de tamanho), eles mal podem ser distinguidos das linhas retas, ou mulheres, de t\u00e3o pontudos que s\u00e3o seus v\u00e9rtices. [&#8230;] Nossa <strong>classe m\u00e9dia <\/strong>consiste de tri\u00e2ngulos eq\u00fcil\u00e1teros, ou de lados iguais. [&#8230;] Nossos <strong>profissionais e cavalheiros <\/strong>s\u00e3o quadrados (a cuja classe eu perten\u00e7o) e figuras de cinco lados, ou pent\u00e1gonos. [&#8230;] Acima deles, temos <strong>a nobreza<\/strong>, que possui v\u00e1rios graus, come\u00e7ando com as figuras de seis lados, ou hex\u00e1gonos, e da\u00ed em diante aumentando o n\u00famero de lados at\u00e9 que recebem o t\u00edtulo honor\u00edfico de pol\u00edgono, ou figuras de muitos lados. Finalmente, quando o n\u00famero de lados fica t\u00e3o grande, e os pr\u00f3prios lados t\u00e3o pequenos, que a figura n\u00e3o pode ser distinguida de um c\u00edrculo, ela \u00e9 inclu\u00edda na ordem circular, ou <strong>sacerdotal<\/strong>, e essa \u00e9 classe mais alta de todas. (Abbott 2002:12 [25-6])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Em nosso mundo h\u00e1 uma lei da natureza que determina que uma crian\u00e7a do sexo masculino ter\u00e1 um lado a mais do que seu pai, de modo que <strong>cada gera\u00e7\u00e3o se eleva (por via de regra) um degrau <\/strong>na escala de desenvolvimento e nobreza. [&#8230;] Mas essa regra n\u00e3o se aplica sempre aos comerciantes, e ainda menos freq\u00fcentemente aos soldados e aos trabalhadores, que na verdade mal merecem ser chamados de figuras humanas, j\u00e1 que n\u00e3o t\u00eam todos os lados iguais. (Abbott 2002:12 [26])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Raramente &#8211; em compara\u00e7\u00e3o ao imenso n\u00famero de nascimentos de is\u00f3sceles &#8211; pais is\u00f3sceles geram um genu\u00edno tri\u00e2ngulo de lados iguais que possa receber o certificado de eq\u00fcil\u00e1tero. [&#8230;] O nascimento de um verdadeiro tri\u00e2ngulo eq\u00fcil\u00e1tero de pais is\u00f3sceles \u00e9 motivo de j\u00fabilo em nosso pa\u00eds. Depois de um exame minucioso feito pelo Conselho Sanit\u00e1rio e Social, a crian\u00e7a, caso receba o certificado de regular, \u00e9 admitida em cerim\u00f4nia solene \u00e0 classe de eq\u00fcil\u00e1teros. \u00c9 ent\u00e3o imediatamente tirada de seus orgulhosos embora tristes pais e adotada por algum eq\u00fcil\u00e1tero sem filhos, que jura perante a lei nunca mais permitir que a crian\u00e7a entre em seu lar anterior ou que sequer aviste seus parentes novamente, para evitar que o organismo rec\u00e9m desenvolvido possa, por for\u00e7a de <strong>imita\u00e7\u00e3o inconsciente<\/strong>, retroceder para seu n\u00edvel heredit\u00e1rio. (Abbott 2002:12-3 [26-7])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>O surgimento ocasional de um eq\u00fcil\u00e1tero das fileiras de seus ancestrais nascidos servos \u00e9 bem recebido n\u00e3o apenas pelos pr\u00f3prios servos pobres, como um <strong>raio de luz e esperan\u00e7a <\/strong>sobre a mon\u00f3tona esqualidez de suas exist\u00eancias, como tamb\u00e9m pelos aristocratas em geral, j\u00e1 que todas as classes mais altas sabem muito bem que esse <strong>raro fen\u00f4meno<\/strong>, ao mesmo tempo em que faz pouco ou nada para popularizar seus pr\u00f3prios privil\u00e9gios, serve como barreira extremamente \u00fatil contra revoltas das classes mais baixas. [&#8230;] Se a turba de \u00e2ngulos agudos fosse totalmente, sem exce\u00e7\u00e3o, desprovida de esperan\u00e7a e ambi\u00e7\u00e3o, eles poderiam ter encontrado l\u00edderes em algumas de suas muitas insurrei\u00e7\u00f5es rebeldes que fossem capazes de tornar sua for\u00e7a e maior n\u00famero demasiados at\u00e9 para a sapi\u00eancia dos c\u00edrculos. Mas um s\u00e1bio ditame da natureza estabeleceu que <strong>quando a intelig\u00eancia, o conhecimento e todas as virtudes aumentam nas classes trabalhadoras, na mesma propor\u00e7\u00e3o aumentar\u00e1 tamb\u00e9m seu \u00e2ngulo agudo<\/strong> (que os torna fisicamente terr\u00edveis), aproximando-se do \u00e2ngulo comparativamente inofensivo do tri\u00e2ngulo eq\u00fcil\u00e1tero. Dessa forma, na mais brutal e perigosa classe dos soldados &#8211; criaturas quase do mesmo n\u00edvel das mulheres, no que diz respeito \u00e0 sua falta de intelig\u00eancia &#8211; verifica-se que, <strong>quando a capacidade mental necess\u00e1ria para tirar vantagem de seu poder de penetra\u00e7\u00e3o aumenta, diminui o poder de penetra\u00e7\u00e3o em si.<\/strong> [&#8230;] Como \u00e9 admir\u00e1vel essa lei de compensa\u00e7\u00e3o! Assim como a prova cabal da natural adequa\u00e7\u00e3o e, eu poderia at\u00e9 dizer, da origem divina da constitui\u00e7\u00e3o aristocr\u00e1tica dos Estados em Planol\u00e2ndia! Por meio do uso sensato dessa lei da natureza, os pol\u00edgonos e c\u00edrculos conseguem quase sempre <strong>refrear rebeli\u00f5es <\/strong>no nascedouro, tirando vantagem da irreprim\u00edvel e ilimitada confian\u00e7a da mente humana. As <strong>artes <\/strong>tamb\u00e9m v\u00eam em aux\u00edlio da lei e da ordem. Em geral \u00e9 poss\u00edvel &#8211; por meio de uma pequena compress\u00e3o ou expans\u00e3o <strong>artificial <\/strong>exercida pelos m\u00e9dicos do estado &#8211; tornar perfeitamente regulares alguns dos l\u00edderes mais inteligentes de uma rebeli\u00e3o, e admiti-los imediatamente nas classes privilegiadas. (Abbott 2002:13-4 [27-8])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>H\u00e1 n\u00e3o menos do que 120 rebeli\u00f5es registradas em nossos anais, al\u00e9m de 235 revoltas menores, e todas terminaram da mesma forma. (Abbott 2002:14 [28])<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>4. Sobre as mulheres<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Se nossos tri\u00e2ngulos muito pontudos da classe dos soldados s\u00e3o perigosos, pode-se inferir facilmente que muito mais perigosas s\u00e3o nossas mulheres. Pois, se um soldado \u00e9 uma cunha, <strong>uma mulher \u00e9 uma agulha<\/strong>, sendo, por assim dizer, s\u00f3 pontas, ao menos nas duas extremidades. Acrescente-se a isso o poder de ficar <strong>praticamente invis\u00edvel <\/strong>a qualquer hora, e pode-se ver que uma f\u00eamea, em Planol\u00e2ndia, \u00e9 uma criatura que n\u00e3o se deve de forma alguma menosprezar. (Abbott 2002:15 [29])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>[Leis: ]1. Toda casa ter\u00e1 uma <strong>entrada <\/strong>no lado leste para uso exclusivo das mulheres, pela qual todas as f\u00eameas entrar\u00e3o de um &#8220;modo decoroso e respeitoso&#8221; e n\u00e3o pela porta dos homens ou porta ocidental. 2. Nenhuma mulher andar\u00e1 por qualquer local p\u00fablico sem repetir continuamente seu <strong>brado de paz<\/strong>, sob pena de morte. 3. Qualquer f\u00eamea que comprovadamente sofra de dan\u00e7a de-s\u00e3o-vito, convuls\u00f5es, resfriado cr\u00f4nico acompanhado de espirros violentos, ou de qualquer mol\u00e9stia que provoque movimentos involunt\u00e1rios, ser\u00e1 instantaneamente <strong>exterminada<\/strong>. (Abbott 2002:15-6 [30])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>\u00c9 considerada uma desgra\u00e7a para qualquer estado que a legisla\u00e7\u00e3o tenha de fazer valer o que deveria ser, e \u00e9 em toda f\u00eamea respeit\u00e1vel, um instinto natural. O movimento r\u00edtmico e, se posso assim dizer, bem modulado das costas de nossas senhoras da classe circular \u00e9 <strong>invejado e imitado <\/strong>pela esposa de um eq\u00fcil\u00e1tero comum, que n\u00e3o consegue mais do que um mon\u00f3tono vaiv\u00e9m, como o tique-taque de um p\u00eandulo. E o tique-taque regular do eq\u00fcil\u00e1tero n\u00e3o \u00e9 menos <strong>admirado e copiado <\/strong>pela esposa do progressista is\u00f3scele que aspira ascender socialmente, f\u00eameas em cujas fam\u00edlias nenhum &#8220;movimento das costas&#8221; de qualquer esp\u00e9cie se tornou ainda uma necessidade da vida. Portanto, em toda fam\u00edlia de posi\u00e7\u00e3o e respeito, o &#8220;movimento das costas&#8221; \u00e9 t\u00e3o predominante quanto o tempo, e os maridos e filhos nesses lares gozam de imunidade, ao menos, a ataques invis\u00edveis. (Abbott 2002:16-7 [31-2])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Obviamente, portanto, n\u00e3o se deve irritar uma mulher quando ela est\u00e1 em uma posi\u00e7\u00e3o na qual ela pode girar. (Abbott 2002:17 [32])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>A meus leitores de Espa\u00e7ol\u00e2ndia, a condi\u00e7\u00e3o de nossas mulheres pode parecer verdadeiramente deplor\u00e1vel, e de fato o \u00e9. Um macho do tipo mais baixo de is\u00f3scele pode ter a expectativa de alguma melhoria em seu \u00e2ngulo, e, no final, a ascens\u00e3o de toda a sua aviltada casta, mas nenhuma mulher pode alimentar tais esperan\u00e7as para seu sexo. &#8220;Uma vez mulher, sempre mulher&#8221;, \u00e9 uma lei da natureza, e as pr\u00f3prias leis da evolu\u00e7\u00e3o parecem suspensas em seu detrimento. No entanto, ao menos podemos admirar o s\u00e1bio arranjo pr\u00e9vio que estabeleceu que, <strong>como n\u00e3o t\u00eam esperan\u00e7as, as mulheres tamb\u00e9m n\u00e3o ter\u00e3o mem\u00f3ria para relembrar, e nenhuma capacidade para prever <\/strong>as ang\u00fastias e humilha\u00e7\u00f5es, que s\u00e3o ao mesmo tempo uma necessidade de sua exist\u00eancia e a base da constitui\u00e7\u00e3o de Planol\u00e2ndia. (Abbott 2002:18 [34])<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>5. De nossos m\u00e9todos para reconhecermos uns aos outros<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O primeiro meio de reconhecimento \u00e9 o sentido da <strong>audi\u00e7\u00e3o<\/strong>, [&#8230;] que nos permite n\u00e3o apenas distinguir pela voz nossos amigos, como at\u00e9 discriminar as diferentes classes, pelo menos no que diz respeito \u00e0s tr\u00eas classes sociais mais baixas, os eq\u00fcil\u00e1teros, os quadrados e os pent\u00e1gonos &#8211; pois deixo de lado os is\u00f3sceles. Mas, \u00e0 medida em que subimos na escala social, o processo de discriminar e ser discriminado pela audi\u00e7\u00e3o fica mais dif\u00edcil [&#8230;]. E toda vez que h\u00e1 perigo de impostura n\u00e3o podemos confiar nesse m\u00e9todo. (Abbott 2002:19 [35-6])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><strong>Tocar <\/strong>\u00e9, entre as nossas mulheres e nas classes mais baixas [&#8230;] o principal crit\u00e9rio de reconhecimento &#8211; ao menos entre estranhos, e quando o problema \u00e9 relativo a classe, e n\u00e3o ao indiv\u00edduo. [&#8230;] &#8220;Permita-me pedir que voc\u00ea toque e seja tocado por meu amigo, o senhor Fulano de Tal&#8221; &#8211; ainda \u00e9, entre os mais antiquados de nossos senhores rurais nas regi\u00f5es distantes das cidades, a f\u00f3rmula para apresenta\u00e7\u00f5es em Planol\u00e2ndia. [&#8230;] [N]\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio, como regra geral, tocar em mais de um \u00fanico \u00e2ngulo de um indiv\u00edduo, e isso revela a classe da pessoa com quem estamos falando, a menos que de fato ela perten\u00e7a \u00e0s partes mais altas da nobreza. L\u00e1 a dificuldade \u00e9 muito maior. (Abbott 2002:19 [36-7])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Ouvi dizer que meu eminente <strong>av\u00f4 <\/strong>&#8211; um dos menos irregulares de sua infeliz classe de is\u00f3sceles, que deveras recebeu, pouco antes de seu falecimento, quatro dos sete votos do Conselho Sanit\u00e1rio e Social para ser transferido para a classe dos eq\u00fcil\u00e1teros &#8211; muitas vezes lastimou, com uma l\u00e1grima em seu vener\u00e1vel olho, um <strong>acidente <\/strong>[&#8230;] ocorrido com seu tatarav\u00f4, um respeit\u00e1vel trabalhador com \u00e2ngulo ou c\u00e9rebro de 59 graus e 30 minutos. De acordo com seu relato, meu infeliz ancestral &#8211; que sofria de reumatismo -, no instante em que estava sendo tocado por um pol\u00edgono, em um repentino movimento brusco, acidentalmente trespassou o grande homem na diagonal. Desse modo, parcialmente em conseq\u00fc\u00eancia do longo per\u00edodo em que ficou encarcerado e da prolongada degrada\u00e7\u00e3o, e parcialmente por causa do choque moral que afetou todos os parentes, meu tatarav\u00f4 lan\u00e7ou a fam\u00edlia um grau e meio de volta em sua ascens\u00e3o rumo a coisas melhores. O resultado foi que na gera\u00e7\u00e3o seguinte o c\u00e9rebro da fam\u00edlia foi registrado como apenas de 58 graus, e s\u00f3 depois do lapso de cinco gera\u00e7\u00f5es \u00e9 que o terreno perdido foi recuperado, os 60 graus atingidos, e a ascens\u00e3o da classe dos is\u00f3sceles finalmente conseguida. <strong>E toda essa s\u00e9rie de calamidades surgiu a partir de um pequeno acidente durante o processo de tocar<\/strong>. (Abbott 2002:20 [37-8])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>[E]mbora n\u00e3o possamos <strong>ver <\/strong>\u00e2ngulos, podemos <strong>inferi-los<\/strong>, e com muita precis\u00e3o. Nosso tato, estimulado pela necessidade e desenvolvido durante um longo treinamento, permite-nos distinguir \u00e2ngulos com precis\u00e3o muito maior do que sua vis\u00e3o sem a ajuda de r\u00e9gua ou do transferidor. (Abbott 2002:21 [38])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>H\u00e1 em nosso mundo uma <strong>lei da natureza<\/strong> segundo a qual <strong>o c\u00e9rebro <\/strong>da classe dos is\u00f3sceles se inicia com meio grau, ou 30 minutos, e cresce (quando cresce) de meio grau a cada gera\u00e7\u00e3o at\u00e9 que o objetivo de <strong>60 graus <\/strong>seja alcan\u00e7ado, quando ent\u00e3o a condi\u00e7\u00e3o de servid\u00e3o cessa e o <strong>homem livre <\/strong>ingressa na <strong>classe dos regulares<\/strong>. (Abbott 2002:21 [38])<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>6. Do reconhecimento pela vis\u00e3o<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>\u00c9 apenas entre as <strong>classes mais altas <\/strong>e em nossos climas temperados que o reconhecimento pela vis\u00e3o \u00e9 praticado. [&#8230;] Essa capacidade existe em qualquer regi\u00e3o e para qualquer classe devido \u00e0 <strong>neblina <\/strong>que prevalece durante a maior parte do ano em toda parte, exceto nas zonas t\u00f3rridas. Ela, que entre voc\u00eas de Espa\u00e7ol\u00e2ndia \u00e9 claramente um mal, eclipsando a paisagem, deprimindo os esp\u00edritos e debilitando a sa\u00fade, por n\u00f3s \u00e9 reconhecida como uma b\u00ean\u00e7\u00e3o, certamente em nada inferior ao pr\u00f3prio ar, e <strong>parteira das artes e m\u00e3e das ci\u00eancias<\/strong>. (Abbott 2002:22 [40])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><strong>Se a neblina n\u00e3o existisse <strong>[e nem a miopia]<\/strong>, todas as linhas pareceriam iguais e indistintamente claras. <\/strong>E isso \u00e9 de fato o que acontece naqueles infelizes pa\u00edses nos quais a atmosfera \u00e9 perfeitamente seca e transparente. Mas, sempre que h\u00e1 um rico suprimento de neblina, os objetos que est\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia[, digamos, de 90 cent\u00edmetros, s\u00e3o apreciavelmente mais indistintos do que aqueles que est\u00e3o a uma dist\u00e2ncia de 89 cent\u00edmetros]. E o resultado \u00e9 que por meio de cuidadosas e constantes observa\u00e7\u00f5es experimentais da comparativa indistin\u00e7\u00e3o e clareza, conseguimos <strong>inferir <\/strong>com grande exatid\u00e3o a configura\u00e7\u00e3o do objeto observado. (Abbott 2002:22 [40-1])<\/p><\/blockquote>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/ABBOTT_04b.png\" alt=\"\" \/><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/ABBOTT_05.png\" alt=\"\" \/><\/p>\n<blockquote><p>O matem\u00e1tico mais med\u00edocre de Espa\u00e7ol\u00e2ndia vai prontamente crer em mim quando eu afirmar que os <strong>problemas <\/strong>da vida que se apresentam para os cultos &#8211; quando est\u00e3o em movimento, girando, avan\u00e7ando ou retrocedendo, e ao mesmo tempo tentando discriminar por meio da vis\u00e3o entre v\u00e1rios pol\u00edgonos de alta posi\u00e7\u00e3o social que se movem em dire\u00e7\u00f5es diferentes, como, por exemplo, em um sal\u00e3o de baile ou em uma reuni\u00e3o social &#8211; devem exigir demais da angularidade dos mais intelectuais e justificam amplamente as <strong>gordas doa\u00e7\u00f5es <\/strong>dos Doutos Professores de Geometria, tanto Est\u00e1tica quanto Cin\u00e9tica, \u00e0 ilustre <strong>Universidade de Wentbridge<\/strong>, onde a Ci\u00eancia e a Arte do Reconhecimento Visual s\u00e3o ministradas regularmente a grandes turmas formadas pela elite dos estados. (Abbott 2002:24 [43])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Mesmo para mim, um matem\u00e1tico de posi\u00e7\u00e3o nada med\u00edocre, e av\u00f4 de dois hex\u00e1gonos auspiciosos e perfeitamente regulares, descobrir-me em meio a um grupo de pol\u00edgonos de classe alta girando \u00e9 \u00e0s vezes muito <strong>desconcertante<\/strong>. [&#8230;] Resumindo, para se comportar com perfeito decoro na sociedade poligonal \u00e9 necess\u00e1rio ser um pol\u00edgono. Pelo menos esse \u00e9 o doloroso ensinamento de minha experi\u00eancia. (Abbott 2002:24 [43-4])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Quem no in\u00edcio da vida recorre a &#8220;tocar&#8221; nunca vai aprender a &#8220;ver&#8221; com perfei\u00e7\u00e3o. [&#8230;] Por essa raz\u00e3o, <strong>entre nossas classes superiores, o ato de &#8220;tocar&#8221; \u00e9 desencorajado ou totalmente proibido<\/strong>. Desde o ber\u00e7o, as crian\u00e7as, ao inv\u00e9s de irem para as escolas p\u00fablicas de primeiro grau (onde a arte do &#8220;tocar&#8221; \u00e9 ensinada), s\u00e3o mandadas a estabelecimentos de ensino superior de car\u00e1ter exclusivo. E na nossa ilustre universidade, &#8220;tocar&#8221; \u00e9 encarado como falha muito s\u00e9ria, implicando suspens\u00e3o na primeira vez e expuls\u00e3o na segunda. [&#8230;] Mas <strong>entre as classes mais baixas, a arte do reconhecimento visual \u00e9 encarada como um luxo inating\u00edvel<\/strong>. (Abbott 2002:25 [44])<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>7. Sobre figuras irregulares<\/strong><\/p>\n<blockquote><p><strong>Se nossos lados fossem desiguais<\/strong>, nossos \u00e2ngulos seriam desiguais. Ao inv\u00e9s de ser suficiente tocar ou estimar visualmente um \u00fanico \u00e2ngulo para determinar a forma de um indiv\u00edduo, seria necess\u00e1rio determinar cada \u00e2ngulo por meio do experimento de tocar. Mas a vida seria curta demais para todo esse ma\u00e7ante apalpar. A ci\u00eancia e a arte do reconhecimento visual iriam imediatamente desaparecer. Tocar, na medida em que \u00e9 uma arte, n\u00e3o permaneceria por muito tempo, as rela\u00e7\u00f5es ficariam perigosas ou imposs\u00edveis, seria o fim de toda a sensa\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a, de toda capacidade de prever, ningu\u00e9m se sentiria seguro para planejar nenhum evento social, por mais simples que fosse. Resumindo, <strong>a civiliza\u00e7\u00e3o recairia na barb\u00e1rie<\/strong>. (Abbott 2002:26 [46-7])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Se fosse permitida a exist\u00eancia de um homem com uma frente triangular e costas poligonais, e que ele propagasse uma descend\u00eancia ainda mais irregular, o que seria das artes da vida? Devem todas as casas, portas e igrejas de Planol\u00e2ndia ser alteradas para acomodar tais <strong>monstros<\/strong>? Devem nossos bilheteiros medir o per\u00edmetro de cada homem antes de permitir que entre no teatro, ou se acomode em uma sala de confer\u00eancia? Os irregulares devem ser dispensados da mil\u00edcia? E se n\u00e3o, como se pode impedir que eles levem a devasta\u00e7\u00e3o \u00e0s fileiras de seus camaradas? Al\u00e9m disso, que tenta\u00e7\u00f5es irresist\u00edveis de cometer embustes fraudulentos devem for\u00e7osamente atacar tal criatura! Como seria f\u00e1cil para ele entrar em uma loja com sua frente poligonal e encomendar mercadorias a um comerciante cr\u00e9dulo! Por mais que os defensores de uma falsa filantropia pleiteiem a revoga\u00e7\u00e3o das leis penais para os irregulares, eu <strong>nunca conheci um irregular que n\u00e3o fosse tamb\u00e9m o que a natureza evidentemente tinha a inten\u00e7\u00e3o de que fosse <\/strong>&#8211; um hip\u00f3crita, misantropo e, nos limites de suas capacidades, um praticante de todo tipo de maldade. (Abbott 2002:27-8 [48-9])<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>8. Da antiga pr\u00e1tica da pintura<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Dizem que um indiv\u00edduo &#8211; um pent\u00e1gono cujo nome n\u00e3o se sabe ao certo -, tendo <strong>descoberto casualmente <\/strong>os componentes das cores mais simples e um m\u00e9todo rudimentar de pintura, come\u00e7ou a ornamentar primeiro sua casa e depois seus escravos, seu pai, seus filhos, netos e finalmente a si mesmo. [&#8230;] <strong>A moda pegou <\/strong>como fogo no mato. [&#8230;] A grandiosidade e a gl\u00f3ria do <strong>desenvolvimento sensorial <\/strong>daquela \u00e9poca s\u00e3o indicadas em parte pela linguagem e pelo vocabul\u00e1rio do per\u00edodo. (Abbott 2002:28-30 [50-2])<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>9. Da lei universal da cor<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Mas, enquanto isso, as <strong>artes intelectuais estavam se deteriorando <\/strong>rapidamente. (Abbott 2002:30 [53])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Ano a ano os soldados e os artes\u00e3os come\u00e7aram a afirmar mais veementemente &#8211; e com cada vez mais raz\u00e3o &#8211; que <strong>n\u00e3o havia muita diferen\u00e7a entre eles e as classes mais altas <\/strong>de pol\u00edgonos, agora que eles haviam sido elevados \u00e0 igualdade com estes \u00faltimos, e capacitados a lidar com todas as dificuldades e a resolver todos os problemas da vida, fossem eles est\u00e1ticos ou cin\u00e9ticos, pelo simples processo de reconhecimento pela cor. [&#8230;] Logo come\u00e7aram a insistir que, na medida em que a cor, que era uma segunda natureza, havia <strong>acabado com a necessidade de distin\u00e7\u00f5es aristocr\u00e1ticas<\/strong>, a lei deveria seguir o mesmo caminho, e que dali em diante todos os indiv\u00edduos e <strong>todas as classes deveriam ser reconhecidas como absolutamente iguais <\/strong>e merecedoras dos mesmos direitos. Eles, portanto, apresentaram a uma assembl\u00e9ia geral extraordin\u00e1ria de todos os Estados de Planol\u00e2ndia um <strong>projeto de lei <\/strong>propondo que em cada mulher a metade que cont\u00e9m o olho e a boca deveria ser pintada de vermelho e a outra metade, de verde. Os sacerdotes deveriam tamb\u00e9m ser pintados, usando-se o vermelho no semic\u00edrculo em que o olho e a boca formavam o ponto m\u00e9dio, enquanto o outro semic\u00edrculo, o de tr\u00e1s, deveria ser colorido de verde. (Abbott 2002:30-1 [53-4])<\/p><\/blockquote>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/ABBOTT_06b.png\" alt=\"\" \/><\/p>\n<blockquote><p>Tenha em mente o <strong>decl\u00ednio do reconhecimento pela vis\u00e3o <\/strong>que amea\u00e7ava a sociedade na \u00e9poca da Revolta das Cores; acrescente a certeza de que as <strong>mulheres <\/strong>rapidamente aprenderiam a atenuar suas extremidades para <strong>imitar os c\u00edrculos<\/strong>, e ent\u00e3o vai ficar certamente \u00f3bvio para voc\u00ea, meu caro leitor, que a Lei da Cor nos colocou em grande <strong>perigo <\/strong>de confundir um sacerdote com uma jovem. [&#8230;] O quanto essa <strong>possibilidade <\/strong>deve ter sido sedutora para o sexo fr\u00e1gil pode prontamente ser imaginado. [&#8230;] Assim, aos poucos, o brilho intelectual da classe sacerdotal declinaria e o caminho estaria ent\u00e3o aberto para <strong>a total destrui\u00e7\u00e3o de todo o legislativo aristocr\u00e1tico <\/strong>e para <strong>a subvers\u00e3o de nossas classes privilegiadas<\/strong>. (Abbott 2002:32-3 [55-7])<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>10. Da supress\u00e3o da Rebeli\u00e3o Crom\u00e1tica<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Parecia que os sacerdotes n\u00e3o tinham alternativa al\u00e9m de submiss\u00e3o ou exterm\u00ednio, quando de repente o curso dos acontecimentos foi mudado completamente por um desses <strong>pitorescos incidentes <\/strong>que os estadistas n\u00e3o deveriam jamais desprezar, sempre antever, e, \u00e0s vezes, talvez criar, devido ao poder absurdamente desproporcional com o qual eles apelam para a simpatia do populacho.(Abbott 2002:33 [58])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Aconteceu de um is\u00f3scele de um tipo inferior, com um c\u00e9rebro de pouco mais de quatro graus, se tanto &#8211; ao acidentalmente chapinhar nas cores de um comerciante cuja loja ele havia roubado -, pintar a si mesmo, ou fazer-se pintar (a hist\u00f3ria varia) com as doze cores de um dodec\u00e1gono. A caminho do mercado ele abordou uma jovem disfar\u00e7ando a voz &#8211; a filha \u00f3rf\u00e3 de um nobre pol\u00edgono, cuja afei\u00e7\u00e3o ele havia em v\u00e3o tentado conquistar no passado. Por meio de uma s\u00e9rie de imposturas &#8211; ajudado, por um lado, por uma cadeia de golpes de sorte longa demais para ser relatada, e, por outro, por uma insensatez quase inconceb\u00edvel e um desleixo para com as precau\u00e7\u00f5es normais por parte dos parentes da noiva &#8211; ele conseguiu consumar o casamento. A infeliz mo\u00e7a cometeu o suic\u00eddio ao descobrir o embuste ao qual ela havia sido submetida. Quando a not\u00edcia da cat\u00e1strofe se espalhou pelos Estados, as mentes femininas ficaram violentamente agitadas. Simpatia pela pobre v\u00edtima e expectativas de logros semelhantes para si mesmas, suas irm\u00e3s e filhas, fizeram com que elas vissem a Lei da Cor de um ponto de vista totalmente novo. N\u00e3o poucas abertamente se confessaram convertidas \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o. O resto s\u00f3 precisava de um pequeno est\u00edmulo para fazer o mesmo. Agarrando essa <strong>oportunidade favor\u00e1vel<\/strong>, os c\u00edrculos rapidamente convocaram uma assembl\u00e9ia extraordin\u00e1ria dos Estados e, al\u00e9m da usual guarda de condenados, garantiram a presen\u00e7a de um grande n\u00famero de reacion\u00e1rias. (Abbott 2002:34 [58-9])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Os c\u00edrculos n\u00e3o hesitaram em levar sua vit\u00f3ria at\u00e9 o final. Pouparam os trabalhadores, mas os dizimaram. A mil\u00edcia de eq\u00fcil\u00e1teros foi imediatamente convocada, e cada tri\u00e2ngulo suspeito de irregularidade com base em provas razo\u00e1veis foi exterminado por uma Corte Marcial, sem a formalidade de ser medido com precis\u00e3o pelo Conselho Social. Os lares dos membros das classes dos militares e dos artes\u00e3os foram inspecionados por mais de um ano; cada cidade, vilarejo e aldeia foi sistematicamente expurgado daquele excesso de classes inferiores que havia sido causado pelo n\u00e3o-pagamento do tributo de criminosos \u00e0s escolas e \u00e0 universidade, e pela viola\u00e7\u00e3o das outras leis naturais da Constitui\u00e7\u00e3o de Planol\u00e2ndia. <strong>Assim o equil\u00edbrio das classes foi novamente restaurado<\/strong>. [&#8230;] Nem \u00e9 necess\u00e1rio dizer que da\u00ed por diante <strong>o uso de cores foi abolido<\/strong>, e sua posse, proibida. (Abbott 2002:35 [61])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Portanto, \u00e9 com grande terror que mesmo hoje nossa aristocracia se lembra da \u00e9poca distante da como\u00e7\u00e3o pela Lei Universal da Cor. (Abbott 2002:36 [62])<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>11. Sobre nossos sacerdotes<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Est\u00e1 mais do que na hora de eu passar dessas breves digress\u00f5es sobre as coisas de Planol\u00e2ndia para ao evento central deste livro, minha inicia\u00e7\u00e3o aos mist\u00e9rios do espa\u00e7o. Esse \u00e9 meu assunto, e tudo o que se passou antes \u00e9 apenas o <strong>pref\u00e1cio<\/strong>. [&#8230;] No entanto, antes de dar in\u00edcio a meu verdadeiro assunto, meus leitores sem d\u00favida esperam algumas observa\u00e7\u00f5es finais sobre <strong>os pilares e esteios da Constitui\u00e7\u00e3o de Planol\u00e2ndia<\/strong>, aqueles que controlam nossa conduta e moldam nosso destino, os objetos de rever\u00eancia universal e quase de adora\u00e7\u00e3o. Preciso dizer que falo de nossos c\u00edrculos, ou sacerdotes? (Abbott 2002:36 [63-4])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Entre n\u00f3s, os sacerdotes administram todos os of\u00edcios, artes e ci\u00eancias; dirigem as transa\u00e7\u00f5es comerciais, o ex\u00e9rcito, a arquitetura, a engenharia, a educa\u00e7\u00e3o, os neg\u00f3cios p\u00fablicos, o legislativo, a moralidade, a teologia. <strong>Embora n\u00e3o fa\u00e7am nada, s\u00e3o as causas de tudo <\/strong>o que vale a pena ser feito, e que \u00e9 feito por outros. (Abbott 2002:36 [64])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Embora popularmente todos os que s\u00e3o chamados de c\u00edrculo sejam considerados como tais, entre as classes mais bem-educadas sabe-se que <strong>nenhum c\u00edrculo \u00e9 realmente um c\u00edrculo<\/strong>, mas apenas um pol\u00edgono com um n\u00famero muito grande de lados muito pequenos. \u00c0 medida que o n\u00famero de lados aumenta, um pol\u00edgono se aproxima de um c\u00edrculo, e, quando o n\u00famero \u00e9 de fato muito grande, digamos, por exemplo, 300 ou 400, \u00e9 extremamente dif\u00edcil que o toque mais delicado sinta qualquer \u00e2ngulo do pol\u00edgono. (Abbott 2002:37 [64])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>A lei da natureza prescreve duas <strong>cl\u00e1usulas antag\u00f4nicas <\/strong>que afetam a reprodu\u00e7\u00e3o dos c\u00edrculos. Primeiro, que \u00e0 medida que a ra\u00e7a sobe na escala de desenvolvimento, ele se d\u00e1 a um passo acelerado. Segundo, que na mesma propor\u00e7\u00e3o, a ra\u00e7a fica menos f\u00e9rtil. Conseq\u00fcentemente, no lar de um pol\u00edgono de 400 ou 500 lados, \u00e9 raro encontrar um filho, e imposs\u00edvel haver mais de um. Por outro lado, sabe-se do filho de um pol\u00edgono de 500 lados que tinha 550, ou at\u00e9 mesmo 600 lados. (Abbott 2002:37 [64-5])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>A <strong>arte <\/strong>tamb\u00e9m interv\u00e9m para auxiliar o processo de evolu\u00e7\u00e3o superior. Nossos m\u00e9dicos descobriram que os lados pequenos e tenros de um pol\u00edgono crian\u00e7a da classe mais alta podem ser fraturados e toda a sua complei\u00e7\u00e3o recomposta com tanta exatid\u00e3o que um pol\u00edgono de 200 ou 300 lados \u00e0s vezes &#8211; n\u00e3o sempre, porque o processo \u00e9 acompanhado de grave risco -, e somente \u00e0s vezes, salta 200 ou 300 gera\u00e7\u00f5es e, por assim dizer, dobra de um s\u00f3 golpe o n\u00famero de lados em rela\u00e7\u00e3o ao de seus progenitores, assim como a nobreza de seus descendentes. (Abbott 2002:37 [65])<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>12. Da doutrina de nossos sacerdotes<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A doutrina dos c\u00edrculos pode ser rapidamente resumida em uma \u00fanica m\u00e1xima: &#8220;<strong>Cuide de sua configura\u00e7\u00e3o<\/strong>&#8220;. [&#8230;] \u00c9 m\u00e9rito dos c\u00edrculos que eles tenham efetivamente suprimido aquelas <strong>antigas heresias <\/strong>que levavam os homens a desperdi\u00e7ar energia e compaix\u00e3o na cren\u00e7a v\u00e3 de que a conduta depende de vontade, esfor\u00e7o, treino, encorajamento, elogio ou de qualquer outra coisa que n\u00e3o a configura\u00e7\u00e3o. (Abbott 2002:38 [66])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Constantemente executando a pol\u00edtica que faz da configura\u00e7\u00e3o a id\u00e9ia diretriz de todas as mentes, os c\u00edrculos inverteram a natureza do preceito que, na Espa\u00e7ol\u00e2ndia, regula as rela\u00e7\u00f5es entre pais e filhos. Entre voc\u00eas, as crian\u00e7as s\u00e3o ensinadas a honrar seus pais. Entre n\u00f3s &#8211; logo depois dos c\u00edrculos, que s\u00e3o o objeto principal de rever\u00eancia universal &#8211; <strong>um homem \u00e9 ensinado a honrar seu neto<\/strong>, se tiver um. Se n\u00e3o tiver, seu filho. &#8220;Honrar&#8221;, no entanto, n\u00e3o quer dizer absolutamente &#8220;ser indulgente&#8221;, mas ter uma considera\u00e7\u00e3o reverente por seus interesses mais elevados, e os c\u00edrculos ensinam que o dever dos pais \u00e9 subordinar seus pr\u00f3prios interesses \u00e0queles da descend\u00eancia, <strong>promovendo assim o bem-estar do Estado como um todo, assim como o de seus descendentes imediatos<\/strong>. (Abbott 2002:39 [68])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>O <strong>ponto fraco <\/strong>do sistema dos c\u00edrculos &#8211; se um humilde quadrado se permite falar de qualquer coisa circular como pass\u00edvel de conter algum elemento de fraqueza &#8211; parece estar em suas rela\u00e7\u00f5es com as <strong>mulheres<\/strong>. [&#8230;] O cuidado na escolha de uma esposa regular parece diminuir \u00e0 medida que se sobe na escala social. (Abbott 2002:39-40 [68-9)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>[A] irregularidade de um macho \u00e9 uma quest\u00e3o de mensura\u00e7\u00e3o, mas, como todas as mulheres s\u00e3o retas, e, portanto, visivelmente regulares, \u00e9 necess\u00e1rio planejar algum outro meio de verificar o que eu poderia chamar de sua <strong>irregularidade invis\u00edvel<\/strong>, ou seja, as potenciais irregularidades no que tange \u00e0 poss\u00edvel descend\u00eancia. Isso \u00e9 feito por meio de <strong>pedigrees <\/strong>cuidadosamente mantidos, que s\u00e3o preservados e supervisionados pelo Estado. Sem um pedigree oficial, nenhuma mulher obt\u00e9m permiss\u00e3o para se casar. (Abbott 2002:39 [68])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Cerca de 300 anos atr\u00e1s, foi decretado pelo C\u00edrculo Cardeal que, devido \u00e0 defici\u00eancia de raz\u00e3o e \u00e0 fartura de emo\u00e7\u00e3o das <strong>mulheres<\/strong>, elas n\u00e3o deveriam mais ser tratadas como racionais, nem receber uma educa\u00e7\u00e3o intelectual. [&#8230;] Pois a conseq\u00fc\u00eancia \u00e9 que, do modo como as coisas est\u00e3o hoje, n\u00f3s, homens, temos de levar uma esp\u00e9cie de <strong>exist\u00eancia bil\u00edng\u00fce, e eu quase diria bimental<\/strong>. <strong>Com as mulheres<\/strong>, falamos de &#8220;amor&#8221;, &#8220;dever&#8221;, &#8220;certo&#8221;, &#8220;errado&#8221;, &#8220;compaix\u00e3o&#8221;, &#8220;esperan\u00e7a&#8221; e outros conceitos irracionais e emocionais, que n\u00e3o t\u00eam exist\u00eancia, e cuja inven\u00e7\u00e3o s\u00f3 tem por objetivo controlar as extravag\u00e2ncias femininas. <strong>Mas entre n\u00f3s<\/strong>, e em nossos livros, temos um vocabul\u00e1rio &#8211; e eu diria quase idioma &#8211; totalmente diferente. Assim, &#8220;amor&#8221; torna-se &#8220;expectativa de favores&#8221;; &#8220;dever&#8221; torna-se &#8220;necessidade&#8221; ou &#8220;adequa\u00e7\u00e3o&#8221;, e outras palavras s\u00e3o igualmente transmutadas. [&#8230;] Bem, meu medo \u00e9 de que esse treinamento duplo, na linguagem e no pensamento, seja <strong>um fardo grande demais <\/strong>para os jovens, especialmente quando, na idade de tr\u00eas anos, s\u00e3o afastados dos cuidados maternais e ensinados a desaprender a velha linguagem &#8211; exceto para repeti-la na presen\u00e7a de suas m\u00e3es e enfermeiras &#8211; e aprender o vocabul\u00e1rio e o idioma da ci\u00eancia. (Abbott 2002:40-1 [69-70])<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>PARTE II &#8211; Outros mundos<\/strong><\/p>\n<blockquote><p><em>Admir\u00e1vel mundo novo que tem tais habitantes!<\/em> (Abbott 2002:42 [71])<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>13. Como eu tive uma vis\u00e3o de Linhal\u00e2ndia<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Era o pen\u00faltimo dia do ano de 1999 da nossa era, e o primeiro do Longo Feriado. Depois de me entreter at\u00e9 tarde com minha divers\u00e3o favorita, a Geometria, havia me recolhido para descansar com um problema n\u00e3o resolvido em mente. \u00c0 noite, tive um <strong>sonho<\/strong>. [&#8230;] Vi na minha frente uma multid\u00e3o imensa de pequenas linhas retas (que <strong>naturalmente supus <\/strong>serem mulheres) intercaladas com outros seres ainda menores que eram como pontos brilhantes &#8211; todos se movendo para l\u00e1 e para c\u00e1 na mesma linha reta, e, pelo que pude julgar, com a mesma velocidade. [&#8230;] Enquanto eles se moviam, um barulho confuso de chilreios ou gorjeios m\u00faltiplos vinha de tempos em tempos, mas \u00e0s vezes eles paravam de se mover, e ent\u00e3o havia sil\u00eancio. [&#8230;] Aproximando-me de uma das maiores retas &#8211; que eu pensava serem mulheres -, dirigi-me a ela, mas n\u00e3o recebi resposta. Uma segunda e uma terceira tentativas de minha parte foram igualmente ineficazes. <strong>Perdendo a paci\u00eancia com o que me parecia ser uma intoler\u00e1vel grosseria<\/strong>, posicionei minha boca diante da sua para interceptar seu movimento, e ruidosamente repeti minha pergunta: [&#8230;] &#8211; Mulher, o que significa esta aglomera\u00e7\u00e3o, e este chilrar estranho e confuso, e este movimento mon\u00f3tono para l\u00e1 e para c\u00e1 em uma \u00fanica linha reta? [&#8230;] &#8211; N\u00e3o sou mulher coisa nenhuma &#8211; respondeu a pequena linha. &#8211; Sou o monarca do mundo. Mas v\u00f3s, de onde vindes invadir meu reino de Linhal\u00e2ndia? &#8211; Ao receber essa abrupta resposta, pedi perd\u00e3o por ter de alguma forma assustado ou melindrado sua Alteza Real. E, identificando-me como um forasteiro, roguei ao rei que me falasse de seus dom\u00ednios. Mas <strong>tive a maior dificuldade para obter qualquer informa\u00e7\u00e3o sobre quest\u00f5es que realmente me interessavam, porque o monarca n\u00e3o conseguia parar de pressupor que o que lhe era familiar tamb\u00e9m deveria ser do meu conhecimento, e que eu estava simulando ignor\u00e2ncia de pilh\u00e9ria<\/strong>. (Abbott 2002:42 [73-4])<\/p><\/blockquote>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/abbott_07.png\" alt=\"\" \/><\/p>\n<blockquote><p>Parecia que este pobre e ignorante monarca &#8211; como ele chamava a si mesmo &#8211; estava convencido de que a linha reta a que ele chamava de seu reino, e onde vivia, compunha a totalidade do mundo, e, na verdade, a totalidade do espa\u00e7o. N\u00e3o sendo capaz de se mover nem de ver, a n\u00e3o ser sua linha reta, ele n\u00e3o tinha qualquer concep\u00e7\u00e3o de nada fora dela. [&#8230;] <strong>Fora de seu mundo, ou linha, [&#8230;]  nada existia<\/strong>. (Abbott 2002:43 [74-5])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>O movimento e a vis\u00e3o de todos os seus s\u00faditos &#8211; dentre os quais as pequenas linhas eram homens e os pontos, mulheres &#8211; eram limitados \u00e0quela \u00fanica linha reta, que era o mundo deles. Nem \u00e9 preciso acrescentar que <strong>a totalidade do horizonte deles limitava-se a um ponto<\/strong>, e ningu\u00e9m podia jamais ver coisa alguma que n\u00e3o fosse isso. [&#8230;] S\u00f3 pelo som da voz podiam o sexo ou a idade ser distinguidos. [&#8230;] Ser vizinho para eles era como ser casado para n\u00f3s. Vizinhos continuavam vizinhos at\u00e9 que a morte os separasse. (Abbott 2002:43-4 [75])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>[O monarca disse: ]A proximidade \u00e9 desnecess\u00e1ria para a uni\u00e3o de cora\u00e7\u00f5es, e o nascimento de filhos \u00e9 uma quest\u00e3o importante demais para depender de um acidente como a proximidade. <strong>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que o senhor ignore isso. No entanto, j\u00e1 que lhe apraz fingir ignor\u00e2ncia, vou instru\u00ed-lo como se o senhor fosse o mais pequenino dos nen\u00eas de Linhal\u00e2ndia<\/strong>. Saiba, ent\u00e3o, que os casamentos s\u00e3o consumados por meio da capacidade de emitir sons e do sentido da audi\u00e7\u00e3o. O senhor, \u00e9 claro, sabe que todo homem tem duas bocas, ou vozes (assim como dois olhos) uma voz de baixo e uma voz de tenor, cada qual em uma extremidade. Eu n\u00e3o deveria mencionar isto, mas n\u00e3o consegui perceber sua voz de tenor durante nossa conversa. [&#8230;] Eu retruquei que s\u00f3 possu\u00eda uma voz, e que <strong>n\u00e3o tinha percebido <\/strong>que Sua Alteza Real tinha duas. [&#8230;] &#8211; Isso confirma minha impress\u00e3o &#8211; disse o rei &#8211; de que o senhor n\u00e3o \u00e9 um homem, mas, sim, <strong>uma monstruosidade feminina com voz de baixo e um ouvido totalmente inculto<\/strong>. Mas, continuando&#8230; Tendo a pr\u00f3pria natureza disposto que todo homem deve se casar com duas esposas&#8230; [&#8230;] &#8211; Por que duas? &#8211; perguntei. [&#8230;] &#8211; <strong>O senhor leva sua simula\u00e7\u00e3o de simplicidade longe demais &#8211; exclamou ele<\/strong>. (Abbott 2002:44 [76])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>[O monarca disse: ]- Uma vez no meio de cada semana <strong>uma lei da natureza <\/strong>nos compele a nos movermos para l\u00e1 e para c\u00e1 com um movimento r\u00edtmico mais violento do que o usual, e que dura o tempo que o senhor levaria para contar at\u00e9 101. No meio dessa dan\u00e7a coral, na pulsa\u00e7\u00e3o de n\u00famero 51, os habitantes do universo param repentinamente e cada indiv\u00edduo emite seu acorde mais suave, doce. \u00c9 nesse momento decisivo que todos os casamentos s\u00e3o celebrados. As adapta\u00e7\u00f5es do baixo \u00e0 soprano e do tenor \u00e0 contralto s\u00e3o t\u00e3o refinadas que freq\u00fcentemente os amantes, embora a mil l\u00e9guas de dist\u00e2ncia, reconhecem de imediato o som que seu prometido emite em resposta, e, vencendo o insignificante obst\u00e1culo da dist\u00e2ncia, o amor une os tr\u00eas. O casamento que \u00e9 consumado naquele instante resulta em prole tr\u00edplice de macho e f\u00eameas, a qual assume o seu lugar em Linhal\u00e2ndia. [&#8230;] &#8211; O qu\u00ea? Sempre tr\u00edplice? &#8211; disse eu. &#8211; Uma esposa ent\u00e3o sempre tem trig\u00eameos? [&#8230;] &#8211; \u00c9, <strong>\u00f3 monstruosidade com voz de baixo! <\/strong>&#8211; retrucou o rei. &#8211; De que outro modo o equil\u00edbrio entre os sexos seria mantido se n\u00e3o nascessem duas garotas para cada menino? Ent\u00e3o <strong>voc\u00ea ignora o pr\u00f3prio Alfabeto da Natureza?<\/strong> [&#8230;] Ele parou de falar, <strong>tanta era a raiva<\/strong>, e algum tempo se passou antes que eu conseguisse induzi-lo a retomar sua narrativa. (Abbott 2002:45 [76-7])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>[O monarca disse: ]- N\u00e3o pense, \u00e9 claro, que todo solteiro entre n\u00f3s encontra suas parceiras na primeira tentativa desse coro universal de casamento. Pelo contr\u00e1rio, o processo \u00e9 repetido muitas vezes pela maioria de n\u00f3s. [&#8230;] E depois de <strong>muitos ensaios e muitos ajustes, <\/strong>o resultado \u00e9 finalmente alcan\u00e7ado. Finalmente chega um dia em que, enquanto o habitual coro matrimonial se eleva da Linhal\u00e2ndia universal, os tr\u00eas amantes distantes repentinamente se descobrem em perfeita harmonia e, antes de tomarem consci\u00eancia, a trinca casada \u00e9 arrebatada vocalmente e levada a um abra\u00e7o duplo, e a natureza se regozija com mais um casamento e tr\u00eas nascimentos. (Abbott 2002:45 [77-8])<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>14. Como em v\u00e3o tentei explicar a natureza de Planol\u00e2ndia<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[O monarca disse: ]- Minhas esposas, que neste momento est\u00e3o <strong>ouvindo <\/strong>o som de uma de minhas vozes imediatamente seguida do som da outra, e percebendo que a segunda as alcan\u00e7a depois de um intervalo no qual o som pode percorrer 16,4 cent\u00edmetros, <strong>inferem <\/strong>que uma de minhas bocas est\u00e1 16,4 cent\u00edmetros mais distante delas do que a outra, <strong>e, dessa maneira, sabem <\/strong>que meu formato \u00e9 de 16,4 cent\u00edmetros Mas voc\u00ea obviamente entende que minhas esposas n\u00e3o fazem esse c\u00e1lculo todas as vezes que ouvem minhas duas vozes. Elas o fizeram de uma vez por todas antes de nos casarmos. Mas elas <strong><em>poderiam <\/em>faz\u00ea-lo a qualquer hora<\/strong>. E, da mesma forma, eu posso estimar o formato de qualquer um dos meus s\u00faditos do sexo masculino por meio do sentido da audi\u00e7\u00e3o. (Abbott 2002:46 [80])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>[Repliquei: ]- Al\u00e9m dos seus movimentos para o norte e para o sul, existe outro movimento, que eu chamo de da direita para a esquerda.<br \/>\n&#8211; <strong>Mostre-me, por favor, <\/strong>esse movimento da esquerda para a direita.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o posso, a menos que Vossa Alteza pudesse sair totalmente da sua linha.<br \/>\n&#8211; Sair da minha linha? Voc\u00ea quer dizer do mundo? Do espa\u00e7o?<br \/>\n&#8211; Bem, \u00e9. Sair do <em>seu <\/em>mundo. Para fora do <em>seu <\/em>espa\u00e7o. Pois <strong>o seu espa\u00e7o n\u00e3o \u00e9 o verdadeiro espa\u00e7o. O verdadeiro espa\u00e7o \u00e9 um plano<\/strong>, e o seu espa\u00e7o n\u00e3o passa de uma linha.<br \/>\n&#8211; Se o senhor n\u00e3o consegue mostrar este movimento da esquerda para a direita fazendo o movimento, ent\u00e3o eu rogo que <strong>o descreva <\/strong>para mim em palavras.<br \/>\n&#8211; Se <strong>Vossa Alteza n\u00e3o consegue distinguir <\/strong>seu lado direito do esquerdo, temo que n\u00e3o existam palavras que possam transmitir o que eu quero dizer. Mas com certeza Vossa Alteza n\u00e3o pode ignorar uma distin\u00e7\u00e3o t\u00e3o simples.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o o entendo nem um pouco.<br \/>\n&#8211; <strong>Ai de mim! <\/strong>Como \u00e9 que eu vou esclarecer isso? (Abbott 2002:48 [81-2])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>&#8211; Bem, j\u00e1 que as palavras n\u00e3o conseguem explicar, <strong>vou tentar os atos, <\/strong>e vou me mover gradualmente para fora de Linhal\u00e2ndia na dire\u00e7\u00e3o que eu desejo indicar a Vossa Alteza. Ao dizer isso, comecei a tirar meu corpo de Linhal\u00e2ndia. [&#8230;] Enquanto uma parte de mim continuava em seus dom\u00ednios e \u00e0 sua vista, o rei ficou exclamando:<br \/>\n&#8211; Estou vendo voc\u00ea, ainda <strong>estou vendo. Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 se movendo. <\/strong>Mas quando finalmente eu me retirei totalmente de sua linha, ele exclamou em sua voz mais estridente:<br \/>\n&#8211; Ela desapareceu. Ela morreu!<br \/>\n&#8211; N\u00e3o morri &#8211; repliquei. (Abbott 2002:48 [82-3]])<\/p><\/blockquote>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/ABBOTT_7-2.png\" alt=\"\" \/><\/p>\n<blockquote><p><strong>O senhor me pede que acredite <\/strong>que existe outra linha al\u00e9m daquela que meus sentidos indicam, e outro movimento al\u00e9m daquele do qual eu estou diariamente consciente. <strong>Eu, em troca, pe\u00e7o ao senhor que descreva em palavras ou indique por meio de movimento <\/strong>a outra linha da qual fala. Em vez de se mover, o senhor meramente faz um <strong>truque de magia<\/strong>; desaparece e volta a ficar vis\u00edvel. E em vez de qualquer descri\u00e7\u00e3o l\u00facida de seu mundo novo, <strong>simplesmente me diz <\/strong>quantos s\u00e3o e os tamanhos de uns quarenta de meu s\u00e9quito, <strong>coisas que qualquer crian\u00e7a da minha capital sabe<\/strong>. Tem alguma coisa mais <strong>irracional ou insolente <\/strong>do que isso? (Abbott 2002:49 [83-4])<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>15. Sobre um forasteiro de Espa\u00e7ol\u00e2ndia<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>\nEra o \u00faltimo dia do ano de 1999 de nossa era. [&#8230;] Eu estava absorto em pensamentos, refletindo sobre algumas palavras que haviam casualmente sa\u00eddo da boca de meu neto mais jovem, um hex\u00e1gono muito promissor, de brilhantismo incomum e angularidade perfeita. [&#8230;] Pegando nove quadrados, cada um com lado de um cent\u00edmetro, eu os havia colocado juntos para formar um quadrado grande com tr\u00eas cent\u00edmetros de lado, e ent\u00e3o tinha provado para meu netinho que &#8211; <strong>embora fosse imposs\u00edvel para n\u00f3s <em>vermos<\/em> <\/strong>dentro do quadrado &#8211; <strong>poder\u00edamos determinar <\/strong>seu n\u00famero de cent\u00edmetros quadrados simplesmente elevando ao quadrado o n\u00famero de cent\u00edmetros do lado.<br \/>\n&#8211; E assim &#8211; disse eu &#8211; sabemos que 3<sup>2<\/sup>, ou nove, representa a \u00e1rea de um quadrado cujo lado tem tr\u00eas cent\u00edmetros de comprimento. [&#8230;] O pequeno hex\u00e1gono meditou sobre isso por um tempo e depois me disse:<br \/>\n&#8211; Mas voc\u00ea tem me ensinado a elevar n\u00fameros \u00e0 pot\u00eancia de tr\u00eas. <strong>Suponho que 3<sup>3<\/sup> deva significar alguma coisa em Geometria. <\/strong>O que significa?<br \/>\n&#8211; Nada &#8211; disse eu -, pelo menos n\u00e3o na Geometria, porque ela trata apenas de duas dimens\u00f5es. [&#8230;] E ent\u00e3o passei a mostrar ao garoto como um <strong>ponto<\/strong>, movendo-se por uma dist\u00e2ncia de tr\u00eas cent\u00edmetros, forma uma linha de tr\u00eas cent\u00edmetros, que pode ser representada por tr\u00eas, e como uma <strong>linha <\/strong>de tr\u00eas cent\u00edmetros, movendo-se em paralelo a si mesma por tr\u00eas cent\u00edmetros, forma um quadrado de tr\u00eas cent\u00edmetros de lado, que pode ser representado por 3<sup>2<\/sup>. [&#8230;] Ap\u00f3s essas considera\u00e7\u00f5es, meu neto, voltando novamente \u00e0 sua sugest\u00e3o anterior, subitamente me interpelou, exclamando:<br \/>\n&#8211; Bem, ent\u00e3o, se um <strong>ponto<\/strong>, ao se mover por tr\u00eas cent\u00edmetros, forma uma linha de tr\u00eas cent\u00edmetros representada por tr\u00eas, e se uma <strong>linha <\/strong>reta de tr\u00eas cent\u00edmetros, ao se mover em paralelo a si mesma, forma um quadrado de tr\u00eas cent\u00edmetros de lado, representado por 3<sup>2<\/sup>, um <strong>quadrado <\/strong>de tr\u00eas cent\u00edmetros de lado, movendo-se em paralelo a si mesmo (<strong>embora eu n\u00e3o veja <\/strong>como), deve formar alguma outra coisa (embora eu n\u00e3o veja o qu\u00ea) de tr\u00eas cent\u00edmetros de lado: e isso deve ser representado por <strong>3<sup>3<\/sup><\/strong>.<br \/>\n&#8211; <strong>V\u00e1 para a cama <\/strong>&#8211; disse eu, um tanto <strong>irritado <\/strong>com a interrup\u00e7\u00e3o. &#8211; Se voc\u00ea falasse menos disparates, lembraria de mais coisas sensatas. (Abbott 2002:50-1 [86-7])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>\n[Eu disse: ]- O garoto \u00e9 um tolo. [&#8230;] Na Geometria, 3<sup>3<\/sup> n\u00e3o pode ter significado. [&#8230;] Imediatamente surgiu uma resposta claramente aud\u00edvel:<br \/>\n&#8211; <strong>O garoto n\u00e3o \u00e9 um tolo, e 3<sup>3<\/sup> tem um significado geom\u00e9trico \u00f3bvio<\/strong>. [&#8230;] Tanto minha esposa quanto eu ouvimos essas palavras, embora ela n\u00e3o soubesse o que queriam dizer, e n\u00f3s dois nos arremessamos para frente na dire\u00e7\u00e3o do som. (Abbott 2002:51 [87])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Dei uma olhada na ampulheta. Os \u00faltimos gr\u00e3os de areia tinham ca\u00eddo. O terceiro mil\u00eanio havia come\u00e7ado. (Abbott 2002:52 [88])<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>16. Como o forasteiro em v\u00e3o tentou me revelar em palavras os mist\u00e9rios de Espa\u00e7ol\u00e2ndia<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[A esfera disse: ]- Ora bolas! O que sabe o senhor do espa\u00e7o? Defina espa\u00e7o.<br \/>\n&#8211; Espa\u00e7o, meu senhor, \u00e9 altura e largura prolongadas indefinidamente.<br \/>\n&#8211; Exatamente. V\u00ea-se que nem sabe o que \u00e9 espa\u00e7o. O senhor acha que tem apenas duas dimens\u00f5es, mas eu vim apresentar ao senhor uma terceira: altura, largura e extens\u00e3o.<br \/>\n&#8211; Vossa senhoria se apraz em se divertir. Tamb\u00e9m falamos de extens\u00e3o e altura, ou largura e espessura, dessa forma denotando duas dimens\u00f5es por quatro nomes.<br \/>\n&#8211; Mas me refiro <strong>n\u00e3o apenas a tr\u00eas nomes, mas a tr\u00eas dimens\u00f5es<\/strong>.<br \/>\n&#8211; Vossa senhoria <strong>indicaria ou explicaria <\/strong>para mim em qual dire\u00e7\u00e3o fica a terceira dimens\u00e3o que eu ignoro?<br \/>\n&#8211; Eu vim dela. Fica para cima e para baixo.<br \/>\n&#8211; Vossa senhoria quer dizer aparentemente que fica para o norte e para o sul.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o quero dizer nada disso. Refiro-me <strong>\u00e0 dire\u00e7\u00e3o para a qual o senhor n\u00e3o pode olhar <\/strong>porque n\u00e3o possui olhos neste lado. (Abbott 2002:53-4 [90])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Quando n\u00f3s, de Planol\u00e2ndia, vemos uma linha, vemos extens\u00e3o e brilho. Se o brilho desaparece, a linha se extingue, e, como vossa senhoria diz, deixa de ocupar espa\u00e7o. Ser\u00e1 que devo entender que <strong>vossa senhoria d\u00e1 ao brilho o nome de uma dimens\u00e3o<\/strong>, e que o que chamamos de &#8220;brilhante&#8221; o senhor chama de &#8220;alto&#8221;?<br \/>\n&#8211; Na verdade, n\u00e3o. Por &#8220;altura&#8221; eu me refiro a uma dimens\u00e3o como a sua extens\u00e3o; s\u00f3 que, para voc\u00eas, a &#8220;altura&#8221; n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o facilmente percept\u00edvel por ser extremamente pequena.<br \/>\n&#8211; Meu senhor, sua afirma\u00e7\u00e3o pode ser facilmente testada. Vossa senhoria diz que eu tenho uma terceira dimens\u00e3o \u00e0 qual chama de &#8220;altura&#8221;. Ora, <strong>dimens\u00e3o implica dire\u00e7\u00e3o e medida<\/strong>. Ent\u00e3o, <strong>me\u00e7a <\/strong>minha &#8220;altura&#8221;, <strong>ou indique <\/strong>a dire\u00e7\u00e3o na qual minha &#8220;altura&#8221; se estende, e eu vou me convencer. Caso contr\u00e1rio, sua atitude h\u00e1 de me justificar.<br \/>\n&#8211; <strong>N\u00e3o posso <\/strong>fazer nenhuma das duas coisas. Como vou fazer para convenc\u00ealo? (Abbott 2002:55 [92-3])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>[A esfera disse: ]Eu n\u00e3o sou uma figura plana, mas, sim, um s\u00f3lido. [&#8230;] O senhor n\u00e3o se lembra [&#8230;] de como, ao entrar no reino de <strong>Linhal\u00e2ndia<\/strong>, o senhor foi <strong>for\u00e7ado a se manifestar <\/strong>para o rei n\u00e3o como um quadrado, mas <strong>como uma linha<\/strong>, porque aquele reino linear n\u00e3o tinha dimens\u00f5es suficientes para que sua totalidade fosse representada, e <strong>apenas uma fatia ou se\u00e7\u00e3o sua podia ser representada<\/strong>? Exatamente da mesma forma, <strong>seu pa\u00eds <\/strong>de duas dimens\u00f5es <strong>n\u00e3o \u00e9 espa\u00e7oso o suficiente para que eu<\/strong>, um ser de tr\u00eas dimens\u00f5es, <strong>seja representado, e s\u00f3 pode exibir uma fatia ou se\u00e7\u00e3o minha<\/strong>, que \u00e9 o que o senhor chama de c\u00edrculo. O brilho reduzido de seus olhos indica <strong>incredulidade<\/strong>. (Abbott 2002:55-6 [93])<\/p><\/blockquote>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/ABBOTT_08.png\" alt=\"\" \/><\/p>\n<blockquote><p><strong>[E]mbora eu visse os fatos <\/strong>na minha frente, <strong>as causas continuavam obscuras<\/strong>. Tudo o que eu conseguia entender era que o c\u00edrculo havia se tornado menor e desaparecera, e que ele tinha agora reaparecido e estava rapidamente se tornando maior. (Abbott 2002:56 [94])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>[A esfera perguntou: ]- Diga-me, senhor matem\u00e1tico, se um <strong>ponto <\/strong>se move na dire\u00e7\u00e3o norte e deixa um rastro luminoso, que nome o senhor daria para o rastro?<br \/>\n&#8211; Linha reta.<br \/>\n&#8211; E uma <strong>linha <\/strong>reta tem quantas extremidades?<br \/>\n&#8211; <strong>Duas<\/strong>.<br \/>\n&#8211; Agora, imagine a linha reta que vai para o norte movendo-se em paralelo a si mesma no sentido leste-oeste, de modo que cada ponto dela deixe atr\u00e1s de si como rastro uma linha reta. Que nome o senhor dar\u00e1 para a figura assim formada? Vamos supor que ela se mova por uma dist\u00e2ncia igual \u00e0 linha reta original. Qual seu nome?<br \/>\n&#8211; <strong>Quadrado<\/strong>.<br \/>\n&#8211; E quantos lados tem um quadrado? Quantos \u00e2ngulos?<br \/>\n&#8211; <strong>Quatro lados e quatro \u00e2ngulos<\/strong>.<br \/>\n&#8211; <strong>Agora, v\u00e1 um pouco al\u00e9m e imagine <\/strong>um quadrado em Planol\u00e2ndia movendo-se para cima paralelamente a si mesmo.<br \/>\n&#8211; Como? Na dire\u00e7\u00e3o norte?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o na dire\u00e7\u00e3o norte. Para cima, saindo totalmente de Planol\u00e2ndia. Se ele se movesse para o norte, os pontos no lado sul do quadrado teriam de se mover passando pelas posi\u00e7\u00f5es anteriormente ocupadas pelos pontos do lado norte. Mas n\u00e3o \u00e9 isto que eu estou dizendo. Estou dizendo que cada ponto do senhor (pois o senhor \u00e9 um quadrado e vai servir como ilustra\u00e7\u00e3o)[&#8230;], quer dizer, daquilo que o senhor chama de seu interior, deve <strong>se mover para cima no espa\u00e7o de tal modo que nenhum ponto passe pela posi\u00e7\u00e3o anteriormente ocupada por qualquer outro ponto, mas cada ponto vai por si mesmo descrever uma linha reta<\/strong>. (Abbott 2002:57 [95])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>[A esfera disse: ]Come\u00e7amos com um \u00fanico <strong>ponto<\/strong>, que, obviamente (sendo um ponto) s\u00f3 tem <em>um <\/em>ponto-limite. Um ponto produz uma <strong>linha <\/strong>com <em>dois <\/em>pontos-limites. Uma linha produz um <strong>quadrado <\/strong>com <em>quatro <\/em>pontos-limites. Agora o senhor mesmo pode dar a resposta \u00e0 sua pr\u00f3pria pergunta: um, dois, quatro, est\u00e3o evidentemente em <strong>progress\u00e3o geom\u00e9trica<\/strong>. Qual \u00e9 o pr\u00f3ximo n\u00famero?<br \/>\n&#8211; Oito.<br \/>\n&#8211; Exatamente. Um quadrado produz <strong>uma <em>coisa para a qual o senhor ainda n\u00e3o tem um nome<\/em><\/strong><em>, mas que chamaremos de <strong>cubo <\/strong><\/em>com <em>oito <\/em>pontos-limites. Agora est\u00e1 convencido?<br \/>\n&#8211; E esta criatura tem lados, al\u00e9m de \u00e2ngulos, ou o que o senhor chama de &#8220;pontos-limites&#8221;?<br \/>\n&#8211; Claro, e tudo de acordo com a analogia. [&#8230;]<br \/>\n&#8211; E quantos [&#8230;] lados v\u00e3o fazer parte deste ser que eu devo gerar pelo movimento de meu interior em uma dire\u00e7\u00e3o &#8220;para cima&#8221;, e ao qual o senhor chama de cubo?<br \/>\n&#8211; <strong>Mas que pergunta! E vinda de um matem\u00e1tico!<\/strong> O lado de qualquer coisa tem sempre, se me \u00e9 l\u00edcito diz\u00ea-lo, uma dimens\u00e3o a menos do que a coisa. Conseq\u00fcentemente, como n\u00e3o h\u00e1 dimens\u00e3o inferior \u00e0 de um ponto, um <strong>ponto<\/strong> tem 0 lados. Uma <strong>linha<\/strong>, se permite a express\u00e3o, tem dois lados (j\u00e1 que os pontos de uma linha podem ser chamados por defer\u00eancia especial de seus lados). Um <strong>quadrado <\/strong>tem quatro lados. Assim: 0, dois, quatro, qual o nome que o senhor d\u00e1 a essa progress\u00e3o?<br \/>\n&#8211; <strong>Aritm\u00e9tica<\/strong>.<br \/>\n-E qual \u00e9 o pr\u00f3ximo n\u00famero?<br \/>\n&#8211; Seis.<br \/>\n&#8211; Exatamente. Portanto, pode ver que <strong>o senhor respondeu \u00e0 sua pr\u00f3pria pergunta<\/strong>. O cubo que o senhor vai gerar vai ser limitado por seis lados, ou seja, seis de seus interiores. Agora entendeu tudo, n\u00e3o?<br \/>\n&#8211; <strong>Monstro <\/strong>&#8211; gritei -, seja o senhor prestidigitador, feiticeiro, sonho ou dem\u00f4nio, n\u00e3o vou mais tolerar sua zombaria. <strong>Um de n\u00f3s deve morrer<\/strong>. (Abbott 2002:57-8 [96-7])<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>17. Como a Esfera, tendo em v\u00e3o tentado com palavras, recorreu \u00e0s a\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[A esfera disse: ]Espera, j\u00e1 sei. <strong>As a\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o as palavras, revelar\u00e3o a verdade<\/strong>. (Abbott 2002:58 [98])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>[A esfera disse: ]O que o senhor chama de coisas s\u00f3lidas s\u00e3o na verdade superficiais. O que o senhor chama de espa\u00e7o n\u00e3o passa de um grande plano. Eu estou no espa\u00e7o, e olho de cima para os interiores das coisas das quais o senhor s\u00f3 v\u00ea o lado de fora. O senhor mesmo poderia sair deste plano, se o senhor conseguisse ter a vontade necess\u00e1ria para isso. Um leve movimento para cima ou para baixo permitiria que o senhor visse tudo o que eu posso ver. (Abbott 2002:59 [99])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>-Ah! \u00c9 assim? &#8211; bradou o forasteiro. &#8211; Ent\u00e3o, cumpra seu destino: <strong>para fora de seu plano<\/strong>. Um, dois, tr\u00eas! Est\u00e1 feito! (Abbott 2002:60 [100])<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>18. Como fui parar em Espa\u00e7ol\u00e2ndia, e o que vi por por l\u00e1<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Fui tomado por um <strong>terror indiz\u00edvel<\/strong>. Houve uma escurid\u00e3o, depois uma vertiginosa e <strong>nauseante sensa\u00e7\u00e3o de ver que n\u00e3o era como ver<\/strong>. Vi uma linha que n\u00e3o era uma linha, um espa\u00e7o que n\u00e3o era espa\u00e7o. <strong>Eu era eu mesmo e n\u00e3o o era<\/strong>. Quando consegui falar, gritei em <strong>agonia<\/strong>:<br \/>\n&#8211; Ou isto \u00e9 a <strong>loucura <\/strong>ou \u00e9 o <strong>Inferno<\/strong>.<br \/>\n&#8211; Nenhum dos dois &#8211; replicou calmamente a voz da esfera -, \u00e9 o <strong>conhecimento<\/strong>, s\u00e3o as tr\u00eas dimens\u00f5es. Abra os olhos mais uma vez e tente olhar com firmeza. [&#8230;] Olhei, e eis que l\u00e1 estava um novo mundo! <strong>L\u00e1 estava, na minha frente, manifestamente materializado, tudo o que antes eu havia inferido, conjeturado, sonhado, de perfeita beleza circular. <\/strong>[&#8230;] Olhei para baixo, e <strong>vi com meu olho material todas aquelas particularidades dom\u00e9sticas que eu havia at\u00e9 ent\u00e3o apenas inferido com o intelecto.<\/strong> E <strong>como era pobre e vaga a conjectura <\/strong>inferida em compara\u00e7\u00e3o com a realidade que agora eu via! (Abbott 2002:60-1 [101-3)<\/p><\/blockquote>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/ABBOTT_09.png\" alt=\"\" \/><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/ABBOTT_01c.png\" alt=\"\" \/><\/p>\n<blockquote><p>Estupefato com a vis\u00e3o dos mist\u00e9rios da terra assim desvelados perante meu indigno olho, disse para meu companheiro:<br \/>\n&#8211; Veja, tornei-me semelhante a um <strong>deus<\/strong>. Pois os s\u00e1bios de nosso pa\u00eds dizem que ver todas as coisas, ou a onivid\u00eancia, como eles dizem, \u00e9 atributo apenas de Deus. [&#8230;] Havia um certo desd\u00e9m na voz de meu professor quando ele respondeu:<br \/>\n&#8211; \u00c9 mesmo? Ent\u00e3o at\u00e9 os batedores de carteira e os assassinos de meu pa\u00eds devem ser adorados por seus s\u00e1bios como deuses, j\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 um \u00fanico deles que n\u00e3o veja tanto quanto o senhor est\u00e1 vendo agora. Mas acredite, <strong>seus s\u00e1bios est\u00e3o enganados<\/strong>. (Abbott 2002:62 [103-4])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>&#8211; N\u00e3o compete a mim classificar as faculdades humanas de acordo com seus m\u00e9ritos. No entanto, muitos dos melhores e mais s\u00e1bios de Espa\u00e7ol\u00e2ndia t\u00eam <strong>mais apre\u00e7o pelos sentimentos do que pela compreens\u00e3o, pelas suas desprezadas linhas retas do que por seus enaltecidos c\u00edrculos<\/strong>. (Abbott 2002:62 [104])<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>19. Como, embora a Esfera me mostrasse outros mist\u00e9rios de Espa\u00e7ol\u00e2ndia, eu ainda ansiava por mais, e em que isso resultou<\/strong><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/ABBOTT_10.png\" alt=\"\" \/><\/p>\n<blockquote><p>&#8211; Perdoe-me, meu senhor &#8211; retruquei -, mas para a minha vista a apar\u00eancia \u00e9 a de uma figura irregular cujo interior est\u00e1 exposto. Em outras palavras, parece-me que n\u00e3o vejo um s\u00f3lido, mas um plano como o que inferimos em Planol\u00e2ndia, s\u00f3 que com uma irregularidade pr\u00f3pria de um terr\u00edvel criminoso, cuja mera vis\u00e3o \u00e9 dolorosa a meus olhos. [&#8230;] &#8211; Exatamente &#8211; disse a esfera -, parece-lhe um plano porque o senhor n\u00e3o est\u00e1 acostumado com <strong>luz, sombra e perspectiva, <\/strong>da mesma forma como, em Planol\u00e2ndia, um hex\u00e1gono pareceria ser uma linha reta para quem n\u00e3o conhecesse a <strong>arte do reconhecimento pela vis\u00e3o<\/strong>. Mas na realidade \u00e9 um s\u00f3lido, como o senhor vai descobrir por meio do <strong>tato<\/strong>. (Abbott 2002:65 [108])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Repetir a explica\u00e7\u00e3o da esfera para estas quest\u00f5es, por mais sucinta e clara que tenha sido, <strong>seria enfadonho <\/strong>para um habitante do espa\u00e7o, por ser ele conhecedor delas. Basta dizer que, por meio de suas afirma\u00e7\u00f5es l\u00facidas, pela modifica\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o dos objetos e das luzes, e permitindo que eu tocasse em v\u00e1rios objetos e at\u00e9 em sua pr\u00f3pria santa pessoa, ele finalmente esclareceu tudo para mim, de tal forma que <strong>agora eu podia distinguir <\/strong>entre um c\u00edrculo e uma esfera, uma figura plana e um s\u00f3lido. (Abbott 2002:65 [108])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Este foi o <strong>cl\u00edmax<\/strong>, o para\u00edso de minha estranha e atribulada hist\u00f3ria. Daqui por diante tenho de relatar a hist\u00f3ria de minha lament\u00e1vel queda (Abbott 2002:65 [108-9])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>&#8211; Senhor, sua pr\u00f3pria sabedoria me ensinou a aspirar a algu\u00e9m ainda maior, mais bonito, e mais pr\u00f3ximo da perfei\u00e7\u00e3o. Como o senhor, superior a todas as formas de Planol\u00e2ndia, \u00e9 uma combina\u00e7\u00e3o de muitos c\u00edrculos em um, <strong>sem d\u00favida existe <\/strong>algu\u00e9m acima, que \u00e9 uma combina\u00e7\u00e3o de muitas esferas em um ente supremo que supera at\u00e9 os s\u00f3lidos de Espa\u00e7ol\u00e2ndia. E exatamente como n\u00f3s, que agora estamos no espa\u00e7o, olhamos para baixo, para Planol\u00e2ndia, e vemos os interiores de todas as coisas, <strong>certamente existe <\/strong>mais acima de n\u00f3s uma regi\u00e3o mais elevada, mais pura, para onde v\u00f3s sem d\u00favida tendes o prop\u00f3sito de me levar [&#8230;][,] um espa\u00e7o mais espa\u00e7oso, uma dimensionalidade mais dimension\u00e1vel, uma posi\u00e7\u00e3o vantajosa de onde olharemos juntos para baixo, para os interiores revelados das coisas s\u00f3lidas, e onde seus intestinos, e os de suas esferas aparentadas, estar\u00e3o expostos \u00e0 vista do pobre exilado desgarrado de Planol\u00e2ndia, a quem tanto j\u00e1 foi concedido.<br \/>\n&#8211; Ora essa! <strong>Tolices! <\/strong>Chega dessas bobagens! O tempo \u00e9 curto, e ainda h\u00e1 muito a ser feito antes que o senhor esteja pronto para <strong>pregar o Evangelho das Tr\u00eas Dimens\u00f5es a seus compatriotas ignorantes <\/strong>de Planol\u00e2ndia. (Abbott 2002:66 [109-10])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>N\u00e3o fui eu ensinado l\u00e1 embaixo que quando eu via uma linha e inferia um plano, na realidade eu via uma terceira dimens\u00e3o n\u00e3o percebida, n\u00e3o a mesma do brilho, chamada de &#8220;altura&#8221;? E n\u00e3o se segue que, nesta regi\u00e3o, quando eu vejo um plano e infiro um s\u00f3lido, na verdade eu vejo <strong>uma quarta dimens\u00e3o n\u00e3o percebida<\/strong>, n\u00e3o a mesma da cor, mas existente, embora <strong>infinitesimal e incapaz de ser medida<\/strong>? E, al\u00e9m disso, h\u00e1 a prova da analogia entre figuras. [&#8230;] Indubitavelmente n\u00e3o podemos <em>ver <\/em>aquela outra Espa\u00e7ol\u00e2ndia mais elevada agora porque n\u00e3o temos olhos em nossos est\u00f4magos. Mas, <strong>da mesma forma <\/strong>como <em>existia <\/em>o reino de Planol\u00e2ndia, embora aquele pobre e insignificante monarca de Linhal\u00e2ndia n\u00e3o pudesse virar nem para a direita nem para a esquerda para v\u00ea-lo; e <strong>da mesma forma <\/strong>como <em>existia<\/em>, bem \u00e0 m\u00e3o, tocando em minha estrutura, a Terra das Tr\u00eas Dimens\u00f5es, embora eu, cego tolo miser\u00e1vel, n\u00e3o tivesse o poder de toc\u00e1-la, nem um olho em meu interior para perceb\u00ea-la; <strong>certamente existe <\/strong>uma quarta dimens\u00e3o, que meu senhor percebe com o <strong>olho interior do pensamento<\/strong>. E isso, o senhor mesmo me ensinou. [&#8230;]  Em uma dimens\u00e3o, um <strong>ponto <\/strong>em movimento n\u00e3o produzia uma linha com <em>dois <\/em>pontos-limites? Em duas dimens\u00f5es, uma <strong>linha <\/strong>em movimento n\u00e3o produzia um quadrado com <em>quatro <\/em>pontos-limites? Em tr\u00eas dimens\u00f5es, um <strong>quadrado <\/strong>em movimento n\u00e3o produzia [&#8230;] aquele bendito ser, o cubo, com <em>oito <\/em>pontos-limites? E em quatro dimens\u00f5es, n\u00e3o vai um <strong>cubo <\/strong>em movimento (<strong>ai da analogia, e ai do progresso da verdade <\/strong>se assim n\u00e3o for) digo, n\u00e3o vai o movimento de um divino cubo resultar em uma organiza\u00e7\u00e3o ainda mais divina com <em>dezesseis <\/em>pontos-limites? Veja a <strong>confirma\u00e7\u00e3o infal\u00edvel da s\u00e9rie<\/strong>: dois, quatro, oito, dezesseis. N\u00e3o \u00e9 uma <strong>progress\u00e3o geom\u00e9trica<\/strong>? Isto n\u00e3o est\u00e1 (se me \u00e9 permitido citar as palavras de meu senhor) &#8220;estritamente de acordo com a analogia&#8221;? Al\u00e9m disso, n\u00e3o me foi ensinado por meu senhor que, da mesma forma como em uma <strong>linha <\/strong>h\u00e1 <em>dois <\/em>pontos divis\u00f3rios, e em um <strong>quadrado <\/strong>h\u00e1 <em>quatro <\/em>linhas divis\u00f3rias, em um <strong>cubo <\/strong>deve haver <em>seis <\/em>quadrados divis\u00f3rios? Veja mais uma vez a <strong>s\u00e9rie confirmativa<\/strong> dois, quatro, seis. N\u00e3o \u00e9 uma <strong>progress\u00e3o aritm\u00e9tica<\/strong>? E como conseq\u00fc\u00eancia n\u00e3o se segue necessariamente que o produto mais divino do <strong>divino cubo na Terra das Quatro Dimens\u00f5es <\/strong>deva ter oito cubos divis\u00f3rios, e n\u00e3o est\u00e1 isto, como meu senhor me ensinou a acreditar, &#8220;estritamente de acordo com a analogia&#8221;? (Abbott 2002:67-8 [111-2])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>[S]e de fato \u00e9 isso, que este outro espa\u00e7o \u00e9 realmente <strong>Pensamentol\u00e2ndia<\/strong>, ent\u00e3o me leve para essa bendita regi\u00e3o onde em pensamento verei os interiores de todas as coisas s\u00f3lidas. L\u00e1, ante meu olho encantado, um cubo, movendo-se em <strong>alguma dire\u00e7\u00e3o totalmente nova, mas estritamente de acordo com a analogia<\/strong>, de tal forma que fa\u00e7a <strong>cada part\u00edcula de seu interior atravessar um novo tipo de espa\u00e7o com um rastro todo seu<\/strong>, ir\u00e1 criar uma perfei\u00e7\u00e3o ainda mais perfeita que si mesmo, com <strong>dezesseis <\/strong>\u00e2ngulos s\u00f3lidos extras como limites, e <strong>oito <\/strong>cubos s\u00f3lidos de per\u00edmetro. E uma vez l\u00e1, ser\u00e1 que <strong>interromperemos nosso caminho para cima?<\/strong> Naquela bendita regi\u00e3o de quatro dimens\u00f5es, ser\u00e1 que <strong>hesitaremos no limiar da quinta <\/strong>dimens\u00e3o e n\u00e3o entraremos l\u00e1? Ah, n\u00e3o! Vamos, ao contr\u00e1rio, decidir que <strong>nossa ambi\u00e7\u00e3o vai se elevar junto com nossa subida corporal<\/strong>. E ent\u00e3o, rendendo-se a nossa investida intelectual, os port\u00f5es da sexta dimens\u00e3o se abrir\u00e3o, e depois os da s\u00e9tima e depois os da oitava&#8230; (Abbott 2002:66-7 [113])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Para baixo! Eu estava descendo rapidamente, e eu sabia que a volta para Planol\u00e2ndia seria minha perdi\u00e7\u00e3o. Dei uma olhadela, a \u00faltima e que nunca seria esquecida, naquela vastid\u00e3o ins\u00edpida e plana &#8211; que agora viria a se tornar novamente meu universo &#8211; estendida \u00e0 minha frente. Ent\u00e3o, a escurid\u00e3o. Depois, um trov\u00e3o final, e, quando <strong>voltei a mim<\/strong>, eu era mais uma vez um rastejante quadrado comum em meu gabinete, em casa, ouvindo o brado de paz da minha mulher que se aproximava. (Abbott 2002:67 [113-4])<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>20. Como a Esfera me encorajou em uma vis\u00e3o<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Quando finalmente fiquei sozinho, um entorpecimento se abateu sobre mim, mas, antes que meus olhos se fechassem, <strong>tentei reproduzir a terceira dimens\u00e3o<\/strong>, e especialmente o processo por meio do qual um cubo \u00e9 constru\u00eddo a partir do movimento de um quadrado. <strong>N\u00e3o estava t\u00e3o claro <\/strong>quanto seria de se desejar, mas lembrei que tinha de ser <strong>&#8220;para cima, e n\u00e3o para o norte&#8221;<\/strong>, e decidi resolutamente reter na mem\u00f3ria <strong>essa express\u00e3o <\/strong>por ser a pista que, se firmemente entendida, <strong>me levaria \u00e0 solu\u00e7\u00e3o<\/strong>. Ent\u00e3o, repetindo mecanicamente, como se fosse uma <strong>f\u00f3rmula m\u00e1gica<\/strong>, a express\u00e3o &#8220;para cima, e n\u00e3o para o norte&#8221;, ca\u00ed em um profundo sono reparador. (Abbott 2002:69-70 [115-6])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Durante o sono, tive um sonho. Achei que estava mais uma vez ao lado da esfera, cuja cor brilhante indicava que havia substitu\u00eddo a raiva por uma perfeita toler\u00e2ncia. Est\u00e1vamos nos movendo juntos em dire\u00e7\u00e3o a um ponto brilhante, mas infinitesimalmente pequeno, para o qual meu mestre dirigiu minha aten\u00e7\u00e3o. [&#8230;] &#8211; Olhai l\u00e1 &#8211; disse meu guia -, em Planol\u00e2ndia viv\u00edeis, de Linhal\u00e2ndia tivestes uma vis\u00e3o, voastes comigo \u00e0s alturas de Espa\u00e7ol\u00e2ndia. Agora, a fim de completar vossa experi\u00eancia, eu vou conduzir-vos para baixo, para o n\u00edvel mais baixo da exist\u00eancia, para o reino de <strong>Pontol\u00e2ndia<\/strong>, o abismo sem dimens\u00f5es. Olhe l\u00e1 aquela criatura desprez\u00edvel. Aquele ponto \u00e9 um ser como n\u00f3s, mas confinado ao abismo n\u00e3o dimensional. Seu mundo, seu universo, \u00e9 ele mesmo. N\u00e3o pode conceber qualquer outro que n\u00e3o ele mesmo. N\u00e3o conhece extens\u00e3o, largura, altura, porque n\u00e3o tem experi\u00eancia delas. N\u00e3o tem conhecimento nem do n\u00famero dois, nem tem id\u00e9ia da pluralidade. Porque ele \u00e9 o tudo, j\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 realmente nada. No entanto, observe sua perfeita satisfa\u00e7\u00e3o consigo mesmo, e da\u00ed aprenda esta li\u00e7\u00e3o: a de que <strong>estar satisfeito consigo mesmo \u00e9 ser desprez\u00edvel e ignorante<\/strong>, e que ter aspira\u00e7\u00f5es \u00e9 melhor do que ser cega e impotentemente feliz. (Abbott 2002:70 [116])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>&#8220;Ele preenche todo o espa\u00e7o&#8221;, continuou a pequena criatura que <strong>monologava<\/strong>, &#8220;e aquilo que ele preenche, ele \u00e9. Aquilo que elo pensa, \u00e9 o que fala, e o que fala, \u00e9 o que ouve. E ele mesmo \u00e9 o que pensa, fala, ouve; o pensamento, a palavra, a audi\u00e7\u00e3o. E o Um, e o Tudo. Ah, a felicidade, Ah, a felicidade de ser!\u201d (Abbott 2002:70 [117])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>[A esfera disse: ]At\u00e9 onde o monarca compreende o que o senhor disse, ele interpreta como se fosse ele mesmo que o tivesse dito, j\u00e1 que ele <strong>n\u00e3o consegue conceber qualquer outro que n\u00e3o ele mesmo<\/strong>, e se vangloria da variedade de &#8220;seu pensamento&#8221; como um exemplo de poder criativo. Vamos deixar este deus de Pontol\u00e2ndia fruindo ignorantemente sua onipresen\u00e7a e onisci\u00eancia. Nada do que o senhor ou eu fa\u00e7amos pode resgat\u00e1-lo de sua satisfa\u00e7\u00e3o consigo mesmo. (Abbott 2002:71 [117-8])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Ele ficara aborrecido a princ\u00edpio &#8211; confessou &#8211; com minha ambi\u00e7\u00e3o de voar at\u00e9 dimens\u00f5es maiores do que a terceira, mas, desde ent\u00e3o, ele tinha tido <strong>novos insights <\/strong>e n\u00e3o era com orgulho que admitia para um pupilo seu erro. Depois, passou a me iniciar nos mist\u00e9rios ainda mais elevados do que os que eu havia testemunhado, mostrando-me como construir s\u00f3lidos extras por meio do movimento dos s\u00f3lidos, e s\u00f3lidos extras duplos por meio do movimento dos s\u00f3lidos extras, e tudo &#8220;estritamente de acordo com a analogia&#8221;, tudo por meio de <strong>m\u00e9todos t\u00e3o simples, t\u00e3o f\u00e1ceis, que eram evidentes at\u00e9 para o sexo feminino<\/strong>. (Abbott 2002:71 [118])<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>21. Como tentei ensinar a Teoria das Tr\u00eas Dimens\u00f5es ao meu neto, e com que resultado<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Iria partir imediatamente e <strong>evangelizar toda a Planol\u00e2ndia<\/strong>. At\u00e9 para as mulheres e os soldados, o Evangelho das Tr\u00eas Dimens\u00f5es deveria ser proclamado. (Abbott 2002:72 [119])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><strong>&#8220;Para cima, e n\u00e3o para o norte&#8221; <\/strong>&#8211; era a chave para a prova. Parecia-me muito claro antes de cair no sono, e quando acordei, rec\u00e9m sa\u00eddo do meu sonho, parecera t\u00e3o evidente quanto a Aritm\u00e9tica, mas, de alguma forma, <strong>agora n\u00e3o me parecia t\u00e3o \u00f3bvio<\/strong>. (Abbott 2002:72 [119])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Por que n\u00e3o, portanto, fazer meu primeiro experimento com meu precoce neto, cujas observa\u00e7\u00f5es casuais sobre o significado de 3<sup>3<\/sup> tinham sido aprovadas pela esfera? Discutindo a quest\u00e3o com ele, um mero garoto, eu estaria perfeitamente a salvo, pois ele n\u00e3o saberia da <strong>Proclama\u00e7\u00e3o do Conselho<\/strong>, ao passo que eu n\u00e3o poderia ter certeza de que meus filhos &#8211; j\u00e1 que o patriotismo e a rever\u00eancia deles pelos c\u00edrculos predominavam sobre a mera afei\u00e7\u00e3o &#8211; n\u00e3o fossem se sentir compelidos a me entregar para o governador, se achassem que eu estava defendendo a s\u00e9rio a sediciosa heresia da terceira dimens\u00e3o. (Abbott 2002:72 [120])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Quando meu neto entrou na sala, cuidadosamente <strong>fechei a porta<\/strong>. Depois, sentando a seu lado e pegando tabuinhas matem\u00e1ticas &#8211; ou, como diriam voc\u00eas, linhas -, disse a ele que ir\u00edamos retomar a aula da v\u00e9spera. Ensinei a ele novamente como um <strong>ponto<\/strong>, ao se mover em uma dimens\u00e3o, produz uma linha, e como uma <strong>linha <\/strong>reta, em duas dimens\u00f5es, produz um quadrado. Depois disso, <strong>for\u00e7ando uma risada<\/strong>, disse:<br \/>\n&#8211; E agora, seu pestinha, voc\u00ea queria que eu acreditasse que um quadrado pode, pelo mesmo movimento <strong>&#8220;para cima, e n\u00e3o para o norte&#8221;<\/strong>, produzir outra figura, uma esp\u00e9cie de quadrado extra em tr\u00eas dimens\u00f5es. N\u00e3o \u00e9, <strong>seu pestinha? <\/strong>[&#8230;] Neste instante ouvimos mais uma vez o<strong> &#8220;\u00d3, sim! \u00d3, sim!&#8221; <\/strong>do arauto na rua, proclamando a Resolu\u00e7\u00e3o do Conselho. Embora jovem, meu neto &#8211; que era extraordinariamente inteligente para sua idade, e havia sido criado para respeitar a autoridade dos c\u00edrculos &#8211; compreendeu a situa\u00e7\u00e3o com uma sagacidade para a qual eu n\u00e3o estava preparado. Ficou em sil\u00eancio at\u00e9 as \u00faltimas palavras da Proclama\u00e7\u00e3o terem sido ditas, e depois, caindo no choro:<br \/>\n&#8211; Querido av\u00f4 &#8211; disse ele &#8211; <strong>era s\u00f3 brincadeira<\/strong>, e \u00e9 claro que eu n\u00e3o queria dizer nada com aquilo, e n\u00e3o sab\u00edamos nada sobre a nova lei, e n\u00e3o acho que eu tenha dito nada sobre a terceira dimens\u00e3o, e tenho certeza de que eu n\u00e3o disse nada sobre &#8220;para cima, e n\u00e3o para o norte&#8221;, porque isso seria muito absurdo. Como uma coisa pode se mover para cima e n\u00e3o para o norte? Para cima e n\u00e3o para o norte! Mesmo se eu fosse um beb\u00ea, eu n\u00e3o falaria uma bobagem dessas. Que tolice! H\u00e1! H\u00e3!<br \/>\n&#8211; N\u00e3o \u00e9 tolice nenhuma &#8211; disse eu, <strong>perdendo a paci\u00eancia <\/strong>-, aqui, por exemplo, eu pego este quadrado &#8211; e, ao dizer quadrado, peguei um quadrado m\u00f3vel, que estava \u00e0 m\u00e3o &#8211; e o movo, est\u00e1 vendo?, N\u00e3o para o norte, mas&#8230; Sim, para cima&#8230; Quer dizer, n\u00e3o para o norte, mas para algum lugar&#8230; N\u00e3o exatamente assim, mas&#8230; [&#8230;] <strong>Aqui levei minha frase a uma conclus\u00e3o v\u00e3, sacudi o quadrado sem prop\u00f3sito, para o divertimento de meu neto, que caiu na gargalhada mais alto do que nunca, e disse que eu n\u00e3o o estava ensinando, mas, sim, brincando com ele, e, ao dizer isso, destrancou a porta e saiu correndo da sala. <\/strong>Assim terminou minha primeira tentativa de converter um pupilo ao Evangelho das Tr\u00eas Dimens\u00f5es. (Abbott 2002:72-3 [120-1])<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>22. Como ent\u00e3o tentei difundir a Teoria das Tr\u00eas Dimens\u00f5es por outros meios, e com que resultado.<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Portanto, passei v\u00e1rios meses em segredo na composi\u00e7\u00e3o de um <strong>tratado <\/strong>sobre os mist\u00e9rios das tr\u00eas dimens\u00f5es. [&#8230;] Mas, ao escrever este livro, descobri-me infelizmente tolhido pela <strong>impossibilidade de desenhar os diagramas <\/strong>necess\u00e1rios para o meu objetivo, pois, obviamente, em nosso pa\u00eds n\u00e3o h\u00e1 tabuinhas, mas linhas, nem diagramas, mas linhas, todas em uma linha reta e s\u00f3 distingu\u00edveis por meio da diferen\u00e7a de tamanho e brilho, de modo que, quando terminei meu tratado (a que intitulei de &#8220;<strong>De Planol\u00e2ndia a Pensamentol\u00e2ndia<\/strong>&#8220;), n\u00e3o tinha certeza de que seria compreendido. (Abbott 2002:74 [122])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Todos os prazeres se tornaram ins\u00edpidos, todas as paisagens me atormentavam e me tentavam a cometer trai\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que <strong>eu n\u00e3o podia deixar de comparar o que via em duas dimens\u00f5es com o que realmente era quando visto em tr\u00eas<\/strong>, e mal conseguia evitar fazer minhas compara\u00e7\u00f5es em voz alta. Deixei de lado meus clientes e meus neg\u00f3cios para me dedicar \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o dos mist\u00e9rios que eu havia conhecido, e que, no entanto, <strong>n\u00e3o podia transmitir a ningu\u00e9m<\/strong>, e que achava a <strong>cada dia mais dif\u00edcil de reproduzir mesmo em minha pr\u00f3pria mente<\/strong>. (Abbott 2002:74 [122-3])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Finalmente, para completar uma s\u00e9rie de indiscri\u00e7\u00f5es menores, em uma reuni\u00e3o da Sociedade Especulativa local, que aconteceu no pal\u00e1cio do pr\u00f3prio governador &#8211; em que algumas pessoas extremamente tolas haviam lido um artigo rebuscado que dava as raz\u00f5es precisas de a provid\u00eancia ter limitado o n\u00famero de dimens\u00f5es a dois, e da onivid\u00eancia ser um atributo apenas do Supremo -, eu me esqueci de mim mesmo de tal modo que dei um relato detalhado de minha viagem com a esfera at\u00e9 o espa\u00e7o e at\u00e9 a Assembl\u00e9ia Legislativa de nossa metr\u00f3pole, da volta para o espa\u00e7o novamente, de meu retorno para casa, e de tudo o que tinha visto e ouvido de fato e em vis\u00e3o. A princ\u00edpio, fingi estar descrevendo experi\u00eancias imagin\u00e1rias de uma pessoa fict\u00edcia, mas meu entusiasmo logo me for\u00e7ou a dispensar o disfarce e, finalmente, em um discurso inflamado, exortei todos os meus ouvintes a se despirem dos preconceitos e se tornarem adeptos da Terceira Dimens\u00e3o. [&#8230;] Preciso dizer que fui imediatamente detido e levado perante o Conselho? (Abbott 2002:75 [123-4])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Depois que conclu\u00ed minha defesa, o presidente, talvez percebendo que alguns dos c\u00edrculos juniores tinham ficado comovidos com minha evidente veem\u00eancia, fez duas coloca\u00e7\u00f5es: [&#8230;] <em>1. Se eu poderia <strong>indicar a dire\u00e7\u00e3o <\/strong>a que me referia quando usava a express\u00e3o &#8220;para cima, e n\u00e3o para o norte&#8221;.<\/em> [&#8230;] <em>2. Se eu poderia, por meio de diagramas ou descri\u00e7\u00f5es (que n\u00e3o a enumera\u00e7\u00e3o de lados e \u00e2ngulos imagin\u00e1rios), <strong>indicar a figura <\/strong>que eu chamava de cubo. <\/em>[&#8230;] Declarei que n\u00e3o poderia falar mais nada, e que eu teria de me ater \u00e0 verdade, cuja causa certamente prevaleceria no final. (Abbott 2002:75 [124])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Da\u00ed que estou totalmente desprovido de disc\u00edpulos, e, por tudo que eu posso ver, a revela\u00e7\u00e3o do mil\u00eanio me foi feita para nada. (Abbott 2002:76 [125])<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>\u00c0s vezes pesa-me a inc\u00f4moda reflex\u00e3o de que n\u00e3o posso honestamente dizer que estou seguro do formato exato do cubo visto uma vez &#8211; e tantas vezes lamentado -, e em minhas vis\u00f5es noturnas, o misterioso preceito &#8220;para cima, e n\u00e3o para o norte&#8221; me assombra como uma esfinge devoradora de almas. Faz parte do mart\u00edrio que sofro pela causa da verdade, que haja per\u00edodos de fraqueza mental, quando cubos e esferas passam rapidamente para o pano de fundo de exist\u00eancias quase imposs\u00edveis, quando a Terra das Tr\u00eas Dimens\u00f5es parece quase t\u00e3o vision\u00e1ria quanto a Terra de Uma ou de Nenhuma. Sim, quando at\u00e9 esta parede dura que me separa de minha liberdade, as mesmas tabuinhas sobre as quais escrevo, e todas as <strong>realidades substanciais <\/strong>da pr\u00f3pria Planol\u00e2ndia n\u00e3o me parecem melhores do que os produtos de uma <strong>imagina\u00e7\u00e3o doentia, ou a trama infundada de um sonho<\/strong>. (Abbott 2002:76 [125-6])<\/p><\/blockquote>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/ABBOTT_11.png\" alt=\"\" \/><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/ABBOTT_11b.png\" alt=\"\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ABBOTT, Edwin A. 2002. Planol\u00e2ndia: um romance de muitas dimens\u00f5es. (trad. Leila de S. Mendes) S\u00e3o Paulo: Conrad. [1884] Obs: a pagina\u00e7\u00e3o indicada se refere a um arquivo pdf [entre colchetes a pagina\u00e7\u00e3o da edi\u00e7\u00e3o impressa]. TEXTO INICIAL: \u00d3, dia e noite, como isto \u00e9 maravilhosamente estranho. [&#8230;] Que vergonha, como eu enquadro desvairadamente meu discurso! (Abbott 2002:4 [11]) Aos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":368,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[77],"class_list":["post-367","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-fichamento","tag-abbott"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/planolandia_capa.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/367","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=367"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/367\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1311,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/367\/revisions\/1311"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/368"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=367"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=367"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=367"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}