{"id":3642,"date":"2026-09-18T17:37:26","date_gmt":"2026-09-18T17:37:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=3642"},"modified":"2026-09-18T17:37:26","modified_gmt":"2026-09-18T17:37:26","slug":"vocabulaspa-episodio-9-ciborgue-por-rodrigo-fessel-sega","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2026\/09\/18\/vocabulaspa-episodio-9-ciborgue-por-rodrigo-fessel-sega\/","title":{"rendered":"VocabuLaSPA \u2013 Epis\u00f3dio [9]: Ciborgue \u2013 por Rodrigo Fessel Sega"},"content":{"rendered":"<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td style=\"text-align: center; vertical-align: middle;\" width=\"200\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/00-VocabuLaSPA-CAPA-scaled.png\" \/><\/td>\n<td style=\"text-align: left; vertical-align: middle;\"><strong>Epis\u00f3dio [9]: Ciborgue \u2013 por Rodrigo Fessel Sega<\/strong> (18\/09\/2026).<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><div class=\"powerpress_player\" id=\"powerpress_player_6408\"><audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-3642-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/audio-rodrigo-ciborgue-finalizado-2.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/audio-rodrigo-ciborgue-finalizado-2.mp3\">https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/audio-rodrigo-ciborgue-finalizado-2.mp3<\/a><\/audio><\/div><p class=\"powerpress_links powerpress_links_mp3\" style=\"margin-bottom: 1px !important;\">Podcast (vocabulaspa): <a href=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/audio-rodrigo-ciborgue-finalizado-2.mp3\" class=\"powerpress_link_pinw\" target=\"_blank\" title=\"Play in new window\" onclick=\"return powerpress_pinw('https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/?powerpress_pinw=3642-vocabulaspa');\" rel=\"nofollow\">Play in new window<\/a> | <a href=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/audio-rodrigo-ciborgue-finalizado-2.mp3\" class=\"powerpress_link_d\" title=\"Download\" rel=\"nofollow\" download=\"audio-rodrigo-ciborgue-finalizado-2.mp3\">Download<\/a><\/p><br \/>\nQuando voc\u00ea ouve a palavra ciborgue, qual \u00e9 a primeira imagem que vem \u00e0 sua cabe\u00e7a? Um rob\u00f4 de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica dos anos 1980? Uma pessoa que tem uma pr\u00f3tese? Uma mulher dentro de um carro em movimento? Ou uma forma de interpretar o nosso mundo?<\/p>\n<p>Neste epis\u00f3dio, Rodrigo Fessel Sega, soci\u00f3logo e coordenador deste podcast, explica o termo ciborgue a partir da perspectiva da fil\u00f3sofa, historiadora da ci\u00eancia, bi\u00f3loga de forma\u00e7\u00e3o e te\u00f3rica feminista estadunidense Donna Haraway.<\/p>\n<p>Rodrigo \u00e9 graduado em Ci\u00eancias Sociais pela Unesp, tem mestrado em Sociologia pela UFSCar e doutorado em Sociologia pela Unicamp. Tem tamb\u00e9m especializa\u00e7\u00e3o em Educa\u00e7\u00e3o Inclusiva pelo Instituto Federal do Sul de Minas. No mestrado, foi bolsista da Fapesp e Pesquisador Convidado da York University, em Toronto, no Canad\u00e1. No doutorado, tamb\u00e9m foi bolsista da Fapesp, realizou est\u00e1gio de doutorado-sandu\u00edche na Universidade de Toronto, em Toronto, no Canad\u00e1, e foi um dos ganhadores do Pr\u00eamio ELAP, oferecido pelo Escrit\u00f3rio de Educa\u00e7\u00e3o do Governo do Canad\u00e1. Atualmente, \u00e9 bolsista de p\u00f3s-doutorado em Jornalismo Cient\u00edfico pela Fapesp, e uma das propostas do projeto foi justamente a cria\u00e7\u00e3o deste podcast. Suas \u00e1reas de pesquisa s\u00e3o internet e m\u00eddias sociais, media\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas, migra\u00e7\u00e3o internacional, rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero e sexualidade, jornalismo cient\u00edfico, educa\u00e7\u00e3o popular e educa\u00e7\u00e3o inclusiva.<\/p>\n<p>Este podcast integra o Projeto de Jornalismo Cient\u00edfico &#8220;Projeto de Divulga\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica do Laborat\u00f3rio de Sociologia dos Processos de Associa\u00e7\u00e3o (LaSPA)&#8221; financiado pela Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo (FAPESP), processo n\u00b0 2025\/13701-4, e conta com apoio do Departamento de Sociologia (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).<\/p>\n<p><strong>Concep\u00e7\u00e3o, Produ\u00e7\u00e3o, Edi\u00e7\u00e3o e Arte:<\/strong> Rodrigo Fessel Sega<br \/>\n<strong>Trilha Sonora:<\/strong> Arthur Prando do Prado<br \/>\n<strong>\u00c1udios:<\/strong><br \/>\nLOVEMOVIEQUOTES. Terminator 2 &#8211; Hasta la vista, baby. YouTube, 20 jun. 2021. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=D9HSPW6lMHM\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=D9HSPW6lMHM<\/a><br \/>\nBLABLABLARATATA. Terminator &#8211; I&#8217;ll be back.avi. YouTube, 25 jan. 2011. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=I-9dthiJw-Q\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=I-9dthiJw-Q<\/a><\/p>\n<p>Voc\u00ea tamb\u00e9m pode acessar as produ\u00e7\u00f5es do LaSPA acessando nossos canais:<br \/>\nsite <a href=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/\">https:\/\/www.laspa.slg.br\/<\/a><br \/>\ne-mail <a href=\"mailto:laspa@unicamp.br\">laspa@unicamp.br<\/a><br \/>\nInstagram <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/laspa.unicamp\/\">https:\/\/www.instagram.com\/laspa.unicamp\/<\/a><br \/>\nReddit <a href=\"https:\/\/www.reddit.com\/user\/laspa_unicamp\/\">https:\/\/www.reddit.com\/user\/laspa_unicamp\/<\/a><br \/>\nTikTok <a href=\"https:\/\/www.tiktok.com\/@laspa.unicamp\">https:\/\/www.tiktok.com\/@laspa.unicamp<\/a><br \/>\nYouTube <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/@LaSPA.Unicamp\">https:\/\/www.youtube.com\/@LaSPA.Unicamp<\/a><\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias Citadas:<\/strong><br \/>\nAYMOR\u00c9, D\u00e9bora de S\u00e1 Ribeiro. Ciborgues e Organorgs: uma an\u00e1lise imperfeita do Manifesto Ciborgue, de Donna Haraway. Cadernos PET-Filosofia, v. 26, n. 3, p. 68-82, 2025. DOI: 10.5380\/petfilo.v25i1.102147.<\/p>\n<p>CAMERON, James (dir.). O exterminador do futuro. Estados Unidos: Orion Pictures, 1984. 1 filme (107 min), son., color.<\/p>\n<p>CAMERON, James (dir.). O exterminador do futuro 2: o julgamento final. Estados Unidos: TriStar Pictures, 1991. 1 filme (137 min), son., color.<\/p>\n<p>CASTRO, B\u00e1rbara. Revisitando o ciborgue: desafios te\u00f3ricos e metodol\u00f3gicos da pesquisa em g\u00eanero e tecnologia. Revista Communicare, v. 14, n. 1, 2014.<\/p>\n<p>HARAWAY, Donna J. Ci\u00eancia, cyborgs e mulheres: a reinven\u00e7\u00e3o da natureza. Madrid: C\u00e1tedra; Universitat de Val\u00e8ncia; Instituto de la Mujer, 1995.<\/p>\n<p>HARAWAY, Donna J. Manifesto ciborgue: ci\u00eancia, tecnologia e feminismo-socialista no final do s\u00e9culo XX. In: HARAWAY, Donna J.; KUNZRU, Hari; TADEU, Tomaz (org.). Antropologia do ciborgue: as vertigens do p\u00f3s-humano. 2. ed. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2009. p. 33-118.<\/p>\n<p>KUNZRU, Hari. \u201cVoc\u00ea \u00e9 um ciborgue?\u201d: um encontro com Donna Haraway. In: TADEU, Tomaz (org. e trad.). Antropologia do ciborgue: as vertigens do p\u00f3s-humano. 2. ed. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2009. p. 17-32.<\/p>\n<p>SIM\u00d5ES, Ana Beatriz. Manifesto ciborgue: ci\u00eancia, tecnologia e feminismo-socialista no final do s\u00e9culo XX. Revista Doc\u00eancia e Cibercultura, v. 7, n. 1, p. 1-8, 2023. DOI: 10.12957\/redoc.2023.70527.<\/p>\n<p>O EXTERMINADOR do Futuro. Dire\u00e7\u00e3o: James Cameron. Produ\u00e7\u00e3o: Gale Anne Hurd. Los Angeles: Orion Pictures, 1984. 1 longa-metragem (107 min).<\/p>\n<p>O EXTERMINADOR do Futuro 2: O Julgamento Final. Dire\u00e7\u00e3o: James Cameron. Produ\u00e7\u00e3o: James Cameron. Los Angeles: TriStar Pictures, 1991. 1 longa-metragem (137 min).<\/p>\n<p><strong>TRANSCRI\u00c7\u00c3O DO EPIS\u00d3DIO:<\/strong><br \/>\n<strong>Ciborgue tipo T-800 Sistema Cyberdyne Modelo 101:<\/strong><br \/>\n\u2014 I&#8217;m a friend of Sarah Connor. I was told that she&#8217;s here, could I see her, please?<\/p>\n<p><strong>Policial \/ Atendente:<\/strong><br \/>\n\u2014 No. Can&#8217;t see her. She&#8217;s making a statement.<\/p>\n<p><strong>Ciborgue tipo T-800 Sistema Cyberdyne Modelo 101:<\/strong><br \/>\n\u2014 Where is she?<\/p>\n<p><strong>Policial \/ Atendente:<\/strong><br \/>\n\u2014 Look, it may take a while. Why don&#8217;t you wait? There&#8217;s a bench over there.<\/p>\n<p><strong>Ciborgue tipo T-800 Sistema Cyberdyne Modelo 101:<\/strong><br \/>\n\u2014 I&#8217;ll be back.<\/p>\n<p><strong>Rodrigo Fessel Sega:<\/strong><br \/>\nA palavra &#8220;ciborgue&#8221; deriva de organismo cibern\u00e9tico e designa, em seu sentido mais imediato, uma entidade formada pela articula\u00e7\u00e3o entre elementos biol\u00f3gicos e tecnol\u00f3gicos. Mas a Haraway se aproveita dessa imagem para produzir uma provoca\u00e7\u00e3o: E se n\u00e3o conseguirmos mais estabelecer claramente onde termina o humano e onde come\u00e7a a m\u00e1quina?<\/p>\n<p>Ou seja, quando Donna Haraway fala em &#8220;ciborgue&#8221;, ela n\u00e3o est\u00e1 evidenciando uma pessoa ou uma sociedade, mas ela est\u00e1 propondo uma nova forma de pensar a nossa exist\u00eancia. Ciborgue \u00e9 uma maneira de pensar sujeitos e mundos em que as fronteiras entre humanos, animais e m\u00e1quinas, por exemplo, n\u00e3o s\u00e3o tratadas como fronteiras absolutas, est\u00e1veis, dadas de antem\u00e3o, naturais e universais.<\/p>\n<p>Quando eu falo a palavra &#8220;ciborgue&#8221;, qual \u00e9 a primeira imagem que vem \u00e0 sua cabe\u00e7a? Um rob\u00f4 de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica dos anos 80, uma pessoa que tem uma pr\u00f3tese, uma mulher dentro de um carro em movimento ou uma forma de interpretar o nosso mundo?<\/p>\n<p>Est\u00e1 come\u00e7ando agora mais um epis\u00f3dio do VocabuLaSPA, o podcast do LaSPA, o Laborat\u00f3rio de Sociologia dos Processos de Associa\u00e7\u00e3o. Neste epis\u00f3dio, eu, Rodrigo Fessel Sega, soci\u00f3logo e coordenador deste podcast, vou explicar o termo &#8220;ciborgue&#8221; a partir da perspectiva da fil\u00f3sofa, historiadora da ci\u00eancia, bi\u00f3loga de forma\u00e7\u00e3o e te\u00f3rica feminista estadunidense Donna Haraway.<\/p>\n<p>E hoje tamb\u00e9m contamos com a participa\u00e7\u00e3o do professor doutor Pedro Peixoto Ferreira, professor do Departamento de Sociologia da Unicamp e coordenador do LaSPA.<\/p>\n<p>Eu sou graduado em Ci\u00eancias Sociais pela Unesp, tenho mestrado em Sociologia pela UFSCar e doutorado em Sociologia pela Unicamp. Tenho tamb\u00e9m especializa\u00e7\u00e3o em Educa\u00e7\u00e3o Inclusiva pelo Instituto Federal do Sul de Minas. No mestrado, fui bolsista da FAPESP e pesquisador convidado da York University, em Toronto, no Canad\u00e1.<\/p>\n<p>No doutorado, tamb\u00e9m fui bolsista da FAPESP e realizei est\u00e1gio de doutorado sandu\u00edche na Universidade de Toronto, tamb\u00e9m em Toronto, no Canad\u00e1, e fui um dos ganhadores do Pr\u00eamio ELAP, oferecido pelo Escrit\u00f3rio de Educa\u00e7\u00e3o do Governo do Canad\u00e1.<\/p>\n<p>Atualmente, sou bolsista de p\u00f3s-doutorado em Jornalismo Cient\u00edfico da FAPESP e uma das propostas do projeto foi justamente a cria\u00e7\u00e3o deste podcast.<\/p>\n<p>Minhas \u00e1reas de pesquisa s\u00e3o: Internet e m\u00eddias sociais, media\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas, migra\u00e7\u00e3o internacional, rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero e sexualidade, jornalismo cient\u00edfico, educa\u00e7\u00e3o popular e educa\u00e7\u00e3o inclusiva.<\/p>\n<p>A seguir, vamos ouvir minha defini\u00e7\u00e3o de &#8220;ciborgue&#8221;.<\/p>\n<p>Imagine essa cena: \u00e9 final de tarde em Los Angeles, na Calif\u00f3rnia. O ano \u00e9 1995. O menino loiro, prestes a completar 10 anos de idade, est\u00e1 em uma moto sendo conduzido por um homem de jaqueta de couro preta, \u00f3culos escuros e cara quadrada. De mau mesmo.<\/p>\n<p>A ilumina\u00e7\u00e3o do p\u00f4r do sol deixa a pele branca deles em um tom amarelado. Eles est\u00e3o na rodovia em uma moto que vai diminuindo a velocidade. O menino est\u00e1 sentado na frente do motorista mal encarado, sobre o tanque de uma Harley-Davidson. A rodovia, o tom branco-amarelado da pele do fim da tarde, a jaqueta de couro, os \u00f3culos escuros, a cara de mau.<\/p>\n<p>Essa composi\u00e7\u00e3o \u00e9 a cena do filme de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica de 1995 chamado O Exterminador do Futuro 2. O menino, John Connor, pede para o motorista, que foi baleado e acabou de salvar sua vida, parar a moto.<\/p>\n<p>Ele afirma: &#8220;Por dentro voc\u00ea \u00e9 uma m\u00e1quina, mas \u00e9 vivo por fora&#8221;. E o homem responde: &#8220;Sou um organismo cibern\u00e9tico, tecido vivo sobre um endoesqueleto de metal&#8221;.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma frase que faz refer\u00eancia ao primeiro filme de O Exterminador do Futuro, lan\u00e7ado em 1984, 11 anos antes. Nesta vers\u00e3o, Sarah Connor, a futura m\u00e3e do menino, est\u00e1 dentro de um carro em movimento que foge \u00e0 noite pelas ruas escuras e iluminadas por neon tamb\u00e9m de Los Angeles.<\/p>\n<p>Um homem est\u00e1 dirigindo freneticamente o ve\u00edculo em alta velocidade. Ele diz: &#8220;Tudo bem, escute. Os exterminadores s\u00e3o unidades de infiltra\u00e7\u00e3o, parte homem, parte m\u00e1quina. Por baixo, \u00e9 um chassi de combate de hiperliga, controlado por microprocessador, totalmente blindado, muito resistente, mas por fora \u00e9 tecido humano vivo. Carne, pele, cabelo, sangue, cultivados para apar\u00eancia do ciborgue&#8221;.<\/p>\n<p>E o homem continua: &#8220;Ciborgues n\u00e3o sentem dor. Eu sinto. N\u00e3o d\u00e1 para negociar com ele, n\u00e3o d\u00e1 para argumentar com ele. Ele n\u00e3o sente piedade, nem remorso, nem medo, e ele, absolutamente, n\u00e3o vai parar nunca at\u00e9 que voc\u00ea esteja morta&#8221;.<\/p>\n<p>Um ano depois desse filme ser lan\u00e7ado, em 1985, a fil\u00f3sofa, historiadora da ci\u00eancia, bi\u00f3loga de forma\u00e7\u00e3o e te\u00f3rica feminista estadunidense Donna Haraway escreve o texto &#8220;Manifesto Ciborgue: Ci\u00eancia, Tecnologia e Feminismo Socialista no Final do S\u00e9culo XX&#8221;.<\/p>\n<p>Ela apresenta uma vis\u00e3o do ciborgue intimamente contaminada por esse imagin\u00e1rio do filme e, ao mesmo tempo, insistentemente diferenciada da concep\u00e7\u00e3o desse ciborgue masculino e altamente militarizado.<\/p>\n<p>Nas palavras de Donna Haraway: &#8220;Ciborgue \u00e9 um organismo cibern\u00e9tico, um h\u00edbrido de m\u00e1quina e organismo, uma criatura da realidade social e, tamb\u00e9m, uma criatura da fic\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Mas a\u00ed, voc\u00ea que est\u00e1 me ouvindo, pode se perguntar: Ent\u00e3o, qual a diferen\u00e7a entre o ciborgue da Donna Haraway e o ciborgue tipo T-800 Sistema Cyberdyne Modelo 101 interpretado por Arnold Schwarzenegger?<\/p>\n<p>Bom, ciborgue, para Donna Haraway, n\u00e3o \u00e9 simplesmente um ser humano que possui partes mec\u00e2nicas ou tecnol\u00f3gicas acopladas, ou um rob\u00f4 com partes humanas, como aparece nos dois filmes. Para ela, o ciborgue \u00e9 uma forma de interpretar o nosso mundo, uma maneira de ver a realidade.<\/p>\n<p>Deixa eu fazer uma pequena digress\u00e3o aqui: A nossa forma atual de pensar o mundo, de entender como nossa sociedade funciona, vem muito da filosofia moderna que separa o mundo em dualismos: mente e corpo, raz\u00e3o e emo\u00e7\u00e3o, cultura e natureza, realidade e apar\u00eancia, sujeito e objeto, civilizado e primitivo, humano e animal, homem e mulher, humano e m\u00e1quina, entre muitos outros.<\/p>\n<p>\u00c9 essa forma de pensar o mundo que Haraway critica. A palavra &#8220;ciborgue&#8221; deriva de organismo cibern\u00e9tico e designa, em seu sentido mais imediato, uma entidade formada pela articula\u00e7\u00e3o entre elementos biol\u00f3gicos e tecnol\u00f3gicos. Mas a Haraway se aproveita dessa imagem para produzir uma provoca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E se n\u00e3o conseguirmos mais estabelecer claramente onde termina o humano e onde come\u00e7a a m\u00e1quina? Ou seja, quando Donna Haraway fala em &#8220;ciborgue&#8221;, ela n\u00e3o est\u00e1 evidenciando uma pessoa ou uma sociedade. Ela n\u00e3o est\u00e1 apontando apenas para uma pessoa que tem uma pr\u00f3tese, por exemplo, e aqui ela se distancia dos ciborgues dos filmes de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.<\/p>\n<p>Mas ela est\u00e1 propondo uma nova forma de pensar a nossa exist\u00eancia. Ciborgue \u00e9 uma maneira de pensar sujeitos e mundos em que as fronteiras entre humanos, animais e m\u00e1quinas, por exemplo, n\u00e3o s\u00e3o tratadas como fronteiras absolutas, est\u00e1veis, dadas de antem\u00e3o, naturais e universais.<\/p>\n<p>Ela tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 negando as diferen\u00e7as entre essas categorias. Elas existem, mas essas diferen\u00e7as, essas fronteiras s\u00e3o constru\u00e7\u00f5es da nossa \u00e9poca e n\u00e3o s\u00e3o universais. E mais, ela est\u00e1 mostrando que essas separa\u00e7\u00f5es s\u00e3o constru\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, ou seja, s\u00e3o constru\u00eddas intencionalmente por grupos sociais espec\u00edficos que buscam manter ou consolidar a sua domina\u00e7\u00e3o sobre outros grupos sociais.<\/p>\n<p><strong>Pedro Peixoto Ferreira:<\/strong><br \/>\nDe fato, a palavra &#8220;ciborgue&#8221;, abrevia\u00e7\u00e3o para &#8220;organismo cibern\u00e9tico&#8221;, foi cunhada em 1960 pelos cientistas Manfred Clynes e Nathan Kline, no artigo &#8220;Cyborgs and Space&#8221; (ou &#8220;Ciborgues e o Espa\u00e7o&#8221;), publicado na edi\u00e7\u00e3o de setembro de 1960 da revista <em>Astronautics<\/em> (ou Astronautica).<\/p>\n<p>No seu artigo, Clynes e Kline argumentam que o uso de servomecanismos para a manuten\u00e7\u00e3o do metabolismo corporal humano fora da atmosfera terrestre poderia permitir a sobreviv\u00eancia de astronautas no espa\u00e7o.<\/p>\n<p>Nota-se assim que o ciborgue de Clynes e Kline, assim como o exterminador do futuro sobre o qual nos falou o Rodrigo, estava ligado \u00e0 corrida espacial entre Estados Unidos e a ent\u00e3o Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e a Guerra Fria, heran\u00e7a que o ciborgue de Donna Haraway n\u00e3o rejeita, mas tamb\u00e9m n\u00e3o aceita simplesmente como um destino, como o Rodrigo deixa claro.<\/p>\n<p><strong>Rodrigo Fessel Sega:<\/strong><br \/>\nHomem e mulher, mente e corpo, emo\u00e7\u00e3o ou raz\u00e3o, p\u00fablico ou privado, para ela s\u00e3o constru\u00e7\u00f5es ciborgues, ou seja, formas de observar o mundo constru\u00eddas historicamente e atravessadas por rela\u00e7\u00f5es de poder, domina\u00e7\u00e3o, ci\u00eancia, tecnologia e sociedade.<\/p>\n<p>Essas dicotomias deixam de ser vistas como descri\u00e7\u00f5es fixas do nosso mundo e passam a ser vistas, ent\u00e3o, como opera\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, sociais e pol\u00edticas que organizam e interpretam o mundo.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel compreender essas opera\u00e7\u00f5es por meio da cr\u00edtica de tr\u00eas fronteiras fundamentais.<\/p>\n<p>A primeira \u00e9 a fronteira entre humano e animal. O pensamento ocidental frequentemente estabelecia uma separa\u00e7\u00e3o muito forte entre humanidade e animalidade, atribuindo ao humano caracter\u00edsticas consideradas exclusivas, como raz\u00e3o, linguagem ou ent\u00e3o cultura. O humano \u00e9 racional e o animal \u00e9 irracional.<\/p>\n<p>Entretanto, a biologia evolutiva, a etologia e as ci\u00eancias que investigam o comportamento e a cogni\u00e7\u00e3o animal contribu\u00edram para enfraquecer as fronteiras dessa dicotomia.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m somos bastante irracionais, assim como os animais tamb\u00e9m realizam c\u00e1lculos racionais para poupar energia ou economizar alimento.<\/p>\n<p>A fronteira entre humanos e animais passa, ent\u00e3o, a ser pensada como um terreno onde essas caracter\u00edsticas entram em disputas: disputas cient\u00edficas, disputas pol\u00edticas e disputas ideol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>A segunda \u00e9 a fronteira a ser repensada entre organismo e m\u00e1quina. Tradicionalmente, a m\u00e1quina seria artificial e o organismo mais natural. Mas pr\u00f3teses, marca-passos, aparelhos auditivos, implantes e tecnologias reprodutivas tornam essa oposi\u00e7\u00e3o muito menos evidente.<\/p>\n<p>Isso para citar apenas alguns exemplos relacionados \u00e0 \u00e1rea da medicina: as vitaminas e os agrot\u00f3xicos de um morango no nosso corpo, a rela\u00e7\u00e3o \u00edntima entre a minha m\u00e3o e o mouse que uso para acessar o meu computador, o sistema do som de um bar que eu frequento e o meu ouvido, as luzes fracas de uma rua perigosa que dilatam minha pupila buscando uma efici\u00eancia visual, mas tamb\u00e9m por medo, s\u00e3o todas constru\u00e7\u00f5es ciborguianas de pessoas e m\u00e1quinas.<\/p>\n<p>Complexos h\u00edbridos de carne, metal, sangue, pl\u00e1stico, pupilas e redes el\u00e9tricas \u201cjogam no lixo conceitos como \u2018natural\u2019 e \u2018artificial\u2019\u201d, para usar uma frase da pr\u00f3pria Donna Haraway.<\/p>\n<p>A terceira \u00e9 a fronteira entre f\u00edsico e n\u00e3o f\u00edsico, especialmente importante em uma sociedade organizada por computadores, microchips, redes, c\u00f3digos, bancos de dados e tecnologias digitais.<\/p>\n<p>Nossas rela\u00e7\u00f5es sociais j\u00e1 n\u00e3o ocorrem exclusivamente entre corpos fisicamente presentes. A ubiquidade das m\u00e1quinas, caracter\u00edsticas de existirem em todos os lugares ao mesmo tempo e seus tamanhos cada vez menores, tornando-as invis\u00edveis a olho nu, consolidam a concep\u00e7\u00e3o do ciborgue como ser fluido, et\u00e9reo e vol\u00e1til.<\/p>\n<p>O ciborgue aparece justamente nesse espa\u00e7o de fronteiras m\u00f3veis e combina\u00e7\u00f5es. Ele representa uma maneira de pensar identidades e rela\u00e7\u00f5es que n\u00e3o podem ser reduzidas a categorias puras e evidentes.<\/p>\n<p>Para mostrar como essa discuss\u00e3o acontece no nosso cotidiano, Haraway fala da problem\u00e1tica categoria &#8220;mulher&#8221;.<\/p>\n<p>Durante d\u00e9cadas, com uma parte importante do movimento feminista, elencou pauta nos Estados Unidos e na Europa, que foram influenciadas por dicotomias naturais e universais entre homens e mulheres.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, acabou transformando a experi\u00eancia particular de mulheres brancas, ocidentais e de classe m\u00e9dia e classe m\u00e9dia alta na experi\u00eancia de todas as mulheres.<\/p>\n<p>E isso \u00e9 problem\u00e1tico, pois invisibiliza diferen\u00e7as de classe, ra\u00e7a, racionalidade, sexualidade, gera\u00e7\u00e3o, posi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica em rela\u00e7\u00e3o com diferentes formas de tecnologia e trabalho.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse contexto que o ciborgue oferece uma alternativa pol\u00edtica de organizar o mundo. Em vez de construir uma pol\u00edtica baseada na ideia de que todas as mulheres s\u00e3o essencialmente semelhantes, Haraway permite imaginar uma pol\u00edtica baseada em afinidades, onde sujeitos diferentes possam construir alian\u00e7as em torno de problemas e objetivos em comum.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio afirmar uma ess\u00eancia feminina compartilhada para produzir uma pol\u00edtica feminista. Podemos ser diferentes, sim, e, ainda assim, construir alian\u00e7as.<\/p>\n<p>O sujeito ciborgue n\u00e3o precisa descobrir uma ess\u00eancia escondida para saber quem \u00e9. Ele pode reconhecer que sua identidade \u00e9 hist\u00f3rica, \u00e9 m\u00faltipla, contradit\u00f3ria, depende do contexto, \u00e9 relacional e tempor\u00e1ria, e, mesmo assim, pode participar de projetos pol\u00edticos comuns.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que pensamos o mundo a partir do ciborgue. \u00c0s vezes, n\u00e3o sentimos piedade, remorso e nem medo, como o tipo T-800 Sistema Cyberdyne Modelo 101.<\/p>\n<p>E, \u00e0s vezes, sentimos medo e coragem, raiva e d\u00favida, como a Sarah Connor em fuga dentro do carro em alta velocidade pelas ruas escuras e iluminadas por neon de Los Angeles, em 1984.<\/p>\n<p>Espero que voc\u00eas tenham gostado dessa nossa discuss\u00e3o. Este epis\u00f3dio foi produzido e editado por mim, Rodrigo Fessel Sega. A trilha sonora \u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o autoral de Arthur Prando do Prado. O \u00e1udio utilizado neste epis\u00f3dio est\u00e1 na descri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Voc\u00ea pode acompanhar o LASPA no Instagram @laspa.unicamp e no site laspa.slg.br.<\/p>\n<p>Este podcast integra o projeto de jornalismo cient\u00edfico financiado pela Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo, a FAPESP, e conta com o apoio do Departamento de Sociologia da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp.<\/p>\n<p>At\u00e9 o pr\u00f3ximo VocabuLaSPA!<\/p>\n<p><strong>Ciborgue tipo T-800 Sistema Cyberdyne Modelo 101:<\/strong><br \/>\n\u2014 Hasta la vista, baby.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Epis\u00f3dio [9]: Ciborgue \u2013 por Rodrigo Fessel Sega (18\/09\/2026). Quando voc\u00ea ouve a palavra ciborgue, qual \u00e9 a primeira imagem que vem \u00e0 sua cabe\u00e7a? Um rob\u00f4 de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica dos anos 1980? Uma pessoa que tem uma pr\u00f3tese? Uma mulher dentro de um carro em movimento? 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Neste epis\u00f3dio, Rodrigo Fessel Sega, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":15,"featured_media":3644,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[407],"tags":[],"class_list":["post-3642","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-vocabulaspa"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/imagem-scaled.png","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3642","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/15"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3642"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3642\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3646,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3642\/revisions\/3646"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3644"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3642"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3642"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3642"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}