{"id":361,"date":"2021-04-16T02:12:28","date_gmt":"2021-04-16T02:12:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=361"},"modified":"2025-04-02T20:53:21","modified_gmt":"2025-04-02T20:53:21","slug":"do-modo-de-existencia-dos-objetos-tecnicos-simondon-2008-1958","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2021\/04\/16\/do-modo-de-existencia-dos-objetos-tecnicos-simondon-2008-1958\/","title":{"rendered":"Do modo de exist\u00eancia dos objetos t\u00e9cnicos (Simondon 2008 [1958])"},"content":{"rendered":"<p>SIMONDON, Gilbert. 2008. <em><strong>Du mode d&#8217;existence des objets techniques<\/strong><\/em>. Paris: Aubier-Montaigne. [1958] [<a href=\"http:\/\/cteme.wordpress.com\/publicacoes\/do-modo-de-existencia-dos-objetos-tecnicos-simondon-1958\/\">Tradu\u00e7\u00e3o brasileira do CTeMe<\/a>]<\/p>\n<p><strong>NOTA: <\/strong>&#8220;OT&#8221; = objeto t\u00e9cnico; &#8220;OTs&#8221; = objetos t\u00e9cnicos.<\/p>\n<p><strong>:::::::::: PROSPECTUS (1958) :. <\/strong><\/p>\n<p><strong>S\u00cdNTESE<\/strong>: A rela\u00e7\u00e3o entre o humano e o OT pode ser: inadequada (valores comunit\u00e1rios relativos); ou verdadeira (consci\u00eancia do modo de exist\u00eancia dos OTs). As 3 etapas da conscientiza\u00e7\u00e3o: <strong>(1)<\/strong> OT como g\u00eanese, processo de concretiza\u00e7\u00e3o, que individualiza por resson\u00e2ncia interna e propaga uma informa\u00e7\u00e3o (tecnicidade) atrav\u00e9s dos n\u00edveis progressivos de relaxa\u00e7\u00e3o; <strong>(2)<\/strong> Rela\u00e7\u00e3o humano-OT nos n\u00edveis individual \u2013 menor (instintivo-intuitivo, habitual) ou maior (sup\u00f5e conscientiza\u00e7\u00e3o, \u00e9 polit\u00e9cnico) \u2013 e coletivo \u2013 do progresso otimista do s\u00e9c. XVIII (consci\u00eancia da melhora dos elementos) ao progresso pessimista do s\u00e9c. XIX (aliena\u00e7\u00e3o pela m\u00e1quina); e rumo ao progresso do s\u00e9culo XXI (consci\u00eancia de ser tradutor necess\u00e1rio das m\u00e1quinas, entre si e para os humanos, e n\u00e3o portador de ferramentas); e <strong>(3)<\/strong> Conhecer o OT por meio da g\u00eanese de sua tecnicidade. Bifurca\u00e7\u00e3o da unidade m\u00e1gica primitiva em t\u00e9cnica (figura, objetivo)  e religi\u00e3o (fundo, subjetivo), compatibiliza\u00e7\u00e3o parcial pela est\u00e9tica, e final pela filosofia.<\/p>\n<p><strong>:::::::::: INTRODU\u00c7\u00c3O :. <\/strong><\/p>\n<p><strong>S\u00cdNTESE<\/strong>: O objetivo do livro \u00e9: Outorgar cidadania (significa\u00e7\u00e3o cultural) aos OTs, como deveria tamb\u00e9m ser feito com pessoas escravizadas. O problema diagnosticado por Simondon: A tecnofobia resulta da ignor\u00e2ncia e do preconceito, assim como a xenofobia. <\/p>\n<ul>\n<li>Ignorando o modo de exist\u00eancia dos OTs (cultura t\u00e9cnica), estes s\u00e3o tratados como escravos (mat\u00e9ria sem sentido, objeto) ou monstros (ag\u00eancias intencionais, sujeito), e promovem a sujei\u00e7\u00e3o social e a servid\u00e3o maqu\u00ednica (m\u00e1quina t\u00e9cnica mediando rela\u00e7\u00f5es sociais).\n<li>A id\u00e9ia de uma m\u00e1quina totalmente autom\u00e1tica, independende de mediadores humanos, \u00e9 fantasiosa, pois sempre existe uma margem de indetermina\u00e7\u00e3o (que reduz assintoticamente junto com o ganho de tecnicidade) onde atuam mediadores humanos, como maestros entre m\u00fasicos.\n<li>A tomada de consci\u00eancia do modo de exist\u00eancia dos OTs depende da ado\u00e7\u00e3o da perspectiva do engenheiro de organiza\u00e7\u00e3o (soci\u00f3logo ou psic\u00f3logo das m\u00e1quinas), mediador entre as m\u00e1quinas (preocupado com a resson\u00e2ncia interna de seu mundo, e n\u00e3o com m\u00e1quinas individuais), e n\u00e3o pode ser alcan\u00e7ada da perspectiva do operador (trabalhador), do propriet\u00e1rio (capitalista) ou de uma ci\u00eancia dedutora.\n<li>O soci\u00f3logo e o psic\u00f3logo do mundo contempor\u00e2neo (mediado por m\u00e1quinas) precisam do tecn\u00f3logo-mecan\u00f3logo. \u201cOs esquemas fundamentais de causalidade e de regula\u00e7\u00e3o que constituem uma axiom\u00e1tica da tecnologia devem\u201d ser ensinados assim como matem\u00e1tica ou literatura.\n<li>Colocados em conflito no s\u00e9c. XIX (aliena\u00e7\u00f5es econ\u00f4mica e t\u00e9cnica), os valores culturais do s\u00e9c. XXI precisam voltar a ressoar com a realidade objetiva da t\u00e9cnica, como no s\u00e9c. XVIII.\n<li>OT \u00e9 definido por sua g\u00eanese, tem 3 n\u00edveis (elemento, indiv\u00edduo e conjunto) e pode ser estudado em suas rela\u00e7\u00f5es com crian\u00e7as (menor) e adultos (maior).\n<li>As atitudes humanas frente aos aperfei\u00e7oamentos dos OT diferem dependendo do n\u00edvel: otimista no elemento; pessimista no indiv\u00edduo; otimista novamente no conjunto (tomada de consci\u00eancia de n\u00e3o sermos portadores de ferramentas).\n<li>\u201cA m\u00e1quina \u00e9 aquilo pelo qual [16] o homem se op\u00f5e \u00e0 morte do universo; ela ralenta, como a vida, a degrada\u00e7\u00e3o da energia, e se torna estabilizadora do mundo.\u201d (p.15-6)\n<li>A tomada de consci\u00eancia do modo de exist\u00eancia dos OTs, capaz de devolver o poder regulador \u00e0 cultura, s\u00f3 pode acontecer no conjunto t\u00e9cnico.<\/ul>\n<p>.<br \/>\n.<br \/>\n<strong>FICHAMENTO<\/strong><\/p>\n<p><strong>CONSCIENTIZA\u00c7\u00c3O do SENTIDO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Este estudo \u00e9 animado pela inten\u00e7\u00e3o de suscitar uma tomada de consci\u00eancia do sentido dos objetos t\u00e9cnicos. (Simondon 2008:9)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CULTURA versus T\u00c9CNICA: <\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A cultura se constituiu como sistema de defesa contra as t\u00e9cnicas; ora, essa defesa se apresenta como uma defesa do homem, supondo que os objetos t\u00e9cnicos n\u00e3o cont\u00eam realidade humana. (Simondon 2008:9)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A REALIDADE HUMANA DA T\u00c9CNICA e O PAPEL DA CULTURA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Nosso intuito foi mostrar que a cultura ignora, na realidade t\u00e9cnica, uma realidade humana, e que, para desempenhar plenamente seu papel, a cultura deve incorporar os seres t\u00e9cnicos enquanto conhecimento e valor. (Simondon 2008:9)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>UMA CONSCIENTIZA\u00c7\u00c3O FILOS\u00d3FICA ANTI-ESCRAVAGISTA AN\u00c1LOGA \u00c0 ILUMINISTA \u00c9 NECESS\u00c1RIA, AGORA COM RELA\u00c7\u00c3O AOS OTs:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A tomada de consci\u00eancia dos modos de exist\u00eancia dos objetos t\u00e9cnicos deve ser efetuada pelo pensamento filos\u00f3fico, que deve cumprir aqui um dever an\u00e1logo \u00e0quele que desempenhou na aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o e na afirma\u00e7\u00e3o do valor da pessoa humana. (Simondon 2008:9)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CULTURAxT\u00c9CNICA e HOMEMxM\u00c1QUINA \u00e9 HUMANISMO F\u00c1CIL. OTs s\u00e3o MEDIADORES HOMEM-NATUREZA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A oposi\u00e7\u00e3o entre a cultura e a t\u00e9cnica, entre o homem e a m\u00e1quina, \u00e9 falsa e sem fundamento; ela esconde apenas ignor\u00e2ncia ou ressentimento. Ela mascara atr\u00e1s de um humanismo f\u00e1cil uma realidade rica em esfor\u00e7os humanos e em for\u00e7as naturais e que constitui o mundo dos objetos t\u00e9cnicos, mediadores entre a natureza e o homem. (Simondon 2008:9)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CULTURA COMPLETA contra XENOFOBIA e MISONE\u00cdSMO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A cultura trata o objeto t\u00e9cnico como o homem trata o estrangeiro quando se deixa levar pela xenofobia primitiva. O misone\u00edsmo orientado contra as m\u00e1quinas \u00e9 menos um \u00f3dio pela novidade do que uma recusa da realidade estrangeira. Ora, esse ser estrangeiro \u00e9 ainda humano, e a cultura completa \u00e9 aquilo que permite descobrir o estrangeiro como humano. (Simondon 2008:9)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A HUMANIDADE IRRECONHEC\u00cdVEL DA M\u00c1QUINA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Da mesma forma, a m\u00e1quina \u00e9 a estrangeira; \u00e9 a estrangeira na qual est\u00e1 aprisionado algo de humano, desconhecido, materializado, escravizado, mas ainda humano. (Simondon 2008:9)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ALIENA\u00c7\u00c3O HOJE (1958) \u00e9 DESCONHECIMENTO FILOS\u00d3FICO-CULTURAL DA M\u00c1QUINA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A mais forte causa de aliena\u00e7\u00e3o no mundo contempor\u00e2neo reside nesse desconhecimento da m\u00e1quina, que n\u00e3o \u00e9 uma aliena\u00e7\u00e3o causada pela m\u00e1quina, mas pelo n\u00e3o-conhecimento de sua [10] natureza e de sua ess\u00eancia, pela sua aus\u00eancia do mundo das significa\u00e7\u00f5es e por sua omiss\u00e3o no quadro dos valores e conceitos que participam da cultura. (Simondon 2008:9-10)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>DESEQUIL\u00cdBRIO CULTURAL entre SIGNIFICA\u00c7\u00c3O (negada \u00e0s m\u00e1quinas) e FUN\u00c7\u00c3O (\u00fanica dimens\u00e3o reconhecida nas m\u00e1quinas):<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A cultura \u00e9 desequilibrada porque ela reconhece certos objetos, como o objeto est\u00e9tico, e lhes atribui cidadania no mundo das significa\u00e7\u00f5es, e ao mesmo tempo recha\u00e7a outros objetos, em particular os objetos t\u00e9cnicos, no mundo sem estrutura daquilo que n\u00e3o possui significa\u00e7\u00f5es, mas apenas um uso, uma fun\u00e7\u00e3o \u00fatil. (Simondon 2008:10)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CULTURA PARCIAL PROMOVE os MITOS da TECNOCRACIA e do ANDR\u00d3IDE:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Diante dessa recusa defensiva, pronunciada por uma cultura parcial, os homens que conhecem os objetos t\u00e9cnicos e sentem sua significa\u00e7\u00e3o buscam justificar seu julgamento atribuindo ao objeto t\u00e9cnico o \u00fanico estatuto atualmente valorizado al\u00e9m daquele de objeto est\u00e9tico, aquele de objeto sagrado. Nasce ent\u00e3o um tecnicismo intemperante que n\u00e3o passa de uma idolatria da m\u00e1quina e, atrav\u00e9s dessa idolatria, por meio de uma identifica\u00e7\u00e3o, uma aspira\u00e7\u00e3o tecnocrata ao poder incondicional. O desejo de poder consagra a m\u00e1quina como meio de supremacia e faz dela o elixir moderno. O homem que quer dominar seus semelhantes suscita a m\u00e1quina andr\u00f3ide. [&#8230;] Ora, nesse caso, a m\u00e1quina que a imagina\u00e7\u00e3o torna esse duplo do homem que \u00e9 o rob\u00f4 desprovido de interioridade, representa de maneira bem evidente e inevit\u00e1vel um ser puramente m\u00edtico e imagin\u00e1rio. (Simondon 2008:10)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>NA CULTURA ATUAL (1958) = ROB\u00d4 : M\u00c1QUINAS :: EST\u00c1TUA (ilus\u00e3o, mito, fic\u00e7\u00e3o, imagina\u00e7\u00e3o) : SER VIVO (verdadeira realidade, tendo interioridade e vontade, alma, autonomia, sentimentos, inten\u00e7\u00f5es):<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Quer\u00edamos precisamente mostrar que o rob\u00f4 n\u00e3o existe, que ele n\u00e3o \u00e9 uma m\u00e1quina da mesma forma como uma est\u00e1tua n\u00e3o \u00e9 um ser vivo, mas apenas um produto da imagina\u00e7\u00e3o e da fabrica\u00e7\u00e3o fict\u00edcia, da arte da ilus\u00e3o. (Simondon 2008:10)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>OTs na CULTURA PARCIAL: PRESERVAR sua UTILIDADE + CONTROLAR sua n HOSTILIDADE = ESCRAVID\u00c3O:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A cultura comporta assim duas atitudes contradit\u00f3rias com rela\u00e7\u00e3o aos objetos t\u00e9cnicos: por um lado, ela os trata como puros [11] conjuntos de mat\u00e9ria, desprovidos de verdadeiro significado e apresentando apenas utilidade. Por outro lado, ela sup\u00f5e que esses objetos s\u00e3o tamb\u00e9m rob\u00f4s e que eles s\u00e3o animados por inten\u00e7\u00f5es hostis com rela\u00e7\u00e3o ao homem, ou representam para ele um perigo permanente de agress\u00e3o, de insurrei\u00e7\u00e3o. Julgando ser bom conservar o primeiro car\u00e1ter, ela quer impedir a manifesta\u00e7\u00e3o do segundo e fala em colocar as m\u00e1quinas a servi\u00e7o do homem, crendo encontrar na redu\u00e7\u00e3o \u00e0 escravid\u00e3o um meio seguro de impedir qualquer rebeli\u00e3o. (Simondon 2008:10-1)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CONTRADI\u00c7\u00c3O da CULTURA e ERRO L\u00d3GICO do IDEAL AUTOMATIZANTE: <\/strong><\/p>\n<blockquote><p>De fato, essa contradi\u00e7\u00e3o inerente \u00e0 cultura prov\u00e9m da ambig\u00fcidade das id\u00e9ias relativas ao automatismo, nas quais se esconde um verdadeiro erro l\u00f3gico. (Simondon 2008:11)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>AUTOMATISMO (enrijecimento funcional socialmente determinado) x TECNICIDADE (margem de indetermina\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica):<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Ora, na verdade o automatismo \u00e9 um grau bastante baixo de perfei\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica. Para tornar uma m\u00e1quina autom\u00e1tica, \u00e9 preciso sacrificar v\u00e1rias possibilidades de funcionamento, v\u00e1rios usos poss\u00edveis. O automatismo \u2013 e sua utiliza\u00e7\u00e3o sob a forma de organiza\u00e7\u00e3o industrial que chamamos de automa\u00e7\u00e3o \u2013 possui uma significa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica ou social mais do que uma significa\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica. O verdadeiro aperfei\u00e7oamento das m\u00e1quinas, aquele que, poder\u00edamos dizer, eleva o grau de tecnicidade, corresponde n\u00e3o a um aumento do automatismo mas, ao contr\u00e1rio, ao fato de o funcionamento de uma m\u00e1quina guardar uma certa margem de indetermina\u00e7\u00e3o. (Simondon 2008:11)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>MARGEM DE INDETERMINA\u00c7\u00c3O (informa\u00e7\u00e3o exterior) e CONJUNTO T\u00c9CNICO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>\u00c9 essa margem que permite \u00e0 m\u00e1quina ser sens\u00edvel a uma informa\u00e7\u00e3o exterior. \u00c9 por essa sensibilidade das m\u00e1quinas \u00e0 informa\u00e7\u00e3o que um conjunto t\u00e9cnico pode se realizar, muito mais do que por um aumento do automatismo. (Simondon 2008:11)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>HOMEM : M\u00c1QUINAS :: MAESTRO : ORQUESTRA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A m\u00e1quina dotada de alta tecnicidade \u00e9 uma m\u00e1quina aberta, e o conjunto das m\u00e1quinas abertas sup\u00f5e o homem como organizador permanente, como int\u00e9rprete vivo das m\u00e1quinas umas com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras. Longe de ser o vigia de um grupo de escravos, o homem \u00e9 o organizador permanente de uma sociedade dos objetos t\u00e9cnicos que precisam dele como os m\u00fasicos precisam do maestro. [&#8230;] Ele \u00e9 para cada um deles a forma movente e atual do grupo em sua exist\u00eancia presente; ele \u00e9 o int\u00e9rprete m\u00fatuo de todos com rela\u00e7\u00e3o a todos. Assim, o homem tem por fun\u00e7\u00e3o ser o coordenador e o inventor permanente das m\u00e1quinas que est\u00e3o \u00e0 sua volta. Ele est\u00e1 entre as m\u00e1quinas que operam com ele. (Simondon 2008:11-2)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>HOMEM-M\u00c1QUINA (gesto eficaz fixado) = INVEN\u00c7\u00c3O PERPETUADA (aperfei\u00e7oamento como liberdade funcional):<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A presen\u00e7a do homem \u00e0s m\u00e1quinas \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o perpetuada. Isso que reside nas m\u00e1quinas \u00e9 algo da realidade humana, do gesto humano fixado e cristalizado em estruturas que funcionam. Essas estruturas precisam ser sustentadas no curso de seu funcionamento, e a maior perfei\u00e7\u00e3o coincide com a maior abertura, com a maior liberdade de funcionamento. (Simondon 2008:12)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>INFORM\u00c1TICA (codificando a margem primitiva de indetermina\u00e7\u00e3o):<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>As m\u00e1quinas de calcular modernas n\u00e3o s\u00e3o puros aut\u00f4matos; elas s\u00e3o seres t\u00e9cnicos que, acima de seus automatismos de adi\u00e7\u00e3o (ou de decis\u00e3o pelo funcionamento de basculadores elementares), possuem possibilidades muito vastas de comuta\u00e7\u00e3o de circuitos, que permitem codificar o funcionamento da m\u00e1quina restringindo sua margem de indetermina\u00e7\u00e3o. \u00c9 gra\u00e7as a essa margem primitiva de indetermina\u00e7\u00e3o que uma mesma m\u00e1quina pode extrair ra\u00edzes c\u00fabicas, ou traduzir um texto simples composto de um pequeno n\u00famero de palavras e de formas de uma l\u00edngua para outra. (Simondon 2008:12)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>HOMEM=COORDENADOR-INT\u00c9RPRETE das M\u00c1QUINAS + REGULADOR da MARGEM DE INDETERMINA\u00c7\u00c3O:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Mesmo quando a troca de informa\u00e7\u00e3o \u00e9 direta entre duas m\u00e1quinas (como entre um oscilador piloto e um outro oscilador sincronizado por impuls\u00f5es), o homem interv\u00e9m como ser que regula a margem de indetermina\u00e7\u00e3o a fim de que ela seja adaptada \u00e0 melhor troca poss\u00edvel de informa\u00e7\u00e3o. (Simondon 2008:12)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O &#8220;ENGENHEIRO DE ORGANIZA\u00c7\u00c3O&#8221; (soci\u00f3logo\/psic\u00f3logo das m\u00e1quinas) como AGENTE CONSCIENTIZADOR (em oposi\u00e7\u00e3o ao cientista, ao operador de m\u00e1quina ou ao seu propriet\u00e1rio):<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Ora, poder\u00edamos nos perguntar qual homem pode realizar em si a tomada de consci\u00eancia da realidade t\u00e9cnica e introduzi-la na cultura. Essa tomada de consci\u00eancia dificilmente pode ser realizada por aquele que \u00e9 ligado a uma s\u00f3 m\u00e1quina pelo trabalho e pela fixidez dos gestos cotidianos; a rela\u00e7\u00e3o de uso n\u00e3o \u00e9 favor\u00e1vel \u00e0 tomada de consci\u00eancia, pois seu recome\u00e7o habitual esfuma no estere\u00f3tipo dos gestos adaptados a consci\u00eancia das estruturas e dos funcionamentos. O fato de governar uma empresa utilizando [13] m\u00e1quinas, ou a rela\u00e7\u00e3o de propriedade, n\u00e3o \u00e9 mais \u00fatil do que o trabalho para essa tomada de consci\u00eancia: ele cria pontos de vista abstratos sobre a m\u00e1quina, julgada pelo seu pre\u00e7o e pelos resultados de seu funcionamento mais do que em si mesma. O conhecimento cient\u00edfico, que v\u00ea em um objeto t\u00e9cnico a aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica de uma lei te\u00f3rica, tampouco est\u00e1 no n\u00edvel do dom\u00ednio t\u00e9cnico. Essa tomada de consci\u00eancia pareceria antes poder ser o feito do engenheiro de organiza\u00e7\u00e3o, que seria como o soci\u00f3logo e o psic\u00f3logo das m\u00e1quinas, vivendo no meio dessa sociedade de seres t\u00e9cnicos da qual ele \u00e9 a consci\u00eancia respons\u00e1vel e inventiva. (Simondon 2008:12-3)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CONSCIENTIZA\u00c7\u00c3O POLIT\u00c9CNICA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Uma verdadeira tomada de consci\u00eancia das realidades t\u00e9cnicas apreendidas em sua significa\u00e7\u00e3o corresponde a uma pluralidade aberta de t\u00e9cnicas. N\u00e3o poderia ser de outra forma, pois um conjunto t\u00e9cnico mesmo pouco estendido compreende m\u00e1quinas cujos princ\u00edpios de funcionamento dependem de \u00e1reas cient\u00edficas muito diferentes. [&#8230;] S\u00e3o muito raras atualmente as m\u00e1quinas que n\u00e3o s\u00e3o em alguma medida mec\u00e2nicas, t\u00e9rmicas e el\u00e9tricas ao mesmo tempo. (Simondon 2008:13)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>DEFICI\u00caNCIA DA EDUCA\u00c7\u00c3O T\u00c9CNICA e CENSURA DA CULTURA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A especializa\u00e7\u00e3o dita t\u00e9cnica geralmente corresponde a preocupa\u00e7\u00f5es exteriores aos objetos t\u00e9cnicos propriamente ditos (rela\u00e7\u00f5es com o p\u00fablico, forma particular de com\u00e9rcio) e n\u00e3o a uma esp\u00e9cie de esquemas de funcionamento inclu\u00eddos nos objetos t\u00e9cnicos; \u00e9 a especializa\u00e7\u00e3o segundo dire\u00e7\u00f5es exteriores \u00e0s t\u00e9cnicas que cria a estreiteza de vis\u00e3o censurada nos t\u00e9cnicos pelo homem culto que pretende se distinguir deles: trata-se de uma estreiteza de inten\u00e7\u00f5es, de fins, muito mais do que de uma estreiteza de informa\u00e7\u00e3o ou de intui\u00e7\u00e3o das t\u00e9cnicas. (Simondon 2008:13)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>TECN\u00d3LOGO-MECAN\u00d3LOGO (conscientizador t\u00e9cnico):<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Para devolver \u00e0 cultura o car\u00e1ter verdadeiramente geral que ela perdeu, \u00e9 preciso reintroduzir nela a consci\u00eancia da natureza das m\u00e1quinas, de suas rela\u00e7\u00f5es m\u00fatuas e com o homem, e dos valores implicados nessas rela\u00e7\u00f5es. Essa tomada de consci\u00eancia exige a exist\u00eancia, ao lado do psic\u00f3logo e do soci\u00f3logo, do tecn\u00f3logo ou mecan\u00f3logo. (Simondon 2008:13)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>EDUCA\u00c7\u00c3O B\u00c1SICA EM AXIOM\u00c1TICA TECNOL\u00d3GICA (assim como literatura, ci\u00eancias, artes etc.):<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Al\u00e9m disso, os esquemas fundamentais de causalidade e de regula\u00e7\u00e3o que constituem uma axiom\u00e1tica da tecnologia devem ser ensinadas de maneira universal, como s\u00e3o ensinados os fundamentos da cultura liter\u00e1ria. A inicia\u00e7\u00e3o \u00e0s t\u00e9cnicas deve ser colocada sobre o mesmo plano que a educa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica; ela \u00e9 t\u00e3o desinteressada quanto a pr\u00e1tica das artes, e domina tanto as aplica\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas quanto a f\u00edsica te\u00f3rica; ela pode atingir o mesmo grau de abstra\u00e7\u00e3o e de simbolismo. Uma crian\u00e7a deveria saber o que \u00e9 uma [14] auto-regula\u00e7\u00e3o ou uma rea\u00e7\u00e3o positiva como ela conhece os teoremas matem\u00e1ticos. (Simondon 2008:13-4)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A DISTOR\u00c7\u00c3O (devido a uma consci\u00eancia t\u00e9cnica anacr\u00f4nica, literatura, opini\u00e3o, verossimilhan\u00e7a, ret\u00f3rica e f\u00f3rmulas de linguagem, s\u00e3o tomadas por poder e realidade) DO PODER REGULADOR (entre governantes e governados) DA CULTURA ATUAL (1958):<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Essa reforma da cultura, procedendo por alargamento e n\u00e3o por destrui\u00e7\u00e3o, poderia devolver \u00e0 cultura atual o poder regulador verdadeiro que ela perdeu. Base de significa\u00e7\u00f5es, de meios de express\u00e3o, de justifica\u00e7\u00f5es e de formas, uma cultura estabelece entre aqueles que a possuem uma comunica\u00e7\u00e3o reguladora; saindo da vida do grupo, ela anima os gestos daqueles que assumem as fun\u00e7\u00f5es de comando, fornecendo-lhes normas e esquemas. Ora, antes do grande desenvolvimento das t\u00e9cnicas, a cultura incorporava as t\u00e9cnicas usuais, na forma de esquemas, s\u00edmbolos, qualidades, analogias. Ao inv\u00e9s disso, a cultura atual permanece presa aos esquemas ultrapassados das t\u00e9cnicas artesanais e agr\u00edcolas dos s\u00e9culos passados, esquemas que servem de mediadores entre os grupos e seus chefes, impondo, por causa de sua inadequa\u00e7\u00e3o \u00e0s t\u00e9cnicas atuais, uma distor\u00e7\u00e3o fundamental. O poder se torna literatura, arte de opini\u00e3o, defesa baseada em verossimilhan\u00e7as, ret\u00f3rica. As fun\u00e7\u00f5es diretrizes s\u00e3o falsas porque n\u00e3o existe mais entre a realidade governada e os seres que governam um c\u00f3digo adequado de rela\u00e7\u00f5es: a realidade governada comporta homens e m\u00e1quinas; o c\u00f3digo repousa apenas sobre a experi\u00eancia do homem trabalhando com ferramentas, ela mesma enfraquecida e distante porque aqueles que empregam o c\u00f3digo n\u00e3o acabam, como Cincinato, de largar o arado. O s\u00edmbolo se reduz a simples f\u00f3rmula de linguagem, o real est\u00e1 ausente. Uma rela\u00e7\u00e3o reguladora de causalidade circular n\u00e3o pode se estabelecer entre o conjunto da realidade governada e a fun\u00e7\u00e3o de autoridade: a informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o chega mais porque o c\u00f3digo se tornou inadequado ao tipo de informa\u00e7\u00e3o que ele deveria transmitir. (Simondon 2008:14)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>INFORMA\u00c7\u00c3O HOMEM-M\u00c1QUINA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Uma informa\u00e7\u00e3o que exprimir\u00e1 a exist\u00eancia simult\u00e2nea e correlativa dos homens e das m\u00e1quinas deve comportar os esquemas de funcionamento das m\u00e1quinas e os valores que eles implicam.  (Simondon 2008:14)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O PAPEL FILOS\u00d3FICO (iluminista) e POL\u00cdTICO-SOCIAL (conscientiza\u00e7\u00e3o) da REFORMA CULTURAL:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>\u00c9 preciso que a cultura, especializada e empobrecida, volte a ser geral. Essa extens\u00e3o da cultura, suprimindo uma das principais fontes de aliena\u00e7\u00e3o e restabelecendo a informa\u00e7\u00e3o reguladora, possui um valor pol\u00edtico e social: ela pode dar ao homem meios para pensar sua exist\u00eancia e sua situa\u00e7\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o da realidade que o rodeia. Essa obra de alargamento e aprofundamento da cultura tamb\u00e9m tem um papel propriamente filos\u00f3fico a desempenhar pois ela conduz \u00e0 cr\u00edtica de um certo n\u00famero de mitos [15] e de estere\u00f3tipos, como aquele do rob\u00f4, ou dos aut\u00f4matos perfeitos a servi\u00e7o de uma humanidade pregui\u00e7osa e saciada. (Simondon 2008:14-5)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>DEFINI\u00c7\u00c3O GEN\u00c9TICA-EVOLUTIVA (processo de concretiza\u00e7\u00e3o e sobredetermina\u00e7\u00e3o funcional em 3 n\u00edveis) DE OT e sua RELA\u00c7\u00c3O com OUTRAS REALIDADES (adultos e crian\u00e7as):<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Para operar essa tomada de consci\u00eancia podemos tentar definir o objeto t\u00e9cnico em si mesmo pelo processo de concretiza\u00e7\u00e3o e de sobredetermina\u00e7\u00e3o funcional que lhe d\u00e1 sua consist\u00eancia ao termo de uma evolu\u00e7\u00e3o, provando que ele n\u00e3o poderia ser considerado um puro utens\u00edlio. As modalidades dessa g\u00eanese permitem apreender os tr\u00eas n\u00edveis do objeto t\u00e9cnico e sua coordena\u00e7\u00e3o temporal n\u00e3o dial\u00e9tica: o elemento, o indiv\u00edduo, o conjunto. [&#8230;] O objeto t\u00e9cnico sendo definido por sua g\u00eanese, \u00e9 poss\u00edvel estudar as rela\u00e7\u00f5es entre o objeto t\u00e9cnico e as outras realidades, em particular o homem adulto e a crian\u00e7a. (Simondon 2008:15)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>OS 3 N\u00cdVEIS DO OT ENQUANTO OBJETO DE UM JULGAMENTO DE VALORES:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Enfim, considerado como objeto de um julgamento de valores, o objeto t\u00e9cnico pode suscitar atitudes muito diferentes conforme ele seja tomado ao n\u00edvel do elemento, ao n\u00edvel do indiv\u00edduo ou ao n\u00edvel do conjunto. (Simondon 2008:15)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ELEMENTO T\u00c9CNICO (otimismo iluminista, progresso, s\u00e9c.XVIII):<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Ao n\u00edvel do elemento, seu aperfei\u00e7oamento n\u00e3o introduz nenhum transtorno que gere ang\u00fastia por entrar em conflito com os h\u00e1bitos adquiridos: \u00e9 o clima de otimismo do s\u00e9culo XVIII, introduzindo a id\u00e9ia de um progresso cont\u00ednuo e indefinido, trazendo uma melhoria constante da condi\u00e7\u00e3o humana. (Simondon 2008:15)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>INDIV\u00cdDUO T\u00c9CNICO (anti-homem, progresso dram\u00e1tico anti-natureza, vontade de pot\u00eancia, desmedida tecnicista e tecnocr\u00e1tica, prof\u00e9tica e catacl\u00edsmica, da era termodin\u00e2mica, s\u00e9c.XIX):<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Ao contr\u00e1rio, o indiv\u00edduo t\u00e9cnico se torna durante um tempo o advers\u00e1rio do homem, seu concorrente, porque o homem centralizava em si a individualidade t\u00e9cnica quando s\u00f3 existiam as ferramentas; a m\u00e1quina toma o lugar do homem porque o homem realizava uma fun\u00e7\u00e3o de m\u00e1quina, de portador de ferramentas. A essa fase corresponde uma no\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica e apaixonada do progresso, tornando-se viola\u00e7\u00e3o da natureza, conquista do mundo, capta\u00e7\u00e3o das energias. Essa vontade de pot\u00eancia se exprime atrav\u00e9s da desmedida tecnicista e tecnocr\u00e1tica da era da termodin\u00e2mica, que tem um aspecto ao mesmo tempo prof\u00e9tico e catacl\u00edsmico. (Simondon 2008:15)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CONJUNTO T\u00c9CNICO (teoria da informa\u00e7\u00e3o, regula\u00e7\u00e3o, estabiliza\u00e7\u00e3o, negentropia biotecnol\u00f3gica, s\u00e9c.XX):<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Enfim, no n\u00edvel dos conjuntos t\u00e9cnicos do s\u00e9culo XX, a energ\u00e9tica termodin\u00e2mica \u00e9 substitu\u00edda pela teoria da informa\u00e7\u00e3o, cujo conte\u00fado normativo \u00e9 eminentemente regulador e estabilizador: o desenvolvimento das t\u00e9cnicas aparece como uma garantia de estabilidade. A m\u00e1quina como elemento do conjunto t\u00e9cnico se torna aquilo que aumenta a quantidade de informa\u00e7\u00e3o, aquilo que aumenta a neguentropia, aquilo que se op\u00f5e \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o da energia: a m\u00e1quina, obra de organiza\u00e7\u00e3o, de informa\u00e7\u00e3o, \u00e9, como a vida e com a vida, aquilo que se op\u00f5e \u00e0 desordem, ao nivelamento de todas as coisas que tende a privar o universo de poderes de mudan\u00e7a. A m\u00e1quina \u00e9 aquilo pelo qual [16] o homem se op\u00f5e \u00e0 morte do universo; ela ralenta, como a vida, a degrada\u00e7\u00e3o da energia, e se torna estabilizadora do mundo. (Simondon 2008:15-6)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A INTEGRA\u00c7\u00c3O CULTURAL EFETIVA do OT se torna POSS\u00cdVEL com O CONJUNTO T\u00c9CNICO (pois cultura e conjunto t\u00e9cnico s\u00e3o sistemas reguladores):<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Essa modifica\u00e7\u00e3o do olhar filos\u00f3fico sobre o objeto t\u00e9cnico anuncia a possibilidade de uma introdu\u00e7\u00e3o do ser t\u00e9cnico na cultura: essa integra\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o p\u00f4de se operar nem no n\u00edvel dos elementos nem no n\u00edvel dos indiv\u00edduos de maneira definitiva, o poder\u00e1, com maior probabilidade de estabilidade, no n\u00edvel dos conjuntos; a realidade t\u00e9cnica tornada reguladora poder\u00e1 se integrar \u00e0 cultura, reguladora por ess\u00eancia. Essa integra\u00e7\u00e3o n\u00e3o poderia se fazer sen\u00e3o por adi\u00e7\u00e3o quando a tecnicidade residia nos elementos e por arrombamento e revolu\u00e7\u00e3o quando a tecnicidade residia nos novos indiv\u00edduos t\u00e9cnicos; hoje, a tecnicidade tende a residir nos conjuntos; ela pode ent\u00e3o se tornar um fundamento da cultura \u00e0 qual ela trar\u00e1 um poder de unidade e de estabilidade, ao torn\u00e1-la adequada \u00e0 realidade que ela exprime e que ela regula. (Simondon 2008:16)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>==================== PRIMEIRO CAP\u00cdTULO :.<\/strong><\/p>\n<p><strong>::::::::::G\u00caNESE DO OT: O PROCESSO DE CONCRETIZA\u00c7\u00c3O :.<\/strong><\/p>\n<p><strong>I &#8211; OT ABSTRATO E OT CONCRETO<\/strong><\/p>\n<p><strong>A VARIABILIDADE DA RELA\u00c7\u00c3O FORMA-FUN\u00c7\u00c3O e a INDIVIDUALIDADE DO OT DA PERSPECTIVA GEN\u00c9TICA-EVOLUTIVA (um motor n\u00e3o \u00e9 um objeto mas uma rela\u00e7\u00e3o entre processos mec\u00e2nicos (uma multiplicidade poss\u00edvel deles) e a\u00e7\u00f5es humanas):<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Um mesmo resultado pode ser obtido a partir de funcionamentos e de estruturas muito diferentes: um motor a vapor, um motor a gasolina, uma turbina, um motor a mola ou a peso s\u00e3o todos igualmente motores; no entanto, h\u00e1 mais analogia real entre um motor a mola e um arco ou uma besta do que entre esse mesmo motor e um motor a vapor; um rel\u00f3gio de p\u00eandulo possui um motor an\u00e1logo a um guincho, enquanto que um rel\u00f3gio el\u00e9trico \u00e9 an\u00e1logo a uma campainha ou a um vibrador. O uso re\u00fane estruturas e funcionamentos heterog\u00eaneos sob g\u00eaneros e esp\u00e9cies que tiram sua significa\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre esse funcionamento e um outro funcionamento, aquele do ser humano na a\u00e7\u00e3o. Portanto, isso a que damos um nome \u00fanico, como, por exemplo, aquele do motor, pode ser m\u00faltiplo no instante e pode variar no tempo mudando de individualidade. (Simondon 2008:19)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>DEFINI\u00c7\u00c3O FILOGEN\u00c9TICA DE OT (individualidade como converg\u00eancia-consist\u00eancia-adapta\u00e7\u00e3o-resson\u00e2ncia interna; ser como devir):<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>\u00e9 a partir dos crit\u00e9rios da g\u00eanese que poderemos definir a individualidade e a especificidade do objeto t\u00e9cnico: o objeto t\u00e9cnico individual n\u00e3o \u00e9 tal ou tal coisa, dada hic et nunc, mas aquilo de que h\u00e1 g\u00eanese. A unidade do objeto t\u00e9cnico, sua individualidade, sua especificidade, s\u00e3o as caracter\u00edsticas de consist\u00eancia e de converg\u00eancia de sua g\u00eanese. A g\u00eanese do objeto t\u00e9cnico faz parte de seu ser. O objeto t\u00e9cnico \u00e9 aquilo que n\u00e3o \u00e9 anterior a seu devir, mas presente a cada etapa desse devir; o objeto t\u00e9cnico unit\u00e1rio \u00e9 unidade de devir. [&#8230;] Por essa raz\u00e3o, como numa linhagem filogen\u00e9tica, um est\u00e1gio definido de evolu\u00e7\u00e3o cont\u00e9m em si estruturas e esquemas din\u00e2micos que est\u00e3o no princ\u00edpio de uma evolu\u00e7\u00e3o das formas. O ser t\u00e9cnico evolui por converg\u00eancia e por adapta\u00e7\u00e3o a si mesmo; ele se unifica interiormente segundo um princ\u00edpio de resson\u00e2ncia interna.  (Simondon 2008:20)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>EVOLU\u00c7\u00c3O T\u00c9CNICA (do abstrato ao concreto) N\u00c3O SE MEDE POR DESCEND\u00caNCIA HIST\u00d3RICA ou POR EFIC\u00c1CIA FUNCIONAL, mas SIM POR CONVERG\u00caNCIA ESTRUTURAL-FUNCIONAL INTERNA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O motor de autom\u00f3vel atual n\u00e3o \u00e9 o descendente do motor de 1910 apenas porque o motor de 1910 era aquele que constru\u00edam nossos antepassados. Ele tampouco \u00e9 seu descendente porque ele \u00e9 mais aperfei\u00e7oado relativamente ao uso; de fato, para tal ou tal uso, um motor de 1910 permanece superior a um motor de 1956. [&#8230;] \u00c9 por um exame interior dos regimes de causalidade e das formas enquanto adaptadas a esses regimes de causalidade que o motor de autom\u00f3vel atual \u00e9 definido como posterior ao motor de 1910. Num motor atual, cada pe\u00e7a importante \u00e9 t\u00e3o interligada \u00e0s outras por trocas rec\u00edprocas de energia que ela n\u00e3o pode ser diferente do que ela \u00e9. [&#8230;] Poder\u00edamos dizer que o motor atual \u00e9 um motor concreto, enquanto que o motor antigo \u00e9 um motor abstrato. (Simondon 2008:20-1)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong><\/strong><\/p>\n<blockquote><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SIMONDON, Gilbert. 2008. Du mode d&#8217;existence des objets techniques. Paris: Aubier-Montaigne. [1958] [Tradu\u00e7\u00e3o brasileira do CTeMe] NOTA: &#8220;OT&#8221; = objeto t\u00e9cnico; &#8220;OTs&#8221; = objetos t\u00e9cnicos. :::::::::: PROSPECTUS (1958) :. S\u00cdNTESE: A rela\u00e7\u00e3o entre o humano e o OT pode ser: inadequada (valores comunit\u00e1rios relativos); ou verdadeira (consci\u00eancia do modo de exist\u00eancia dos OTs). As 3 etapas da conscientiza\u00e7\u00e3o: (1) OT [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":202,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[48],"class_list":["post-361","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-fichamento","tag-simondon"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Simondon_capa.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/361","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=361"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/361\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2834,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/361\/revisions\/2834"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/202"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=361"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=361"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=361"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}