{"id":3596,"date":"2026-08-17T18:08:40","date_gmt":"2026-08-17T18:08:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=3596"},"modified":"2026-08-17T18:08:40","modified_gmt":"2026-08-17T18:08:40","slug":"vocabulaspa-episodio-8-alienacao-por-elena-de-medeiros-batista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2026\/08\/17\/vocabulaspa-episodio-8-alienacao-por-elena-de-medeiros-batista\/","title":{"rendered":"VocabuLaSPA \u2013 Epis\u00f3dio [8]: Aliena\u00e7\u00e3o \u2013 por Elena de Medeiros Batista"},"content":{"rendered":"<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td style=\"text-align: center; vertical-align: middle;\" width=\"200\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/00-VocabuLaSPA-CAPA-scaled.png\" \/><\/td>\n<td style=\"text-align: left; vertical-align: middle;\"><strong>Epis\u00f3dio [8]: Aliena\u00e7\u00e3o \u2013 por Elena de Medeiros Batista<\/strong> (17\/08\/2026).<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><div class=\"powerpress_player\" id=\"powerpress_player_4289\"><audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-3596-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/audio-elena-alienacao-finalizado.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/audio-elena-alienacao-finalizado.mp3\">https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/audio-elena-alienacao-finalizado.mp3<\/a><\/audio><\/div><p class=\"powerpress_links powerpress_links_mp3\" style=\"margin-bottom: 1px !important;\">Podcast (vocabulaspa): <a href=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/audio-elena-alienacao-finalizado.mp3\" class=\"powerpress_link_pinw\" target=\"_blank\" title=\"Play in new window\" onclick=\"return powerpress_pinw('https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/?powerpress_pinw=3596-vocabulaspa');\" rel=\"nofollow\">Play in new window<\/a> | <a href=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/audio-elena-alienacao-finalizado.mp3\" class=\"powerpress_link_d\" title=\"Download\" rel=\"nofollow\" download=\"audio-elena-alienacao-finalizado.mp3\">Download<\/a><\/p><br \/>\nComo falar de aliena\u00e7\u00e3o a partir de Gilbert Simondon e Franz Fanon? O que \u00e9 a aliena\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e a cultura dos objetos? Como conectar essa discuss\u00e3o com ra\u00e7a e aliena\u00e7\u00e3o colonial?<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio de hoje recebe a Elena de Medeiros Batista que prop\u00f5e um criativo debate sobre aliena\u00e7\u00e3o, t\u00e9cnica e a perspectiva decolonial a partir doa autores Frantz Fanon e Gilbert Simondon.<\/p>\n<p>A Elena \u00e9 Doutoranda em Antropologia Social pela Unicamp e sua trajet\u00f3ria transita na interface entre a Psicologia e a Antropologia. Ela traz uma bagagem pr\u00e1tica densa desde a atua\u00e7\u00e3o na sa\u00fade mental em Salvador, na Bahia, o trabalho com popula\u00e7\u00f5es atingidas por desastres ambientais, at\u00e9 a bio\u00e9tica do cuidado paliativos em sa\u00fade. Em cada uma dessas experi\u00eancias, o que costurava o seu olhar era a presen\u00e7a marcante dos objetos, res\u00edduos e materiais hospitalares percebendo como as coisas em sobra insistiam em ficar, informando afetos nas rela\u00e7\u00f5es de vida e cuidado em sa\u00fade mental.<\/p>\n<p>Hoje, em sua pesquisa de doutorado, a Elena investiga a vida social dos pl\u00e1sticos na Praia do Porto da Barra, em Salvador. A grande provoca\u00e7\u00e3o do trabalho dela e que conecta diretamente com o nosso epis\u00f3dio de hoje \u00e9 nos fazer olhar para os objetos n\u00e3o como coisas neutras, mas como agentes carregados de hist\u00f3ria, pol\u00edtica e ra\u00e7a. E mais do que isso nos convida a pensar como, ao longo da hist\u00f3ria colonial, a pr\u00f3pria aliena\u00e7\u00e3o reduziu n\u00e3o apenas a potencialidade dos objetos, mas corpos negros a meros bens de uso e consumo.<\/p>\n<p>Este podcast integra o Projeto de Jornalismo Cient\u00edfico &#8220;Projeto de Divulga\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica do Laborat\u00f3rio de Sociologia dos Processos de Associa\u00e7\u00e3o (LaSPA)&#8221; financiado pela Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo (FAPESP), processo n\u00b0 2025\/13701-4, e conta com apoio do Departamento de Sociologia (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).<\/p>\n<p><strong>Concep\u00e7\u00e3o, Produ\u00e7\u00e3o, Edi\u00e7\u00e3o e Arte:<\/strong> Rodrigo Fessel Sega<br \/>\n<strong>Trilha Sonora:<\/strong> Arthur Prando do Prado<br \/>\n<strong>\u00c1udios:<\/strong><br \/>\nLA VANGUARDIA. La escena casi b\u00edblica de 5.000 personas extrayendo cobalto en una mina de la RD Congo. YouTube, 8 nov. 2022. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=LA6_BchB71I\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=LA6_BchB71I<\/a><\/p>\n<p>Voc\u00ea tamb\u00e9m pode acessar as produ\u00e7\u00f5es do LaSPA acessando nossos canais:<br \/>\nsite <a href=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/\">https:\/\/www.laspa.slg.br\/<\/a><br \/>\ne-mail <a href=\"mailto:laspa@unicamp.br\">laspa@unicamp.br<\/a><br \/>\nInstagram <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/laspa.unicamp\/\">https:\/\/www.instagram.com\/laspa.unicamp\/<\/a><br \/>\nReddit <a href=\"https:\/\/www.reddit.com\/user\/laspa_unicamp\/\">https:\/\/www.reddit.com\/user\/laspa_unicamp\/<\/a><br \/>\nTikTok <a href=\"https:\/\/www.tiktok.com\/@laspa.unicamp\">https:\/\/www.tiktok.com\/@laspa.unicamp<\/a><br \/>\nYouTube <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/@LaSPA.Unicamp\">https:\/\/www.youtube.com\/@LaSPA.Unicamp<\/a><\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias Citadas:<\/strong><br \/>\nFANON, Frantz. Os condenados da terra. Tradu\u00e7\u00e3o de Enio Giachini. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2005.<\/p>\n<p>FANON, Frantz. Pele negra, m\u00e1scaras brancas. Tradu\u00e7\u00e3o de Renato da Silva Queiroz. Salvador: EDUFBA, 2008.<\/p>\n<p>SIMONDON, Gilbert. Do modo de exist\u00eancia dos objetos t\u00e9cnicos. Tradu\u00e7\u00e3o de Pedro Peixoto Ferreira. Rio de Janeiro: Contraponto, 2020.<\/p>\n<p><strong>TRANSCRI\u00c7\u00c3O DO EPIS\u00d3DIO:<\/strong><br \/>\n<strong>Elena de Medeiros Batista:<\/strong><br \/>\nEm uma das suas principais obras, Os Modos de Exist\u00eancia dos Objetos T\u00e9cnicos, Simondon j\u00e1 apresenta sua quest\u00e3o principal logo de in\u00edcio: de que os objetos t\u00e9cnicos possuem um modo de exist\u00eancia, isto \u00e9, os objetos que criamos n\u00e3o s\u00e3o apenas instrumentos passivos, mas possuidores de ag\u00eancia.<\/p>\n<p>Pensemos, por exemplo, no celular. Ele nos aparece frequentemente apenas como um objeto de consumo individual. No entanto, a sua exist\u00eancia envolve uma s\u00e9rie de rela\u00e7\u00f5es conectadas.<\/p>\n<p>Por exemplo, a extra\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria do cobalto na Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo, as cadeias globais de montagem, semicondutores em pa\u00edses como Taiwan e \u00cdndia, os algoritmos de intelig\u00eancia artificial desenvolvidos no Vale do Sil\u00edcio e, no fim do ciclo, as toneladas de lixo eletr\u00f4nico descartadas em pa\u00edses do Sul Global, alimentando a pr\u00f3pria crise clim\u00e1tica e ambiental.<\/p>\n<p>A aliena\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica ocorre justamente quando ignoramos tudo isso e enxergamos apenas o uso imediato e, ao mesmo tempo, desaparecem todas as rela\u00e7\u00f5es que tornam esse objeto poss\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>Rodrigo Fessel Sega:<\/strong><br \/>\nComo falar de aliena\u00e7\u00e3o trazendo para o debate Gilbert Simondon e Frantz Fanon? O que \u00e9 aliena\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e a cultura dos objetos? Como conectar essa discuss\u00e3o com ra\u00e7a e aliena\u00e7\u00e3o colonial?<\/p>\n<p>Para conduzir essa conversa sobre aliena\u00e7\u00e3o, t\u00e9cnica e a perspectiva decolonial de Frantz Fanon e Gilbert Simondon, o epis\u00f3dio de hoje recebe a Elena de Medeiros Batista.<\/p>\n<p>Est\u00e1 come\u00e7ando agora mais um epis\u00f3dio do VocabuLaSPA, o podcast do LaSPA, o Laborat\u00f3rio de Sociologia dos Processos de Associa\u00e7\u00e3o. Eu sou Rodrigo Fessel Sega, soci\u00f3logo e coordenador deste podcast.<\/p>\n<p>Elena de Medeiros Batista \u00e9 doutoranda em Antropologia Social pela Unicamp e colaboradora do nosso laborat\u00f3rio. Sua trajet\u00f3ria transita na interface entre psicologia e antropologia. Ela traz uma bagagem pr\u00e1tica densa, desde a atua\u00e7\u00e3o na sa\u00fade mental em Salvador, na Bahia, o trabalho com popula\u00e7\u00f5es atingidas por desastres ambientais, at\u00e9 a bio\u00e9tica do cuidado paliativo em sa\u00fade.<\/p>\n<p>Em cada uma dessas experi\u00eancias, o que costurava o seu olhar era a presen\u00e7a marcante dos objetos, res\u00edduos e materiais hospitalares, percebendo como as coisas em sobra insistiam em ficar, informando afeto nas rela\u00e7\u00f5es de vida e cuidado em sa\u00fade mental.<\/p>\n<p>Hoje, em sua pesquisa de doutorado, a Elena investiga a vida social dos pl\u00e1sticos na Praia do Porto da Barra, em Salvador. A grande provoca\u00e7\u00e3o do trabalho dela e que conecta diretamente com o nosso epis\u00f3dio de hoje \u00e9 nos fazer olhar para os objetos n\u00e3o como coisas neutras, mas como agentes carregados de hist\u00f3ria, pol\u00edtica e ra\u00e7a.<\/p>\n<p>E mais do que isso: nos convida a pensar como, ao longo da hist\u00f3ria colonial, a pr\u00f3pria aliena\u00e7\u00e3o reduziu n\u00e3o apenas a potencialidade dos objetos, mas corpos negros a meros bens de uso e consumo.<\/p>\n<p>Ou\u00e7a agora a Elena.<\/p>\n<p><strong>Elena de Medeiros Batista:<\/strong><br \/>\nA ideia \u00e9 pensar que, embora a aliena\u00e7\u00e3o esteja associada a uma ideia de rela\u00e7\u00e3o com o trabalho, a discuss\u00e3o de Simondon desloca esse problema para uma rela\u00e7\u00e3o mais ampla entre humanos e objetos t\u00e9cnicos, tocando no que tange a rela\u00e7\u00e3o cultural que constitu\u00edmos com o nosso mundo material.<\/p>\n<p>Para Simondon, o problema da aliena\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 apenas no fato do trabalhador n\u00e3o possuir o produto do seu trabalho, mas de que maneira os humanos deixam de compreender os objetos t\u00e9cnicos como realidades dotadas de hist\u00f3ria, g\u00eanese e organiza\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, reduzindo-se ao consumo e \u00e0 banalidade de utilizar aquele objeto por um instante de segundos.<\/p>\n<p>Dito isso, a quest\u00e3o que proponho em di\u00e1logo com a decolonialidade \u00e9: se a aliena\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica \u00e9 uma ruptura da rela\u00e7\u00e3o entre humanos e a t\u00e9cnica produzida na cria\u00e7\u00e3o de um determinado objeto, como essa ruptura \u00e9 vivenciada por corpos historicamente marcados pelo colonialismo?<\/p>\n<p>Em uma das suas principais obras, Os Modos de Exist\u00eancia dos Objetos T\u00e9cnicos, Simondon j\u00e1 apresenta sua quest\u00e3o principal logo de in\u00edcio: de que os objetos t\u00e9cnicos possuem um modo de exist\u00eancia, isto \u00e9, os objetos que criamos n\u00e3o s\u00e3o apenas instrumentos passivos, mas possuidores de ag\u00eancia.<\/p>\n<p>Pensemos, por exemplo, no celular. Ele nos aparece frequentemente apenas como um objeto de consumo individual. No entanto, a sua exist\u00eancia envolve uma s\u00e9rie de rela\u00e7\u00f5es conectadas.<\/p>\n<p>Por exemplo, a extra\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria do cobalto na Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo, as cadeias globais de montagem, semicondutores em pa\u00edses como Taiwan e \u00cdndia, os algoritmos de intelig\u00eancia artificial desenvolvidos no Vale do Sil\u00edcio e, no fim do ciclo, as toneladas de lixo eletr\u00f4nico descartadas em pa\u00edses do Sul Global, alimentando a pr\u00f3pria crise clim\u00e1tica e ambiental.<\/p>\n<p>A aliena\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica ocorre justamente quando ignoramos tudo isso e enxergamos apenas o uso imediato e, ao mesmo tempo, desaparecem todas as rela\u00e7\u00f5es que tornam esse objeto poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, Simondon considera a rela\u00e7\u00e3o de aliena\u00e7\u00e3o do trabalhador em rela\u00e7\u00e3o ao trabalho, mas sobretudo ele considera que a modernidade criou uma rela\u00e7\u00e3o contradit\u00f3ria com a t\u00e9cnica que seria uma esp\u00e9cie de fratura cultural, ontol\u00f3gica e relacional com os objetos.<\/p>\n<p>Cultural porque a nossa sociedade separa o conhecimento t\u00e9cnico do conhecimento human\u00edstico; ontol\u00f3gica porque impede de compreender a t\u00e9cnica como uma forma de exist\u00eancia; e sobretudo relacional porque altera a maneira como n\u00f3s, humanos, nos relacionamos consigo mesmo e com os seus mundos.<\/p>\n<p><strong>Rodrigo Fessel Sega:<\/strong><br \/>\nPara entender esse conceito de aliena\u00e7\u00e3o, vale voltar brevemente aos escritos de Karl Marx. Nos Manuscritos Econ\u00f4mico-Filos\u00f3ficos de 1844, Marx parte de uma quest\u00e3o bastante concreta: o trabalhador produz algo, uma mercadoria, mas aquilo que ele produz aparece diante dele como uma for\u00e7a que lhe \u00e9 estranha.<\/p>\n<p>A aliena\u00e7\u00e3o aparece na rela\u00e7\u00e3o do trabalhador com o pr\u00f3prio trabalho. Aquilo que ele produz deixa de aparecer como uma express\u00e3o da sua pr\u00f3pria atividade e passa a existir como algo separado e estranho a ele. O trabalhador produz o mundo, mas n\u00e3o necessariamente reconhece a si mesmo naquilo que produz. Aquilo que deveria expressar a criatividade e a pot\u00eancia humana aparece como algo externo, aut\u00f4nomo e, em determinadas condi\u00e7\u00f5es, dominante.<\/p>\n<p>E aqui est\u00e1 o grande diferencial da an\u00e1lise da Elena: ela articulou at\u00e9 agora, de forma muito criativa, a teoria do fil\u00f3sofo franc\u00eas Gilbert Simondon para expandir esse debate.<\/p>\n<p>Se Marx nos permite perguntar o que acontece quando o trabalhador perde a rela\u00e7\u00e3o com o pr\u00f3prio trabalho e com aquilo que produz, o Simondon nos permite perguntar o que acontece quando a sociedade perde a rela\u00e7\u00e3o com os pr\u00f3prios objetos que produz tecnicamente.<\/p>\n<p>O objeto t\u00e9cnico aparece como uma coisa pronta, fechada e destinada ao uso, enquanto, como mostrou muito bem a Elena, desaparecem os conhecimentos, as rela\u00e7\u00f5es, os processos e os materiais que constitu\u00edram sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a aliena\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica \u00e9 uma aliena\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria cultura t\u00e9cnica. N\u00f3s produzimos objetos cada vez mais complexos, mas podemos nos tornar cada vez menos capazes de compreender como eles existem, como funcionam e quais rela\u00e7\u00f5es humanas e materiais est\u00e3o condensadas neles.<\/p>\n<p>O som que voc\u00ea ouviu na abertura deste epis\u00f3dio vem direto de uma mina de cobalto na Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo. Voc\u00ea j\u00e1 tinha se perguntado qual \u00e9 o som da mat\u00e9ria-prima que faz o seu celular funcionar? Consegue imaginar quem s\u00e3o as pessoas que trabalham nessas minas?<\/p>\n<p>Essa paisagem sonora \u00e9 parte fundamental da exist\u00eancia dos nossos objetos t\u00e9cnicos, mas costuma ser completamente apagada do nosso cotidiano. \u00c9 justamente sobre isso que a Elena vai comentar a seguir: as viol\u00eancias coloniais que reduziram os corpos negros a mercadorias, propriedades e ferramentas de trabalho.<\/p>\n<p><strong>Elena de Medeiros Batista:<\/strong><br \/>\nDito isso, eu retomo a pergunta que fiz anteriormente, em que tem a inten\u00e7\u00e3o de propor um di\u00e1logo com a perspectiva decolonial, que \u00e9: como essa ruptura com a mat\u00e9ria dos objetos e a t\u00e9cnica atravessam os corpos historicamente marcados pelo colonialismo?<\/p>\n<p>Precisamos olhar para a trajet\u00f3ria de Frantz Fanon nesse caso. Nascido na Martinica em 1925, o psiquiatra produziu uma obra situada no contexto de emancipa\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses que eram colonizados ali na regi\u00e3o do Caribe.<\/p>\n<p>Em 1952, ele publica um livro super importante chamado Peles Negras, M\u00e1scaras Brancas, focado no impacto ps\u00edquico do racismo na linguagem, na aliena\u00e7\u00e3o do negro no contexto antilhano e franc\u00eas.<\/p>\n<p>Anos depois, em 1961, j\u00e1 no fim de vida, ele lan\u00e7a Os Condenados da Terra, expandindo essa an\u00e1lise para uma viol\u00eancia estrutural da guerra, da liberta\u00e7\u00e3o nacional e as pr\u00e1xis pol\u00edticas das col\u00f4nias.<\/p>\n<p>Se essa discuss\u00e3o sobre aliena\u00e7\u00e3o frequentemente parte da ideia de que o ser humano constr\u00f3i sua ess\u00eancia e sua liberdade atrav\u00e9s do trabalho e da a\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica e dial\u00e9tica com o mundo, Fanon nos lembra que o sujeito negro sofreu uma fratura radical nessa pr\u00f3pria possibilidade de exist\u00eancia.<\/p>\n<p>A grande reflex\u00e3o de Fanon \u00e9 que, na estrutura colonial, as pessoas negras foram historicamente reduzidas a mercadorias, vistas e tratadas como meros objetos. Elas nunca foram alienadas porque foram transformadas em propriedade, em bens de uso cuja a \u00fanica fun\u00e7\u00e3o era a capacidade f\u00edsica de produzir e reproduzir.<\/p>\n<p>Um exemplo n\u00edtido disso no contexto brasileiro era o papel das amas de leite, nas quais a dimens\u00e3o biol\u00f3gica, materna e afetiva do corpo negro foi capturada para servir como uma ferramenta \u00fatil da casa-grande.<\/p>\n<p>Por isso, a aliena\u00e7\u00e3o colonial n\u00e3o \u00e9 meramente econ\u00f4mica, mas abriga uma dimens\u00e3o fundamental que \u00e9 a dimens\u00e3o ontol\u00f3gica.<\/p>\n<p>O sujeito negro \u00e9 permanentemente colocado diante de uma imagem produzida pelo olhar colonial e passa a ser interpretado por signos impostos como o de inferioridade, a desumaniza\u00e7\u00e3o das pessoas negras e a incapacidade e aus\u00eancia de racionalidade das pessoas negras.<\/p>\n<p>A aliena\u00e7\u00e3o acontece porque o sujeito \u00e9 separado da possibilidade de existir a partir da sua pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o consigo, uma dimens\u00e3o ps\u00edquica importante na constru\u00e7\u00e3o da no\u00e7\u00e3o ps\u00edquica de eu, de self, e da nossa rela\u00e7\u00e3o com o mundo.<\/p>\n<p>Essa tentativa foi uma forma de sobreviver a uma estrutura dominada pela branquitude em que Fanon passa a perceber que esse processo se d\u00e1 atrav\u00e9s da m\u00e1scara colonial.<\/p>\n<p>Se em Simondon a aliena\u00e7\u00e3o reduz o objeto t\u00e9cnico a um mero utens\u00edlio de consumo sem hist\u00f3ria, em Fanon n\u00f3s aprendemos como o colonialismo operou algo ainda mais violento, que foi reduzir o pr\u00f3prio corpo negro a um objeto t\u00e9cnico e de uso, confiscando a sua humanidade, a sua linguagem e a sua dimens\u00e3o ps\u00edquica.<\/p>\n<p>Portanto, sintetizando o que discutimos at\u00e9 aqui, a grande ponte entre Simondon e Fanon est\u00e1 na necessidade de avivar as nossas rela\u00e7\u00f5es materiais e imateriais, vivas e n\u00e3o vivas.<\/p>\n<p>Se Simondon nos alerta para a urg\u00eancia de superar a aliena\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica ao resgatar a cultura dos objetos e a nossa rela\u00e7\u00e3o com a mat\u00e9ria, Fanon nos mostra que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel falar da t\u00e9cnica sem falar da pol\u00edtica de ra\u00e7a e da coloniza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>A verdadeira supera\u00e7\u00e3o da aliena\u00e7\u00e3o, tanto a t\u00e9cnica quanto a colonial, exige em devolver ao corpo a sua dignidade e a sua capacidade inventiva.<\/p>\n<p>Pensar essa converg\u00eancia a partir do Sul Global \u00e9 um convite para desnaturalizarmos tanto o consumo passivo das tecnologias dos objetos quanto a captura de corpos.<\/p>\n<p>\u00c9 sobre integrar a t\u00e9cnica \u00e0 dimens\u00e3o pol\u00edtica e a subjetividade na produ\u00e7\u00e3o do nosso pr\u00f3prio conhecimento.<\/p>\n<p><strong>Rodrigo Fessel Sega:<\/strong><br \/>\nEsperamos que voc\u00ea tenha gostado dessa nossa discuss\u00e3o. Este epis\u00f3dio foi produzido e editado por mim, Rodrigo Fessel Sega.<\/p>\n<p>A trilha sonora \u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o autoral de Arthur Prado do Prado. O \u00e1udio utilizado neste epis\u00f3dio est\u00e1 na descri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Voc\u00ea pode acompanhar o LASPA no Instagram @laspa.unicamp e no site laspa.ifch.unicamp.br.<\/p>\n<p>Este podcast integra o projeto de jornalismo cient\u00edfico financiado pela Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo, a FAPESP, e conta com o apoio do Departamento de Sociologia da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp.<\/p>\n<p>At\u00e9 o pr\u00f3ximo VocabuLaSPA!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Epis\u00f3dio [8]: Aliena\u00e7\u00e3o \u2013 por Elena de Medeiros Batista (17\/08\/2026). Como falar de aliena\u00e7\u00e3o a partir de Gilbert Simondon e Franz Fanon? O que \u00e9 a aliena\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e a cultura dos objetos? Como conectar essa discuss\u00e3o com ra\u00e7a e aliena\u00e7\u00e3o colonial? O epis\u00f3dio de hoje recebe a Elena de Medeiros Batista que prop\u00f5e um criativo debate sobre aliena\u00e7\u00e3o, t\u00e9cnica [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":15,"featured_media":3601,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[407],"tags":[],"class_list":["post-3596","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-vocabulaspa"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/IMAGEM-ELENA-scaled.png","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3596","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/15"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3596"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3596\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3602,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3596\/revisions\/3602"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3601"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3596"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3596"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3596"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}