{"id":358,"date":"2021-04-16T02:10:37","date_gmt":"2021-04-16T02:10:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=358"},"modified":"2021-04-16T02:10:37","modified_gmt":"2021-04-16T02:10:37","slug":"a-vida-de-laboratorio-latour-e-woolgar-1997-1988","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2021\/04\/16\/a-vida-de-laboratorio-latour-e-woolgar-1997-1988\/","title":{"rendered":"A vida de laborat\u00f3rio (Latour e Woolgar 1997 [1988])"},"content":{"rendered":"<p>LATOUR, Bruno; WOOLGAR, Steve. 1997. <em>A vida de laborat\u00f3rio: a produ\u00e7\u00e3o dos fatos cient\u00edficos<\/em>. (Trad. Angela R. Vianna) Rio de Janeiro: Relume Dumar\u00e1. [1988]<\/p>\n<p><strong>:::::::::: CAP\u00cdTULO 1 &#8211; A ETNOGRAFIA DAS CI\u00caNCIAS :.<\/strong><\/p>\n<p><strong>WOOLGAR:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Ap\u00f3s <strong>dois anos <\/strong>de presen\u00e7a ininterrupta no cora\u00e7\u00e3o deste laborat\u00f3rio, <strong>uni-me, na hora de redigir, a Steve Woolgar<\/strong>, soci\u00f3logo ingl\u00eas que concluia uma tese sobre a descoberta dos pulsar (Woolgar, 1978) e que se apaixonara pela etnometodologia, assim como pelo problema da reflexividade (Woolgar, 1976a, b). Decidimos redigir em conjunto esta primeira etnografia de um laborat\u00f3rio. (Latour; Woolgar 1997:17)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ETNOGRAFIA DO CENTRO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Centenas de etn\u00f3logos visitaram todas as tribos imagin\u00e1veis, penetraram florestas profundas, repertoriaram os costumes mais ex\u00f3ticos, fotografaram e documentaram as rela\u00e7\u00f5es familiares ou os cultos mais complexos. E, no entanto, nossa ind\u00fastria, nossa t\u00e9cnica, nossa ci\u00eancia, nossa administra\u00e7\u00e3o permanecem bem pouco estudadas. Expulsos do campo na \u00c1frica, na Am\u00e9rica Latina ou na \u00c1sia, os etn\u00f3logos s\u00f3 se sentem capazes de estudar, em nossas sociedades, o que \u00e9 mais parecido com os campos que acabavam de deixar: as artes e tradi\u00e7\u00f5es populares, a bruxaria, as representa\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas, os camponeses, os marginais de todos os tipos, os guetos. \u00c9 com temor e escr\u00fapulo que avan\u00e7am em nossas cidades. Chegando ao cerne delas, estudam a sociabilidade dos habitantes, mas n\u00e3o analisam as coisas feitas pelos urbanistas, pelos engenheiros do metr\u00f4 ou pela c\u00e2mara municipal; quando penetram de salto alto em uma f\u00e1brica, estudam os oper\u00e1rios, que ainda se parecem um pouco com os pobres ex\u00f3ticos e mudos que os etn\u00f3logos t\u00eam o h\u00e1bito de sufocar sob seus coment\u00e1rios, mas n\u00e3o os engenheiros e os patr\u00f5es. T\u00eam um pouco mais de coragem quando se trata da medicina, reputada como uma ci\u00eancia &#8220;mole&#8221;. Mesmo neste caso, contudo, eles estudam de prefer\u00eancia a <em>etno<\/em>medicina ou as medicinas paralelas. Os m\u00e9dicos pr\u00f3priamente ditos, as medicinas centrais n\u00e3o s\u00e3o objeto de qualquer estudo meticuloso. Nem falemos da biologia, da f\u00edsica, das matem\u00e1ticas. <strong>Ci\u00eancia da periferia, a antropologia n\u00e3o sabe voltar-se para o centro<\/strong>. [&#8230;] Ao levantar nossa bibliografia, percebemos que n\u00e3o havia um \u00fanico livro, nem mesmo um \u00fanico artigo que descrevesse <strong>a pr\u00e1tica cient\u00edfica <em>de primeira m\u00e3o, independentemente do que os pr\u00f3prios cientistas pudessem dizer<\/em><\/strong><em>, e que fosse sim\u00e9trica em suas explica\u00e7\u00f5es, redefinindo tamb\u00e9m as no\u00e7\u00f5es vagas das ci\u00eancias humanas<\/em>. (Latour e Woolgar 1997:17-8)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>DESCONFIAN\u00c7A METODOL\u00d3GICA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O que sabemos da sociedade, de seu funcionamento, de sua pr\u00e1tica? Muito pouca coisa, uma vez que os soci\u00f3logos trabalham com question\u00e1rios e entrevistas, e que os mestres da  observa\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, os etn\u00f3grafos, nunca estudam as sociedades complexas, industriais, centrais e modemas. Muito cedo percebemos que, <strong>para ultrapassar os limites da literatura que nos precedia, seria preciso n\u00e3o acreditar nos cientistas<\/strong> &#8211; o que \u00e9 bem f\u00e1cil-<strong>, mas tamb\u00e9m n\u00e3o acreditar nos soci\u00f3logos<\/strong>, o que \u00e9 mais \u00e1rduo. (Latour e Woolgar 1997:22)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>SIMETRIZA\u00c7\u00c3O DE BLOOR (o verdadeiro e o falso):<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A <strong>doutrina de Bloor <\/strong>\u00e9 l\u00edmpida mesmo quando exige praticamente o abandono de toda filosofia da ci\u00eancia: ou <strong>as explica\u00e7\u00f5es sociais<\/strong>, psicol\u00f3gicas, econ\u00f4micas s\u00e3o usadas apenas para explicar por que um cientista enganou-se, e ent\u00e3o elas n\u00e3o t\u00eam valor, ou <strong>devem ser empregadas simetricamente, de modo a explicar por que esse cientista errou e por que aquele outro acertou<\/strong>. Fazer sociologia para compreender por que os franceses acreditam na astrologia, mas n\u00e3o para compreender por que eles acreditam na astronomia, isso e assim\u00e9trico. Fazer sociologia para entender o medo que os franceses t\u00eam do \u00e1tomo, mas n\u00e3o faz\u00ea-la para a descoberta do \u00e1tomo pelos f\u00edsicos nucleares, isso \u00e9 assim\u00e9trico (Latour, 1985). Ou bem \u00e9 poss\u00edvel fazer uma antropologia do verdadeiro, assim como do falso, do cient\u00edfico, como do pr\u00e9-cient\u00edfico, do central, como do perif\u00e9rico, do presente, como do passado, ou ent\u00e3o \u00e9 absolutamente in\u00fatil dedicar-se \u00e0 antropologia, que nunca passaria de um meio perverso de desprezar os vencidos, dando a impress\u00e3o de respeit\u00e1-los, como o mui ilustre O pensamento selvagem, de L\u00e9vi-Strauss (1962). (Latour e Woolgar 1997:23)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>SIMETRIZA\u00c7\u00c3O DE LATOUR (o natural e o social):<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A no\u00e7\u00e3o de simetria implica, para n\u00f3s, algo mais do que para Bloor: <strong>cumpre n\u00e3o somente tratar nos mesmos termos os vencedores e os vencidos da hist\u00f3ria das ci\u00eancias, mas tamb\u00e9m tratar igualmente e nos mesmos termos a natureza e a sociedade<\/strong>. [&#8230;] O trabalho de campo que aqui apresentamos \u00e9, por conseguinte, duas vezes sim\u00e9trico: <strong>aplica-se ao verdadeiro e ao falso, esfor\u00e7a-se por reelaborar a constru\u00e7\u00e3o da natureza e da sociedade<\/strong>. (Latour e Woolgar 1997:24)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O ESPECIALISTA E O ETN\u00d3GRAFO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Essa ideia de que um <strong>bacharel <\/strong>em ci\u00eancias exatas pode falar com maior intimidade sobre o mundo da pesquisa do que um <strong>observador <\/strong>que nele se imiscuiu durante v\u00e1rios anos \u00e9 claramente um <strong>preconceito <\/strong>que derrubamos sem o menor pesar. (Latour e Woolgar 1997:27)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O PROBLEMA DA ETNOMETODOLOGIA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A etnometodologia \u00e9 o nome desse movimento de rea\u00e7\u00e3o contra o abuso, em sociologia, da metalinguagem que recobre o que os atores sociais dizem e fazem na pr\u00e1tica (Bernes e Law, 1976; Garfinkel, 1967; Lynch, 1982, 1985a, 1985b; Woolgar, 1983). Em lugar de imputar aos atores sociais, a cada vez, interesses, c\u00e1lculos, classes, h\u00e1bitos, estruturas, supondo-os marionetes da sociedade, a etnometodologia quer esvaziar a sociologia de toda a sua metalinguagem e quer tomar o ator e sua pr\u00e1tica como o \u00fanico soci\u00f3logo competente. Entre o soci\u00f3logo falastr\u00e3o e o ator, \u00e9 melhor confiar no ator. Entre o soci\u00f3logo que p\u00f5e ordem e o ator que acrescenta desordem, \u00e9 melhor confiar no ator [&#8230;]. <strong>Nossa regra de higiene &#8211; n\u00e3o usar o discurso dos cientistas para explicar o que fazem &#8211; parece estar em contradi\u00e7\u00e3o com a etnometodologia<\/strong>. Exigimos uma profunda desconfian\u00e7a com rela\u00e7\u00e3o aos nossos informantes no pr\u00f3prio momento em que, em outros lugares, tanto na antropologia ex\u00f3tica como na sociologia, o informante est\u00e1 plenamente reabilitado. (Latour e Woolgar 1997:28)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>SIMETRIA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A acusa\u00e7\u00e3o de relativismo ou de autocontradi\u00e7\u00e3o s\u00f3 \u00e9 pesada para aqueles que acham que a verdade se enfraquece quando dela se faz uma constru\u00e7\u00e3o ou um relato. N\u00f3s, que s\u00f3 buscamos os materiais dessa constru\u00e7\u00e3o e a natureza dos relatos, <strong>consideramo-nos em igualdade de condi\u00e7\u00f5es com aqueles que estudamos<\/strong>. Eles contam, n\u00f3s contamos, eles experimentam, n\u00f3s experimentamos, <strong>eles constroem, n\u00f3s constru\u00edmos<\/strong>. As diferen\u00e7as vir\u00e3o depois. Estaremos, portanto, t\u00e3o atentos \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o de nossos pr\u00f3prios relatos quanto aos relatos dos cientistas. (Latour e Woolgar 1997:30-1)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O TERRIT\u00d3RIO E A REDE:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A grande diferen\u00e7a entre a etnografia cl\u00e1ssica e a das ci\u00eancias reside no fato de que o campo da primeira confunde-se com um territ\u00f3rio, enquanto o da segunda toma a forma de uma rede. (Latour e Woolgar 1997:31)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>DROS\u00d3FILA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O laborat\u00f3rio que escolhemos estudar \u00e9 a dros\u00f3fila da filosofia das ci\u00eancias. Alguns caracteres interessantes encontram-se a\u00ed exagerados, como para favorecer os des\u00edgnios do observador. (Latour e Woolgar 1997:31)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Nosso laborat\u00f3rio \u00e9 uma dros\u00f3fila ideal para estudar o trabalho emp\u00edrico, mas n\u00e3o se pode contar com ele para aprender muito sobre a constru\u00e7\u00e3o e as teorias. (Latour e Woolgar 1997:33)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A QUEST\u00c3O CENTRAL (como \u00e9 feito um fato):<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[U]ma \u00fanica quest\u00e3o antropol\u00f3gica domina este relato: <strong>como a objetividade que n\u00e3o tem a sociedade por origem \u00e9 produzida por essa sociedade? <\/strong>Para falar como Bachelard, <strong>como o feito um fato? <\/strong>Para falar como Serres (1987), como o objeto chega ao coletivo? Para falar como Shapin e Schaffer (1985), como a pol\u00edtica da experi\u00eancia produz uma experi\u00eancia infinitamente distante de toda pol\u00edtica. Para dizer como Bloor, como o conte\u00fado emerge de seu contexto? \u00c9 unicamente com rela\u00e7\u00e3o a essa quest\u00e3o diversamente formulada que se deve julgar os limites desta primeira pesquisa de campo. (Latour e Woolgar 1997:34)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>LEITOR TATEANTE:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O leitor deve apreender o conte\u00fado e o contexto no mesmo movimento. Como o pr\u00f3prio etn\u00f3grafo, ele deve <strong>penetrar \u00e0s apalpadelas <\/strong>na selva dos fatos, sem possuir mapa ou b\u00fassola. (Latour e Woolgar 1997:34)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>:::::::::: CAP\u00cdTULO 2: VISITA DE UM ANTROP\u00d3LOGO AO LABORAT\u00d3RIO :.<\/strong><\/p>\n<p><strong>A QUEST\u00c3O DA METALINGUAGEM:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Se, para saber o que \u00e9 a ci\u00eancia na sua pr\u00e1tica, adot\u00e1ssemos a vers\u00e3o que dela d\u00e3o os cientistas, ir\u00edamos aprender muito pouco: o observador apenas iria <strong>macaquear um cientista <\/strong>que serve de guia a uma visita no laborat\u00f3rio. (Latour e Woolgar 1997:36)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O OBSERVADOR:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O observador ocupa, portanto, uma posi\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria entre a do novi\u00e7o (caso ideal inexistente) e a do membro da equipe (quanto mais ele se integra, menos consegue se comunicar produtivamente com a comunidade de seus colegas observadores). \u00c9 prov\u00e1vel que, em certos est\u00e1gios de avan\u00e7o de sua pesquisa, o observador experimente uma tend\u00eancia irresist\u00edvel com rela\u00e7\u00e3o a um ou a outro dos extremos. Ser\u00e1 preciso, no entanto, que ele escolha um <strong>princ\u00edpio organizador<\/strong> capaz de lhe fomecer uma vis\u00e3o do laborat\u00f3rio suficientemente diferente daquela que os cientistas t\u00eam, mas que tamb\u00e9m possa <strong>interessar tanto aos bi\u00f3logos quanto aos leigos<\/strong>. Esse princ\u00edpio organizador deve ser o fio de Ariadne que guia o observador no labirinto em que reinam o caos e a confus\u00e3o. (Latour e Woolgar 1997:36-7)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A MESA: <\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A mesa surge como o <strong>eixo central <\/strong>de nossa unidade de produ\u00e7\u00e3o, uma vez que \u00e9 sobre ela que se fabricam novos esbo\u00e7os de artigos, por justaposi\u00e7\u00e3o dos dois tipos de literatura: a que vem do exterior e a produzida no laborat\u00f3rio. (Latour e Woolgar 1997:40)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ESCRITA e REGISTRO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Enquanto os que trabalham nos escrit\u00f3rios dedicam-se a escrever novos textos, o resto do laborat\u00f3rio parece <strong>um enxame fervilhando de escrita<\/strong>. M\u00fasculos seccionados, feixes luminosos e at\u00e9 mesmo peda\u00e7os de papel absorvente acionam aparelhos de registro, que produzem as inscri\u00e7\u00f5es, pontos de partida da escrita dos pesquisadores. (Latour e Woolgar 1997:44)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>INSCRITORES:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Iremos mais precisamente designar com este voc\u00e1bulo [&#8220;inscritores&#8221;] todo elemento de uma montagem ou toda combina\u00e7\u00e3o de aparelhos capazes de <strong>transformar uma subst\u00e2ncia material em uma figura <\/strong>ou em um diagrama diretamente utiliz\u00e1veis por um daqueles que pertencem ao espa\u00e7o do &#8220;escrit\u00f3rio&#8221;. (Latour e Woolgar 1997:44)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><strong>A no\u00e7\u00e3o de inscritor \u00e9 sociol\u00f3gica por sua pr\u00f3pria natureza<\/strong>. Ela permite descrever toda <strong>uma s\u00e9rie de atividades <\/strong>que se desenvolvem no interior do laborat\u00f3rio, sem que nos tenhamos que preocupar com a <strong>grande diversidade de material<\/strong>. Por exemplo, um &#8220;bioteste de TRF&#8221; conta como <em>um<\/em> \u00fanico inscritor, embora ocupe cinco pessoas durante tr\u00eas semanas e se espalhe por v\u00e1rias pe\u00e7as de um laborat\u00f3rio. Seu tra\u00e7o distintivo \u00e9 produzir, ao final de um percurso, uma figura. (Latour e Woolgar 1997:45 nota 5)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>A no\u00e7\u00e3o de inscritor tem uma conseq\u00fc\u00eancia essencial: ela estabelece uma <strong>rela\u00e7\u00e3o direta com a &#8220;subst\u00e2ncia <\/strong>original&#8221;. As discuss\u00f5es sobre a propriedade da subst\u00e2ncia t\u00eam como foco o esquema ou a curva. A atividade que separa essas duas etapas e os processos &#8211; por vezes longos e caros &#8211; que elas desencadearam ficam ocultados quando se discute o significado dos dados obtidos. (Latour e Woolgar 1997:45)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Apesar de sua diversidade (bioteste, testes <em>in vitro<\/em> e <em>in vivo<\/em>, testes diretos e indiretos, testes radioimunol\u00f3gicos e bio1\u00f3gicos), todas essas atividades est\u00e3o fundadas no mesmo <strong>princ\u00edpio <\/strong>(Rodgers, 1974). <strong>Um aparelho de registro <\/strong>(mi\u00f3grafo, computador gama ou simples papel milimetrado) <strong>\u00e9 ligado a um organismo <\/strong>(c\u00e9lula, m\u00fasculo ou animal inteiro)<strong>, que pode, desse modo, produzir um tra\u00e7o facilmente leg\u00edvel<\/strong>. Administra-se no organismo em quest\u00e3o uma subst\u00e2ncia, cujo efeito, para fins de controle, \u00e9 conhecido. O efeito produzido sobre o organismo \u00e9 inscrito, e seu tra\u00e7o serve como marca. Administra-se em seguida uma subst\u00e2ncia desconhecida, cujo efeito tamb\u00e9m \u00e9 registrado. <strong>Resulta da\u00ed uma <em>diferen\u00e7a<\/em> entre os dois tra\u00e7os<\/strong>, diferen\u00e7a <strong>sobre a qual se podem emitir ju\u00edzos <\/strong>a partir de uma percep\u00e7\u00e3o direta (&#8220;s\u00e3o as mesmas&#8221;, &#8220;uma sobe&#8221;, &#8220;h\u00e1 um pico&#8221;). Interpreta-se a diferen\u00e7a detectada, no caso de ela existir, como o sinal de uma &#8220;atividade&#8221; da subst\u00e2ncia desconhecida. (Latour e Woolgar 1997:55)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>A forma pela qual os inscritores s\u00e3o utilizados no laborat\u00f3rio distingue- se por um tra\u00e7o essencial: uma vez que se disp\u00f5e do produto final &#8211; a inscri\u00e7\u00e3o -, rapidameme \u00e9 esquecido o conjunto das etapas intermedi\u00e1rias que tornaram poss\u00edvel sua produ\u00e7\u00e3o. A aten\u00e7\u00e3o concentra- se sobre os esquemas ou figuras, enquanto s\u00e3o esquecidos os procedimentos materiais que lhes deram nascimento, ou melhor, h\u00e1 um acordo para releg\u00e1-los ao dom\u00ednio da pura t\u00e9cnica. Desse modo, acaba-se, em primeiro lugar, por considerar as inscri\u00e7\u00f5es como indicadores diretos da subst\u00e2ncia que constitui o objeto de estudo. (Latour e Woolgar 1997:60)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Na realidade, o laborat\u00f3rio distingue-se pela configura\u00e7\u00e3o particular dos aparelhos que chamamos de inscritores. O que os torna t\u00e3o importantes \u00e9 o fato de que nenhum dos fen\u00f4menos &#8220;aos quais eles se referem&#8221; poderia existir sem eles. [&#8230;] Na verdade, os fen\u00f4menos dependem do material, eles s\u00e3o totalmente constitu\u00eddos pelos instrumentos utilizados no laborat\u00f3rio. Construiu-se, com a ajuda dos inscritores, uma realidade artificial, da qual os atores falam como se fosse uma entidade objetiva. Essa realidade, que Bachelard (1953) chama de &#8220;fen\u00f4menot\u00e9cnica&#8221;, toma a apar\u00eancia do fen\u00f4meno no pr\u00f3prio processo de sua constru\u00e7\u00e3o pelas t\u00e9cnicas materiais. (Latour e Woolgar 1997:61)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>MITOLOGIA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O termo &#8220;mitologia&#8221; n\u00e3o tem qualquer conota\u00e7\u00e3o pejorativa. Cumpre entend\u00ea-lo como um quadro de refer\u00eancia no sentido amplo, no interior do qual se podem localizar as atividades e as pr\u00e1ticas de uma cultura particular (Barthes, 1957). (Latour e Woolgar 1997:48)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>LABORAT\u00d3RIO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O laborat\u00f3rio apr\u00f3pria-se do gigantesco potencial produzido por dezenas de outros dom\u00ednios de pesquisa, tomando emprestado um saber bem instituido e incorporando-o sob a forma de uma aparelhagem ou de uma seq\u00fc\u00eancia de manipula\u00e7\u00f5es. (Latour e Woolgar 1997:66)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>A cadeia de acontecimentos \u00e0 qual toda curva deve sua exist\u00eancia \u00e9 muito longa para que um observador, t\u00e9cnico ou pesquisador dela se recordem. E, no entanto, cada uma das etapas \u00e9 crucial: caso seja omitida ou mal desempenhada, todo o processo \u00e9 reduzido a nada. (Latour e Woolgar 1997:67)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>QUEST\u00c3O LANCINANTE: <\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[P]or que um milh\u00e3o e meio de do\u00f3lares (1975) s\u00e3o gastos por ano para permitir que 25 pessoas escrevam cerca de quarenta artigos? (Latour e Woolgar 1997:69)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>OS DOIS OBJETIVOS DO LABORAT\u00d3RIO DE NEUROENDOCRINOLOGIA DE LATOUR:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[N]osso laborat\u00f3rio tem dois objetivos principais: a purifica\u00e7\u00e3o de subst\u00e2ncias naturais e a fabrica\u00e7\u00e3o de an\u00e1logas de subst\u00e2ncias conhecidas. (Latour e Woolgar 1997:69)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Quando o observador dividiu o or\u00e7amento anual do laborat\u00f3rio pelo n\u00famero de artigos publicados (com exce\u00e7\u00e3o dos artigos puramente de divulga\u00e7\u00e3o), p\u00f4de calcular que o custo de produ\u00e7\u00e3o de um artigo chegava a 60 mil d\u00f3lares, em 1975, e 30 mil d\u00f3lares, em 1976. Mercadoria bastante cara! As despesas parecem exageradas quando os artigos n\u00e3o t\u00eam impacto. Ao contr\u00e1rio, parecem at\u00e9 baratas quando eles t\u00eam implica\u00e7\u00f5es essenciais para a pesquisa fundamental ou aplicada. (Latour e Woolgar 1997:73)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ITEM:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Usamos o termo &#8220;item&#8221; para designar os diferentes tipos de materiais publicados: artigos, resumos, confer\u00eancias etc. (Latour e Woolgar 1997:73 nota 17)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A INSCRI\u00c7\u00c3O E O FATO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A fun\u00e7\u00e3o da inscri\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria \u00e9 conseguir persuadir os leitores, mas estes s\u00f3 ficam plenamente convencidos quando todas as fontes de persuas\u00e3o parecem j\u00e1 ter desaparecido. Em outras palavras, os atores consideram que as diversas opera\u00e7\u00f5es de escrita e de leitura que ap\u00f3iam um argumento n\u00e3o correspondem aos &#8220;fatos&#8221;, puros produtos dessas mesmas opera\u00e7\u00f5es. H\u00e1, portanto, uma congru\u00eancia essencial entre um &#8220;fato&#8221; e o sucesso do andamento dos diversos processos de inscri\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Deste modo, um texto ou um enunciado podem ser lidos como &#8220;contendo&#8221; um fato, ou &#8221;&#8217;estando submetidos&#8221; a um fato, quando os leitores t\u00eam a convic\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o h\u00e1 debate a esse respeito e de que os processos de inscri\u00e7\u00e3o foram esquecidos. (Latour e Woolgar 1997:76-7)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ENUNCIADOS DE TIPO 5:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Os enunciados referentes a um fato tido como adquirido foram chamados enunciados de <em>tipo 5<\/em>. Nosso observador notou que, precisamente porque eram tomados como adquiridos, esses enunciados nunca surgiam nas discuss\u00f5es entre os membros do laborat\u00f3rio, exceto quando os novatos pediam que se explicasse de onde eles tinham sa\u00eddo. Quanto maior a ignor\u00e2ncia do novato, mais o informante deve penetrar profundamente nas camadas do conhecimento impl\u00edcito, e mais se avan\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o ao passado. Al\u00e9m de um determinado ponto, o novato, que ir\u00e1 levantar quest\u00f5es incessantes sobre &#8220;coisas que todo mundo sabe&#8221;, ser\u00e1 considerado socialmente incapaz. (Latour e Woolgar 1997:77-8)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ENUNCIADOS DE TIPO 4:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Embora a rela\u00e7\u00e3o apresentada no enunciado n\u00e3o esteja sob quest\u00e3o, ela \u00e9 claramente expressa, ao contr\u00e1rio dos enunciados do <em>tipo 5<\/em>. Essa classe de enunciados \u00e9 muitas vezes considerada como prot\u00f3tipo de uma afirma\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. (Latour e Woolgar 1997:78)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ENUNCIADOS DE TIPO 3:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Eles cont\u00eam enunciados sobre outros enunciados, e a isso nosso observador qualifica como modalidades. Quando se subtraem as modalidades caracter\u00edsticas dos enunciados de <em>tipo 3<\/em>, \u00e9 poss\u00edvel obter enunciados de <em>tipo 4<\/em>, que s\u00f3 possuem como modalidade o nome de seu enunciador. (Latour e Woolgar 1997:79)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>MODALIDADE:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>No sentido l\u00f3gico tradicional, &#8220;modalidade&#8221; \u00e9 uma proposi\u00e7\u00e3o que modifica ou qualifica um predicado. Em sentido mais moderno, modalidade designa todo enunciado sobre um outro enunciado (Ducrot e Todorov, 1972). (Latour e Woolgar 1997:79 nota 19)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ENUNCIADO DE TIPO 2:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Nosso observador tem a impress\u00e3o de que os enunciados desse tipo [2] aproximam-se mais de <em>afirma\u00e7\u00f5es<\/em> do que de fatos aceitos. A impress\u00e3o surge porque as modalidades que acompanham as express\u00f5es das rela\u00e7\u00f5es de base parecem atrair a aten\u00e7\u00e3o para circunst\u00e2ncias que afetam essa relal\u00e7\u00e3o de base. [&#8230;] Mais precisamente, os enunciados de <em>tipo 2<\/em> s\u00e3o aqueles que cont\u00eam modalidades nas quais se insiste sobre a generalidade dos dados de que se disp\u00f5e (ou n\u00e3o). As rela\u00e7\u00f5es de base s\u00e3o em seguida embutidas em apelos ao &#8220;que \u00e9 geralmente conhecido&#8221;, ou &#8220;ao que se pode razoavelmente pensar que acontece&#8221;. Nos enunciados de <em>tipo 2<\/em> as modalidades por vezes tomam a forma de hip\u00f3teses poss\u00edveis que devem ser sistematicamente testadas por pesquisas posteriores, de modo a elucidar o valor da relal\u00e7\u00e3o estudada. (Latour e Woolgar 1997:80)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ENUNCIADOS DE TIPO 1:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Finalmente, os enunciados de <em>tipo 1<\/em> cont\u00eam conjecturas ou especula\u00e7\u00f5es (sobre uma rela\u00e7\u00e3o) que figuram geralmente ao final dos artigos ou em conversas privadas (Latour e Woolgar 1997:80)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ENUNCIADO DE TIPO 6:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Pode-se, al\u00e9m disso, acrescentar um <em>tipo 6<\/em>, que corresponde aos fatos de tal modo tornados t\u00e1citos, de tal modo incorporados na pr\u00e1tica, que nem chegam a constituir objeto de uma formula\u00e7\u00e3o explicita, mesmo quando s\u00e3o ignorados. (Latour e Woolgar 1997:81)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>GRAU DE FACTICIDADE DE UM ENUNCIADO (de 1 a 6):<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Em um plano geral, parece plaus\u00edvel que as mudan\u00e7as de tipo de enunciado correspondam \u00e0s mudan\u00e7as de facticidade. Mas no plano da verifica\u00e7\u00e3o emp\u00edrica, esse esquema geral esbarra em algumas dificuldades. (Latour e Woolgar 1997:81)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>AUMENTANDO OU DIMINUINDO O GRAU DE FACTICIDADE DE UM ENUNCIADO: <\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Mas, para atingirmos nossos objetivos, basta notar que a mudan\u00e7a de tipo de enunciado oferece a <em>possibilidade<\/em> de modificar o grau de facticidade dos enunciados. Mesmo que, para cada inst\u00e2ncia particular, estejamos impossibilitados de especificar, sem ambig\u00fcidade, a dire\u00e7\u00e3o da mudan\u00e7a de facticidade, ainda permanece aberta a possibilidade de que estas mudan\u00e7as <em>correspondam<\/em> \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es de tipo de enunciado. (Latour e Woolgar 1997:82)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>FORMA-CONTE\u00daDO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Embora n\u00e3o tenha compreendido muita coisa do conte\u00fado dos arrigos que lera, ele construiu uma t\u00e9cnica gramatical simples, que lhe permite diferenciar os tipos de enunciado. Este era um meio de se aproximar da subst\u00e2ncia dos enunciados cient\u00edficos sem se ver obrigado a recorrer aos pesquisadores para pedir esclarecimentos ou ajuda. Al\u00e9m do mais, como as mudan\u00e7as de forma gramatical dos enunciados dos cientistas oferecem a possibilidade de mudar seu conte\u00fado (ou seu grau de facticidade), o observador p\u00f4de descrever a atividade do laborat\u00f3rio como uma luta constante para criar e fazer aceitar certos tipos particulares de enunciado. (Latour e Woolgar 1997:82-3)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O OBJETIVO DO LABORAT\u00d3RIO (transforma\u00e7\u00e3o de enunciados):<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A atividade do laborat\u00f3rio transforma enunciados de um tipo em outro. O objetivo desse jogo \u00e9 criar tantos enunciados de <em>tipo 4<\/em> quanto for possivel, de modo a fazer face a uma variedade de press\u00f5es que tendem a mergulhar as assertivas em modalidades que ir\u00e3o transform\u00e1-las em artefatos. Em resumo, o objetivo \u00e9 persuadir os colegas a deixar de lado todas as modalidades utilizadas com uma assertiva particular e faz\u00ea-los aceitar e retomar essa assertiva como um fato estabelecido, de prefer\u00eancia citando o artigo no qual ela aparece. (Latour e Woolgar 1997:83)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>OBJETIVA\u00c7\u00c3O:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Em termos simples, os membros do laborat\u00f3rio aceitam melhor o fato de que uma inscri\u00e7\u00e3o esteja relacionada, sem ambig\u00fcidade, a uma subst\u00e2ncia que pertence ao mundo &#8220;exterior&#8221; (<em>out there<\/em>) quando conseguem encontrar uma outra inscri\u00e7\u00e3o similar a ela. Do mesmo modo, quando os outros reconhecem um enunciado similar, isso desempenha um papel importante na aceita\u00e7\u00e3o de um enunciado. A combina\u00e7\u00e3o de dois ou mais enunciados aparentemente similares concretiza a exist\u00eancia de um objeto exterior ou de uma condi\u00e7\u00e3o objetiva da qual esses enunciados s\u00e3o considerados como indicadores. (Latour e Woolgar 1997:86)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Pode acontecer tamb\u00e9m que nossos pesquisadores rejeitem um pico sobre um espectro de um cromat\u00f3grafo, atribuindo-o a um ru\u00eddo de fundo. Mas quando ele aparece mais de uma vez (em circunst\u00e2ncias consideradas independentes), a tend\u00eancia \u00e9 reconhecer a presen\u00e7a de uma subst\u00e2ncia da qual esse pico \u00e9 um ind\u00edcio. Quando v\u00e1rios enunciados e v\u00e1rias informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o superpostos de maneira que todos os enunciados estejam relacionados com alguma coisa que se situa fora ou al\u00e9m da subjetividade do leitor ou do autor, pode-se dizer que se chegou a um &#8220;objeto&#8221;. Do mesmo modo, quando se introduz &#8211; ou melhor, <em>re<\/em>introduz &#8211; um la\u00e7o entre a subjetividade do autor e a produ\u00e7\u00e3o de um enunciado, pode-se diminuir o grau de facticidade deste mesmo enunciado. No laborat\u00f3rio, chegam-se a &#8220;objetos&#8221; superpondo-se v\u00e1rios documentos produzidos por diversos inscritores do pr\u00f3prio laborat\u00f3rio, ou artigos que emanam dos pesquisadores extemos ao laborat\u00f3rio (ver cap\u00edtulo 4). Nenhum enunciado pode ser emitido sem refer\u00eancia a documentos existentes. Esses enunciados est\u00e3o portanto carregados de documentos e de modalidades que constituem seu aval. Por conseguinte, as modalidades gramaticais (&#8220;talvez&#8221;, &#8220;definitivamente estabelecidos&#8221;, &#8220;improv\u00e1vel&#8221;, &#8220;n\u00e3o confirmado&#8221;) agem muitas vezes como se estivessem conferindo um pre\u00e7o aos enunciados, ou, para utilizar uma analogia mec\u00e2nica, agem como a express\u00e3o do <em>peso<\/em> de um enunciado. Ao acrescentar ou suprimir n\u00edveis de documentos, os pesquisadores aumentam ou diminuem o alcance de um enunciado, e seu <em>peso<\/em> modifica-se proporcionalmente. (Latour e Woolgar 1997:86-7)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>OBJETO e OBJETIVIDADE no LABORAT\u00d3RIO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Utiliza-se aqui a no\u00e7\u00e3o de &#8220;objeto&#8221; porque ela tem uma raiz comum com a &#8220;objetividade&#8221;. O fato de que um enunciado dado seja objetivo ou subjetivo n\u00e3o pode ser determinado fora do contexto do laborat\u00f3rio. Este trabalho tem exatamente por finalidade construir um objeto sobre o qual se pode afirmar que existe al\u00e9m de qualquer subjetividade (ver cap\u00edtulo 4). Como diz Bachelard, &#8220;a ci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 objetiva, ela \u00e9 projetiva&#8221;. (Latour e Woolgar 1997:87 nota 20)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>OPERA\u00c7\u00d5ES ENUNCIAT\u00d3RIAS:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Armado com a no\u00e7\u00e3o de opera\u00e7\u00f5es entre (e sobre) enunciados na literatura, nosso observador readquire confian\u00e7a em sua capacidade de compreender a organiza\u00e7\u00e3o dos artigos. (Latour e Woolgar 1997:88)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>REFERENCIALIZA\u00c7\u00c3O E OBJETIVA\u00c7\u00c3O:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Dessa acumula\u00e7\u00e3o de refer\u00eancias destaca-se um efeito de objetividade: o &#8220;fato&#8221; de que &#8220;a subst\u00e2ncia sint\u00e9tica B iniba GH nos ratos&#8221; pode ser considerado pelo leitor como independente da subjetividade do autor, e, portanto, como fato digno de cr\u00e9dito. (Latour e Woolgar 1997:89)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>RECEP\u00c7\u00c3O:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O SCI revela que, entre 1974 e 1977, o artigo foi objeto de 62 cita\u00e7\u00f5es explicitas em 53 outros artigos. Dentre estes, 31 simplesmente s\u00f3 levavam em conta a conclus\u00e3o (ou seja, que a subst\u00e2ncia sint\u00e9tica B inibe GH, assim como a subst\u00e2ncia natural atua sobre o rato) como um fato, e dela se utilizavam na introdu\u00e7\u00e3o; oito artigos estavam apenas interessados nas opera\u00e7\u00f5es de\u00f4nticas descritas ao final do artigo original e retomavam a sugest\u00e3o de que era necess\u00e1rio desenvolver trabalhos complementares; dois artigos do mesmo autor citavam o original como uma confirma\u00e7\u00e3o de seus trabalhos anteriores; e quatro artigos usavam novos dados para confirmar o enunciado original. Um \u00fanico artigo formulava d\u00favidas sobre o teste utilizado para a elabora\u00e7\u00e3o de uma das figuras mencionadas no quinto enunciado (&#8220;h\u00e1 diverg\u00eancias entre seus resultados e os nossos&#8221;). O artigo que analisamos forneceu temas para toda uma s\u00e9rie de opera\u00e7\u00f5es presentes nos artigos posteriores. O peso que ele tem depende, ao mesmo tempo, do uso que fez da literatura precedente, dos inscritores, dos documentos, dos enunciados, assim como das rea\u00e7\u00f5es que provocou. (Latour e Woolgar 1997:90)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O LABORAT\u00d3RIO COMO F\u00c1BRICA DE FATOS:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Os pesquisadores de um laborat\u00f3rio passam seu tempo efetuando opera\u00e7\u00f5es sobre enunciados: acr\u00e9scimos de modalidades, cita\u00e7\u00f5es, aprimoramentos, subtra\u00e7\u00f5es, empr\u00e9stimos, proposi\u00e7\u00e3o de novas combina\u00e7\u00f5es. Cada uma dessas opera\u00e7\u00f5es pode resultar em um enunciado diferente ou mais apropriado. Por sua vez, cada enunciado toma-se um foco de aten\u00e7\u00e3o para o desenvolvimento de opera\u00e7\u00f5es similares em outros laborat\u00f3rios. \u00c9 assim que os membros da equipe ordenam conscienciosamente o que acontece<br \/>\ncom seus pr\u00f3prios enunciados: como s\u00e3o rejeitados, tomados de empr\u00e9stimo, citados, ignorados, confirmados ou suprimidos pelos outros. Certos laborat\u00f3rios desencadeiam uma intensa atividade de manipula\u00e7\u00e3o de enunciados que, em outros lugares, eram vistos como relativamente inertes. [&#8230;] No centro desse movimento browniano, constituiu-se um fato. Este \u00e9 um acontecimento relativamente raro. Mas quando ele se produz, o enunciado integra-se ao estoque das aquisi\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, desaparecendo silenciosamente das preocupa\u00e7\u00f5es da atividade cotidiana dos pesquisadores. O fato \u00e9 incorporado aos manuais universit\u00e1rios, ou, por vezes, torna-se a ossatura de um novo aparelho. Diz-se freq\u00fcentemente que esses fatos s\u00e3o os reflexos condicionados dos &#8220;bons&#8221; cientistas, ou que s\u00e3o parte integrante da &#8220;l\u00f3gica do racioc\u00ednio&#8221;. (Latour e Woolgar 1997:90-1)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>O antrop\u00f3logo sustenta obstinadamente que eles s\u00e3o escritores e leitores que buscam se convencer e convencer aos outros. Se, de in\u00edcio, esse ponto de vista parecia est\u00e9ril, quando n\u00e3o absurdo, agora parece bem mais razo\u00e1vel. Trata-se, para os atores, de convencer os leitores de artigos (e dos esquemas e figuras que deles fazem parte) a aceitar seus enunciados como se fossem fatos. Foi com essa finalidade que sangraram e decapitaram ratos, esfolaram r\u00e3s, consumiram produtos qu\u00edmicos, gastou-se tempo. Foi por isso que se constru\u00edram carreiras, enquanto outras se desfizeram, que se fabricaram e acumularam inscritores no laborat\u00f3rio. Com sua teimosia imperturb\u00e1vel, nosso antrop\u00f3logo observador resistiu \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de se deixar convencer pelos fatos. Isso levou-o a ver na atividade do laborat\u00f3rio uma organiza\u00e7\u00e3o da persuas\u00e3o pela inscri\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. (Latour e Woolgar 1997:92)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>:::::::::: CAP\u00cdTULO 3 &#8211; A CONSTRU\u00c7\u00c3O DE UM FATO: O CASO DO TRF(H) :.<\/strong><\/p>\n<p><strong>COMO SE CONSTR\u00d3I UM FATO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Em resumo, por meio de que processos chega-se a eliminar o contexto social e hist\u00f3rico de que depende a constru\u00e7\u00e3o de um fato? Para responder a essa quest\u00e3o, iremos nos restringir a um caso concreto: a constru\u00e7\u00e3o de um fato particular. E iremos determinar onde se situam, no processo de constru\u00e7\u00e3o de um fato, o momento e o lugar preciso da transforma\u00e7\u00e3o pela qual o enunciado toma-se fato, liberando-se assim das circunst\u00e2ncias de sua produ\u00e7\u00e3o. (Latour e Woolgar 1997:101)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A HIST\u00d3RIA DO A-HIST\u00d3RICO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Quando se pretende escrever a hist\u00f3ria de um fato, esbarra-se em uma dificuldade essencial: ele perdeu, por defini\u00e7\u00e3o, qualquer referencial hist\u00f3rico. (Latour e Woolgar 1997:102)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CONSTRU\u00c7\u00c3O SOCIAL:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Nosso estudo da g\u00eanese do TRF tem como objetivo fomecer o pano de fundo para os cap\u00edtulos seguintes, explicar a influ\u00eancia que o laborat\u00f3rio desempenha e o cr\u00e9dito que ele pode reclamar para si, e refor\u00e7ar o ponto de vista de que os fatos brutos s\u00e3o perfeitamente compreens\u00edveis em termos de sua constru\u00e7\u00e3o social. (Latour e Woolgar 1997:103)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>M\u00c9TODO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>\u00c9 essencial &#8211; para evitar um desvio de nosso objetivo sociol\u00f3gico e para n\u00e3o cair em um dos principais truques da an\u00e1lise hist\u00f3rica anteriormente citados &#8211; n\u00e3o partir de um conhecimento qualquer do que &#8220;realmente \u00e9 o TRF(H)&#8221;. Come\u00e7amos, portanto, especificando os diversos sentidos da palavra TRF(H) segundo o contexto em que \u00e9 utilizada. (Latour e Woolgar 1997:104)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>REDE:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Quando definimos uma rede como um conjunto de posi\u00e7\u00f5es nas quais um objeto como o TRF adquire um significado, fica evidente que a facticidade de um objeto \u00e9 relativa apenas para uma rede ou para redes particulares. \u00c9 f\u00e1cil avaliar a extens\u00e3o de uma rede. Basta indagar quantos s\u00e3o os que conhecem o significado do termo TRF(ou TRH). (Latour e Woolgar 1997:104)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Deste modo, o TRF adquire um significado extremamente diferente segundo a rede particular de indiv\u00edduos para os quais ele se dirige. (Latour e Woolgar 1997:106)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Mesmo um fato bem institu\u00eddo perde o sentido quando separado de seu contexto. (Latour e Woolgar 1997:107)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>A situa\u00e7\u00e3o ainda \u00e9 complicada porque as redes diferem entre si no espa\u00e7o e no tempo. (Latour e Woolgar 1997:107)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>NOISE GATE:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O fato de utilizar em um teste uma subst\u00e2ncia bem caracterizada, em vez de uma fra\u00e7\u00e3o impura, permite aos pesquisadores eliminar uma das in\u00fameras vari\u00e1veis desconhecidas em a\u00e7\u00e3o (ver cap\u00edtulo 4). O TRF tem, portanto, nesses artigos, uma fun\u00e7\u00e3o de instrumento, no sentido de que poupa uma preocupa\u00e7\u00e3o ao pesquisador, ou, dito de outro modo, poupa-lhe uma fonte de ru\u00eddo. (Latour e Woolgar 1997:106)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>TRANSI\u00c7\u00c3O DE REDES:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Em 1970, o TRH desloca-se de uma rede a outra. Entre 1962 e 1970, 64 artigos foram publicados por um grupo de menos de 25 pessoas que tratavam exclusivamente do isolamento do TRH, e n\u00e3o de seus modos de a\u00e7\u00e3o. Depois de 1970, o TRH aparece em artigos assinados por um n\u00famero bem maior de autores. A intera\u00e7\u00e3o entre as redes \u00e9 evidente pela perman\u00eancia das cita\u00e7\u00f5es de alguns artigos anteriores a 1970, depois que aconteceu a grande virada. [&#8230;] A transi\u00e7\u00e3o de uma rede a outra pode tamb\u00e9m ser vista pela mudan\u00e7a de autoria dos artigos cujos t\u00edtulos mencionam o TRH. Antes de 1970, quase todos eram de neuroendocrin\u00f3logos que tentavam isolar a subst\u00e2ncia ou estudar seus modos de a\u00e7\u00e3o (ver cap\u00edtulo 2). Depois disso, os autores passaram a vir de diversas \u00e1reas afins. [&#8230;] Esses tr\u00eas fatores (n\u00famero de artigos publicados, modelos das cita\u00e7\u00f5es e especialidade dos autores) indicam que os atores dividem-se em duas comunidades: os da \u00e1rea e os de fora dela. (Latour e Woolgar 1997:108)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>TRANSI\u00c7\u00c3O ENTRE REDES E CONSTRU\u00c7\u00c3O DO FATO: <\/strong><\/p>\n<blockquote><p>As quest\u00f5es centrais abordadas neste cap\u00edtulo s\u00e3o saber como e por que essa transi\u00e7\u00e3o ocorreu. (Latour e Woolgar 1997:109)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>BASE SOCIAL DA CI\u00caNCIA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Os crit\u00e9rios epistemol\u00f3gicos de validade ou falsidade s\u00e3o insepar\u00e1veis da no\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica de tomada de decis\u00e3o. (Latour e Woolgar 1997:121)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>RETOMANDO O ARGUMENTO DESTE CAP\u00cdTULO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Ap\u00f3s ter identificado as diferentes redes nas quais o TRF adquire sentido e de ter apresentado sua \u00e1rea de formula\u00e7\u00e3o, descrevemos a transi\u00e7\u00e3o que deu nascimento ao campo do TRF e \u00e0 subordina\u00e7\u00e3o da fisiologia \u00e0 qu\u00edmica, decorrente de um novo imperativo da pesquisa: &#8220;obter a estrutura a qualquer pre\u00e7o&#8221;. A nova estrat\u00e9gia aumentou ao mesmo tempo o custo do programa e ampliou as regras de trabalho de pesquisa. Os neuroendocrin\u00f3logos em seu conjunto reconheceram a validade do programa financiado por organismos de pesquisa norte-americanos. A nova estrat\u00e9gia provocou, contudo, a elimina\u00e7\u00e3o dos trabalhos das equipes concorrentes do Jap\u00e3o, da Tchecoslov\u00e1quia e da Inglaterra. Agora iremos nos interessar pelo campo do TRF propriamente dito. (Latour e Woolgar 1997:126)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A G\u00caNESE DO OBJETO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>De um ponto de vista puramente etnogr\u00e1fico, o objeto resultava, no in\u00edcio, da superposi\u00e7\u00e3o de dois picos obtidos por meio de v\u00e1rias tentativas. Em outros termos, ele foi constru\u00eddo a partir da diferen\u00e7a entre picos de duas curvas. Vamos explicitar isso descrevendo brevemente o processo que permitiu que se chegasse \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de um novo objeto. (Latour e Woolgar 1997:127)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CONCRETIZA\u00c7\u00c3O GRADUAL DO OBJETO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Encara- se de maneira mais s\u00e9ria a eventualidade da presen\u00e7a da nova subst\u00e2ncia anunciada quando uma mesma fra\u00e7\u00e3o persiste provocando a mesma atividade. Em outros termos, os crit\u00e9rios de repeti\u00e7\u00e3o e de similaridade s\u00e3o suficientes para que ocorra o an\u00fancio. Em seguida, atribui-se a essa fra\u00e7\u00e3o qualidades coerentes, e o nome (TRF) come\u00e7a a ganhar corpo. Mesmo nessas condi\u00e7\u00f5es, as profissionais evitam afirmar categoricamente que a subst\u00e2ncia em quest\u00e3o \u00e9 mesmo o TRF. (Latour e Woolgar 1997:128)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CONSTRU\u00c7\u00c3O GRADUAL DO OBJETO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[I]nsistimos na import\u00e2ncia de n\u00e3o &#8220;reificar&#8221; o processo de afirma\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de uma subst\u00e2ncia. Pode-se dizer que um objeto s\u00f3 existe como diferen\u00e7a entre duas inscri\u00e7\u00f5es. Em outras palavras, um objeto n\u00e3o passa de um sinal que se distingue do ru\u00eddo de fundo geral do campo e do ru\u00eddo produzido pelos instrumentos. Coisa ainda mais importante: a extra\u00e7\u00e3o de um sinal e o reconhecimento de seu car\u00e1ter distintivo dependem do procedimento dificultoso e caro que \u00e9 posto em opera\u00e7\u00e3o para que se disponha de uma base est\u00e1vel para o bioteste. Esse empreendimento s\u00f3 pode ter resultados gra\u00e7as \u00e0 m\u00e3o de ferro de um pesquisador que controlava a organiza\u00e7\u00e3o das tarefas rotineiras e havia cuidado para que fossem tomadas todas as precau\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias ao bom desempenho da experi\u00eancia no laborat\u00f3rio. Mais uma vez, dizer que o TRF \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa p\u00f4r em d\u00favida sua solidez como fato. Indica que \u00e9 preciso levar em conta o procedimento, o lugar e a motiva\u00e7\u00e3o que contribu\u00edram para que esse fato fosse estabelecido. (Latour e Woolgar 1997:129)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>FAZER O FATO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Opusemos aos cientistas que sustentam a id\u00e9ia de que as inscri\u00e7\u00f5es podem ser representa\u00e7\u00f5es ou indicadores de uma subst\u00e2ncia &#8220;exterior&#8221; (<em>out there<\/em>) o argumento de que essas subst\u00e2ncias s\u00f3 eram constru\u00eddas pelo pr\u00f3prio uso das inscri\u00e7\u00f5es [MELHOR SERIA: &#8220;&#8230;essas subst\u00e2ncias eram constru\u00eddas apenas pelo pr\u00f3prio uso das inscri\u00e7\u00f5es&#8221;; &#8220;&#8230;we have argued that such entities were constituted solely through the use of these inscriptions&#8221; (Latour e Woolgar 1986:128]. N\u00e3o se trata simplesmente do fato de que as curvas indicam a presen\u00e7a de uma subst\u00e2ncia, mas sim de que as curvas que manifestam as subst\u00e2ncias apresentam diferen\u00e7as percept\u00edveis. Por esse motivo, abstivemo-nos de usar express\u00f5es como: &#8220;A subst\u00e2ncia foi descoberta por meio de um bioteste&#8221;, ou &#8220;verificou-se que o objeto resulta da identifica\u00e7\u00e3o de diferen\u00e7as entre dois picos&#8221;. Empregar tais express\u00f5es seria veicular a falsa impress\u00e3o de que certos objetos est\u00e3o presentes <em>a priori<\/em>, apenas esperando que algum s\u00e1bio queira revelar sua exist\u00eancia. N\u00e3o atribu\u00edmos absolutamente aos cientistas a inten\u00e7\u00e3o de utilizar estrat\u00e9gias como o desvelamento de verdades dadas e at\u00e9 ent\u00e3o dissimuladas. Na realidade, os objetos (neste caso, as subst\u00e2ncias) s\u00e3o constitu\u00eddos pelo talento criativo dos homens de ci\u00eancia. [&#8230;] Fica extremamente dif\u00edcil formular descri\u00e7\u00f5es de atividades cient\u00edficas que n\u00e3o geram a falsa impress\u00e3o de que a ci\u00eancia trata da descoberta (mais do que da criatividade e da constru\u00e7\u00e3o). (Latour e Woolgar 1997:131-2)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>S\u00d3CIO-L\u00d3GICAS:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>\u00c9 importante ter presente que, quando se diz que uma dedu\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 l\u00f3gica, quando se afirma que uma possibilidade l\u00f3gica foi afastada em nome de uma convic\u00e7\u00e3o, ou, ainda, quando se admite a possibilidade de outras dedu\u00e7\u00f5es subseq\u00fcentes, isso \u00e9 feito por meio de um recuo, e esse recuo estabelece um outro contexto, dentro do qual se pode avaliar o car\u00e1ter l\u00f3gico ou il\u00f3gico de uma dedu\u00e7\u00e3o. O conjunto das possibilidades alternativas que nos permitem avaliar o car\u00e1ter l\u00f3gico de uma dedu\u00e7\u00e3o \u00e9 sociologicamente (e n\u00e3o logicamente) determinado. \u00c9 por isso que fica mais elegante falar de s\u00f3cio-l\u00f3gicas. (Latour e Woolgar 1997:141)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O ESPECTR\u00d4METRO DE MASSA como CAIXA PRETA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O espectr\u00f4metro de massa \u00e9 uma caixa preta. Exatamente por isso, ele constitui a maior parte do car\u00e1ter &#8220;duro&#8221; do dom\u00ednio (ver cap\u00edtulo 6). O prot\u00f3tipo imponente dos anos trinta tornou-se um aparelho compacto e comum, contendo um computador que efetua a maioria das interpreta\u00e7\u00f5es iniciais. Foi aplicado \u00e0 qu\u00edmica org\u00e2nica durante 30 anos, e mais especificamente \u00e0 qu\u00edmica dos peptid\u00edos a partir de 1959. A extens\u00e3o de seu uso para os fatores de libera\u00e7\u00e3o representa apenas uma etapa relativamente pequena de sua hist\u00f3ria. Uma vez estipulada a estrat\u00e9gia de Guillemin, n\u00e3o se dispunha de qualquer outra prova final. A pot\u00eancia do equipamento reside no fato de que a inscri\u00e7\u00e3o (o espectro) \u00e9 obtida por contato direto do fluxo de el\u00e9trons com a amostra de mol\u00e9culas (Beynon, 1960). Embora o n\u00famero de media\u00e7\u00f5es seja muito grande (Bachelard, 1934), cada uma das indica\u00e7\u00f5es \u00e9 concebida como uma caixa preta e considerada como um elemento do cen\u00e1rio. Por conseguinte, o resultado final \u00e9 julgado n\u00e3o sujeito a controv\u00e9rsias. (Latour e Woolgar 1997:154 nota 13)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A VIRADA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Atingimos aqui uma virada na hist\u00f3ria do TRF. Nenhum pesquisador da disciplina diz mais que o TRF natural tem um espectro &#8220;similar a&#8221; Pyro-Glu-His-Pro-NH<sub>2<\/sub>, nem que o TRF era &#8220;como&#8221; um composto de s\u00edntese Pyro-Glu-His-Pro-NH<sub>2<\/sub>. Produziu-se uma mudan\u00e7a ontol\u00f3gica maior (ver cap\u00edtulo 4). Os atores passaram a dizer, desse momento em diante, que o TRF \u00e9 Pyro-Glu-His-Pro-NH<sub>2<\/sub>. O predicado tomou-se absoluto, todas as modalidades foram abandonadas e o nome qu\u00edmico tornou-se o nome de uma estrutura real. O estatuto do TRF foi imediatamente transformado: ele tornou-se fato, e passaram a se difundir express\u00f5es como: &#8220;Guillemin e Schally estabeleceram que o TRF \u00e9 Pyro-Glu-His-Pro-NH<sub>2<\/sub>.&#8221; (Latour e Woolgar 1997:155-6)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>:::::::::: CAP\u00cdTULO 4 &#8211; MICRO-SOCIOLOGIA DOS FATOS :.<\/strong><\/p>\n<p><strong>RETOMANDO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O primeiro contato com o laborat\u00f3rio nos permitiu estabelecer o papel central que nele desempenha a inscri\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Nele, s\u00e3o permanentemente produzidos documentos de natureza diversa, tendo por finalidade operar uma transforma\u00e7\u00e3o entre v\u00e1rios tipos de enunciados, transforma\u00e7\u00e3o que lhes confere ou subtrai o estatuto de fato cient\u00edfico. No cap\u00edtulo anterior examinamos historicamente a g\u00eanese de um fato particular e mostramos que o contexto do laborat\u00f3rio influi sobre o n\u00famero de enunciados altemativos que podem ser formulados. Um enunciado s\u00f3 adquire estatuto de fato em virtude da defasagem entre as duas redes de circula\u00e7\u00e3o. (Latour e Woolgar 1997:159)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>SOCIO-L\u00d3GICA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Propomos considerar o car\u00e1ter aparentemente l\u00f3gico do racioc\u00ednio apenas como uma parte de um fen\u00f4meno bem mais complexo, que Aug\u00e9 (1975) chama &#8220;pr\u00e1ticas de interpreta\u00e7\u00e3o&#8221; e que \u00e9 feito de negocia\u00e7\u00f5es locais, t\u00e1citas, de avalia\u00e7\u00f5es constantemente modific\u00e1veis, de gestos inconscientes ou institucionalizados. (Latour e Woolgar 1997:160)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>EMPIRISMO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Os observadores familiarizados com as no\u00e7\u00f5es que lhes foram fornecidas pelos epistem\u00f3logos julgam que seja f\u00e1cil identificar as inst\u00e2ncias do discurso cient\u00edfico na atividade pr\u00e1tica dos pesquisadores. E os pesquisadores parecem agir cientificamente, porque s\u00e3o pesquisadores. Essa \u00e9 uma tautologia. Nossa posi\u00e7\u00e3o consiste em afimar que, se existem essas diferen\u00e7as, sua exist\u00eancia deve ser demonstrada empiricamente. \u00c9 por isso que tentaremos evitar o uso de conceitos epistemol\u00f3gicos em nossa descri\u00e7\u00e3o da atividade cient\u00edfica. (Latour e Woolgar 1997:161)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>SEMI\u00d3TICA DA CI\u00caNCIA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Os semi\u00f3ticos v\u00eaem a ci\u00eancia como uma forma de discurso entre outras (Foucault, 1966), da qual um dos efeitos \u00e9 o &#8220;efeito de verdade&#8221; que (\u00e0 maneira de outros efeitos liter\u00e1rios) emerge a partir das caracter\u00edsticas textuais, como o tempo dos verbos, a estrutura do enunciado, as modalidades etc. A despeito das enormes diferen\u00e7as entre os estudos anglo-sax\u00f5es sobre o papel da indexicabilidade e os da semi\u00f3tica europ\u00e9ia continental, todo mundo est\u00e1 de acordo em negar ao discurso cient\u00edfico qualquer estatuto privilegiado. A ci\u00eancia n\u00e3o se caracteriza nem por sua capacidade de escapar da indexicabilidade, nem pela aus\u00eancia de dispositivos ret\u00f3ricos ou persuasivos. (Latour e Woolgar 1997:162-3 nota 2)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CR\u00cdTICA \u00c0 EPISTEMOLOGIA COMO SUBSTITUTA DE UMA SOCIOLOGIA DA CI\u00caNCIA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Em lugar de contentar-se em fazer demandas, Bloom formula seu pedido insistindo sobre a import\u00e2ncia da pesquisa. Dito de outro modo, as formula\u00e7\u00f5es epistemol\u00f3gicas ou em termos de avalia\u00e7\u00e3o da atividade cient\u00edfica s\u00e3o destinadas a resolver uma negocia\u00e7\u00e3o social. (Latour e Woolgar 1997:167)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Instead of simply asking for them, Flower casts his request in terms of the importance of the investigation. In other words, epistemological or evaluative formulations of scientific activity are being made to do the work of social negotiation. (Latour e Woolgar 1986:157)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>SOBRE A ESPECIFICIDADE SOCIOL\u00d3GICA DA ATIVIDADE CIENT\u00cdFICA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>For our present purposes, the most important characteristic of these kinds of exchange is that they are devoid of statements which are &#8220;objective&#8221; in the sense that they escape the influence of negotiation between participants. Moreover, there is no indication that such exchanges comprise a kind of reasoning process which is markedly different from those characteristic of exchanges in nonscientific settings. Indeed, for an observer, any presupposed difference between the quality of &#8220;scientific&#8221; and &#8220;commonsense&#8221; exchanges soon disappears. If, as this suggests, there are similarities between conversational exchanges in the laboratory and those which take place outside, it is possible that differences between scientific and common sense activity are best characterised by features other than differences in reasoning processes (see Ch. 6). (Latour e Woolgar 1986:158)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>O que, a nosso ver, caracteriza essencialmente essas trocas \u00e9 que elas s\u00e3o desprovidas de enunciados &#8220;objetivos&#8221;, no sentido de que eles escapam \u00e0 influ\u00eancia da negocia\u00e7\u00e3o entre os participantes. Al\u00e9m do mais, nada indica que esses interc\u00e2mbios ou trocas integrem um tipo de processo de racioc\u00ednio radicalmente diferente daqueles que caracterizam os interc\u00e2mbios em ambientes n\u00e3o cient\u00edficos. Se, como fica sugerido, h\u00e1 similitudes entre as trocas que tomam a forma de conversas no laborat\u00f3rio e aquelas que se passam no exterior, \u00e9 poss\u00edvel que as diferen\u00e7as entre a atividade cient\u00edfica e as de senso comum sejam melhor caracterizadas por outros aspectos que n\u00e3o os processos de racioc\u00ednio (ver cap\u00edtulo 6). (Latour e Woolgar 1997:167-8)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>DISPOSITIVO MATERIAL REAL &#8211; ACTUAL MATERIAL SETTINGS<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Os exemplos de conversas entre pesquisadores mostram que uma rede complexa de avalia\u00e7\u00f5es est\u00e1 presente em qualquer dedu\u00e7\u00e3o ou decis\u00e3o. No \u00faltimo exemplo, tratava-se de avaliar o n\u00edvel de exig\u00eancia da pr\u00e1tica profissional, as imposi\u00e7\u00f5es de tempo, a eventualidade de futuras controv\u00e9rsias e a urg\u00eancia relativa de interesses concomitantes de pesquisa. A abund\u00e2ncia de avalia\u00e7\u00f5es impede que se concebam processos de pensamento ou procedimentos de racioc\u00ednio que se desenvolveriam separadamente do dispositivo material real em que essas conversas aconteceram. Estudemos mais precisamente a maneira como esses diferentes tipos de preocupa\u00e7\u00e3o entram em jogo nos interc\u00e2mbios entre pesquisadores. (Latour e Woolgar 1997:170)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>TIPOLOGIA (n\u00e3o) EXAUSTIVA DOS INTERESSES QUE ENTRAM EM JOGO NAS DISCUSS\u00d5ES ENTRE PESQUISADORES<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Pode-se [&#8230;] discernir, embora de maneira preliminar, quatro tipos principais de trocas em conversas, cada qual correspondendo a uma nova s\u00e9rie de preocupa\u00e7\u00f5es expressas pelos atores. (Latour e Woolgar 1997:170-1)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>PRIMEIRO TIPO DE TROCA (exchange):<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>o primeiro tipo de troca faz refer\u00eancia aos &#8220;fatos conhecidos&#8221;. Raramente as discuss\u00f5es versam sobre fatos h\u00e1 muito estabelecidos: isso s\u00f3 acontece quando eles t\u00eam rela\u00e7\u00e3o com algum ponto de atualidade. \u00c9 mais freq\u00fcente a discuss\u00e3o de fatos conhecidos e recentemente comprovados. [&#8230;] \u00c9 claro que esse tipo de interc\u00e2mbio funciona como difus\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o, permitindo que os membros da equipe apelem continuamente para os conhecimentos e as habilidades uns dos outros, de modo a aumentar seus pr\u00f3prios conhecimentos e seu pr\u00f3prio grau de habilidade. Esses interc\u00e2mbios ajudam a reencontrar as pr\u00e1ticas, os artigos e as id\u00e9ias do passado que est\u00e3o ligados \u00e0s preocupa\u00e7\u00f5es do momento. (Latour e Woolgar 1997:171-2)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>SEGUNDO TIPO (conversa t\u00e9cnica):<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Quantos ratos devo usar para o controle?&#8221;, &#8220;Onde voc\u00ea p\u00f4s as amostras?&#8221; &#8220;Passe a pipeta&#8221;, &#8220;J\u00e1 aplicamos a inje\u00e7\u00e3o h\u00e1 dez minutos&#8221;. Trata-se de componentes verbais de um conjunto de trocas n\u00e3o-verbais que muitas vezes referem-se \u00e0 maneira correta de fazer as coisas. Essas trocas realizam-se entre t\u00e9cnicos, ou entre pesquisadores e t\u00e9cnicos (ou entre pesquisadores atuando como t\u00e9cnicos). Em sua forma mais elaborada, elas tratam da avalia\u00e7\u00e3o da confiabilidade deste ou daquele m\u00e9todo. (Latour e Woolgar 1997:172)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>As discuss\u00f5es t\u00e9cnicas n\u00e3o diferem intrinsecamente das outras; elas correspondem a uma determinada etapa e a certas press\u00f5es no interior do campo de controv\u00e9rsias. A transi\u00e7\u00e3o que Guillemin opera entre as quest\u00f5es te\u00f3ricas (&#8220;Como voc\u00ea explica esse organismo?&#8221;) e as quest\u00f5es t\u00e9cnicas gerais (&#8220;Que teste, voc\u00ea tentou?&#8221;) depende da confian\u00e7a que se deposita nos colegas. (Latour e Woolgar 1997:173 nota 5)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>TERCEIRO TIPO (quest\u00f5es te\u00f3ricas)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Com isso queremos dizer que n\u00e3o se fazia qualquer refer\u00eancia ao estado anterior dos conhecimentos, \u00e0 efic\u00e1cia relativa das diferentes t\u00e9cnicas ou a artigos ou pesquisadores em particular. [&#8230;] Se argumentarem que interpretamos uma discuss\u00e3o te\u00f3rica superestimando o ambiente, e que este \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o artificial, podemos responder que os cientistas passam seu tempo fazendo tal tipo de interpreta\u00e7\u00e3o quando avaliam seus programas de pesquisa. (Latour e Woolgar 1997:174-5)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>QUARTO TIPO (discuss\u00f5es sobre outros pesquisadores)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Por vezes trata-se de evocar lembran\u00e7as do que se fez no passado. Isso habitualmente acontece depois do almo\u00e7o, ou \u00e0 noite, quando se relaxa a tens\u00e3o do trabalho. Na maior parte das vezes, as conversas t\u00eam por objetivo avaliar o cr\u00e9dito dos indiv\u00edduos em particular. Elas freq\u00fcentemente acontecem durante a discuss\u00e3o de um argumento desenvolvido em um artigo. Em lugar de avaliar o enunciado nele mesmo, os atores tendiam a falar do autor e a explicar o enunciado em termos de estrat\u00e9gia social dos autores ou de suas caracter\u00edsticas psicol\u00f3gicas. [&#8230;] O autor de um enunciado conta tanto quanto o pr\u00f3prio enunciado (ver cap\u00edtulo 5). Em um certo sentido, essas discuss\u00f5es constituem uma sociologia e uma psicologia das ci\u00eancias complexas feitas pelos pr\u00f3prios atores. (Latour e Woolgar 1997:175-6)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>AGON\u00cdSTICA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Chamamos de &#8220;agon\u00edsticas&#8221; as rela\u00e7\u00f5es de concorr\u00eancia, de competi\u00e7\u00e3o, de estimula\u00e7\u00e3o, talvez de brincadeira e de colabora\u00e7\u00e3o. Essas rela\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o antagon\u00edsticas assim. O termo, importado da ret\u00f3rica, \u00e9 tamb\u00e9m empregado na neuroendocrinologia. (Latour e Woolgar 1997:177 nota 7)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>MICROPROCESSAMENTO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Cada pergunta de Guillemin antecipa uma obje\u00e7\u00e3o de fundo com rela\u00e7\u00e3o aos resultados do teste. A capacidade de responder ou de antecipar essas quest\u00f5es depende totalmente do contexto local. Em outros termos, era poss\u00edvel que o teste n\u00e3o fosse confi\u00e1vel, ou que os resultados fossem fruto da presen\u00e7a de uma outra subst\u00e2ncia. Os participantes dessa troca puseram-se, em seguida, a manipular figuras, a considerar obje\u00e7\u00f5es eventuais, a se perguntar sobre o valor de suas interpreta\u00e7\u00f5es de enunciados e sobre a validade das diferentes afirma\u00e7\u00f5es. Durante toda a discuss\u00e3o, n\u00e3o hesitaram em consultar um artigo e a retomar os argumentos a\u00ed expostos, de modo a evitar as armadilhas que podiam ser preparadas para eles, a elas opondo obje\u00e7\u00f5es de fundo. A l\u00f3gica deles n\u00e3o era a da dedu\u00e7\u00e3o intelectual. Correspondia antes \u00e0s pr\u00e1ticas profissionais de um grupo que se debatia para dominar todas as alternativas poss\u00edveis de se prever. Ao colocar em opera\u00e7\u00e3o esses microprocessos, eles tentavam orientar um enunciado rumo a uma dire\u00e7\u00e3o particular. (Latour e Woolgar 1997:178-9)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O DISCURSO e o ENUNCIADO CIENT\u00cdFICO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Todo discurso pode ser situado no centro das linhas de interse\u00e7\u00e3o e \u00e9 pass\u00edvel de mudan\u00e7as bruscas por interfer\u00eancia de qualquer s\u00e9rie de preocupa\u00e7\u00f5es aqui indicada. As s\u00e9ries principais s\u00e3o os fatos j\u00e1 constru\u00eddos (etapas 4 e 5), os principais atores que contribu\u00edram para a sua constru\u00e7\u00e3o, a s\u00e9rie de assertivas no processo de fabrica\u00e7\u00e3o (etapas 1 a 3), e, enfim, o corpo das pr\u00e1ticas e dos inscritores que permitem efetuar as opera\u00e7\u00f5es. Todo discurso, portanto, \u00e9 a integra\u00e7\u00e3o dessas in\u00fameras avalia\u00e7\u00f5es. \u00c9 nesse sentido que podemos dizer que um enunciado cient\u00edfico \u00e9 socialmente constru\u00eddo. (Latour e Woolgar 1997:180 Figura 4.1)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>RETOMANDO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Propomos ao leitor a seguir-nos no percurso do estudo do laborat\u00f3rio e, depois disso, no exame microssociol\u00f3gico de um fato isolado. Na se\u00e7\u00e3o precedente examinamos como os tra\u00e7os efetuados em conversas influem na constru\u00e7\u00e3o dos fatos. (Latour e Woolgar 1997:181)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>DA IMPOSSIBILIDADE DE UMA SOCIOLOGIA DO PENSAMENTO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O observador-soci\u00f3logo n\u00e3o poderia de modo algum demonstrar o car\u00e1ter social do pensamento, porque ele encontra-se impossibilitado de apresentar qualquer registro escrito do processo de pensamento. (Latour e Woolgar 1997:181)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>METODOLOGIA LATOURIANA E O PENSAMENTO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Uma das principais vantagens de nossa perspectiva sociol\u00f3gica \u00e9 que ela fundamenta-se sobre uma abund\u00e2ncia de documentos escritos: artigos, livros de registro, artigos de jornal, cartas e mesmo transcri\u00e7\u00f5es das conversas. \u00c0 medida que se disp\u00f5e desses documentos escritos, pode-se aplicar sobre eles os instrumentos da semi\u00f3tica, da exegese e da etnometodologia. \u00c0 primeira vista, contudo, os &#8220;processos de pensamento&#8221; n\u00e3o se prestam a esse tipo de tratamento. (Latour e Woolgar 1997:181 nota 8 )<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>SOCIOLOGIA DA INVEN\u00c7\u00c3O:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>\u00c9 uma anedota do tipo &#8220;um dia fulano teve uma ideia&#8221;, que se encontra com freq\u00fc\u00eancia &#8211; os historiadores da ci\u00eancia sabem disso &#8211; nos relatos de mem\u00f3ria dos homens de ci\u00eancia. O fato de observar que esta \u00e9 uma anedota tem uma conseq\u00fc\u00eancia importante. Mais do que se extasiar com o car\u00e1ter genial da ideia de Slovik e com a maravilhosa justeza de sua intui\u00e7\u00e3o, ser\u00e1 formulada uma vers\u00e3o diferente dessa descoberta, utilizando-se argumentos de ordem sociol\u00f3gica fundamentados sobre o material constitu\u00eddo pelas entrevistas. (Latour e Woolgar 1997:182)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>AS DUAS VERS\u00d5ES:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Por ora, observe-se que o fato de ter uma ideia (como conta a primeira vers\u00e3o) resume uma situa\u00e7\u00e3o material complicada. Uma vez estabelecido o la\u00e7o entre o teor de sel\u00eanio e o teste, todas as circunst\u00e2ncias concomitantes desaparecem. Ao transformar a segunda vers\u00e3o na primeira, o narrador transforma uma s\u00e9rie de circunst\u00e2ncias localizadas, heterog\u00eaneas e materiais (em que os fatores sociais s\u00e3o bem vis\u00edveis) na s\u00fabita emerg\u00eancia de uma ideia pessoal e abstrata, que n\u00e3o traz em si qualquer tra\u00e7o de constru\u00e7\u00e3o social. (Latour e Woolgar 1997:184-5)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A DETERMINA\u00c7\u00c3O SOCIAL DO DISCURSO (sociologia do pensamento)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Esse exemplo tende a indicar que nenbum processo de pensamento escaparia ao estudo dos soci\u00f3logos ou dos psic\u00f3logos. Queremos com isso dizer que as ideias e os processos de pensamento individuais resultam de uma forma particular de apresenta\u00e7\u00e3o e de simplifica\u00e7\u00e3o de toda uma s\u00e9rie de condi\u00e7\u00f5es sociais materiais e coletivas. Se o observador leva esse g\u00eanero de anedotas ao p\u00e9 da letra, ser\u00e1 dif\u00edcil ele mostrar o car\u00e1ter social da constru\u00e7\u00e3o de um fato. Se, ao contr\u00e1rio, trata-os como &#8220;contos&#8221; que obedecem a certas leis do &#8220;genero&#8221;, ele poder\u00e1 a um s\u00f3 tempo ampliar a an\u00e1lise da constru\u00e7\u00e3o de um fato e compreender a origem de certos relatos sobre as ideias e os pensamentos. (Latour e Woolgar 1997:185)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>A no\u00e7\u00e3o de ideia compreendida como resumo de uma s\u00e9rie de circunst\u00e2ncias que estaria de acordo com a cren\u00e7a na exist\u00eancia de um eu pensante deve muito \u00e0 maneira como Nietzsche trata a verdade cient\u00edfica. (Latour e Woolgar 1997:185 nota 20)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>The notion of ideas as a summarised account which enhances belief in the existence of a thinking self, owes much to Nietzsche&#8217;s (1974a; 1974b) treatment of scientific truth. (Latour e Woolgar 1997:185 nota 9)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>DIFICULDADE DE VULTO DA ETNOGRAFIA DA CI\u00caNCIA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A etnografia das ci\u00eancias v\u00ea-se diante de uma dificuldade de vulto: geralmente chega muito tarde ao teatro de opera\u00e7\u00f5es e fica reduzida a recolher as anedotas em que se relata retrospectivamente como uma ideia veio \u00e0 mente de um pesquisador. Essa dificuldade pode ser parcialmente superada quando se observa <em>in situ<\/em> a constru\u00e7\u00e3o de um novo enunciado e as anedotas que surgem depois de sua formula\u00e7\u00e3o. (Latour e Woolgar 1997:186)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ANALOGIA na CI\u00caNCIA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Percebeu-se que as conex\u00f5es l\u00f3gicas da forma &#8220;A e B&#8221; s\u00e3o apenas uma parte de uma familia de conex\u00f5es anal\u00f3gicas da forma &#8220;A me lembra B&#8221;, e &#8220;pode ser que A seja B&#8221;. Esse tipo de liame anal\u00f3gico revela-se particularmente heur\u00edstico em quest\u00e3o cient\u00edfica, a despeito de sua imprecis\u00e3o l\u00f3gica. (Latour e Woolgar 1997:188)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>FATO e PERFORMANCE:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A palavra [fato] tem duas acep\u00e7\u00f5es contradit\u00f3rias. De um lado, podemos tom\u00e1-la, na perspectiva quase antropol\u00f3gica que adotamos, no sentido etimol\u00f3gico: fato \u00e9 derivado da raiz <em>facere<\/em>, <em>factum<\/em> (fazer). De outro lado, um fato \u00e9 considerado proveniente de uma entidade objetiva independente, que, por conta de sua exterioridade, &#8220;<em>out-thereness<\/em>&#8220;, n\u00e3o pode ser modificado \u00e0 vontade e n\u00e3o pode ser mudado sob uma circunst\u00e2ncia qualquer. A tens\u00e3o entre um saber existente <em>a priori<\/em> e um saber criado pelos atores \u00e9 um tema que h\u00e1 bastante tempo preocupa os fil\u00f3sofos (Bachelard, 1953) e os soci\u00f3logos das ci\u00eancias. (Latour e Woolgar 1997:190)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>P\u00d3S-ILUMINISMO?<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>N\u00e3o basta mostrar que algo \u00e9 uma ilus\u00e3o, como aconselhava Kant. \u00c9 preciso tamb\u00e9m compreender por que a ilus\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria. (Latour e Woolgar 1997:191)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>OS AGENTES SABEM QUE OS FATOS S\u00c3O FEITOS:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Os pr\u00f3prios atores est\u00e3o sempre conscientes de que est\u00e3o engajados em um processo de constru\u00e7\u00e3o. (Latour e Woolgar 1997:191-15)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O FATO N\u00c3O PREEXISTE SUA CONSTRU\u00c7\u00c3O:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Tivemos o cuidado de mostrar que a maneira pela qual determinamos o ponto de estabiliza\u00e7\u00e3o &#8211; o momento em que o enunciado desembara\u00e7a-se de todos os determinantes de tempo e lugar e de qualquer refer\u00eancia \u00e0queles que o produziram, assim como ao processo de sua produ\u00e7\u00e3o &#8211; n\u00e3o depende de nossa hip\u00f3tese de que [n\u00e3o depende de que assumamos que; &#8220;did not depend on our assumption that&#8221; (p.176)] o &#8220;verdadeiro TRF&#8221; simplesmente estava esperando ser descoberto e acabou por se tornar vis\u00edvel em 1969. O TRF podia revelar-se um artefato. [&#8230;] O ponto de estabiliza\u00e7\u00e3o depende das condi\u00e7\u00f5es que prevalecem em um contexto particular. A estabiliza\u00e7\u00e3o de um enunciado faz com que ele perca qualquer refer\u00eancia ao processo de sua constru\u00e7\u00e3o. \u00c9 desse modo que se caracteriza a constru\u00e7\u00e3o de um fato. (Latour e Woolgar 1997:192)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>FATOS e ARTEFATOS:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Os fatos e os artefatos n\u00e3o correspondem a enunciados respectivamente verdadeiros e falsos. Os enunciados situam-se sobre um <em>continuum<\/em> em que sua posi\u00e7\u00e3o depende do grau em que eles apelam para as condi\u00e7\u00f5es de sua constru\u00e7\u00e3o. N\u00e3o queremos dizer que os fatos n\u00e3o s\u00e3o reais ou que eles s\u00e3o puramente artificiais. <em>N\u00e3o afirmamos apenas que os fatos s\u00e3o socialmente constru\u00eddos. Queremos mostrar tamb\u00e9m que o processo de constru\u00e7\u00e3o p\u00f5e em jogo a utiliza\u00e7\u00e3o de certos dispositivos<\/em> pelos quais fica muito dif\u00edcil detectar qualquer tra\u00e7o de sua produ\u00e7\u00e3o. (Latour e Woolgar 1997:192-3; it\u00e1licos no original)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>PROCESSO de CONCRETIZA\u00c7\u00c3O:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Os membros do laborat\u00f3rio n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de operar uma distin\u00e7\u00e3o dos enunciados entre os verdadeiros e os falsos, os objetivos e subjetivos, os bastante veross\u00edmeis ou os somente prov\u00e1veis no momento em que s\u00e3o formulados. Enquanto dura o processo agon\u00edstico, as modalidades s\u00e3o constantemente acrescentadas, suprimidas, invertidas ou modificadas. Mas uma vez que o enunciado come\u00e7a a estabilizar-se, produz-se uma importante mudan\u00e7a. O enunciado torna-se entidade cindida. De um lado, ele \u00e9 uma seq\u00fc\u00eancia de palavras que enunciam algo sobre um objeto. De outro, ele mesmo \u00e9 um objeto que anda com as pr\u00f3prias pernas. \u00c9 como se o enunciado de origem tivesse projetado uma imagem virtual dele mesmo, que existiria fora dele (Latour, 1980). Antes da estabiliza\u00e7\u00e3o, os cientistas ocupavam-se de enunciados. No momento em que ela se opera, aparecem ao mesmo tempo objetos e enunciado sobre esses objetos. Um pouco depois, atribui-se cada vez mais realidade ao objeto e h\u00e1 cada vez menos enunciados sobre o objeto. Produz-se, conseq\u00fcentemente, uma invers\u00e3o: o objeto torna-se a raz\u00e3o pela qual o enunciado foi formulado na origem. No come\u00e7o da estabiliza\u00e7\u00e3o o objeto \u00e9 a imagem virtual do enunciado; em seguida, o enunciado torna-se a imagem no espelho da realidade &#8220;exterior&#8221;. (Latour e Woolgar 1997:193)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>AS PALAVRAS E AS COISAS:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>N\u00e3o \u00e9 um grande milagre que os enunciados pare\u00e7am corresponder exatamente \u00e0s entidades externas: eles s\u00e3o uma \u00fanica e mesma coisa. (Latour e Woolgar 1997:194)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>AXIOMA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Afirmamos que o grau de correspond\u00eancia entre objetos e enunciados <em>prov\u00e9m da cis\u00e3o e da invers\u00e3o de um enunciado no interior do contexto do laborat\u00f3rio<\/em>. (Latour e Woolgar 1997:194; it\u00e1licos no original)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CI\u00caNCIA e FILOSOFIA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Os pr\u00f3prios cientistas passam um bom tempo perguntando-se se este ou aquele enunciado tem &#8220;verdadeiramente&#8221; rela\u00e7\u00e3o com um objeto &#8220;exterior&#8221;, se ele n\u00e3o \u00e9 um produto da imagina\u00e7\u00e3o ou um artefato, resultado dos procedimentos utilizados. \u00c9 por isso que n\u00e3o se pode dizer que os homens de ci\u00eancia ocupam-se dos temas cient\u00edficos deixando aos fil\u00f3sofos os debates entre realismo e relativismo. (Latour e Woolgar 1997:196)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>SOCIOLOGIA DESTOTALIZADORA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Para o soci\u00f3logo, \u00e9 uma tarefa importante mostrar que a constru\u00e7\u00e3o da realidade n\u00e3o deve ser ela pr\u00f3pria reificada. Isso pode ser demonstrado quando se consideram todas as etapas do processo de constru\u00e7\u00e3o da realidade e quando se resiste \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de fomecer uma explica\u00e7\u00e3o geral do fen\u00f4meno. (Latour e Woolgar 1997:196)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>An important task for the sociologist is to show that the construction of reality should not be itself reified. This can be shown by considering all stages of the process of reality construction and by resisting the temptation to provide a general explanation for the phenomenon. (Latour e Woolgar 1986:179)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ENTRE FATO e ARTEFATO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Quando o estatuto de um enunciado tende para um fato sob o impulso de uma s\u00e9rie de for\u00e7as agon\u00edsticas, h\u00e1 outras for\u00e7as que, ao contr\u00e1rio, tendem a fazer dele um artefato. Isso pode ser visto nos interc\u00e2mbios entre pesquisadores citados no in\u00edcio deste cap\u00edtulo. O estatuto local de um enunciado a todo instante depende da resultante dessas for\u00e7as (Figura 4.2). A observa\u00e7\u00e3o direta permite seguir o processo de forma\u00e7\u00e3o e de abandono de um dado enunciado: o que era visto como um &#8220;objeto exterior&#8221;, de repente \u00e9 qualificado como &#8220;pura cadeia de palavras&#8221;, &#8220;fic\u00e7\u00e3o&#8221; ou &#8220;artefato&#8221; (Latour, 1978). Observar a transforma\u00e7\u00e3o do estatuto de um enunciado de fato em artefato significa um trunfo da maior import\u00e2ncia: quando se consegue mostrar que o &#8220;efeito de verdade&#8221; da ci\u00eancia est\u00e1 submetido a um movimento de fluxo e refluxo, torna-se bem mais dif\u00edcil sustentar que o fato distingue-se do artefato, porque estaria fundado na realidade, enquanto o segundo artefato seria o mero produto das circunst\u00e2ncias locais ou de estados psicol\u00f3gicos. A distin\u00e7\u00e3o entre realidade e condi\u00e7\u00f5es locais s\u00f3 existe depois que um enunciado estabilizou-se como fato. (Latour e Woolgar 1997:197-9)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>PROBLEMAS GRAV\u00cdSSIMOS DA TRADU\u00c7\u00c3O:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Em outras palavras, o argumento de &#8220;realidade&#8221; s\u00f3 [sic] pode ser usado para explicar o processo pelo qual o enunciado torna-se fato, uma vez que \u00e9 somente depois que ele se tomou um fato que surge o efeito de realidade. [&#8230;] N\u00e3o usamos, como os cientistas, [sic] a no\u00e7\u00e3o de realidade para explicar a estabiliza\u00e7\u00e3o de um enunciado (ver cap\u00edtulo 3), porque essa realidade \u00e9 uma consequ\u00eancia daquela estabiliza\u00e7\u00e3o. (Latour e Woolgar 1997:199)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>To summarize the argument in another way, &#8220;reality&#8221; cannot be used to explain why a statement becomes a fact, since it is only after it has become a fact that the effect of reality is obtained. [&#8230;] Like scientists themselves we do not use the notion of reality to account for the stabilisation of a statement (see Ch. 3), because this reality is formed as a consequence of this stabilisation. (Latour e Woolgar 1986:180)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A REALIDADE \u00c9 CONSEQU\u00caNCIA (e n\u00e3o CAUSA) da CI\u00caNCIA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Que n\u00e3o sejamos malcompreendidos: longe de n\u00f3s a ideia de que os fatos &#8211; ou a realidade &#8211; n\u00e3o existem. Neste ponto n\u00e3o somos relativistas. Apenas afirmamos que essa &#8220;exterioridade&#8221; \u00e9 a <em>conseq\u00fc\u00eancia <\/em>do trabalho cient\u00edfico, e n\u00e3o sua <em>causa<\/em>. (Latour e Woolgar 1997:199)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>LABORAT\u00d3RIO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A observa\u00e7\u00e3o da atividade do laborat\u00f3rio mostra que o car\u00e1ter &#8220;objetivo&#8221; de um fato \u00e9 a conseq\u00fc\u00eancia do trabalho do laborat\u00f3rio. (Latour e Woolgar 1997:200)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>\u00c9 imposs\u00edvel provar que um dado enunciado \u00e9 verific\u00e1vel fora do laborat\u00f3rio, uma vez que a pr\u00f3pria exist\u00eancia desse enunciado depende do contexto do laborat\u00f3rio. (Latour e Woolgar 1997:201)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>EMPIRISMO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[S]implesmente queremos colocar o problema em uma posi\u00e7\u00e3o emp\u00edrica, de modo a abrir seu estudo para os soci\u00f3logos da ci\u00eancia. Em uma base emp\u00edrica, nem o TRF nem a somatostatina escapam \u00e0s malhas sociais e materiais em que s\u00e3o permanentemente constru\u00eddos e desconstru\u00eddos. (Latour e Woolgar 1997:201 nota 23)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>REDE:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>N\u00e3o se trata de negar a exist\u00eancia da somatostatina, nem o fato de que ela e atuante, mas de dizer que ela n\u00e3o pode sair da rede das pr\u00e1ticas sociais que tornam sua exist\u00eancia poss\u00edvel. (Latour e Woolgar 1997:201-2)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>AS PALAVRAS E AS COISAS:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>a coisa e o enunciado s\u00e3o correspondentes pela simples raz\u00e3o de que t\u00eam a mesma origem. Sua separa\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas a <em>etapa final do processo de sua constru\u00e7\u00e3o<\/em>. (Latour e Woolgar 1997:202)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>REDES (extens\u00e3o e custo):<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Ningu\u00e9m fica espantado de que a primeira m\u00e1quina a vapor de Newcastle tenha se desenvolvido para formar uma rede de estradas de ferro que atualmente se estende pelo mundo inteiro. Do mesmo modo, ningu\u00e9m considera essa extens\u00e3o como a prova de que uma m\u00e1quina pode circular, mesmo que n\u00e3o haja trilhos! Assim, \u00e9 importante lembrar que a extens\u00e3o de uma rede \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o cara e que as m\u00e1quinas a vapor s\u00f3 circulam em trilhos sobre os quais foram concebidas para circular. Do mesmo modo, os observadores da ci\u00eancia muitas vezes extasiam-se com a&#8221;verifica\u00e7\u00e3o&#8221; de um fato no interior da rede no qual ele foi constru\u00eddo. Ao mesmo tempo, eles esquecem com facilidade o custo da extens\u00e3o da rede. (Latour e Woolgar 1997:202 nota 24)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>S\u00cdNTESE DO CAP\u00cdTULO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Com essa introdu\u00e7\u00e3o ao microprocesso de produ\u00e7\u00e3o dos fatos quisemos mostrar tr\u00eas coisas: em primeiro lugar, o exame detalhado da vida de um laborat\u00f3rio nos fornece um meio para enfrentar problemas que habitualmente s\u00e3o da al\u00e7ada dos epistem\u00f3logos. Em segundo lugar, a an\u00e1lise desses microprocessos n\u00e3o requer absolutamente a aceita\u00e7\u00e3o <em>a priori<\/em> de qualquer especificidade da atividade cient\u00edfica. Em terceiro lugar, finalmente, devemos abster-nos de invocar a realidade exterior ou o car\u00e1ter operacional do que a ci\u00eancia produz para explicar a estabiliza\u00e7\u00e3o dos fatos, porque essa realidade e essa operacionalidade s\u00e3o a conseq\u00fc\u00eancia, e n\u00e3o a causa da atividade cient\u00edfica. (Latour e Woolgar 1997:203)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>:::::::::: CAP\u00cdTULO 5 &#8211; A CREDIBILIDADE CIENT\u00cdFICA :.<\/strong><\/p>\n<p><strong>RETOMANDO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>No cap\u00edtulo 2, adotamos uma abordagem de tipo antropol\u00f3gico, na qual sublinhamos a import\u00e2ncia desempenhada pela inscri\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. No cap\u00edtulo 3, a an\u00e1lise hist\u00f3rica permitiu-nos mostrar que o ambiente material tem um papel relevanta na constru\u00e7\u00e3o de um fato. [&#8230;] Pudemos analisar tamb\u00e9m, no cap\u00edtulo 3, a atividade cient\u00edfica, sem nos situarmos de um ou do outro lado da barreira que se ergue entre fato e artefato.[&#8230;] No cap\u00edtulo 4, invadimos o terreno da epistemologia para revelar os microprocessos que entram em opera\u00e7\u00e3o quando se &#8220;t\u00eam id\u00e9ias&#8221;, quando se &#8220;utilizam argumentos l\u00f3gicos&#8221; e quando se obt\u00eam &#8220;provas&#8221;. (Latour e Woolgar 1997:205)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>NEUTRALIDADE AXIOL\u00d3GICA INICIAL:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[T]entamos [&#8230;] n\u00e3o adotar nem o ponto de vista relativista nem o realista. Evitamos nos posicionar com rela\u00e7\u00e3o a essas distin\u00e7\u00f5es essenciais, porque constatamos que elas eram utilizadas de maneira vari\u00e1vel e &#8220;acalorada&#8221; pelos atores do laborat\u00f3rio. Uma vez que essas distin\u00e7\u00f5es demonstraram ser constitu\u00eddas pela pr\u00f3pria atividade do laborat\u00f3rio, pareceu-nos sup\u00e9rfluo recorrer a elas para compreender o que acontece. (Latour e Woolgar 1997:205)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>UNIDADE DE AN\u00c1LISE:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[F]alamos muito pouco sobre os pesquisadores como indiv\u00edduos. Em particular, evitamos tomar o pesquisador como ponto de partida ou como elemento principal da an\u00e1lise, o que pode parecer estranho em um ensaio que declara interessar-se pela constru\u00e7\u00e3o <em>social<\/em> dos fatos. Mas isso corresponde exatamente ao que observamos no laborat\u00f3rio: a impress\u00e3o geral que formamos a partir das notas tomadas em campo \u00e9 que, mais que um indiv\u00edduo ou um esp\u00edrito, cada um de nossos interlocutores \u00e9 membro de um laborat\u00f3rio. Por conseguinte, as sequ\u00eancias de trabalho, as redes t\u00e9cnicas de discuss\u00e3o &#8211; e n\u00e3o os indiv\u00edduos &#8211; aparecem espontaneamente como unidades mais apropriadas \u00e0 nossa an\u00e1lise. (Latour e Woolgar 1997:206; it\u00e1lico no original)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CONCEP\u00c7\u00d5ES HETEROG\u00caNEAS:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Guillemin tinha uma representa\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia simplesmente positivista e que ele retirava de Claude Bernard (1865). Outro, Burgus, tinha uma vis\u00e3o m\u00edstica da ci\u00eancia e relacionava seu trabalho a uma abordagem religiosa fundamentalista. Um terceiro, Brown, tinha uma concep\u00e7\u00e3o comercial de sua atividade e adotava uma epistemologia de <em>nouveau riche<\/em>. Um quarto trabalhava com um modelo econ\u00f4mico de investimento. (Latour e Woolgar 1997:208 nota 2)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>AS QUATRO ASCEP\u00c7\u00d5ES DE CR\u00c9DITO NO DISCURSO DOS CIENTISTAS:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Primeiro, o cr\u00e9dito \u00e9 uma mercadoria que se pode trocar. [&#8230;] Em segundo lugar, o cr\u00e9dito pode ser dividido [&#8230;] [.] Em terceiro lugar, ele pode ser roubado [&#8230;] [.] Em quarto lugar, o cr\u00e9dito pode ser acumulado ou desperdi\u00e7ado. (Latour e Woolgar 1997:211-2)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CR\u00c9DITO \u00e9 SECUND\u00c1RIO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Pode-se evidentemente pretender que os pesquisadores s\u00e3o motivados pela busca de cr\u00e9dito, mesmo quando n\u00e3o falam disso ou quando rejeitam a id\u00e9ia de que foram estimulados pelo pr\u00eamio do cr\u00e9dito-reconhecimento. Mas, para isso, seria preciso que existisse um sistema de recalque que explicasse por que o motivo real (o cr\u00e9dito) aparece t\u00e3o raramente entre as motiva\u00e7\u00f5es expressas. [&#8230;] Se, por exemplo, nossos interlocutores dizem ter escolhido certo m\u00e9todo porque ele produz dados confi\u00e1veis, a men\u00e7\u00e3o \u00e0 confiabilidade deve ser considerada uma forma disfar\u00e7ada de busca de cr\u00e9dito? Quando um deles nos conta que quer resolver o problema do funcionamento do processo de aprendizagem no plano do cerebro, deve-se ver ai uma forma obscura de dizer que ele est\u00e1 querendo mesmo \u00e9 obter um cr\u00e9dito? (Latour e Woolgar 1997:214)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CIENTISTA-CAPITALISTA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Se os investimentos no trabalho de Dietrich n\u00e3o se mostrassem rent\u00e1veis, ele perderia sua credibilidade. Sob este \u00e2ngulo, o comportamento dos pesquisadores \u00e9 marcado pela not\u00e1vel proximidade com o de um investidor capitalista: \u00e9 preciso que ele tenha acumulado previamente um estoque de credibilidade. Quanto maior \u00e9 esse estoque, maiores ser\u00e3o os lucros que o investidor recolher\u00e1, aumentando, assim, um capital em constante aumento. (Latour e Woolgar 1997:219)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>O car\u00e1ter essencial desse ciclo \u00e9 o ganho de credibilidade que permite o reinvestimento &#8211; e um ganho posterior de credibilidade. Por conseguinte, n\u00e3o h\u00e1 outro objetivo \u00faltimo do investimento cient\u00edfico al\u00e9m do desdobramento cont\u00ednuo de recursos acumulados. \u00c9 nesse sentido que relacionamos a credibilidade dos pesquisadores a um ciclo de investimento de capital. (Latour e Woolgar 1997:220)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Uma das principais vantagens da no\u00e7\u00e3o de ciclo \u00e9 que ela nos libera da necessidade de especificar a <em>motiva\u00e7\u00e3o <\/em>psicol\u00f3gica \u00faltima que subjaz \u00e0 atividade social observada. Mais precisamente, pode-se sugerir que a forma\u00e7\u00e3o de um ciclo sem fim \u00e9 a respons\u00e1vel pelo extraordin\u00e1rio sucesso da ci\u00eancia. Os coment\u00e1rios de Marx sobre a s\u00fabita convers\u00e3o do valor de uso em valor de troca podem ser aplicados com sucesso \u00e0 produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica dos fatos. A raz\u00e3o pela qual se produzem tantos enunciados e que cada qual, isoladamente, n\u00e3o tem valor de uso, mas um valor de troca que permite a convers\u00e3o e acelera a reprodu\u00e7\u00e3o do ciclo de credibilidade. Esse ponto de vista tem tamb\u00e9m implica\u00e7\u00f5es sobre o que chamamos de rela\u00e7\u00f5es entre ci\u00eancia e ind\u00fastria (Latour, 1983). (Latour e Woolgar 1997:224 nota 6)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Suponhamos agora que os pesquisadores sejam investidores de credibilidade. Da\u00ed resulta a cria\u00e7\u00e3o de um <em>mercado<\/em>. A informa\u00e7\u00e3o adquiriu valor, como j\u00e1 vimos anteriormente. Ela autoriza os outros pesquisadores a produzir informa\u00e7\u00e3o que possibilite o retorno do capital investido. Da parte dos investidores, h\u00e1 uma <em>demanda <\/em>por informa\u00e7\u00e3o que pode aumentar o poder de seus pr\u00f3prios inscritores. E h\u00e1 uma <em>oferta <\/em>de informa\u00e7\u00e3o por parte dos outros investidores. As leis da oferta e da demanda criam o <em>valor <\/em>da mercadoria, que flutua constantemente segundo os montantes da oferta, da demanda, do n\u00famero de pesquisadores e do equipamento dos produtores. Levando em conta a flutua\u00e7\u00e3o desse mercado, os pesquisadores investem sua credibilidade onde ela tem mais chances de ser remunerada. A avalia\u00e7\u00e3o que fazem dessas flutua\u00e7\u00f5es explica ao mesmo tempo a refer\u00eancia que os pesquisadores fazem aos &#8220;problemas interessantes&#8221;, aos &#8220;temas rent\u00e1veis&#8221;, aos &#8220;bons m\u00e9todos&#8221; e aos &#8220;colegas em quem se pode ter confian\u00e7a&#8221;, e explicam por que os pesquisadores gastam seu tempo mudando de \u00e1rea, lan\u00e7ando novos projetos de colabora\u00e7\u00e3o, confirmando e afastando hip\u00f3teses ao sabor das circunst\u00e2ncias, substituindo um m\u00e9todo por outros, tudo isso submetido \u00e0 extens\u00e3o do ciclo de credibilidade. [&#8230;] Qual \u00e9 ent\u00e3o o equivalente da compra em nosso modelo econ\u00f4mico da atividade cientifica? [&#8230;] De fato, nossos pesquisadores disp\u00f5em de um meio bem mais sutil do que o dinheiro para explicar o sucesso ou simplesmente para medir os retomos. O sucesso de cada investimento \u00e9 avaliado em fun\u00e7\u00e3o da rapidez com a qual ele favorece a convers\u00e3o de credibilidade e a progress\u00e3o do pesquisador no ciclo. [&#8230;] O objetivo da atividade de mercado \u00e9 estender e <em>acelerar o ciclo da credibilidade tomado como um todo<\/em>. Os que n\u00e3o conhecem a atividade cotidiana dos cientistas poder\u00e3o achar esse quadro estranho, at\u00e9 tomarem consci\u00eancia de que raramente o objeto da &#8220;compra&#8221; \u00e9 a informa\u00e7\u00e3o. O que se &#8220;compra&#8221; \u00e9 a <em>capacidade<\/em> do cientista produzir uma informa\u00e7\u00e3o no futuro. A rela\u00e7\u00e3o entre cientistas parece mais com as que vigoram entre as pequenas empresas do que as vigentes entre um dono de armaz\u00e9m e seu fregu\u00eas. As empresas medem seu sucesso observando o crescimento de suas opera\u00e7\u00f5es e a intensidade da circula\u00e7\u00e3o de capital. (Latour e Woolgar 1997:231-3)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>O la\u00e7o entre a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica dos fatos e a economia capitalista moderna provavelmente \u00e9 bem mais profundo do que uma simples rela\u00e7\u00e3o (Latour e Woolgar 1997:233 nota 9)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CR\u00c9DITO-RECONHECIMENTO x CR\u00c9DITO-CREDIBILIDADE:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Distinguir o cr\u00e9dito-reconhecimento do cr\u00e9dito-credibilidade n\u00e3o \u00e9 um mero jogo de palavras. O cr\u00e9dito-reconhecimento refere-se ao sistema de reconhecimentos e de pr\u00eamios que simbolizam o reconhecimento, pelos pares, de uma obra cient\u00edfica passada. A credibilidade baseia-se na capacidade que os pesquisadores t\u00eam para efetivamente praticar a ci\u00eancia. [&#8230;] Quando se sup\u00f5e que os pesquisadores investem mais na credibilidade do que na vontade de obter reconhecimento, pode-se facilmente interpretar in\u00fameros casos de comportamento cient\u00edfico, que, de outro modo, poderiam parecer estranhos, porque os pesquisadores convertem uma forma de credibilidade em outra. (Latour e Woolgar 1997:220-1)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Para um pesquisador em atividade, a quest\u00e3o mais vital n\u00e3o \u00e9: &#8220;Paguei minha d\u00edvida sob a forma de reconhecimento pelo bom artigo que escrevi?&#8221;. Mas: &#8220;Ele est\u00e1 confi\u00e1vel a ponto de se acreditar nele? Posso confiar nele\/no que diz? Ser\u00e1 capaz de me fomecer fatos brutos?&#8221; Desse modo, os pesquisadores interessam-se pelos outros, n\u00e3o porque s\u00e3o obrigados a isso por um sistema especial de normas de reconhecimento dos trabalhos alheios, mas porque cada um tem necessidade do outro para aumentar sua pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o confi\u00e1vel. (Latour e Woolgar 1997:227)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>0 que a informa\u00e7\u00e3o tem de \u00fatil e de crucial \u00e9 que ela permite engendrar uma nova informa\u00e7\u00e3o &#8211; a concess\u00e3o de reconhecimento \u00e9 somente uma preocupa\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria para o pesquisador. (Latour e Woolgar 1997:230)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CR\u00cdTICA A HAGSTROM (potlach cient\u00edfico):<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Com Hagstrom, temos uma explica\u00e7\u00e3o de um sistema de trocas em termos de normas que \u00e9 ao mesmo tempo empiricamente indemonstr\u00e1vel e que o pr\u00f3prio autor considera um arca\u00edsmo inexplic\u00e1vel e paradoxal. [&#8230;] Por que Hagstrom deveria usar uma analogia com uma forma primitiva de troca para explicar as rela\u00e7\u00f5es entre pesquisadores? Parece-nos, ao contr\u00e1rio, que o investimento constante e a transforma\u00e7\u00e3o de credibilidade no laborat\u00f3rio refletem opera\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas t\u00edpicas do capitalismo modemo. (Latour e Woolgar 1997:228-9)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>N\u00c3O \u00c9 RACIONALISMO ECON\u00d4MICO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[N]ossa finalidade certamente n\u00e3o \u00e9 propor um modelo de comportamento no qual os indiv\u00edduos fazem c\u00e1lculos para maximizar seus lucros. Isso seria recair na economia benthamiana. As quest\u00f5es de c\u00e1lculo dos meios, de maximiza\u00e7\u00e3o e da presen\u00e7a do indiv\u00edduo est\u00e3o de tal modo em perp\u00e9tua muta\u00e7\u00e3o que n\u00e3o podemos consider\u00e1-las como pontos de partida. (Latour e Woolgar 1997:234 nota 10)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CICLO DE CREDIBILIDADE:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>As diferentes express\u00f5es das motiva\u00e7\u00f5es s\u00e3o os temas de configura\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica, climas ideol\u00f3gicos, press\u00f5es de grupo, da moda, de nacionalidade etc. Como o cicio de credibilidade \u00e9 um c\u00edrculo \u00fanico atrav\u00e9s do qual uma forma de cr\u00e9dito pode ser convertida em outra, pouco importa que os cientistas coloquem em primeiro lugar, para justificar suas motiva\u00e7\u00f5es, o amor pela ci\u00eancia ou o financiamento. Seja qual for a se\u00e7\u00e3o do ciclo que tenham escolhido privilegiar ou considerar como o objetivo de seu investimento, eles ter\u00e3o necessariamente que passar por todas as outras se\u00e7\u00f5es. (Latour e Woolgar 1997:234-5)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>VIRADA NO CAP\u00cdTULO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Na primeira parte deste cap\u00edtulo discutimos os investimentos dos pesquisadores que estudamos como investimentos de credibilidade. Agora vamos tentar aplicar a no\u00e7\u00e3o de credibilidade \u00e0 situa\u00e7\u00e3o particular de nossos pesquisadores no laborat\u00f3rio. (Latour e Woolgar 1997:235)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O CURRICULUM VITAE (credibilidade-investimento):<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O <em>curriculum vitae<\/em> (CV) de um pesquisador representa um balan\u00e7o de todos os seus investimentos at\u00e9 o dia de hoje. [&#8230;] Essa lista de qualifica\u00e7\u00f5es representa o que se poderia chamar a credibilidade do pesquisador. Ela n\u00e3o \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o suficiente para fazer do indiv\u00edduo em quest\u00e3o um pesquisador, mas lhe permite ser admitido no jogo. Em termos de investimento, esse indiv\u00edduo tem as refer\u00eancias necess\u00e1rias para arriscar. Essas refer\u00eancias representam o retorno formal de um amplo empr\u00e9stimo de dinheiro feito pelos contribuintes (ou, por vezes, por fundos privados) e investido na forma\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo. (Latour e Woolgar 1997:235)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Os diplomas de um pesquisador constituem um capital cultural que \u00e9 o resultado de investimentos m\u00faltiplos em termos de dinheiro, de tempo, de energia e de capacidade. Os pesquisadores e os t\u00e9cnicos de nosso laborat\u00f3rio acumularam mais de 130 anos-homens de universidade e de educa\u00e7\u00e3o superior. (Latour e Woolgar 1997:236)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>\u00c9 depois da leitura do <em>curriculum vitae <\/em>e das cartas de recomenda\u00e7\u00e3o, que d\u00e3o a medida do valor de um indiv\u00edduo, que se toma a decis\u00e3o de lhe atribuir um cargo, de lhe conceder subven\u00e7\u00e3o, de alici\u00e1-lo ou simplesmente de colaborar com ele em um programa de pesquisas espec\u00edfico. O CV tamb\u00e9m pode ser comparado ao relat\u00f3rio financeiro anual de uma empresa. (Latour e Woolgar 1997:238)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>POSI\u00c7\u00c3O = GRAU UNIVERSIT\u00c1RIO + ESPECIALIDADE + SITUA\u00c7\u00c3O GEOGR\u00c1FICA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[T]oda posi\u00e7\u00e3o \u00e9 constitu\u00edda ao mesmo tempo por um grau universit\u00e1rio (como uma bolsa de p\u00f3s-doutorado ou um cargo de professor), de uma posi\u00e7\u00e3o na especialidade (a natureza dos problemas abordados e os m\u00e9todos utilizados) e por uma situa\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica (o laborat\u00f3rio em particular e a identidade dos colegas). Essas tr\u00eas facetas da posi\u00e7\u00e3o s\u00e3o cruciais para compreender como desenvolve-se a carreira dos pesquisadores. (Latour e Woolgar 1997:238)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CAMPO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A palavra campo aqui utilizada denota simultaneamente o campo cient\u00edfico e a id\u00e9ia de um &#8220;campo agon\u00edstico&#8221;. Na segunda acep\u00e7\u00e3o, a palavra &#8220;campo&#8221; (usada por Bourdieu) denota o efeito de um indiv\u00edduo sobre os movimentos de todos as outros e refere-se mais a afirma\u00e7\u00f5es do que a uma organiza\u00e7\u00e3o. (Latour e Woolgar 1997:239 nota 11)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>MET\u00c1FORAS:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Embora n\u00e3o forne\u00e7amos dados quantitativos de apoio, tivemos a impress\u00e3o de que as met\u00e1foras mais ami\u00fade utilizadas no laborat\u00f3rio s\u00e3o, em primeiro lugar, epistemol\u00f3gicas (&#8220;prova&#8221;, &#8220;argumento&#8221;, &#8220;convincente&#8221; etc.); em segundo lugar, econ\u00f4micas; em terceiro, militares; e, finalmente, psicol\u00f3gicas (&#8220;prazer&#8221;, &#8220;esfor\u00e7os&#8221; e &#8220;paix\u00f5es&#8221;). (Latour e Woolgar 1997:239 nota 12)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>POSI\u00c7\u00c3O NO CAMPO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[A] posi\u00e7\u00e3o ocupada por um pesquisador \u00e9 o resultado de sua trajet\u00f3ria de carreira, da situa\u00e7\u00e3o reinante na disciplina, dos recursos que ele det\u00e9m e das vantagens oferecidas pela posi\u00e7\u00e3o em que ele investiu. (Latour e Woolgar 1997:240)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CAMPO METAEST\u00c1VEL:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Esse campo s\u00f3 existe \u00e0 medida que \u00e9 percebido por aqueles que dele fazem parte. E mais, a natureza precisa dessa percep\u00e7\u00e3o depende do modo pelo qual os atores nele se situam no ponto de partida. (Latour e Woolgar 1997:240)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>RECONFIGURA\u00c7\u00c3O POR ESTABILIZA\u00c7\u00c3O DE UMA ASSOCIA\u00c7\u00c3O:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O grupo ganhou corpo. Tinha mais peso. Os pesquisadores obtinham cada vez mais cr\u00e9dito, atraiam mais assistentes, criavam conceitos. O campo modificou-se em torno de novas posi\u00e7\u00f5es. (Latour e Woolgar 1997:241)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CI\u00caNCIA e ESTRAT\u00c9GIA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[E]les [os pesquisadores] s\u00e3o estrategistas que escolhem o momento oportuno, envolvem-se em colabora\u00e7\u00f5es potencialmente ricas, avaliam, aproveitam oportunidades e correm atr\u00e1s de informa\u00e7\u00f5es confi\u00e1veis. [&#8230;] Os pesquisadores investem suas capacidades pol\u00edticas no pr\u00f3prio \u00e2mago da ci\u00eancia. Quanto melhores suas qualidades de pol\u00edticos e de estrategistas, melhor \u00e9 a ci\u00eancia que produzem. (Latour e Woolgar 1997:241)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>RELATIVISMO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>N\u00e3o devemos contudo negligenciar a fato de que a posi\u00e7\u00e3o, no sentido em que aqui a entendemos, define-se de maneira puramente relativa. Dito de outro modo, ela n\u00e3o tem sentido sem um campo ou uma cole\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias. Quanto ao campo, ele \u00e9 o conjunto das posi\u00e7\u00f5es avaliadas por um ator. Al\u00e9m disso, uma estrat\u00e9gia s\u00f3 tem sentido no interior de um campo e em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s posi\u00e7\u00f5es percebidas pelos outros. N\u00e3o se deve reificar a no\u00e7\u00e3o de posi\u00e7\u00e3o. Uma posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o existe enquanto tal, simplesmente \u00e0 espera de algu\u00e9m que a venha ocupar, mesmo que o ator perceba-a desse modo. A natureza das posi\u00e7\u00f5es a serem conquistadas est\u00e1 constantemente no centro das negocia\u00e7\u00f5es. As posi\u00e7\u00f5es s\u00f3 s\u00e3o definidas como posi\u00e7\u00f5es vagas retrospectivamente. (Latour e Woolgar 1997:242)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>GRUPO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>No que se refere \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de fatos, pode-se dizer que um grupo \u00e9 formado pela converg\u00eancia de m\u00faltiplas trajet\u00f3rias. Sua organiza\u00e7\u00e3o pode ser interpretada como a acumula\u00e7\u00e3o dos movimentos e dos investimentos de seus membros. (Latour e Woolgar 1997:244)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>DIRETOR-CAPITALISTA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Ele [o diretor do laborat\u00f3rio] tem capital de credibilidade suficiente para tornar desnecess\u00e1rio seu reinvestimento direto no trabalho das bancadas do laborat\u00f3rio. \u00c9 um capitalista por excel\u00eancia, uma vez que pode ter seu capital substancialmente aumentado, sem ter ele pr\u00f3prio que se engajar diretamente na pesquisa. O trabalho dele \u00e9 o de um investidor em tempo integral. Em lugar de produzir dados e de levantar hip\u00f3teses, seu papel \u00e9 garantir que as pesquisas ir\u00e3o se desenvolver em terrenos promissores, que os dados produzidos ser\u00e3o confi\u00e1veis, que o laborat\u00f3rio ir\u00e1 receber a maior parte poss\u00edvel de cr\u00e9dito, financiamentos e colaboradores, e que as conven\u00e7\u00f5es de um tipo de cr\u00e9dito em outro ir\u00e3o se dar da maneira mais sutil poss\u00edvel. (Latour e Woolgar 1997:254)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>DIN\u00c2MICA DE GRUPO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Para compreender a din\u00e2mica do grupo, \u00e9 preciso examinar a hist\u00f3ria de seus investimentos, a partir da reconstru\u00e7\u00e3o dos curr\u00edculos e das entrevistas. Ocasionalmente, quando um antrop\u00f3logo tem a sorte de estar presente no momento da desintegra\u00e7\u00e3o de uma tribo e da subsequente cria\u00e7\u00e3o de um novo tipo de organiza\u00e7\u00e3o, ele imediatamente forma uma ideia sobre as <strong>regras de comportamento que permanecem ocultas durante per\u00edodos de atividade normal<\/strong>. Por sorte, presenciamos, durante o per\u00edodo de estudo no laborat\u00f3rio, a negocia\u00e7\u00e3o de um contrato de pesquisa totalmente novo e assistimos \u00e0 di\u00e1spora do grupo. (Latour e Woolgar 1997:254)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CONCORR\u00caNCIA CAPITALISTA-CIENT\u00cdFICA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Comparou-se Guillemin a um capitalista, no sentido de que sua atividade de tempo integral consistia em gerenciar seu capital, e n\u00e3o em trabalhar diretamente na produ\u00e7\u00e3o de dados confi\u00e1veis. Como vimos, no entanto, seus assalariados tamb\u00e9m eram investidores no mesmo mercado. Estavam, por conseguinte, em condi\u00e7\u00f5es de fazer concorr\u00eancia direta com ele. E foi exatamente o que aconteceu. (Latour e Woolgar 1997:261)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CIENTISTA-EMPRES\u00c1RIO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A produ\u00e7\u00e3o de dados confi\u00e1veis, como vimos, \u00e9 um meio de ativar o ciclo de credibilidade e de p\u00f4r em movimento o &#8220;com\u00e9rcio da ci\u00eancia&#8221;, ou, como diz Foucault (1978), &#8220;a economia pol\u00edtica da verdade&#8221;. Mais tarde, os pesquisadores podem empenbar-se para converter credibilidade em proveito pr\u00f3prio. Podem ent\u00e3o afirmar que &#8220;tiveram ideias&#8221; (p. 172 e seguintes), que se trata do laborat\u00f3rio &#8220;deles&#8221;, que foram eles que conseguiram atrair dinheiro e equipamentos para garantir uma base para suas opera\u00e7\u00f5es. Desse ponto de vista, n\u00e3o est\u00e3o muito distantes dos homens de neg\u00f3cios. (Latour e Woolgar 1997:262)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>:::::::::: CAP\u00cdTULO 6 &#8211; A ORDEM CRIADA A PARTIR DA DESORDEM :.<\/strong><\/p>\n<p><strong>RETOMANDO&#8230;<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Quando examinamos a constru\u00e7\u00e3o dos fatos em um laborat\u00f3rio, apresentamos a organiza\u00e7\u00e3o geral da instala\u00e7\u00e3oo vista por um profano em ci\u00eancia (cap\u00edtulo 2). Mostramos como a hist\u00f3ria de alguns sucessos do laborat\u00f3rio podia ser utilizada para explicar a estabiliza\u00e7\u00e3o de um fato &#8220;duro&#8221; (cap\u00edtulo 3). Em seguida, analisamos alguns microprocessos que interv\u00eam na constru\u00e7\u00e3o dos fatos, insistindo no paradoxo contido na no\u00e7\u00e3o de fato (cap\u00edtulo 4). Interessamo-nos, em seguida, pelos indiv\u00edduos que trabalham no laborat\u00f3rio, tentando encontrar um sentido para suas carreiras e buscando avaliar a solidez de suas produ\u00e7\u00f5es (cap\u00edtulo 5). Em cada um desses cap\u00edtulos definimos termos que se distinguem daqueles que os cientistas, os historiadores, os epistem\u00f3logos e os soci\u00f3logos das ci\u00eancias empregam. Agora estamos prontos para resumir o que j\u00e1 tematizamos nos cap\u00edtulos anteriores, tentando relacionar de maneira mais sistem\u00e1tica os diferentes conceitos utilizados. (Latour e Woolgar 1997:265)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>No decorrer do cap\u00edtulo 3, por exemplo, acompanhamos a constru\u00e7\u00e3o coletiva de uma estrutura qu\u00edmica e mostramos como &#8211; depois de oito anos fazendo os inscritores funcionarem sobre extratos purificados de c\u00e9rebros &#8211; 0 enunciado foi suficientemente estabilizado para permitir que ele passasse para uma outra rede. 0 TRF n\u00e3o era tanto condicionado por for\u00e7as sociais, como era constru\u00eddo e constitu\u00eddo por fen\u00f4menos microssociais. No cap\u00edtulo 4, mostramos que os enunciados sofrem uma &#8220;modaliza\u00e7\u00e3o&#8221; e uma &#8220;desmodaliza\u00e7\u00e3o&#8221; constantes durante conversas travadas nas bancadas do laborat\u00f3rio. A discuss\u00e3o entre pesquisadores transforma alguns enunciados em puros produtos da imagina\u00e7\u00e3o de uma subjetividade individual, e outros, em fatos da natureza. (Latour e Woolgar 1997:266)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>PRIMEIRO CONCEITO: CONSTRU\u00c7\u00c3O:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O primeiro elemento de nossa argumenta\u00e7\u00e3o \u00e9 a <em>constru\u00e7\u00e3o<\/em> (Knorr, 1981). A constru\u00e7\u00e3o refere-se ao processo material lento e pr\u00e1tico pelo qual as inscri\u00e7\u00f5es se superp\u00f5em e as descri\u00e7\u00f5es s\u00e3o mantidas ou refutadas. Isso refor\u00e7a, portanto, nossa afirma\u00e7\u00e3o de que as diferen\u00e7as entre objeto e sujeito e entre fatos e artefatos n\u00e3o deveriam ser o ponto de partida do estudo da atividade cient\u00edfica. Ele deveria ser, antes, o acompanhamento das opera\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas que transformam um enunciado seja em fato, seja em artefato. (Latour e Woolgar 1997:266)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>LABORAT\u00d3RIO COMO F\u00c1BRICA DE FATOS:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Essa constante flutua\u00e7\u00e3o da facticidade dos enunciados permite-nos, <em>grosso modo<\/em>, descrever os diferentes est\u00e1gios da constru\u00e7\u00e3o dos fatos, como se um laborat\u00f3rio fosse uma usina onde fatos fossem objetos produzidos em uma linha de montagem. (Latour e Woolgar 1997:266)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A DESMISTIFICA\u00c7\u00c3O DO FATO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A desmistifica\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a entre fatos e artefatos era necess\u00e1ria para nossa discuss\u00e3o (no final do cap\u00edtulo 4) sobre a maneira pela qual o termo &#8220;fato&#8221; pode designar ao mesmo tempo o que \u00e9 e o que n\u00e3o \u00e9 fabricado. Ao observar a constru\u00e7\u00e3o de artefatos, mostramos que a realidade era a consequ\u00eancia da regulamenta\u00e7\u00e3o de uma disputa, e n\u00e3o a causa. Embora evidente, esse ponto foi desdenhado por v\u00e1rios analistas da ci\u00eancia, que tomaram como aceita a diferen\u00e7a entre fato e artefato, n\u00e3o se dando conta do processo pelo qual os cientistas do laborat\u00f3rio esfor\u00e7am-se por fazer do fato qualquer coisa de dado. (Latour e Woolgar 1997:266-7)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>SEGUNDO CONCEITO: AGON\u00cdSTICA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O segundo conceito essencial que constantemente usamos \u00e9 o de agon\u00edstica. Se os fatos s\u00e3o constru\u00eddos por opera\u00e7\u00f5es concebidas para se livrar de modalidades relacionadas a um enunciado particular, e &#8211; o que \u00e9 mais importante &#8211; se a realidade \u00e9 a consequ\u00eancia, e n\u00e3o uma causa dessa constru\u00e7\u00e3o, isso significa que a atividade do cientista \u00e9 dirigida, n\u00e3o para a &#8220;realidade&#8221;, mas para essas opera\u00e7\u00f5es realizadas sobre enunciados. A resultante de todas essas opera\u00e7\u00f5es \u00e9 o campo agon\u00edstico. A no\u00e7\u00e3o de agon\u00edstica contrasta muito com o ponto de vista segundo o qual os cientistas ocupam-se da &#8220;natureza&#8221;. Na verdade, evitamos invocar a natureza em nossa argumenta\u00e7\u00e3o, exceto para mostrar que um dos seus elementos atuais, ou seja, a estrutura do TRF, fora criado e incorporado ao nosso conhecimento atual do corpo. A natureza \u00e9 um conceito que s\u00f3 pode ser usado como subproduto da atividade agon\u00edstica. Ela n\u00e3o nos ajuda a explicar a atitude dos cientistas. Uma das vantagens da no\u00e7\u00e3o de agon\u00edstica \u00e9 que ela integra ao mesmo tempo v\u00e1rias caracter\u00edsticas do conflito social (controv\u00e9rsias, rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a e alian\u00e7as) e explica os fen\u00f4menos descritos at\u00e9 aqui em termos epistemol\u00f3gicos (prova, fato e validade, por exemplo). Uma vez que se admite que as a\u00e7\u00f5es dos pesquisadores s\u00e3o orientadas para o campo agon\u00edstico, pouco se ganha com a insist\u00eancia na distin\u00e7\u00e3o entre a &#8220;pol\u00edtica&#8221; da ci\u00eancia e sua &#8220;verdade&#8221;. As mesmas qualidades &#8220;pol\u00edticas&#8221; s\u00e3o postas em opera\u00e7\u00e3o &#8211; mostramos isso nos cap\u00edtulos 4 e 5 &#8211; para realizar um avan\u00e7o e para p\u00f4r um concorrente fora de combate. [&#8230;] Um campo agon\u00edstico \u00e9, em muitos aspectos, similar a qualquer outro campo de controv\u00e9rsias, como as pol\u00edticas, por exemplo. [&#8230;] o uso que fazemos da agon\u00edstica n\u00e3o tem por finalidade insinuar que existe um atributo pernicioso ou desonesto que caracterizaria os pesquisadores. [&#8230;] Em nossa argumenta\u00e7\u00e3o, nem a agon\u00edstica nem a constru\u00e7\u00e3o foram usadas para minar a solidez dos fatos cient\u00edficos. (Latour e Woolgar 1997:267-9)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>TERCEIRO CONCEITO: MATERIALIZA\u00c7\u00c3O: <\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[N]\u00e3o se deve tomar como adquirida a diferen\u00e7a entre o equipamento &#8220;material&#8221; e os componentes &#8220;intelectuais&#8221; da atividade do&#8217; laborat6rio: a mesma s\u00e9rie de componentes intelectuais ser\u00e1 integrada, como se pode demonstrar, como pe\u00e7a de um aparelho, alguns anos mais tarde. Do mesmo modo, mencionamos brevemente, no final do cap\u00edtulo 5, como os investimentos do laborat\u00f3rio acabam par materializar-se em estudos cl\u00ednicos e na ind\u00fastria farmac\u00eautica. Chamaremos esse processo de <em>materializa\u00e7\u00e3o<\/em> ou <em>reifica\u00e7\u00e3o<\/em> (Sartre, 1943), de modo a insistir sobre a import\u00e2ncia de sua dimens\u00e3o temporal. Uma vez que um enunciado \u00e9 estabilizado no campo agon\u00edstico, ele \u00e9 reificado e integra-se \u00e0s habilidades t\u00e1citas ou ao equipamento material de um laborat\u00f3rio. (Latour e Woolgar 1997:269-70)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>QUARTO CONCEITO: CR\u00c9DITO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O quarto conceito que abordamos foi o de <em>credibilidade <\/em>(Bourdieu, 1976). Usamos esse termo para designar os diferentes investimentos feitos pelos pesquisadores e as convers\u00f5es entre diferentes aspectos do laborat\u00f3rio. A credibilidade facilita a s\u00edntese das no\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas (como o dinheiro, o or\u00e7amento e o rendimento) com as no\u00e7\u00f5es epistemol\u00f3gicas (certeza, d\u00favida e prova). [&#8230;] Al\u00e9m do mais, ela permite insistir sobre o fato de que a informa\u00e7\u00e3o \u00e9 <em>cara<\/em>. [&#8230;] A no\u00e7\u00e3o de credibilidade permite ligar uma rede de conceitos, tais como concess\u00e3o de cr\u00e9dito, refer\u00eancias profissionais (em ingl\u00eas, <em>credential<\/em>), o cr\u00e9dito dado \u00e0s cren\u00e7as (&#8220;credo&#8221;, &#8220;cr\u00edvel&#8221;) e as contas a serem prestadas (&#8220;prestar contas de seus atos&#8221;, &#8220;presta\u00e7\u00e3o de contas&#8221;, &#8220;cr\u00e9dito em conta&#8221;). Isso fornece ao observador uma vis\u00e3o homog\u00eanea da constru\u00e7\u00e3o dos fatos e embaralha as divis\u00f5es arbitr\u00e1rias entre os fatores econ\u00f4micos, epistemol\u00f3gicos e sociol\u00f3gicos. (Latour e Woolgar 1997:270-1)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>QUINTO CONCEITO: CIRCUNST\u00c2NCIA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O quinto conceito que usamos em nossa argumenta\u00e7\u00e3o, mesmo que apenas de um ponto de vista program\u00e1tico, \u00e9 o de circunst\u00e2ncias. Em geral, consideram-se as circunst\u00e2ncias (o que est\u00e1 \u00e0 volta) de maneira independente da pr\u00e1tica da ci\u00eancia. Nosso argumento pode ser resumido em uma tentativa de mostrar que elas est\u00e3o ligadas a essa pr\u00e1tica. N\u00e3o dizemos simplesmeme que o TRF est\u00e1 envolvido, \u00e9 influenciado, \u00e9 parcialmente dependente ou causado pelas circunst\u00e2ncias. Chegamos ao ponto de afirmar que a ci\u00eancia \u00e9 inteiramente produto das circunst\u00e2ncias. E mais: \u00e9 precisamente pelas pr\u00e1ticas espec\u00edficas e localizadas que a ci\u00eancia parece escapar de qualquer circunst\u00e2ncia. (Latour e Woolgar 1997:271)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Pode-se caracterizar o empreendimento filos\u00f3fico como a tentativa de eliminar qualquer tra\u00e7o de circunst\u00e2ncia. Desse modo, a tarefa de S\u00f3crates, em Apologia de S\u00f3crates, de Plat\u00e3o, consiste em eliminar as circunst\u00e2ncias fornecidas pelo artista, pelo homem de lei etc. Essa elimina\u00e7\u00e3o \u00e9 o pre\u00e7o pago para se estabelecer a exist\u00eancia de uma &#8220;ideia&#8221;. Sohn Rethel (1975) mostrou que esse tipo de opera\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica desempenhava um papel essencial no desenvolvimento da ci\u00eancia e da economia. Pode-se portanto sustentar que a tarefa de reconstruir as circunst\u00e2ncias \u00e9 fundamentalmente entravada pela heran\u00e7a da maior parte de nossa tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica. (Latour e Woolgar 1997:271 nota 9)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>O cap\u00edtulo 2 \u00e9 uma an\u00e1lise das circunst\u00e2ncias que tornam poss\u00edvel a exist\u00eancia de objetos est\u00e1veis em neuroendocrinologia. O cap\u00edtulo 3 mostra em que redes o TRF pode circular fora do laborat\u00f3rio no qual foi constru\u00eddo. No final do cap\u00edtulo 4, lembramos que o mesmo acontece para a somatostatina. Mostramos tamb\u00e9m, no cap\u00edtulo 4, que as conversa\u00e7\u00f5es di\u00e1rias tornam presentes circunst\u00e2ncias locais ou idiossincr\u00e1ticas. No cap\u00edtulo 5, usamos a no\u00e7\u00e3o de posi\u00e7\u00e3o para explicar o car\u00e1ter circunstancial das carreiras. Mais do que uma estrutura ou um esquema ordenado, uma \u00e1rea \u00e9 formada por posi\u00e7\u00f5es que influenciam as outras de maneira n\u00e3o ordenada (ver p. 227 e seguintes). A no\u00e7\u00e3o de posi\u00e7\u00e3o permite-nos falar do momento &#8220;justo&#8221;, do &#8220;teste &#8220;bom&#8221;, ou, para retomar os termos de Habermas (1971), de restaurar a historicidade na ci\u00eancia (Knorr, 1978). (Latour e Woolgar 1997:271-2)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>SEXTO CONCEITO: RU\u00cdDO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O sexto e \u00faltimo conceito que utilizamos \u00e9 o de ru\u00eddo (ou, mais exatamente, a rela\u00e7\u00e3o do sinal com o ruido), tomado de empr\u00e9stimo da teoria da informa\u00e7\u00e3o (Brillouin, 1962). [&#8230;] [C]onservamos a ideia central de que a informa\u00e7\u00e3o \u00e9 medida com refer\u00eancia a um pano de fundo de acontecimentos equiprov\u00e1veis. O conceito de ru\u00eddo corresponde &#8211; pelo menos metaforicamente &#8211; \u00e0s observa\u00e7\u00f5es que os atores fizeram quando estavarn ocupados em ler os tra\u00e7ados escritos que sa\u00edam dos inscritores (ver cap\u00edtulo 2, p. 38 e seguintes). A no\u00e7\u00e3o de alternativas equiprov\u00e1veis permite-nos igualmente descrever a constru\u00e7\u00e3o final do TRF no cap\u00edtulo 3: o apelo \u00e0 espectrometria de massa delimita o n\u00famero de eventos prov\u00e1veis. No cap\u00edtulo 5, a no\u00e7\u00e3o de demanda, que nos permitiu desenvolver a id\u00e9ia de um mercado de informa\u00e7\u00e3o e que explica como funciona o ciclo de credibilidade, estava fundamentada sobre a premissa de que toda diminui\u00e7\u00e3o de ru\u00eddo da opera\u00e7\u00e3o de um ator eleva a capacidade que um outro ator tem de fazer com que o ru\u00eddo diminua tamb\u00e9m em outro lugar. (Latour e Woolgar 1997:272)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>S\u00cdNTESE DOS SEIS ELEMENTOS E O MOMENTO DE INVERS\u00c3O (com graves problemas de tradu\u00e7\u00e3o):<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O resultado da constru\u00e7\u00e3o de um fato \u00e9 que ele parece n\u00e3o ter sido constru\u00eddo. O resultado da persuas\u00e3o ret\u00f3rica em um campo agon\u00edstico \u00e9 que os participantes ficam convencidos de que n\u00e3o est\u00e3o bem [de que n\u00e3o foram] convencidos. O resultado da materializa\u00e7\u00e3o \u00e9 que as pessoas podem jurar que as considera\u00e7\u00f5es materiais s\u00e3o apenas um componente menor do &#8220;processo de pensamento&#8221;. O resultado do investimento em credibilidade \u00e9 que os participantes podem afirmar que a economia e as convic\u00e7\u00f5es n\u00e3o interv\u00eam de modo algum na solidez da ci\u00eancia. Quanto \u00e0s circunst\u00e2ncias, elas simplesmente desaparecem dos relat\u00f3rios, reservados [reservadas] antes \u00e0 an\u00e1lise pol\u00edtica do que a uma aprecia\u00e7\u00e3o do mundo duro e s\u00f3lido dos fatos! Embora esse tipo de invers\u00e3o n\u00e3o seja espec\u00edfico da ci\u00eancia, ele \u00e9 t\u00e3o importante que dedicamos grande parte de nosso argumento para especificar e descrever o momento preciso em que essa invers\u00e3o se produziu. (Latour e Woolgar 1997:272-3)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>FE(I)TICHES:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>\u00c9 poss\u00edvel [&#8230;] que se consiga fazer uma reaproxima\u00e7\u00e3o \u00fatil entre a no\u00e7\u00e3o de fetichismo, de Marx, e a de fato cient\u00edfico. (O fato e o fetiche t\u00eam a mesma origem etimol\u00f3gica.) Nos dois casos, est\u00e3o em jogo diversos processos complexos, e os atores esquecem que o que \u00e9 &#8220;exterior&#8221; (<em>out there<\/em>) \u00e9 o produto de seu pr\u00f3prio trabalho &#8220;alienado&#8221;. (Latour e Woolgar 1997:273 nota 10)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>PSICOLOGIA = SOCIOLOGIA: <\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[T]entamos rninimizar as distin\u00e7\u00f5es entre a autopersuas\u00e3o e o ato de persuadir os outros. Nas entrevistas, a passagem de uma coisa \u00e0 outra era t\u00e3o comum (&#8220;Eu queria estar certo, n\u00e3o queria que Untel chegasse e me contradissesse&#8221;) que renunciamos a fazer essa distin\u00e7\u00e3o artificial entre psicologia e sociologia. Nossa experi\u00eancia sugere que, no rec\u00f4ndito de sua pr\u00f3pria consci\u00eancia, um pesquisador argumenta com o conjunto do campo agon\u00edstico e antecipa cada uma das obje\u00e7\u00f5es que seus colegas poderiam lhe opor. Um pesquisador nunca esta s\u00f3. (Latour e Woolgar 1997:274 nota 12)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ASSIMETRIA ECON\u00d4MICA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Como introduzir a desigualdade em um conjunto de enunciados igualmente prov\u00e1veis, fazendo com que um enunciado seja considerado mais prov\u00e1vel do que outros? A t\u00e9cnica mais frequentemente empregada pelos pesquisadores \u00e9 <em>aumentar o custo<\/em>, para os outros, daquilo que se espera das altemativas tamb\u00e9m prov\u00e1veis. (Latour e Woolgar 1997:275)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O POSS\u00cdVEL e o COMPOSS\u00cdVEL:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>N\u00e3o se trata de dizer que toda contesta\u00e7\u00e3o \u00e9 por princ\u00edpio imposs\u00edvel quando se trata de uma medida dada por espectr\u00f4metro de massa. Mas ser\u00e1 t\u00e3o dif\u00edcil e caro modificar os fundamentos da teoria que ningu\u00e9m, na pr\u00e1tica, vai tentar fazer isso. (A exce\u00e7\u00e3o talvez seja o que acontece durante uma revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.) A diferen\u00e7a entre o que \u00e9 poss\u00edvel &#8220;em princ\u00edpio&#8221; e o que pode ser feito &#8220;na pr\u00e1tica&#8221; \u00e9 o piv\u00f4 de nossa argumenta\u00e7\u00e3o. Como diz Leibniz: &#8220;Tudo \u00e9 poss\u00edvel, mas nem tudo \u00e9 composs\u00edvel.&#8221; O processo pelo qual a \u00e1rea da compossibilidade \u00e9 estendida foi explorado no cap\u00edtulo 3. O espectr\u00f4metro de massa n\u00e3o \u00e9 mais digno de confian\u00e7a do que a cromatografia em camadas finas. Simplesmente ele \u00e9 mais potente. (Latour e Woolgar 1997:275 nota 14)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CAIXA PRETA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Uma vez que um grande n\u00famero de argumentos anteriores foi incorporado em uma caixa preta, o custo da formula\u00e7\u00e3o de alternativas torna-se proibitivo. (Latour e Woolgar 1997:276)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>A atividade de criar caixas pretas, de distinguir os itens, de saber das circunst\u00e2ncias de sua cria\u00e7\u00e3o \u00e9 precisamente aquela \u00e0 qual os cientistas dedicam a maior parte de seu tempo. A maneira como funcionam as caixas pretas na ci\u00eancia reveste-se, portanto, de grande interesse para a  pesquisa sociol\u00f3gica. Uma vez que um aparelho ou um conjunto de gestos aparece em um laborat\u00f3rio, toma-se muito dif\u00edcil transform\u00e1-los de novo em um objeto sociol\u00f3gico. (Latour e Woolgar 1997:276 nota 15)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O CUSTO DE UMA OBJE\u00c7\u00c3O:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Tudo o que foi aceito, <em>seja por que raz\u00e3o for<\/em>, ser\u00e1 reificado, de modo a aumentar o custo das obje\u00e7\u00f5es que poderiam ser levantadas. [&#8230;] A regra do jogo \u00e9 avaliar o custo dos investimentos com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua capacidade de produzir efeitos de retorno. (Latour e Woolgar 1997:277-8)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>REALIDADE = AQUILO QUE N\u00c3O PODE SER CONTESTADO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[O] conjunto dos enunciados considerados muito caros para serem modificados constitui o que entendemos por realidade. A atividade cient\u00edfica n\u00e3o trata da &#8220;natureza&#8221;, ela \u00e9 uma luta renhida para construir a realidade. O laborat\u00f3rio \u00e9 o local de trabalho e o conjunto das for\u00e7as produtivas que torna essa constru\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. Cada vez que um enunciado \u00e9 estabilizado, ele \u00e9 reintroduzido no laborat\u00f3rio (sob a forma de m\u00e1quina, de inscritor, de saber, de rotina, de pr\u00e9-requisitos, de dedu\u00e7\u00e3o, de programa etc.), e a\u00ed \u00e9 utilizado para aumentar a diferen\u00e7a entre diversos enunciados. \u00c9 t\u00e3o caro p\u00f4r em causa o enunciado reificado que essa se torna uma tarefa imposs\u00edvel. A realidade \u00e9, ent\u00e3o, secretada. (Latour e Woolgar 1997:278)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Se a realidade significa alguma coisa, ela \u00e9 o que &#8220;resiste&#8221; \u00e0 press\u00e3o de uma for\u00e7a. A discuss\u00e3o entre realistas e relativistas \u00e9 exacerbada pela aus\u00eancia de uma defini\u00e7\u00e3o adequada da realidade. Pode ser que isso baste: o que n\u00e3o pode ser mudado \u00e0 vontade \u00e9 aquilo que conta como real (Latour, 1984, primeira parte). (Latour e Woolgar 1997:278 nota 17)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>DEM\u00d4NIO DE MAXWELL:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Urn dem\u00f4nio que est\u00e1 sobre urn fog\u00e3o frio deve ser capaz de aumentar a quantidade de calor fazendo com que as mol\u00e9culas mais r\u00e1pidas se re\u00fanam de um lado e mantendo-as ali. Para isso, o dem\u00f4nio deve possuir uma informa\u00e7\u00e3o sobre o estado das mol\u00e9culas, assim como deve possuir um truque para atra\u00ed-las ou repeli-las de acordo com suas qualidades, al\u00e9m de uma caixa fechada que impede as mol\u00e9culas cuidadosamente selecionadas de escaparem e voltarem ao estado de movimento aleat\u00f3rio. Sabemos agora que o pr\u00f3prio dem\u00f4nio consome uma pequena quantidade de energia para curnprir sua tarefa. &#8220;\u00c9 imposs\u00edvel obter qualquer coisa a partir do nada, nem mesma a informa\u00e7\u00e3o&#8221;, diz o novo prov\u00e9rbio. (Latour e Woolgar 1997:279)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>O que separa os cientistas do caos \u00e9 uma parede de arquivos, de etiquetas, de livros de protocolos, de n\u00fameros e de artigos. [&#8230;] [E]ssa massa de documentos fomece o \u00fanico meio de criar mais ordem e, assim &#8211; tal como o dem\u00f4nio de Maxwell -, de aumentar a quantidade de informa\u00e7\u00e3o em um lugar. Conservar um tra\u00e7o \u00e9 o \u00fanico meio de ver uma organiza\u00e7\u00e3o emergir da desordem. [&#8230;] Os finos tra\u00e7os leg\u00edveis (produzidos pelos inscritores) s\u00e3o registrados, produzindo um foco de ordem no qual nem tudo \u00e9 igualmente prov\u00e1vel. (Latour e Woolgar 1997:281-2)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>O dem\u00f4nio de Maxwell fornece uma met\u00e1fora da atividade do laborat\u00f3rio, no sentido em que ele mostra ao mesmo tempo que a ordem \u00e9 <em>criada <\/em>e que essa ordem n\u00e3o pr\u00e9-existe, de modo algum, \u00e0s manipula\u00e7\u00f5es do dem\u00f4nio. A realidade cient\u00edfica \u00e9 um foco de ordem criado a partir da desordem, e isso \u00e9 feito capturando-se cada sinal que corresponde ao que j\u00e1 est\u00e1 fechado e ao que fecha, <em>custe o que custar<\/em>. (Latour e Woolgar 1997:282)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>BRILLOUIN (conceito materialista de informa\u00e7\u00e3o):<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Ignorado pela maior parte dos soci\u00f3logos da ci\u00eancia, Brillouin deu destacadas contribui\u00e7\u00f5es para uma an\u00e1lise materialista da produ\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia. Ele considera toda atividade cient\u00edfica (a\u00ed inclu\u00eddos seus aspectos ditos &#8220;intelectuais&#8221; e &#8220;cognitivos&#8221;) como opera\u00e7\u00f5es rnateriais em todos os pontos an\u00e1logas ao objeto usual da f\u00edsica. Como fornece uma ponte entre mat\u00e9ria e informa\u00e7\u00e3o, ele preenche igualmente a fossa &#8211; t\u00e3o crucial para o estudo da ci\u00eancia &#8211; entre os fatores intelectuais e os materiais. (Latour e Woolgar 1997:280 nota 18)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ORDEM-DESORDEM:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A desordem n\u00e3o \u00e9 somente o ru\u00eddo no qual se diluem os enunciados emitidos pelos t\u00e9cnicos ineficazes. Paradoxalmente, o laborat\u00f3rio est\u00e1 tamb\u00e9m empenhado na produ\u00e7\u00e3o da desordem. Registrando todos os acontecimentos e conservando os tra\u00e7os que saem de todos os inscritores, o laborat\u00f3rio est\u00e1 submergido em listas sa\u00eddas dos computadores, em folhas de dados, livros de protocolos, esquemas etc. Mesmo que ele resista com sucesso \u00e0 desordem exterior, o pr\u00f3prio laborat\u00f3rio gera desordem dentro de suas paredes. (Latour e Woolgar 1997:282)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A PRINC\u00cdPIO e NA PR\u00c1TICA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A princ\u00edpio, todo lance individual pode ser jogado n\u00e3o importa onde. Na pr\u00e1tica, o pre\u00e7o de rejeitar uma jogada necess\u00e1ria \u00e9 proibitivo. (Latour e Woolgar 1997:284)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ACASO e NECESSIDADE em BIOLOGIA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O fato de que a vida seja uma configura\u00e7\u00e3o ordenada que emerge da desordem pelo surgimento de muta\u00e7\u00f5es aleat\u00f3rias e o fundo no qual repousam todas as representa\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas da vida. Para Monod, por exemplo, o acaso (desordem) e a necessidade (mecanismo de classifica\u00e7\u00e3o) bastam para explicar a emerg\u00eancia de uma organiza\u00e7\u00e3o complexa. (Latour e Woolgar 1997:286)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>NEGENTROPIA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A desordem deve ser considerada a regra, e a ordem seria a exce\u00e7\u00e3o. O argumento tornou-se familiar desde que se passou a considerar a vida como um acontecimento negentr\u00f3pico, tend\u00eancia que se op\u00f5e a outra, bem mais comum, em favor da entropia. Essa imagem foi recentemente ampliada para incluir a pr\u00f3pria ci\u00eancia como caso limite de um certo tipo de organismo social, caso particular, mas n\u00e3o estranho, de negentropia (Monod, 1970; Jacob, 1981; Serres, 1977a e 1977b). A parte que nos interessa nessa argumenta\u00e7\u00e3o \u00e9 a afirmativa de que a constru\u00e7\u00e3o da ordem repousa sobre a exist\u00eancia da desordem (Atlan, 1972; Morin, 1977). (Latour e Woolgar 1997:288)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>COMUNICA\u00c7\u00c3O FORMAL\/INFORMAL:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[A] comunica\u00e7\u00e3o informal \u00e9 a regra. A comunica\u00e7\u00e3o formal \u00e9 a exce\u00e7\u00e3o, como racionaliza\u00e7\u00e3o a posteriori que \u00e9 do processo real. [&#8230;] As circunst\u00e2ncias da descoberta e o processo de troca informal s\u00e3o cruciais para o processo de produ\u00e7\u00e3o: s\u00e3o o que fazem com que a ci\u00eancia exista. (Latour e Woolgar 1997:289)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>RETOMANDO&#8230;<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>No cap\u00edtulo 1, recusamo-nos a aceitar a diferen\u00e7a entre o que emerge do social e 0 que emerge da t\u00e9cnica. No cap\u00edtulo 2, fomos levados a afastar qualquer distin\u00e7\u00e3o de natureza entre fatos e artefatos. No cap\u00edtulo 3, mostramos que a diferen\u00e7a entre fatores internos e fatores extemos era a consequ\u00eancia da elabora\u00e7\u00e3o dos fatos, e n\u00e3o um ponto de partida para compreender sua g\u00eanese. No cap\u00edtulo 4, tomamos posi\u00e7\u00e3o a favor da suspens\u00e3o das distin\u00e7\u00f5es <em>a priori <\/em>entre o senso comum e o racioc\u00ednio cient\u00edfico. Mesmo a distin\u00e7\u00e3o entre &#8220;pensamento&#8221; e habilidade deve ser evitada como meio de explica\u00e7\u00e3o, porque ela surge como <em>consequ\u00eancia <\/em>do trabalho cient\u00edfico no laborat\u00f3rio. Da mesma forma, no cap\u00edtulo 5, afirmamos que a maneira pela qual os pesquisadores definem-se como indiv\u00edduos resulta dos conflitos de apropria\u00e7\u00e3o ocorridos no contexto do laborat\u00f3rio. (Latour e Woolgar 1997:291)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>N\u00c3O H\u00c1 PRIVIL\u00c9GIO EPISTEMOL\u00d3GICO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>H\u00e1 uma distin\u00e7\u00e3o essencial entre a natureza de nossa pr\u00f3pria constru\u00e7\u00e3o e aquela utilizada por nossos objetos? A resposta deve ser um n\u00e3o categ\u00f3rico. (Latour e Woolgar 1997:292)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A CONTROV\u00c9RSIA E A FIGURA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Aos interlocutores que argumentavam que sua afirma\u00e7\u00e3o n\u00e3o tinha sentido, mostrou a figura que produzira, o que produziu o efeito [de] acalmar o audit\u00f3rio, pelo menos provisoriamente. (Latour e Woolgar 1997:293)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>AS CURVAS das CI\u00caNCIAS &#8220;DURAS&#8221; e &#8220;MOLES&#8221;:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Algumas aproxima\u00e7\u00f5es entre a constru\u00e7\u00e3o da curva de cita\u00e7\u00f5es e a da curva padr\u00e3o do MSH s\u00e3o evidentes. Na verdade, elas compartilham v\u00e1rios tra\u00e7os caracter\u00edsticos. De in\u00edcio, os inscritores que eles usam t\u00eam por finalidade isolar um pequeno n\u00famero de itens em meio a uma grande massa de dados. Cinco ou dez nomes dentre os muitos milh\u00f5es que constituem o SCI, alguns fragmentos de pele no conjunto formado pelo organismo complexo de uma r\u00e3. Depois, os efeitos pass\u00edveis de registro s\u00e3o privilegiados pelo pesquisador. Os dados s\u00e3o isolados, de modo a produzir picos facilmente discen\u00edveis do ru\u00eddo de fundo. Finalmente, os n\u00fameros obtidos s\u00e3o usados como pe\u00e7as de convencimento em uma discuss\u00e3o. Esses pontos em comum fazem com que seja dif\u00edcil sustentar a ideia de que existe uma diferen\u00e7a fundamental entre os m\u00e9todos da ciencia &#8220;dura&#8221; e os da ciencia &#8220;mole&#8221;. (Latour e Woolgar 1997:294)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CI\u00caNCIA como HERMEN\u00caUTICA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Parece que o prot\u00f3tipo b\u00e1sico da atividade cient\u00edfica n\u00e3o deve ser procurado na \u00e1rea das matem\u00e1ticas ou da l\u00f3gica, mas, como afirmam com frequ\u00eancia Nietzsche e Spinoza, no trabalho de exegese. A exegese e a herrnen\u00eautica s\u00e3o os instrumentos em torno dos quais a id\u00e9ia de produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica foi historicamente forjada (Derrida, 1967). (Latour e Woolgar 1997:297 nota 23)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ELES (neuroendocrinologistas) e N\u00d3S (soci\u00f3logos):<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Nossa descri\u00e7\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o de um fato em um laborat\u00f3rio de biologia n\u00e3o \u00e9 <em>nem superior nem inferior <\/em>\u00e0s descri\u00e7\u00f5es produzidas pelos pr\u00f3prios cientistas. Ela n\u00e3o \u00e9 superior porque n\u00e3o pretende dispor de um melhor acesso \u00e0 &#8220;realidade&#8221;, assim como n\u00e3o pretendemos escapar da pr\u00f3pria descri\u00e7\u00e3o que fizemos da atividade cient\u00edfica: a constru\u00e7\u00e3o dos fatos a partir das circunst\u00e2ncias, sem se fazer apelo a qualquer ordem pr\u00e9-existente. Em um sentido fundamental, nossa descri\u00e7\u00e3o n\u00e3o passa de uma fic\u00e7\u00e3o. Mas isso n\u00e3o a torna inferior \u00e0 atividade dos membros do laborat\u00f3rio. Eles tamb\u00e9m ocupam-se da constru\u00e7\u00e3o de descri\u00e7\u00f5es que ser\u00e3o lan\u00e7adas no campo agon\u00edstico, conferindo-lhes diversas cargas de credibilidade, de modo que, uma vez convencidos, ou outros integram-nas &#8211; como se elas j\u00e1 fossem adquiridas, ou como se fossem fatos estabelecidos &#8211; em suas pr\u00f3prias constru\u00e7\u00f5es da realidade. Tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a entre as fontes de credibilidade nas quais eles &#8211; e n\u00f3s &#8211; se baseiam para for\u00e7ar as pessoas a abandonarem as modalidades dos enunciados propostos. A \u00fanica diferen\u00e7a \u00e9 que <em>eles t\u00eam um laborat\u00f3rio<\/em>. Quanto a n\u00f3s, temos um texto, o presente texto. (Latour e Woolgar 1997:297)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O OF\u00cdCIO DO SOCI\u00d3LOGO <em>selon<\/em> LATOUR<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Construindo uma descri\u00e7\u00e3o, inventando personagens (por exemplo, o observador do cap\u00edtulo 2), pondo em cena conceitos, invocando fontes, relacionando argumentos do campo da sociologia, tentamos diminuir as fontes de desordem e propor enunciados mais veross\u00edmeis que outros, criando bols\u00f5es de ordem. Mas essa descri\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m assumir\u00e1 um papel determinante de um campo de enuncia\u00e7\u00e3o. Quantas pesquisas futuras, gerando investimentos, quantas redefini\u00e7\u00f5es do campo e quantas transforma\u00e7\u00f5es daquilo que conta como argumento aceit\u00e1vel s\u00e3o necess\u00e1rias para tornar esse relato mais plaus\u00edvel do que as outros? (Latour e Woolgar 1997:297-8)<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>LATOUR, Bruno; WOOLGAR, Steve. 1997. A vida de laborat\u00f3rio: a produ\u00e7\u00e3o dos fatos cient\u00edficos. (Trad. Angela R. Vianna) Rio de Janeiro: Relume Dumar\u00e1. [1988] :::::::::: CAP\u00cdTULO 1 &#8211; A ETNOGRAFIA DAS CI\u00caNCIAS :. WOOLGAR: Ap\u00f3s dois anos de presen\u00e7a ininterrupta no cora\u00e7\u00e3o deste laborat\u00f3rio, uni-me, na hora de redigir, a Steve Woolgar, soci\u00f3logo ingl\u00eas que concluia uma tese sobre a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":359,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[12,76],"class_list":["post-358","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-fichamento","tag-latour","tag-woolgar"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/a-vida-de-laboratorio-bruno-latour-e-steve-woolgar-18665-MLB20159197789_092014-F.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/358","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=358"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/358\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":360,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/358\/revisions\/360"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/359"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=358"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=358"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=358"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}