{"id":3579,"date":"2026-08-07T16:09:08","date_gmt":"2026-08-07T16:09:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=3579"},"modified":"2026-08-07T16:09:08","modified_gmt":"2026-08-07T16:09:08","slug":"vocabulaspa-episodio-7-raca-por-mario-carneiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2026\/08\/07\/vocabulaspa-episodio-7-raca-por-mario-carneiro\/","title":{"rendered":"VocabuLaSPA \u2013 Epis\u00f3dio [7]: Ra\u00e7a \u2013 por M\u00e1rio Carneiro"},"content":{"rendered":"<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td style=\"text-align: center; vertical-align: middle;\" width=\"200\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/00-VocabuLaSPA-CAPA-scaled.png\" \/><\/td>\n<td style=\"text-align: left; vertical-align: middle;\"><strong>Epis\u00f3dio [7]: Ra\u00e7a \u2013 por M\u00e1rio Carneiro<\/strong> (07\/08\/2026).<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><div class=\"powerpress_player\" id=\"powerpress_player_9215\"><audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-3579-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Vocabulaspa-Raca-Mario-Finalizado.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Vocabulaspa-Raca-Mario-Finalizado.mp3\">https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Vocabulaspa-Raca-Mario-Finalizado.mp3<\/a><\/audio><\/div><p class=\"powerpress_links powerpress_links_mp3\" style=\"margin-bottom: 1px !important;\">Podcast (vocabulaspa): <a href=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Vocabulaspa-Raca-Mario-Finalizado.mp3\" class=\"powerpress_link_pinw\" target=\"_blank\" title=\"Play in new window\" onclick=\"return powerpress_pinw('https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/?powerpress_pinw=3579-vocabulaspa');\" rel=\"nofollow\">Play in new window<\/a> | <a href=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Vocabulaspa-Raca-Mario-Finalizado.mp3\" class=\"powerpress_link_d\" title=\"Download\" rel=\"nofollow\" download=\"Vocabulaspa-Raca-Mario-Finalizado.mp3\">Download<\/a><\/p><br \/>\nO conceito de ra\u00e7a carrega in\u00fameras contradi\u00e7\u00f5es, implica\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e sociais profundas, debates pol\u00edticos acalorados, e foi apropriado de diferentes formas discursivas pelos mais diversos grupos. Para compreender toda essa complexidade, o epis\u00f3dio de hoje recebe o M\u00e1rio Carneiro, que vai explicar como esse conceito foi constru\u00eddo, transformado e mobilizado ao longo da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>E no epis\u00f3dio de hoje, o M\u00e1rio vai explicar pra gente o conceito de ra\u00e7a a partir das contribui\u00e7\u00f5es de autoras e autores como Franz Boas, Frantz Fanon, L\u00e9lia Gonzalez, Aim\u00e9 C\u00e9saire, entre outros.<\/p>\n<p>O M\u00e1rio Carneiro \u00e9 mestre em Ci\u00eancias Humanas e Sociais Aplicadas pela Faculdade de Ci\u00eancias Aplicadas da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp, e doutorando em Ci\u00eancias Sociais pelo Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas, tamb\u00e9m da Unicamp. H\u00e1 10 anos ele vem se dedicando ao estudo dos jogos digitais em suas intersec\u00e7\u00f5es com os marcadores sociais da diferen\u00e7a com enfoque no conceito de ra\u00e7a. Para al\u00e9m do trabalho acad\u00eamico, o M\u00e1rio \u00e9 escritor, tendo publicado em 2021 o livro \u201cEi\u201d, e tamb\u00e9m \u00e9 m\u00fasico, sendo idealizador do projeto \u201cCampinarana\u201d.<\/p>\n<p>Este podcast integra o Projeto de Jornalismo Cient\u00edfico &#8220;Projeto de Divulga\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica do Laborat\u00f3rio de Sociologia dos Processos de Associa\u00e7\u00e3o (LaSPA)&#8221; financiado pela Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo (FAPESP), processo n\u00b0 2025\/13701-4, e conta com apoio do Departamento de Sociologia (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).<\/p>\n<p><strong>Concep\u00e7\u00e3o, Produ\u00e7\u00e3o, Edi\u00e7\u00e3o e Arte:<\/strong> Rodrigo Fessel Sega<br \/>\n<strong>Trilha Sonora:<\/strong> Arthur Prando do Prado<br \/>\n<strong>\u00c1udios:<\/strong><br \/>\nO TEMPO. &#8220;Eu tenho um sonho&#8221;: assista ao discurso de Martin Luther King legendado. YouTube, 28 ago. 2019. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=aWlhPFHOl-Y\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=aWlhPFHOl-Y<\/a><\/p>\n<p>Voc\u00ea tamb\u00e9m pode acessar as produ\u00e7\u00f5es do LaSPA acessando nossos canais:<br \/>\nsite <a href=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/\">https:\/\/www.laspa.slg.br\/<\/a><br \/>\ne-mail <a href=\"mailto:laspa@unicamp.br\">laspa@unicamp.br<\/a><br \/>\nInstagram <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/laspa.unicamp\/\">https:\/\/www.instagram.com\/laspa.unicamp\/<\/a><br \/>\nReddit <a href=\"https:\/\/www.reddit.com\/user\/laspa_unicamp\/\">https:\/\/www.reddit.com\/user\/laspa_unicamp\/<\/a><br \/>\nTikTok <a href=\"https:\/\/www.tiktok.com\/@laspa.unicamp\">https:\/\/www.tiktok.com\/@laspa.unicamp<\/a><br \/>\nYouTube <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/@LaSPA.Unicamp\">https:\/\/www.youtube.com\/@LaSPA.Unicamp<\/a><\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias Citadas:<\/strong><br \/>\nBARBOSA E SILVA, Rosangela Maria de Nazar\u00e9; SANTOS, Raquel Amorim dos. Racismo cient\u00edfico no Brasil: um retrato racial do Brasil p\u00f3s-escravatura. Educar em Revista, [S. l.], v. 34, n. 68, p. p.253\u2013268, 2018. Dispon\u00edvel em: https:\/\/revistas.ufpr.br\/educar\/article\/view\/53577. Acesso em: 28 jul. 2026.<\/p>\n<p>BOAS, Franz. Antropologia cultural. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.<\/p>\n<p>C\u00c9SAIRE, Aim\u00e9. Discurso sobre o colonialismo. S\u00e3o Paulo: Veneta, 2020.<\/p>\n<p>CHAVES, Alaor. Origens do Racismo. [S. l.], 2020. Dispon\u00edvel em: http:\/\/alaorchaves.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/ORUGENS-DIO-RACISMO-baixar.pdf. Acesso em: 28 jul. 2026.<\/p>\n<p>FANON, F. Peles negras, m\u00e1scaras brancas. Salvador: Edufba, 2008.<\/p>\n<p>FERNANDES, Florestan. A integra\u00e7\u00e3o do negro na sociedade de classes. S\u00e3o Paulo: Editora Contracorrente, 2025. 896 p.<\/p>\n<p>FREYRE, Gilberto. Casa-grande &amp; senzala. 51. ed. S\u00e3o Paulo: Global Editora, 2006. 728 p.<\/p>\n<p>GONZALEZ, L\u00e9lia. Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, interven\u00e7\u00f5es e di\u00e1logos. 1. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.<\/p>\n<p>J\u00c1COME NETO, Fernando. A recusa da intera\u00e7\u00e3o: um ensaio historiogr\u00e1fico sobre etnocentrismo e racismo na Gr\u00e9cia Antiga. Revista Brasileira de Hist\u00f3ria, [s. l.], ano 21, v. 40, ed. 84, p. 41, 2020. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.scielo.br\/j\/rbh\/a\/SYTmZPCd4yDKBCvNsJmg83F\/?lang=pt#. Acesso em: 28 jul. 2026.<\/p>\n<p>MOURA, Cl\u00f3vis. Sociologia do negro brasileiro: a forma\u00e7\u00e3o e o sentido do Brasil. 2. ed. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 2019.<\/p>\n<p>NASCIMENTO, Beatriz. O negro visto por ele mesmo: ensaios, entrevistas e prosa. S\u00e3o Paulo: Ubu Editora, 2022. 240 p.<\/p>\n<p>PEREIRA, Beatriz; MELO, M\u00f4nica de (org.). Ra\u00e7a e G\u00eanero: discrimina\u00e7\u00f5es, interseccionalidades e resist\u00eancias. S\u00e3o Paulo: EDUC, 2020.<\/p>\n<p>RAMOS, Guerreiro. A Redu\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica: introdu\u00e7\u00e3o ao estudo da raz\u00e3o sociol\u00f3gica. 2. ed. S\u00e3o Paulo: Ubu Editora, 2024. 256 p.<\/p>\n<p>RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a forma\u00e7\u00e3o e o sentido do Brasil. 3. ed. S\u00e3o Paulo: Global, 2015.<\/p>\n<p>UNESCO. Declara\u00e7\u00e3o sobre a ra\u00e7a e os preconceitos raciais. Paris: [s. n.], 1978. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.oas.org\/dil\/port\/1978%20Declara%C3%A7%C3%A3o%20sobre%20Ra%C3%A7a%20e%20Preconceitos%20Raciais.pdf. Acesso em: 28 jul. 2026.<\/p>\n<p>UNESCO statements on race. In: WIKIPEDIA: the free encyclopedia. Dispon\u00edvel em: https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/UNESCO_statements_on_race. Acesso em: 28 jul. 2026.<\/p>\n<p>SCHOLL, Camille Johann. L\u00e9opold S\u00e9dar Senghor em perspectiva: entre a ideia de descoloniza\u00e7\u00e3o e os partidos pol\u00edticos, entre a negritude e a mesti\u00e7agem (1945-1960). Revista Vern\u00e1culo, [s. l.], 2021. Dispon\u00edvel em: https:\/\/revistas.ufpr.br\/vernaculo\/article\/download\/74490\/43140. Acesso em: 28 jul. 2026.<\/p>\n<p><strong>TRANSCRI\u00c7\u00c3O DO EPIS\u00d3DIO:<\/strong><br \/>\n<strong>Martin Luther King Jr.:<\/strong><br \/>\nI still have a dream. It is a dream deeply rooted in the American dream. I have a dream that one day this nation will rise up and live out the true meaning of its creed. We hold these truths to be self-evident, that all men are created equal.<\/p>\n<p><strong>M\u00e1rio Carneiro:<\/strong><br \/>\nPor um lado, regimes autorit\u00e1rios e movimentos pol\u00edticos de extrema-direita reanimaram concep\u00e7\u00f5es de pureza racial e segrega\u00e7\u00e3o para legitimar pr\u00e1ticas xen\u00f3fobas e pol\u00edticas de exclus\u00e3o e exterm\u00ednio, mantendo viva a dimens\u00e3o opressiva do termo. Por outro, o conceito foi ressignificado por mobiliza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas amplas, como os movimentos de liberta\u00e7\u00e3o colonial em \u00c1frica e na Am\u00e9rica Latina, e o surgimento dos movimentos sociais, sobretudo o movimento negro e ind\u00edgena nos Estados Unidos, na \u00c1frica do Sul e na Am\u00e9rica do Sul. O conceito converteu-se assim em lente cr\u00edtica para an\u00e1lise e combate ao racismo, em vez de meio para a sua naturaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Martin Luther King Jr.:<\/strong><br \/>\n&#8230;be transformed into an oasis of freedom and justice. I have a dream that my pour little children will one day live in a nation where they will not be judged by the color of their skin but by the content of their character. I have a dream today!<\/p>\n<p><strong>Rodrigo Fessel Sega:<\/strong><br \/>\nO conceito de ra\u00e7a carrega in\u00fameras contradi\u00e7\u00f5es, implica\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e sociais profundas, debates pol\u00edticos acalorados, e foi apropriado de diferentes formas discursivas pelos mais diversos grupos. Para compreender toda essa complexidade, o epis\u00f3dio de hoje recebe o M\u00e1rio Carneiro, que vai explicar como esse conceito foi constru\u00eddo, transformado e mobilizado ao longo da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Est\u00e1 come\u00e7ando agora mais um epis\u00f3dio do Vocabulaspa, o podcast do LASPA, o Laborat\u00f3rio de Sociologia dos Processos de Associa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu sou Rodrigo Fessel Sega, soci\u00f3logo e coordenador deste podcast.<\/p>\n<p>E no epis\u00f3dio de hoje, o M\u00e1rio vai explicar pra gente o conceito de ra\u00e7a a partir das contribui\u00e7\u00f5es de autoras e autores como Franz Boas, Frantz Fanon, L\u00e9lia Gonzalez, Aim\u00e9 C\u00e9saire, entre outros.<\/p>\n<p>O M\u00e1rio Carneiro \u00e9 mestre em Ci\u00eancias Humanas e Sociais Aplicadas pela Faculdade de Ci\u00eancias Aplicadas da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp, e doutorando em Ci\u00eancias Sociais pelo Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas, tamb\u00e9m da Unicamp. H\u00e1 10 anos ele vem se dedicando ao estudo dos jogos digitais em suas intersec\u00e7\u00f5es com os marcadores sociais da diferen\u00e7a com enfoque no conceito de ra\u00e7a. Para al\u00e9m do trabalho acad\u00eamico, o M\u00e1rio \u00e9 escritor, tendo publicado em 2021 o livro \u201cEi\u201d, e tamb\u00e9m \u00e9 m\u00fasico, sendo idealizador do projeto \u201cCampinarana\u201d.<\/p>\n<p>Ou\u00e7a agora o M\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>M\u00e1rio Carneiro:<\/strong><br \/>\nQuando se fala em &#8220;ra\u00e7a&#8221;, tanto como conceito anal\u00edtico que transita entre as mais variadas ci\u00eancias, quanto como palavra que est\u00e1 na boca do povo, \u00e9 comum que sua defini\u00e7\u00e3o assuma uma postura a princ\u00edpio essencialmente negativa. Sobretudo, \u00e9 necess\u00e1rio deixar claro o que n\u00e3o \u00e9 ra\u00e7a.<\/p>\n<p>Recuperando o hist\u00f3rico de sua conceptualiza\u00e7\u00e3o at\u00e9 a defini\u00e7\u00e3o, no s\u00e9culo XIX, do posteriormente chamado &#8220;racismo cient\u00edfico&#8221;, desembocando em suas reverbera\u00e7\u00f5es e continuidades at\u00e9 os dias atuais. Do determinismo geogr\u00e1fico dos fil\u00f3sofos da antiguidade, como Hip\u00f3crates, passando pela influ\u00eancia da cosmologia e cosmogonia crist\u00e3 na Idade M\u00e9dia, e desembocando na ci\u00eancia iluminista, com suas categorias, padr\u00f5es e m\u00e9todos de distin\u00e7\u00e3o, no\u00e7\u00f5es acerca da ideia de ra\u00e7a buscaram diferenciar n\u00e3o s\u00f3 a humanidade como, no limite, todos os seres vivos, associando caracter\u00edsticas fenot\u00edpicas ou at\u00e9 mesmo puramente est\u00e9ticas a comportamentos, tend\u00eancias e temperamentos mais ou menos sociais. Isto \u00e9, que estabeleceriam a priori din\u00e2micas de coes\u00e3o entre indiv\u00edduos que compartilhem de determinadas caracter\u00edsticas.<\/p>\n<p>Nomes como Linneu, ao classificar varia\u00e7\u00f5es naturais associando tra\u00e7os fenot\u00edpicos a atributos comportamentais como &#8220;indol\u00eancia&#8221; ou &#8220;engenhosidade&#8221;, exemplificam a produ\u00e7\u00e3o de um conhecimento que, sob pretexto cient\u00edfico, serviu de justificativa a empresas coloniais, regimes escravocratas e pol\u00edticas de subalterniza\u00e7\u00e3o sist\u00eamica.<\/p>\n<p><strong>Rodrigo Fessel Sega:<\/strong><br \/>\nQuando o M\u00e1rio fala de Linneu, ele est\u00e1 se referindo ao naturalista sueco Carl von Linn\u00e9, um cientista que se dedicava a observar, descrever e classificar a natureza. Em 1735, ele publicou uma obra chamada Systema Naturae, que mudaria a hist\u00f3ria da ci\u00eancia. Nela, Linneu organizou milhares de plantas e animais em um grande sistema de classifica\u00e7\u00e3o. Mas tem um detalhe bastante importante: os seres humanos tamb\u00e9m faziam parte dessa classifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Linneu dividiu a humanidade em quatro grandes grupos, associados aos continentes: os europeus, os nativos das Am\u00e9ricas, os asi\u00e1ticos e os africanos. At\u00e9 a\u00ed, poder\u00edamos pensar em uma classifica\u00e7\u00e3o baseada na localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica da humanidade. O problema \u00e9 que, al\u00e9m das caracter\u00edsticas f\u00edsicas, ele atribuiu a cada grupo caracter\u00edsticas de personalidade e intelig\u00eancia.<\/p>\n<p>Os europeus eram descritos como &#8220;branco, sangu\u00edneo, musculoso, cabelos loiros e longos, olhos azuis, \u00e1gil, muito inteligente, inventivo, veste roupas justas, \u00e9 governado por leis&#8221;. J\u00e1 os africanos apareciam como &#8220;negro, fleum\u00e1tico, relaxado, cabelos negros e crespos, pele sedosa, nariz achatado, l\u00e1bios grossos, astuto, pregui\u00e7oso, negligente, \u00e9 governado pelo arb\u00edtrio ou capricho&#8221;.<\/p>\n<p>Ou seja, a cor da pele deixava de ser apenas uma caracter\u00edstica f\u00edsica e passava a ser apresentada como uma explica\u00e7\u00e3o para o comportamento humano. \u00c9 sobre essa compara\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria que o M\u00e1rio est\u00e1 falando quando mencionou Linneu e a sua classifica\u00e7\u00e3o natural que associava tra\u00e7os fenot\u00edpicos a atributos comportamentais.<\/p>\n<p>Hoje, a gente sabe que essas afirma\u00e7\u00f5es n\u00e3o t\u00eam nenhum fundamento cient\u00edfico e que refletiam os preconceitos da Europa do s\u00e9culo XVIII. Mas, justamente por estarem em um livro escrito por um dos maiores naturalistas da hist\u00f3ria, ganharam enorme credibilidade. Essa no\u00e7\u00e3o de ra\u00e7a ajudou a fortalecer a ideia de que existiriam povos naturalmente superiores e inferiores, povos mais inteligentes e mais pregui\u00e7osos por natureza, argumentos esses que seriam mobilizados para justificar a expans\u00e3o colonial, a escravid\u00e3o e outras formas de domina\u00e7\u00e3o ao longo dos s\u00e9culos seguintes.<\/p>\n<p>A seguir, o M\u00e1rio vai falar sobre as consequ\u00eancias desse tipo de classifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>M\u00e1rio Carneiro:<\/strong><br \/>\nEntretanto, a virada cr\u00edtica sobre o conceito irrompeu no s\u00e9culo XX, particularmente por interm\u00e9dio das ci\u00eancias humanas e sociais. O antrop\u00f3logo Franz Boas emergiu como figura central de contraposi\u00e7\u00e3o ao essencialismo biol\u00f3gico, que se desdobrava na chamada antropologia f\u00edsica, demonstrando que a variabilidade cultural constitui o principal vetor explicativo das diferen\u00e7as entre povos, a despeito de supostas predisposi\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>Em termos mais amplos, posteriormente aos debates das primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, mais restritos aos c\u00edrculos acad\u00eamicos, no contexto p\u00f3s-Segunda Guerra Mundial e em face da barb\u00e1rie do Holocausto, a UNESCO promulgou declara\u00e7\u00f5es enf\u00e1ticas que afirmavam a inexist\u00eancia de fundamento biol\u00f3gico para o conceito de ra\u00e7a, classificando-o como constru\u00e7\u00e3o social desprovida de lastro gen\u00e9tico consistente.<\/p>\n<p>Paralelamente, surgiam, inclusive, cada vez mais estudos comparativos de gen\u00e9tica populacional que corroboravam tal posi\u00e7\u00e3o, ao evidenciar que a diversidade intragrupal supera amplamente a variabilidade intergrupal. Ou seja: a possibilidade de varia\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica entre voc\u00ea em rela\u00e7\u00e3o aos moradores da rua da sua casa pode ser maior do que se comparada at\u00e9 mesmo \u00e0 popula\u00e7\u00e3o de outro continente.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante seu esvaziamento enquanto determina\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica, o verbete &#8220;ra\u00e7a&#8221; n\u00e3o perdeu operacionalidade social. Antes, suas apropria\u00e7\u00f5es no decorrer do s\u00e9culo XX se revelaram profundas e controversas. Por um lado, regimes autorit\u00e1rios e movimentos pol\u00edticos de extrema-direita reanimaram concep\u00e7\u00f5es de pureza racial e segrega\u00e7\u00e3o para legitimar pr\u00e1ticas xen\u00f3fobas e pol\u00edticas de exclus\u00e3o e exterm\u00ednio, mantendo viva a dimens\u00e3o opressiva do termo.<\/p>\n<p>Por outro, o conceito foi ressignificado por mobiliza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas amplas, como os movimentos de liberta\u00e7\u00e3o colonial em \u00c1frica e na Am\u00e9rica Latina, capitaneados por atores e autores como L\u00e9opold Senghor e Aim\u00e9 C\u00e9saire, e o surgimento dos movimentos sociais, sobretudo o movimento negro e ind\u00edgena nos Estados Unidos, na \u00c1frica do Sul e na Am\u00e9rica do Sul. Tais atores coletivos reivindicaram a categoria ra\u00e7a como instrumento pol\u00edtico de resist\u00eancia e den\u00fancia, transformaram o estigma em vetor de identidade e mobiliza\u00e7\u00e3o, erigindo a ra\u00e7a em categoria social e anal\u00edtica capaz de desvelar desigualdades estruturais e pautar demandas por direitos e repara\u00e7\u00e3o. O conceito converteu-se assim em lente cr\u00edtica para an\u00e1lise e combate ao racismo, em vez de meio para a sua naturaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Vale mencionar que, no Brasil, &#8220;ra\u00e7a&#8221; sempre teve um papel preponderante no arcabou\u00e7o conceptual de nossos te\u00f3ricos e pensadores sobre a na\u00e7\u00e3o. Aqui tamb\u00e9m o termo teve origens, em termos anal\u00edticos, profundamente marcadas pela ci\u00eancia eugenista da virada do s\u00e9culo XIX para o XX, em pensadores como Oliveira Viana e Nina Rodrigues. Sua primeira contraposi\u00e7\u00e3o de vigor surgiu com a tese da &#8220;democracia racial&#8221; de Gilberto Freyre, tese que, apesar do consenso atual acerca de seu car\u00e1ter controverso, para dizer o m\u00ednimo, teve papel relevante \u00e0 \u00e9poca para sufocar a hegemonia do pensamento essencialista.<\/p>\n<p>Posteriormente, a compreens\u00e3o da viol\u00eancia racista enquanto componente basilar da sociedade brasileira ganharia preponder\u00e2ncia em autores como Florestan Fernandes e Darcy Ribeiro. Por\u00e9m, a cr\u00edtica radical de autores como Cl\u00f3vis Moura, Guerreiro Ramos, L\u00e9lia Gonzalez e Beatriz Nascimento s\u00f3 receberia seu merecido reconhecimento nas d\u00e9cadas mais recentes, em grande parte a partir de novas formula\u00e7\u00f5es legat\u00e1rias desses autores e autoras.<\/p>\n<p>Na contemporaneidade, em termos amplos, o estatuto do verbete &#8220;ra\u00e7a&#8221; permanece profundamente marcado por disputas e ressignifica\u00e7\u00f5es. Como constructo anal\u00edtico, ele se manteve operante nas ci\u00eancias humanas, frequentemente assinalado entre aspas, para investigar din\u00e2micas de poder, discrimina\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria. No plano do cotidiano, a palavra mant\u00e9m vitalidade discursiva e encontra-se submetida a controv\u00e9rsias acirradas acerca de seus usos e sentidos.<\/p>\n<p>Observa-se, por um lado, o ressurgimento de organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas cujos programas se estruturam a partir de no\u00e7\u00f5es expl\u00edcitas de segrega\u00e7\u00e3o e xenofobia, principalmente na Europa e na Am\u00e9rica do Norte, buscando reatualizar categorias pretensamente superadas. Por outro lado, a palavra \u00e9 reafirmada com convic\u00e7\u00e3o por amplos contingentes populacionais que, mediante a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica antirracista, demandam repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, equidade de oportunidades e transforma\u00e7\u00e3o estrutural. Movimentos negros, feministas e ind\u00edgenas em \u00e2mbito global frequentemente se congregam e utilizam a ra\u00e7a n\u00e3o como sina de destino biol\u00f3gico, mas como plataforma de agenciamento pol\u00edtico e reivindica\u00e7\u00e3o de cidadania substantiva.<\/p>\n<p>Em s\u00edntese, o debate acerca da ra\u00e7a exige distin\u00e7\u00e3o rigorosa entre sua base biol\u00f3gica, que \u00e9 inexistente, e sua efic\u00e1cia social, que \u00e9 ineg\u00e1vel. A palavra nos convoca a confrontar nosso passado, interrogar nosso presente e, qui\u00e7\u00e1, construir um futuro em que tal categoria, relacionada \u00e0 diferen\u00e7a e \u00e0 pluralidade, n\u00e3o mais possa servir como ferramenta de domina\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o, mas como vetor de desenvolvimento pleno das capacidades, devires e desejos, parafraseando o fil\u00f3sofo martinicano Frantz Fanon, &#8220;dos condenados da terra&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Rodrigo Fessel Sega:<\/strong><br \/>\nEsperamos que voc\u00ea tenha gostado dessa nossa discuss\u00e3o. Este epis\u00f3dio foi produzido e editado por mim, Rodrigo Fessel Sega. A trilha sonora \u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o autoral de Arthur Prando do Prado. O \u00e1udio utilizado neste epis\u00f3dio est\u00e1 na descri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Voc\u00ea pode acompanhar o LASPA no Instagram @laspa.unicamp e no site laspa.slg.br.<\/p>\n<p>Este podcast integra o projeto de jornalismo cient\u00edfico financiado pela Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo, a FAPESP, e conta com o apoio do Departamento de Sociologia da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp.<\/p>\n<p>At\u00e9 o pr\u00f3ximo Vocabulaspa!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Epis\u00f3dio [7]: Ra\u00e7a \u2013 por M\u00e1rio Carneiro (07\/08\/2026). O conceito de ra\u00e7a carrega in\u00fameras contradi\u00e7\u00f5es, implica\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e sociais profundas, debates pol\u00edticos acalorados, e foi apropriado de diferentes formas discursivas pelos mais diversos grupos. Para compreender toda essa complexidade, o epis\u00f3dio de hoje recebe o M\u00e1rio Carneiro, que vai explicar como esse conceito foi constru\u00eddo, transformado e mobilizado ao longo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":15,"featured_media":3580,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[407],"tags":[],"class_list":["post-3579","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-vocabulaspa"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/IMAGEM-scaled.png","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3579","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/15"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3579"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3579\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3597,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3579\/revisions\/3597"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3580"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3579"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3579"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3579"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}