{"id":354,"date":"2021-04-16T02:06:25","date_gmt":"2021-04-16T02:06:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=354"},"modified":"2024-03-28T21:18:26","modified_gmt":"2024-03-28T21:18:26","slug":"jamais-fomos-modernos-latour-1994-1991","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2021\/04\/16\/jamais-fomos-modernos-latour-1994-1991\/","title":{"rendered":"Jamais fomos modernos (Latour 1994 [1991])"},"content":{"rendered":"<p>LATOUR, Bruno. 1994. <em>Jamais fomos modernos: ensaio de Antropologia sim\u00e9trica<\/em>. (Trad. Carlos Irineu da Costa) Rio de Janeiro: Ed.34. [1991]<\/p>\n<p><strong>:::::::::: I &#8211; CRISE :.<\/strong><\/p>\n<p><strong>1. A PROLIFERA\u00c7\u00c3O DOS H\u00cdBRIDOS (p.7)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Multiplicam-se os artigos h\u00edbridos que delineiam tramas de ci\u00eancia, pol\u00edtica, economia, direito, religi\u00e3o, t\u00e9cnica, fic\u00e7\u00e3o. Se a leitura do jornal di\u00e1rio \u00e9 a reza do homem moderno, qu\u00e3o estranho \u00e9 o homem que hoje reza lendo estes assuntos confusos. Toda a cultura e toda a natureza s\u00e3o diariamente reviradas a\u00ed. [&#8230;] Contudo, ningu\u00e9m parece estar preocupado. [&#8230;] N\u00e3o misturemos o c\u00e9u e a terra, o global e o local, o humano e o inumano. [&#8230;] O navio est\u00e1 sem rumo: \u00e0 esquerda o conhecimento das coisas, \u00e0 direita o interesse, o poder e a pol\u00edtica dos homens. (Latour 1994:8)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>2. REATANDO O N\u00d3 G\u00d3RDIO (p.8)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>H\u00e1 cerca de 20 anos [a partir de 1991], eu e meus amigos estudamos estas situa\u00e7\u00f5es estranhas que a cultura intelectual em que vivemos n\u00e3o sabe bem como classificar. [&#8230;] Qualquer que seja a etiqueta, a quest\u00e3o \u00e9 sempre a de reatar o n\u00f3 g\u00f3rdio atravessando, tantas vezes quantas forem necess\u00e1rias, o corte que separa os conhecimentos exatos e o exerc\u00edcio do poder, digamos a natureza e a cultura. [&#8230;] Nosso meio de transporte \u00e9 a no\u00e7\u00e3o de tradu\u00e7\u00e3o ou de rede. Mais flex\u00edvel que a no\u00e7\u00e3o de sistema, mais hist\u00f3rica que a de estrutura, mais emp\u00edrica que a de complexidade, a rede \u00e9 o fio de Ariadne destas hist\u00f3rias confusas. (Latour 1994:8-9)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>3. A CRISE DA CR\u00cdTICA (p.11)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Os cr\u00edticos desenvolveram tr\u00eas repert\u00f3rios distintos para falar de nosso mundo: a naturaliza\u00e7\u00e3o, a socializa\u00e7\u00e3o, a desconstru\u00e7\u00e3o. [&#8230;] Voc\u00eas podem ampliar as ci\u00eancias, desdobrar os jogos de poder, ridicularizar a cren\u00e7a em uma realidade, mas n\u00e3o misturem estes tr\u00eas \u00e1cidos c\u00e1usticos. [&#8230;] Ser\u00e1 nossa culpa se <em>as redes s\u00e3o ao mesmo tempo reais como a natureza, narradas como o discurso, coletivas como a sociedade?<\/em> [&#8230;] Este dilema permaneceria sem solu\u00e7\u00e3o caso a antropologia n\u00e3o nos houvesse acostumado, h\u00e1 muito tempo, a tratar sem crises e sem cr\u00edtica o tecido inteiri\u00e7o das naturezas-culturas. [&#8230;] Certo, mas n\u00e3o somos selvagens, nenhum antrop\u00f3logo nos estuda desta maneira, e \u00e9 imposs\u00edvel, justamente, fazer em nossas naturezas-culturas aquilo que \u00e9 poss\u00edvel fazer em outros lugares, em outras culturas. Por que? Porque n\u00f3s somos modernos. Nosso tecido n\u00e3o \u00e9 mais inteiri\u00e7o. [&#8230;] A triparti\u00e7\u00e3o cr\u00edtica nos protege e nos autoriza a restabelecer a continuidade entre todos os pr\u00e9-modernos. Foi solidamente apoiados nesta triparti\u00e7\u00e3o cr\u00edtica que nos tornamos capazes de fazer etnografia. Foi a\u00ed que buscamos nossa coragem.(Latour 1994:11-3)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>[O]u \u00e9 imposs\u00edvel  fazer uma antropologia do mundo moderno &#8211; e \u00e9 correto ignorar aqueles que pretendem oferecer uma p\u00e1tria \u00e0s redes sociot\u00e9cnicas; ou ent\u00e3o esta antropologia \u00e9 poss\u00edvel, mas seria preciso alterar a pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o do mundo moderno. Passamos de um problema limitado &#8211; porque as redes continuam a ser incompreens\u00edveis? &#8211; a um problema maior e mais cl\u00e1ssico: o que \u00e9 um moderno?(Latour 1994:13)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Se o mundo moderno tornou-se, por sua vez, capaz de ser antropologizado, foi porque algo lhe aconteceu. (Latour 1994:13)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>4. O MIRACULOSO ANO DE 1989 (p.13)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A simetria perfeita entre a queda do muro da vergonha e o desaparecimento da natureza ilimitada s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 vista pelas ricas democracias ocidentais. [&#8230;] Quer sejamos anti-modernos, modernos ou p\u00f3s-modernos, somos todos mais uma vez questionados ela dupla fal\u00eancia do miraculoso ano de 1989. [&#8230;] E se jamais tivermos sido modernos? A antropologia comparada se tornaria ent\u00e3o poss\u00edvel. As redes encontrariam um lar. (Latour 1994:14-5)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>5. O QUE \u00c9 UM MODERNO? (p.15)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Moderno&#8221;, portanto, \u00e9 duas vezes assim\u00e9trico: assinala uma ruptura na passagem regular do tempo; assinala um combate no qual h\u00e1 vencedores e vencidos. Se hoje h\u00e1 tantos contempor\u00e2neos que hesitam em empregar este adjetivo, se o qualificamos atrav\u00e9s de preposi\u00e7\u00f5es, \u00e9 porque nos sentimos menos seguros ao manter esta dupla assimetria: n\u00e3o podemos mais assinalar a flecha irrevers\u00edvel do tempo nem atribuir um pr\u00eamio aos vencedores. (Latour 1994:15)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>A hip\u00f3tese deste ensaio [&#8230;] \u00e9 que a palavra &#8220;moderno&#8221; designa dois conjuntos de pr\u00e1ticas totalmente diferentes que, para permanecerem eficazes, devem permanecer distintas, mas que recentemente deixaram de s\u00ea-lo. O primeiro conjunto de pr\u00e1ticas cria, por &#8220;tradu\u00e7\u00e3o&#8221;, misturas entre g\u00eaneros de seres completamente novos, h\u00edbridos de natureza e cultura. O segundo cria, por &#8220;purifica\u00e7\u00e3o&#8221;, duas zonas ontol\u00f3gicas inteiramente distintas, a dos humanos, de um lado, e a dos n\u00e3o-humanos, de outro. [&#8230;] O primeiro conjunto corresponde \u00e0quilo que chamei de redes, o segundo ao que chamei de cr\u00edtica. (Latour 1994:16)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Qual o la\u00e7o existente entre o trabalho de tradu\u00e7\u00e3o ou de media\u00e7\u00e3o e o de purifica\u00e7\u00e3o? Esta \u00e9 a quest\u00e3o que eu gostaria de esclarecer. A hip\u00f3tese [&#8230;] \u00e9 que a segunda possibilitou a primeira; quanto mais nos proibimos de pensar os h\u00edbridos, mais seu cruzamento se tornou poss\u00edvel; este \u00e9 o paradoxo dos modernos (Latour 1994:16-7)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>A segunda quest\u00e3o diz respeito aos pr\u00e9-modernos, \u00e0s outras naturezas-culturas. A hip\u00f3tese [&#8230;] \u00e9 que, ao se dedicar a pensar os h\u00edbridos, eles n\u00e3o permitiram sua prolifera\u00e7\u00e3o. \u00c9 esta diferen\u00e7a que nos permitiria explicar a Grande Separa\u00e7\u00e3o entre N\u00f3s e eles, e que permitiria resolver finalmente a insol\u00favel quest\u00e3o do relativismo. (Latour 1994:17)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>A terceira quest\u00e3o diz respeito \u00e0 crise atual: se a modernidade foi assim t\u00e3o eficaz em seu trabalho de separa\u00e7\u00e3o e de prolifera\u00e7\u00e3o, por que ela est\u00e1 enfraquecendo hoje, nos impedindo de sermos modernos de fato? (Latour 1994:17)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Da\u00ed a \u00faltima quest\u00e3o [&#8230;]: se deixamos de ser modernos, se n\u00e3o podemos mais separar o trabalho de prolifera\u00e7\u00e3o e o trabalho de purifica\u00e7\u00e3o, o que iremos nos tornar? Como desejar as Luzes sem a modernidade? A hip\u00f3tese [&#8230;] \u00e9 de que ser\u00e1 preciso reduzir a marcha, curvar e regular a prolifera\u00e7\u00e3o dos monstros atrav\u00e9s da representa\u00e7\u00e3o oficial de sua exist\u00eancia. [&#8230;] Uma democracia estendida \u00e0s coisas? (Latour 1994:17)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>:::::::::: II &#8211; CONSTITUI\u00c7\u00c3O :.<\/strong><\/p>\n<p><strong>1. A CONSTITUI\u00c7\u00c3O MODERNA (p.19)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A modernidade \u00e9 muitas vezes definida atrav\u00e9s do humanismo, seja para saudar o nascimento do homem, seja para anunciar sua morte. Mas o pr\u00f3prio h\u00e1bito \u00e9 moderno, uma vez que este continua sendo assim\u00e9trico. Esquece o nascimento conjunto da &#8220;n\u00e3o-humanidade&#8221; das coisas, dos objetos ou das bestas, e o nascimento, t\u00e3o estranho quanto o primeiro, de um Deus suprimido, fora do jogo. A modernidade decorre da cria\u00e7\u00e3o conjunta dos tr\u00eas, e depois da recupera\u00e7\u00e3o deste nascimento conjunto e do tratamento separado das tr\u00eas comunidades enquanto que, embaixo, os h\u00edbridos continuavam a multiplicar-se como uma consequ\u00eancia direta deste tratamento em separado. \u00c9 esta dupla separa\u00e7\u00e3o que precisamos reconstituir, entre o que est\u00e1 acima e o que est\u00e1 abaixo, de um lado, entre os humanos e os n\u00e3o-humanos, de outro. [&#8230;] Do momento em que tra\u00e7amos este espa\u00e7o sim\u00e9trico, reestabelecendo assim o entendimento comum que organiza a separa\u00e7\u00e3o dos poderes naturais e pol\u00edticos, deixamos de ser modernos. [&#8230;] Damos o nome de constitui\u00e7\u00e3o ao texto comum que define este acordo e esta separa\u00e7\u00e3o. [&#8230;] Como descrever esta Constitui\u00e7\u00e3o? Escolhi concentrar-me sobre uma situa\u00e7\u00e3o exemplar, no in\u00edcio de sua escrita, em pleno s\u00e9culo XVII, quando Boyle, o cientista, e Hobbes, o cientista pol\u00edtico, discutem entre si a respeito da reparti\u00e7\u00e3o dos poderes cient\u00edficos e pol\u00edticos. (Latour 1994:19-21)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>2. BOYLE E SEUS OBJETOS (p.21)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Boyle funda-se sobre uma met\u00e1fora parajur\u00eddica: testemunhas confi\u00e1veis, bem aventuradas e sinceras reunidas em torno da cena da a\u00e7\u00e3o podem atestar a exist\u00eancia de um fato, <em>the matter of fact<\/em>, mesmo se n\u00e3o conhecerem sua verdadeira natureza. Boyle inventou, assim, o estilo emp\u00edrico que usamos at\u00e9 hoje [&#8230;]. [&#8230;] Ele n\u00e3o deseja a opini\u00e3o dos cavalheiros, mas sim a observa\u00e7\u00e3o de um fen\u00f4meno produzido artificialmente em um lugar fechado e protegido, o laborat\u00f3rio. (Latour 1994:23)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>&#8220;Os fatos s\u00e3o feitos&#8221;, diria Bachelard. Mas seriam eles falsos por serem constru\u00eddos pelo homem? N\u00e3o, j\u00e1 que Boyle, assim como Hobbes, estende ao homem o &#8220;construtivismo&#8221; de Deus &#8211; Deus conhece as coisas porque ele as cria [&#8230;]. N\u00f3s conhecemos a natureza dos fatos porque os elaboramos em circunst\u00e2ncias perfeitamente controladas. [&#8230;] Boyle transforma uma imperfei\u00e7\u00e3o &#8211; produzimos apenas <em>matters of fact<\/em> criados em laborat\u00f3rio, que s\u00f3 possuem valor local &#8211; em uma vantagem decisiva: estes fatos jamais ser\u00e3o mudados, aconte\u00e7a o que acontecer em termos de teoria, de metaf\u00edsica, de religi\u00e3o, de pol\u00edtica ou de l\u00f3gica. (Latour 1994:24)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>3. HOBBES E SEUS SUJEITOS (p.24)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Hobbes quer negar todos os apelos a entidades ditas superiores \u00e0 autoridade civil. [&#8230;] Este \u00e9 o construtivismo generalizado de Hobbes para pacificar as guerras civis: nenhuma transcend\u00eancia, qualquer que seja ela, nem recurso a Deus, nem a uma mat\u00e9ria ativa, nem a um poder de direito divino, nem mesmo \u00e0s id\u00e9ias matem\u00e1ticas. (Latour 1994:24-5)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Se for permitido que as experi\u00eancias produzem suas <em>matters of fact<\/em> e se elas deixam o v\u00e1cuo infiltrar-se na bomba de ar, e a partir da\u00ed, na filosofia natural, ent\u00e3o a autoridade estar\u00e1 dividida (Latour 1994:26)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>4. A MEDIA\u00c7\u00c3O DO LABORAT\u00d3RIO (p.26)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Shapin e Schaffer, assim como Hacking [&#8230;], fazem, de forma quase etnogr\u00e1fica, aquilo que os fil\u00f3sofos da ci\u00eancia n\u00e3o fazem mais: mostrar os fundamentos realistas das ci\u00eancias. Mas, ao inv\u00e9s de falar da realidade exterior <em>out there<\/em>, eles fixam a realidade indiscut\u00edvel da ci\u00eancia, <em>down here<\/em>, no ch\u00e3o. (Latour 1994:27)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>[V]ivemos em sociedades que t\u00eam por la\u00e7o social os objetos fabricados em laborat\u00f3rio; substitu\u00edmos as id\u00e9ias pelas pr\u00e1ticas, os racioc\u00ednios apod\u00edticos pela <em>doxa<\/em> controlada, e o consenso universal por grupos de colegas. A boa ordem que Hobbes tentava reencontrar foi anulada pela multiplica\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os privados nos quais \u00e9 proclamada a origem transcendental de fatos que, apesar de fabricados pelo homem, n\u00e3o s\u00e3o de autoria de ningu\u00e9m e que, conquanto n\u00e3o possuam uma causa, podem ser explicados.(Latour 1994:27)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>5. O TESTEMUNHO DOS N\u00c3O-HUMANOS (p.28)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Eis que interv\u00e9m, na escrita de Boyle, um novo ator reconhecido pela nova Constitui\u00e7\u00e3o: corpos inertes, incapazes de vontade e de preconceito, mas capazes de mostrar, de assinar, de escrever e de rabiscar sobre os instrumentos de laborat\u00f3rio testemunhos dignos de f\u00e9. Estes n\u00e3o-humanos, privados de alma, mas aos quais \u00e9 atribu\u00eddo um sentido, chegam a ser mais confi\u00e1veis que o comum dos mortais, aos quais \u00e9 atribu\u00edda uma vontade, mas que n\u00e3o possuem a capacidade de indicar, de forma confi\u00e1vel, os fen\u00f4menos. (Latour 1994:29)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Ao seguirem a reprodu\u00e7\u00e3o de cada prot\u00f3tipo de bomba de ar atrav\u00e9s da Europa e a transforma\u00e7\u00e3o progressiva de um equipamento custoso, pouco confi\u00e1vel e atravancante em uma caixa preta de baixo custo, que aos poucos se torna um equipamento comum em todos os laborat\u00f3rios, os autores trazem a aplica\u00e7\u00e3o universal de uma lei f\u00edsica de volta ao interior de uma rede de pr\u00e1ticas padronizadas. [&#8230;] Nenhuma ci\u00eancia pode sair da rede de sua pr\u00e1tica. (Latour 1994:30)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>6. O ARTIF\u00cdCIO DUPLO DO LABORAT\u00d3RIO E DO LEVIAT\u00c3 (p.30)<\/strong><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/LATOUR_1994_Jamais-fomos-modernos_Figura-01.png\" alt=\"\" \/> (Latour 1994:31, Figura 1)<\/p>\n<blockquote><p>Em certo sentido, Shapin e Schaffer <em>deslocam para baixo o centro de refer\u00eancia tradicional da cr\u00edtica<\/em>. (Latour 1994:31)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>7. REPRESENTA\u00c7\u00c3O CIENT\u00cdFICA E REPRESENTA\u00c7\u00c3O POL\u00cdTICA (p.33)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[E]les [Hobbes e Boyle] inventaram nosso mundo moderno, <em>um mundo no qual a representa\u00e7\u00e3o das coisas atrav\u00e9s do laborat\u00f3rio encontra-se para sempre dissociada da representa\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os atrav\u00e9s do contrato social<\/em>. [&#8230;] S\u00e3o dois pais fundadores, agindo em conjunto para promover uma \u00fanica e mesma inova\u00e7\u00e3o na teoria pol\u00edtica: cabe \u00e0 ci\u00eancia a representa\u00e7\u00e3o dos n\u00e3o-humanos, mas lhe \u00e9 proibida qualquer possibilidade de apelo \u00e0 pol\u00edtica; cabe \u00e0 pol\u00edtica a representa\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os, mas lhe \u00e9 proibida qualquer rela\u00e7\u00e3o com os n\u00e3o-humanos produzidos e mobilizados pela ci\u00eancia e pela tecnologia. [&#8230;] Em seu debate, os descendentes de Hobbes e Boyle nos fornecem os recursos que usamos at\u00e9 hoje: de um lado, a for\u00e7a social, o poder; do outro, a for\u00e7a natural, o mecanismo. De um lado, o sujeito de direito; do outro, o objeto da ci\u00eancia. Os porta-vozes pol\u00edticos ir\u00e3o representar a multid\u00e3o implicante e calculadora dos cidad\u00e3os; os porta-vozes cient\u00edficos ir\u00e3o de agora em diante representar a multid\u00e3o muda e material dos objetos. Os primeiros traduzem aqueles que os enviam, que n\u00e3o saberiam como falar todos ao mesmo tempo; os segundos traduzem aqueles que representam, que s\u00e3o mudos de nascimento. Os primeiros podem trair, os segundos tamb\u00e9m. No s\u00e9culo XVII, a simetria ainda \u00e9 vis\u00edvel, os porta-vozes ainda disputam entre si, acusando-se mutuamente de multiplicar as fontes de conflito. Basta apenas um pequeno esfor\u00e7o para que sua origem comum torne-se invis\u00edvel, para que s\u00f3 haja um porta-voz do lado dos homens, para que a media\u00e7\u00e3o dos cientistas torne-se invis\u00edvel. Em breve a palavra &#8220;representa\u00e7\u00e3o&#8221; tomar\u00e1 dois sentidos diferentes, dependendo de estarmos falando de eleitos ou de coisas. (Latour 1994:34-5)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>8. AS GARANTIAS CONSTITUCIONAIS DOS MODERNOS (p.35)<\/strong><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/LATOUR_1994_Jamais-fomos-modernos_Figura-02.png\" alt=\"\" \/> (Latour 1994:37, Figura 2)<\/p>\n<blockquote><p>[PRIMEIRO PARADOXO: A natureza nos transcende mas a sociedade nos \u00e9 imanente. SEGUNDO PARADOXO: A sociedade nos transcende mas a natureza nos \u00e9 imanente. GARANTIAS:] 1: ainda que sejamos n\u00f3s que constru\u00edmos a natureza, ela funciona como se n\u00f3s n\u00e3o a constru\u00edssemos. [&#8230;] 2: ainda que n\u00e3o sejamos n\u00f3s que constru\u00edmos a sociedade, ela funciona como se n\u00f3s a constru\u00edssemos. [&#8230;] 3: a natureza e a sociedade devem permanecer absolutamente distintas; o trabalho de purifica\u00e7\u00e3o deve permanecer absolutamente distinto do trabalho de media\u00e7\u00e3o. (Latour 1994:37 Figura 2)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>\u00c9 preciso confessar que \u00e9 uma bela constru\u00e7\u00e3o, que permite fazer tudo sem estar limitado por nada. N\u00e3o \u00e9 de se estranhar que esta Constitui\u00e7\u00e3o tenha permitido, como se dizia outrora, &#8220;liberar algumas for\u00e7as produtivas&#8221;&#8230; (Latour 1994:38)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>9. A QUARTA GARANTIA: A DO DEUS SUPRIMIDO (p.38)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Ningu\u00e9m \u00e9 realmente moderno se n\u00e3o aceitar afastar Deus tanto do jogo das leis da natureza quanto das leis da Rep\u00fablica. Deus tornou-se o Deus suprimido da metaf\u00edsica (Latour 1994:38)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Tr\u00eas vezes a transcend\u00eancia e tr\u00eas vezes a iman\u00eancia em uma tabela que fecha todas as possibilidades. N\u00f3s n\u00e3o criamos a natureza; n\u00f3s criamos a sociedade; n\u00f3s criamos a natureza; n\u00f3s n\u00e3o criamos a sociedade; n\u00f3s n\u00e3o criamos nem uma nem outra, Deus criou tudo; Deus n\u00e3o criou nada, n\u00f3s criamos tudo. [&#8230;] Usando tr\u00eas vezes seguidas a mesma altern\u00e2ncia entre transcend\u00eancia e iman\u00eancia, \u00e9 poss\u00edvel mobilizar a natureza, coisificar o social [e] sentir a presen\u00e7a espiritual de Deus[, e ainda assim defender] ferrenhamente [&#8230;] que a natureza nos escapa, que a sociedade \u00e9 nossa obra e que Deus n\u00e3o interfere mais. (Latour 1994:39)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>10. A POT\u00caNCIA DA CR\u00cdTICA (p.40)<\/strong><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/LATOUR_1994_Jamais-fomos-modernos_Figura-03.png\" alt=\"\" \/> (Latour 1994:42, Figura 3)<\/p>\n<blockquote><p>[SE a natureza \u00e9 transcendente, ENT\u00c3O nada podemos contra as leis naturais; SE a natureza \u00e9 imanente, ENT\u00c3O as possibilidades s\u00e3o ilimitadas; SE a sociedade \u00e9 imanente, ENT\u00c3O somos totalmente livres; SE a sociedade \u00e9 transcendente, ENT\u00c3O nada podemos contra as leis sociais.] (Latour 1994:42 Figura 3)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>\u00c9 nesta dupla linguagem que reside a pot\u00eancia cr\u00edtica dos modernos: podem mobilizar a natureza no seio das rela\u00e7\u00f5es sociais, ao mesmo tempo em que a mant\u00eam infinitamente distante dos homens; s\u00e3o livres para construir e desconstruir sua sociedade, ao mesmo tempo em que tornam suas leis inevit\u00e1veis, necess\u00e1rias e absolutas. (Latour 1994:43)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>11. A INVENCIBILIDADE DOS MODERNOS (p.42)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Por crer na separa\u00e7\u00e3o total dos humanos e dos n\u00e3o-humanos, e por simultaneamente anular esta separa\u00e7\u00e3o, a Constitui\u00e7\u00e3o tornou os modernos invenc\u00edveis. [&#8230;] [\u00c0] esquerda, as coisas em si; \u00e0 direita, a sociedade livre dos sujeitos falantes e pensantes. Tudo acontece no meio, tudo transita entre as duas, tudo ocorre por media\u00e7\u00e3o, por tradu\u00e7\u00e3o e por redes, mas este lugar n\u00e3o existe, n\u00e3o ocorre. \u00c9 o impensado, o impens\u00e1vel dos modernos. [&#8230;] Ao separar as rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a de ordem pol\u00edtica das rela\u00e7\u00f5es de raz\u00f5es de ordem cient\u00edfica &#8211; mas sempre apoiando a raz\u00e3o sobre a for\u00e7a e a for\u00e7a sobre a raz\u00e3o &#8211; os modernos sempre tiveram duas cartas sob as mangas. Tornaram-se invenc\u00edveis. (Latour 1994:42-3)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>12. O QUE A CONSTITUI\u00c7\u00c3O ESCLARECE E O QUE ELA OBSCURECE (p.44)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Os pr\u00e9-modernos, por no fundo serem todos monistas na constitui\u00e7\u00e3o de suas naturezas-culturas [&#8230;], se pro\u00edbem [&#8230;] de praticar aquilo que suas representa\u00e7\u00f5es aparentemente permitiriam. [&#8230;] Ao saturar com conceitos os mistos de divino, humano e natural, limitam a expans\u00e3o pr\u00e1tica destes mistos. \u00c9 a impossibilidade de mudar a ordem social sem modificar a ordem natural &#8211; e inversamente &#8211; que obriga os pr\u00e9-modernos, desde sempre, a ter uma grande prud\u00eancia. (Latour 1994:46)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Os modernos, ao tornarem os mistos impens\u00e1veis, ao esvaziarem, varrerem, limparem, purificarem a arena tra\u00e7ada no meio de suas tr\u00eas inst\u00e2ncias, permitiram que a pr\u00e1tica de media\u00e7\u00e3o recombinasse todos os monstros poss\u00edveis sem que eles tivessem um efeito qualquer sobre a constru\u00e7\u00e3o da sociedade, e nem mesmo contato com ela. Por mais estranhos que fossem, estes monstros n\u00e3o criavam nenhum problema, uma vez que n\u00e3o existiam socialmente e que suas consequ\u00eancias monstruosas permaneciam inimput\u00e1veis. <em>Aquilo que os pr\u00e9-modernos sempre proibiram a si mesmos, n\u00f3s podemos nos permitir, j\u00e1 que nunca h\u00e1 uma correspond\u00eancia direta entre a ordem social e a ordem natural.<\/em> [&#8230;] &#8220;Circulando, n\u00e3o h\u00e1 nada para ver&#8221;. A amplitude da mobiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 diretamente proporcional \u00e0 impossibilidade de pensar diretamente suas rela\u00e7\u00f5es com a ordem social. Quanto menos os modernos se pensam misturados, mais se misturam. Quanto mais a ci\u00eancia \u00e9 absolutamente pura, mais se encontra intimamente ligada \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da sociedade. A Constitui\u00e7\u00e3o moderna acelera ou facilita o desdobramento dos coletivos, mas n\u00e3o permite que sejam pensados. (Latour 1994:47)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>13. O FIM DA DEN\u00daNCIA (p.47)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Da mesma forma como a Constitui\u00e7\u00e3o moderna despreza os h\u00edbridos que abriga, tamb\u00e9m a moral oficial despreza os consensos pr\u00e1ticos e os objetos que a sustentam. Sob a oposi\u00e7\u00e3o dos objetos e dos sujeitos, h\u00e1 o turbilh\u00e3o dos mediadores. Sob a grandeza moral, h\u00e1 a triagem meticulosa das circunst\u00e2ncias e dos casos. (Latour 1994:50)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>14. JAMAIS FOMOS MODERNOS (p.50)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>N\u00e3o estamos entrando em uma nova era; n\u00e3o continuamos a fuga tresloucada dos p\u00f3s-p\u00f3s-p\u00f3s-modernistas; n\u00e3o nos agarramos mais \u00e0 vanguarda da vanguarda; n\u00e3o tentamos ser ainda mais espertos, ainda mais cr\u00edticos, aprofundar mais um pouco a era da desconfian\u00e7a. N\u00e3o, percebemos que nunca entramos na era moderna. Esta atitude retrospectiva, que desdobra ao inv\u00e9s de desvelar, que acrescenta ao inv\u00e9s de amputar, que confraterniza ao inv\u00e9s de denunciar, eu a caracterizo atrav\u00e9s da express\u00e3o n\u00e3o moderno (ou amoderno). \u00c9 um n\u00e3o moderno todo aquele que levar em conta ao mesmo tempo a Constitui\u00e7\u00e3o dos modernos e os agrupamentos de h\u00edbridos que ela nega. [&#8230;] Tanto os anti-modernos quanto os p\u00f3s-modernos aceitaram o terreno de seus advers\u00e1rios. Um outro terreno, muito mais vasto, muito menos pol\u00eamico, encontra-se aberto para n\u00f3s, o terreno dos mundos n\u00e3o modernos. \u00c9 o Imp\u00e9rio do Centro, t\u00e3o vasto quanto a China, t\u00e3o desconhecido quanto ela. (Latour 1994:51-2)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>:::::::::: III &#8211; REVOLU\u00c7\u00c3O :.<\/strong><\/p>\n<p><strong>1. OS MODERNOS, V\u00cdTIMAS DE SEU SUCESSO (p.53)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Digamos que os modernos foram v\u00edtimas de seu sucesso. [&#8230;] A Constitui\u00e7\u00e3o moderna desabou sob seu pr\u00f3prio peso, afogada pelos mistos cuja experimenta\u00e7\u00e3o ela permitia, uma vez que ela dissimulava as consequ\u00eancias desta experimenta\u00e7\u00e3o no fabrico da sociedade. [&#8230;] Quando surgiam apenas algumas bombas de v\u00e1cuo, ainda era poss\u00edvel classific\u00e1-las em dois arquivos, o das leis naturais e o das representa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, mas quando nos vemos invadidos por embri\u00f5es congelados, sistemas especialistas, m\u00e1quinas digitais, rob\u00f4s munidos de sensores, milho h\u00edbrido, bancos de dados, psicotr\u00f3picos liberados de forma controlada, baleias equipadas com r\u00e1dio-sondas, sintetizadores de genes, analisadores de audi\u00eancia, etc.; quando nossos jornais di\u00e1rios desdobram todos estes monstros ao longo de p\u00e1ginas e p\u00e1ginas, e nenhuma destas quimeras sente-se confort\u00e1vel nem do lado dos objetos, nem do lado dos sujeitos, nem no meio, ent\u00e3o \u00e9 preciso fazer algo. \u00c9 como se os dois p\u00f3los da Constitui\u00e7\u00e3o acabassem se confundindo, devido \u00e0 pr\u00f3pria pr\u00e1tica de media\u00e7\u00e3o que esta Constitui\u00e7\u00e3o liberava quando a condenava. \u00c9 como se n\u00e3o houvesse mais um n\u00famero suficiente de ju\u00edzes e de cr\u00edticos para tratar dos h\u00edbridos. O sistema de purifica\u00e7\u00e3o fica t\u00e3o entulhado quanto nosso sistema judici\u00e1rio. (Latour 1994:53-4)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>CITA\u00c7\u00c3O L-S (Latour 1994:54-5)<\/p><\/blockquote>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/LATOUR_1994_Jamais-fomos-modernos_Figura-04.png\" alt=\"\" \/> (Latour 1994:55, Figura 4)<br \/>\n<strong>2. O GRANDE DISTANCIAMENTO DAS FILOSOFIAS MODERNIZADORAS (p.56)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A distin\u00e7\u00e3o existente no s\u00e9culo XVII [Boyle e Hobbes] torna-se uma separa\u00e7\u00e3o no s\u00e9culo XVIII [Kant], e depois uma contradi\u00e7\u00e3o no s\u00e9culo XIX [Hegel, dial\u00e9tica], completa a ponto de tornar-se a mola de toda a intriga. (Latour 1994:57)<\/p><\/blockquote>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/LATOUR_1994_Jamais-fomos-modernos_Figura-05.png\" alt=\"\" \/> (Latour 1994:58, Figura 5)<br \/>\n<strong>3. O FINAL DOS FINAIS (p.58)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Elas [teorias pr\u00e9-p\u00f3s-modernas] elevam aquilo que era apenas uma distin\u00e7\u00e3o, depois uma separa\u00e7\u00e3o, depois uma contradi\u00e7\u00e3o, depois uma tens\u00e3o insuper\u00e1vel ao n\u00edvel de uma incomensurabilidade.(Latour 1994:59)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Ocorre com os pr\u00e9-p\u00f3s-modernos [Habermas] o mesmo que ocorreu com a rea\u00e7\u00e3o feudal bem no fim do Antigo Regime; nunca a hora foi t\u00e3o minuciosa nem o c\u00e1lculo dos quartos de sangue azul mais preciso, e no entanto j\u00e1 era um pouco tarde para separar radicalmente a plebe e os nobres! (Latour 1994:60)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><em>\u00c9 a dupla contradi\u00e7\u00e3o que \u00e9 moderna, contradi\u00e7\u00e3o entre as duas garantias constitucionais, de um lado, e entre esta Constitui\u00e7\u00e3o e a pr\u00e1tica de media\u00e7\u00e3o, de outro.<\/em> (Latour 1994:61)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>[V]oltemos atr\u00e1s. Chega de passar. (Latour 1994:62)<\/p><\/blockquote>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/LATOUR_1994_Jamais-fomos-modernos_Figura-06.png\" alt=\"\" \/>  (Latour 1994:62, Figura 6)<br \/>\n<strong>4. AS VERTENTES SEMI\u00d3TICAS (p.62)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Desta vertente fundamental, aprendemos que o \u00fanico meio de escapar \u00e0s armadilhas sim\u00e9tricas da naturaliza\u00e7\u00e3o e da sociologiza\u00e7\u00e3o consiste em conceder \u00e0 linguagem sua autonomia. Como desdobrar, sem ela, este espa\u00e7o mediano entre as naturezas e as sociedades para nele acolher os quase-objetos, quase-sujeitos? As semi\u00f3ticas oferecem uma excelente caixa de ferramentas para seguir de perto as media\u00e7\u00f5es da linguagem. Mas ao eludir o problema duplo das liga\u00e7\u00f5es com o referente e com o contexto, elas nos impedem de seguir os quase-objetos at\u00e9 o fim. Estes, como eu disse, s\u00e3o ao mesmo tempo reais, discursivos e sociais. Pertencem \u00e0 natureza, ao coletivo e ao discurso. Se autonomizarmos o discurso, entregando para tanto a natureza aos epistem\u00f3logos e a sociedade aos soci\u00f3logos, tornamos imposs\u00edvel a concilia\u00e7\u00e3o dessas tr\u00eas fontes. (Latour 1994:64)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>5. QUEM ESQUECEU O SER?(p.64)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Ningu\u00e9m pode esquecer o ser [cr\u00edtica a Heidegger], j\u00e1 que nunca houve mundo moderno e, por isso, nunca houve metaf\u00edsica. (Latour 1994:66)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>6. O IN\u00cdCIO DO TEMPO QUE PASSA (p.66)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A prolifera\u00e7\u00e3o de quase-objetos foi, portanto, acolhida por tr\u00eas estrat\u00e9gias diferentes: primeiro, a separa\u00e7\u00e3o cada vez maior entre o p\u00f3lo da natureza &#8211; as coisas em si &#8211; e o p\u00f3lo da sociedade ou so sujeito &#8211; os homens-entre-eles; segundo, a autonomiza\u00e7\u00e3o da linguagem ou do sentido; enfim, a desconstru\u00e7\u00e3o da metaf\u00edsica ocidental. Quatro repert\u00f3rios diferentes permitem que a cr\u00edtica desenvolva seus \u00e1cidos: o da naturaliza\u00e7\u00e3o, o da sociologiza\u00e7\u00e3o, o da coloca\u00e7\u00e3o em discurso e, enfim, o do esquecimento do Ser. (Latour 1994:66)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Os modernos t\u00eam a particularidade de compreender o tempo que passa como se ele realmente abolisse o passado antes dele. [&#8230;] J\u00e1 que tudo aquilo que acontece \u00e9 para sempre eliminado, os modernos t\u00eam realmente a sensa\u00e7\u00e3o de uma flecha irrevers\u00edvel do tempo, de uma capitaliza\u00e7\u00e3o, de um progresso. Mas como essa temporalidade \u00e9 imposta a um regime temporal que corre de forma totalmente diversa, os sintomas de um desentendimento se multiplicam. [&#8230;] Estaremos realmente t\u00e3o distantes de nosso passado quanto desejamos crer? N\u00e3o, j\u00e1 que a temporalidade moderna n\u00e3o tem muito efeito sobre a passagem do tempo. O passado permanece, ou mesmo retorna. E esta ressurg\u00eancia \u00e9 incompreens\u00edvel para os modernos. Tratam-na ent\u00e3o como o retorno do que foi recalcado. Fazem dela um arca\u00edsmo. [&#8230;] Se existe algo que somos incapazes de fazer, podemos v\u00ea-lo agora, \u00e9 uma revolu\u00e7\u00e3o, quer seja na ci\u00eancia, na t\u00e9cnica, em pol\u00edtica ou filosofia. Mas ainda somos modernos quando interpretamos este fato como uma decep\u00e7\u00e3o, como se o arca\u00edsmo houvesse invadido tudo (Latour 1994:67-9)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>7. O MILAGRE REVOLUCION\u00c1RIO (p.69)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Por que a Constitui\u00e7\u00e3o moderna nos obriga a sentir o tempo como uma revolu\u00e7\u00e3o que deve sempre ser recome\u00e7ada? <em>Porque ela suprime as origens e os destinos dos objetos da Natureza e porque faz de sua s\u00fabita emerg\u00eancia um milagre<\/em>. [&#8230;] A g\u00eanese das inova\u00e7\u00f5es cient\u00edficas ou t\u00e9cnicas s\u00f3 \u00e9 t\u00e3o misteriosa na Constitui\u00e7\u00e3o moderna porque a transcend\u00eancia universal de leis locais e fabricadas torna-se impens\u00e1vel, e deve permanecer assim sob pena de provocar um esc\u00e2ndalo. [&#8230;] <em>A assimetria entre natureza e cultura torna-se ent\u00e3o uma assimetria entre passado e futuro<\/em>. O passado era a confus\u00e3o entre as coisas e os homens; o futuro, aquilo que n\u00e3o os confundir\u00e1 mais. A moderniza\u00e7\u00e3o consiste em sair sempre de uma idade de trevas que misturava as necessidades da sociedade com a verdade cient\u00edfica para entrar em uma nova idade que ir\u00e1, finalmente, distinguir de forma clara entre aquilo que pertence \u00e0 natureza intemporal e aquilo que vem dos humanos. O tempo moderno prov\u00e9m de uma superposi\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a entre o passado e o futuro com esta outra diferen\u00e7a, mais importante, entre a media\u00e7\u00e3o e a purifica\u00e7\u00e3o. O presente \u00e9 tra\u00e7ado por uma s\u00e9rie de rupturas radicais, as revolu\u00e7\u00f5es, que formam engrenagens irrevers\u00edveis para impedir-nos, para sempre, de voltar atr\u00e1s. (Latour 1994:69-71)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>8. O FIM DO PASSADO ULTRAPASSADO (p.71)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A prolifera\u00e7\u00e3o dos quase-objetos rompeu a temporalidade moderna, bem como sua Constitui\u00e7\u00e3o. [&#8230;] Ningu\u00e9m mais pode classificar em um \u00fanico grupo coerente os atores que fazem parte do &#8220;mesmo tempo&#8221;. (Latour 1994:72-3)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>9. SELE\u00c7\u00c3O E TEMPOS M\u00daLTIPLOS (p.73)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>\u00c9 a sele\u00e7\u00e3o que faz o tempo, e n\u00e3o o tempo que faz a sele\u00e7\u00e3o. O modernismo &#8211; e seus corol\u00e1rios anti- e p\u00f3s-modernos &#8211; era apenas uma sele\u00e7\u00e3o feita por alguns poucos em nome de muitos. Se mais e mais pessoas recuperarem a capacidade de selecionar, por conta pr\u00f3pria, os elementos que fazem parte de nosso tempo, iremos reencontrar a liberdade de movimento que o modernismo nos negava, liberdade que na verdade jamais hav\u00edamos perdido. (Latour 1994:75)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>10. UMA CONTRA-REVOLU\u00c7\u00c3O COPERNICANA (p.75)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[O] tempo nada tem a ver com a hist\u00f3ria. \u00c9 a liga\u00e7\u00e3o entre os seres que constitui o tempo. \u00c9 a liga\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica dos contempor\u00e2neos em um todo coerente que constitu\u00eda o fluxo do tempo moderno. Agora que este fluxo laminar tornou-se turbulento, podemos abandonar as an\u00e1lises sobre o quadro vazio da temporalidade e retornar ao tempo que passa, quer dizer, aos seres e a suas rela\u00e7\u00f5es, \u00e0s redes construtoras de irreversibilidade e reversibilidade. (Latour 1994:76)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Ao inv\u00e9s de negar a exist\u00eancia dos h\u00edbridos &#8211; e de reconstitu\u00ed-los desastradamente sob o nome de intermedi\u00e1rios -, este modelo explicativo permite, pelo contr\u00e1rio, <em>a integra\u00e7\u00e3o do trabalho de purifica\u00e7\u00e3o como um caso particular de media\u00e7\u00e3o<\/em>. (Latour 1994:77)<\/p><\/blockquote>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/LATOUR_1994_Jamais-fomos-modernos_Figura-07.png\" alt=\"\" \/> (Latour 1994:77, Figura 7)<br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/LATOUR_1994_Jamais-fomos-modernos_Figura-08.png\" alt=\"\" \/> (Latour 1994:77, Figura 8)<\/p>\n<blockquote><p>A revolu\u00e7\u00e3o copernicana de Kant [&#8230;] oferece o modelo completo das explica\u00e7\u00f5es modernizadoras, ao fazer com que o objeto gire em torno de um novo foro ao multiplicar os intermedi\u00e1rios para anular aos poucos a dist\u00e2ncia. [&#8230;] Ocorre, com esta invers\u00e3o, o mesmo que com a Revolu\u00e7\u00e3o francesa, que est\u00e1 ligada a ela; s\u00e3o excelentes instrumentos para tornar o tempo irrevers\u00edvel, mas n\u00e3o s\u00e3o, em si, irrevers\u00edveis. [&#8230;] N\u00e3o precisamos apoiar nossas explica\u00e7\u00f5es nestas duas formas puras, o objeto ou o sujeito-sociedade, j\u00e1 que elas s\u00e3o, ao contr\u00e1rio, resultados parciais e purificados da pr\u00e1tica central, a \u00fanica que nos interessa. (Latour 1994:78)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>11. DOS INTERMEDI\u00c1RIOS AOS MEDIADORES (p.78)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A natureza vai sair mudada do laborat\u00f3rio de Boyle, e tamb\u00e9m a sociedade inglesa, mas tanto Boyle quanto Hobbes ir\u00e3o mudar tamb\u00e9m. Tais metamorfoses s\u00e3o incompreens\u00edveis se eternamente existirem apenas dois seres, natureza e sociedade, ou se a primeira permanece eterna enquanto a segunda \u00e9 agitada pela hist\u00f3ria. Estas metamorfoses, no entanto, tornam-se explic\u00e1veis se redistribuirmos a ess\u00eancia por todos os seres que comp\u00f5em esta hist\u00f3ria. Mas ent\u00e3o eles deixam de ser simples intermedi\u00e1rios mais ou menos fi\u00e9is. Tornam-se mediadores, ou seja, atores dotados da capacidade de traduzir aquilo que eles transportam, de redefini-lo, desdobr\u00e1-lo, e tamb\u00e9m de tra\u00ed-lo. Os servos tornaram-se cidad\u00e3os livres. (Latour 1994:80)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>12. DA COISA-EM-SI AO QUESTIONAMENTO (p.81)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[N]\u00e3o vivemos em uma sociedade que seria moderna porque, contrariamente a todas as outras, estaria enfim livre do inferno das rela\u00e7\u00f5es coletivas, do obscurantismo da religi\u00e3o, da tirania da pol\u00edtica, mas porque, da mesma forma que todas as outras, redistribui as acusa\u00e7\u00f5es, substituindo uma causa &#8211; judici\u00e1ria, coletiva, social &#8211; por uma causa &#8211; cient\u00edfica, n\u00e3o social, <em>matter-of-factual<\/em>.(Latour 1994:83)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>13. ONTOLOGIAS DE GEOMETRIA VARI\u00c1VEL (p.84)<\/strong><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/LATOUR_1994_Jamais-fomos-modernos_Figura-09.png\" alt=\"\" \/>  (Latour 1994:85, Figura 9)<\/p>\n<blockquote><p>O grau de estabiliza\u00e7\u00e3o &#8211; a latitude &#8211; \u00e9 t\u00e3o importante quanto a posi\u00e7\u00e3o sobre a linha que vai do natural ao social &#8211; a longitude. [&#8230;] A ontologia dos mediadores, portanto, possui uma geometria vari\u00e1vel. O que Sartre dizia dos humanos, que sua exist\u00eancia precede sua ess\u00eancia, \u00e9 v\u00e1lido para todos os actantes, a elasticidade do ar, a sociedade, a mat\u00e9ria e a consci\u00eancia. [&#8230;] <em>A ess\u00eancia do v\u00e1cuo \u00e9 a trajet\u00f3ria que liga todas elas<\/em> [todas as posi\u00e7\u00f5es de latitude e longitude pelas quais ele passa]. Em outras palavras, a elasticidade do ar possui uma hist\u00f3ria. Cada um dos actantes possui uma assinatura \u00fanica no espa\u00e7o desdobrado por esta trajet\u00f3ria. Para tra\u00e7\u00e1-los, n\u00e3o precisamos construir nenhuma hip\u00f3tese sobre a ess\u00eancia da natureza ou da sociedade. (Latour 1994:85)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>A dupla transcend\u00eancia da natureza, de um lado, e da sociedade, do outro, corresponde \u00e0s ess\u00eancias estabilizadas. Em compensa\u00e7\u00e3o, a iman\u00eancia das naturezas-naturantes e dos coletivos corresponde a uma mesma e \u00fanica regi\u00e3o, a da instabilidade dos eventos, a do trabalho de media\u00e7\u00e3o. (Latour 1994:86)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>14. LIGAR OS QUATRO REPERT\u00d3RIOS MODERNOS (p.87)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Reais como a natureza, narrados como o discurso, coletivos como a sociedade, existenciais como o Ser, tais s\u00e3o os quase-objetos que os modernos fizeram proliferar, e \u00e9 assim que nos conv\u00e9m segui-los, tornando-nos simplesmente aquilo que jamais deixamos de ser, ou seja, n\u00e3o-modernos. (Latour 1994:89)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>:::::::::: IV &#8211; RELATIVISMO :.<\/strong><\/p>\n<p><strong>1. COMO ACABAR COM A ASSIMETRIA? (p.91)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Para que [a Antropologia] se torne comparativa e possa ir e vir entre os modernos e os n\u00e3o-modernos, \u00e9 preciso torn\u00e1-la sim\u00e9trica. Para tanto, deve tornar-se capaz de enfrentar n\u00e3o as cren\u00e7as que n\u00e3o nos tocam diretamente &#8211; somos sempre bastante cr\u00edticos frente a elas &#8211; mas sim os conhecimentos aos quais aderimos totalmente. \u00c9 preciso torn\u00e1-la capaz de estudar as ci\u00eancias, ultrapassando os limites da sociologia do conhecimento e, sobretudo, da epistemologia. [.. Este \u00e9 o primeiro princ\u00edpio de simetria, que abalou os estudos sobre as ci\u00eancias e as t\u00e9cnicas, ao exigir que o erro e a verdade fossem tratados da mesma forma (Bloor, 1982). (Latour 1994:91)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>O falso \u00e9 aquilo que d\u00e1 valor ao verdadeiro. (Latour 1994:92)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>2. O PRINC\u00cdPIO DA SIMETRIA GENERALIZADA (p.93)<\/strong><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/LATOUR_1994_Jamais-fomos-modernos_Figura-10.png\" alt=\"\" \/> (Latour 1994:94, Figura 10)<\/p>\n<blockquote><p>No entanto, o princ\u00edpio de simetria definido por Bloor nos leva rapidamente a um impasse (Latour, 1991). [&#8230;] Ao inv\u00e9s de explicar o verdadeiro atrav\u00e9s da adequa\u00e7\u00e3o com a realidade natural, e o falso atrav\u00e9s da restri\u00e7\u00e3o das categorias sociais, das epistemes, ou dos interesses, este principio tenta explicar tanto o verdadeiro quanto o falso usando as mesmas categorias, as mesmas epistemes e os mesmos interesses. \u00c9 portanto assim\u00e9trico, n\u00e3o mais porque divide, como o fazem os epistem\u00f3logos, a ideologia e a ci\u00eancia, mas porque coloca a natureza [95] entre par\u00eanteses,jogando todo o peso das explica\u00e7\u00f5es apenas sobre o p\u00f3lo da sociedade. (Latour 1994:94-5)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>[\u00c9] preciso compreender ao mesmo tempo como a natureza e a sociedade s\u00e3o imanentes &#8211; no trabalho de media\u00e7\u00e3o &#8211; e transcendentes &#8211; ap\u00f3s o trabalho de purifica\u00e7\u00e3o. (Latour 1994:)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Para que a antropologia se torne sim\u00e9trica, portanto, n\u00e3o basta que acoplemos a ela o primeiro princ\u00edpio de simetria &#8211; que s\u00f3 d\u00e1 cabo das injusti\u00e7as mais \u00f3bvias da epistemologia. \u00c9 preciso que a antropologia absorva aquilo que Michel Callon chama de principio de simetria generalizada: o antrop\u00f3logo deve estar situado no ponto m\u00e9dio, de onde pode acompanhar, ao mesmo tempo, a atribui\u00e7\u00e3o de propriedades n\u00e3o humanas e de propriedades humanas (CalIon, 1986). (Latour 1994:)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>3. A IMPORTA\u00c7\u00c3O-EXPORTA\u00c7\u00c3O DAS DUAS GRANDES DIVIS\u00d5ES (p.96)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Porque o Ocidente se pensa assim? Porque justamente ele, e apenas ele, seria algo mais que uma cultura? Para compreender a profundidade desta Grande Divis\u00e3o entre Eles e N\u00f3s, e preciso retornar a esta outra Grande Divis\u00e3o entre os humanos e os n\u00e3o-humanos que defini anteriormente. De fato, <em>o primeiro \u00e9 a exporta\u00e7\u00e3o do segundo<\/em>. Nos, ocidentais, n\u00e3o podemos ser apenas mais uma cultura entre outras porque mobilizamos tamb\u00e9m a natureza. N\u00e3o mais, como fazem as outras sociedades, uma imagem ou representa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica da natureza, mas a natureza como ela [97] \u00e9, ou ao menos tal como as ci\u00eancias a conhecem, ci\u00eancias que permanecem na retaguarda, imposs\u00edveis de serem estudadas, jamais estudadas. (Latour 1994:96-7)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>L\u00e9vi-Strauss, este advogado generoso, n\u00e3o consegue imaginar outras circunst\u00e2ncias atenuantes que n\u00e3o a de assemelhar seu cliente \u00e0s ci\u00eancias exatas! [&#8230;] Como afogar melhor aqueles cujas cabe\u00e7as desej\u00e1vamos salvar? (Latour 1994:98)<\/p><\/blockquote>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/LATOUR_1994_Jamais-fomos-modernos_Figura-11.png\" alt=\"\" \/> (Latour 1994:98, Figura 11)<\/p>\n<blockquote><p>A Grande Divis\u00e3o interior explica, portanto, a Grande Divis\u00e3o exterior: apenas n\u00f3s diferenciamos de forma absoluta entre a natureza e a cultura, entre a ci\u00eancia e a sociedade, enquanto que todos os outros, sejam eles chineses ou amer\u00edndios, zand\u00e9s au barouyas, n\u00e3o podem separar de fato aquilo que \u00e9 conhecimento do que \u00e9 sociedade, o que \u00e9 signo do que \u00e9 coisa, o que vem da natureza como ela realmente \u00e9 daquilo que suas culturas requerem. [&#8230;] A parti\u00e7\u00e3o interior dos n\u00e3o-humanos define uma segunda parti\u00e7\u00e3o, desta vez externa, atrav\u00e9s da qual os modernos s\u00e3o separados dos pr\u00e9-modernos. Nas culturas Deles, a natureza e a sociedade, os signos e as coisas s\u00e3o quase coextensivos. Em Nossa cultura, ningu\u00e9m mais deve poder misturar as preocupa\u00e7\u00f5es sociais e o acesso \u00e0s coisas em si. (Latour 1994:99)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>4. A ANTROPOLOGIA VOLTA DOS TR\u00d3PICOS (p.99)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>\u00c9 portanto preciso contornar as duas Divis\u00f5es ao mesmo tempo, n\u00e3o acreditando nem na distin\u00e7\u00e3o radical dos humanos e dos n\u00e3o-humanos em nossa sociedade, nem na superposi\u00e7\u00e3o total do saber e das sociedades nas outras. (Latour 1994:100)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>A peculiaridade dos ocidentais foi a de ter imposto, atrav\u00e9s da Constitui\u00e7\u00e3o, a separa\u00e7\u00e3o total dos humanos e dos n\u00e3o-humanos &#8211; Grande Divis\u00e3o interior &#8211; tendo assim criado artificialmente o choque dos outros. &#8220;Como algu\u00e9m pode ser persa?&#8221; Como \u00e9 poss\u00edvel que algu\u00e9m n\u00e3o veja uma diferen\u00e7a radical entre a natureza universal e a cultura relativa? Mas a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de cultura \u00e9 um artefato criado por nosso afastamento da natureza. Ora, n\u00e3o existem nem culturas &#8211; diferentes ou universais &#8211; nem uma natureza universal. Existem apenas naturezas-culturas, as quais constituem a \u00fanica base poss\u00edvel para compara\u00e7\u00f5es. A partir do momento em que levamos em conta tanto as pr\u00e1ticas de media\u00e7\u00e3o quanto as pr\u00e1ticas de purifica\u00e7\u00e3o, percebemos que nem bem os modernos separam os humanos dos n\u00e3o-humanos nem bem os &#8220;outros&#8221; superp\u00f5em totalmente os signos e as coisas (Guille-Escuret, 1989).<br \/>\n(Latour 1994:102)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Figura 12 (Latour 1994:103)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Todas as naturezas-culturas s\u00e3o similares por constru\u00edrem ao mesmo tempo os seres humanos, divinos e n\u00e3o-humanos. [&#8230;] Todas distribuem aquilo que receber\u00e1 uma carga de s\u00edmbolos e aquilo que n\u00e3o receber\u00e1 (Claverie, 1990). Se existe uma coisa que todos fazemos da mesma forma \u00e9 construir ao mesmo tempo nossos coletivos humanos e os n\u00e3o-humanos que os cercam. (Latour 1994:104)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>O objetivo do princ\u00edpio de simetria n\u00e3o \u00e9 apenas o de estabelecer a igualdade &#8211; esta \u00e9 apenas o meio de regular a balan\u00e7a no ponto zero &#8211; mas tamb\u00e9m o de gravar as diferen\u00e7as, ou seja, no fim das contas, as assimetrias, e o de compreender os meios pr\u00e1ticos que permitem aos coletivos dominarem outros coletivos. Ainda que sejam semelhantes pela coprodu\u00e7\u00e3o, todos os coletivos diferem pelo tamanho. (Latour 1994:105)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Tod0S os coletivos se parecem, a nao ser por sua dimensao, assim como as volutas sucessivas de uma espiral. Que sejam necessarios ancestrais e estrelas fixas em urn dos cfrculos, ou genes e quasares em outro, mais excentrico, isto pode ser explicado pela dimensao dos coletivos em questa-o. <em>Um numero muito maior de objetos exige muito mais sujeitos. Muito mais subjetividade requer muito mais ob;etividade.<\/em> Se desejamos Hobbes e seus descendentes, precisamos de Boyle e de seus descendentes. Se desejamos 0 Leviata, precisamos da bomba de vacuo. Eisto que permite respeitar ao&#8221; mesmo tempo as diferen~as (as vo- lutas tern, de fato, dimensoes diferentes) e as semelhan&#8221;as (todos os cole- tivos misturam da mesma forma as entidades humanas e nao-humanas). (Latour 1994:106)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>As ciencias e as tecnicas nao sao notaveis par serern verdadeiras ou<br \/>\neficazes &#8211; estas propriedades lhes sao fornecidas por acrescirno e por ra- zoes outras que nao as dos epistem610gos (Latour, 1989a) &#8211; , mas sim porque multiplicam os nao-humanos envolvidos na constru~aodos cole- tivos e porque tornam mais intima a comunidade que formamos com es- tes seres. Ea extensao da espiral, a amplitude dos envolvimentos que ira suscitar, a distancia cada vez maior onde ira recrutar estes seres que ca- racterizam as ciencias modernas e nao algum corte epistemol6gico que romperia de uma vez por todas com seu passado pre-cientffico. Os sabe- res e as podere&#8217;s modernos nao sao diferentes porque escapam atirania do social, maS porque acrescentam muito mais hibridos a fim de recompor 0 la~o social e de aumentar ainda mais sua escala. Nao apenas a &#8220;bomba de vacuo, mas tambem os micr6bios, a eletricidade, os atomos, as estrelas, as equa~6es de segundo grau~ os automatos e os robos, os moinhos e os [107] pistoes, 0 inconsciente e as neurotransmissores. A cada vez uma nova tra- d~~~ode quase-objetos reinicia a redefini~aodo corpo s~cial,tanto dos SUJeltos quanta dos objetos. (Latour 1994:106-7)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>(Latour 1994:)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>5. N\u00c3O EXISTEM CULTURAS (p.101)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>(Latour 1994:)<\/p><\/blockquote>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/LATOUR_1994_Jamais-fomos-modernos_Figura-12.png\" alt=\"\" \/> (Latour 1994:103, Figura 12)<br \/>\n<strong>6. DIFEREN\u00c7AS DE TAMANHO (p.104)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>(Latour 1994:)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>7. O GOLPE DE ARQUIMEDES (p.107)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>(Latour 1994:)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>8. RELATIVISMO ABSOLUTO E RELATIVISMO RELATIVISTA (p.109)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>(Latour 1994:)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>9. PEQUENOS ENGANOS SOBRE O DESENCANTO DO MUNDO (p.112)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>(Latour 1994:)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>10. MESMO UMA REDE AMPLA CONTINUA A SER LOCAL EM TODOS OS PONTOS (p.114)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>(Latour 1994:)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>11. O LEVIAT\u00c3 \u00c9 UM NOVELO DE REDES (p.118)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>(Latour 1994:)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>12. O GOSTO DAS MARGENS (p.120)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>(Latour 1994:)<\/p><\/blockquote>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/LATOUR_1994_Jamais-fomos-modernos_Figura-13.png\" alt=\"\" \/> (Latour 1994:121, Figura 13)<br \/>\n<strong>13. N\u00c3O ACRESCENTAR NOVOS CRIMES AOS QUE J\u00c1 FORAM COMETIDOS (p.123)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>(Latour 1994:)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>14. TRANSCEND\u00caNCIAS ABUNDANTES (p.125)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>(Latour 1994:)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>:::::::::: V &#8211; REDISTRIBUI\u00c7\u00c3O :.<\/strong><\/p>\n<p><strong>1. A MODERNIZA\u00c7\u00c3O IMPOSS\u00cdVEL (p.129)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>(Latour 1994:)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>2. EXAMES DE ACEITA\u00c7\u00c3O (p.131)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>(Latour 1994:)<\/p><\/blockquote>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/LATOUR_1994_Jamais-fomos-modernos_Figura-14.png\" alt=\"\" \/> (Latour 1994:139, Figura 14)<br \/>\n<strong>3. O HUMANISMO REDISTRIBU\u00cdDO (p.134)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>(Latour 1994:)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>4. A CONSTITUI\u00c7\u00c3O N\u00c3O MODERNA (p.137)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>(Latour 1994:)<\/p><\/blockquote>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/LATOUR_1994_Jamais-fomos-modernos_Figura-15.png\" alt=\"\" \/> (Latour 1994:139, Figura 15)<br \/>\n<strong>5. O PARLAMENTO DAS COISAS (p.140)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>(Latour 1994:)<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>LATOUR, Bruno. 1994. Jamais fomos modernos: ensaio de Antropologia sim\u00e9trica. (Trad. Carlos Irineu da Costa) Rio de Janeiro: Ed.34. [1991] :::::::::: I &#8211; CRISE :. 1. A PROLIFERA\u00c7\u00c3O DOS H\u00cdBRIDOS (p.7) Multiplicam-se os artigos h\u00edbridos que delineiam tramas de ci\u00eancia, pol\u00edtica, economia, direito, religi\u00e3o, t\u00e9cnica, fic\u00e7\u00e3o. Se a leitura do jornal di\u00e1rio \u00e9 a reza do homem moderno, qu\u00e3o estranho [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":355,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[12],"class_list":["post-354","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-fichamento","tag-latour"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Latour_JFM.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/354","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=354"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/354\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2445,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/354\/revisions\/2445"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/355"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=354"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=354"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=354"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}