{"id":3524,"date":"2026-06-26T18:23:49","date_gmt":"2026-06-26T18:23:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=3524"},"modified":"2026-06-26T18:23:49","modified_gmt":"2026-06-26T18:23:49","slug":"vocabulaspa-episodio-5-desobediencia-tecnologica-por-rafael-malhao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2026\/06\/26\/vocabulaspa-episodio-5-desobediencia-tecnologica-por-rafael-malhao\/","title":{"rendered":"VocabuLaSPA \u2013 Epis\u00f3dio [5]: Desobedi\u00eancia Tecnol\u00f3gica \u2013 por Rafael Malh\u00e3o"},"content":{"rendered":"<table>\n<tr>\n<td width=\"200\" style=\"text-align: center;vertical-align: middle\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/00-VocabuLaSPA-CAPA-scaled.png\" \/><\/td>\n<td style=\"text-align: left;vertical-align: middle\"><strong>Epis\u00f3dio [5]: Desobedi\u00eancia Tecnol\u00f3gica \u2013 por Rafael Malh\u00e3o<\/strong> (26\/06\/2026).<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p><div class=\"powerpress_player\" id=\"powerpress_player_8140\"><audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-3524-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Vocabulaspa-ep-05-finalizado.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Vocabulaspa-ep-05-finalizado.mp3\">https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Vocabulaspa-ep-05-finalizado.mp3<\/a><\/audio><\/div><p class=\"powerpress_links powerpress_links_mp3\" style=\"margin-bottom: 1px !important;\">Podcast (vocabulaspa): <a href=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Vocabulaspa-ep-05-finalizado.mp3\" class=\"powerpress_link_pinw\" target=\"_blank\" title=\"Play in new window\" onclick=\"return powerpress_pinw('https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/?powerpress_pinw=3524-vocabulaspa');\" rel=\"nofollow\">Play in new window<\/a> | <a href=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Vocabulaspa-ep-05-finalizado.mp3\" class=\"powerpress_link_d\" title=\"Download\" rel=\"nofollow\" download=\"Vocabulaspa-ep-05-finalizado.mp3\">Download<\/a><\/p><br \/>\nO que voc\u00ea faz quando um objeto quebra e voc\u00ea n\u00e3o encontra as pe\u00e7as de reposi\u00e7\u00e3o e n\u00e3o existe assist\u00eancia t\u00e9cnica para consert\u00e1-lo?<\/p>\n<p>Em uma sociedade de consumo, a resposta normalmente \u00e9: comprar outro. Mas em Cuba, durante o chamado Per\u00edodo especial em tempos de paz, isso muitas vezes n\u00e3o era poss\u00edvel. A escassez de produtos, pe\u00e7as de reposi\u00e7\u00e3o e mat\u00e9rias-primas obrigou a popula\u00e7\u00e3o a desenvolver uma rela\u00e7\u00e3o diferente com os objetos.<\/p>\n<p>E no epis\u00f3dio de hoje, o Rafael Malh\u00e3o explica para n\u00f3s o conceito de Desobedi\u00eancia Tecnol\u00f3gica a partir do contexto hist\u00f3rico cubano e do autor Ernesto Oroza.<\/p>\n<p>Rafael Malh\u00e3o \u00e9 cientista social, formado em 2010 pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a UFRGS. Concluiu o mestrado em 2014 e o doutorado em 2018, ambos pela Unicamp. Depois disso, realizou um est\u00e1gio de p\u00f3s-doutorado na UFRGS na rede COVID-19 Humanidades, onde pesquisou os impactos da pandemia entre DJs e m\u00fasicos. Tamb\u00e9m desenvolveu um projeto de p\u00f3s-doutorado financiado pelo CNPq, investigando a rede Fab Lab Livre SP, que \u00e9 a rede p\u00fablica de laborat\u00f3rios de fabrica\u00e7\u00e3o digital da cidade de S\u00e3o Paulo. Atualmente, ele atua como professor substituto de sociologia na Universidade Federal de Pelotas.<\/p>\n<p>Este podcast integra o Projeto de Jornalismo Cient\u00edfico &#8220;Projeto de Divulga\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica do Laborat\u00f3rio de Sociologia dos Processos de Associa\u00e7\u00e3o (LaSPA)&#8221; financiado pela Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo (FAPESP), processo n\u00b0 2025\/13701-4, e conta com apoio do Departamento de Sociologia (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).<\/p>\n<p><strong>Concep\u00e7\u00e3o, Produ\u00e7\u00e3o, Edi\u00e7\u00e3o e Arte:<\/strong> Rodrigo Fessel Sega<br \/>\n<strong>Trilha Sonora:<\/strong> Arthur Prando do Prado<br \/>\n<strong>\u00c1udios:<\/strong><br \/>\nGUZMAN, David Rodriguez. Rikimbili en cuba. 12 dez. 2018. YouTube. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=YrlEq3MlXhk\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=YrlEq3MlXhk<\/a><br \/>\nINSTITUT NATIONAL DE L&#8217;AUDIOVISUEL (INA). Discurso de Fidel Castro en la ONU \/ Discours de Fidel Castro \u00e0 l&#8217;ONU. INA \u00c9claire l&#8217;actu. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.ina.fr\/ina-eclaire-actu\/video\/vdd13019951\/discurso-de-fidel-castro-en-la-onu-discours-de-fidel-castro-a-l-onu\">https:\/\/www.ina.fr\/ina-eclaire-actu\/video\/vdd13019951\/discurso-de-fidel-castro-en-la-onu-discours-de-fidel-castro-a-l-onu<\/a><\/p>\n<p>Voc\u00ea tamb\u00e9m pode acessar as produ\u00e7\u00f5es do LaSPA acessando nossos canais:<br \/>\nsite <a href=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/\">https:\/\/www.laspa.slg.br\/<\/a><br \/>\ne-mail <a href=\"mailto:laspa@unicamp.br\">laspa@unicamp.br<\/a><br \/>\nInstagram <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/laspa.unicamp\/\">https:\/\/www.instagram.com\/laspa.unicamp\/<\/a><br \/>\nReddit <a href=\"https:\/\/www.reddit.com\/user\/laspa_unicamp\/\">https:\/\/www.reddit.com\/user\/laspa_unicamp\/<\/a><br \/>\nTikTok <a href=\"https:\/\/www.tiktok.com\/@laspa.unicamp\">https:\/\/www.tiktok.com\/@laspa.unicamp<\/a><br \/>\nYouTube <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/@LaSPA.Unicamp\">https:\/\/www.youtube.com\/@LaSPA.Unicamp<\/a><\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias Citadas:<\/strong><br \/>\nCUBA. Con nuestros propios esfuerzos: algunas experiencias para enfrentar el per\u00edodo especial en tiempo de paz. La Habana, d\u00e9cada de 1990.<\/p>\n<p>CUBA. Libro de la Familia. La Habana, in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990.<\/p>\n<p>OROZA, Ernesto. Desobediencia tecnol\u00f3gica. Havana: Artedar, 2015.<\/p>\n<p>OROZA, Ernesto. Rikimbili: una historia de la desobediencia tecnol\u00f3gica y otros inventos. Madrid: Turner, 2009.<\/p>\n<p><strong>TRANSCRI\u00c7\u00c3O DO EPIS\u00d3DIO:<\/strong><br \/>\n<strong>Rafael Malh\u00e3o:<\/strong><br \/>\nA desobedi\u00eancia tecnol\u00f3gica foi o m\u00e9todo encontrado pela popula\u00e7\u00e3o cubana de produzir solu\u00e7\u00f5es para os problemas cotidianos, transbordando a dimens\u00e3o normativa da economia que, na maioria das vezes, tenta restringir as possibilidades de acesso aos c\u00f3digos t\u00e9cnicos.<\/p>\n<p>O conhecimento t\u00e9cnico e dos materiais funcionou ali como forma de supera\u00e7\u00e3o das limita\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, permitindo o desenvolvimento de diferentes dimens\u00f5es da vida social. A normatividade t\u00e9cnica tem a ver com conhecimento, mercado e pol\u00edtica. Logo, subverte os c\u00f3digos hegem\u00f4nicos e coloca em quest\u00e3o outras possibilidades de pensar e viver em coletivo, possibilitando t\u00e1ticas que busquem desarticular as tentativas de domina\u00e7\u00e3o produzidas pela hegemonia econ\u00f4mica. Nesse sentido, a desobedi\u00eancia tecnol\u00f3gica encontra as fissuras da normatividade econ\u00f4mica por meio do dom\u00ednio dos c\u00f3digos t\u00e9cnicos e utiliza esses espa\u00e7os como ponto de partida para a renova\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o material ordin\u00e1ria.<\/p>\n<p><strong>Rodrigo Fessel Sega:<\/strong><br \/>\nO que voc\u00ea faz quando um objeto quebra e voc\u00ea n\u00e3o encontra as pe\u00e7as de reposi\u00e7\u00e3o e n\u00e3o existe assist\u00eancia t\u00e9cnica para consert\u00e1-lo?<\/p>\n<p>Em uma sociedade de consumo, a resposta normalmente \u00e9: comprar outro. Mas em Cuba, durante o chamado <em>Per\u00edodo especial em tempos de paz<\/em>, isso muitas vezes n\u00e3o era poss\u00edvel. A escassez de produtos, pe\u00e7as de reposi\u00e7\u00e3o e mat\u00e9rias-primas obrigou a popula\u00e7\u00e3o a desenvolver uma rela\u00e7\u00e3o diferente com os objetos.<\/p>\n<p>Est\u00e1 come\u00e7ando agora mais um epis\u00f3dio do VocabuLaSPA, o podcast do LaSPA, o Laborat\u00f3rio de Sociologia dos Processos de Associa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu sou Rodrigo Fessel Sega, soci\u00f3logo e coordenador deste podcast.<\/p>\n<p>E no epis\u00f3dio de hoje, o Rafael Malh\u00e3o explica para n\u00f3s o conceito de Desobedi\u00eancia Tecnol\u00f3gica a partir do contexto hist\u00f3rico cubano e do autor Ernesto Oroza.<\/p>\n<p>Rafael Malh\u00e3o \u00e9 cientista social, formado em 2010 pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a UFRGS. Concluiu o mestrado em 2014 e o doutorado em 2018, ambos pela Unicamp. Depois disso, realizou um est\u00e1gio de p\u00f3s-doutorado na UFRGS na rede COVID-19 Humanidades, onde pesquisou os impactos da pandemia entre DJs e m\u00fasicos. Tamb\u00e9m desenvolveu um projeto de p\u00f3s-doutorado financiado pelo CNPq, investigando a rede Fab Lab Livre SP, que \u00e9 a rede p\u00fablica de laborat\u00f3rios de fabrica\u00e7\u00e3o digital da cidade de S\u00e3o Paulo. Atualmente, ele atua como professor substituto de sociologia na Universidade Federal de Pelotas.<\/p>\n<p>Ou\u00e7a, agora, o Rafael Malh\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Rafael Malh\u00e3o:<\/strong><br \/>\nEm nosso cotidiano estamos cercados por objetos que foram projetados por algu\u00e9m e colocados no mercado para suprirem os desejos e necessidades de consumo. Mas o que acontece quando o nosso contexto material \u00e9 bastante adverso? \u00c9 a\u00ed que o dom\u00ednio dos c\u00f3digos t\u00e9cnicos emerge como um fator significativo para a transforma\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es materiais dadas. O conceito-pr\u00e1tica \u201cdesobedi\u00eancia tecnol\u00f3gica\u201d (OROZA, 2015), desenvolvido pelo <em>designer <\/em>cubano Ernesto Oroza em um contexto hist\u00f3rico, econ\u00f4mico e t\u00e9cnico lim\u00edtrofe no desenvolvimento do capitalismo contempor\u00e2neo exp\u00f5e como pr\u00e1ticas simples e cotidianas que ocorrem na ilha cubana, podem ser vistas como desvios conscientes dos diferentes n\u00edveis de normatividades inscritos nos produtos industriais.<\/p>\n<p>No final d\u00e9cada de 1980 e in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990 ocorreram dois eventos disjuntivos no cen\u00e1rio internacional, que naquele momento foram muito relevantes para ilha caribenha: a queda do muro de Berlim (1989) e a dissolu\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica (1991). A disjun\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica advinda desses dois eventos indicava a mudan\u00e7a inevit\u00e1vel no cen\u00e1rio socioecon\u00f4mico e hist\u00f3rico, que seria particularmente experienciado em Cuba. No in\u00edcio da d\u00e9cada de 1960, os Estados Unidos imp\u00f5em um embargo econ\u00f4mico a Cuba, que permanece at\u00e9 o presente. Com o colapso do bloco do leste europeu, se inviabiliza o apoio da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica \u00e0 Cuba, momento que o Estado cubano denominar\u00e1 <em>Per\u00edodo especial em tempos de paz<\/em>. O suporte econ\u00f4mico e a transfer\u00eancia de tecnologia fornecida pela Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica cessam, bem como a ind\u00fastria local entra em um processo de retra\u00e7\u00e3o. O processo de travamento das m\u00e1quinas industriais por meio do embargo n\u00e3o foi uma simples desarticula\u00e7\u00e3o da esfera pol\u00edtico-econ\u00f4mica de Cuba, mas um travamento das m\u00e1quinas da revolu\u00e7\u00e3o constante. A partir dessas condi\u00e7\u00f5es, novas formas de pensar a rela\u00e7\u00e3o com os materiais e com os objetos come\u00e7aram a emergir nas pr\u00e1ticas cotidianas.<\/p>\n<p>Diante disso, o pr\u00f3prio Estado cubano adota algumas medidas para contornar as dificuldades que se anunciavam. Uma das mais importantes e que influenciou diretamente o modo como a popula\u00e7\u00e3o interagia com os objetos, foi a publica\u00e7\u00e3o do \u201c<em>Libro de la familia<\/em>\u201d, uma esp\u00e9cie de grande compila\u00e7\u00e3o de artigos cient\u00edficos e t\u00e9cnicos dirigidos \u00e0 n\u00e3o especialistas, com intuito de disseminar os mais diferentes tipos de conhecimento, desde t\u00e9cnicas culin\u00e1rias, passando por sobreviv\u00eancia na selva e produ\u00e7\u00e3o de artefatos de defesa, utilizando os materiais fornecidos pelo ambiente, at\u00e9 princ\u00edpios de engenharia el\u00e9trica e mec\u00e2nica. A publica\u00e7\u00e3o foi organizada n\u00e3o s\u00f3 para tentar antecipar as consequ\u00eancias da degrada\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es materiais no cotidiano a partir da dissolu\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica aliada ao embargo, mas tamb\u00e9m porque o governo cubano acreditava que a ilha poderia sofrer uma interven\u00e7\u00e3o militar a qualquer momento, e caso ocorresse, seria necess\u00e1rio que a popula\u00e7\u00e3o se refugiasse fora das cidades e soubesse como enfrentar as adversidades que surgissem. Poucos anos ap\u00f3s essa publica\u00e7\u00e3o, surgiu uma segunda na qual s\u00e3o apresentadas as experi\u00eancias proporcionadas pela primeira publica\u00e7\u00e3o e acrescentam-se novas informa\u00e7\u00f5es sobre as mais variadas t\u00e9cnicas, desde a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola at\u00e9 a produ\u00e7\u00e3o de material para educa\u00e7\u00e3o esportiva. A segunda publica\u00e7\u00e3o foi intitulada \u201c<em>Con nuestros proprios esfuerzos: algunas experiencias para enfrentar el per\u00edodo especial en tiempo de paz<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>A desobedi\u00eancia tecnol\u00f3gica foi o m\u00e9todo encontrado pela popula\u00e7\u00e3o cubana de produzir solu\u00e7\u00f5es para os problemas cotidianos, transbordando a dimens\u00e3o normativa da economia que, na maioria das vezes, tenta restringir as possibilidades de acesso aos c\u00f3digos t\u00e9cnicos. A l\u00f3gica de funcionamento da desobedi\u00eancia tecnol\u00f3gica \u00e9, ao mesmo tempo, um ato pol\u00edtico, econ\u00f4mico e de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento. Essa desobedi\u00eancia gera alternativas vi\u00e1veis e aplic\u00e1veis por qualquer um, tendo como fundamento o c\u00f3digo t\u00e9cnico orientado por interesses econ\u00f4micos que primam pela exclus\u00e3o dos n\u00e3o especialistas no processo de projeto e manuten\u00e7\u00e3o dos objetos. Portanto, o terreno em disputa na dimens\u00e3o normativa da t\u00e9cnica inscrita nos objetos, irradia seus resultados de forma transversal em outras \u00e1reas da vida social, principalmente porque exp\u00f5e as tens\u00f5es que acompanham a normatividade t\u00e9cnica, o que obriga a repensar a condi\u00e7\u00e3o de usu\u00e1rios-consumidores reservada dentro dessa l\u00f3gica. O conhecimento t\u00e9cnico e dos materiais funcionou ali como forma de supera\u00e7\u00e3o das limita\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, permitindo o desenvolvimento de diferentes dimens\u00f5es da vida social. A normatividade t\u00e9cnica tem a ver com conhecimento, mercado e pol\u00edtica. Logo, subverte os c\u00f3digos hegem\u00f4nicos e coloca em quest\u00e3o outras possibilidades de pensar e viver em coletivo, possibilitando t\u00e1ticas que busquem desarticular as tentativas de domina\u00e7\u00e3o produzidas pela hegemonia econ\u00f4mica. Nesse sentido, a desobedi\u00eancia tecnol\u00f3gica encontra as fissuras da normatividade econ\u00f4mica por meio do dom\u00ednio dos c\u00f3digos t\u00e9cnicos e utiliza esses espa\u00e7os como ponto de partida para a renova\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o material ordin\u00e1ria.<\/p>\n<p><strong>Rodrigo Fessel Sega:<\/strong><br \/>\nImagine voc\u00ea abrir um livro e encontrar uma p\u00e1gina inteira dedicada a uma m\u00e1quina de lavar. N\u00e3o uma propaganda, nem um simples manual de instru\u00e7\u00f5es, mas uma aula de engenharia did\u00e1tica e bastante pontual. Este \u00e9 o \u201cLivro da Fam\u00edlia\u201d, que o Rafael acabou de citar. No topo da p\u00e1gina 223, por exemplo, aparece o desenho de uma m\u00e1quina de lavar vista por fora: um objeto comum, presente em muitas casas, desenhado de forma simples e bem did\u00e1tica. A esquerda, ainda na parte superior, vemos o desenho de uma m\u00e1quina de lavar dom\u00e9stica retangular, com uma tampa dividida em dois compartimentos, um painel de controle com bot\u00f5es, as al\u00e7as laterais da m\u00e1quina e uma base elevada. O desenho \u00e9 simples e lembra os manuais de manuten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, ao lado dessa ilustra\u00e7\u00e3o aparecem duas colunas de texto explicando o funcionamento do motor, das correias, do agitador, do processo de lavagem e da centr\u00edfuga. Setas apontam para cada componente, identificando cada pe\u00e7a de um todo.<\/p>\n<p>\u00c9 como se esse desenho tivesse sido rabiscado num guardanapo, na mesa da nossa casa, por um amigo pr\u00f3ximo que come\u00e7ou a nos explicar, passo a passo, como a m\u00e1quina funciona. Por isso, a m\u00e1quina deixa de ser uma caixa fechada que apenas lava e seca as roupas e passa a ser apresentada como um conjunto de mecanismos compreens\u00edveis e interconectados. Ou seja, o objetivo do livro n\u00e3o \u00e9 apenas mostrar as m\u00e1quinas, mas explicar os princ\u00edpios mec\u00e2nicos e fun\u00e7\u00f5es de cada objeto que comp\u00f5e o todo.<\/p>\n<p>A m\u00e1quina de lavar n\u00e3o aparece como um objeto misterioso ou inacess\u00edvel, mas como algo que pode ser entendido, desmontado, reparado, adquirir novas fun\u00e7\u00f5es e, se necess\u00e1rio, reinventado. Em outras palavras, \u201cO Livro da Fam\u00edlia\u201d \u00e9 um exemplo pr\u00e1tico \u00a0de recusar a ideia de que um objeto s\u00f3 pode ser usado da maneira prevista pelo fabricante. \u00c9 isso o que o Rafael Malh\u00e3o est\u00e1 chamando de desobedi\u00eancia tecnol\u00f3gica e mostrando como o Estado cubano incentivou esse processo ao publicar esses dois livros.<\/p>\n<p>Por isso, a desobedi\u00eancia tecnol\u00f3gica, de acordo com o Rafael, n\u00e3o \u00e9 apenas uma pr\u00e1tica de sobreviv\u00eancia ou produ\u00e7\u00e3o de manuais t\u00e9cnicos. Ela tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento. Ao reparar um objeto, a pessoa deixa de ser apenas consumidora e passa a compreender como aquele objeto funciona. Ao modific\u00e1-lo, ela passa a participar do processo t\u00e9cnico que antes estava restrito aos especialistas, ou, como disse o Rafael, \u201csubverte os c\u00f3digos hegem\u00f4nicos e coloca em quest\u00e3o outras possibilidades de pensar e viver em coletivo, possibilitando t\u00e1ticas que busquem desarticular as tentativas de domina\u00e7\u00e3o produzidas pela hegemonia econ\u00f4mica.\u201d<\/p>\n<p>A seguir, o Rafael Malh\u00e3o vai explicar como o Ernesto Oroza descreve os tr\u00eas n\u00edveis da desobedi\u00eancia tecnol\u00f3gica.<\/p>\n<p><strong>Rafael Malh\u00e3o:<\/strong><br \/>\nA desobedi\u00eancia tecnol\u00f3gica caracteriza-se pelo modo imanente como a criatividade produtiva emerge na rela\u00e7\u00e3o direta com os objetos, al\u00e9m dessa caracter\u00edstica, ela ainda contou com o esfor\u00e7o sistem\u00e1tico do Estado na divulga\u00e7\u00e3o de conhecimentos que potencializam o tra\u00e7o de inventividade no \u00e2mbito da resolu\u00e7\u00e3o de problemas cotidianos, atrav\u00e9s da altera\u00e7\u00e3o dos objetos. Oroza se vale da descri\u00e7\u00e3o das diferentes atitudes necess\u00e1rias para a realiza\u00e7\u00e3o efetiva da desobedi\u00eancia como t\u00e1tica para a elabora\u00e7\u00e3o do conceito, que s\u00e3o: repara\u00e7\u00e3o, refuncionaliza\u00e7\u00e3o e reinven\u00e7\u00e3o (OROZA, 2015). Essas tr\u00eas formas de desobedi\u00eancia s\u00e3o listadas a partir de uma grada\u00e7\u00e3o crescente do seu car\u00e1ter desobediente:<\/p>\n<p>Repara\u00e7\u00e3o: \u00e9 o processo pelo qual se interv\u00e9m a fim de que os objetos conservem suas fun\u00e7\u00f5es originais. A repara\u00e7\u00e3o \u00e9 a a\u00e7\u00e3o que devolve, parcial ou totalmente, as caracter\u00edsticas, sejam elas t\u00e9cnicas, estruturais, de uso, de funcionamento ou est\u00e9ticas, que foram perdidas por algum motivo. A repara\u00e7\u00e3o estabelece um novo modo de rela\u00e7\u00e3o com o objeto, uma rela\u00e7\u00e3o que supera o simples uso. Ocorre uma simetriza\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o, uma vez que anterior ao reparo, apenas \u00e9 a depend\u00eancia do usu\u00e1rio em rela\u00e7\u00e3o ao funcionamento do objeto. Ap\u00f3s o reparo, a conserva\u00e7\u00e3o do funcionamento depende da a\u00e7\u00e3o do usu\u00e1rio em seu conjunto t\u00e9cnico, a fim de destravar as condi\u00e7\u00f5es que limitam ou impedem seu bom funcionamento. Ou seja, h\u00e1 um reequil\u00edbrio da rela\u00e7\u00e3o objeto-usu\u00e1rio por meio da interven\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica. A repara\u00e7\u00e3o funciona como uma inicia\u00e7\u00e3o no pensamento t\u00e9cnico que abrir\u00e1 as possibilidades de ingresso nas a\u00e7\u00f5es de refuncionaliza\u00e7\u00e3o e de reinven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Refuncionaliza\u00e7\u00e3o: \u00e9 o processo que se vale das caracter\u00edsticas \u2014 mat\u00e9ria, forma, fun\u00e7\u00e3o \u2014 de um objeto estragado a fim de que ele atue de uma nova forma em seu contexto original ou em um novo contexto. Portanto, \u00e9 um processo operacional que produz uma metamorfose, tanto no objeto quanto no contexto ao qual ele era destinado.<\/p>\n<p>Reinven\u00e7\u00e3o: \u00e9 o ato de desobedi\u00eancia, por excel\u00eancia, aos padr\u00f5es t\u00e9cnicos propostos pela produ\u00e7\u00e3o industrial. \u00c9 o processo pelo qual se cria um objeto novo valendo-se dos componentes e sistemas de objetos descartados. Vale-se dos materiais, das formas e fun\u00e7\u00f5es dos sistemas operativos como ponto de partida para a cria\u00e7\u00e3o do novo, por meio da imagina\u00e7\u00e3o, se recriam os princ\u00edpios t\u00e9cnicos preexistentes e os materializam em novos objetos ou t\u00e9cnicas.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas modos de interven\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica (repara\u00e7\u00e3o, refuncionaliza\u00e7\u00e3o e reinven\u00e7\u00e3o), podem ser considerados \u201csaltos imaginativos\u201d (OROZA, 2015:5)<em>, <\/em>e postos em oposi\u00e7\u00e3o aos modos de uso do conceito de inova\u00e7\u00e3o, feitos em favor das l\u00f3gicas comerciais estabelecidas. Os saltos imaginativos<em>, <\/em>ao contr\u00e1rio, incentivam as atitudes criativas por parte dos usu\u00e1rios, se \u00e9 que ainda seria poss\u00edvel utilizar esta classifica\u00e7\u00e3o baseada no conhecimento t\u00e9cnico com distin\u00e7\u00f5es das bases normativas propostas, principalmente pelos modelos disseminados pela grande ind\u00fastria.<\/p>\n<p>Por um lado, muito da pot\u00eancia imaginativa da desobedi\u00eancia tecnol\u00f3gica adv\u00e9m de duas a\u00e7\u00f5es, a primeira \u00e9 a acumula\u00e7\u00e3o. Que garante a constitui\u00e7\u00e3o de um acervo material que serve de base objetiva para interven\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas futuras. Por outro lado, temos a <em>standardiza\u00e7\u00e3o<\/em> dos objetos dispon\u00edveis que, por sua vez, facilita n\u00e3o s\u00f3 a aquisi\u00e7\u00e3o de pe\u00e7as de reposi\u00e7\u00e3o para os casos de reparos, mas tamb\u00e9m para a combina\u00e7\u00e3o de diferentes objetos entre si. As combina\u00e7\u00f5es entre diferentes partes de diferentes objetos abrem o caminho para a padroniza\u00e7\u00e3o das adapta\u00e7\u00f5es que se proliferaram por toda a ilha. Essa situa\u00e7\u00e3o fica clara no caso da antena de televis\u00e3o produzida com bandejas dos refeit\u00f3rios p\u00fablicos e das f\u00e1bricas, ou as bicicletas motorizadas, conhecidas como <em>rikimbili<\/em>.<\/p>\n<p>A desobedi\u00eancia tecnol\u00f3gica, portanto, n\u00e3o \u00e9 uma simples nega\u00e7\u00e3o e transgress\u00e3o de uma pretendida autoridade que se apresenta mais ostensivamente na figura jur\u00eddica do <em>copyright<\/em>, dos objetos industriais e dos modos de vida que tentam induzir e projetar. As pr\u00e1ticas que que deram origem ao conceito desobedi\u00eancia tecnol\u00f3gica s\u00e3o, antes de qualquer coisa, um desvio das condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas pouco favor\u00e1veis por meio da subvers\u00e3o das limita\u00e7\u00f5es de adapta\u00e7\u00e3o dos objetos que s\u00e3o mascaradas como normatividades t\u00e9cnicas.<\/p>\n<p><strong>Rodrigo Fessel Sega:<\/strong><br \/>\n\u00c9 desta forma que o Rafael Malh\u00e3o mostra que para o Ernesto Oroza, a criatividade t\u00e9cnica dos cubanos n\u00e3o foi apenas uma resposta \u00e0 escassez econ\u00f4mica. Ela revelou que os objetos poderiam ser compreendidos, modificados e reinventados por seus pr\u00f3prios usu\u00e1rios, como mostrou no exemplo acima do <em>rikimbili<\/em>, que \u00e9 uma bicicleta adaptada com motor, criada por cubanos para suprir a falta de meios de transporte.<\/p>\n<p>A desobedi\u00eancia tecnol\u00f3gica \u00e9 justamente esse processo, como mostrou muito bem o Rafael, de transforma\u00e7\u00e3o do consumidor passivo em algu\u00e9m capaz de subverter as limita\u00e7\u00f5es dos objetos e a domina\u00e7\u00e3o produzidas pela hegemonia econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Esperamos que voc\u00ea tenha gostado dessa nossa discuss\u00e3o.<\/p>\n<p>Este epis\u00f3dio foi produzido e editado por mim, Rodrigo Fessel Sega. A trilha sonora \u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o autoral de Arthur Prando do Prado. O \u00e1udio utilizado neste epis\u00f3dio est\u00e1 na descri\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Voc\u00ea pode acompanhar o LaSPA no Instagram, @laspa.unicamp, e no site laspa.slg.br.<\/p>\n<p>Este podcast integra o projeto de jornalismo cient\u00edfico financiado pela Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo, a FAPESP, e conta com o apoio do Departamento de Sociologia da Universidade Estadual de Campinas, a UNICAMP.<\/p>\n<p>At\u00e9 o pr\u00f3ximo VocabuLaSPA.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Epis\u00f3dio [5]: Desobedi\u00eancia Tecnol\u00f3gica \u2013 por Rafael Malh\u00e3o (26\/06\/2026). O que voc\u00ea faz quando um objeto quebra e voc\u00ea n\u00e3o encontra as pe\u00e7as de reposi\u00e7\u00e3o e n\u00e3o existe assist\u00eancia t\u00e9cnica para consert\u00e1-lo? Em uma sociedade de consumo, a resposta normalmente \u00e9: comprar outro. 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