{"id":3442,"date":"2026-05-13T12:46:31","date_gmt":"2026-05-13T12:46:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=3442"},"modified":"2026-05-13T12:49:39","modified_gmt":"2026-05-13T12:49:39","slug":"vocabulaspa-episodio-3-nao-humanos-em-latour-por-pedro-p-ferreira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2026\/05\/13\/vocabulaspa-episodio-3-nao-humanos-em-latour-por-pedro-p-ferreira\/","title":{"rendered":"VocabuLaSPA \u2013 Epis\u00f3dio [3]: N\u00e3o humanos em Latour \u2013 por Pedro P. Ferreira"},"content":{"rendered":"<table>\n<tr>\n<td width=\"200\" style=\"text-align: center;vertical-align: middle\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/EP-03-IMAGEM-scaled.png\" \/><\/td>\n<td style=\"text-align: left;vertical-align: middle\"><strong>Epis\u00f3dio [3]: N\u00e3o humanos em Latour &#8211; por Pedro P. Ferreira<\/strong> (13\/05\/2026).<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p><div class=\"powerpress_player\" id=\"powerpress_player_1185\"><audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-3442-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Vocabulaspa-Ep-03-finalizado.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Vocabulaspa-Ep-03-finalizado.mp3\">https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Vocabulaspa-Ep-03-finalizado.mp3<\/a><\/audio><\/div><p class=\"powerpress_links powerpress_links_mp3\" style=\"margin-bottom: 1px !important;\">Podcast (vocabulaspa): <a href=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Vocabulaspa-Ep-03-finalizado.mp3\" class=\"powerpress_link_pinw\" target=\"_blank\" title=\"Play in new window\" onclick=\"return powerpress_pinw('https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/?powerpress_pinw=3442-vocabulaspa');\" rel=\"nofollow\">Play in new window<\/a> | <a href=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Vocabulaspa-Ep-03-finalizado.mp3\" class=\"powerpress_link_d\" title=\"Download\" rel=\"nofollow\" download=\"Vocabulaspa-Ep-03-finalizado.mp3\">Download<\/a><\/p><br \/>\nPara voc\u00ea, uma cadeira pode estar repleta de humanidade? Qual a diferen\u00e7a entre o humano e o n\u00e3o humano? Talvez essa diferen\u00e7a seja uma daquelas defini\u00e7\u00f5es que parecem evidentes at\u00e9 que precisemos explicar.<\/p>\n<p>Neste epis\u00f3dio, o Professor Pedro P. Ferreira explica para n\u00f3s qual \u00e9 a diferen\u00e7a entre humanos e n\u00e3o humanos a partir da vis\u00e3o do cientista social franc\u00eas Bruno Latour.<\/p>\n<p>Pedro P. Ferreira \u00e9 professor livre-docente do Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas da Universidade Estadual de Campinas, a UNICAMP. Sua obra se destaca por explorar as rela\u00e7\u00f5es entre tecnologia, cultura e sociedade, abordando desde a m\u00fasica eletr\u00f4nica at\u00e9 pr\u00e1ticas cient\u00edficas e tecnol\u00f3gicas contempor\u00e2neas.<\/p>\n<p>Este podcast integra o Projeto de Jornalismo Cient\u00edfico &#8220;Projeto de Divulga\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica do Laborat\u00f3rio de Sociologia dos Processos de Associa\u00e7\u00e3o (LaSPA)&#8221; financiado pela Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo (FAPESP), processo n\u00b0 2025\/13701-4, e conta com apoio do Departamento de Sociologia (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).<\/p>\n<p><strong>Concep\u00e7\u00e3o, Produ\u00e7\u00e3o, Edi\u00e7\u00e3o e Arte<\/strong>: Rodrigo Fessel Sega<br \/>\n<strong>Trilha Sonora<\/strong>: Arthur Prando do Prado<br \/>\n<strong>\u00c1udios<\/strong>:<br \/>\nSUONIDIBOLOGNA. 189636. \u00c1udio. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/freesound.org\/people\/suonidibologna\/sounds\/189636\/\">https:\/\/freesound.org\/people\/suonidibologna\/sounds\/189636\/<\/a>.<br \/>\nINFINITA08. 546447. \u00c1udio. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/freesound.org\/people\/Infinita08\/sounds\/546447\/\">https:\/\/freesound.org\/people\/Infinita08\/sounds\/546447\/<\/a><br \/>\nESCORTMARIUS. 140438. \u00c1udio. \u00c1udio. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/freesound.org\/people\/escortmarius\/sounds\/140438\/\">https:\/\/freesound.org\/people\/escortmarius\/sounds\/140438\/<\/a><\/p>\n<p>Voc\u00ea pode saber mais sobre o LaSPA acessando nossos canais<br \/>\nsite <a href=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/\">https:\/\/www.laspa.slg.br\/<\/a><br \/>\ne-mail laspa@unicamp.br<br \/>\nInstagram <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/laspa.unicamp\/\">https:\/\/www.instagram.com\/laspa.unicamp\/<\/a><br \/>\nReddit <a href=\"https:\/\/www.reddit.com\/user\/laspa_unicamp\/\">https:\/\/www.reddit.com\/user\/laspa_unicamp\/<\/a><br \/>\nTikTok <a href=\"https:\/\/www.tiktok.com\/@laspa.unicamp\">https:\/\/www.tiktok.com\/@laspa.unicamp<\/a><br \/>\nYouTube <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/@LaSPA.Unicamp\">https:\/\/www.youtube.com\/@LaSPA.Unicamp<\/a><\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><br \/>\nLATOUR, Bruno. 1994. Redistribui\u00e7\u00e3o. In: <em>Jamais fomos modernos: ensaio de antropologia sim\u00e9trica<\/em>. (trad. Carlos Irineu da Costa) Rio de Janeiro: Ed.34, p. 129-43.<\/p>\n<p>LATOUR, Bruno. 1994. Pragmatogonies: a mythical account of how humans and nonhumans swap properties. <em>American Behavioral Scientist<\/em> 37(6):791-808.<\/p>\n<p>LATOUR, Bruno. 1999. A collective of humans and nonhumans. In: <em>Pandora\u2019s hope: essays on the reality of science studies<\/em>. Cambridge: Harvard University Press, p.174-215<\/p>\n<p><strong>TRANSCRI\u00c7\u00c3O DO EPIS\u00d3DIO<\/strong><br \/>\n<strong>Pedro P. Ferreira<\/strong>:<br \/>\nA diferen\u00e7a entre humanos e n\u00e3o humanos \u00e9 uma daquelas coisas que parecem evidentes at\u00e9 que precisemos explicar. A princ\u00edpio, parece \u00f3bvio: eu sou um ser humano, mas a cadeira na qual eu estou sentado n\u00e3o. Mas se come\u00e7armos a pensar mais, veremos que eu estou repleto de objetos que n\u00e3o poderiam ser considerados humanos pelos mesmos crit\u00e9rios que eu: minhas roupas, meus \u00f3culos, meus documentos etc. E por outro lado, a cadeira na qual estou sentado est\u00e1 repleta de humanidade, pois se encaixa perfeitamente \u00e0s dimens\u00f5es de um corpo humano, e \u00e9 feita de materiais sobre os quais um ser humano pode se sentar. Mas ent\u00e3o qual \u00e9 a diferen\u00e7a entre humanos e n\u00e3o humanos?<\/p>\n<p><strong>Rodrigo Fessel Sega:<\/strong><br \/>\nE pra voc\u00ea que est\u00e1 me ouvindo, qual a diferen\u00e7a entre humano e n\u00e3o humano? Como \u00e9 que voc\u00ea definiria essa diferen\u00e7a? Est\u00e1 come\u00e7ando agora mais um epis\u00f3dio do VocabuLaSPA, o podcast do LaSPA, o Laborat\u00f3rio de Sociologia dos Processos de Associa\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Eu sou Rodrigo Fessel Sega, soci\u00f3logo e coordenador deste podcast. Neste epis\u00f3dio, o professor Pedro P. Ferreira explica para n\u00f3s qual \u00e9 a diferen\u00e7a entre humanos e n\u00e3o humanos a partir da vis\u00e3o do cientista social franc\u00eas Bruno Latour. <\/p>\n<p>Pedro P. Ferreira \u00e9 professor livre-docente do Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas da Universidade Estadual de Campinas, a UNICAMP. Ele \u00e9 coordenador do LaSPA, e tamb\u00e9m do Grupo de Estudos Gilbert Simondon, o GREGS. Ou\u00e7a, agora, o professor Pedro.<\/p>\n<p><strong>Pedro P. Ferreira<\/strong>:<br \/>\nA diferen\u00e7a entre humanos e n\u00e3o humanos \u00e9 uma daquelas coisas que parecem evidentes at\u00e9 que precisemos explicar. A princ\u00edpio, parece \u00f3bvio: eu sou um ser humano, mas a cadeira na qual eu estou sentado n\u00e3o. Mas se come\u00e7armos a pensar mais, veremos que eu estou repleto de objetos que n\u00e3o poderiam ser considerados humanos pelos mesmos crit\u00e9rios que eu: minhas roupas, meus \u00f3culos, meus documentos etc. E por outro lado, a cadeira na qual estou sentado est\u00e1 repleta de humanidade, pois se encaixa perfeitamente \u00e0s dimens\u00f5es de um corpo humano, e \u00e9 feita de materiais sobre os quais um ser humano pode se sentar \u2013 a cadeira \u00e9, poder\u00edamos dizer, antropom\u00f3rfica. E se levarmos isso adiante, podemos tamb\u00e9m concluir que meus cabelos, ou minhas m\u00e3os, n\u00e3o s\u00e3o seres humanos, s\u00e3o apenas partes dependentes de um organismo humano, que pode sobreviver sem elas. Minha vida n\u00e3o seria a mesma, \u00e9 claro sem meus cabelos, ou sem minhas m\u00e3os, mas eu n\u00e3o acho que deixaria de ser humano.<br \/>\nE a cadeira, por outro lado, nem sequer existiria sem seres humanos, pois foi feita completamente por seres humanos e para seres humanos, por isso foi feita com esses materiais, e por isso tem esse tamanho. Mas ent\u00e3o qual \u00e9 a diferen\u00e7a entre humanos e n\u00e3o humanos?<\/p>\n<p>Bruno Latour foi um cientista social franc\u00eas que dedicou alguma reflex\u00e3o a este assunto, pois os n\u00e3o humanos assumiram um papel importante em suas investiga\u00e7\u00f5es sobre pr\u00e1ticas cient\u00edficas e tecnol\u00f3gicas. Afinal, m\u00e1quinas e objetos cient\u00edficos s\u00e3o geralmente considerados n\u00e3o humanos. E muitas vezes \u00e9 poss\u00edvel aproveitar o trabalho de Latour para falar das rela\u00e7\u00f5es entre humanos e n\u00e3o humanos como se soub\u00e9ssemos quem \u00e9 quem. Nesse sentido, podemos falar da \u201cag\u00eancia da cadeira\u201d como uma ag\u00eancia n\u00e3o humana, e da \u201cminha ag\u00eancia\u201d como uma ag\u00eancia humana. Mas essa n\u00e3o me parece ser a maneira mais interessante de aproveitar o trabalho de Latour nesse campo, afinal, j\u00e1 vimos que essas distin\u00e7\u00f5es n\u00e3o sobrevivem ao escrut\u00ednio.<\/p>\n<p>Minha sugest\u00e3o \u00e9 que, em primeiro lugar, assumamos que apesar de n\u00e3o ser poss\u00edvel distinguir, em absoluto, humanos de n\u00e3o humanos, essa distin\u00e7\u00e3o \u00e9 feita o tempo todo, por todos n\u00f3s, em nossas vidas cotidianas. Eu, por exemplo, s\u00f3 me sento inconsequentemente em minha cadeira, sem nem mesmo pedir licen\u00e7a, pois n\u00e3o a considero um ser humano. E \u00e9 por reconhecer a humanidade nas pessoas que, por exemplo. eu n\u00e3o sento nelas, pelo menos n\u00e3o sem antes obter o consentimento. Em outras palavras, eu normalmente n\u00e3o digo \u201cbom dia\u201d para minha cadeira (apesar de isso n\u00e3o ser imposs\u00edvel), mas busco diz\u00ea-lo para as pessoas com quem me comunico pela manh\u00e3 (apesar de nem sempre faz\u00ea-lo). <\/p>\n<p>Essa capacidade de distinguir humanos e n\u00e3o humanos \u00e9 cultural, e a usamos sem pensar muito no assunto, como se fosse \u00f3bvio. Aceitar essa obviedade \u00e9 assumir um ponto de vista cultural, humano. Assim, se o objetivo de um cientista social \u00e9 produzir conhecimento sobre a sociedade, assumir um ponto de vista pode ser o primeiro passo nesse sentido de descobrir o que torna uma ag\u00eancia humana ou n\u00e3o-humana, para um certo grupo, ou tipo de pessoa. Em outras palavras, apesar de n\u00e3o ser poss\u00edvel distinguir absolutamente humanos de n\u00e3o humanos, essa distin\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, e at\u00e9 sociologicamente necess\u00e1ria, em situa\u00e7\u00f5es concretas. E, portanto, essas distin\u00e7\u00f5es s\u00e3o feitas cotidianamente, e s\u00e3o acess\u00edveis a cientistas sociais como Latour.<\/p>\n<p>Pois bem, ent\u00e3o descobrimos tr\u00eas coisas at\u00e9 agora: (1) que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel distinguir em absoluto humanos de n\u00e3o humanos; (2) que mesmo assim, essa distin\u00e7\u00e3o \u00e9 feita o tempo todo por n\u00f3s mesmos em nossas vidas cotidianas; e (3) que \u00e9 o fato de essa distin\u00e7\u00e3o ser feita o tempo todo que a torna acess\u00edvel \u00e0 an\u00e1lise sociol\u00f3gica. Mas porque a an\u00e1lise dessa distin\u00e7\u00e3o foi t\u00e3o importante para Latour em suas investiga\u00e7\u00f5es sobre pr\u00e1ticas cient\u00edficas e tecnol\u00f3gicas?<\/p>\n<p>Num sentido mais simples, podemos responder essa pergunta repetindo o que j\u00e1 dissemos antes: \u00e9 que m\u00e1quinas (como microsc\u00f3pios) e objetos cient\u00edficos (como os microrganismos que vemos pelo microsc\u00f3pio) s\u00e3o geralmente considerados n\u00e3o humanos. Assim, podemos falar dessas ag\u00eancias como \u201cn\u00e3o humanas\u201d, e isso pode sem d\u00favida gerar pesquisas interessantes. Mas j\u00e1 vimos que essas distin\u00e7\u00f5es n\u00e3o sobrevivem ao escrut\u00ednio, e que microsc\u00f3pios e microrganismos podem ser t\u00e3o antropom\u00f3rficos quanto qualquer ser humano, assim como minha cadeira. Ent\u00e3o existiria alguma outra maneira, mais interessante, de aproveitar essa distin\u00e7\u00e3o entre humanos e n\u00e3o humanos? Acredito que sim, e envolve 3 passos.<\/p>\n<p>O primeiro passo seria duvidar do que j\u00e1 sabemos sobre a humanidade. Ou seja, suspender nossas certezas sobre o que \u00e9 humano, e transform\u00e1-las em perguntas: o que \u00e9, afinal humano? O segundo passo, seria buscar a resposta para essa pergunta justamente nas distin\u00e7\u00f5es feitas pelas pessoas entre humanos e n\u00e3o humanos. Ou seja, buscar defini\u00e7\u00f5es de humanidade a partir daquilo que ela exclui de si mesma para se constituir. E o terceiro passo seria desistir da ideia de que seja poss\u00edvel definir o humano em absoluto, para al\u00e9m de suas sempre dadas defini\u00e7\u00f5es situadas e parciais. Esse terceiro passo talvez seja o mais dif\u00edcil para muitas pessoas, pois implica em abrir m\u00e3o do sonho da certeza, e acordar para a certeza do sonho, i.e., para o fato de que todo fato \u00e9 feito, tanto aqueles que investigamos, quanto aqueles que constru\u00edmos a partir de nossas investiga\u00e7\u00f5es. E que esse limite ao conhecimento \u00e9 parte constitutiva dele, e o motivo pelo qual a ci\u00eancia vai sempre avan\u00e7ar rumo a novas descobertas.<\/p>\n<p>Isso pode estar meio confuso, ent\u00e3o vamos pegar um caso concreto. A substitui\u00e7\u00e3o do trabalho humano por m\u00e1quinas sempre foi um assunto controverso, desde o ludismo do in\u00edcio do s\u00e9culo XIX at\u00e9 as intelig\u00eancias artificiais de hoje em dia. Mas a pr\u00f3pria ideia de que essa substitui\u00e7\u00e3o seja poss\u00edvel prova o ponto que estou aqui tentando argumentar. Desde a primeira pedra lascada at\u00e9 os computadores atuais, toda a\u00e7\u00e3o desempenhada por um objeto t\u00e9cnico j\u00e1 foi, em algum momento, desempenhada por seres humanos. E \u00e9 deixando de desempenhar essas a\u00e7\u00f5es, delegando-as a m\u00e1quinas e a outros objetos t\u00e9cnicos, que transformamos nossa pr\u00f3pria humanidade. N\u00e3o estou dizendo que essas transforma\u00e7\u00f5es s\u00e3o necessariamente para melhor, apenas que \u00e9 nesse processo de delega\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es humanas a n\u00e3o humanos que a humanidade se transforma, e, portanto, se redefine constantemente.<\/p>\n<p><strong>Rodrigo Fessel Sega<\/strong>:<br \/>\nPara quem n\u00e3o se lembra, ou n\u00e3o conhece, o ludismo, que o Pedro citou, foi um movimento organizado por trabalhadores da Inglaterra que ocorreu durante a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, entre mais ou menos 1811 e 1816. Esses trabalhadores come\u00e7aram a quebrar as m\u00e1quinas das f\u00e1bricas porque percebiam que elas estavam substituindo seus empregos e piorando muito as condi\u00e7\u00f5es de trabalho. Ent\u00e3o d\u00e1 pra perceber que apesar da gente estar falando do ludismo, que aconteceu l\u00e1 no come\u00e7o de 1800, esse debate \u00e9 ainda bastante atual. Um exemplo recente disso foi a Uber. O aplicativo de corridas chegou no brasil em 2014 e come\u00e7ou a se popularizar em meados de 2015. Entretanto, naquela \u00e9poca, aumentaram tamb\u00e9m os protestos dos taxistas contra o aplicativo e o n\u00famero de casos de taxistas atacando e depredando os carros dos motoristas que usavam o aplicativo da uber. Ent\u00e3o pensar a partir desses casos concretos nos ajuda a entender essa \u00faltima frase do Pedro<\/p>\n<p><strong>Pedro P. Ferreira<\/strong>:<br \/>\nN\u00e3o estou dizendo que essas transforma\u00e7\u00f5es s\u00e3o necessariamente para melhor, apenas que \u00e9 nesse processo de delega\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es humanas a n\u00e3o humanas que a humanidade se transforma, e, portanto, se redefine constantemente. <\/p>\n<p><strong>Rodrigo Fessel Sega<\/strong>:<br \/>\nEsse \u00e9 um ponto muito importante da nossa conversa. <\/p>\n<p><strong>Pedro P. Ferreira<\/strong>:<br \/>\nA pergunta que um soci\u00f3logo latouriano deve se fazer, portanto, \u00e9: quais a\u00e7\u00f5es humanas est\u00e3o, em cada contexto hist\u00f3rico, sendo delegadas para n\u00e3o humanos, e o que isso nos ensina sobre o que \u00e9 ser humano nesse contexto? Hoje em dia, por exemplo, vivemos 24 horas, 7 dias por semana, conectados na Internet e praticamente todos os aspectos de nossa vida est\u00e3o sendo digitalizados. Temos o mundo na palma de nossa m\u00e3o, e ao mesmo tempo estamos na palma da m\u00e3o de muitas pessoas, al\u00e9m de algumas poucas empresas. Isso significa que uma parte cada vez maior de nossas vidas est\u00e1 sendo vivida na forma de padr\u00f5es eletromagn\u00e9ticos, i.e., na forma de volts, hertz, watts, ohms, farads e amperes. Isso significa que estamos nos tornando menos humanos? Claro que n\u00e3o, isso seria pressupor que sabemos o que \u00e9 o humano, e j\u00e1 vimos que, se quisermos tirar algum proveito da ideia de n\u00e3o humano, n\u00e3o devemos fazer isso. O melhor seria assumir que somos t\u00e3o humanos quanto sempre fomos, apenas sempre diferentes. E \u00e9 a descoberta dessa diferen\u00e7a que a ideia latouriana de n\u00e3o humanos torna poss\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>Rodrigo Fessel Sega<\/strong>:<br \/>\nEsperamos que voc\u00ea tenha gostado dessa nossa discuss\u00e3o.  Este epis\u00f3dio foi produzido e editado por mim, Rodrigo Fessel Sega. A trilha sonora \u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o autoral de Arthur Prando do Prado. Os \u00e1udios utilizados neste epis\u00f3dio est\u00e3o na descri\u00e7\u00e3o e dispon\u00edveis para uso livre em FreeSound.org. Voc\u00ea pode acompanhar o LaSPA no Instagram, @laspa.unicamp, e no site laspa.slg.br.<\/p>\n<p>Este podcast integra o projeto de jornalismo cient\u00edfico financiado pela Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo, a FAPESP, e conta com o apoio do Departamento de Sociologia da Universidade Estadual de Campinas, a UNICAMP.<\/p>\n<p>At\u00e9 o pr\u00f3ximo VocabuLaSPA.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Epis\u00f3dio [3]: N\u00e3o humanos em Latour &#8211; por Pedro P. Ferreira (13\/05\/2026). Para voc\u00ea, uma cadeira pode estar repleta de humanidade? Qual a diferen\u00e7a entre o humano e o n\u00e3o humano? 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