{"id":3370,"date":"2026-04-15T09:00:14","date_gmt":"2026-04-15T09:00:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=3370"},"modified":"2026-05-28T11:49:27","modified_gmt":"2026-05-28T11:49:27","slug":"fato-social-no-vocabulaspa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2026\/04\/15\/fato-social-no-vocabulaspa\/","title":{"rendered":"VocabuLaSPA &#8211; Epis\u00f3dio [1]: Fato social &#8211; por Pedro P. Ferreira"},"content":{"rendered":"<table>\n<tr>\n<td width=\"200\" style=\"text-align: center;vertical-align: middle\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/00-VocabuLaSPA-CAPA-scaled.png\" \/><\/td>\n<td style=\"text-align: left;vertical-align: middle\"><strong>Epis\u00f3dio [1]: Fato social &#8211; por Pedro P. Ferreira<\/strong> (15\/04\/2026).<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p><div class=\"powerpress_player\" id=\"powerpress_player_9017\"><audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-3370-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/VocabuLaSPA-Episodio-01-Pedro-FINAL-MP3.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/VocabuLaSPA-Episodio-01-Pedro-FINAL-MP3.mp3\">https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/VocabuLaSPA-Episodio-01-Pedro-FINAL-MP3.mp3<\/a><\/audio><\/div><p class=\"powerpress_links powerpress_links_mp3\" style=\"margin-bottom: 1px !important;\">Podcast (vocabulaspa): <a href=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/VocabuLaSPA-Episodio-01-Pedro-FINAL-MP3.mp3\" class=\"powerpress_link_pinw\" target=\"_blank\" title=\"Play in new window\" onclick=\"return powerpress_pinw('https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/?powerpress_pinw=3370-vocabulaspa');\" rel=\"nofollow\">Play in new window<\/a> | <a href=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/VocabuLaSPA-Episodio-01-Pedro-FINAL-MP3.mp3\" class=\"powerpress_link_d\" title=\"Download\" rel=\"nofollow\" download=\"VocabuLaSPA-Episodio-01-Pedro-FINAL-MP3.mp3\">Download<\/a><\/p><br \/>\nPor que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil mudar a sociedade? Por que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil transformar costumes j\u00e1 estabelecidos?<\/p>\n<p>Neste primeiro epis\u00f3dio, convidamos o coordenador do LaSPA, Pedro P. Ferreira, para compartilhar sua leitura de um conceito cl\u00e1ssico da sociologia, o conceito de &#8220;Fato Social&#8221;, de \u00c9mile Durkheim.<\/p>\n<p>O professor Pedro P. Ferreira \u00e9 um soci\u00f3logo brasileiro, pesquisador e professor livre docente associado \u00e0 Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Sua obra se destaca por explorar as rela\u00e7\u00f5es entre tecnologia, cultura e sociedade, abordando desde a m\u00fasica eletr\u00f4nica at\u00e9 pr\u00e1ticas cient\u00edficas e tecnol\u00f3gicas contempor\u00e2neas.<\/p>\n<p>Este podcast integra o Projeto de Jornalismo Cient\u00edfico &#8220;Projeto de Divulga\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica do Laborat\u00f3rio de Sociologia dos Processos de Associa\u00e7\u00e3o (LaSPA)&#8221; financiado pela Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo (FAPESP), processo n\u00b0 2025\/13701-4, e conta com apoio do Departamento de Sociologia (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).<\/p>\n<p><strong>Concep\u00e7\u00e3o, Produ\u00e7\u00e3o, Edi\u00e7\u00e3o e Arte<\/strong>: Rodrigo Fessel Sega<br \/>\n<strong>Trilha Sonora<\/strong>: Arthur Prando do Prado<br \/>\n<strong>\u00c1udio<\/strong>: &#8216;Mulheres contra Cunha&#8217; \u00e9 um registro de Paisagem Sonora Unila, dispon\u00edvel para uso livre em https:\/\/freesound.org\/s\/342152\/<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea pode saber mais sobre o LaSPA acessando nossos canais<\/strong><br \/>\nsite https:\/\/www.laspa.slg.br\/<br \/>\ne-mail laspa@unicamp.br<br \/>\nInstagram https:\/\/www.instagram.com\/laspa.unicamp\/<br \/>\nReddit https:\/\/www.reddit.com\/user\/laspa_unicamp\/<br \/>\nTikTok https:\/\/www.tiktok.com\/@laspa.unicamp<br \/>\nYouTube https:\/\/www.youtube.com\/@LaSPA.Unicamp<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancia Citada<\/strong><br \/>\nDURKHEIM, \u00c9mile. 1995. <em>As regras do m\u00e9todo sociol\u00f3gico<\/em>. (Trad. Paulo Neves) S\u00e3o Paulo: Martins Fontes. [1895]<\/p>\n<p><strong>TRANSCRI\u00c7\u00c3O DO EPIS\u00d3DIO<\/strong><br \/>\nPor Pedro P. Ferreira<\/p>\n<p>Por que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil mudar a sociedade? Por que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil transformar costumes j\u00e1 estabelecidos? Todos sabemos que a sociedade resiste aos nossos desejos de mudan\u00e7a, e que qualquer mudan\u00e7a nas nossas formas de vida exige muito esfor\u00e7o e trabalho. Mas de onde vem essa resist\u00eancia? <\/p>\n<p>A resist\u00eancia da sociedade \u00e0s mudan\u00e7as \u00e0s quais cada um de n\u00f3s gostaria de submet\u00ea-la foi justamente o ponto de partida do conceito de \u201cfato social\u201d, criado por \u00c9mile Durkheim, fil\u00f3sofo franc\u00eas que ajudou a criar a sociologia no final do s\u00e9culo XIX. Para Durkheim, a sociedade deveria ser considerada como uma \u201ccoisa\u201d, pois assim como as coisas que nos rodeiam, ela resiste ao nosso desejo de transform\u00e1-la, e se imp\u00f5e sobre n\u00f3s com a for\u00e7a de um fato. <\/p>\n<p>Para Durkheim, sempre foi muito importante poder falar da sociedade como um \u201cfato\u201d. Afinal, ele estava envolvido na constru\u00e7\u00e3o de uma nova ci\u00eancia, a sociologia, que pretendia ser a ci\u00eancia da sociedade. E ci\u00eancias trabalham com fatos, i.e., proposi\u00e7\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o questionadas, ou que n\u00e3o podem ser questionadas sem levantar, justamente, alguma resist\u00eancia. Se as ci\u00eancias naturais trabalham com fatos naturais, nada mais l\u00f3gico, para Durkheim, do que esperar que as ci\u00eancias sociais trabalhem com fatos sociais. Em outras palavras, para Durkheim (e para a maior parte dos cientistas at\u00e9 hoje), a ci\u00eancia trabalha apenas com fatos, com coisas que existem inquestionavelmente, e portanto exclui de seu universo as opini\u00f5es, os achismos, as suposi\u00e7\u00f5es. <\/p>\n<p>Existem dimens\u00f5es da vida social que s\u00e3o mais abertas \u00e0 negocia\u00e7\u00e3o e \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o. Eu posso, por exemplo, escolher a roupa que vou usar hoje. Posso tamb\u00e9m, por exemplo, escolher as palavras que vou usar para dizer alguma coisa. Tenho uma certa liberdade de fazer isso, e portanto essas escolhas podem ter as mais diversas motiva\u00e7\u00f5es, sendo assim imposs\u00edvel determinar exatamente o que me levou a escolher essa ou aquela roupa, essa ou aquela palavra. Mas n\u00e3o tenho liberdade total. <\/p>\n<p>S\u00f3 posso escolher dentre as roupas dispon\u00edveis para mim, e dentre as palavras que eu conhe\u00e7o. E existem roupas, ou palavras, que, se eu usar, v\u00e3o causar rea\u00e7\u00f5es adversas, \u00e0s vezes negativas e antag\u00f4nicas, nas pessoas ao meu redor. Al\u00e9m disso, eu n\u00e3o poderia escolher simplesmente n\u00e3o usar nenhuma roupa. Isso inclusive seria considerado um crime pass\u00edvel de puni\u00e7\u00e3o legal. E o uso de certas palavras, em certos contextos, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Existem, poder\u00edamos dizer, duas dimens\u00f5es na nossa vida social. Em uma delas, temos liberdade para escolher a maneira como preferimos fazer as coisas,  e muitas vezes isso pode at\u00e9 ser esperado de n\u00f3s em alguns momentos, como quando se espera que sejamos originais e criativos. Essa \u00e9 a dimens\u00e3o aberta da sociedade, sua dimens\u00e3o pass\u00edvel de transforma\u00e7\u00e3o. \u00c9 por meio dessa dimens\u00e3o que o coletivo permite que as transforma\u00e7\u00f5es sociais ocorram. Essa \u00e9 uma dimens\u00e3o da sociedade mais aberta \u00e0s vontades e \u00e0 criatividade individual, e portanto mais dif\u00edcil de investigar cientificamente.  Afinal, se n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel determinar exatamente o que levou a uma dada escolha, ent\u00e3o s\u00f3 podemos fazer suposi\u00e7\u00f5es, e isso n\u00e3o \u00e9 ci\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00c9 a outra dimens\u00e3o da sociedade, aquela que nos constrange a seguir a norma, aquela que nos obriga a agir da maneira correta e esperada, que Durkheim identificou como sendo pass\u00edvel de investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Pois nessa dimens\u00e3o, as escolhas individuais nunca s\u00e3o realmente individuais, mas sim determinadas pela coletividade, pelas tradi\u00e7\u00f5es e pelo costume. E essas tradi\u00e7\u00f5es, esses costumes, geralmente j\u00e1 existiam quando nascemos, e provavelmente continuar\u00e3o existindo quando morrermos. N\u00e3o foram inventados por n\u00f3s, e se imp\u00f5em sobre n\u00f3s com a for\u00e7a de um fato inquestion\u00e1vel. <\/p>\n<p>O conceito de fato social acabou se tornando um importante conceito sociol\u00f3gico, e at\u00e9 hoje continua sendo estudado nos cursos de Ci\u00eancias Sociais. \u00c9 um conceito muito \u00fatil para transmitir a ideia da impot\u00eancia do indiv\u00edduo frente \u00e0s normas sociais, ou pelo menos da grande resist\u00eancia encontrada quando tentamos questionar algum costume ou norma estabelecida. \u00c9 uma maneira de explicar essa resist\u00eancia sem apelar para inten\u00e7\u00f5es individuais, mas fazendo refer\u00eancia apenas \u00e0 sociedade e a comportamentos coletivos. <\/p>\n<p>Durkheim definiu esse conceito originalmente em 1894, logo no primeiro cap\u00edtulo de seu livro <em>As regras do m\u00e9todo sociol\u00f3gico<\/em> [DURKHEIM, \u00c9mile. 1995. <em>As regras do m\u00e9todo sociol\u00f3gico<\/em> (Trad. Paulo Neves) S\u00e3o Paulo: Martins Fontes. [1895]]. Ali, ele escreveu que fatos sociais s\u00e3o \u201cmaneiras de agir, de pensar e de sentir, exteriores ao indiv\u00edduo, e que s\u00e3o dotadas de um poder de coer\u00e7\u00e3o em virtude do qual esses fatos se imp\u00f5em a ele\u201d. \u00c9 uma defini\u00e7\u00e3o forte, que ainda funciona, mas que tem alguns inconvenientes. <\/p>\n<p>Por exemplo, fala que os fatos sociais s\u00e3o \u201cexteriores ao indiv\u00edduo\u201d, quando hoje essa no\u00e7\u00e3o atomizada de indiv\u00edduo j\u00e1 se tornou insustent\u00e1vel, pelo menos fora do discurso neoliberal. Outro inconveniente \u00e9 a \u00eanfase de Durkheim na coer\u00e7\u00e3o, quando hoje j\u00e1 temos m\u00e9todos bastante eficazes para investigar os fatos sociais em seu aspecto criativo e inventivo, para al\u00e9m da coer\u00e7\u00e3o. Ou seja, mesmo quando escolho livremente a roupa ou as palavras que vou usar, sabemos que essa liberdade nunca \u00e9 total, e existem metodologias, como a etnografia, que nos permitem investigar a dimens\u00e3o coletiva dessas escolhas. Por fim, hoje n\u00e3o somos mais prisioneiros da imagem de ci\u00eancia do final do s\u00e9culo XIX, para a qual existem fatos naturais e fatos sociais inquestion\u00e1veis que caberia ao cientista apenas descobrir. Hoje em dia, e isso gra\u00e7as a avan\u00e7os importantes no campo dos Estudos Sociais das Ci\u00eancias e das Tecnologias, sabemos que a inquestionabilidade dos fatos \u00e9 constru\u00edda laboriosamente por admir\u00e1veis cientistas, que s\u00e3o seres sociais, e que, portanto, todo fato natural \u00e9 sempre, tamb\u00e9m, um fato social, sem que isso diminua em nada a sua naturalidade. <\/p>\n<p>Assim, quando falamos, hoje, em \u201cfato social\u201d, acredito que queremos nos referir, por um lado, \u00e0 maneira como o mundo, natural e social, resiste \u00e0 nossa a\u00e7\u00e3o, e por outro lado, \u00e0 necessidade de que essa a\u00e7\u00e3o seja adequadamente negociada com o mundo, para que seja bem sucedida. A sociedade continua sendo muito dif\u00edcil de transformar, mas agora entendemos melhor por que: \u00e9 que queremos que nossas a\u00e7\u00f5es no mundo sejam eficazes, queremos que nossas escolhas de roupa, de palavras etc, funcionem para nossos objetivos, e para isso precisamos que elas se adequem ao mundo e \u00e0s pessoas que nele vivem. E o fato social nada mais \u00e9 do que a necessidade dessa adequa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Epis\u00f3dio [1]: Fato social &#8211; por Pedro P. Ferreira (15\/04\/2026). Por que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil mudar a sociedade? Por que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil transformar costumes j\u00e1 estabelecidos? Neste primeiro epis\u00f3dio, convidamos o coordenador do LaSPA, Pedro P. Ferreira, para compartilhar sua leitura de um conceito cl\u00e1ssico da sociologia, o conceito de &#8220;Fato Social&#8221;, de \u00c9mile Durkheim. O professor Pedro P. 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