{"id":328,"date":"2021-04-16T00:32:39","date_gmt":"2021-04-16T00:32:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=328"},"modified":"2021-04-16T14:45:05","modified_gmt":"2021-04-16T14:45:05","slug":"tecnologia-e-magia-gell-1988","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2021\/04\/16\/tecnologia-e-magia-gell-1988\/","title":{"rendered":"Tecnologia e magia (Gell 1988)"},"content":{"rendered":"<p>GELL, Alfred. 1988. Technology and magic. <em>Anthropology Today <\/em>4(2):6-9.<\/p>\n<p>Em &#8220;Technology and Magic&#8221;, Gell prop\u00f5e uma rela\u00e7\u00e3o produtiva entre tecnologia \u2013 definida como &#8220;a busca de objetivos dif\u00edceis atrav\u00e9s de meios indiretos&#8221; \u2013 e magia \u2013 definida como um &#8220;procedimento t\u00e9cnico ideal&#8221;.<\/p>\n<p>Na primeira parte do texto, dedicada \u00e0 tecnologia, Gell argumenta que a &#8220;tecnologia&#8221; n\u00e3o se limita \u00e0s ferramentas, mas tamb\u00e9m envolve os conhecimentos necess\u00e1rios para desenvolv\u00ea-las e utiliz\u00e1-las, assim como o contexto social (redes de rela\u00e7\u00f5es) que possibilita a produ\u00e7\u00e3o, reprodu\u00e7\u00e3o e transmiss\u00e3o desse conhecimento. Quanto ao adjetivo &#8220;t\u00e9cnico&#8221;, Gell o define como &#8220;um certo grau de desvio na realiza\u00e7\u00e3o de algum objetivo&#8221;, como uma &#8220;ponte&#8221; mais ou menos complicada entre certos elementos dados e um objetivo a ser alcan\u00e7ado por meio de uma explora\u00e7\u00e3o muito espec\u00edfica das propriedades desses elementos.<\/p>\n<p>Assim, &#8220;o grau de tecnicidade \u00e9 proporcional ao n\u00famero e \u00e0 complexidade dos passos que ligam os dados iniciais ao objetivo final&#8221;, sendo a estrutura formada por todos esses &#8220;passos&#8221; o &#8220;sistema&#8221; da tecnologia. Com isso, Gell argumenta que existe tanta tecnicidade na constru\u00e7\u00e3o de um machado quanto na constru\u00e7\u00e3o de uma flauta, sendo ambos igualmente instrumentos e, portanto, elementos numa seq\u00fc\u00eancia t\u00e9cnica. Gell prop\u00f5e ent\u00e3o uma classifica\u00e7\u00e3o das capacidades tecnol\u00f3gicas humanas em tr\u00eas categorias:<\/p>\n<p>(1) <strong>Tecnologia de Produ\u00e7\u00e3o<\/strong>: aquilo que normalmente se entende por tecnologia, relacionado com a sobreviv\u00eancia objetiva (Gell considera esta categoria livre de controv\u00e9rsias, e por isso n\u00e3o dedica mais que um par\u00e1grafo a ela).<\/p>\n<p>(2) <strong>Tecnologia de Reprodu\u00e7\u00e3o<\/strong>: aqui Gell coloca as rela\u00e7\u00f5es de parentesco e de domestica\u00e7\u00e3o (de animais e de humanos, na forma da educa\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>(3) <strong>Tecnologia de Encantamento<\/strong>: trata-se do conjunto de &#8220;armas psicol\u00f3gicas&#8221; que permitem aos humanos controlarem uns aos outros e entre as quais Gell situa aquilo que entendemos por &#8220;arte&#8221;.<\/p>\n<p>Na segunda parte do texto, dedicada \u00e0 magia, Gell apresenta o feiti\u00e7o como um &#8220;plano cognitivo&#8221; para a a\u00e7\u00e3o, e a magia como um fluxo cont\u00ednuo de coment\u00e1rios sobre as a\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas que as divide, enquadra, define, guia, internaliza e exercita. Como numa brincadeira de crian\u00e7a, a magia vai al\u00e9m do real rumo ao ideal da a\u00e7\u00e3o e est\u00e1 ligada ao processo de inova\u00e7\u00e3o. Segundo Gell, o &#8220;papel cognitivo das id\u00e9ias m\u00e1gicas&#8221; \u00e9 criar um &#8220;campo de orienta\u00e7\u00e3o para as atividades t\u00e9cnicas&#8221;, sendo a inova\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica o resultado n\u00e3o da satisfa\u00e7\u00e3o de &#8220;necessidades&#8221;, mas sim da realiza\u00e7\u00e3o de ideais t\u00e9cnicos at\u00e9 ent\u00e3o considerados m\u00e1gicos. Atrav\u00e9s de tr\u00eas exemplos etnogr\u00e1ficos, Gell mostra que a magia \u00e9 uma &#8220;tecnologia ideal&#8221; que parte da tecnologia real, mas a supera, indicando o caminho de sua evolu\u00e7\u00e3o: &#8220;\u00e9 a tecnologia que sustenta a magia, mesmo quando a magia inspira novos esfor\u00e7os t\u00e9cnicos&#8221;.<\/p>\n<p>Gell termina o texto com um breve coment\u00e1rio sobre o lugar da magia em nossa sociedade tecnol\u00f3gica, concluindo que encontraremos na publicidade, na fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e na divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u2013 i.e., quando cientistas e t\u00e9cnicos d\u00e3o sentido \u00e0s suas pr\u00f3prias atividades \u2013 os &#8220;coment\u00e1rios simb\u00f3licos sobre atividades e processos realizados no campo tecnol\u00f3gico&#8221; que caracterizam a magia. Cito ent\u00e3o as duas \u00faltimas frases do texto: &#8220;Os propagandistas, criadores de imagens e ide\u00f3logos da cultura tecnol\u00f3gica s\u00e3o seus m\u00e1gicos, e se eles n\u00e3o afirmam possuir poderes sobrenaturais \u00e9 apenas porque a pr\u00f3pria tecnologia se tornou t\u00e3o poderosa que os desobriga disso. E se n\u00f3s deixamos de reconhecer explicitamente a magia, \u00e9 porque tecnologia e magia s\u00e3o, para n\u00f3s, a mesma coisa&#8221;.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GELL, Alfred. 1988. Technology and magic. Anthropology Today 4(2):6-9. Em &#8220;Technology and Magic&#8221;, Gell prop\u00f5e uma rela\u00e7\u00e3o produtiva entre tecnologia \u2013 definida como &#8220;a busca de objetivos dif\u00edceis atrav\u00e9s de meios indiretos&#8221; \u2013 e magia \u2013 definida como um &#8220;procedimento t\u00e9cnico ideal&#8221;. 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