{"id":2992,"date":"2025-08-25T22:33:45","date_gmt":"2025-08-25T22:33:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=2992"},"modified":"2025-09-11T13:01:42","modified_gmt":"2025-09-11T13:01:42","slug":"rastros-de-benjamin","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2025\/08\/25\/rastros-de-benjamin\/","title":{"rendered":"Rastros de Benjamin"},"content":{"rendered":"<p><strong>HABITAR<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Habitar significa deixar rastros. No <em>int\u00e9rieur<\/em> esses rastros s\u00e3o acentuados. Inventam-se colchas e protetores, caixas e estojos em profus\u00e3o, nos quais se imprimem os rastros dos objetos de uso mais cotidiano. Tamb\u00e9m os rastros do morador ficam impressos no <em>int\u00e9rieur<\/em>. Surge a hist\u00f3ria de detetive que investiga esses rastros. <em>A Filosofia do Mobili\u00e1rio<\/em>, assim como suas novelas de detetive, apontam Poe como o primeiro fisiognomonista do <em>int\u00e9rieur<\/em>. Os criminosos dos primeiros romances policiais n\u00e3o s\u00e3o <em>gentlemen<\/em> nem apaches, e sim pessoas privadas pertencentes \u00e0 burguesia. (Benjamin 2009:46)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>COMPENSA\u00c7\u00c3O INTERIOR<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O interior n\u00e3o \u00e9 apenas o universo do homem privado, \u00e9 tamb\u00e9m seu estojo. Desde Lu\u00eds Filipe, encontra-se no burgu\u00eas esta tend\u00eancia de indenizar-se da aus\u00eancia de rastros da vida privada na grande cidade. Essa compensa\u00e7\u00e3o, ele tenta encontr\u00e1-la entre as quatro paredes de seu apartamento. Tudo se passa como se fosse uma quest\u00e3o de honra n\u00e3o deixar se perderem os rastros de seus objetos de uso e de seus acess\u00f3rios. Infatig\u00e1vel, preserva as impress\u00f5es de uma multid\u00e3o de objetos; para seus chinelos e seus rel\u00f3gios, seus talheres e seus guarda-chuvas, imagina capas e estojos. Tem uma clara prefer\u00eancia pelo veludo e a pel\u00facia que conservam a marca de todo contato. No estilo do Segundo Imp\u00e9rio, o apartamento torna-se uma esp\u00e9cie de habit\u00e1culo. Os vest\u00edgios de seu habitante moldam-se no <em>int\u00e9rieur<\/em>. Da\u00ed nasce o romance policial que pesquisa esses vest\u00edgios e segue essas pistas. <em>A Filosofia da Mob\u00edlia<\/em> e os \u201cromances policiais\u201d de Edgar Poe fazem dele o primeiro fisiognomonista do interior. Os criminosos, nas primeiras narrativas policiais (<em>The Black Cat, The Tell-Tale Heart, William Wilson<\/em>), n\u00e3o s\u00e3o nem cavalheiros nem marginais, e sim pessoas privadas pertencentes \u00e0 burguesia. (Benjamin 2009:59-60)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>PEL\u00daCIA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Pel\u00facia &#8211; a mat\u00e9ria na qual se imprimem mais facilmente os rastros. (Benjamin 2009:257)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>RASTRO E AURA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Rastro e aura. O rastro \u00e9 a apari\u00e7\u00e3o de uma proximidade, por mais long\u00ednquo esteja aquilo que o deixou. A aura \u00e9 a apari\u00e7\u00e3o de algo long\u00ednquo, por mais pr\u00f3ximo esteja aquilo que a evoca. No rastro, apoderamo-nos da coisa; na aura, ela se apodera de n\u00f3s. (Benjamin 2009:490)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CA\u00c7A E EXPERI\u00caNCIA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Com o rastro, a \u201cviv\u00eancia\u201d adquire uma nova dimens\u00e3o. Ela n\u00e3o \u00e9 mais obrigada a esperar pela \u201caventura\u201d; aquele que vivencia pode seguir o rastro que o conduz at\u00e9 ela. Quem segue um rastro n\u00e3o apenas deve estar atento; ele precisa, principalmente, j\u00e1 ter prestado muita aten\u00e7\u00e3o em tudo. (O ca\u00e7ador precisa conhecer a marca da pata do animal que est\u00e1 rastreando; precisa conhecer a hora em que o animal vai beber \u00e1gua; precisa saber qual \u00e9 o curso do rio para onde se dirige sua presa, e onde fica a parte rasa pela qual ele mesmo pode atravess\u00e1-lo.) Manifesta-se deste modo a maneira espec\u00edfica na qual a experi\u00eancia aparece traduzida para a linguagem da viv\u00eancia. As experi\u00eancias podem, de fato, ser inestim\u00e1veis para quem persegue um rastro. Trata-se, por\u00e9m, de experi\u00eancias de um tipo particular. A ca\u00e7a \u00e9 a \u00fanica forma de trabalho em que elas s\u00e3o intrinsecamente \u00fateis. E a ca\u00e7a \u00e9 uma forma de trabalho muito primitiva. As experi\u00eancias de quem persegue um rastro prov\u00eam s\u00f3 muito remotamente de uma atividade de trabalho, ou s\u00e3o totalmente desvinculadas dele. (N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que se fala de \u201cca\u00e7a \u00e0 fortuna\u201d.) Elas n\u00e3o possuem nem seq\u00fc\u00eancia, nem sistema. S\u00e3o um produto do acaso e carregam em si a marca do essencialmente inacab\u00e1vel, que caracteriza as obriga\u00e7\u00f5es preferidas do ocioso. O ac\u00famulo fundamentalmente intermin\u00e1vel de tudo que \u00e9 digno de ser conhecido, cuja utilidade depende do acaso, tem o seu prot\u00f3tipo no estudo. (Benjamin 2009:841)<\/p><\/blockquote>\n<p>BENJAMIN, Walter. 2009. <em>Passagens<\/em>. (Trads.: Irene Aron; Cleonice P.B. Mour\u00e3o) Belo Horizonte\/S\u00e3o Paulo: Editora UFMG\/Imprensa Oficial do Estado de S\u00e3o Paulo.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>HABITAR Habitar significa deixar rastros. No int\u00e9rieur esses rastros s\u00e3o acentuados. Inventam-se colchas e protetores, caixas e estojos em profus\u00e3o, nos quais se imprimem os rastros dos objetos de uso mais cotidiano. Tamb\u00e9m os rastros do morador ficam impressos no int\u00e9rieur. 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