{"id":286,"date":"2021-04-15T21:42:54","date_gmt":"2021-04-15T21:42:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=286"},"modified":"2021-04-15T21:42:54","modified_gmt":"2021-04-15T21:42:54","slug":"a-proposito-de-um-livro-sobre-modos-de-existencia-latour-2012","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2021\/04\/15\/a-proposito-de-um-livro-sobre-modos-de-existencia-latour-2012\/","title":{"rendered":"A prop\u00f3sito de um livro sobre modos de exist\u00eancia (Latour 2012)"},"content":{"rendered":"<p>LATOUR, Bruno. 2012. <em>Biografia de uma investiga\u00e7\u00e3o &#8211; a prop\u00f3sito de um livro sobre modos de exist\u00eancia<\/em>. S\u00e3o Paulo: Editora 34.<\/p>\n<p><strong>A VERDADE INTR\u00cdNSECA DA MEDIA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O que \u00e9 certo \u00e9 que eu sa\u00eda desse per\u00edodo de forma\u00e7\u00e3o [doutorado, 1975] armado de uma enorme mas muito paradoxal certeza no fato de que, quanto mais uma malha de textos fosse interpretada, transformada, artificial, retomada, recosturada, repetida e reformada, e a cada vez de forma diferente, mais chance ela teria em manifestar sua verdade intr\u00ednseca, com a condi\u00e7\u00e3o [&#8230;] de que se saiba distinguir de outro modo a verdade, a informa\u00e7\u00e3o pura e perfeita [Duplo Clique]&#8230; Um longo combate contra a erradica\u00e7\u00e3o das media\u00e7\u00f5es ia come\u00e7ar. (Latour 2012:4-5).<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ASSIMETRIA (s\u00f3 antropologizar o centro da periferia e a periferia do centro)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Existe a\u00ed uma flagrante assimetria: os brancos antropologizam os negros &#8211; sim, e com muita efici\u00eancia -, mas eles mesmos n\u00e3o se deixam antropologizar. Ou ent\u00e3o eles o fazem de modo falsamente distante, &#8220;ex\u00f3tico&#8221;, prendendo-se aos aspectos mais arcaicos de suas pr\u00f3prias sociedades &#8211; as festas municipais, a cren\u00e7a na astrologia, as refei\u00e7\u00f5es de primeira comunh\u00e3o -, e n\u00e3o ao que me salta aos olhos (olhos que, na verdade, foram educados pela leitura coletiva do <em>Anti-\u00c9dipo<\/em>): as t\u00e9cnicas industriais, a economia, o &#8220;desenvolvimento&#8221;, a raz\u00e3o cient\u00edfica, etc., ou seja, tudo o que constitui o coro estrutural dos imp\u00e9rios em vias de expans\u00e3o. (Latour 2012:6)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>IDEOGRAFIA DE INSTRUMETOS<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Como bom etn\u00f3grafo, eu sabia que precisava desconfiar das id\u00e9ias que flutuavam no ar, mas eu n\u00e3o acreditava que a sequ\u00eancia dos &#8220;registros&#8221; de toda essa ideografia de instrumentos imprimisse nessas famosas id\u00e9ias uma for\u00e7a t\u00e3o f\u00e9rtil. E, no entanto, naquela misteriosa f\u00e1brica de acontecimentos, tudo se esclareceria subitamente caso eu aceitasse acompanhar passo a passo as transforma\u00e7\u00f5es dos documentos aos quais os pesquisadores vestidos de branco destinavam um interesse ao mesmo tempo obsessivo e completamente descontra\u00eddo. (Latour 2012:7-8)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>AG\u00caNCIA N\u00c3O-HUMANA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Ent\u00e3o eu logo compreendi que os personagens n\u00e3o humanos tamb\u00e9m tinham aventuras que poder\u00edamos acompanhar se abandon\u00e1ssemos a ilus\u00e3o de que eles eram ontologicamente diferentes dos seres humanos. O que vale \u00e9 apenas a <em>agency<\/em>, suas capacidades de atua\u00e7\u00e3o e os diversos pap\u00e9is que lhes foram atribu\u00eddos. (Latour 2012:9)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A SEMI\u00d3TICA DO ACTANTE<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Um mundo ent\u00e3o se revelava [&#8230;]: os coletivos [&#8230;] diferem-se pela atua\u00e7\u00e3o que eles atribuem aos actantes, pelos testes que eles destinam a seus personagens [&#8230;]. O poder da semi\u00f3tica derivava, justamente, de sua sublime e radical indiferen\u00e7a ao realismo aparente dos sujeitos e dos atores sociais: essa era a condi\u00e7\u00e3o ideal para seguir a originalidade das ci\u00eancias que foram aniquiladas pela tarefa de imitar o mundo, corrompidas por serem tantas vezes confundidas com a informa\u00e7\u00e3o sobre lament\u00e1veis &#8220;<em>matters of fact<\/em>&#8221; isolados de qualquer quest\u00e3o. Somente a semi\u00f3tica dos escritos e das inscri\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, livre do realismo comum, poderia implantar esse modo totalmente original de refer\u00eancia. (Latour 2012:9)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>INSCRI\u00c7\u00d5ES (nem sujeito, nem objeto)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Na verdade, o caminho das inscri\u00e7\u00f5es ignorava ao mesmo tempo o sujeito conhecedor e o objeto conhecido; o modo de exist\u00eancia do conhecimento cient\u00edfico parecia merecer um habitat melhor do que o <em>no man&#8217;s land<\/em> entre as palavras e as coisas. (Latour 2012:10)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ETNOMETODOLOGIA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O estranho G\u00eanio do jarg\u00e3o da etnometodologia vem da descoberta de que todo curso de a\u00e7\u00e3o, incluindo o mais comum, \u00e9 constantemente interrompido por um min\u00fasculo <em>hiatus<\/em> que requer, de tempos em tempos, a retomada inventiva do ator munido de seus pr\u00f3prios microm\u00e9todos. (Latour 2012:10)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>[N]enhuma continuidade de um curso de a\u00e7\u00e3o pode acontecer sem uma repeti\u00e7\u00e3o inventiva que fornecesse ao ator social as capacidades reflexivas, as fontes de inova\u00e7\u00e3o, e at\u00e9 mesmo as sociologias e ontologias cujo desdobramento ultrapassam em muito as capacidades do etn\u00f3logo. O pesquisado sempre sabe mais do que o pesquisador. (Latour 2012:10-1)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>A ideia de que o ator n\u00e3o fosse mais considerado um &#8220;idiota cultural&#8221; (&#8220;<em>a cultural dope<\/em>&#8220;) ressoava maravilhosamente com o actante explorado pela semi\u00f3tica. (Latour 2012:11)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>SIMONDON<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Assim como as ci\u00eancias compreendidas em sua pr\u00e1tica n\u00e3o podiam ser mantidas no estreito \u00e2mbito da epistemologia, as t\u00e9cnicas, sobretudo as mais modernas, n\u00e3o podiam ser mantidas na simples ideia de uma a\u00e7\u00e3o eficaz sobre a mat\u00e9ria: elas tinham a ver com a magia, com a religi\u00e3o, com a filosofia; elas tinham seu pr\u00f3prio mundo; eram cheias de m\u00e9todos, artimanhas, c\u00e1lculos, metaf\u00edsica, e at\u00e9 mesmo moral; e, desconstruindo as fronteiras com os temas humanos, representavam um imenso desafio para a descri\u00e7\u00e3o etnogr\u00e1fica ou sociol\u00f3gica. Mas, al\u00e9m disso, de uma forma ainda mais radical, elas povoaram o coletivo com atores n\u00e3o humanos que, por um tipo de delega\u00e7\u00e3o, eram relevantes aos atores humanos pela quantidade vertiginosa de habilidades imprevistas. Na minha opini\u00e3o e na de Callon, a armadura t\u00e9cnica era o que havia de mais &#8220;social&#8221; e uma sociedade, uma vez que se voltasse \u00e0 etimologia do adjetivo e se permitisse seguir todas as <em>associa\u00e7\u00f5es<\/em> necess\u00e1rias \u00e0 extens\u00e3o de uma rede. Principalmente se a ela forem acrescentadas as t\u00e9cnicas intelectuais que se aprendeu a seguir a partir das pesquisas de laborat\u00f3rios, e que acabaram misturando-se em toda parte com as organiza\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas. \u00c0s m\u00e1quinas, devia-se acrescentar os escrit\u00f3rios; \u00e0s engrenagens, as t\u00e9cnicas cont\u00e1veis; \u00e0 resist\u00eancia dos materiais, as ag\u00eancias de padroniza\u00e7\u00e3o. (Latour 2012:12-3)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ANTROPOTECNIA, ANT e PERFORMANCE<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Se os babu\u00ednos manifestavam uma complexidade social t\u00e3o extraordin\u00e1ria, totalmente digna de Garfinkel, eles s\u00f3 faziam uso de suas patas. Era isso que confirmava &#8211; a Callon e a mim &#8211; nossas intui\u00e7\u00f5es sobre a fabrica\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica da sociedade: o que caracteriza os seres humanos n\u00e3o \u00e9 a emerg\u00eancia do social, mas o desvio, a tradu\u00e7\u00e3o, a inflex\u00e3o de todos os cursos de a\u00e7\u00e3o em dispositivos t\u00e9cnicos cada vez mais complicados (mas n\u00e3o necessariamente mais complexos). Alguns anos depois de meu retorno desse trabalho de campo queniano, em 1979, escrevemos o texto que fundou a teoria do ator-rede, <em>Unscrewing the great Leviathan<\/em>, propondo uma teoria social bastante aberta para absorver as associa\u00e7\u00f5es entre seres humanos e n\u00e3o humanos, sobretudo fazendo da <em>mudan\u00e7a de escala<\/em> a consequ\u00eancia de um emprego das t\u00e9cnicas materiais bem como organizacionais. A performatividade do social pelas ci\u00eancias, incluindo a ci\u00eancia econ\u00f4mica, financeira, administrativa, abria-se, assim, de forma mais ampla \u00e0 pesquisa emp\u00edrica. (Latour 2012:14-5)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>DO SOCIAL \u00e0s ASSOCIA\u00c7\u00d5ES<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Ao passar do social \u00e0s associa\u00e7\u00f5es, o analista aproveitava-se, enfim, de uma liberdade de manobra t\u00e3o grande quanto a de seus informantes, em vez de se fechar no estreito quadro da &#8220;dimens\u00e3o social&#8221; de fen\u00f4menos cient\u00edficos, t\u00e9cnicos, cujo conte\u00fado deveria escapar-lhe completamente. O que se pretendia observar eram as redes socio-t\u00e9cnicas em vias de expans\u00e3o. (Latour 2012:15)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>IRREDU\u00c7\u00d5ES<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Com uma \u00fanica intui\u00e7\u00e3o &#8211; a distin\u00e7\u00e3o entre as rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a e as rela\u00e7\u00f5es de raz\u00e3o faz com que tanto a for\u00e7a quanto a raz\u00e3o sejam incompreens\u00edveis &#8211; misturada a uma completa e totalmente despercebida contradi\u00e7\u00e3o: a inten\u00e7\u00e3o de conferir a todas as associa\u00e7\u00f5es a mesma metalinguagem, em termos de tradu\u00e7\u00e3o, redes e entel\u00e9quias. (Latour 2012:17)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O LIVRO COMO OBJETO T\u00c9CNICO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A aus\u00eancia de um narrador de carne e osso em uma narrativa ficcional n\u00e3o \u00e9 uma propriedade semi\u00f3tica da fic\u00e7\u00e3o mas do livro como objeto t\u00e9cnico; sem o livro, o narrador seria um contador t\u00e3o pouco ausente daquilo que enuncia quanto o manipulador de marionetes em um espet\u00e1culo de <em>bunkaru<\/em>. (Latour 2012:18)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>SCIENCE IN ACTION<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Seguindo a circula\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel pela produ\u00e7\u00e3o de fatos e pela constru\u00e7\u00e3o de m\u00e1quinas, <em>Science in Action<\/em> pode ser lido como uma aplica\u00e7\u00e3o da teoria das redes, o que ele certamente n\u00e3o deixa de ser, mas tamb\u00e9m como um estudo de tr\u00eas regimes de verdade: a refer\u00eancia cient\u00edfica, os arranjos t\u00e9cnicos, ambos opondo-se a esse G\u00eanio do Mal da informa\u00e7\u00e3o Duplo Clique. (Latour 2012:20-1)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>PESQUISA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Sem me contradizer, eu poderia ser ao mesmo tempo fil\u00f3sofo, antrop\u00f3logo e soci\u00f3logo: tudo leva \u00e0 pesquisa, tudo surge dela. (Latour 2012:23)<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>LATOUR, Bruno. 2012. 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