{"id":2807,"date":"2025-04-01T18:07:48","date_gmt":"2025-04-01T18:07:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=2807"},"modified":"2025-04-01T20:21:55","modified_gmt":"2025-04-01T20:21:55","slug":"nota-complementar-sobre-as-consequencias-da-nocao-de-individuacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2025\/04\/01\/nota-complementar-sobre-as-consequencias-da-nocao-de-individuacao\/","title":{"rendered":"Nota complementar sobre as consequ\u00eancias da no\u00e7\u00e3o de individua\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>SIMONDON, Gilbert. 2020 [1958]. Nota complementar sobre as consequ\u00eancias da no\u00e7\u00e3o de individua\u00e7\u00e3o. In: <em>A individua\u00e7\u00e3o \u00e0 luz das no\u00e7\u00f5es de forma e de informa\u00e7\u00e3o<\/em>. (Trads.: Lu\u00eds E.P. Aragon; Guilherme Ivo) S\u00e3o Paulo: Editora 34, p.507-45.<\/p>\n<p>[P\u00e1ginas da tradu\u00e7\u00e3o brasileira (Simondon 2020) entre colchetes]<\/p>\n<h3><strong>PRIMEIRO CAP\u00cdTULO: valores e busca de objetividade<\/strong><\/h3>\n<p> [507]<\/p>\n<h2>1 \u2013 valores relativos e valores absolutos<\/h2>\n<p> [507]: Existem dois valores relativos, os t\u00e9cnicos e os org\u00e2nicos (vivos), e um valor absoluto, a cultura humana, que \u00e9 a possibilidade de compatibilidade entre eles. Cultura como centro de c\u00e1lculo latouriano: os \u201cs\u00edmbolos bem-fundados\u201d de Durkheim.<\/p>\n<ul>\n<strong>VALOR (complementaridade ilimitada entre indiv\u00edduos; indiv\u00edduos com pr\u00e9individual)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O valor representa o s\u00edmbolo da integra\u00e7\u00e3o mais perfeita poss\u00edvel, isto \u00e9, da complementaridade ilimitada entre o ser individual e os outros seres individuais. (Simondon 2020:507)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>OS 3 TIPOS DE VALORES (2 relativos e 1 absoluto)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>tr\u00eas tipos de valores s\u00e3o poss\u00edveis: dois valores relativos e um valor absoluto. (Simondon 2020:508)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>VALORES RELATIVOS (t\u00e9cnico ou org\u00e2nico)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Podemos nomear valores relativos aqueles que exprimem a chegada de uma condi\u00e7\u00e3o complementar; esse valor est\u00e1 ligado \u00e0 coisa mesma que constitui essa condi\u00e7\u00e3o, mas ele, no entanto, n\u00e3o reside nessa coisa; [\u2026] \u00e9 o valor do rem\u00e9dio que cura, ou do alimento que permite viver. Aqui pode ser que haja o valor como condi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica ou o valor como condi\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, conforme a condi\u00e7\u00e3o j\u00e1 realizada seja t\u00e9cnica ou org\u00e2nica. (Simondon 2020:508)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>VALOR ABSOLUTO (cultura)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O terceiro tipo de valor \u00e9 o valor que permite a rela\u00e7\u00e3o: in\u00edcio ou encetamento da rea\u00e7\u00e3o que permite essa atividade e que se entret\u00e9m consigo mesma uma vez come\u00e7ada. Entre esses valores, pode-se colocar a cultura, que \u00e9 como um conjunto de in\u00edcios de a\u00e7\u00e3o, providos de um rico esquematismo, e que esperam ser atualizados numa a\u00e7\u00e3o (Simondon 2020:508)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CULTURA como CENTRO DE C\u00c1LCULO LATOURIANO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Isso sup\u00f5e que a cultura, de alguma maneira, seja capaz de <em>manipular<\/em> os s\u00edmbolos que representam tal gesto t\u00e9cnico ou tal puls\u00e3o biol\u00f3gica; [\u2026] a cultura s\u00f3 pode ser eficaz se ela, no ponto de partida, possuir essa capacidade de agir sobre s\u00edmbolos e n\u00e3o sobre as realidades brutas; a condi\u00e7\u00e3o de validez dessa a\u00e7\u00e3o sobre os s\u00edmbolos reside na autenticidade dos s\u00edmbolos, ou seja, no fato deles serem verdadeiramente o prolongamento das realidades que representam, e n\u00e3o um simples signo arbitr\u00e1rio (Simondon 2020:509)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ARTE \u00c9 CULTURA, mas CULTURA N\u00c3O \u00c9 ARTE<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>As Belas Artes, enquanto meios [&#8230;] de express\u00e3o, oferecem \u00e0 cultura sua for\u00e7a de simboliza\u00e7\u00e3o adequada, mas n\u00e3o constituem a cultura, a qual, se permanece esteticismo, n\u00e3o possui efic\u00e1cia alguma. (Simondon 2020:509)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CULTURA como NEXO entre VIDA e T\u00c9CNICA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>\u00c9 preciso [ainda] que a cultura, [em lugar] de ser pura consumidora de meios [&#8230;] de express\u00e3o constitu\u00eddos em g\u00eaneros fechados, [sirva] efetivamente para resolver os problemas humanos, isto \u00e9, [coloque] em nexo as condi\u00e7\u00f5es org\u00e2nicas e as condi\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas. (Simondon 2020:509)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CULTURA como RESOLU\u00c7\u00c3O de um PROBLEMA EXISTENCIAL (n\u00e3o autom\u00e1tico) HUMANO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>a cultura reflexiva \u00e9 sens\u00edvel ao aspecto problem\u00e1tico da exist\u00eancia; ela busca o que \u00e9 humano, ou seja, aquilo que, ao inv\u00e9s de cumprir-se por si mesmo e automaticamente, necessita de um questionamento do homem por si mesmo no retorno de causalidade da reflex\u00e3o e da consci\u00eancia de si; \u00e9 no encontro do obst\u00e1culo que a necessidade da cultura se manifesta (Simondon 2020:510)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CULTURA HUMANA como COMPATIBILIDADE entre VIDA e T\u00c9CNICA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>o problema aparece quando surge, no lugar dessa altern\u00e2ncia entre a vida org\u00e2nica e a vida t\u00e9cnica, a necessidade de um modo de <em>compatibilidade<\/em> entre as duas vidas, no seio de uma vida que as integre simultaneamente e que \u00e9 a exist\u00eancia humana.(Simondon 2020:510)<\/p><\/blockquote>\n<\/ul>\n<h2>2 \u2013 A zona obscura entre o substancialismo do indiv\u00edduo e a integra\u00e7\u00e3o ao grupo<\/h2>\n<p> [510]: A Filosofia compatibiliza indiv\u00edduo (busca por salva\u00e7\u00e3o religiosa) e grupo (vida c\u00edvica); como a cultura compatibiliza vida e t\u00e9cnica.<\/p>\n<ul>\n<strong>FILOSOFIA como COMPATIBILIDADE entre VIDA C\u00cdVICA (coletiva) e SALVA\u00c7\u00c3O RELIGIOSA (individual)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>apenas um pensamento capaz de instituir uma verdadeira rela\u00e7\u00e3o <em>alagm\u00e1tica<\/em> entre esses dois aspectos da cultura [civismo e religi\u00e3o] \u00e9 v\u00e1lido; ele n\u00e3o \u00e9, ent\u00e3o, dogm\u00e1tico, mas reflexivo; o sentido dos valores desaparece nessa incompatibilidade das duas culturas; s\u00f3 o pensamento filos\u00f3fico pode descobrir uma compatibilidade din\u00e2mica entre essas duas for\u00e7as cegas que sacrificam o homem pela cidade ou a vida coletiva pela busca individual da salva\u00e7\u00e3o. Sem o pensamento reflexivo, a cultura se degrada em esfor\u00e7os incompat\u00edveis e n\u00e3o construtivos, que consomem a preocupa\u00e7\u00e3o c\u00edvica e a busca de um destino individual num afrontamento est\u00e9ril. O sentido dos valores \u00e9 a recusa de uma incompatibilidade no dom\u00ednio da cultura, a recusa de um absurdo fundamental no homem. (Simondon 2020:512)<\/p>\n<blockquote><\/ul>\n<h2>3 \u2013 Problem\u00e1tica e busca de compatibilidade<\/h2>\n<p> [512]: Problemas (normatividades org\u00e2nica e t\u00e9cnica) s\u00f3 s\u00e3o definidos quando s\u00e3o solucionados, sendo consci\u00eancia (valor absoluto) a rela\u00e7\u00e3o entre problemas e solu\u00e7\u00f5es (compatibilidade)<\/p>\n<ul>\n<strong>INDIV\u00cdDUO COMO A\u00c7\u00c3O-REDE<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Esse antagonismo d\u00e1 lugar a uma compatibilidade poss\u00edvel se o <em>indiv\u00edduo<\/em>, ao inv\u00e9s de ser concebido como uma subst\u00e2ncia ou um ser prec\u00e1rio que aspira \u00e0 substancialidade, for apreendido como <em>o ponto singular de uma infinidade aberta de rela\u00e7\u00f5es<\/em>. Se a rela\u00e7\u00e3o tem valor de ser, j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 oposi\u00e7\u00e3o entre o desejo de eternidade e a necessidade da vida coletiva. (Simondon 2020:512)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>VALOR ABSOLUTO COMPATIBILIZA NORMATIVIDADES ORG\u00c2NICA e T\u00c9CNICA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O valor n\u00e3o se op\u00f5e \u00e0s determina\u00e7\u00f5es; ele as compatibiliza. O sentido do valor \u00e9 inerente \u00e0 rela\u00e7\u00e3o pela qual o homem quer resolver o conflito instituindo uma compatibilidade entre os aspectos normativos de sua exist\u00eancia. (Simondon 2020:512-3)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>PROBLEMA = NORMATIVIDADE + INCOMPATIBILIDADE<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Sem uma normatividade elementar, de alguma maneira sofrida pelo indiv\u00edduo, e j\u00e1 abrigando uma incompatibilidade, n\u00e3o haveria <em>problema<\/em>; (Simondon 2020:513)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>RESOLVER O PROBLEMA (solu\u00e7\u00e3o) = FORMULAR O PROBLEMA (defini\u00e7\u00e3o)<\/strong>$<\/p>\n<blockquote><p>o indiv\u00edduo pode viver o problema, mas s\u00f3 pode elucid\u00e1-lo resolvendo-o; \u00e9 o <em>suplemento de ser<\/em> descoberto e criado sob forma de a\u00e7\u00e3o que posteriormente permite \u00e0 consci\u00eancia definir os termos nos quais o problema se colocava; a sistem\u00e1tica que permite pensar simultaneamente os termos do problema, quando se trata de um problema moral, s\u00f3 \u00e9 realmente poss\u00edvel a partir do momento em que a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 descoberta. (Simondon 2020:513)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O SENTIDO CRIATIVO-INVENTIVO-AUTOCONSTITUTIVO DO VALOR<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O sentido do valor reside no sentimento que nos impede de buscar uma solu\u00e7\u00e3o j\u00e1 dada no mundo ou no eu, como esquema intelectual ou atitude vital; [\u2026]. O sentido do valor \u00e9 o que deve evitar que nos encontremos ante problemas de escolha; o problema da escolha aparece quando s\u00f3 resta a forma vazia da a\u00e7\u00e3o, quando as for\u00e7as t\u00e9cnicas e as for\u00e7as org\u00e2nicas est\u00e3o desqualificadas em n\u00f3s e nos aparecem como indiferentes. [\u2026] [O] sentido do valor \u00e9 o da autoconstitui\u00e7\u00e3o do sujeito por sua pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o (Simondon 2020:513)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O PROBLEMA MORAL (valor) como RELA\u00c7\u00c3O CONSCI\u00caNCIA-A\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O problema moral que o sujeito pode colocar para si est\u00e1, portanto, no n\u00edvel dessa permanente media\u00e7\u00e3o construtiva, gra\u00e7as \u00e0 qual o sujeito progressivamente toma consci\u00eancia do fato de que resolveu problemas, quando esses problemas foram resolvidos na a\u00e7\u00e3o. (Simondon 2020:513-4)<\/p><\/blockquote>\n<\/ul>\n<h2>4 \u2013 Consci\u00eancia moral e individua\u00e7\u00e3o \u00e9tica<\/h2>\n<p> [514]: Consci\u00eancia moral como a\u00e7\u00e3o do sujeito sobre si mesmo, tomando consci\u00eancia dos (definindo os) seus problemas na medida em que os soluciona na a\u00e7\u00e3o (individua\u00e7\u00e3o \u00e9tica?)<\/p>\n<ul>\n<strong>CONSCI\u00caNCIA como A\u00c7\u00c3O DO SUJEITO SOBRE SI MESMO, DEFININDO PROBLEMAS \u00c0 MEDIDA EM QUE OS SOLUCIONA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>a consci\u00eancia \u00e9 a reatividade do sujeito relativamente a si mesmo, que lhe permite existir como indiv\u00edduo, sendo para si mesmo a norma de sua a\u00e7\u00e3o; o sujeito age se controlando, isto \u00e9, pondo-se na mais perfeita comunica\u00e7\u00e3o poss\u00edvel consigo mesmo; a consci\u00eancia \u00e9 esse retorno de causalidade do sujeito sobre si mesmo, quando uma a\u00e7\u00e3o optativa [volitiva, desejante] est\u00e1 a ponto de resolver um problema. (Simondon 2020:514)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CONSCI\u00caNCIA PSICOL\u00d3GICA (reguladora do organismo) =\/= CONSCI\u00caNCIA MORAL-NORMATIVA (autorreguladora; a\u00e7\u00e3o o sujeito sobre si mesmo)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>a consci\u00eancia moral reporta os atos ou os in\u00edcios de atos \u00e0quilo que o sujeito tende a ser no t\u00e9rmino desse ato; ela s\u00f3 pode fazer isso de modo extremamente prec\u00e1rio, de alguma maneira &#8220;extrapolando&#8221; para dar conta da atual transforma\u00e7\u00e3o do sujeito; ela \u00e9 tanto mais fina quanto melhor consegue julgar em fun\u00e7\u00e3o do que o sujeito ser\u00e1; \u00e9 por essa raz\u00e3o que h\u00e1 uma relativa indetermina\u00e7\u00e3o no dom\u00ednio da consci\u00eancia moral, pois a consci\u00eancia moral instaura de in\u00edcio um primeiro tipo de reatividade, como a consci\u00eancia simplesmente psicol\u00f3gica, e, em seguida, um segundo tipo de reatividade, que vem do fato das modalidades desse retorno de causalidade dependerem do regime de a\u00e7\u00e3o que elas controlam: nessa recorr\u00eancia da informa\u00e7\u00e3o, o sujeito n\u00e3o \u00e9 um ser dotado somente de uma teleologia interna simples, mas de uma teleologia ela pr\u00f3pria submetida a uma autorregula\u00e7\u00e3o: a consci\u00eancia psicol\u00f3gica j\u00e1 \u00e9 reguladora; a consci\u00eancia moral \u00e9 uma consci\u00eancia reguladora submetida a uma autorregula\u00e7\u00e3o interna; essa consci\u00eancia duplamente reguladora pode ser nomeada consci\u00eancia normativa. Ela \u00e9 livre porque ela mesma elabora seu regime pr\u00f3prio de regula\u00e7\u00e3o. (Simondon 2020:514-5)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>LIBERDADE, AUTOCRIA\u00c7\u00c3O e COMPATIBILIDADE de CONDI\u00c7\u00d5ES ASSIM\u00c9TRICAS<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>essa liberdade s\u00f3 pode ser encontrada na autocria\u00e7\u00e3o de um regime de compatibilidade entre condi\u00e7\u00f5es assim\u00e9tricas, como aquelas que encontramos na base da a\u00e7\u00e3o (Simondon 2020:515)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CONSCI\u00caNCIA MORAL-VALORIZADORA N\u00c3O PODE SER AUTOMATIZADA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>\u00e9 preciso que o organismo e a t\u00e9cnica j\u00e1 estejam presentes, prontos para serem relacionados, para que a consci\u00eancia moral possa existir. A consci\u00eancia valorizadora define, portanto, um n\u00edvel de atividade teleol\u00f3gica que n\u00e3o pode ser reconduzida a nenhum automatismo. A solu\u00e7\u00e3o para o problema moral n\u00e3o pode ser buscada por computador. (Simondon 2020:515)<\/p><\/blockquote>\n<\/ul>\n<h2>5 \u2013 \u00c9tica e processos de individua\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p> [515]: A sociedade como comunidade aberta (em expans\u00e3o), na qual valores biol\u00f3gicos coletivos relativos s\u00e3o sobrepujados por valores individuais-sociais subjetivos absolutos ligados \u00e0 t\u00e9cnica.<\/p>\n<ul>\n<strong>CONSCI\u00caNCIA MORAL (o sentido dos valores) x CLASSIFICA\u00c7\u00c3O MORAL (estereotipia, pensamento por esp\u00e9cies e g\u00eanero, simples teleologia, automatismo)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Certamente, as condutas autom\u00e1ticas e estereotipadas surgem assim que a consci\u00eancia moral demissiona; ent\u00e3o, o pensamento por esp\u00e9cies e g\u00eanero substitui o sentido dos valores; a classifica\u00e7\u00e3o moral caracteriza a simples teleologia social ou org\u00e2nica, e \u00e9 de ordem autom\u00e1tica. (Simondon 2020:515)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>SENTIMENTOS PURAMENTE SOCIAIS-REGULADORES (estere\u00f3tipos, menos est\u00e1veis; imanta\u00e7\u00e3o abaixo do ponto de Curie; fen\u00f4meno de grupo, circunst\u00e2ncias t\u00e9cnicas ou org\u00e2nicas; necessidades vitais comunit\u00e1rias) x VALORES INDIVIDUAIS-MORAIS (mais est\u00e1veis; imanta\u00e7\u00e3o acima do ponto de Curie; fen\u00f4meno individual; amizade)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>os sentimentos puramente reguladores s\u00e3o muito menos est\u00e1veis que os valores elaborados pelos indiv\u00edduos; basta uma mudan\u00e7a nas circunst\u00e2ncias sociais para que os estere\u00f3tipos se revertam e deem lugar a uma converg\u00eancia diferente; poder-se-ia comparar os sentimentos sociais \u00e0quela imanta\u00e7\u00e3o que \u00e9 f\u00e1cil de produzir num metal magn\u00e9tico abaixo do ponto de Curie; basta um campo pouco intenso para mudar a imanta\u00e7\u00e3o remanescente; ao contr\u00e1rio, se as mol\u00e9culas foram imantadas acima do ponto de Curie e puderam orientar-se no campo, sendo depois resfriadas conservando essa imanta\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso um campo desmagnetizante bem mais intenso para desimantar o metal; \u00e9 que n\u00e3o se trata apenas de um fen\u00f4meno de grupo, mas de uma imanta\u00e7\u00e3o e orienta\u00e7\u00e3o de cada mol\u00e9cula tomada individualmente. Homens unidos pelo sentido de um mesmo valor n\u00e3o podem ser desunidos por uma simples circunst\u00e2ncia org\u00e2nica ou t\u00e9cnica; a amizade cont\u00e9m um sentido dos valores que funda uma sociedade sobre outra coisa que n\u00e3o as necessidades vitais de uma comunidade. (Simondon 2020:515-6)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>COMUNIDADE (biol\u00f3gica) x SOCIEDADE (\u00e9tica)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A comunidade \u00e9 biol\u00f3gica, enquanto a sociedade \u00e9 \u00e9tica. (Simondon 2020:516)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>COMUNIDADE (fechada; sociedade cujo sentido se perde porque sua a\u00e7\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel; estere\u00f3tipos; sociedade que deveio est\u00e1tica; inclus\u00f5es e exclus\u00f5es, g\u00eanertos e esp\u00e9cies; valores relativos positivos ou negativos; rela\u00e7\u00e3o indiv\u00edduo-grupo) x SOCIEDADE (aberta; comunidade em expans\u00e3o; pensamento anal\u00f3gico, graus de valor absoluto, sempre positivos; rea\u00e7\u00e3o indiv\u00edduo-indiv\u00edduo numa sociedade)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>toda sociedade \u00e9 aberta na medida em que o \u00fanico crit\u00e9rio v\u00e1lido \u00e9 constitu\u00eddo pela a\u00e7\u00e3o, sem que haja um [\u2026] [s\u00edmbolo] de natureza biol\u00f3gica ou t\u00e9cnica para recrutar ou excluir os membros dessa sociedade. Uma sociedade cujo sentido se perde porque sua a\u00e7\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel dev\u00e9m comunidade e, consequentemente, se fecha, elabora estere\u00f3tipos; uma sociedade \u00e9 uma comunidade em expans\u00e3o, enquanto uma comunidade \u00e9 uma sociedade que deveio est\u00e1tica; as comunidades utilizam um pensamento que procede por inclus\u00f5es e exclus\u00f5es, g\u00eaneros e esp\u00e9cies; uma sociedade utiliza um pensamento anal\u00f3gico, no verdadeiro sentido do termo, e n\u00e3o conhece apenas dois valores, mas uma infinidade cont\u00ednua de graus de valor, desde o nada at\u00e9 o perfeito, sem que haja oposi\u00e7\u00e3o das categorias do bem e do mal e dos seres bons e ruins; para uma sociedade, existem somente os valores morais positivos; o mal \u00e9 um puro nada, uma aus\u00eancia, e n\u00e3o a marca de uma atividade volunt\u00e1ria. O racioc\u00ednio de S\u00f3crates, \u03bf\u03cd\u03b4\u03b5\u03af\u03c2 \u03ad\u03c7\u03ce\u03bd \u03ac\u03bc\u03b1\u03c1\u03c4\u03ac\u03bd\u03b5\u03b9, segundo o qual ningu\u00e9m faz voluntariamente o mal, \u00e9 notavelmente revelador do que \u00e9 a verdadeira consci\u00eancia moral do indiv\u00edduo e de uma sociedade de indiv\u00edduos; com efeito, como a consci\u00eancia moral \u00e9 autonormativa e autoconstitutiva, ela \u00e9 essencialmente posta na alternativa ou de n\u00e3o existir, ou ent\u00e3o de n\u00e3o fazer voluntariamente o mal; a consci\u00eancia moral sup\u00f5e que a rela\u00e7\u00e3o a outrem \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduo a indiv\u00edduo numa sociedade.(Simondon 2020:516-7)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>COMUNIDADE (bipolar, positivo ou negativo) x SOCIEDADE (unipolar, s\u00f3 positivo)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A bipolaridade dos valores manifesta uma comunidade; a unipolaridade dos valores manifesta uma sociedade. (Simondon 2020:517)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ATIVIDADE T\u00c9CNICA (unipolar) =\/= ATIVIDADE BIOL\u00d3GICA (bipolar)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>a atividade t\u00e9cnica n\u00e3o introduz uma bipolaridade dos valores a mesmo t\u00edtulo que a atividade biol\u00f3gica; com efeito, para o ser que constr\u00f3i, n\u00e3o h\u00e1 o bom e o mau, mas o indiferente e o construtivo, o neutro e o positivo; a positividade do valor se destaca sobre um fundo de neutralidade, e de neutralidade toda provis\u00f3ria, toda relativa, pois o que ainda n\u00e3o \u00e9 \u00fatil pode devir \u00fatil segundo o gesto do indiv\u00edduo construtor que saber\u00e1 utiliz\u00e1-lo; ao contr\u00e1rio, o que recebeu um papel funcional no trabalho n\u00e3o pode perd\u00ea-lo e, assim, encontra-se por isso mesmo para sempre investido de um car\u00e1ter de valor; o valor \u00e9 irrevers\u00edvel e inteiramente positivo; n\u00e3o h\u00e1 simetria entre o valor e a aus\u00eancia de valor. (Simondon 2020:517-8)<\/p><\/blockquote>\n<\/ul>\n<h3><strong>SEGUNDO CAP\u00cdTULO: Individua\u00e7\u00e3o e inven\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<p> [518]<\/p>\n<h2>1 \u2013 O t\u00e9cnico como indiv\u00edduo puro<\/h2>\n<p> [518]: o t\u00e9cnico com indiv\u00edduo puro, pois opera um objeto (ou num dom\u00ednio) ainda desconhecido ou n\u00e3o representado socialmente.<\/p>\n<ul>\n<strong>ATIVIDADE T\u00c9CNICA como INTRODU\u00c7\u00c3O \u00e0 RAZ\u00c3O SOCIAL e \u00e0 LIBERDADE<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Consequentemente, a atividade t\u00e9cnica pode ser considerada como uma introdutora \u00e0 verdadeira raz\u00e3o social e como uma iniciadora no sentido da liberdade do indiv\u00edduo (Simondon 2020:518)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A T\u00c9CNICA ESCAPA DA IDENTIFICA\u00c7\u00c3O SOCIAL<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>embora ela [a sociedade] possa identific\u00e1-lo [um indiv\u00edduo] totalmente com sua fun\u00e7\u00e3o org\u00e2nica e seu estado org\u00e2nico (homem jovem, idoso, guerreiro), ela n\u00e3o pode faz\u00ea-lo aderir totalmente \u00e0 sua fun\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica (Simondon 2020:518)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O M\u00c9DICO como T\u00c9CNICO (indiv\u00edduo puro, aut\u00f4nomo frente a seu grupo)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>nos poemas hom\u00e9ricos, o m\u00e9dico \u00e9, sozinho, considerado como equivalente a v\u00e1rios guerreiros [&#8230;], e particularmente reverenciado. \u00c9 que o m\u00e9dico \u00e9 o t\u00e9cnico da cura; ele tem um poder m\u00e1gico; sua for\u00e7a n\u00e3o \u00e9 puramente social, como a do chefe ou a do guerreiro; \u00e9 sua fun\u00e7\u00e3o social que resulta de seu poder individual, e n\u00e3o seu poder individual que resulta de sua atividade social; o m\u00e9dico \u00e9 mais que o homem definido por sua integra\u00e7\u00e3o ao grupo; ele \u00e9 por si mesmo; ele tem um dom que \u00e9 s\u00f3 dele, que ele n\u00e3o toma da sociedade e que define a consist\u00eancia de sua individualidade diretamente apreendida. Ele n\u00e3o \u00e9 apenas um membro de uma sociedade, mas um indiv\u00edduo puro; numa comunidade, ele \u00e9 como que de uma outra esp\u00e9cie; ele \u00e9 um ponto singular e n\u00e3o est\u00e1 submetido \u00e0s mesmas obriga\u00e7\u00f5es e \u00e0s mesmas interdi\u00e7\u00f5es que os outros homens. (Simondon 2020:518)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O FEITICEIRO-SACERDOTE como T\u00c9CNICO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O feiticeiro e o sacerdote s\u00e3o igualmente detentores de uma t\u00e9cnica de ordem superior, gra\u00e7as \u00e0 qual as for\u00e7as naturais s\u00e3o captadas ou as pot\u00eancias divinas s\u00e3o tornadas favor\u00e1veis; (Simondon 2020:518)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ADIVINHO (Tir\u00e9sias) como T\u00c9CNICO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>um \u00fanico homem pode fazer face ao chefe da armada, apenas um pode impor-lhe respeito: o adivinho Tir\u00e9sias \u00e9 mais poderoso que qualquer outro ser definido por sua fun\u00e7\u00e3o, pois ele \u00e9 o t\u00e9cnico da previs\u00e3o do porvir.  (Simondon 2020:518-9)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>T\u00c9CNICO como PORTADOR DE SABER ESOT\u00c9RICO EXTRA-SOCIAL<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O t\u00e9cnico, numa comunidade, aporta um elemento novo e insubstitu\u00edvel, o do di\u00e1logo direto com o objeto enquanto oculto ou inacess\u00edvel ao homem da comunidade; pelo exterior do corpo, o m\u00e9dico conhece as misteriosas fun\u00e7\u00f5es que se cumprem no interior dos \u00f3rg\u00e3os. O adivinho l\u00ea nas entranhas das v\u00edtimas a sorte oculta da comunidade; o sacerdote est\u00e1 em comunica\u00e7\u00e3o com a vontade dos Deuses e pode modificar suas decis\u00f5es, ou ao menos conhecer suas san\u00e7\u00f5es e revel\u00e1-las. (Simondon 2020:519)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ENGENHEIRO como T\u00c9CNICO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O engenheiro, nas cidades gregas da J\u00f4nia no s\u00e9culo VI antes de Jesus Cristo, dev\u00e9m o t\u00e9cnico por excel\u00eancia; ele aporta o poder de expans\u00e3o a essas cidades e \u00e9 o homem [&#8230;] [engenhoso nas t\u00e9cnicas]. (Simondon 2020:519)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>FIL\u00d3SOFOS como T\u00c9CNICOS<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Tales, Anaximandro, Anax\u00edmenes, s\u00e3o t\u00e9cnicos antes de tudo. (Simondon 2020:519)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>PENSAMENTO INDIVIDUAL LIVRE \u2013 REFLEX\u00c3O DESINTERESSADA \u2013 DI\u00c1LOGO DIRETO COM O MUNDO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>N\u00e3o se deve esquecer que a primeira apari\u00e7\u00e3o de um pensamento individual livre e de uma reflex\u00e3o desinteressada \u00e9, de fato, a dos t\u00e9cnicos, isto \u00e9, de homens que souberam se desprender da comunidade por um di\u00e1logo direto com o mundo. (Simondon 2020:519)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>MILAGREGO = INDIV\u00cdDUO PURO (reuni\u00e3o das vidas org\u00e2nica-comunit\u00e1ria e t\u00e9cnica-individual; a predi\u00e7\u00e3o de Tales)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Tannery mostrou em sua obra intitulada <em>Pour une histoire de la science hell\u00e8ne<\/em> o papel preponderante do pensamento t\u00e9cnico naquilo que se nomeou &#8220;milagre grego&#8221;; o milagre \u00e9 o advento, no interior da comunidade, do indiv\u00edduo puro, que re\u00fane em si as duas condi\u00e7\u00f5es do pensamento reflexivo: a vida org\u00e2nica e a vida t\u00e9cnica. Esses primeiros t\u00e9cnicos mostraram sua for\u00e7a predizendo, como fez Tales, um eclipse do Sol. (Simondon 2020:519)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>T\u00c9CNICA (opera\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo sobre um objeto-dom\u00ednio oculto-inacess\u00edvel-n\u00e3o social = pesquisa cient\u00edfica) =\/= TRABALHO (especialistas num campo)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>N\u00e3o se pode confundir t\u00e9cnica e trabalho; com efeito, o trabalho, perdendo seu car\u00e1ter de opera\u00e7\u00e3o sobre um objeto oculto, n\u00e3o \u00e9 mais uma t\u00e9cnica, propriamente falando; o verdadeiro t\u00e9cnico \u00e9 aquele que \u00e9 um mediador entre a comunidade e o objeto oculto ou inacess\u00edvel. Hoje nomeamos t\u00e9cnicos os homens que na realidade s\u00e3o trabalhadores especializados, mas que n\u00e3o p\u00f5em a comunidade em rela\u00e7\u00e3o com um dom\u00ednio oculto; uma t\u00e9cnica absolutamente elucidada e divulgada n\u00e3o \u00e9 mais uma t\u00e9cnica, mas sim um tipo de trabalho; os &#8220;especialistas&#8221; n\u00e3o s\u00e3o verdadeiros t\u00e9cnicos, mas sim trabalhadores; hoje a verdadeira atividade t\u00e9cnica est\u00e1 no dom\u00ednio da pesquisa cient\u00edfica que, por ser pesquisa, est\u00e1 orientada para objetos ou propriedades de objetos ainda desconhecidos. Os indiv\u00edduos livres s\u00e3o aqueles que efetuam a pesquisa e instituem, com isso, uma rela\u00e7\u00e3o com o objeto n\u00e3o social. (Simondon 2020:519-20)<\/p>\n<blockquote><\/ul>\n<h2>2 \u2013 A opera\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica como condi\u00e7\u00e3o de individua\u00e7\u00e3o. Inven\u00e7\u00e3o e autonomia; comunidade e rela\u00e7\u00e3o transindividual t\u00e9cnica<\/h2>\n<p> [520]: O transindividual como \u201csociedade dos indiv\u00edduos\u201d, civiliza\u00e7\u00e3o e progresso, via t\u00e9cnica (surreal).<\/p>\n<ul>\n<strong>O SER T\u00c9CNICO (nexo humano-mundo) SE MANT\u00c9M PRESENTE, enquanto O TRABALHO SE DISSIPA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O nexo do Homem ao mundo pode, com efeito, efetuar-se seja atrav\u00e9s da comunidade, pelo trabalho, seja do indiv\u00edduo ao objeto, num di\u00e1logo direto que \u00e9 o esfor\u00e7o t\u00e9cnico: o objeto t\u00e9cnico assim elaborado define uma certa cristaliza\u00e7\u00e3o do gesto humano criador e o perpetua no ser; o esfor\u00e7o t\u00e9cnico n\u00e3o est\u00e1 submetido ao mesmo regime temporal que o trabalho; o trabalho se esgota em seu pr\u00f3prio cumprimento, e o ser que trabalha aliena-se em sua obra, ele toma mais e mais dist\u00e2ncia relativamente a si mesmo; ao contr\u00e1rio, o ser t\u00e9cnico realiza a convoca\u00e7\u00e3o de uma disponibilidade que permanece sempre presente; o esfor\u00e7o alastrado no tempo, ao inv\u00e9s de se dissipar, constr\u00f3i discursivamente um ser coerente que exprime a a\u00e7\u00e3o ou a sequ\u00eancia de a\u00e7\u00f5es que o constituiu, e as conserva sempre presentes: o ser t\u00e9cnico medeia o esfor\u00e7o humano e lhe confere uma autonomia que a comunidade n\u00e3o confere ao trabalho. (Simondon 2020:520)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>SER T\u00c9CNICO (particip\u00e1vel, fecundidade inesgot\u00e1vel, ser de informa\u00e7\u00e3o) num EL\u00c3 DE COMUNICA\u00c7\u00c3O UNIVERSAL<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O ser t\u00e9cnico \u00e9 particip\u00e1vel; como sua natureza n\u00e3o reside apenas em sua atualidade, mas tamb\u00e9m na informa\u00e7\u00e3o que ele fixa e que o constitui, ele pode ser reproduzido sem perder essa informa\u00e7\u00e3o; ent\u00e3o, ele \u00e9 de uma fecundidade inesgot\u00e1vel enquanto ser de informa\u00e7\u00e3o; est\u00e1 aberto a todo gesto humano para utiliz\u00e1-lo ou recri\u00e1-lo, e se insere num el\u00e3 de comunica\u00e7\u00e3o universal. (Simondon 2020:520)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>TOMADA DE CONSCI\u00caNCIA NA ATIVIDADE CONSTRUTIVA e NA NORMA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>a atividade construtiva d\u00e1 ao homem a imagem real de seu ato, pois o que atualmente \u00e9 objeto da constru\u00e7\u00e3o dev\u00e9m meio [&#8230;] de uma constru\u00e7\u00e3o ulterior, gra\u00e7as a uma media\u00e7\u00e3o permanente; \u00e9 esse regime cont\u00ednuo e aberto do tempo do esfor\u00e7o t\u00e9cnico que permite ao indiv\u00edduo ter a consci\u00eancia reativa de sua pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o, e dele mesmo ser sua pr\u00f3pria norma. (Simondon 2020:520)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>NORMATIVIDADE T\u00c9CNICA (inerente, intr\u00ednseca, coerente, absoluta) como MOTOR EVOLUTIVO (transforma\u00e7\u00f5es, reestrutura\u00e7\u00f5es)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Com efeito, as normas t\u00e9cnicas s\u00e3o inteiramente acess\u00edveis ao indiv\u00edduo sem que ele deva recorrer a uma normatividade social. O objeto t\u00e9cnico \u00e9 v\u00e1lido ou n\u00e3o v\u00e1lido segundo seus car\u00e1teres internos que traduzem o esquematismo inerente ao esfor\u00e7o pelo qual ele foi constitu\u00eddo. Uma normatividade intr\u00ednseca dos atos do sujeito, que exige sua coer\u00eancia interna, define-se a partir da opera\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica inventiva. Essas normas jamais bastam para produzir a inven\u00e7\u00e3o, mas sua iman\u00eancia ao sujeito condiciona a validez de seu esfor\u00e7o. A \u00fanica maneira do t\u00e9cnico agir \u00e9 livremente, pois a normatividade t\u00e9cnica \u00e9 intr\u00ednseca relativamente ao gesto que a constitui; ela n\u00e3o \u00e9 exterior \u00e0 a\u00e7\u00e3o ou anterior a ela; mas tampouco a a\u00e7\u00e3o \u00e9 an\u00f4mica, pois ela s\u00f3 \u00e9 fecunda se for coerente, e essa coer\u00eancia \u00e9 sua normatividade. Ela \u00e9 v\u00e1lida enquanto existe verdadeiramente em si mesma, e n\u00e3o na comunidade. A ado\u00e7\u00e3o ou a recusa de um objeto t\u00e9cnico por uma sociedade nada significa a favor ou contra a validez desse objeto; a normatividade t\u00e9cnica \u00e9 intr\u00ednseca e absoluta; pode-se at\u00e9 notar que \u00e9 pela t\u00e9cnica que a penetra\u00e7\u00e3o de uma nova normatividade, numa comunidade fechada, \u00e9 possibilitada. A normatividade t\u00e9cnica modifica o c\u00f3digo dos valores de uma sociedade fechada, porque existe uma sistem\u00e1tica dos valores, e toda sociedade fechada que, admitindo uma nova t\u00e9cnica, introduz os valores inerentes a essa t\u00e9cnica est\u00e1, por isso mesmo, operando uma nova estrutura\u00e7\u00e3o de seu c\u00f3digo dos valores. Como n\u00e3o h\u00e1 comunidade que n\u00e3o utilize t\u00e9cnica alguma ou que jamais introduza t\u00e9cnicas novas, n\u00e3o existe comunidade totalmente fechada e inevolutiva. (Simondon 2020:521)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>GRUPO SOCIAL = COMUNIDADE (c\u00f3digo de obriga\u00e7\u00f5es sociais extrinsecas, trabalho) + SOCIEDADE (uma interioridade, valor intr\u00ednseco)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Todo grupo social \u00e9 um misto de comunidade e de sociedade, definindo enquanto comunidade um c\u00f3digo de obriga\u00e7\u00f5es extr\u00ednsecas relativamente aos indiv\u00edduos e, enquanto sociedade, uma interioridade relativamente aos indiv\u00edduos. O esfor\u00e7o comunit\u00e1rio e o esfor\u00e7o t\u00e9cnico s\u00e3o antagonistas numa sociedade determinada; as for\u00e7as comunit\u00e1rias tendem a incorporar as t\u00e9cnicas num sistema de obriga\u00e7\u00f5es sociais, assimilando o esfor\u00e7o t\u00e9cnico a um trabalho; mas o esfor\u00e7o t\u00e9cnico obriga a comunidade a sempre retificar sua estrutura para incorporar cria\u00e7\u00f5es sempre novas, e ele submete a julgamento, segundo seus pr\u00f3prios valores, a estrutura da comunidade, analisando seus car\u00e1teres din\u00e2micos que essa estrutura predetermina. (Simondon 2020:520-1)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>REALIDADE COLETIVA = COMUNIT\u00c1RIA (social como obriga\u00e7\u00e3o) + SOCIAL (indiv\u00edduo puro, t\u00e9cnicas em sua g\u00eanese)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O tecnicismo positivista \u00e9 um exemplo muito n\u00edtido da maneira pela qual semelhante pensamento introduz valores novos na comunidade. Uma sociologia que, acreditando apreender a realidade humana em sua especificidade, elimina a considera\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo puro e, consequentemente, das t\u00e9cnicas em sua g\u00eanese, define o social pela obriga\u00e7\u00e3o, mas deixa de lado uma parte importante da realidade social, parte que pode devir preponderante em certos casos. A realidade coletiva \u00e9 indissociavelmente comunit\u00e1ria e social, mas esses dois car\u00e1teres s\u00e3o antagonistas, e a sociologia monista n\u00e3o pode dar conta desse antagonismo. (Simondon 2020:521-2)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>RELA\u00c7\u00c3O TRANSINDIVIDUAL = SOCIEDADE DOS INDIV\u00cdDUOS (de indiv\u00edduo a indiv\u00edduo, rela\u00e7\u00e3o imediata, exist\u00eancia social, dinamismo) SEM TOTALIZA\u00c7\u00c3O (integra\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, mitologia coletiva) = HUMANISMO:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>h\u00e1 na inven\u00e7\u00e3o algo que est\u00e1 para al\u00e9m da comunidade e institui uma rela\u00e7\u00e3o transindividual, indo de indiv\u00edduo a indiv\u00edduo sem passar pela integra\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria garantida por uma mitologia coletiva. A rela\u00e7\u00e3o imediata entre os indiv\u00edduos define uma exist\u00eancia social no sentido pr\u00f3prio do termo, enquanto a rela\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria n\u00e3o faz os indiv\u00edduos se comunicarem diretamente uns com os outros, mas constitui uma totalidade pelo interm\u00e9dio da qual eles se comunicam indiretamente e sem consci\u00eancia precisa de sua individualidade. Uma teoria da comunidade deixa escapar o dinamismo da sociedade dos indiv\u00edduos; a sociologia, para ser completa, deve integrar um estudo das t\u00e9cnicas. O humanismo deve igualmente, como o humanismo dos Sofistas, integrar um estudo das t\u00e9cnicas. (Simondon 2020:522)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A OBRA DO INDIV\u00cdDUO IRRADIA COMO T\u00c9CNICA OU COMO VALORES<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>h\u00e1 uma irradia\u00e7\u00e3o dos valores em torno de uma conduta, e uma conduta n\u00e3o est\u00e1 isolada na soma das a\u00e7\u00f5es do indiv\u00edduo, tampouco um indiv\u00edduo est\u00e1 isolado no meio social em que existe; \u00e9 da natureza mesma do indiv\u00edduo comunicar, fazer irradiar em torno de si a informa\u00e7\u00e3o que propaga o que ele cria; \u00e9 isso que \u00e9 possibilitado pela inven\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, que \u00e9 ilimitada no espa\u00e7o e no tempo; ela se propaga sem enfraquecer-se, mesmo quando se associa a um outro elemento, ou se integra a um todo mais complexo; a obra do indiv\u00edduo, com efeito, pode se propagar de duas maneiras para al\u00e9m do pr\u00f3prio indiv\u00edduo: como obra t\u00e9cnica propriamente dita ou como consequ\u00eancia dessa obra sob a forma de uma modifica\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es coletivas de exist\u00eancia, que implicam exig\u00eancias e valores. (Simondon 2020:523)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CRIA\u00c7\u00c3O DA FUN\u00c7\u00c3O (inven\u00e7\u00e3o individual) => INSER\u00c7\u00c3O NA COMUNIDADE<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Assim, a inven\u00e7\u00e3o de um meio [&#8230;] r\u00e1pido de comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 aniquilada pela descoberta de um meio [&#8230;] mais r\u00e1pido; mesmo que os procedimentos t\u00e9cnicos sejam totalmente transformados, subsiste uma continuidade din\u00e2mica que consiste em que a introdu\u00e7\u00e3o na comunidade do primeiro modo de transporte desenvolveu uma exig\u00eancia de rapidez que serve para promover com for\u00e7a o segundo modo: o primeiro criou a fun\u00e7\u00e3o e a inseriu no conjunto dos dinamismos da comunidade. (Simondon 2020:523)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CRIA\u00c7\u00c3O DA FUN\u00c7\u00c3O (que torna poss\u00edvel outros dispositivos) => CIVILIZA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Em certa medida, todo dispositivo t\u00e9cnico modifica a comunidade e institui uma fun\u00e7\u00e3o que torna poss\u00edvel o advento de outros dispositivos t\u00e9cnicos; ele se insere, portanto, numa continuidade que n\u00e3o exclui a mudan\u00e7a, mas a estimula, porque as exig\u00eancias est\u00e3o sempre \u00e0 frente das realiza\u00e7\u00f5es. Por isso, o ser t\u00e9cnico se converte em civiliza\u00e7\u00e3o; (Simondon 2020:523)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A SOCIEDADE DOS INDIV\u00cdDUOS CRIADORES DE SERES T\u00c9CNICOS (germes de pensamento abrigando normatividade)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>um ser t\u00e9cnico, mesmo pouco integrado na comunidade, vale como objeto a ser compreendido; ele exige um tipo de percep\u00e7\u00e3o e de conceitualiza\u00e7\u00e3o que visa a compreender o ser t\u00e9cnico recriando-o; o ser t\u00e9cnico existe, portanto, como um germe de pensamento, abrigando uma normatividade que se estende bem al\u00e9m de si mesmo. O ser t\u00e9cnico constitui ent\u00e3o, nessa segunda maneira, uma via que transmite de indiv\u00edduo a indiv\u00edduo uma certa capacidade de cria\u00e7\u00e3o, como se existisse um dinamismo comum a todas as buscas e uma sociedade dos indiv\u00edduos criadores de seres t\u00e9cnicos. (Simondon 2020:523)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CIVILIZA\u00c7\u00c3O-PROGRESSO = COMPATIBILIDADE-SINERGIA ENTRE COMUNIDADE e SOCIEDADE<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9, ent\u00e3o, o conjunto dos dinamismos da comunidade e dos dinamismos das diferentes sociedades que encontram no mundo dos seres t\u00e9cnicos uma condi\u00e7\u00e3o de compatibilidade. Mesmo que a no\u00e7\u00e3o de progresso n\u00e3o possa ser aceita diretamente e deva ser elaborada por um trabalho reflexivo, certamente \u00e9 essa compatibilidade da comunidade e das sociedades que encontra um sentido na no\u00e7\u00e3o de desenvolvimento progressivo. O progresso \u00e9 o car\u00e1ter do desenvolvimento que integra num todo o sentido das sucessivas descobertas descont\u00ednuas e da unidade est\u00e1vel de uma comunidade. \u00c9 pelo interm\u00e9dio do progresso t\u00e9cnico que comunidade e sociedade podem ser sin\u00e9rgicas. (Simondon 2020:523-4)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O SER T\u00c9CNICO (realidade em expans\u00e3o, dupla solidariedade, resson\u00e2ncia interna, microcosmo) \u00e9 O CORRELATIVO DA AUTOCRIA\u00c7\u00c3O DO INDIV\u00cdDUO (transindividual, liberdade)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Enfim, a consist\u00eancia pr\u00f3pria do ser t\u00e9cnico se constitui como uma realidade em expans\u00e3o na continuidade temporal do universo t\u00e9cnico, onde uma dupla solidariedade, simult\u00e2nea e sucessiva, liga os seres t\u00e9cnicos uns aos outros por um condicionamento m\u00fatuo; poder-se-ia falar de uma resson\u00e2ncia interna do universo t\u00e9cnico, na qual cada ser t\u00e9cnico interv\u00e9m efetivamente como condi\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia real dos outros seres t\u00e9cnicos; assim, cada ser t\u00e9cnico \u00e9 como um microcosmo que abriga, em suas condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia mon\u00e1dica, um n\u00famero enorme de outros seres t\u00e9cnicos v\u00e1lidos; uma causalidade circular cria uma reciprocidade das condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia que d\u00e1 ao universo t\u00e9cnico sua consist\u00eancia e sua unidade; essa unidade atual prolonga-se por uma unidade sucessiva que torna a humanidade compar\u00e1vel a este homem de que fala Pascal, que sempre aprenderia sem jamais esquecer. O valor do di\u00e1logo do indiv\u00edduo com o objeto t\u00e9cnico \u00e9, ent\u00e3o, o de conservar o esfor\u00e7o humano e de criar um dom\u00ednio do transindividual distinto da comunidade, no qual a no\u00e7\u00e3o de liberdade ganha um sentido, e que transforma a no\u00e7\u00e3o de destino individual, mas n\u00e3o a aniquila. O car\u00e1ter fundamental do ser t\u00e9cnico \u00e9 integrar o tempo a uma exist\u00eancia concreta e consistente; nisso ele \u00e9 o correlativo da autocria\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo. (Simondon 2020:524)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>OBJETO EST\u00c9TICO (prec\u00e1rio) como PRECURSOR DO OBJETO T\u00c9CNICO como GERME DE CIVILIZA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Sem d\u00favida, esse aspecto do objeto t\u00e9cnico n\u00e3o era totalmente desconhecido; uma forma particular do objeto t\u00e9cnico como germe de civiliza\u00e7\u00e3o foi reconhecida e reverenciada h\u00e1 muito tempo: o objeto est\u00e9tico artificial, ou ainda objeto de arte. [\u2026] No entanto, o estatuto de exist\u00eancia do objeto est\u00e9tico \u00e9 prec\u00e1rio ele se reinsere na vida da comunidade de maneira obl\u00edqua, e s\u00f3 \u00e9 aceito se corresponde a um dos dinamismos vitais j\u00e1 existentes. (Simondon 2020:524-5) <\/p><\/blockquote>\n<p><strong>OBJETO SURREAL (est\u00e1vel, auto-organizado como um aut\u00f4mato, independente, indiferente, consistente e voltado a si mesmo)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O surrealismo foi a \u00faltima tentativa para salvar a arte pura; esse esfor\u00e7o tem um nobil\u00edssimo sentido; n\u00e3o nos compete dizer se o surrealismo foi paralisado por seu pr\u00f3prio esfor\u00e7o e, apesar dele, terminou num esteticismo; mas gostar\u00edamos de notar que as vias liberadoras do surrealismo conduzem \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de um objeto est\u00e1vel, auto-organizado como um aut\u00f4mato, independente de seu criador e indiferente \u00e0quele que o encontra. O surrealismo est\u00e1 na maneira, hiperfuncional por assim dizer, de construir o objeto; esse objeto n\u00e3o \u00e9 \u00fatil nem agrad\u00e1vel; ele \u00e9 consistente e voltado a si mesmo, absurdo por n\u00e3o ser submetido \u00e0 obriga\u00e7\u00e3o de significar numa outra realidade que n\u00e3o a sua. (Simondon 2020:525)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>OBJETO T\u00c9CNICO \u00e9 SURREAL quando APREENDIDO PELO INDIV\u00cdDUO PURO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Ele \u00e9 dotado de resson\u00e2ncia interna, sens\u00edvel at\u00e9 na forma po\u00e9tica ou na pintura. O objeto surrealista \u00e9 uma m\u00e1quina absoluta. Nenhuma fun\u00e7\u00e3o, nem mesmo a d[o] [&#8230;] [encanto], lhe \u00e9 essencial. Para que o acaso o produza, \u00e9 preciso um encontro que quebre a finalidade natural de um conjunto e fa\u00e7a aparecer um ser destacado de sua fun\u00e7\u00e3o e, consequentemente, absoluto, &#8220;ins\u00f3lito&#8221;. O objeto surrealista tende para um surreal positivo, e uma das vias desse surreal \u00e9 a do ser t\u00e9cnico, ins\u00f3lito pelo fato de que ele \u00e9 novo e est\u00e1 para al\u00e9m do \u00fatil. O ser t\u00e9cnico reproduzido e divulgado pela ind\u00fastria perde seu valor surreal na medida em que a anestesia do uso cotidiano retira a percep\u00e7\u00e3o dos car\u00e1teres singulares do objeto. Visto como utens\u00edlio, o ser t\u00e9cnico n\u00e3o tem mais sentido para o indiv\u00edduo. A comunidade se apropria dele, normaliza-o e lhe d\u00e1 um valor de uso que \u00e9 estranho \u00e0 sua ess\u00eancia din\u00e2mica pr\u00f3pria. Mas todo objeto t\u00e9cnico pode ser reencontrado pelo indiv\u00edduo cujo &#8220;gosto t\u00e9cnico&#8221; e cuja &#8220;cultura t\u00e9cnica&#8221; s\u00e3o suficientemente desenvolvidos. Assim, o objeto t\u00e9cnico \u00e9 um surreal, mas ele s\u00f3 pode ser sentido como tal caso seja apreendido pelo indiv\u00edduo puro, por um homem capaz de ser criador, e n\u00e3o por um utilizador que trata o objeto t\u00e9cnico enquanto mercen\u00e1rio ou escravo. (Simondon 2020:525-6)<\/p><\/blockquote>\n<\/ul>\n<h2>3 \u2013 A individua\u00e7\u00e3o dos produtos do esfor\u00e7o humano<\/h2>\n<p> [526]: O objeto-indiv\u00edduo t\u00e9cnico \u00e9 o an\u00e1logo do indiv\u00edduo-sujeito humano, mas difere dele pois \u00e9 aut\u00f4mato e s\u00f3 recebe informa\u00e7\u00f5es compat\u00edveis com sua estrutura, enquanto o ser humano recebe informa\u00e7\u00f5es incompat\u00edveis que exigem reestrutura\u00e7\u00e3o. Civiliza\u00e7\u00e3o depende de automatismo comunit\u00e1rio e dinamismos sociais.<\/p>\n<ul>\n<strong>ANALOGIA HUMANO-T\u00c9CNICA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Ora, se o nexo do objeto ao homem apresenta, nesse caso, os car\u00e1teres de uma rela\u00e7\u00e3o, deve-se encontrar no objeto t\u00e9cnico uma estrutura e um dinamismo humano anal\u00f3gicos. (Simondon 2020:526)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>OBJETO T\u00c9CNICO (an\u00e1logo ao organismo individual; escravo como modelo) N\u00c3O \u00c9 FERRAMENTA (extens\u00e3o de um \u00f3rg\u00e3o)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>a ferramenta, como Piaget notavelmente mostrou a partir de considera\u00e7\u00f5es arqueol\u00f3gicas e etnogr\u00e1ficas, \u00e9 destitu\u00edda de individualidade pr\u00f3pria porque ela \u00e9 enxertada sobre um membro de um outro organismo individualizado que ela tem por fun\u00e7\u00e3o prolongar, refor\u00e7ar, proteger, mas n\u00e3o substituir. Uma luneta de aproxima\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um ser t\u00e9cnico dotado de individualidade pr\u00f3pria, porque ela sup\u00f5e o olho e s\u00f3 tem sentido din\u00e2mico em frente a um olho: seu dinamismo est\u00e1 inacabado; ela \u00e9 feita para ser manipulada e regulada pelo indiv\u00edduo que v\u00ea ou pelo fot\u00f3grafo, que s\u00e3o homens. Uma pin\u00e7a \u00e9 o prolongamento delicado e duro das unhas humanas ou das m\u00e3os humanas. Um martelo \u00e9 um punho insens\u00edvel e endurecido. A evolu\u00e7\u00e3o das formas do martelo de porta mostra que no in\u00edcio ele era concebido como uma m\u00e3o segurando uma bola de bronze, o pulso sendo substitu\u00eddo por um piv\u00f4 fixado \u00e0 porta. Em sua origem, a chave grega era um bra\u00e7o adelga\u00e7ado, terminado por um gancho, que se introduzia numa fenda estreita da porta, pela qual se podia pegar o fecho interior. [\u2026] Inversamente, os motores, ao inv\u00e9s de serem prolongamentos do indiv\u00edduo humano, s\u00e3o seres que aportam do exterior uma energia dispon\u00edvel segundo a necessidade do indiv\u00edduo; eles s\u00e3o dotados de exterioridade relativamente \u00e0 estrutura e \u00e0 din\u00e2mica do indiv\u00edduo. Por isso aparecem desde a origem como que dotados de individualidade; o escravo \u00e9 o primeiro modelo de qualquer motor; ele \u00e9 um ser que abriga em si mesmo sua completa organiza\u00e7\u00e3o, sua autonomia org\u00e2nica, mesmo quando sua a\u00e7\u00e3o \u00e9 submetida a uma domina\u00e7\u00e3o acidental; o animal domesticado tamb\u00e9m \u00e9 um organismo. [\u2026] A revolta dos animais e dos escravos, apesar dos golpes e da forca patibular, mostra que os motores org\u00e2nicos t\u00eam uma autonomia, uma natureza que ao menos pode manifestar sua autonomia pelo furor destrutivo, para al\u00e9m de toda estimativa dos perigos ou das chances. Apesar da c\u00e9lebre defini\u00e7\u00e3o, um escravo jamais \u00e9 completamente uma ferramenta que fala: a ferramenta n\u00e3o tem individualidade. (Simondon 2020:526-7)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>FERRAMENTA (extens\u00e3o do \u00f3rg\u00e3o) < SER T\u00c9CNICO (an\u00e1logo funcional do indiv\u00edduo) < ESCRAVO (organismo individual vivo)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Ora, o ser t\u00e9cnico \u00e9 mais que ferramenta e menos que escravo; ele possui uma autonomia, mas uma autonomia relativa, limitada, sem verdadeira exterioridade relativamente ao homem que o constr\u00f3i. O ser t\u00e9cnico n\u00e3o tem natureza; ele pode ser um an\u00e1logo funcional do indiv\u00edduo, mas jamais um verdadeiro indiv\u00edduo org\u00e2nico.  (Simondon 2020:528)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>M\u00c1QUINA (n\u00e3o se revolta, apenas se desregula-enlouquece) N\u00c3O \u00c9 EXTERIOR AO HUMANO (pode enlouquecer, mas tamb\u00e9m se revoltar) POIS N\u00c3O TEM INTERIORIDADE PR\u00d3PRIA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Suponhamos que uma m\u00e1quina seja dotada, por seus construtores, dos mais perfeitos mecanismos teleol\u00f3gicos, e que ela seja capaz de efetuar os mais perfeitos trabalhos, os mais r\u00e1pidos; essa m\u00e1quina, funcionalmente equivalente a milhares de homens, n\u00e3o ser\u00e1, no entanto, um verdadeiro indiv\u00edduo; a melhor m\u00e1quina de calcular n\u00e3o tem o mesmo grau de realidade que um escravo ignorante, porque o escravo pode revoltar-se, e a m\u00e1quina n\u00e3o; a m\u00e1quina, relativamente ao homem, n\u00e3o pode ter verdadeira exterioridade, pois n\u00e3o tem, em si mesma, verdadeira interioridade. A m\u00e1quina pode desregrar-se e ent\u00e3o apresentar as caracter\u00edsticas de funcionamento an\u00e1logas \u00e0 conduta louca num ser vivo. Mas ela n\u00e3o pode se revoltar. A revolta implica, com efeito, uma profunda transforma\u00e7\u00e3o das <em>condutas finalizadas<\/em>, e <em>n\u00e3o um desregramento da conduta<\/em>. (Simondon 2020:528)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A M\u00c1QUINA SE ADAPTA (\u00e9 adestrada, mecanismo teleol\u00f3gico, determinismo convergente), O HUMANO SE CONVERTE (aprende, muda seus fins, determinismo divergente)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A m\u00e1quina \u00e9 suscet\u00edvel de condutas autoadaptativas; por\u00e9m, entre uma conduta autoadaptativa e uma convers\u00e3o, subsiste uma diferen\u00e7a que nenhuma semelhan\u00e7a exterior pode mascarar: o homem \u00e9 capaz de convers\u00e3o, no sentido em que ele pode mudar de <em>fins<\/em> no curso de sua exist\u00eancia; a individualidade est\u00e1 para al\u00e9m do mecanismo teleol\u00f3gico, j\u00e1 que ela pode modificar a orienta\u00e7\u00e3o dessa finalidade. Ao contr\u00e1rio, a m\u00e1quina \u00e9 tanto mais perfeita quanto mais o seu automatismo lhe permite, segundo sua finalidade predeterminada, regular-se a si mesma. Mas a m\u00e1quina n\u00e3o \u00e9 autocriadora. Mesmo supondo-se que, em curso de funcionamento, a m\u00e1quina regula seus pr\u00f3prios mecanismos teleol\u00f3gicos, apenas obt\u00e9m-se uma m\u00e1quina que, por meio dessa teleologia agindo sobre uma teleologia, \u00e9 capaz de integrar, a t\u00edtulo de dados, os resultados das etapas precedentes do funcionamento; \u00e9 uma m\u00e1quina que <em>reduz<\/em> mais e mais a margem de indetermina\u00e7\u00e3o de seu funcionamento segundo os dados do meio, e conforme um determinismo convergente. Essa m\u00e1quina, consequentemente, se adapta. Mas a adapta\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel segundo dois processos opostos: aquele que acabamos de evocar \u00e9 o adestramento, que chega a uma conduta cada vez mais estereotipada e a uma liga\u00e7\u00e3o cada vez mais estreita com um meio determinado. A segunda forma de adapta\u00e7\u00e3o \u00e9 a aprendizagem, que, ao contr\u00e1rio, aumenta a disponibilidade do ser relativamente aos diferentes meios nos quais ele se encontra, desenvolvendo a riqueza do sistema de s\u00edmbolos e de dinamismos que integram a experi\u00eancia passada segundo um determinismo divergente. Neste segundo caso, aumenta a quantidade de informa\u00e7\u00e3o que caracteriza a estrutura e a reserva de esquemas contidos no ser; os sucessivos saltos bruscos, que podem ser nomeados de <em>convers\u00f5es<\/em>, marcam os momentos em que, tendo a quantidade de informa\u00e7\u00f5es n\u00e3o integradas devindo muito grande, o ser unifica-se mudando de estrutura interna para adotar uma nova estrutura que integra a informa\u00e7\u00e3o acumulada. (Simondon 2020:528-9)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>M\u00c1QUINA-AUT\u00d4MATO (estrutura determina informa\u00e7\u00e3o incidente) =\/= INDIV\u00cdDUO-HUMANO (informa\u00e7\u00e3o pode exigir reestrutura\u00e7\u00e3o)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Esse car\u00e1ter de descontinuidade, essa <em>exist\u00eancia de limiares<\/em>, n\u00e3o se manifesta no aut\u00f4mato, porque o aut\u00f4mato n\u00e3o muda de estrutura; ele n\u00e3o incorpora \u00e0 sua estrutura a informa\u00e7\u00e3o que adquire; jamais h\u00e1 incompatibilidade entre a estrutura que ele possui e a informa\u00e7\u00e3o que ele adquire, porque sua estrutura determina de antem\u00e3o qual tipo de informa\u00e7\u00e3o ele pode adquirir; ent\u00e3o, jamais h\u00e1 para o aut\u00f4mato um verdadeiro problema de integra\u00e7\u00e3o, mas somente uma quest\u00e3o de colocar em reserva uma informa\u00e7\u00e3o por defini\u00e7\u00e3o integr\u00e1vel, j\u00e1 que ela \u00e9 homog\u00eanea relativamente \u00e0 estrutura da m\u00e1quina que a adquiriu. O indiv\u00edduo, ao contr\u00e1rio, possui uma faculdade aberta de adquirir informa\u00e7\u00e3o, mesmo que essa informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o seja homog\u00eanea relativamente \u00e0 sua estrutura atual; no indiv\u00edduo, portanto, subsiste certa margem entre a estrutura atual e as informa\u00e7\u00f5es adquiridas que, sendo heterog\u00eaneas relativamente \u00e0 estrutura, necessitam de refundi\u00e7\u00f5es sucessivas do ser, e o poder de questionar a si mesmo. Essa capacidade de ser si mesmo um dos termos do problema que se tem de resolver n\u00e3o existe para a m\u00e1quina. (Simondon 2020:529)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>OS PROBLEMAS DA M\u00c1QUINA T\u00caM TERMOS HOMOG\u00caNEOS (objetos); OS PROBLEMAS DO HUMANO T\u00caM TERMOS HETEROG\u00caNEOS (sujeito e objeto)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A m\u00e1quina tem quest\u00f5es a resolver, n\u00e3o problemas, pois os termos da dificuldade que a m\u00e1quina tem de resolver s\u00e3o homog\u00eaneos; ao contr\u00e1rio, o indiv\u00edduo tem de resolver uma dificuldade que n\u00e3o est\u00e1 expressa em termos de informa\u00e7\u00e3o homog\u00eanea, mas que compreende um termo objeto e um termo sujeito. \u00c9 por essa raz\u00e3o que o mecanismo teleol\u00f3gico dos seres t\u00e9cnicos \u00e9 universalmente constitu\u00eddo por uma causalidade circular: o sinal da diferen\u00e7a entre o escopo perseguido e o resultado efetivamente atingido \u00e9 reportado aos \u00f3rg\u00e3os de comando da m\u00e1quina de maneira a comandar um funcionamento que diminui a dist\u00e2ncia que causou o sinal. Essa causalidade reativa adapta a m\u00e1quina; mas, no caso do indiv\u00edduo, o sinal n\u00e3o \u00e9 aquele de uma dist\u00e2ncia entre um resultado efetivo e um resultado visado: \u00e9 aquele de uma dissimetria entre duas finalidades, uma realizada sob forma de estrutura, outra imanente a um conjunto de informa\u00e7\u00f5es ainda enigm\u00e1ticas e, no entanto, valorizadas. (Simondon 2020:529-30)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>SISTEMA VIRTUAL ESTRUTURAxINFORMA\u00c7\u00c3O NO INDIV\u00cdDUO (autocria\u00e7\u00e3o descont\u00ednua)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A clareza e a compatibilidade s\u00f3 aparecem no sistema virtual se o problema for resolvido gra\u00e7as a uma mudan\u00e7a de estrutura do sujeito individual, segundo uma a\u00e7\u00e3o que cria uma verdadeira rela\u00e7\u00e3o entre o indiv\u00edduo anteriormente estruturado e sua nova carga de informa\u00e7\u00e3o. A no\u00e7\u00e3o de adapta\u00e7\u00e3o permanece insuficiente para dar conta da realidade do indiv\u00edduo; trata-se, de fato, de uma autocria\u00e7\u00e3o por saltos bruscos que reformam a estrutura do indiv\u00edduo. (Simondon 2020:530)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O INDIV\u00cdDUO como SER DINAMICAMENTE ILIMITADO (se transmuta em fun\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o incidente valorizada e incompat\u00edvel com sua estrutura atual)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O indiv\u00edduo n\u00e3o encontra em seu meio apenas elementos de exterioridade aos quais deve adaptar-se como uma m\u00e1quina autom\u00e1tica; ele encontra tamb\u00e9m uma informa\u00e7\u00e3o valorizada que questiona a orienta\u00e7\u00e3o de seus pr\u00f3prios mecanismos teleol\u00f3gicos; ele a integra por transmuta\u00e7\u00e3o de si mesmo, o que o define como ser dinamicamente ilimitado. (Simondon 2020:530)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>AUT\u00d4MATO-M\u00c1QUINA (solu\u00e7\u00f5es por adequa\u00e7\u00e3o meios-fins; dinamismo convergente; c\u00e1lculo; axiom\u00e1tica fixa durante toda a opera\u00e7\u00e3o; cont\u00ednuo) =\/= INDIV\u00cdDUO-HUMANO (solu\u00e7\u00f5es por ultrapassamento; dinamismo divergente; opera\u00e7\u00e3o reage sobre a axiom\u00e1tica; descont\u00ednuo)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A problem\u00e1tica individual est\u00e1 para al\u00e9m do nexo entre o ser e seu meio; essa problem\u00e1tica, com efeito, exige solu\u00e7\u00f5es por ultrapassamento, e n\u00e3o por redu\u00e7\u00e3o de uma dist\u00e2ncia entre um resultado e um escopo. A problem\u00e1tica individual s\u00f3 pode se resolver por constru\u00e7\u00f5es, aumento de informa\u00e7\u00e3o segundo um determinismo divergente, e n\u00e3o por um c\u00e1lculo. Todas as m\u00e1quinas s\u00e3o como m\u00e1quinas de calcular. Sua axiom\u00e1tica \u00e9 fixa durante toda a dura\u00e7\u00e3o de uma opera\u00e7\u00e3o, e o cumprimento da opera\u00e7\u00e3o n\u00e3o reage sobre a axiom\u00e1tica. Ao contr\u00e1rio, o indiv\u00edduo \u00e9 um ser no qual o cumprimento da opera\u00e7\u00e3o reage sobre a axiom\u00e1tica, por crises intensas que s\u00e3o uma refund[a]\u00e7\u00e3o do ser. A continuidade do funcionamento da m\u00e1quina op\u00f5e-se \u00e0 continuidade entrecortada de descontinuidades que caracteriza a vida do indiv\u00edduo. [\u2026] Por essa raz\u00e3o, a reflex\u00e3o deve recusar a identifica\u00e7\u00e3o entre o aut\u00f4mato e o indiv\u00edduo.  (Simondon 2020:530)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>AUT\u00d4MATO-M\u00c1QUINA (equivalente funcional da vida-homeostase-comunit\u00e1rio) x INDIV\u00cdDUO-HUMANO (capaz de questionar a si mesmo, sociedade-transindividual como agrupamento sin\u00e9rgico de indiv\u00edduos); CIVILIZA\u00c7\u00c3O = COMUNIDADE (automatismo) + SOCIEDADE (dinamismo)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O aut\u00f4mato pode ser o equivalente funcional da <em>vida<\/em>, pois a vida comporta fun\u00e7\u00f5es de automatismo, de autorregula\u00e7\u00e3o, de homeostasia, mas o aut\u00f4mato n\u00e3o \u00e9 jamais o equivalente funcional do <em>indiv\u00edduo<\/em>. O aut\u00f4mato \u00e9 comunit\u00e1rio, e n\u00e3o individualizado como um ser vivo capaz de questionar a si mesmo. Uma comunidade pura se conduziria como um aut\u00f4mato; ela elabora um c\u00f3digo de valores destinados a impedir as mudan\u00e7as de estrutura e a evitar a coloca\u00e7\u00e3o de problemas. As sociedades, ao contr\u00e1rio, que s\u00e3o agrupamentos sin\u00e9rgicos de indiv\u00edduos, t\u00eam por sentido procurar resolver problemas. Elas questionam sua pr\u00f3pria exist\u00eancia, enquanto as comunidades procuram perseverar em seu ser. Norbert Wiener analisou a maneira pela qual os poderes de rigidez de uma comunidade asseguram sua homeostasia. A comunidade tende a automatizar os indiv\u00edduos que a comp\u00f5em, dando-lhes uma significa\u00e7\u00e3o funcional pura. A\u00ed, ent\u00e3o, a capacidade que possui o indiv\u00edduo de se questionar \u00e9 perigosa para a estabilidade da comunidade; nada garante, com efeito, o sincronismo das transforma\u00e7\u00f5es individuais, e a rela\u00e7\u00e3o interindividual pode ser rompida por uma iniciativa individual pura.\u00b7Outrossim, como um coeficiente formal superior que condiciona o valor funcional de um indiv\u00edduo na comunidade, a <em>estabilidade afetiva<\/em> dev\u00e9m o crit\u00e9rio fundamental que permite a permanente integra\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo ao grupo; essa garantia de continuidade \u00e9 tamb\u00e9m uma garantia de automatismo social. Essa estabilidade \u00e9 o correlativo da capacidade de adapta\u00e7\u00e3o a uma comunidade. Ora, essas qualidades de adapta\u00e7\u00e3o direta por assimila\u00e7\u00e3o e de estabilidade emocional definem o aut\u00f4mato perfeito. Toda civiliza\u00e7\u00e3o tem necessidade de uma certa taxa de automatismo para garantir sua estabilidade e sua coes\u00e3o. Ela tamb\u00e9m necessita do dinamismo das sociedades, as \u00fanicas capazes de uma adapta\u00e7\u00e3o construtiva e criativa, para n\u00e3o se fechar sobre si mesma numa adapta\u00e7\u00e3o estereotipada, hipert\u00e9lica e inevolutiva. Ora, o ser humano \u00e9 um aut\u00f4mato assaz perigoso, que sempre corre o risco de inventar e de se dar novas estruturas. A m\u00e1quina \u00e9 um aut\u00f4mato superior ao indiv\u00edduo humano enquanto aut\u00f4mato, porque ela \u00e9 mais precisa em seus mecanismos teleol\u00f3gicos, e mais est\u00e1vel em suas caracter\u00edsticas. (Simondon 2020:530-1)<\/p>\n<blockquote><\/ul>\n<h2>4 \u2013 A atitude individuante na rela\u00e7\u00e3o do homem ao ser t\u00e9cnico inventado<\/h2>\n<p> [532]: Quando existe cultura t\u00e9cnica, a m\u00e1quina (como g\u00eanese) \u00e9 mediadora da rela\u00e7\u00e3o entre o humano-sujeito e o mundo-objeto, e assim \u00e9 fonte de sociedade-transindividual e valores absolutos. Sem cultura t\u00e9cnica, a m\u00e1quina (como dado) \u00e9 mediadora da rela\u00e7\u00e3o do humano-indiv\u00edduo com seu grupo-comunidade, e assim sujeita esse humano-indiv\u00edduo aos valores relativos de sua comunidade enquanto ele a serve (servid\u00e3o maqu\u00ednica). <\/p>\n<ul>\n<strong>VALORES (indiv\u00edduo-ser t\u00e9cnico)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Pode-se ent\u00e3o perguntar quais valores est\u00e3o engajados na rela\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo ao ser t\u00e9cnico. (Simondon 2020:532)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A IDENTIFICA\u00c7\u00c3O OU SIMETRIZA\u00c7\u00c3O ENTRE INDIV\u00cdDUO HUMANO E SER T\u00c9CNICO \u00c9 NOCIVA. POIS LEVA \u00c0 ESCRAVIZA\u00c7\u00c3O DA M\u00c1QUINA PELO HUMANO (comunit\u00e1rio), OU \u00c0 SUJEI\u00c7\u00c3O SOCIAL DO HUMANO FRENTE \u00c0 COMUNIDADE POR MEIO DA M\u00c1QUINA (servid\u00e3o maqu\u00ednica, normal como norma e exclus\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o at\u00edpica)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Gostar\u00edamos de mostrar que toda tentativa para constituir uma rela\u00e7\u00e3o sim\u00e9trica entre o homem e o ser t\u00e9cnico \u00e9 destrutiva tanto para os valores do indiv\u00edduo quanto para os do ser t\u00e9cnico. Pode-se tentar, com efeito, identificar a m\u00e1quina ao indiv\u00edduo, ou o indiv\u00edduo \u00e0 m\u00e1quina, de maneira igualmente destrutiva. No primeiro caso, a m\u00e1quina dev\u00e9m uma propriedade do homem, que se vangloria de sua criatura e s\u00f3 a produz para submet\u00ea-la a necessidades ou a usos de cada indiv\u00edduo, satisfeito com seus servidores mec\u00e2nicos at\u00e9 mesmo em suas fantasias mais singulares: o gosto pelo maquinismo na vida cotidiana \u00e0s vezes corresponde a um desejo desregrado de comandar dominando. O homem se conduz por entre as m\u00e1quinas como um mestre por entre os escravos, por vezes desejando saborear em sua desmesura o espet\u00e1culo de sua destrui\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica e violenta. Esse singular despotismo de civilizado manifesta uma identifica\u00e7\u00e3o poss\u00edvel do homem com seres mec\u00e2nicos. Os jogos de circo reencontram-se nas competi\u00e7\u00f5es de m\u00e1quinas, e os combates de gladiadores, nos enfrentamentos de <em>stockcars<\/em>. O cinema gosta de mostrar terr\u00edveis destrui\u00e7\u00f5es de seres mec\u00e2nicos. A vis\u00e3o das m\u00e1quinas pode ganhar um feitio \u00e9pico; o homem reencontra nisso uma certa primitividade. No entanto, precisamente essa atitude de superioridade do homem para com a m\u00e1quina corresponde sobretudo aos lazeres, \u00e0 folga do homem que a comunidade n\u00e3o mais constrange, e que encontra uma compensa\u00e7\u00e3o no despotismo f\u00e1cil sobre os objetos mec\u00e2nicos submetidos. [\u2026] A atitude inversa e complementar \u00e9 a do homem em sua fun\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria: a\u00ed ele serve a m\u00e1quina, e ele se integra a esta m\u00e1quina mais vasta que \u00e9 a comunidade, servindo sua m\u00e1quina particular segundo os valores fundamentais do c\u00f3digo do automatismo (por exemplo, a rapidez das respostas aos sinais). Por vezes, a pr\u00f3pria m\u00e1quina porta, ela mesma, os registradores que permitir\u00e3o \u00e0 comunidade julgar a conduta do homem no trabalho (caixa-preta). A rela\u00e7\u00e3o do ser individual \u00e0 comunidade, numa civiliza\u00e7\u00e3o fortemente industrializada, passa pela m\u00e1quina. Aqui a m\u00e1quina assimila o homem a si, definindo as normas comunit\u00e1rias. Ademais, uma normatividade suplementar \u00e9 oriunda da m\u00e1quina quando esta \u00faltima \u00e9 utilizada para a classifica\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos conforme suas performances ou suas aptid\u00f5es; sem d\u00favida, jamais \u00e9 a m\u00e1quina que julga, pois ela \u00e9 puro aut\u00f4mato e s\u00f3 \u00e9 utilizada para calcular. Entretanto, para poder utilizar a m\u00e1quina, \u00e9 preciso que os homens, em seu nexo \u00e0 m\u00e1quina, exprimam-se segundo sistemas de informa\u00e7\u00e3o que s\u00e3o facilmente traduz\u00edveis, com a codifica\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina, num conjunto de sinais que t\u00eam um sentido para a m\u00e1quina (isto \u00e9, que correspondem a um funcionamento determinado). Essa necessidade para a a\u00e7\u00e3o humana de ser traduz\u00edvel em linguagem de automatismo chega a uma valoriza\u00e7\u00e3o da estereotipia das condutas. Enfim, a pr\u00f3pria quantidade de informa\u00e7\u00e3o, numa rela\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduo a indiv\u00edduo, dev\u00e9m um obst\u00e1culo \u00e0 transmiss\u00e3o dessa informa\u00e7\u00e3o por uma via que utiliza o automatismo. Por exemplo, uma civiliza\u00e7\u00e3o que adapta seus meios [&#8230;] de comunica\u00e7\u00e3o a uma transmiss\u00e3o autom\u00e1tica das mensagens \u00e9 conduzida a substituir a express\u00e3o direta e particular dos sentimentos nas circunst\u00e2ncias comunit\u00e1rias j\u00e1 submetidas a usos por f\u00f3rmulas mais perfeitamente estereotipadas, inscritas em pequeno n\u00famero sobre um border\u00f4 no gabinete de partida e impressas sobre f\u00f3rmulas j\u00e1 prontas no gabinete de chegada; basta ent\u00e3o transmitir o endere\u00e7o do destinat\u00e1rio, o n\u00famero da f\u00f3rmula e o nome do remetente. Aqui, o indiv\u00edduo at\u00edpico \u00e9 paralisado em sua escolha, pois nenhuma f\u00f3rmula prevista responde exatamente ao que ele teria querido exprimir. O at\u00edpico que causa um grande disp\u00eandio de informa\u00e7\u00e3o \u00e0 comunidade \u00e9 um ser deficit\u00e1rio a partir do momento em que a informa\u00e7\u00e3o \u00e9 transmitida indiretamente de indiv\u00edduo a indiv\u00edduo pelo interm\u00e9dio de um dispositivo que utiliza o automatismo; uma voz muito grave, muito aguda ou rica em harm\u00f4nicos, \u00e9 mais deformada pela transmiss\u00e3o telef\u00f4nica ou pelo registro que uma voz cujas frequ\u00eancias m\u00e9dias se situam nas bandas telef\u00f4nicas e que n\u00e3o p\u00f5em na aparelhagem nenhum problema dif\u00edcil relativo \u00e0 transmodula\u00e7\u00e3o. A normalidade dev\u00e9m uma norma, e o car\u00e1ter m\u00e9dio, uma superioridade, numa comunidade onde os valores t\u00eam um sentido estat\u00edstico. [\u2026] Ora, essas duas atitudes inversas de estereotipia e de fantasia, de despotismo privado e de subservi\u00eancia comunit\u00e1ria relativamente ao objeto t\u00e9cnico v\u00eam do fato de que a rela\u00e7\u00e3o entre o homem e a m\u00e1quina n\u00e3o \u00e9 realmente dissim\u00e9trica. Ela \u00e9 uma dupla assimila\u00e7\u00e3o, n\u00e3o uma rela\u00e7\u00e3o anal\u00f3gica construtiva. (Simondon 2020:532-4)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>RELA\u00c7\u00c3O NOBRE ENTRE HUMANO e M\u00c1QUINA \u00e9 DUPLAMENTE GEN\u00c9TICA (a m\u00e1quina completa o humano o libertando da comunidade e o humano completa a m\u00e1quina inserindo-a numa rede de sentido e valor)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Consideremos, ao contr\u00e1rio, a rela\u00e7\u00e3o nobre entre o homem e a m\u00e1quina: ela visa a n\u00e3o degradar nem um nem outro dos dois termos. Sua ess\u00eancia reside no fato de que essa rela\u00e7\u00e3o tem valor de ser: ela tem uma fun\u00e7\u00e3o duplamente gen\u00e9tica, para com o homem e para com a m\u00e1quina, enquanto, nos dois casos precedentes, a m\u00e1quina e o homem j\u00e1 estavam inteiramente constitu\u00eddos e definidos no momento em que se encontravam. Na verdadeira rela\u00e7\u00e3o complementar, \u00e9 preciso que o homem seja um ser inacabado que a m\u00e1quina completa, e a m\u00e1quina um ser que encontra no homem sua unidade, sua finalidade e sua liga\u00e7\u00e3o ao conjunto do mundo t\u00e9cnico; homem e m\u00e1quina s\u00e3o mutuamente mediadores, porque a m\u00e1quina possui em seus car\u00e1teres a integra\u00e7\u00e3o \u00e0 espacialidade e a capacidade de salvaguardar informa\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do tempo, enquanto o homem, por suas faculdades de conhecimento e seu poder de a\u00e7\u00e3o, sabe integrar a m\u00e1quina a um universo de s\u00edmbolos que n\u00e3o \u00e9 espa\u00e7otemporal, e no qual a m\u00e1quina jamais poderia ser integrada por si mesma. Entre esses dois seres assim\u00e9tricos se estabelece uma rela\u00e7\u00e3o gra\u00e7as \u00e0 qual uma dupla participa\u00e7\u00e3o \u00e9 realizada; h\u00e1 um quiasma entre dois universos que permaneceriam separados; poder-se-ia notar que a m\u00e1quina \u00e9 oriunda do esfor\u00e7o humano e que ela consequentemente faz parte do mundo humano; mas, de fato, ela incorpora uma natureza, \u00e9 feita de mat\u00e9ria e se encontra diretamente inserida no determinismo espa\u00e7otemporal; mesmo oriunda do trabalho humano, ela conserva, quanto ao seu construtor, uma relativa independ\u00eancia; ela pode passar a outras m\u00e3os, pode devir a cadeia de uma s\u00e9rie que seu inventor ou seu construtor n\u00e3o haviam previsto. Al\u00e9m do mais, uma m\u00e1quina s\u00f3 ganha seu sentido num conjunto de seres t\u00e9cnicos coordenados, e essa coordena\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode ser pensada e constru\u00edda pelo homem, pois n\u00e3o est\u00e1 dada na natureza. (Simondon 2020:534)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O HUMANO INTEGRA A M\u00c1QUINA NUM TODO, E ESTA MODIFICA ESSE TODO (estabilizando-o e\/ou transformando-o); mas PARA ISSO \u00c9 NECESS\u00c1RIO CULTURA T\u00c9CNICA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O homem confere \u00e0 m\u00e1quina a integra\u00e7\u00e3o ao mundo constru\u00eddo, no qual ela encontra sua defini\u00e7\u00e3o funcional por sua rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras m\u00e1quinas; mas \u00e9 a m\u00e1quina, e cada m\u00e1quina em particular, que confere sua estabilidade e sua realidade a esse mundo constru\u00eddo; ela traz do mundo natural a condi\u00e7\u00e3o de materialidade, de espa\u00e7otemporalidade, sem a qual o mundo n\u00e3o teria qualquer espessura ou consist\u00eancia. Para que essa rela\u00e7\u00e3o possa existir entre o homem e a m\u00e1quina, \u00e9 preciso uma dupla condi\u00e7\u00e3o no homem e na m\u00e1quina. No homem, \u00e9 preciso uma cultura t\u00e9cnica, feita do conhecimento intuitivo e discursivo, indutivo e dedutivo, dos dispositivos que constituem a m\u00e1quina, implicando a consci\u00eancia dos esquemas e das qualidades t\u00e9cnicas que est\u00e3o materializadas na m\u00e1quina. O homem deve conhecer a m\u00e1quina segundo um conhecimento adequado, em seus princ\u00edpios, seus detalhes e sua hist\u00f3ria; ent\u00e3o, ela n\u00e3o mais ser\u00e1 para ele um simples instrumento ou um criado que jamais protesta. Toda m\u00e1quina cristaliza certo n\u00famero de esfor\u00e7os, inten\u00e7\u00f5es, esquemas, e investe tal ou qual aspecto da natureza dos elementos qu\u00edmicos. Seus car\u00e1teres s\u00e3o mistos de esquemas t\u00e9cnicos e de propriedades dos elementos constituintes da mat\u00e9ria, e das leis de transforma\u00e7\u00e3o da energia. A verdadeira cultura t\u00e9cnica exige um saber cient\u00edfico; ela conduz a n\u00e3o menosprezar nenhum ser t\u00e9cnico, mesmo antigo; sob car\u00e1teres exteriores fora de moda ou vetustos, ela reencontra o sentido de uma lei cient\u00edfica e a propriedade de um elemento material; o ser t\u00e9cnico apreende em sua realidade definida uma certa media\u00e7\u00e3o entre o homem e o mundo natural; \u00e9 essa media\u00e7\u00e3o que a cultura t\u00e9cnica permite apreender em sua aut\u00eantica realidade. (Simondon 2020:534-5)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>GOSTO T\u00c9CNICO (est\u00e9tico), DELICADEZA MORAL, TECNOLOGIA CULTURAL e RESPEITO PELO SER T\u00c9CNICO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Pode-se desenvolver um gosto t\u00e9cnico, compar\u00e1vel ao gosto est\u00e9tico e \u00e0 delicadeza moral. Muitos homens, por falta de cultura, conduzem-se de maneira primitiva e grosseira em sua rela\u00e7\u00e3o \u00e0s m\u00e1quinas. A estabilidade de uma civiliza\u00e7\u00e3o que comporta um n\u00famero cada vez maior de seres t\u00e9cnicos n\u00e3o poder\u00e1 ser atingida enquanto a rela\u00e7\u00e3o entre o homem e a m\u00e1quina n\u00e3o for equilibrada e marcada de sabedoria, segundo uma <em>medida<\/em> interior que somente uma tecnologia cultural poder\u00e1 dar. O frenesi de possess\u00e3o e a desmesura de utiliza\u00e7\u00e3o das m\u00e1quinas s\u00e3o compar\u00e1veis a um verdadeiro desregramento dos costumes. As m\u00e1quinas s\u00e3o tratadas como bens de consumo por uma humanidade ignorante e grosseira, que se lan\u00e7a com avidez sobre tudo que apresenta um car\u00e1ter de novidade exterior e artificial, para repudi\u00e1-lo t\u00e3o logo o uso tenha esgotado as qualidades de novidade. O homem cultivado deve ter um certo respeito pelo ser t\u00e9cnico, precisamente porque ele conhece sua verdadeira estrutura e seu funcionamento real. (Simondon 2020:535-6)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ALIENA\u00c7\u00c3O T\u00c9CNICA (hipnose) OCULTA O SER T\u00c9CNICO SOB VALORES COMUNIT\u00c1RIOS (status e prest\u00edgio)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>\u00c0 delicadeza cultural do homem devem corresponder a <em>verdade<\/em> e a <em>autenticidade<\/em> da m\u00e1quina. Ora, enquanto o gosto humano est\u00e1 corrompido, a civiliza\u00e7\u00e3o industrial n\u00e3o pode produzir m\u00e1quinas verdadeiramente aut\u00eanticas, porque essa produ\u00e7\u00e3o est\u00e1 submetida \u00e0s condi\u00e7\u00f5es comerciais da venda; ela deve curvar-se, ent\u00e3o, \u00e0s condi\u00e7\u00f5es da opini\u00e3o e do gosto coletivo. Ora, se considerarmos as m\u00e1quinas que nossa civiliza\u00e7\u00e3o libera ao uso do indiv\u00edduo, veremos que seus car\u00e1teres t\u00e9cnicos est\u00e3o obliterados e dissimulados por uma ret\u00f3rica impenetr\u00e1vel, recobertos por uma mitologia e uma magia coletivas que custosamente se chega a elucidar ou a desmistificar. As m\u00e1quinas modernas utilizadas na vida cotidiana s\u00e3o em grande parte instrumentos de adula\u00e7\u00e3o. Existe uma sofisticada apresenta\u00e7\u00e3o que busca dar um feitio m\u00e1gico ao ser t\u00e9cnico, para adormecer as pot\u00eancias ativas do indiv\u00edduo e lev\u00e1-lo a um estado hipn\u00f3tico, no qual ele degusta o prazer de comandar uma turba de escravos mec\u00e2nicos, frequentemente pouco diligentes e fi\u00e9is, mas sempre aduladores. Uma an\u00e1lise do car\u00e1ter &#8220;luxuoso&#8221; dos objetos t\u00e9cnicos mostraria quanta engana\u00e7\u00e3o eles abrigam: sobre um grande n\u00famero de aparelhos, o fetichismo do quadro de comando dissimula a pobreza dos dispositivos t\u00e9cnicos, e sob uma impressionante carenagem ocultam-se singulares neglig\u00eancias da fabrica\u00e7\u00e3o. Sacrificada a um gosto depravado, a constru\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica \u00e9 uma arte de fachada e de prestidigita\u00e7\u00e3o. O estado de hipnose estende-se desde a compra at\u00e9 a utiliza\u00e7\u00e3o; na pr\u00f3pria propaganda comercial, o ser t\u00e9cnico j\u00e1 est\u00e1 revestido de uma certa significa\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria: comprar um objeto \u00e9 adquirir um t\u00edtulo para fazer parte desta ou daquela comunidade; \u00e9 aspirar a um g\u00eanero de exist\u00eancia que se caracteriza pela possess\u00e3o desse objeto; o objeto \u00e9 cobi\u00e7ado como um signo de reconhecimento comunit\u00e1rio, um [&#8230;] (s\u00edmbolo), no sentido grego do termo. Depois, o estado de hipnose se prolonga na utiliza\u00e7\u00e3o e o objeto jamais \u00e9 conhecido em sua realidade, mas apenas por aquilo que ele representa. (Simondon 2020:536)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A M\u00c1QUINA COMO MEDIADOR ENTRE O INDIV\u00cdDUO E O GRUPO (valores relativos) leva \u00e0 AUTOCRACIA E \u00c0 SUJEI\u00c7\u00c3O SOCIAL-SERVID\u00c3O MAQU\u00cdNICA (hipnose, homeostase-automatismo comunit\u00e1rio); A M\u00c1QUINA COMO MEDIADOR ENTRE O INDIV\u00cdDUO-SUJEITO E O MUNDO-OBJETO leva \u00e0 LIBERTA\u00c7\u00c3O DA COMUNIDADE POR UM CONTATO TECNICAMENTE MEDIADO (a\u00e7\u00e3o-informa\u00e7\u00e3o) COM O MUNDO-OBJETO (valores absolutos)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A comunidade oferece, assim, ao lado das duras coa\u00e7\u00f5es que ela imp\u00f5e ao indiv\u00edduo, uma compensa\u00e7\u00e3o que o impede de se revoltar e de ter uma consci\u00eancia aguda de seus problemas: o estado de inquietude, sempre latente, \u00e9 sempre diferido pela hipnose t\u00e9cnica, e a vida do indiv\u00edduo se escoa num balan\u00e7o entre as coa\u00e7\u00f5es da rigidez social e os estados gratificantes que a comunidade fornece pela encanta\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica. Esse estado \u00e9 est\u00e1vel, porque a comercializa\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria encontra uma via mais f\u00e1cil na a\u00e7\u00e3o sobre a opini\u00e3o coletiva do que na verdadeira pesquisa e nos aperfei\u00e7oamentos t\u00e9cnicos reais, que n\u00e3o teriam valor comercial algum enquanto permanecessem incompreendidos pela maioria, que s\u00f3 \u00e9 informada pelas vias comerciais. Para romper esse c\u00edrculo vicioso, n\u00e3o basta dizer que o homem deve comandar a m\u00e1quina ao inv\u00e9s de se deixar submeter por ela; \u00e9 preciso compreender que, se a m\u00e1quina submete o homem, \u00e9 na medida em que o homem degrada a m\u00e1quina fazendo dela uma escrava. Se, ao inv\u00e9s de buscar numa m\u00e1quina estados de hipnose, ou uma fonte f\u00e1cil de maravilhas para o ignorante, o homem associar a m\u00e1quina aos estados nos quais ele \u00e9 verdadeiramente ativo e criador, como \u00e9 o caso na pesquisa cient\u00edfica, o aspecto comunit\u00e1rio da m\u00e1quina poder\u00e1 desaparecer. Se considerarmos as m\u00e1quinas que s\u00e3o utilizadas na pesquisa cient\u00edfica, veremos que, mesmo quando elas utilizam um automatismo muito complexo, n\u00e3o submetem o homem e tampouco s\u00e3o submetidas por ele; elas n\u00e3o s\u00e3o objeto de consumo e tampouco s\u00e3o seres destinados a produzir um trabalho predeterminado em seus resultados, esperado e exigido pela comunidade que faz pesar sua obriga\u00e7\u00e3o sobre o indiv\u00edduo. Nessas condi\u00e7\u00f5es, a m\u00e1quina est\u00e1 integrada \u00e0 cadeia causal do esfor\u00e7o humano; o fim desse esfor\u00e7o ultrapassa a m\u00e1quina que se aciona. A m\u00e1quina, ent\u00e3o, realiza a media\u00e7\u00e3o relativamente ao objeto da pesquisa, e n\u00e3o relativamente \u00e0 comunidade. Ela se apaga do campo de percep\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo; ele n\u00e3o aciona a m\u00e1quina; ele age sobre o objeto e observa o objeto atrav\u00e9s da m\u00e1quina. Gra\u00e7as \u00e0 m\u00e1quina, institui-se um ciclo que vai do objeto ao sujeito e do sujeito ao objeto: a m\u00e1quina prolonga e adapta um ao outro, sujeito e objeto, atrav\u00e9s de um encadeamento complexo de causalidades. Ela \u00e9 ferramenta, enquanto permite ao sujeito agir sobre o objeto, e instrumento, enquanto aporta ao sujeito sinais vindos do objeto; ela veicula, amplifica, transforma, traduz e conduz num sentido uma a\u00e7\u00e3o e, em sentido inverso, uma informa\u00e7\u00e3o; ela \u00e9 de uma s\u00f3 vez ferramenta e motor. O car\u00e1ter rec\u00edproco dessa dupla rela\u00e7\u00e3o faz com que o homem n\u00e3o se aliene na presen\u00e7a dessa m\u00e1quina; ele permanece homem e ela permanece m\u00e1quina. Relativamente ao objeto, a posi\u00e7\u00e3o do homem e a posi\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina n\u00e3o s\u00e3o sim\u00e9tricas; a m\u00e1quina tem uma liga\u00e7\u00e3o imediata com o objeto, e o homem, uma rela\u00e7\u00e3o mediata. O objeto e o homem \u00e9 que s\u00e3o sim\u00e9tricos relativamente \u00e0 m\u00e1quina. O homem cria a m\u00e1quina para que ela institua e desenvolva a rela\u00e7\u00e3o. \u00c9 por essa raz\u00e3o que a rela\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00e1quina s\u00f3 \u00e9 v\u00e1lida se ela atravessa a m\u00e1quina para ir, n\u00e3o ao homem sob forma comunit\u00e1ria, mas a um objeto. A rela\u00e7\u00e3o do homem \u00e0 m\u00e1quina \u00e9 assim\u00e9trica porque essa m\u00e1quina institui uma rela\u00e7\u00e3o sim\u00e9trica entre o homem e o mundo. (Simondon 2020:537-8)<\/p>\n<blockquote><\/ul>\n<h2>5 \u2013 Car\u00e1ter alagm\u00e1tico do objeto t\u00e9cnico individuado<\/h2>\n<p> [538]: O objeto t\u00e9cnico individuado corresponde \u00e0 individua\u00e7\u00e3o coletiva humana transindividual (humanismo). na medida em que liberta o indiv\u00edduo da comunidade mediando sua rela\u00e7\u00e3o com um mundo-objeto-natureza (e n\u00e3o com a comunidade, moral do rendimento).<\/p>\n<ul>\n<strong>A M\u00c1QUINA COMO MEDIA\u00c7\u00c3O ENTRE SUJEITO-HUMANO E MUNDO-OBJETO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A identifica\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina ao homem ou do homem \u00e0 m\u00e1quina s\u00f3 pode se produzir se a rela\u00e7\u00e3o se esgota na liga\u00e7\u00e3o do homem com a m\u00e1quina. Mas se a rela\u00e7\u00e3o \u00e9 realmente de tr\u00eas termos, o termo mediador permanece distinto dos termos extremos. \u00c9 a aus\u00eancia do termo objeto que cria a possibilidade de domina\u00e7\u00e3o do homem sobre a m\u00e1quina ou da m\u00e1quina sobre o homem. (Simondon 2020:538)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O SER T\u00c9CNICO \u00c9 UM VE\u00cdCULO DA A\u00c7\u00c3O DO HUMANO SOBRE O MUNDO, E DE INFORMA\u00c7\u00c3O SOBRE O MUNDO PARA O HUMANO (n\u00e3o confundir com feedback da Cibern\u00e9tica, que \u00e9 informa\u00e7\u00e3o automatizada, misturada com a\u00e7\u00e3o)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O ser t\u00e9cnico s\u00f3 pode ser definido em termos de informa\u00e7\u00e3o e de transforma\u00e7\u00e3o das diferentes esp\u00e9cies de energia ou de informa\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, por um lado como ve\u00edculo de uma a\u00e7\u00e3o que vai do homem ao universo e, por outro, como ve\u00edculo de uma informa\u00e7\u00e3o que vai do universo ao homem. A tecnologia cultural dev\u00e9m um misto de energ\u00e9tica e de teoria da informa\u00e7\u00e3o. A Cibern\u00e9tica, teoria inspirada em grande medida por considera\u00e7\u00f5es tiradas do funcionamento das m\u00e1quinas, seria uma das bases da tecnologia se ela n\u00e3o tivesse privilegiado desde o in\u00edcio um misto de a\u00e7\u00e3o e de informa\u00e7\u00e3o que \u00e9 o <em>feedback<\/em>, ou a\u00e7\u00e3o em retorno (causalidade recorrente); uma m\u00e1quina, com efeito, pode existir sem comportar nenhuma rela\u00e7\u00e3o entre a cadeia de causalidade que veicula a a\u00e7\u00e3o e a cadeia de causalidade que veicula a informa\u00e7\u00e3o; quando comporta tal liga\u00e7\u00e3o, ela cont\u00e9m um automatismo; mas existem m\u00e1quinas que n\u00e3o s\u00e3o aut\u00f4matos, ou que pelo menos s\u00f3 comportam automatismos para fun\u00e7\u00f5es secund\u00e1rias ou tempor\u00e1rias e ocasionais (por exemplo, aquelas que garantem a seguran\u00e7a, o servocomando, ou o telecomando). (Simondon 2020:539)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ALAGM\u00c1QUINA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A m\u00e1quina \u00e9 um ser alagm\u00e1tico. (Simondon 2020:539)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>INFORMA\u00c7\u00c3O DIRETA (ampla e permanente, informacionalmente rica) =\/= INFORMA\u00c7\u00c3O RECORRENTE (feedback, remete \u00e0 a\u00e7\u00e3o do sujeito; \u00e9 valorizada dicotomicamente como valor relativo, estreita e tempor\u00e1ria, instant\u00e2nea; vari\u00e1vel, sempre renovada; simplifica\u00e7\u00e3o, redu\u00e7\u00e3o informacional)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>a cibern\u00e9tica, considerando a informa\u00e7\u00e3o como o sinal da dist\u00e2ncia entre o resultado da a\u00e7\u00e3o e o escopo da a\u00e7\u00e3o, no <em>feedback<\/em>, corre o risco de levar a que se subestime o papel da informa\u00e7\u00e3o direta, que n\u00e3o est\u00e1 inserida na recorr\u00eancia do <em>feedback<\/em> e que n\u00e3o necessita de uma iniciativa ativa do indiv\u00edduo para se formar. Essa informa\u00e7\u00e3o direta, inversamente \u00e0 informa\u00e7\u00e3o recorrente, n\u00e3o comporta uma refer\u00eancia \u00e0 a\u00e7\u00e3o do sujeito e, consequentemente, n\u00e3o \u00e9 valorizada enquanto marca de um sucesso ou de um fracasso. Quando a informa\u00e7\u00e3o do <em>feedback<\/em> chega, ela se insere como uma forma nesse fundo de informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o recorrente, tanto que o indiv\u00edduo se encontra em presen\u00e7a de duas informa\u00e7\u00f5es: uma informa\u00e7\u00e3o ampla e permanente, que o insere no mundo como meio; e uma informa\u00e7\u00e3o estreita e tempor\u00e1ria, at\u00e9 mesmo instant\u00e2nea, que est\u00e1 eminentemente ligada \u00e0 a\u00e7\u00e3o, vari\u00e1vel como ela, e sempre renovada como a a\u00e7\u00e3o. Essa informa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 de tipo recorrente, n\u00e3o comporta tamanha riqueza quanto a precedente, mas, ao contr\u00e1rio, define-se por alguns sinais concretos, por\u00e9m muito simples (cor, forma, atitude), que, em raz\u00e3o de sua fraca riqueza em informa\u00e7\u00e3o, podem ser facilmente substitu\u00eddos, ou rapidamente modificados, sem necessitar de um grande disp\u00eandio de energia nervosa no operador, ou de uma transmiss\u00e3o muito complexa na m\u00e1quina. (Simondon 2020:539-40)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>EXISTE UMA DIFEREN\u00c7A QUANTITATIVA DE INFORMA\u00c7\u00c3O ENTRE A DIRETA E A RECORRENTE (esta \u00faltima exige muito menos informa\u00e7\u00e3o, pois indica apenas o resultado-forma da a\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo relativamente a um referencial-fundo dado)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A diferen\u00e7a entre esses dois tipos de informa\u00e7\u00e3o dev\u00e9m extremamente sens\u00edvel assim que se \u00e9 obrigado a traduzi-las ambas numa forma \u00fanica que permita compar\u00e1-las; a diferen\u00e7a entre os dois pap\u00e9is se manifesta, ent\u00e3o, como uma diferen\u00e7a consider\u00e1vel entre as quantidades de informa\u00e7\u00e3o. Assim, as indica\u00e7\u00f5es que um piloto de avi\u00e3o recebe do alt\u00edmetro s\u00f3 valem como <em>feedback<\/em>, permitindo ao piloto regrar sua a\u00e7\u00e3o de descida ou subida segundo as indica\u00e7\u00f5es da agulha sobre o mostrador; elas se inserem como forma num fundo que \u00e9 a vis\u00e3o global e sint\u00e9tica da regi\u00e3o percorrida, e at\u00e9 mesmo do estado da atmosfera ou do teto de nuvens; esse <em>feedback<\/em> deve ser tanto mais preciso quanto mais importantes forem as consequ\u00eancias pr\u00e1ticas do gesto motor do piloto; por exemplo, o alt\u00edmetro simples das altas altitudes n\u00e3o pode servir para apreciar a dist\u00e2ncia do avi\u00e3o relativamente \u00e0 pista no momento da aterrissagem; emprega-se, ent\u00e3o, um dispositivo que emite ondas eletromagn\u00e9ticas que se refletem no solo e retornam com certo retardo, apreciado gra\u00e7as a uma varia\u00e7\u00e3o da frequ\u00eancia de emiss\u00e3o com a qual a frequ\u00eancia de onda refletida pode bater: o sinal \u00e9 constitu\u00eddo por esse batimento. Nesse primeiro caso, seja qual for o sistema t\u00e9cnico empregado, o princ\u00edpio \u00e9 sempre o mesmo: apreender uma grandeza vari\u00e1vel segundo os resultados da a\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo e reconduzir ao sujeito o sinal que indica o resultado dessa a\u00e7\u00e3o relativamente a um termo de refer\u00eancia fixo e que faz parte do escopo. O sinal, ent\u00e3o, pode ser apresentado ao sujeito segundo uma escala intensiva ou extensiva simples, correspondendo a um eixo orientado sobre o qual um ponto ou uma linha figura o escopo, e um outro ponto ou uma outra linha figura o resultado da a\u00e7\u00e3o. Essa informa\u00e7\u00e3o pode ser representada pelo deslocamento de um \u00edndice frente a uma gradua\u00e7\u00e3o. (Simondon 2020:540-1)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>INFORMA\u00c7\u00c3O DIRETA, RELATIVA AO FUNDO (enorme quantidade), \u00c9 INTEGRADA PELO INDIV\u00cdDUO; INFORMA\u00c7\u00c3O RECORRENTE, RELATIVAMENTE \u00c0 FIGURA (reduzida a sinais padronizados), \u00c9 INTEGRADA PELA M\u00c1QUINA; AMBAS PODEM PARTICIPAR DE UMA DUPLA LOCALIZA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Muito pelo contr\u00e1rio, caso se trate de transmitir a informa\u00e7\u00e3o relativa ao fundo e n\u00e3o \u00e0 forma, nenhum procedimento de informa\u00e7\u00e3o suscet\u00edvel de inscrever-se sobre uma escala linear bipolar pode ter \u00eaxito: a simultaneidade de uma multiplicidade \u00e9 necess\u00e1ria, e o indiv\u00edduo \u00e9 o centro que integra essa multiplicidade. Todos os procedimentos se chocam com a necessidade de decompor a totalidade em elementos simples transmitidos isoladamente, de que esse isolamento da singularidade seja realizado por uma multid\u00e3o de transmiss\u00f5es simult\u00e2neas e independentes (como nos primeiros dispositivos de televis\u00e3o) ou pela distribui\u00e7\u00e3o num ciclo que assegure um sincronismo na sa\u00edda e na chegada (cada elemento tendo tido seu instante no ciclo), supondo-se a informa\u00e7\u00e3o invari\u00e1vel durante um ciclo. Como nesse caso n\u00e3o \u00e9 a m\u00e1quina que desempenha o papel de integrador, mas sim o sujeito, a necessidade de levar fundos, e n\u00e3o formas, ao sujeito se traduz por uma enorme quantidade de informa\u00e7\u00e3o a ser transportada. \u00c9 essa enorme quantidade de informa\u00e7\u00e3o a ser coletada e transmitida, sem integr\u00e1-la, que limita a sutileza da detec\u00e7\u00e3o eletromagn\u00e9tica pelo radar, o que confere graves problemas \u00e0 transmiss\u00e3o de imagens moventes em televis\u00e3o, obrigando-a a adotar videofrequ\u00eancias muito elevadas e tanto maiores quanto mais elevada \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o da imagem. A quantidade de informa\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria \u00e0 transmiss\u00e3o s\u00f3 pode ser diminu\u00edda gra\u00e7as a uma codifica\u00e7\u00e3o do mundo a ser percebido, codifica\u00e7\u00e3o conhecida do sujeito, o que corresponde a um recurso a uma percep\u00e7\u00e3o de formas sobre um fundo que j\u00e1 \u00e9 conhecido e que n\u00e3o necessita mais ser transmitido. Assim, \u00e9 poss\u00edvel substituir a observa\u00e7\u00e3o do terreno e das regi\u00f5es percorridas de avi\u00e3o por um mapa sobre o qual o piloto faz o ponto mediante rela\u00e7\u00f5es de fase entre os sinais vindos de tr\u00eas esta\u00e7\u00f5es de emiss\u00e3o eletromagn\u00e9tica dispostas em tri\u00e2ngulo, como no sistema de navega\u00e7\u00e3o Decca, Shoran ou, atualmente, pelas r\u00e1dio-balizas. Aqui, o piloto traz um an\u00e1logo da regi\u00e3o sobrevoada (o mapa), e gra\u00e7as a uma formaliza\u00e7\u00e3o do mundo, conhecido e adotado por conven\u00e7\u00e3o (a constru\u00e7\u00e3o dos tr\u00eas emissores e do dispositivo de sincroniza\u00e7\u00e3o que os liga), o piloto realiza sobre o mapa uma integra\u00e7\u00e3o muito mais facilitada, porque ele opera sobre elementos j\u00e1 abstratos; h\u00e1 aqui duas integra\u00e7\u00f5es conc\u00eantricas: uma primeira integra\u00e7\u00e3o fundamental do mapa do mundo, gra\u00e7as \u00e0 qual o mapa pode ter uma significa\u00e7\u00e3o, e uma segunda integra\u00e7\u00e3o dos sinais recebidos no mapa trazido, que \u00e9 mais f\u00e1cil porque a informa\u00e7\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 selecionada pela passagem do mundo concreto ao mapa e dos sinais visuais m\u00faltiplos \u00e0s tr\u00eas ondas hertzianas em nexo de fase. O trabalho se faz aqui sobre uma imagem (o mapa) e sobre s\u00edmbolos (os sinais provenientes dos emissores sincronizados). Isso \u00e9 v\u00e1lido gra\u00e7as a uma dupla localiza\u00e7\u00e3o, uma pela qual o mapa \u00e9 reconhecido como imagem de tal regi\u00e3o, pelo piloto, e outra pela qual os pilares dos tr\u00eas emissores sincronizados foram, de fato, constru\u00eddos em tal local do territ\u00f3rio geogr\u00e1fico, e n\u00e3o noutro. As fontes dos s\u00edmbolos est\u00e3o localizadas na imagem, o que estabelece uma coer\u00eancia sem a qual a pilotagem n\u00e3o seria poss\u00edvel. (Simondon 2020:541-2)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>MESMO COMO MODELO REDUZIDO, O MUNDO PERMANECE PRESENTE SE HOUVER EDUCA\u00c7\u00c3O TECNOL\u00d3GICA; A PERDA DA RELA\u00c7\u00c3O COM O MUNDO-OBJETO REDUZ O INDIV\u00cdDUO AO MUNDO-COMUNIDADE (pouca informa\u00e7\u00e3o, estereotipia)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A presen\u00e7a do mundo, ent\u00e3o, jamais \u00e9 eliminada pela utiliza\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina; mas a rela\u00e7\u00e3o ao mundo pode ser fracionada e passar pelo interm\u00e9dio de v\u00e1rios est\u00e1gios de simboliza\u00e7\u00e3o, rela\u00e7\u00e3o \u00e0 qual corresponde uma constru\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica que distribui ao longo do mundo demarca\u00e7\u00f5es v\u00e1lidas segundo uma percep\u00e7\u00e3o pelo interm\u00e9dio da m\u00e1quina; essa percep\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 muito mais autom\u00e1tica que a percep\u00e7\u00e3o direta pelos \u00f3rg\u00e3os sensoriais; mas ela corresponde a uma integra\u00e7\u00e3o por patamares e \u00e9 especializada, em certa medida, segundo cada tipo de atividade. Mas o concreto, mesmo fracionado, permanece sendo o concreto; o nexo do fundo e da forma \u00e9 inalien\u00e1vel. A pura artificialidade conduziria \u00e0 confus\u00e3o do fundo e da forma, tanto que o indiv\u00edduo se encontraria ante um mundo simplificado onde n\u00e3o mais haveria universo nem objeto. A percep\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo totalmente integrado na comunidade \u00e9, em alguma medida, uma percep\u00e7\u00e3o abstrata como essa; ao inv\u00e9s de resgatar o objeto do mundo, ela recorta o mundo segundo categorias que correspondem \u00e0s classifica\u00e7\u00f5es da comunidade e estabelece liames de participa\u00e7\u00e3o afetiva entre os seres segundo essas categorias comunit\u00e1rias. Somente uma profunda educa\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica no n\u00edvel do indiv\u00edduo pode resgatar do confusionismo da percep\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria estereotipada. Uma imagem n\u00e3o \u00e9 um estere\u00f3tipo. (Simondon 2020:542-3)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A RELA\u00c7\u00c3O INDIV\u00cdDUO-COMUNIDADE, QUANDO MEDIADA PELA M\u00c1QUINA, INSTITUI UMA MORAL DO RENDIMENTO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Os valores implicados na rela\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo \u00e0 m\u00e1quina deram lugar a muitas confus\u00f5es, porque o recente desenvolvimento das m\u00e1quinas e sua utiliza\u00e7\u00e3o pelas comunidades modificou o nexo do indiv\u00edduo \u00e0 comunidade: essa rela\u00e7\u00e3o, que outrora era direta, agora passa pela m\u00e1quina, e o maquinismo est\u00e1 ligado em certa medida ao comunitarismo; a no\u00e7\u00e3o de trabalho n\u00e3o \u00e9 mais diretamente um valor comunit\u00e1rio, porque a passagem do esfor\u00e7o humano atrav\u00e9s de uma organiza\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica afeta o trabalho num coeficiente relativo a esse trabalho: o <em>rendimento<\/em>; uma moral do rendimento est\u00e1 se constituindo, que ser\u00e1 uma moral comunit\u00e1ria de uma nova esp\u00e9cie. O esfor\u00e7o individual n\u00e3o \u00e9 intrinsecamente v\u00e1lido: tamb\u00e9m \u00e9 preciso que uma certa gra\u00e7a extr\u00ednseca, que se concretiza na f\u00f3rmula do rendimento, o torne eficaz. Essa no\u00e7\u00e3o tem um certo poder invasivo e se desdobra, largamente, para al\u00e9m das opera\u00e7\u00f5es comerciais ou mesmo industriais; ela afeta todo sistema educativo, todo esfor\u00e7o e todo trabalho. Certa ressurg\u00eancia comunit\u00e1ria do pragmatismo confere \u00e0 \u00e9tica um novo tipo de heteronomia dissimulada sob a figura de um desejo de racionalidade ou de preocupa\u00e7\u00f5es concretas. Quando uma ideia ou um ato s\u00e3o recha\u00e7ados porque julgados ineficazes e de pouco rendimento, na realidade \u00e9 porque representam uma iniciativa individual criadora e porque a comunidade se insurge com um permanente instinto misone\u00edsta contra tudo que \u00e9 singular. O misone\u00edsmo visa ao novo, mas sobretudo naquilo que ele apresenta de singular, logo, de individual. O novo, coletivo, tem direito de cidadania sob a forma da moda; ele at\u00e9 mesmo se encontra eminentemente valorizado pela comunidade. \u00c9 o novo individual que \u00e9 perseguido e expulso como privado de rendimento. O crit\u00e9rio de rendimento \u00e9 impress\u00e3o da subjetividade coletiva e manifesta a gra\u00e7a que a comunidade concede ou recusa \u00e0 cria\u00e7\u00e3o individual. N\u00e3o \u00e9 porque uma civiliza\u00e7\u00e3o ama o dinheiro que ela se ata ao rendimento, mas \u00e9 por ser primeiramente civiliza\u00e7\u00e3o do rendimento que ela dev\u00e9m civiliza\u00e7\u00e3o do dinheiro quando certas circunst\u00e2ncias fazem desse modo de troca o crit\u00e9rio concreto do rendimento. (Simondon 2020:543-4)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>HUMANISMO (valor absoluto) PRECISA ASSUMIR QUE AS RELA\u00c7\u00d5ES DO INDIV\u00cdDUO-HUMANO COM O SEU MUNDO-OBJETO E SUA COMUNIDADE S\u00c3O DISTINTAS, E QUE AMBAS S\u00c3O TECNICAMENTE MEDIADAS<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Ora, apesar das apar\u00eancias, uma civiliza\u00e7\u00e3o do rendimento, a despeito das aparentes liberdades c\u00edvicas que ela deixa para os indiv\u00edduos, \u00e9 extremamente coercitiva para eles e impede seu desenvolvimento, pois submete simultaneamente o homem e a m\u00e1quina; atrav\u00e9s da m\u00e1quina, ela realiza uma integra\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria coercitiva. N\u00e3o \u00e9 contra a m\u00e1quina que o homem, sob a domina\u00e7\u00e3o de uma preocupa\u00e7\u00e3o humanista, deve se revoltar; o homem s\u00f3 est\u00e1 submetido \u00e0 m\u00e1quina quando a pr\u00f3pria m\u00e1quina j\u00e1 est\u00e1 submetida pela comunidade. E como existe uma coes\u00e3o interna do mundo dos objetos t\u00e9cnicos, o humanismo deve visar a liberar esse mundo dos objetos t\u00e9cnicos que s\u00e3o chamados para devirem mediadores da rela\u00e7\u00e3o do homem ao mundo. At\u00e9 hoje, o humanismo n\u00e3o p\u00f4de incorporar muito a rela\u00e7\u00e3o da humanidade ao mundo; essa vontade que o define, de reduzir ao ser humano tudo o que as diversas vias de aliena\u00e7\u00e3o lhe arrancaram, descentrando-o, permanecer\u00e1 impotente enquanto n\u00e3o compreender que a rela\u00e7\u00e3o do homem ao mundo e do indiv\u00edduo \u00e0 comunidade passa pela m\u00e1quina. O antigo humanismo permaneceu abstrato porque s\u00f3 definia a posse de si pelo cidad\u00e3o, e n\u00e3o pelo escravo; o humanismo moderno permanece sendo uma doutrina abstrata quando ela cr\u00ea salvar o homem de toda aliena\u00e7\u00e3o lutando contra a m\u00e1quina &#8220;que desumaniza&#8221;. Ela luta contra a comunidade acreditando lutar contra a m\u00e1quina, mas ela n\u00e3o pode chegar a nenhum resultado v\u00e1lido porque acusa a m\u00e1quina daquilo pelo que esta n\u00e3o \u00e9 respons\u00e1vel. Desdobrando-se em plena mitologia, essa doutrina se priva do mais forte e mais est\u00e1vel auxiliar, que daria uma dimens\u00e3o ao humanismo, uma significa\u00e7\u00e3o e uma abertura que nenhuma cr\u00edtica negativa jamais lhe oferecer\u00e1. Segundo a via de pesquisa que \u00e9 aqui apresentada, dev\u00e9m poss\u00edvel buscar um sentido dos valores de outro jeito que n\u00e3o na interioridade limitada do ser individual redobrado sobre si mesmo e negando os desejos, tend\u00eancias ou instintos que o convidam a exprimir-se ou a agir fora dos seus limites, sem por isso se condenar a aniquilar o indiv\u00edduo frente \u00e0 comunidade, como faz a disciplina sociol\u00f3gica. Entre a comunidade e o indiv\u00edduo isolado sobre si mesmo, existe a m\u00e1quina, e essa m\u00e1quina est\u00e1 aberta sobre o mundo. Ela vai al\u00e9m da realidade comunit\u00e1ria para instituir a rela\u00e7\u00e3o com a Natureza. (Simondon 2020:544-5)<\/p>\n<blockquote><\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SIMONDON, Gilbert. 2020 [1958]. Nota complementar sobre as consequ\u00eancias da no\u00e7\u00e3o de individua\u00e7\u00e3o. In: A individua\u00e7\u00e3o \u00e0 luz das no\u00e7\u00f5es de forma e de informa\u00e7\u00e3o. (Trads.: Lu\u00eds E.P. Aragon; Guilherme Ivo) S\u00e3o Paulo: Editora 34, p.507-45. [P\u00e1ginas da tradu\u00e7\u00e3o brasileira (Simondon 2020) entre colchetes] PRIMEIRO CAP\u00cdTULO: valores e busca de objetividade [507] 1 \u2013 valores relativos e valores absolutos [507]: [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":2808,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[48],"class_list":["post-2807","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-fichamento","tag-simondon"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/vers-1958-TouraineGS-4-CV-AVEC-MICHEL-WEISS-reduit.jpeg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2807","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2807"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2807\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2830,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2807\/revisions\/2830"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2808"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2807"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2807"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2807"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}