{"id":2689,"date":"2024-11-16T12:18:28","date_gmt":"2024-11-16T12:18:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=2689"},"modified":"2024-11-16T12:18:56","modified_gmt":"2024-11-16T12:18:56","slug":"a-tecnoancestralidade-de-tc-silva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2024\/11\/16\/a-tecnoancestralidade-de-tc-silva\/","title":{"rendered":"A tecnoancestralidade de TC Silva"},"content":{"rendered":"<p><strong>Imagem<\/strong>: TC Silva (Ant\u00f4nio Carlos dos Santos Silva) tocando Kora na Casa de Cultura Tain\u00e3 em Campinas (SP). Foto de Valdir P. Rodrigues J\u00fanior (2020).<\/p>\n<p>FARDIN, S\u00f4nia A. 2021. TC Silva: tecnologia e ancestralidade. In: Wenceslau Oliveira Jr.; Renata Soares da Luz (orgs.). <em>Casa dos Saberes Ancestrais: di\u00e1logos com sabedorias africanas e afro-americanas<\/em>. Campinas: BCCL\/Unicamp, p.332-69.<\/p>\n<p><strong>TECNOLOGIA para VALORIZAR A VIDA HUMANA (cultura e territ\u00f3rio)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[E]u entendo tecnologia e museologia social nessa perspectiva, [&#8230;] [d]e valorizar a vida, de valorizar nossa humanidade, [&#8230;] [f]azer [todas] as pessoas entenderem sua import\u00e2ncia [&#8230;]. A nossa humanidade s\u00f3 pode evoluir quando conectada com a cultura e o territ\u00f3rio. A partir da\u00ed podemos compreender quem somos e o sentido pleno da nossa exist\u00eancia [som da Kora]. (TC Silva in: Fardin 2021:353)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A REDE MOCAMBOS, o DATA CENTER COMUNIT\u00c1RIO e a BAOB\u00c1XIA (Google Fuck Off; vem sabi\u00e1-laranjeira)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A Rede Mocambos come\u00e7a em 2001, a ideia de Data Center come\u00e7a a ser uma preocupa\u00e7\u00e3o nossa em 2004, quando o Minist\u00e9rio da Cultura sugeriu um cara da Google para conhecer nossa experi\u00eancia, como territ\u00f3rio no Brasil que lida com tecnologias [&#8230;]. [&#8230;] [N]\u00f3s fomos pesquisar e entender o que era a Google, por que escolheram esse nome. Descobrimos que Google vem do Gugol, que \u00e9 s\u00edmbolo matem\u00e1tico, um n\u00famero impronunci\u00e1vel, \u00e9 o n\u00famero do infinito, 10<sup>100<\/sup>, ou seja, o d\u00edgito 1 seguido de cem zeros. A\u00ed a gente come\u00e7ou a ficar preocupado com essa empresa que tinha sido criada h\u00e1 pouco mais de cinco anos e j\u00e1 tinha uma pretens\u00e3o t\u00e3o ambiciosa. Come\u00e7amos a desconfiar da Google [&#8230;] [l\u00e1 atr\u00e1s] e a pensar no perigo dessa concentra\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o. [&#8230;] [Q]uando o Vince [Vincenzo Tozzi] chega no projeto, praticamente se fixa no Brasil por causa da Rede Mocambos[&#8230;] [. A] gente j\u00e1 tinha os Telecentros e pens\u00e1vamos na alternativa de ter uma rede de servidores nossa. Essa tecnologia foi desenvolvida pelo Vince, [&#8230;] com a colabora\u00e7\u00e3o do Fern\u00e3o [Fern\u00e3o Lopes Ginez de Lara]. Naquele momento est\u00e1vamos pensando em ter a nossa rede de servidores com a nossa cara, e decidimos chamar de m\u00facuas [fruto do baob\u00e1], para n\u00e3o repetir essa palavra [\u201c]servidor[\u201d]. Quando lidamos com softwares livres discutimos liberdades, [&#8230;] [e]nt\u00e3o a palavra [\u201c]servidor[\u201d] n\u00e3o nos representa. [&#8230;] [C]om a chegada do Vince come\u00e7amos a desenvolver a ideia do Baob\u00e1xia, que \u00e9 essa rede de m\u00facuas espalhadas pelos territ\u00f3rios. A\u00ed Vince volta para It\u00e1lia, termina o mestrado em ci\u00eancia da computa\u00e7\u00e3o com foco na constru\u00e7\u00e3o do Baob\u00e1xia, [&#8230;] volta para o Brasil e a gente se junta com o Joey Hess [&#8230;], que desenvolveu o Git annex, o sistema que \u00e9 usado para o desenvolvimento da plataforma do Baob\u00e1xia. Isso \u00e9 novo no mundo. Hoje s\u00e3o mais de 40 m\u00facuas, sendo [&#8230;] as principais: [&#8230;] a Abdias, aqui em Campinas, a Kalakuta, que fica na Sic\u00edlia, It\u00e1lia, a De P\u00e1dua fica em Bras\u00edlia e a Hyndla fica na Dinamarca[.] [E]ssas s\u00e3o [as] m\u00facuas [&#8230;] que fazem a sincroniza\u00e7\u00e3o e preserva\u00e7\u00e3o de todo o acervo. A rede Mocambos atinge mais de 200 comunidades e o Baob\u00e1xia est\u00e1 presente em 40 comunidades. [som da Kora] [&#8230;] [A] gente t\u00e1 pensando inclusive de como essa coisa a\u00ed [mostra a m\u00e1quina do Data Center Comunit\u00e1rio Livre] [&#8230;] deve compor o cen\u00e1rio da Casa, de uma maneira que ela n\u00e3o se imponha por ser esse fetiche da tecnologia [&#8230;] Ela tem que compor com as plantas da Casa, com o sabi\u00e1-laranjeira pegando as plantinhas para decorar o ninho ali no teto, com a saracura fazendo ninho no quintal. Olha, [TC indica o som dos passarinhos que fizeram ninho no telhado da casa] [som da Kora]. Ela [a m\u00e1quina dos Data Center] tem que ser transformada numa coisa real, sabe? [som da Kora] Por mais que ela virtualize, o instrumento dela \u00e9 a virtualiza\u00e7\u00e3o, n\u00f3s queremos o sentido real. (TC Silva in: Fardin 2021:353-5)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O PERIGO DAS BIG TECHS (ponto de passagem obrigat\u00f3ria e coloniza\u00e7\u00e3o) e a BAOB\u00c1XIA (a vida n\u00e3o cabe numa m\u00e1quina e p\u00e1ssaros n\u00e3o usam Twitter)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A gente t\u00e1 num momento que [&#8230;] \u00e9 muito perigoso [&#8230;] [.] O que \u00e9 t\u00e1 nesse lugar num momento onde a coloniza\u00e7\u00e3o pega todo mundo e submete ao mesmo processo de aceita\u00e7\u00e3o, de pacifica\u00e7\u00e3o [&#8230;] ? [&#8230;] [N]o sentido de doutrinar como um dogma, assim: \u201c\u00c9 por aqui, esse \u00e9 o caminho, vinde a mim, todo mundo&#8230; Ningu\u00e9m vai se n\u00e3o for aqui&#8230; [&#8230;]\u201d.[&#8230;] A Globo fala isso, Facebook, a Google fala isso, sabe? E todo mundo vai, [&#8230;] uma f\u00e9 cega, religiosa, assim, sabe? [&#8230;] Porque no aspecto religioso ainda tem uma diversidade, ali n\u00e3o, \u00e9 tr\u00eas lugares s\u00f3, o mundo inteiro em tr\u00eas lugares [&#8230;] com o mesmo prop\u00f3sito: colonizar. \u00c9 muito cruel, n\u00f3s temos que falar N\u00c3O pra esse neg\u00f3cio a\u00ed[.] [&#8230;] [\u00c9] n\u00f3s que vamos levantar essa discuss\u00e3o, porque ela n\u00e3o t\u00e1 presente no dia a dia [&#8230;] [.] Terra, \u00e1gua e comunica\u00e7\u00e3o s\u00e3o os elementos de disputa no mundo, o que justifica todas as guerras. N\u00e3o queremos isso. N\u00f3s queremos, sabe, falar assim [TC indica o som dos passarinhos que fizeram ninho no telhado da casa]. [som da Kora] N\u00f3s estamos vivos, n\u00f3s temos que viver livres e temos que ser felizes [&#8230;] [.] Eu n\u00e3o quero que aquilo [esses tr\u00eas lugares \u2013 Globo, Google e Facebook] seja o par\u00e2metro do nosso modelo de vida [&#8230;] [.] [som da Kora] N\u00e3o cabe dentro de uma m\u00e1quina a nossa exist\u00eancia, mano! Ela \u2013 a vida \u2013 \u00e9 muito maior, ela tem muito mais peso, ela tem muito mais import\u00e2ncia, [&#8230;] [e]la \u00e9 muito mais livre [.] [&#8230;] E a liberdade nasce e vive em n\u00f3s, de maneira linda[.] [N]\u00f3s somos isso, [&#8230;] a gente tem que se reconhecer nisso e n\u00e3o naquilo. Ent\u00e3o a gente n\u00e3o quer aquilo como alternativa pra nossa humanidade [&#8230;] \u2013 a vida n\u00e3o cabe numa m\u00e1quina, n\u00e9? [som da Kora] Ent\u00e3o a gente fala de tecnologia da vida [&#8230;] [.] Tem ci\u00eancia, tem tecnologia, tem tudo na natureza [&#8230;]. Se for nessa perspectiva, a gente aceita a palavra tecnologia [&#8230;] [.] Se n\u00e3o, que tecnologia \u00e9 essa que desumaniza, que faz um brigar com o outro por coisas in\u00fateis? Cada um existe dentro da sua plenitude, nada que n\u00e3o nos v\u00ea assim tem que sobreviver. [som dos passarinhos que fizeram ninho no telhado da casa] Esse \u00e9 o universo inteiro e a gente vai ficar aceitando padroniza\u00e7\u00e3o de vida, de modelos? Como assim, n\u00e9? [som dos passarinhos que fizeram ninho no telhado da casa] Olha o passarinho cantando, ser\u00e1 que ele t\u00e1 usando o WhatsApp ou o Telegram pra me mostrar o canto dele [&#8230;] ? Ent\u00e3o eu acho que \u00e9 essa a perspectiva: a gente pensar o valor humano, de cada pessoa [&#8230;] [.] Ser\u00e1 que essa tecnologia aqui ajuda? [som da Kora] A ci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o que o homem inventa, ela est\u00e1 presente na natureza, nos sons dos [p\u00e1ssaros], nas frequ\u00eancias sonoras dos cantos dos p\u00e1ssaros, nos cheiros das plantas. Para que queremos essa tecnologia que est\u00e1 na nossa m\u00e3o agora? N\u00f3s queremos tecnologia para compreender a vida, compreender quem somos, compreender a import\u00e2ncia de cada coisa. A apropria\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica nos permite criar alternativas a esse universo que t\u00e1 a\u00ed, que nos \u00e9 imposto. A Rede Mocambos e o Baob\u00e1xia nos permitem pensar num outro modelo de internet, mais aut\u00f4noma e mais independente. (TC Silva in: Fardin 2021:355-6)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>KORA, TECNOLOGIA, NATUREZA e ANCESTRALIDADE<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[som da Kora] Olha isso aqui[.] [TC mostra a Kora] [G]astei muito tempo observando como que faz isso[.] [&#8230;] Isso aqui \u00e9 uma Kora [&#8230;], \u00e9 uma tecnologia ancestral. Essa aqui \u00e9 uma Kora moderna [mostra outro instrumento], uma vers\u00e3o contempor\u00e2nea de uma coisa que \u00e9 tradicional [&#8230;] [.] A tradicional \u00e9 mais isso aqui [mostra outro instrumento], a caba\u00e7a [&#8230;] repercute o som, representa o feminino. A tradicional n\u00e3o usava n\u00e1ilon, usava tripa de ant\u00edlope ou de macaco [&#8230;] [.] Tinha alguns tecidos e membranas de animal poss\u00edveis de fazer cordas com sonoridade \u00fanica. O pr\u00f3prio Stradivarius usou essas tecnologias que eram africanas pra fazer [as cordas d]os violinos dele [&#8230;]. Muitas harpas at\u00e9 hoje t\u00eam parte das cordas delas[.] [N]em todas s\u00e3o de n\u00e1ilon ou de a\u00e7o, s\u00e3o tamb\u00e9m de tecido animal. E usava tamb\u00e9m an\u00e9is de couro tran\u00e7ado, para [p]render e afinar as cordas. Imagina que o cara consegue colocar 21 cordas presas num couro e afinar com uma precis\u00e3o que \u00e9 espantosa[.] [P]orque a afina\u00e7\u00e3o do viol\u00e3o na escala musical implica numa quest\u00e3o f\u00edsica e matem\u00e1tica [&#8230;] [q]ue \u00e9 medida em hertz, 440 hertz a nota l\u00e1, nota universal [&#8230;] [som da Kora] Eu pesquisei sobre a Kora daqui, nunca fui \u00e0 \u00c1frica, mas as \u00c1fricas est\u00e3o dentro de mim. As \u00c1fricas me permitem uma ponte f\u00e1cil porque t\u00e3o muito pr\u00f3ximo de mim, todas as \u00c1fricas, [&#8230;] ainda mais aut\u00eantica, sem essa presen\u00e7a nefasta dos colonizadores [&#8230;] [.] Ent\u00e3o a tecnologia era produzida e desenvolvida a partir da observa\u00e7\u00e3o da natureza, sempre usando elementos da natureza, [&#8230;] [som da Kora] [e] ao longo de muito tempo vai se desenvolvendo, vai evoluindo e ela sempre era produzida pra atender alguma necessidade humana[.] [E]nt\u00e3o [som da Kora] os instrumentos de corda africanos [&#8230;] s\u00e3o produzidos n\u00e3o pra ser industrializados, [&#8230;] [m]as pra cumprir o papel social. [som da Kora] Ent\u00e3o o cara tem um instrumento e com esse instrumento ele faz a miss\u00e3o dele [som da Kora]. Eu vou te contar a hist\u00f3ria da nossa ancestralidade, eu s\u00f3 posso falar pra voc\u00ea [som da Kora] do que eu herdei, [som da Kora] do que eu vivi, [som da Kora] do que eu aprendi [som da Kora]. Ent\u00e3o o processo da oralidade se fundamentava nisso [som da Kora], s\u00f3 posso falar do que eu herdei [som da Kora], do que eu vivi [som da Kora], do que eu aprendi e do que eu sinto. Ningu\u00e9m me ensinou a plantar baob\u00e1 ou construir instrumentos africanos, eu senti isso. Eu sou o que eu sinto [som da Kora]. (TC Silva in: Fardin 2021:356-7)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>REDE MOCAMBOS e BAOB\u00c1XIA como APROPRIA\u00c7\u00c3O TECNOL\u00d3GICA CONSCIENTE<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[som da Kora] Hoje, se faz um uso e um consumo das tecnologias sem buscar o sentido delas. O que nos faz passivos, especialmente por essas tecnologias hoje usadas assim nessa escala absurda [&#8230;] [.] Digo absurda porque [&#8230;] a gente ainda n\u00e3o desenvolveu uma consci\u00eancia do uso das tecnologias, ent\u00e3o [&#8230;] a gente perde os par\u00e2metros de medida entre o tempo que gastamos absorvidos com essas possibilidades tecnol\u00f3gicas e o tempo que dedicamos pra pr\u00e1ticas de vida, de compartilhamento&#8230; T\u00e1 desequilibrado, n\u00e9? [&#8230;] \u00c9 preocupante como chega com muita for\u00e7a, uma presen\u00e7a [perigosa,] muito dominadora na vida e principalmente das crian\u00e7as, [&#8230;] virtualizando a mem\u00f3ria das crian\u00e7as[.] [A]s pessoas est\u00e3o construindo mem\u00f3rias virtualizadas [&#8230;] [.] Os sonhos das crian\u00e7as est\u00e3o sendo invadidos, ocupados com esse excesso de informa\u00e7\u00e3o que elas acessam [&#8230;] [.] [&#8230;] [D]iante disso a gente vem pensando, debatemos sobre a apropria\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, e isso n\u00e3o se limita \u00e0 quest\u00e3o do dom\u00ednio da tecnologia, sabe? [&#8230;] Dom\u00ednio \u00e9 a gente ter consci\u00eancia de como elas podem nos ajudar na constru\u00e7\u00e3o da nossa humanidade, no sentido de criar uma consci\u00eancia do uso delas [&#8230;] [.] Uma tecnologia foi utilizada para construir esse instrumento [som da Kora]. Agora pra qu\u00ea eu vou usar isso? Como vou usar isso [?] [C]omo isso vai ser incorporado na minha vida, [&#8230;] [n]o meu dia a dia [som da Kora] [&#8230;]? Isso \u00e9 bom pra quem? \u00c9 s\u00f3 pra mim? [som da Kora] eu desejo que seja bom pra todo mundo [som da Kora] [&#8230;] [.] Ent\u00e3o [&#8230;] a gente fala de tecnologias e desenvolve tecnologias, porque a gente tamb\u00e9m entendeu assim, [&#8230;] [q]ue essas tecnologias ou a gente se apropria delas, ou a gente vai acabar sendo dominado por elas, [&#8230;] [j]ustamente porque elas se imp\u00f5em pelo sil\u00eancio, [&#8230;] [e]las n\u00e3o criam nenhum alerta pras pessoas, nenhuma recomenda\u00e7\u00e3o, tipo: \u201cacesse, mas faz mal pra sa\u00fade\u201d. Ela n\u00e3o tem ainda nenhum mecanismo de alerta sobre suas consequ\u00eancias para as pessoas [&#8230;] [.] Elas se prop\u00f5em como caminho \u00fanico pra salva\u00e7\u00e3o [&#8230;] [.] O que mais causa espanto hoje \u00e9 se voc\u00ea n\u00e3o tem WhatsApp, n\u00e3o tem Facebook e n\u00e3o tem celular! \u00c9 um desconforto na pessoa n\u00e3o estar nas redes. Pois, ent\u00e3o, a\u00ed nessa quest\u00e3o da apropria\u00e7\u00e3o da tecnologia para um mundo mais do nosso jeito, assim se pensa a Rede Mocambos e o Baob\u00e1xia, que nos permitem pensar formas nossas de viver e conviver. Que envolvem um monte de parceiros e parceiras, colaborativos, essa grande rede feita de pessoas. (TC Silva in: Fardin 2021:357-8)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>RACISMO, TERRIT\u00d3RIO e A CURA DO MUNDO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>N\u00f3s, temos que nos organizar para fazer luta antirracista, mas n\u00e3o podemos ter o racismo como nosso limite, temos que ir muito al\u00e9m, muito mais al\u00e9m. Temos que nos organizar para acreditar que n\u00f3s podemos curar o mundo. A gente faz isso quando a gente partilha a capoeira, samba de bumbo, o batuque de umbigada, o jongo, o maracatu, tudo isso. A gente compartilha, e n\u00e3o precisa de cota para acessar nossa cultura. Nossa cultura \u00e9 cura, porque \u00e9 plural e \u00e9 universal. N\u00e3o somos v\u00edtimas, o que cabe a n\u00f3s \u00e9 curar o mundo, o mundo est\u00e1 doente e n\u00f3s somos cura. Assim nasceu o Baob\u00e1xia, que \u00e9 uma tecnologia bastante evolu\u00edda [&#8230;] [.] \u00c9 uma constru\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, considerando que ela \u00e9 pioneira no mundo [&#8230;]. Baob\u00e1xia tem raiz e territ\u00f3rios concretos, as pessoas s\u00e3o essas ra\u00edzes, assim, a tecnologia conectando lutas e mem\u00f3rias vivas, concretas, n\u00e3o \u00e9 uma mera alternativa \u00e0s plataformas comerciais, \u00e9 busca de vencer e superar o padr\u00e3o virtual imposto pelo mercado. Percebe a import\u00e2ncia da gente ter uma rede de comunica\u00e7\u00e3o social nossa, uma rede concreta, uma rede de pessoas e comunidades [&#8230;] [q]ue conecte esse lado do Brasil que vive na sombra [&#8230;] ? Quilombolas, ind\u00edgenas, ribeirinhos[,] [&#8230;] organiza\u00e7\u00f5es de cultura popular, [&#8230;] [d]e Olinda, do Maranh\u00e3o, da Bahia, do Rio, de S\u00e3o Paulo, do Esp\u00edrito Santo e do Brasil todo[.] [E]sse Brasil que produz tanta cultura [&#8230;] [m]as n\u00e3o consegue acessar justi\u00e7a social [&#8230;] [.] Da\u00ed que nasceu o Baob\u00e1xia, que \u00e9 muito mais que mais uma tecnologia, \u00e9 uma luta para garantir direitos [&#8230;] para essas pessoas poderem ser Sujeito e n\u00e3o instrumentos e ferramentas, pra potencializar, pra produzir, pra armazenar suas mem\u00f3rias, [&#8230;] [p]ra guardar suas sementes em uma terra, num territ\u00f3rio digital livre [&#8230;] [.] \u00c9 disso que falamos tamb\u00e9m quando falamos de Data Centers Comunit\u00e1rios Livres [&#8230;] [.] Assim [&#8230;] como a nossa produ\u00e7\u00e3o de alimentos \u00e9 org\u00e2nica, com essas sementes que s\u00e3o crioulas, [&#8230;] [a]ssim \u00e9 nossa luta pelo nosso direito \u00e0 terra, ao territ\u00f3rio, \u00e0 tecnologia [&#8230;] [.] Territ\u00f3rio \u00e9 que d\u00e1 condi\u00e7\u00e3o da gente assumir plenamente o direito de ser quem somos [&#8230;] [.] Nossos valores, nossa identidade, [&#8230;] [n]ossas mem\u00f3rias [&#8230;] [.] Nos constituir como sujeitos plenos e plenas de n\u00f3s mesmos, entendeu? E a\u00ed que o Baob\u00e1xia nasce nesse terreno, como essa ideia de potencializar nossos territ\u00f3rios pra que eles possam exercer com dignidade sua exist\u00eancia plena [&#8230;] [.] N\u00e3o aquela de depend\u00eancia, n\u00e3o aquela domina\u00e7\u00e3o pela ignor\u00e2ncia, [&#8230;] [som da Kora] [p]elo desconhecimento das coisas que acontecem, [&#8230;] [d]as manobras&#8230; (TC Silva in: Fardin 2021:360)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>DUENDES ELETR\u00d4NICOS<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[TC cantando] \u201cCanto somente porque quero cantar\/ Mesmo porque nada mais posso fazer\/ Al\u00e9m de passear no meu cometa azul d\u00e9grad\u00e9\/ Voado sobre a Marginal num voo cego irreal\/ Pela via l\u00f3gica, vejo a transa tr\u00e1gica do planeta se alastrar\/ Pelas art\u00e9rias, com plasma t\u00f3xico e mortal\/ Com jogos de artif\u00edcios, duendes eletr\u00f4nicos\/ Megalolun\u00e1ticos, tra\u00e7am planos tr\u00e1gicos pro meu pa\u00eds\/ Subfant\u00e1stico, sub sub-tudo, sobre tudo lindo \/ Subitamente no farol da Brasil \/ Subtra\u00eddos no farol da Brasil \/ Subvivendo no farol da Brasil \/ Da Brasil, meu Brasil brasileiro\/ Ouviram do Ipiranga \u00e0s margens pl\u00e1cidas\/ Da Brasil, meu Brasil brasileiro.\u201d Chama Avenida Brasil essa m\u00fasica, eu tocava essa m\u00fasica com a Banda Zion, eu fiz ela acho que nos anos 1980 (TC Silva in: Fardin 2021:360-1)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>PODEMOS SER, N\u00c3O QUEREMOS PODER<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Baob\u00e1xia \u00e9 [&#8230;] uma rede que se prop\u00f5e a potencializar territ\u00f3rios, [&#8230;] [i]nstrumentalizar [e defender] os territ\u00f3rios, defender suas mem\u00f3rias, [&#8230;] pra poder existir plenamente, [&#8230;] [s]e organizar dentro do territ\u00f3rio atrav\u00e9s do trabalho livre [&#8230;] [.] [T]erra, semente, trabalho e liberdade. Semente, crian\u00e7a e futuro. Terra, \u00e1gua, comunica\u00e7\u00e3o e poder. Poder de ser o que somos, nascemos pra ser, poder de se sentir, sabe? N\u00e3o pra poder dominar os povos [&#8230;] [.] [som da Kora] Se o poder s\u00f3 pode ser esse, ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o poder que a gente quer, a gente quer outra coisa, prefiro ficar s\u00f3 com a liberdade [som da Kora]. Somos e podemos ser o que somos [som da Kora]. Podemos ser, n\u00e9? [som da Kora] N\u00e3o queremos poder [som da Kora]. (TC Silva in: Fardin 2021:361)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>PALMARES DE NOVO (tirando o sono de muita gente)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[C]omo \u00e9 que n\u00f3s vamos adequar isso a\u00ed [o Data Center Comunit\u00e1rtio] pra caber no espa\u00e7o, [&#8230;] [s]em se impor dessa forma a\u00ed [?] [&#8230;] [V]amos grafitar ela, vai ter outra cara. [&#8230;] [A] gente t\u00e1 indo pra um lugar que eu sinto que agora \u00e9 para aprender a conhecer e ter dom\u00ednio, dom\u00ednio, [&#8230;] se colocar no lugar da observa\u00e7\u00e3o do tempo que n\u00f3s estamos vivendo[.] [&#8230;] Tem uma mudan\u00e7a muito grande a\u00ed [&#8230;] [.] A gente fala \u201cvamos fazer do nosso jeito\u201d, mesmo sem saber que jeito que \u00e9 [&#8230;] [.] Ent\u00e3o a gente vai ter que experimentar formas, n\u00e9? [&#8230;] Hoje temos tamb\u00e9m a TV Tain\u00e3, uma TV nossa, feita por n\u00f3s, sobre n\u00f3s e para n\u00f3s. Para mostrar de onde viemos e o que somos. Mem\u00f3ria, tecnologia, crian\u00e7a e semente&#8230; aonde a gente vai com isso? Palmares foi destru\u00eddo porque [&#8230;] o opressor tinha uma tecnologia que Palmares n\u00e3o tinha[.] [A]gora n\u00f3s temos a mesma tecnologia e a\u00ed&#8230; Palmares de novo, Palmares! [&#8230;] Isso n\u00e3o vale nada se n\u00e3o for pra construir uma outra consci\u00eancia. (TC Silva in: Fardin 2021:362-3)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Palmares n\u00e3o tinha a tecnologia para se defender, mas tinha consci\u00eancia da luta unificada ali, tanto que estremeceu as estruturas do poder, [&#8230;] [e] foi o maior investimento no combate no Brasil[.] [&#8230;] [O] n\u00edvel do investimento pra combater Palmares nas 17 batalhas e invas\u00f5es que Palmares sofreu, foi muita grana, n\u00e3o se gastou igual em outras guerras internas no Brasil, entendeu? Tanto que eles importaram tecnologias de guerras necess\u00e1rias pra dar conta[.] [&#8230;] Zumbi e Dandara n\u00e3o tinham a tecnologia da sua \u00e9poca, n\u00e9? Mas agora temos! \u00c9, isso \u00e9 de tirar o sono de muita gente, entendeu? (TC Silva in: Fardin 2021:364)<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Imagem: TC Silva (Ant\u00f4nio Carlos dos Santos Silva) tocando Kora na Casa de Cultura Tain\u00e3 em Campinas (SP). Foto de Valdir P. Rodrigues J\u00fanior (2020). FARDIN, S\u00f4nia A. 2021. TC Silva: tecnologia e ancestralidade. In: Wenceslau Oliveira Jr.; Renata Soares da Luz (orgs.). Casa dos Saberes Ancestrais: di\u00e1logos com sabedorias africanas e afro-americanas. Campinas: BCCL\/Unicamp, p.332-69. TECNOLOGIA para VALORIZAR A [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":2690,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[395],"class_list":["post-2689","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-fichamento","tag-tc-silva"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/TC.png","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2689","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2689"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2689\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2691,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2689\/revisions\/2691"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2690"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2689"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2689"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2689"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}