{"id":268,"date":"2021-04-15T20:23:54","date_gmt":"2021-04-15T20:23:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=268"},"modified":"2025-02-21T16:31:35","modified_gmt":"2025-02-21T16:31:35","slug":"redes-que-a-razao-desconhece-latour-2004","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2021\/04\/15\/redes-que-a-razao-desconhece-latour-2004\/","title":{"rendered":"Redes que a raz\u00e3o desconhece (Latour 2004)"},"content":{"rendered":"<p>LATOUR, Bruno. 2004. Redes que a raz\u00e3o desconhece: laborat\u00f3rios, bibliotecas, cole\u00e7\u00f5es. In: Andr\u00e9 Parente (org.). <em>Tramas da rede: novas dimens\u00f5es filos\u00f3ficas, est\u00e9ticas e pol\u00edticas da comunica\u00e7\u00e3o<\/em>. (Trad. Marcela Mortara) Porto Alegre: Sulina, pp.39-63.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sociologiassociativa.files.wordpress.com\/2014\/10\/sonnerat-small.jpg\" alt=\"\"><br \/>\n[Desenho de P. Sonnerat (auto-retrato), <em>Voyage \u00e0 la Nouvelle-Guin\u00e9<\/em>, Paris, 1776]<\/p>\n<blockquote><p>Aqui, n\u00e3o nos encontramos nem numa biblioteca nem numa cole\u00e7\u00e3o, mas aqu\u00e9m delas, na costa da Nova-Guin\u00e9. O naturalista [n\u00e3o] est\u00e1 em sua terra, mas longe, enviado pelo rei para trazer desenhos, esp\u00e9cimes naturalizados, mudas, herb\u00e1rios, relatos e, quem sabe, ind\u00edgenas. Tendo partido de um centro europeu para uma periferia tropical, a expedi\u00e7\u00e3o que ele serve tra\u00e7a, atrav\u00e9s do espa\u00e7o-tempo, uma rela\u00e7\u00e3o muito particular que vai permitir ao centro acumular conhecimentos sobre um lugar que at\u00e9 ent\u00e3o ele n\u00e3o podia representar. Nesta gravura muito posada, o naturalista se desenhou a si pr\u00f3prio em plena atividade de transforma\u00e7\u00e3o de um lugar em outro, registrando a transi\u00e7\u00e3o entre o mundo das mat\u00e9rias locais e o dos signos m\u00f3veis e transport\u00e1veis para qualquer lugar. Notemos, ali\u00e1s, que ele se retrata num quase-laborat\u00f3rio, um lugar protegido pela folha de bananeira que o abriga do sol e pelos frascos de esp\u00e9cimes conservados no \u00e1lcool, Notemos tamb\u00e9m que o mundo ind\u00edgena deve fazer-se representar a fim de ser colhido pelo movimento da informa\u00e7\u00e3o. A escrava de formas generosas exibe o papagaio e permite ao desenhista detectar mais rapidamente os tra\u00e7os caracter\u00edsticos do mesmo. O desenho produzido por esse quase-laborat\u00f3rio em breve circular\u00e1 em todas as cole\u00e7\u00f5es reais; quanto aos esp\u00e9cimes, empalhados ou em frascos de \u00e1lcool, ir\u00e3o enriquecer os gabinetes de curiosidades de toda a Europa. (Latour 2004:41)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>INFORMA\u00c7\u00c3O:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um signo, e sim uma <em>rela\u00e7\u00e3o<\/em> estabelecida entre dois lugares, o primeiro, que se torna uma periferia, e o segundo, que se torna um <em>centro<\/em>, sob a condi\u00e7\u00e3o de que entre os dois circule um <em>ve\u00edculo<\/em> que denominamos muitas vezes forma, mas que, para insistir em seu aspecto material, eu chamo de <em>inscri\u00e7\u00e3o<\/em>. (Latour 2004:40)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Verifica-se que a informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma &#8220;forma&#8221; no sentido plat\u00f4nico do termo, e sim uma rela\u00e7\u00e3o muito pr\u00e1tica e muito material entre dois lugares, o primeiro dos quais negocia o que deve retirar do segundo, a fim de mant\u00ea-lo sob sua vista e agir \u00e0 dist\u00e2ncia sobre ele. (Latour 2004:42)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Ora, a informa\u00e7\u00e3o permite justamente limitar-se \u00e0 forma, sem ter o embara\u00e7o da mat\u00e9ria. (Latour 2004:41)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>A informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 inicialmente um signo, e sim o &#8220;carregar&#8221;, em inscri\u00e7\u00f5es cada vez mais m\u00f3veis e cada vez mais fi\u00e9is, de um maior n\u00famero de mat\u00e9rias. (Latour 23004:42)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>A produ\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es permite, portanto, resolver de modo pr\u00e1tico, por opera\u00e7\u00f5es de sele\u00e7\u00e3o, extra\u00e7\u00e3o, redu\u00e7\u00e3o, a contradi\u00e7\u00e3o entre a presen\u00e7a e a aus\u00eancia num lugar. Imposs\u00edvel compreend\u00ea-la sem se interessar pelas institui\u00e7\u00f5es que permitem o estabelecimento dessas rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o, e sem os ve\u00edculos materiais que permitem o transporte e o carregamento. (Latour 2004:42)<\/p><\/blockquote>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sociologiassociativa.files.wordpress.com\/2014\/10\/chainsoftranslation-web.jpg\" alt=\"\"><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sociologiassociativa.files.wordpress.com\/2014\/10\/beranger.jpg\" alt=\"\"><br \/>\n<strong>REDU\u00c7\u00c3O e AMPLIFICA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Reencontramos as aves empalhadas de h\u00e1 pouco, mas no meio de todos os seus cong\u00eaneres, trazidos, do mundo inteiro, por naturalistas dispersos no espa\u00e7o e no tempo. Em compara\u00e7\u00e3o com a situa\u00e7\u00e3o inicial, em que cada ave vivia livremente em seu ecossistema, que perda consider\u00e1vel, que diminui\u00e7\u00e3o! Mas, em compara\u00e7\u00e3o com a situa\u00e7\u00e3o inicial, em que cada ave voava invis\u00edvel na confus\u00e3o de uma noite tropical ou de um amanhecer polar, que ganho fant\u00e1stico, que aumento. O ornit\u00f3logo pode ent\u00e3o, tranquilamente, em local protegido, comparar os tra\u00e7os caracter\u00edsticos de milhares de aves tornadas compar\u00e1veis pela imobilidade, pela pose, pelo empalhamento. O que vivia disperso em estados singulares do mundo se unifica, se universaliza, sob o olhar preciso do naturalista. Imposs\u00edvel, \u00e9 claro, compreender este suplemento de precis\u00e3o, de conhecimento, sem a intui\u00e7\u00e3o que abriga todas essas aves empalhadas, que as apresenta ao olhar dos visitantes, que a marca por um fino jogo de escrita e de etiquetas, que as classifica por um sistema retific\u00e1vel de prateleiras, de gavetas, de vitrines, que as preserva e as conserva borrifando-as com inseticidas. A\u00ed tamb\u00e9m, tanto para a amplifica\u00e7\u00e3o como para a redu\u00e7\u00e3o, a informa\u00e7\u00e3o exige uma compet\u00eancia, um trabalho t\u00e3o material quanto o do empalhador. Talvez o naturalista n\u00e3o pense diferentemente do ind\u00edgena que percorria sua ilha em busca de um papagaio, mas ele vive, com certeza, num outro ecossistema. A compara\u00e7\u00e3o de todas as aves do mundo sinoticamente vis\u00edveis e sincronicamente reunidas lhes d\u00e1 uma enorme vantagem sobre quem s\u00f3 pode ter acesso a algumas aves vivas. A redu\u00e7\u00e3o de cada ave se paga com uma formid\u00e1vel amplifica\u00e7\u00e3o de todas as aves do mundo. (Latour 2004:44)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>DA OPOSI\u00c7\u00c3O REALISTASxCONSTRUTIVISTAS para a CONSTRU\u00c7\u00c3O DA REALIDADE<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Quest\u00e3o cl\u00e1ssica que a filosofia das ci\u00eancias quis enquadrar por muito tempo, opondo os realistas de um lado e os construtivistas do outro, como se n\u00e3o se tratasse, ao contr\u00e1rio, de compreender a &#8220;constru\u00e7\u00e3o da realidade&#8221; bem real dessa gente. (Latour 2004:45-6)<\/p><\/blockquote>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sociologiassociativa.files.wordpress.com\/2014\/10\/j-_vermeer_-_el_gec3b3grafo_museo_stc3a4del_frc3a1ncfort_del_meno_1669.jpg\" alt=\"\"><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sociologiassociativa.files.wordpress.com\/2014\/10\/cartographer_pietro_vesconte_1318.jpg\" alt=\"\"><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sociologiassociativa.files.wordpress.com\/2014\/10\/minard.png\" alt=\"\"><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sociologiassociativa.files.wordpress.com\/2014\/10\/atlas_cosmographicae_mercator_b_005.jpg\" alt=\"\"><br \/>\n<strong>CARTOGRAFIA:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Invers\u00e3o propriamente fant\u00e1stica, pois aquele que seria dominado, na paisagem desenhada ao fundo, torna-se o dominante assim que entra em seu gabinete de trabalho e desdobra os mapas para rasur\u00e1-los. [&#8230;] Prestemos aten\u00e7\u00e3o por um instante \u00e0 invers\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a entre aquele que viaja numa paisagem e aquele que percorre com o olhar o mapa rec\u00e9m-desenhado. (Latour 2004:46-7)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Quando Mercator utiliza pela primeira vez a palavra Atlas, para designar n\u00e3o mais o gigante que carrega o mundo em seus ombros, e sim o volume que permite segurar a terra entre as m\u00e3os, ele materializa a invers\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a que a cartografia torna t\u00e3o claramente vis\u00edveis &#8211; mas que se encontram em graus diferentes, em todas as disciplinas que entram sucessivamente na &#8220;via direta de uma ci\u00eancia&#8221;. Resumo not\u00e1vel da hist\u00f3ria das ci\u00eancias, este frontisp\u00edcio em que Atlas n\u00e3o tem mais nada a fazer, sen\u00e3o medir a bola que segura sem esfor\u00e7o nos joelhos. (Latour 2004:50)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Essas duas esp\u00e9cies de signos, mapas e placas, alinhados uns aos outros e mantidos ambos por grandes institui\u00e7\u00f5es [&#8230;] nos permitem passar do mapa ao territ\u00f3rio, negociando com cautela a enorme mudan\u00e7a de n\u00edvel que separa um peda\u00e7o de papel, que dominamos pelo olhar, de um lugar onde moramos e que nos cerca por todos os lados. (Latour 2004:60)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>DIGITALIZA\u00c7\u00c3O e o PODER DA REDE<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Hoje compreendemos melhor esta compatibilidade [de tipos de informa\u00e7\u00f5es diferentes], pois todos utilizamos computadores que se tornam capazes de remexer, religar, combinar, traduzir desenhos, textos, fotografias, c\u00e1lculos ainda agora fisicamente separados. A digitaliza\u00e7\u00e3o prolonga esta longa hist\u00f3ria dos centros de c\u00e1lculo, oferecendo a cada inscri\u00e7\u00e3o o poder de todas as outras. Mas este poder n\u00e3o vem de sua entrada no universo dos signos, e sim de sua compatibilidade, de sua coer\u00eancia \u00f3tica, de sua padroniza\u00e7\u00e3o com outras inscri\u00e7\u00f5es, cada uma das quais se encontra sempre lateralmente ligada ao mundo atrav\u00e9s de uma rede. (Latour 2004:49)<\/p><\/blockquote>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sociologiassociativa.files.wordpress.com\/2014\/10\/central-calculo-latour.jpg\" alt=\"\"><br \/>\n<strong>CENTRAL DE C\u00c1LCULO e MAIS VALIA DE INFORMA\u00c7\u00c3O (ci\u00eancia; m\u00f3veis imut\u00e1veis; redes de transforma\u00e7\u00f5es)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A partir do momento nem que uma inscri\u00e7\u00e3o aproveita as vantagens do inscrito, do calculado, do plano, do desdobr\u00e1vel, do acumul\u00e1vel, do que se pode examinar com o olhar, ela se torna comensur\u00e1vel com todas as outras, vindas de dom\u00ednios da realidade at\u00e9 ent\u00e3o completamente estranhos. A perda consider\u00e1vel de cada inscri\u00e7\u00e3o isolada, em rela\u00e7\u00e3o com o que ela representa, se paga ao c\u00eantuplo com a mais-valia de informa\u00e7\u00f5es que lhe proporciona esta compatibilidade com todas as outras inscri\u00e7\u00f5es. (Latour 2004:48)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>cada dado se liga, por um lado, a seu pr\u00f3prio mundo de fen\u00f4menos, e, por outro lado, a todos aqueles com os quais se torna compat\u00edvel. (Latour 2004:50)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>N\u00e3o existe ci\u00eancia, r\u00edgida ou flex\u00edvel, quente ou fria, antiga ou recente que n\u00e3o dependa desta transforma\u00e7\u00e3o pr\u00e9via, e que n\u00e3o acabe por expor os fen\u00f4menos pelos quais ela se interessa numa superf\u00edcie plana de alguns metros quadrados, em volta da qual se re\u00fanem pesquisadores que apontam com os dedos os tra\u00e7os pertinentes, discutindo entre eles. O controle intelectual, o dom\u00ednio erudito, n\u00e3o se exerce diretamente sobre os fen\u00f4menos &#8211; gal\u00e1xias, v\u00edrus, economia, paisagens &#8211; mas sim sobre as inscri\u00e7\u00f5es que lhe servem de ve\u00edculo, sob a condi\u00e7\u00e3o de circular continuamente, e nos dois sentidos, atrav\u00e9s de redes de transforma\u00e7\u00f5es &#8211; laborat\u00f3rios, instrumentos, expedi\u00e7\u00f5es, cole\u00e7\u00f5es. (Latour 2004:51)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Para compreender um centro de c\u00e1lculo \u00e9 preciso pois apreender o conjunto da rede de transforma\u00e7\u00f5es que liga cada inscri\u00e7\u00e3o ao mundo, e que liga em seguida cada inscri\u00e7\u00e3o a todas as que se tornaram comensur\u00e1veis a ela pela gravura, o desenho, o relato, o c\u00e1lculo ou, mais recentemente, pela digitaliza\u00e7\u00e3o. (Latour 2004:53)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Redes de transforma\u00e7\u00f5es fazem chegar aos centros de c\u00e1lculos, por uma s\u00e9rie de deslocamentos &#8211; redu\u00e7\u00e3o e amplifica\u00e7\u00e3o &#8211; um n\u00famero cada vez maior de inscri\u00e7\u00f5es. Essas inscri\u00e7\u00f5es circulam nos dois sentidos, \u00fanico meio de assegurar a fidelidade, a confiabilidade, a verdade entre o representado e o representante. Como elas devem ao mesmo tempo permitir a mobilidade das rela\u00e7\u00f5es e a imutabilidade do que elas transportam, eu as chamo de &#8220;m\u00f3veis imut\u00e1veis&#8221; entre n\u00f3s, para distingui-las bem dos signos. Com efeito, quando as seguimos, come\u00e7amos a atravessar a <em>distin\u00e7\u00e3o usual entre palavras e coisas<\/em>, viajamos n\u00e3o apenas no mundo, mas tamb\u00e9m nas diferentes mat\u00e9rias da express\u00e3o. Uma vez nos centros, outro movimento se acrescenta ao primeiro, que permite a circula\u00e7\u00e3o de todas as inscri\u00e7\u00f5es capazes de trocar entre si algumas de suas propriedades. A coer\u00eancia [&#8230;] dos fen\u00f4menos relatados autoriza de fato essa capitaliza\u00e7\u00e3o, que parece sempre t\u00e3o incompreens\u00edvel quanto a do dinheiro. (Latour 2004:55)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>O conjunto desta gal\u00e1xia emaranhada &#8211; redes e centro &#8211; funciona como um verdadeiro laborat\u00f3rio, deslocando as propriedades dos fen\u00f4menos, redistribuindo o espa\u00e7o-tempo, proporcionando aos &#8220;capitalizadores&#8221; uma vantagem consider\u00e1vel, uma vez que eles est\u00e3o ao mesmo tempo afastados dos lugares, ligados aos fen\u00f4menos por uma s\u00e9rie revers\u00edvel de transforma\u00e7\u00f5es, e aproveitam o suplemento de informa\u00e7\u00f5es oferecido por toda e qualquer inscri\u00e7\u00e3o a todas as outras. (Latour 2004:56)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Com efeito, trata-se sempre, pela inven\u00e7\u00e3o [a tradu\u00e7\u00e3o errou aqui ao colocar &#8220;invers\u00e3o&#8221;] de instrumentos cada vez mais sutis, de conservar o m\u00e1ximo de formas e for\u00e7as atrav\u00e9s do m\u00e1ximo de transforma\u00e7\u00f5es, deforma\u00e7\u00f5es, provas. Ah, deter-se num ponto e, por uma s\u00e9rie de simples transforma\u00e7\u00f5es, de simples dedu\u00e7\u00f5es, recriar todos os outros, \u00e0 vontade! (Latour 2004:57)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>De fato, como na relatividade de Einstein, existe sim um observador privilegiado, aquele que, no centro de c\u00e1lculo, pode capitalizar o conjunto dos desenhos, dos dados, dos levantamentos, dos mapas, das observa\u00e7\u00f5es, enviados por todos os observadores despojados de qualquer privil\u00e9gio, e pode tamb\u00e9m, por uma s\u00e9rie de corre\u00e7\u00f5es, de transforma\u00e7\u00f5es, de reescritas, de convers\u00f5es, torn\u00e1-los todos compat\u00edveis. [&#8230;] A partir do momento que um observador, um instrumento, um investigador se torna muito espec\u00edfico, muito particular, muito idiossincr\u00e1tico, ele interrompe o deslocamento dos m\u00f3veis imut\u00e1veis, acrescenta ru\u00eddo \u00e0 linha, enfraquece o centro de c\u00e1lculo, impede o observador privilegiado de capitalizar, isto \u00e9, de conhecer. [&#8230;] A perspectiva, a teoria da relatividade, a geometria s\u00e3o alguns dos ve\u00edculos que asseguram \u00e0s inscri\u00e7\u00f5es seja sua mobilidade, seja sua imutabilidade. Existem muitos outros, menos grandiosos, como o empalhamento, a imprensa, o modelo reduzido, a conserva\u00e7\u00f5es no azoto l\u00edquido ou a perfura\u00e7\u00e3o para a extra\u00e7\u00e3o de amostras. (Latour 2004:58)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>A veracidade n\u00e3o vem da superposi\u00e7\u00e3o de um enunciado e de um estado do mundo, mas procede antes da manuten\u00e7\u00e3o cont\u00ednua das redes do centro e dos m\u00f3veis imut\u00e1veis que a\u00ed circulam. [&#8230;] Deve-se ouvi-la [\u00e0 palavra &#8220;verdade&#8221;] antes como o ronronar de uma rede que se otimiza [[a tradu\u00e7\u00e3o errou aqui ao colocar &#8220;gira&#8221;] e que se estende. (Latour 2004:59)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Se desejamos entender como chegamos, \u00e0s vezes, a dizer a verdade, devemos substituir a antiga distin\u00e7\u00e3o entre a linguagem e o mundo por essa mistura de institui\u00e7\u00f5es, formas, mat\u00e9rias e inscri\u00e7\u00f5es. (Latour 2004:61)<\/p><\/blockquote>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sociologiassociativa.files.wordpress.com\/2014\/10\/la-condamine_mesuremc3a9ridien2.jpg\" alt=\"\"><br \/>\n<strong>OS SIGNOS e o MUNDO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Que tenham sido necess\u00e1rios vinte anos de duros trabalhos e de inveross\u00edmeis aventuras para obter este meridiano [de Quito], eis o que n\u00e3o se deve esquecer, sob pena de crer que o signo representa o mundo sem esfor\u00e7o e sem transforma\u00e7\u00e3o, ou que ele existe \u00e0 parte, num sistema aut\u00f4nomo [a tradu\u00e7\u00e3o errou aqui ao colocar &#8220;astron\u00f4mico&#8221;] que lhe serviria de refer\u00eancia. (Latour 2004:54-5)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O <em>LOCUS <\/em>do FEN\u00d4MENO \u00e9 a REDE<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Onde se encontram os fen\u00f4menos?, perguntar-se-\u00e1. &#8220;Fora, na extremidade das redes que os representam fielmente&#8221;, dir\u00e3o uns. &#8220;Dentro, fic\u00e7\u00e3o regulada pela estrutura pr\u00f3pria do universo dos signos&#8221;, dir\u00e3o outros. [&#8230;] Infelizmente [?], os fen\u00f4menos circulam <em>atrav\u00e9s do conjunto<\/em>, e \u00e9 unicamente a sua circula\u00e7\u00e3o que permite verific\u00e1-los, assegur\u00e1-los, valid\u00e1-los. (Latour 2004:56)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Como se v\u00ea, os fen\u00f4menos n\u00e3o se situam nem no exterior nem no interior das redes. Eles residem numa certa maneira de se deslocar que otimiza a manuten\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es constantes, apesar do transporte e da diversidade dos observadores. (Latour 2004:58)<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>LATOUR, Bruno. 2004. Redes que a raz\u00e3o desconhece: laborat\u00f3rios, bibliotecas, cole\u00e7\u00f5es. In: Andr\u00e9 Parente (org.). Tramas da rede: novas dimens\u00f5es filos\u00f3ficas, est\u00e9ticas e pol\u00edticas da comunica\u00e7\u00e3o. (Trad. Marcela Mortara) Porto Alegre: Sulina, pp.39-63. [Desenho de P. Sonnerat (auto-retrato), Voyage \u00e0 la Nouvelle-Guin\u00e9, Paris, 1776] Aqui, n\u00e3o nos encontramos nem numa biblioteca nem numa cole\u00e7\u00e3o, mas aqu\u00e9m delas, na costa da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":270,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[12],"class_list":["post-268","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-fichamento","tag-latour"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/latour-reducao-amplificacap.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/268","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=268"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/268\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2722,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/268\/revisions\/2722"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/270"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=268"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=268"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=268"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}