{"id":2490,"date":"2024-08-09T14:10:03","date_gmt":"2024-08-09T14:10:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=2490"},"modified":"2024-10-09T12:36:09","modified_gmt":"2024-10-09T12:36:09","slug":"a-ridicula-ideia-de-nunca-mais-te-ver-montero-2019","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2024\/08\/09\/a-ridicula-ideia-de-nunca-mais-te-ver-montero-2019\/","title":{"rendered":"<em>A rid\u00edcula ideia de nunca mais te ver<\/em> (Montero 2019)"},"content":{"rendered":"<p>MONTERO, Rosa. 2019. <em>A rid\u00edcula ideia de nunca mais te ver<\/em>. (Trad.: Mariana Sanchez) S\u00e3o Paulo: Todavia.<\/p>\n<p><strong>CORPO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Como \u00e9 dif\u00edcil a rela\u00e7\u00e3o com nosso organismo. Somos nosso corpo, mas n\u00e3o podemos evitar a sensa\u00e7\u00e3o de alteridade, de estranheza, de ref\u00e9ns da pr\u00f3pria carne. (Montero 2019:163)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>MORTE e LUTO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Apenas em nascimentos e mortes \u00e9 que sa\u00edmos do tempo. A Terra det\u00e9m sua rota\u00e7\u00e3o e as trivialidades com que desperdi\u00e7amos as horas caem no ch\u00e3o feito purpurina. Quando uma crian\u00e7a nasce ou uma pessoa morre, o presente se parte ao meio e nos permite espiar durante um instante pela fresta da verdade &#8211; monumental, ardente e impass\u00edvel. Nunca nos sentimos t\u00e3o aut\u00eanticos quanto ao beirarmos essas fronteiras biol\u00f3gicas: temos a clara consci\u00eancia de viver algo grandioso. (Montero 2019:9)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Sempre, nunca, palavras absolutas que n\u00e3o podemos compreender, sendo como somos: pequenas criaturas presas em nosso breve tempo. Voc\u00ea nunca brincou, na inf\u00e2ncia, de tentar imaginar a eternidade? O infinito que se desenrola \u00e0 sua frente como uma vertiginosa e intermin\u00e1vel fita azul? A primeira coisa que te derruba no luto: a incapacidade de pensar nele e admiti-lo. A ideia simplesmente n\u00e3o entra na sua cabe\u00e7a. Como \u00e9 poss\u00edvel que <em>n\u00e3o esteja mais<\/em>? Aquela pessoa que ocupava tanto espa\u00e7o no mundo, onde foi que se meteu? O c\u00e9rebro n\u00e3o consegue entender que tenha desaparecido para sempre. E que diabos \u00e9 <em>sempre<\/em>? \u00c9 um conceito anti-humano. Quero dizer, que foge \u00e0 nossa possibilidade de entendimento. Como assim, n\u00e3o vou v\u00ea-lo nunca mais? Nem hoje, nem amanh\u00e3, nem depois, nem daqui a um ano? \u00c9 uma realidade inconceb\u00edvel que a mente rejeita: n\u00e3o v\u00ea-lo nunca mais \u00e9 uma piada sem gra\u00e7a, uma ideia rid\u00edcula. (Montero 2019:23)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Vivemos t\u00e3o alienados da morte que n\u00e3o sabemos como agir. Temos uma enorme confus\u00e3o na cabe\u00e7a. No meu caso, encarei o luto como uma doen\u00e7a da qual precisava me curar o quanto antes. Creio que \u00e9 um erro bastante comum, porque na nossa sociedade a morte \u00e9 vista como uma anomalia, e o luto, como uma patologia. (Montero 2019:26)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Nos primeiros dias, as pessoas lhe dizem: \u201cChore, chore que faz bem\u201d; e \u00e9 como se dissessem: \u201c\u00c9 preciso furar e espremer esse abscesso para sair o pus\u201d. E \u00e9 justamente nos primeiros momentos que voc\u00ea tem menos vontade de chorar, pois est\u00e1 em choque, exaurida e fora do mundo. Mas logo depois, em seguida, justo quando voc\u00ea est\u00e1 encontrando o fluxo aparentemente inesgot\u00e1vel do seu pranto, as pessoas \u00e0 sua volta come\u00e7am a lhe cobrar um esfor\u00e7o de vitalidade e otimismo, de esperan\u00e7a no futuro, de <em>recupera\u00e7\u00e3o<\/em> da sua tristeza. Porque \u00e9 exatamente assim que se diz: Fulano ainda n\u00e3o se <em>recuperou<\/em> da morte de Sicrana. Como se se tratasse de uma hepatite (mas voc\u00ea n\u00e3o se recupera nunca, esse \u00e9 o erro, a gente n\u00e3o se recupera: se reinventa). N\u00e3o \u00e9 minha inten\u00e7\u00e3o criticar ningu\u00e9m ao contar isso: eu tamb\u00e9m agi assim antes de saber! Tamb\u00e9m disse: chore, chore. E tr\u00eas meses depois: Vamos, chega, levante essa cabe\u00e7a, \u00e2nimo. Com a melhor das inten\u00e7\u00f5es e o pior dos resultados, certamente. (Montero 2019:27)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>[O] luto \u00e9 algo estranho. Principalmente, creio eu, os lutos extempor\u00e2neos, as mortes que ainda n\u00e3o deveriam ter acontecido. E \u00e9 estranho porque, mesmo que o tempo passe, a dor da perda, nos momentos em que surge, continua parecendo igualmente intensa. \u00c9 claro que voc\u00ea est\u00e1 cada vez melhor, muito melhor: a dor \u00e9 disparada com menos frequ\u00eancia e voc\u00ea pode lembrar seu morto sem sofrer. Mas quando a tristeza surge, e voc\u00ea n\u00e3o sabe muito bem por que surge, \u00e9 a mesma dilacera\u00e7\u00e3o, a mesma brasa. Pelo menos \u00e9 assim comigo, e j\u00e1 se passaram tr\u00eas anos. Quem sabe com o tempo a mordida amenize, ou n\u00e3o. Isso \u00e9 algo de que ningu\u00e9m fala; talvez seja um daqueles segredos que todos guardamos, como a #fragilidademasculina. Talvez n\u00f3s, vi\u00favos, nos sintamos estranhos ou p\u00e9ssimos vi\u00favos por continuarmos sentindo a mesma dor aguda depois de tanto tempo. Talvez tenhamos vergonha e pensemos que n\u00e3o soubemos nos \u201crecuperar\u201d. Mas j\u00e1 vou dizendo que n\u00e3o existe recupera\u00e7\u00e3o: n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel voltar a ser quem voc\u00ea era. Existe a reinven\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o \u00e9 algo ruim. Com sorte, pode ser que consiga se reinventar melhor do que antes. Afinal de contas, agora voc\u00ea sabe mais. (Montero 2019:156-7)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>DIV\u00d3RCIO, VIUVEZ e DEPRESS\u00c3O<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Em julho de 2011, a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) publicou um estudo sobre a depress\u00e3o realizado em colabora\u00e7\u00e3o com vinte centros internacionais, dois deles espanh\u00f3is. A pesquisa foi feita com 89\u2005037 cidad\u00e3os de dezoito pa\u00edses, ou seja, a amostra era realmente grande. \u00c9 um trabalho muito interessante que compara todo tipo de fatores: renda, cultura, sexo, idade. Mas o que agora me interessa, e por isso toco no assunto, \u00e9 que descobriram que estar separado ou divorciado aumenta o risco de sofrer depress\u00f5es agudas em doze dos pa\u00edses, enquanto ser vi\u00favo ou vi\u00fava tem menos influ\u00eancia em quase todos os lugares. Achei um dado incr\u00edvel, chocante, que parece ir na contram\u00e3o do que observamos e achamos l\u00f3gico. Mas, se n\u00e3o se tratar de um erro e se for assim mesmo, o que isso significa? Que os separados ou divorciados se sentem fracassados? Que quando seu c\u00f4njuge morre, enquanto ainda \u00e9 seu c\u00f4njuge, voc\u00ea pode mitificar essa rela\u00e7\u00e3o, torn\u00e1-la eterna, consider\u00e1-la bemsucedida? Ser\u00e1 que essas malditas mortes podem gerar algum pequeno consolo, afinal de contas? (Montero 2019:71)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CRIATIVIDADE e SOFRIMENTO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A origem da criatividade est\u00e1 no sofrimento, o pr\u00f3prio e o alheio. A verdadeira dor \u00e9 inef\u00e1vel, nos deixa surdos e mudos, vai al\u00e9m de qualquer descri\u00e7\u00e3o e qualquer consolo. A verdadeira dor \u00e9 uma baleia grande demais para ser arpoada. (Montero 2019:29)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>A arte \u00e9 uma ferida feita de luz, dizia Georges Braque. Precisamos dessa luz, n\u00e3o apenas quem escreve, pinta ou comp\u00f5e m\u00fasicas, mas tamb\u00e9m aqueles que leem, veem quadros ou ouvem um concerto. Todos precisamos da beleza para que a vida nos seja suport\u00e1vel. Fernando Pessoa expressou isso muito bem: \u201cA literatura, como toda a arte, \u00e9 uma confiss\u00e3o de que a vida n\u00e3o basta\u201d. N\u00e3o, n\u00e3o basta. Por isso estou escrevendo este livro. Por isso voc\u00ea o est\u00e1 lendo. (Montero 2019:29)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>N\u00f3s, humanos, nos defendemos da dor sem sentido enfeitando-a com a sensatez da beleza. Esmagamos carv\u00e3o com as pr\u00f3prias m\u00e3os e \u00e0s vezes conseguimos fazer que pare\u00e7am diamantes. (Montero 2019:106)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>HOMENS e MULHERES<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[N]ossas m\u00e3es viveram tolhidas pelo machismo, mas conseguiram vislumbrar a mudan\u00e7a social que ocorria diante dos seus olhos, embora j\u00e1 n\u00e3o pudessem se beneficiar dela. Que frustrante deve ter sido para elas n\u00e3o poder gozar das liberdades dos novos tempos por uma margem t\u00e3o pequena! \u201c\u00c9 que eu nasci cedo demais\u201d, \u201c\u00c9 que eu deveria ter trinta anos a menos\u201d: perdi a conta de quantas vezes ouvi aquelas mulheres repetirem essas frases. Ent\u00e3o elas criaram suas filhas, v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es de filhas, movidas por essa raiva e essa dor. E encheram nossos ouvidos com seus amargos, por\u00e9m hipnotizantes, sussurros; com palavras incandescentes como chumbo l\u00edquido: \u201cN\u00e3o tenha filhos, n\u00e3o seja como eu, n\u00e3o vire prisioneira da vida dom\u00e9stica, seja livre, independente, fa\u00e7a por mim tudo o que eu n\u00e3o pude fazer\u201d. E n\u00f3s, \u00e9 claro, obedecemos: milhares de espanholas (e italianas) prescindiram dos filhos. #honraram\u00e3e. [&#8230;] Agora que penso nisso, aquela inflamada ordem materna seria o mesmo que dizer: n\u00e3o seja t\u00e3o mulher. N\u00e3o seja t\u00e3o <em>feminina<\/em>. Ou n\u00e3o seja tanto quanto eu fui. Seja outro tipo de mulher. Seja uma #mutante. Essa f\u00eamea sem lugar, ou em busca de outro #lugar. (Montero 2019:36-7)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>As mulheres padecem da maldita s\u00edndrome da reden\u00e7\u00e3o. [&#8230;] Acho que os homens, por sua vez, costumam ser mais saud\u00e1veis nesse ponto e s\u00e3o capazes de nos amar pelo que realmente somos. N\u00e3o nos idealizam tanto, provavelmente porque n\u00e3o t\u00eam tanta necessidade (durante s\u00e9culos o amor foi a \u00fanica paix\u00e3o permitida \u00e0s mulheres, enquanto os homens podiam se apaixonar por muitas outras coisas), ou talvez n\u00e3o tenham tanta imagina\u00e7\u00e3o. O fato \u00e9 que eles nos olham e nos veem, enquanto n\u00f3s olhamos para eles e, no calor da paix\u00e3o \u00e0 primeira vista, o que vemos \u00e9 uma fabulosa quimera. H\u00e1 uma frase genial de um comediante franc\u00eas chamado Arthur que diz: \u201cO problema dos casais \u00e9 que as mulheres se casam pensando que eles v\u00e3o mudar, enquanto os homens se casam pensando que elas nunca v\u00e3o mudar\u201d. Que tremenda lucidez e que tiro na mosca! A imensa maioria de n\u00f3s est\u00e1 empenhada em mudar o amado para que se adapte aos nossos sonhos grandiosos. Achamos que, se o curarmos das suas supostas feridas, nosso amado idealizado emergir\u00e1 em todo o seu resplendor. As hist\u00f3rias infantis, t\u00e3o s\u00e1bias, dizem isso claramente: passamos a vida beijando sapos, convencidas de que podemos transform\u00e1-los em pr\u00edncipes encantados. [&#8230;] Mas sapos s\u00e3o sapos, coitadinhos. Ningu\u00e9m pode mudar ningu\u00e9m, e \u00e9 profundamente injusto exigir que um batr\u00e1quio se transforme em outra coisa. De modo que, quando o tempo passa e vemos que nosso homem n\u00e3o vira super-homem, come\u00e7amos a sentir uma frustra\u00e7\u00e3o e um rancor insanos. Apagamos o brilho dos nossos olhos, aqueles refletores com que antes costum\u00e1vamos ilumin\u00e1-los como se fossem as estrelas do nosso filme, e passamos a olh\u00e1-los com desprezo e desilus\u00e3o, como se fossem carrapatos. Quando Arthur diz que os homens pensam que n\u00e3o vamos mudar, n\u00e3o se refere a ficarmos bundudas ou cheias de celulite, mas sim a ou de cuidar deles como se fossem deuses, a destruirmos a vida a dois com discuss\u00f5es amargas. \u00c0s vezes esse processo de desencanto \u00e9 t\u00e3o feroz que a conviv\u00eancia se transforma num inferno para ambos. Patricia Highsmith, formid\u00e1vel domadora de dem\u00f4nios, reflete essa cruel transforma\u00e7\u00e3o do amor em \u00f3dio em v\u00e1rios dos seus romances, mas sobretudo no desolador <em>\u00c1guas profundas<\/em>. Em contrapartida, acho que desde o princ\u00edpio somos para eles umas r\u00e3zinhas encantadoras. Nisso s\u00e3o menos exigentes, mais generosos. Invejo a naturalidade com que nos veem e nos desejam. (Montero 2019:56-8)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>INTIMIDADE<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>N\u00e3o h\u00e1 nada rid\u00edculo na #intimidade, n\u00e3o h\u00e1 nada escatol\u00f3gico nem repudi\u00e1vel nesse lento fogo dom\u00e9stico de suor e febre, de ranhos e espirros, de peidos e roncos. Bem, estes \u00faltimos costumam ser motivo de muitas brigas, mas mesmo a isso voc\u00ea acaba se habituan do. A #intimidade: n\u00e3o ter muito claro onde voc\u00ea termina e o outro come\u00e7a. E saber tudo daquela pessoa, ou ao menos saber tanto. (Montero 2019:64)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>FILHOS e EGO\u00cdSMO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Eu n\u00e3o tive filhos [&#8230;]. Na verdade, \u00e0s vezes lamento n\u00e3o t\u00ea-los tido, porque procriar \u00e9 um passo da maturidade f\u00edsica e ps\u00edquica: s\u00f3 esse amor absoluto e cintilante que os pais sentem pelos filhos permite superar o ego\u00edsmo individual que faz voc\u00ea colocar a pr\u00f3pria integridade acima de tudo. Quero dizer que os pais s\u00e3o capazes de morrer pelas suas crian\u00e7as: \u00e9 um imperativo gen\u00e9tico, um recurso de sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie, mas tamb\u00e9m um gesto do cora\u00e7\u00e3o que faz voc\u00ea ficar mais completo, mais humano. N\u00f3s que n\u00e3o temos filhos nunca cresceremos tanto assim. Eu n\u00e3o morreria por ningu\u00e9m. Uma pena. (Montero 2019:68-9)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O MILAGRE PIERRE-MARIE<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Pierre disse \u00e0 Marie que, se permanecera solteiro at\u00e9 os 36 anos, era porque n\u00e3o acreditava na possibilidade de um casamento que respeitasse o que para ele era uma prioridade absoluta, a entrega \u00e0 Ci\u00eancia. Em Marie, no entanto, encontrara sua alma g\u00eamea. De fato, no come\u00e7o da rela\u00e7\u00e3o, em vez de mandar a ela um buqu\u00ea de flores ou bombons, Pierre lhe enviou uma c\u00f3pia do seu \u00faltimo trabalho, intitulado \u201cSobre a simetria dos fen\u00f4menos f\u00edsicos: Simetria de um campo el\u00e9trico e de um campo magn\u00e9tico\u201d, que, convenhamos, n\u00e3o \u00e9 um tema que qualquer garota ache fascinante. [&#8230;] Mas Marie achava. E n\u00e3o s\u00f3: entendia do assunto, o que j\u00e1 era sem d\u00favida admir\u00e1vel. Sempre me encantaram essas sintonias, essas extraordin\u00e1rias #coincid\u00eancias do destino que de tempos em tempos a vida nos concede quando se torna magn\u00e2nima, e que fazem com que, na imensid\u00e3o do mundo, dois seres de dif\u00edcil adaptabilidade se unam, como neste caso: duas mentes superdotadas, duas pessoas #esquisitas, solit\u00e1rias, de intensa e ut\u00f3pica entrega, apaixonadas pela Ci\u00eancia, de idades parecidas, do sexo oposto, sendo heterossexuais, as duas sentimentalmente desimpedidas no momento do encontro, ambas na idade ideal (porque podiam ter se conhecido idosos ou crian\u00e7as) e, ainda por cima, atra\u00eddas sexualmente uma pela outra! N\u00e3o \u00e9 um milagre? Pois, para al\u00e9m dos horrores que tanto chamam a nossa aten\u00e7\u00e3o, a vida tamb\u00e9m est\u00e1 cheia desses prod\u00edgios. (Montero 2019:84)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>PIERRE SOCI\u00d3LOGO DA FOR\u00c7A<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Pierre Curie explicou esse dilema entre convic\u00e7\u00e3o e conformismo com sua l\u00f3gica formid\u00e1vel e transparente: [&#8230;] \u201cPrecisamos ganhar a vida e isso nos obriga a nos transformar numa engrenagem da m\u00e1quina. O mais doloroso s\u00e3o as concess\u00f5es que nos vemos for\u00e7ados a fazer aos preconceitos da sociedade em que vivemos. Devemos fazer mais ou menos concess\u00f5es conforme nos sentimos mais fracos ou mais fortes. Se voc\u00ea n\u00e3o faz concess\u00f5es suficientes, o oprimem; se faz em demasia, \u00e9 ign\u00f3bil e menospreza a si pr\u00f3prio.\u201d [&#8230;] Imposs\u00edvel express\u00e1-lo melhor. A vida mancha. (Montero 2019:167)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A EXCEPCIONALIDADE DE MARIE CURIE<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Marie Curie n\u00e3o foi apenas a primeira mulher a receber um pr\u00eamio Nobel e a \u00fanica a receber dois, mas a primeira a se formar em Ci\u00eancias na Sorbonne, a primeira a se doutorar em Ci\u00eancias na Fran\u00e7a, a primeira a ter uma c\u00e1tedra\u2026 Foi a primeira em tantas frentes que \u00e9 imposs\u00edvel enumer\u00e1-las. Uma pioneira absoluta. Um ser diferente. Tamb\u00e9m foi a primeira mulher a ser enterrada pelos seus pr\u00f3prios m\u00e9ritos no Pante\u00e3o dos Homens Ilustres [sic] de Paris. Seus restos foram transladados para l\u00e1 no dia 26 de abril de 1995 com toda a pompa e circunst\u00e2ncia (ali\u00e1s, no Pante\u00e3o tamb\u00e9m est\u00e3o Pierre Curie e Paul Langevin, respectivamente marido e amante de Marie), e o discurso do presidente Mitterrand, na \u00e9poca j\u00e1 muito doente, enfatizou \u201ca luta exemplar de uma mulher\u201d numa sociedade em que \u201cas atividades intelectuais e as responsabilidades p\u00fablicas eram reservadas aos homens\u201d. Eram, ele disse. Como se essas desigualdades j\u00e1 tivessem sido completamente superadas no mundo contempor\u00e2neo. Mas Marie Curie continua sendo a \u00fanica mulher enterrada no Pante\u00e3o; e o Pante\u00e3o ainda \u00e9 chamado, como se pode imaginar, de Homens Ilustres. Como aquela polonesa sem apoio nem dinheiro conquistou tudo isso, t\u00e3o cedo, t\u00e3o s\u00f3, em circunst\u00e2ncias t\u00e3o desfavor\u00e1veis? Foi uma mulher in\u00e9dita. Uma guerreira. Uma #mutante. Por isso \u00e9 que estava sempre t\u00e3o s\u00e9ria, t\u00e3o triste? Por isso exibia aquela express\u00e3o t\u00e3o tr\u00e1gica em todas as suas fotos? Inclusive nas instant\u00e2neas, que, como a seguinte, s\u00e3o anteriores \u00e0 sua viuvez. (Montero 2019:19-20)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>UMA INTUI\u00c7\u00c3O GENIAL (e seu aparato experimental)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Os raios invis\u00edveis que Becquerel descobrira, sobre os quais Marie havia se proposto a escrever sua tese, tinham a propriedade de fazer com que o ar ao redor conduzisse eletricidade, e ocorreu a Madame Curie medir o grau de eletrifica\u00e7\u00e3o do ar para estudar o fen\u00f4meno. Por que teve semelhante ideia? Foi uma intui\u00e7\u00e3o genial, fruto do seu talento, mas \u00e9 prov\u00e1vel que tamb\u00e9m tenha influenciado o fato de um dos aparelhos inventados por Pierre [junto com seu irm\u00e3o] Jacques, ser o eletr\u00f4metro piezoel\u00e9trico de quartzo, que servia justamente para fazer com enorme precis\u00e3o essas medi\u00e7\u00f5es muito sutis. Parece que era um instrumento diabolicamente dif\u00edcil de utilizar, mas Pierre ensinou sua esposa e Marie aprendeu com aquele perfeccionismo obstinado e obsessivo que a caracterizava. Mesmo com as m\u00e3os duras de frio, ela era fant\u00e1stica. (Montero 2019:89-90)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>MARIE BRUXA BOA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>No p\u00e1tio do galp\u00e3o, aquela mulher magra, que durante um dia inteiro mal comia metade de uma salsicha, arrastava de um lado para outro cargas de vinte quilos e mexia caldeir\u00f5es enormes de mineral fervente com uma barra de ferro pesada quase maior do que ela. Era uma bruxa boa, uma feiticeira do bem. Passou tr\u00eas longos e extenuantes anos fazendo isso, e no final conseguiu extrair o r\u00e1dio, que era como um daqueles esp\u00edritos das hist\u00f3rias infantis, uma subst\u00e2ncia \u00ednfima flamejando com um brilho verde-azulado. Muito lindo, sem d\u00favida. Por\u00e9m mortal. (Montero 2019:91)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>MARIE CANSADA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Que dias mais cansativos, os de Madame Curie: al\u00e9m de cuidar da casa, estava fazendo um trabalho de investiga\u00e7\u00e3o sobre as propriedades magn\u00e9ticas do a\u00e7o, que haviam lhe oferecido por uns poucos francos (precisavam do dinheiro). Somado a isso, come\u00e7ou a prestar concursos para dar aulas no ensino m\u00e9dio, tamb\u00e9m por motivos financeiros. E \u00e0 noite assistia aulas sobre cristais para poder entender melhor o trabalho de Pierre (impressionante). Tudo isso, que j\u00e1 era muito, piorou em 1897, quando Marie engravidou de Ir\u00e8ne. Parece que teve uma gravidez horr\u00edvel, cheia de n\u00e1useas, embora, sempre obstinada, tentasse esquecer seu estado e trabalhar como se nada tivesse mudado. Mas em setembro, quando sua filha nasceu, as coisas chegaram a um ponto ca\u00f3tico: \u201cMarie se viu tendo de enfrentar uma grande quantidade de trabalho e ao mesmo tempo atender a menina. Essa importante quest\u00e3o passou despercebida ou foi minimizada em muitas biografias de Curie\u201d, diz, com toda raz\u00e3o, Barbara Goldsmith no seu magn\u00edfico livro sobre Marie. [&#8230;] Estava a ponto de perder a raz\u00e3o. Por sorte (pode-se dizer por sorte?), a m\u00e3e de Pierre faleceu muito oportunamente e seu vi\u00favo, que era um homem ador\u00e1vel, se mudou para a resid\u00eancia do casal e se dedicou a cuidar da menina. Como a vida \u00e9 estranha: talvez sem essa morte, esse traslado, esse bom sogro, Marie Curie nunca tivesse existido. (Montero 2019:86-7)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A MORTE DE MARIE<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Em maio de 1934, sua sa\u00fade prec\u00e1ria entrou em queda. Os m\u00e9dicos hesitavam: ser\u00e1 gripe, bronquite? Mandaram-na para um hospital de tuberculosos porque pensaram que tinha atingido um pulm\u00e3o. Morreu no dia 4 de julho, e este foi o diagn\u00f3stico final: \u201cAnemia apl\u00e1stica perniciosa com r\u00e1pida evolu\u00e7\u00e3o febril. A medula \u00f3ssea n\u00e3o reagiu, provavelmente porque fora prejudicada por um longo ac\u00famulo de radia\u00e7\u00f5es\u201d. No fim, o esplendoroso r\u00e1dio foi acusado num documento oficial de ser o assassino de Madame Curie. (Montero 2019:169)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CARRANCUDA?<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Como aquela polonesa sem apoio nem dinheiro conquistou tudo isso, t\u00e3o cedo, t\u00e3o s\u00f3, em circunst\u00e2ncias t\u00e3o desfavor\u00e1veis? Foi uma mulher in\u00e9dita. Uma guerreira. Uma #mutante. Por isso \u00e9 que estava sempre t\u00e3o s\u00e9ria, t\u00e3o triste? Por isso exibia aquela express\u00e3o t\u00e3o tr\u00e1gica em todas as suas fotos? Inclusive nas instant\u00e2neas, que, como a seguinte, s\u00e3o anteriores \u00e0 sua viuvez. (Montero 2019:20)<\/p><\/blockquote>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/pierre-e-marie-curie-post.png\" alt=\"\" \/><\/p>\n<blockquote><p>N\u00e3o consegui encontrar nenhuma foto de Marie Curie em que ela esteja sorrindo. [&#8230;] Seu retrato menos sisudo e \u00e1spero \u00e9 de um instant\u00e2neo que chamaram de \u201ca foto do casamento\u201d, tirado em 1895. Ali, se voc\u00ea olhar bem, algo parecido com uma lev\u00edssima distens\u00e3o parece insinuar-se na boca de Marie. Nada que possa ser chamado de sorriso, mas pelo menos seu rosto parece franco e quase alegre. (Montero 2019:31)<\/p><\/blockquote>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/pierre-et-marie-curie-1895-13901a51.png\" alt=\"\" \/><\/p>\n<blockquote><p>Em geral, o que mais predomina nos seus retratos \u00e9 um cenho persistente, uma testa amea\u00e7adora, uma boca contra\u00edda pelo esfor\u00e7o. \u00c9 o rosto de algu\u00e9m zangado com o mundo, ou, antes, de algu\u00e9m em plena batalha contra tudo. Mesmo na foto que provavelmente Marie apreciava mais, porque era a que Pierre mais gostava [nas palavras de Marie Curie para um Pierre j\u00e1 morto: \u201cmeu pequeno retrato de &#8216;jovem estudante muito s\u00e1bia&#8217;, como voc\u00ea dizia\u201d], ela aparece com uma express\u00e3o carrancuda. (Montero 2019:32)<\/p><\/blockquote>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Marie-Curie-1891-3208437a-58b74c7d3df78c060e227e29.png\" alt=\"\" \/><\/p>\n<blockquote><p>Sempre t\u00e3o s\u00e9ria. T\u00e3o triste. Ou talvez n\u00e3o? Seu semblante permanentemente austero n\u00e3o seria uma m\u00e1scara de defesa que j\u00e1 havia petrificado depois de tantos anos? Aquele cenho amea\u00e7ador, pr\u00f3prio de uma mulher que teve de derrubar tantas paredes a cabe\u00e7adas, n\u00e3o teria acabado se transformando num esgar, num trejeito? Sem falar na fadiga constante do seu corpo debilitado pela radia\u00e7\u00e3o. Deve ser dif\u00edcil sorrir quando se est\u00e1 sempre t\u00e3o cansada. Mas n\u00e3o esque\u00e7amos a mensagem de Natal que escreveu \u00e0 sua filha Ir\u00e8ne e a Fr\u00e9d\u00e8ric em dezembro de 1928. J\u00e1 citei uma parte, agora transcrevo mais algumas linhas: [&#8230;] \u201cDesejo-lhes um ano de sa\u00fade, satisfa\u00e7\u00f5es e bom trabalho, um ano em que sintam prazer de viver todos os dias, sem esperar que os dias tenham de passar para encontrar satisfa\u00e7\u00e3o e sem a necessidade de depositar expectativas de felicidade nos dias vindouros. Quanto mais se envelhece, mais se sente que saber gozar o presente \u00e9 um dom precioso, compar\u00e1vel a um estado de gra\u00e7a.\u201d [&#8230;] Parece a carta de algu\u00e9m amargurado? Muito pelo contr\u00e1rio: acho que, depois de uma vida batalhadora e t\u00e3o dif\u00edcil, de uma ambi\u00e7\u00e3o intensa e de uma responsabilidade avassaladora, Manya Sk\u0142odowska finalmente soube encontrar a #leveza. (Montero 2019:180-1)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MONTERO, Rosa. 2019. A rid\u00edcula ideia de nunca mais te ver. (Trad.: Mariana Sanchez) S\u00e3o Paulo: Todavia. CORPO Como \u00e9 dif\u00edcil a rela\u00e7\u00e3o com nosso organismo. Somos nosso corpo, mas n\u00e3o podemos evitar a sensa\u00e7\u00e3o de alteridade, de estranheza, de ref\u00e9ns da pr\u00f3pria carne. (Montero 2019:163) MORTE e LUTO Apenas em nascimentos e mortes \u00e9 que sa\u00edmos do tempo. 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