{"id":2471,"date":"2024-07-08T22:27:14","date_gmt":"2024-07-08T22:27:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=2471"},"modified":"2024-07-08T22:27:14","modified_gmt":"2024-07-08T22:27:14","slug":"liberar-uma-energia-de-desejo-guattari-1985-1977","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2024\/07\/08\/liberar-uma-energia-de-desejo-guattari-1985-1977\/","title":{"rendered":"Liberar uma energia de desejo&#8230; (Guattari 1985 [1977])"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o apenas somos equipados semioticamente para ir \u00e0 f\u00e1brica ou ao escrit\u00f3rio, como somos injetados, al\u00e9m disso, de uma s\u00e9rie de representa\u00e7\u00f5es inconscientes, tendendo a moldar nosso ego. Nosso inconsciente \u00e9 equipado para assegurar a sua cumplicidade com as forma\u00e7\u00f5es repressivas dominantes. A esta fun\u00e7\u00e3o generalizada de equipamentos que estratifica os pap\u00e9is, hierarquiza a sociedade, codifica os destinos, oporemos uma fun\u00e7\u00e3o de agenciamento coletivo do <em>socius<\/em> que n\u00e3o procura mais fazer com que as pessoas entrem nos quadros preestabelecidos, para adapt\u00e1-los a finalidades universais e eternas, mas sim que aceita o car\u00e1ter finito e delimitado historicamente dos empreendimentos humanos. \u00c9 sob esta condi\u00e7\u00e3o que as singuaridades do sesejo poder\u00e3o ser respeitadas. Tomemos o exemplo de Fernand Deligny em Cevennes [N. d[a] Trad.: Deligny \u00e9 o criador de uma comunidade agr\u00e1ria, na regi\u00e3o de Cevennes, para crian\u00e7as autistas, distante dos estabelecimentos especializados ou das experi\u00eancias da antipsiquiatria. Viver com crian\u00e7as autistas sem, por isso, &#8220;trat\u00e1-las&#8221; ou transformar-se em especialista. Os membros da comunidade n\u00e3o s\u00e3o necessariamente psic\u00f31ogos, m\u00e9dicos ou enfermeiros. O pr\u00f3prio Deligny \u00e9 professor prim\u00e1rio. Esta experi\u00eancia est\u00e1 documentada na revista <em>Recherches<\/em>, n<sup>o<\/sup>18, <em>Cahiers de l&#8217;immuable<\/em>, 1 e 2, abril de 1975, CERFI, e num filme de longa-metragem intitulado <em>Ce gamin l\u00e0<\/em>.]. Ele n\u00e3o criou ali uma institui\u00e7\u00e3o <em>para<\/em> crian\u00e7as autistas. Ele tornou poss\u00edvel que um grupo de adultos e de crian\u00e7as autistas pudessem viver juntos segundo seus pr\u00f3prios desejos. Ele agenciou uma economia coletiva de desejo articulando pessoas, gestos, circuitos econ\u00f4micos e relacionais, etc. \u00c9 muito diferente do que fazem geralmente os psic\u00f3logos e os educadores que t\u00eam, <em>a priori<\/em>, uma id\u00e9ia a respeito das diversas categorias de &#8220;inv\u00e1lidos&#8221;. O saber, aqui, n\u00e3o se constitui mais no poder que se ap\u00f3ia em todas as outras forma\u00e7\u00f5es repressivas. A \u00fanica maneira de &#8220;percutir&#8221; o inconsiente, de faz\u00ea-lo sair de sua rotina, \u00e9 dando ao desejo o meio de se exprimir no campo social. Manifestamente, Deligny gosta das pessoas chamadas de autistas. E estas sabem disso. Assim como aqueles que trabalham com ele. Tudo parte da\u00ed. E \u00e9 para a\u00ed que tudo volta. Desde que somos obrigados, por fun\u00e7\u00e3o, a cuidar dos outros, a &#8220;assist\u00ed-los&#8221;, uma esp\u00e9cie de rela\u00e7\u00e3o asc\u00e9tica sadomasoquista se institui, poluindo em profundidade as iniciativas aparentemente mais inocentes e mais desinteressadas. Imaginemos que &#8220;profissionais de autista&#8221;, como as pessoas do AMIPI [Nota: <em>Association d&#8217;Aide Maternelle et Intellectuelle pour les Personnes Inadapt\u00e9es<\/em> (Associa\u00e7\u00e3o de Ajuda Matema e Intelectual para Pessoas Desadaptadas). Ver a este prop\u00f3sito a nota de Charles Brisset, na revista <em>Autrement<\/em>, n<sup>o<\/sup>4, p.180.], se proponham a fazer &#8220;como Deligny&#8221;, imitando seus gestos, organizando nas mesmas condi\u00e7\u00f5es. O que \u00e9 que aconteceria? Eles n\u00e3o fariam mais do que &#8220;aprimorar&#8221; sua tecnologia microfascista, que at\u00e9 agora n\u00e3o tinha encontrado nada melhor do que se enfeitar com o prest\u00edgio &#8220;cient\u00edfico&#8221; do neobehaviorismo anglo-sax\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 ao n\u00edvel dos gestos, dos equipamentos, das institui\u00e7\u00f5es, que o verdadeiro metabolismo do desejo &#8211; por exemplo, o desejo de viver &#8211; encontrar\u00e1 seu caminho, mas sim no agenciamento de pessoas, de fun\u00e7\u00f5es de rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e sociais, voltado para uma <em>pol\u00edtica global de liberta\u00e7\u00e3o<\/em>. (Guattari 1985 [1977]:65-6)<\/p>\n<p>GUATTARI, F\u00e9lix. 1985 [1977]. <em>Revolu\u00e7\u00e3o molecular: pulsa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas do desejo<\/em>. (Trad.: Suely B. Rolnik) S\u00e3o Paulo: Brasiliense. <\/p>\n<p>[Imagem: Foto de Fernand Deligny e Janmari, em Cevennes em 1973, por Thierry Boccon-Gibod]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o apenas somos equipados semioticamente para ir \u00e0 f\u00e1brica ou ao escrit\u00f3rio, como somos injetados, al\u00e9m disso, de uma s\u00e9rie de representa\u00e7\u00f5es inconscientes, tendendo a moldar nosso ego. 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