{"id":2455,"date":"2024-06-01T18:31:04","date_gmt":"2024-06-01T18:31:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=2455"},"modified":"2024-06-28T21:42:02","modified_gmt":"2024-06-28T21:42:02","slug":"heroina-eletronica-preciado-2022","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2024\/06\/01\/heroina-eletronica-preciado-2022\/","title":{"rendered":"Hero\u00edna eletr\u00f4nica (Preciado 2022)"},"content":{"rendered":"<p>PRECIADO, Paul. 2023. Hero\u00edna eletr\u00f4nica. In: <em>Dysphoria mundi: o som do mundo desmoronando<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, pp.65-76. <\/p>\n<p><strong>V\u00cdCIO ELETR\u00d4NICO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Nos \u00faltimos quinze anos, o governo chin\u00eas especializou-se em criar uma s\u00e9rie de campos de reeduca\u00e7\u00e3o para \u201creabilitar\u201d um grupo cada vez mais numeroso do que eles denominam \u201cweb junkies\u201d, ou \u201cviciados em internet\u201d. Trata-se em sua maioria de adolescentes acusados pelos pais de abandono das tarefas escolares e dos deveres familiares, que passam entre oito e vinte horas consecutivas conectados \u00e0 internet, seja atrav\u00e9s do celular ou do computador \u2014 oito horas di\u00e1rias \u00e9 a m\u00e9dia de tempo de conex\u00e3o \u00e0 internet e \u00e0s redes sociais de um adolescente europeu ou americano. Xu Xiangyang, diretor do centro de educa\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o em Huainan, cidade situada 450 quil\u00f4metros ao norte de Shanghai, afirma que a internet funciona como uma esp\u00e9cie de \u201chero\u00edna eletr\u00f4nica\u201d, que produz no c\u00e9rebro um efeito qu\u00edmico altamente aditivo, semelhante ao que \u00e9 produzido pelo consumo de uma droga. Assim como os adictos qu\u00edmicos, aponta o instrutor, os adictos eletr\u00f4nicos n\u00e3o conseguem abandonar o \u201cv\u00ednculo\u201d com a subst\u00e2ncia\u201d sem um duro processo de reabilita\u00e7\u00e3o que, como no caso de uma droga, sup\u00f5e a priva\u00e7\u00e3o mais ou menos for\u00e7ada. Se as declara\u00e7\u00f5es de Xiangyang s\u00e3o interessantes \u00e9 porque reconhecem que a mat\u00e9ria que constitui a internet n\u00e3o \u00e9 algo externo e inerte, mas um fluxo que nos atravessa, uma \u201csubst\u00e2ncia eletr\u00f4nica\u201d que o c\u00e9rebro contempor\u00e2neo consome, da mesma forma que, no s\u00e9culo xvii, com a extens\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o \u00e0 leitura, passou a consumir \u201ctextos\u201d; a partir do s\u00e9culo xx, imagens fixas e em movimento; e, durante os s\u00e9culos do colonialismo industrial, a\u00e7\u00facar, carne, tabaco e \u00f3pio. A poucos quil\u00f4metros do centro de reabilita\u00e7\u00e3o de Huainan encontram-se as maiores f\u00e1bricas de produ\u00e7\u00e3o de microchips do mundo. Os que nos reabilitam s\u00e3o os mesmos que nos fisgam. (Preciado 2023:67-8)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>BURROUGHS como NIETZSCHE HEROIN\u00d4MANO NA ERA DA REPRODUTIBILIDADE T\u00c9CNICA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[A]pesar [de] tra\u00e7os que, por mais graves que sejam, n\u00e3o deixam de ser convencionais para um homem branco cis na cultura do p\u00f3s-guerra (misoginia, homofobia, estetiza\u00e7\u00e3o das armas e exalta\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia etc.), o consumo de peiote e de hero\u00edna transformaram seu c\u00e9rebro numa f\u00e1brica experimental que produziu algumas das inven\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias e pol\u00edticas mais prodigiosas do s\u00e9culo. Como se fosse um Nietzsche heroin\u00f4mano na era da reprodu\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica, Burroughs imaginou um ex\u00e9rcito de jovens com c\u00e2meras ocultas sob os casacos, infiltrando-se nos dormit\u00f3rios e banheiros dos pol\u00edticos para filmar inconfess\u00e1veis cenas sexuais, mas tamb\u00e9m para registrar seus arrotos e peidos, e sobretudo suas mentiras, para depois divulg\u00e1-las decupadas (<em>cut-up<\/em>), mo\u00eddas e misturadas com os gritos dos porcos nos matadouros, formando um magma t\u00e3o indigesto quanto libertador, capaz de fazer o fluxo repetitivo e falso da comunica\u00e7\u00e3o cultural entrar em curto-circuito. Para Burroughs, esses atos de sabotagem tinham um objetivo terap\u00eautico, quase org\u00e2nico; eram destinados a curar o corpo social: a comunica\u00e7\u00e3o de massas havia gerado uma forma de contamina\u00e7\u00e3o contra a qual s\u00f3 era poss\u00edvel lutar atrav\u00e9s de um <em>d\u00e9tournement<\/em> intencional das m\u00e1quinas de inscri\u00e7\u00e3o. A guerrilha eletr\u00f4nica era a \u00fanica que poderia, segundo o autor de <em>Almo\u00e7o nu<\/em>, \u201cliberar o v\u00edrus contido na palavra, promovendo assim o caos social\u201d.  (Preciado 2023:69)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>[A] escrita \u00e9 um v\u00edrus extraterrestre que infectou o corpo e, se n\u00e3o foi reconhecido como um v\u00edrus, foi \u201cporque alcan\u00e7ou um estado de simbiose com o h\u00f3spede\u201d. Como o v\u00edrus, a escrita \u00e9 uma entidade que desafia os limites entre o vivo e o morto, o org\u00e2nico e o inorg\u00e2nico: nem bact\u00e9ria nem puramente organismo, a linguagem penetra no corpo e usurpa as caracter\u00edsticas da vida. O v\u00edrus da escrita \u00e9, para Burroughs, uma pequena unidade de palavra e imagem ativada biologicamente para atuar como uma entidade viral comunic\u00e1vel. (Preciado 2023:70-1)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>[R]ecuperar a pot\u00eancia pol\u00edtica de pensar a linguagem como um parasita que coloniza nosso sistema nervoso. Ao encarar a linguagem como uma mat\u00e9ria pl\u00e1stica e org\u00e2nica capaz de circular do corpo humano para as m\u00e1quinas e vice-versa, Burroughs, pela m\u00e3o do artista conceitual Brion Gysin, formula duas intui\u00e7\u00f5es centrais para a filosofia contempor\u00e2nea, para pensar em tempos de covid, mas tamb\u00e9m de revolu\u00e7\u00e3o. A primeira \u00e9 que a comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 cont\u00e1gio. A teoria da performatividade da linguagem de Burroughs \u00e9 viral: escrever ou falar n\u00e3o \u00e9 transmitir informa\u00e7\u00e3o, mas contaminar. A escrita \u00e9 sempre infec\u00e7\u00e3o. Por isso \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil calar a voz interior que, como um febril burocrata kafkiano, n\u00e3o para de escrever num invis\u00edvel teclado bioqu\u00edmico dentro de nossas cabe\u00e7as. O corpo humano \u00e9 para Burroughs uma m\u00e1quina branda (<em>soft machine<\/em>) constantemente amea\u00e7ada pelos parasitas da linguagem, sendo por isso importante recorrer a pr\u00e1ticas meditativas e \u00e0 ingest\u00e3o de peiote ou ayahuasca como estrat\u00e9gias para \u201cdeter a m\u00e1quina\u201d de escrever instalada em nosso sistema neuronal. [&#8230;] A segunda intui\u00e7\u00e3o deriva precisamente de sua experi\u00eancia de mais de cinquenta anos como heroin\u00f4mano: a adi\u00e7\u00e3o \u00e9 o modelo org\u00e2nico que Burroughs prop\u00f5e para pensar a rela\u00e7\u00e3o do corpo contempor\u00e2neo com o poder. N\u00e3o entramos numa rela\u00e7\u00e3o de submiss\u00e3o ou de obedi\u00eancia com o poder, mas numa adi\u00e7\u00e3o. Segundo o direito romano arcaico, o <em>addictus<\/em> era o devedor insolvente que, por falta de pagamento, era entregue como escravo a seu credor, que tanto podia encarcer\u00e1-lo quanto vend\u00ea-lo ou inclusive mat\u00e1-lo. O <em>addictus<\/em> pagava suas d\u00edvidas atrav\u00e9s de sua <em>adi\u00e7\u00e3o<\/em> ao credor e, paradoxalmente, conservava o estatuto de cidad\u00e3o, embora perdesse a liberdade. D\u00edvida e adi\u00e7\u00e3o, em lugar de necessidade e desejo, s\u00e3o as for\u00e7as que constituem a subjetividade contempor\u00e2nea. (Preciado 2023:71-2)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>VICIADOS EM PODER e CAPITAL (p\u00edlula, microchip, g\u00eanero, reprodu\u00e7\u00e3o assistida e pornografia digital)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Nossa dificuldade para abandonar o capitalismo petrossexorracial [&#8230;] deriva de estarmos [&#8230;] numa rela\u00e7\u00e3o de adi\u00e7\u00e3o com o poder e o capital. A d\u00edvida transforma o cidad\u00e3o em adicto, no sentido legal do termo romano; ao mesmo tempo, a adi\u00e7\u00e3o opera dentro do seu organismo como uma esp\u00e9cie de d\u00edvida metab\u00f3lica. Somos corpos perpetuamente endividados e adictos das formas de consumo e distribui\u00e7\u00e3o de energia espec\u00edficas do capitalismo colonial da reprodu\u00e7\u00e3o heteropatriarcal (petr\u00f3leo, carv\u00e3o, g\u00e1s, glicose, \u00e1lcool, caf\u00e9, f\u00e1rmacos, tabaco etc.) e cibern\u00e9tica: c\u00f3digos semi\u00f3ticos, informa\u00e7\u00e3o, linguagem e imagens em movimento que se difundem e entram em nosso corpo atrav\u00e9s de circuitos eletroqu\u00edmicos\u2026 Mais, mais, mais. Sempre demais. Nunca suficiente. (Preciado 2023:72)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Estas defini\u00e7\u00f5es de comunica\u00e7\u00e3o como cont\u00e1gio e de poder como adi\u00e7\u00e3o s\u00e3o fundamentais para entender a muta\u00e7\u00e3o das tecnologias de governo no capitalismo farmacopornogr\u00e1fico, bem como as novas formas de dissid\u00eancia e antagonismo. Depois da Segunda Guerra Mundial, assistimos \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o das tecnologias da guerra em t\u00e9cnicas de gest\u00e3o do corpo e da comunica\u00e7\u00e3o.9 A Arpanet, uma rede de computadores criada para descentralizar a comunica\u00e7\u00e3o em caso de ataque nuclear aos Estados Unidos, transformou-se pouco a pouco na internet: um novo mercado global e, ao mesmo tempo, uma \u00e1gora virtual de comunica\u00e7\u00e3o. Por outro lado, os avan\u00e7os m\u00e9dicos, bioqu\u00edmicos e gen\u00e9ticos proporcionados pela pesquisa realizada durante o per\u00edodo das duas grandes guerras voltam-se agora, pela m\u00e3o da ind\u00fastria, para o corpo individual e para a produ\u00e7\u00e3o da subjetividade: modifica\u00e7\u00e3o dos afetos, do desejo, da sexualidade, da capacidade de produzir e reproduzir. A comercializa\u00e7\u00e3o em grande escala da p\u00edlula (este composto hormonal destinado a separar heterossexualidade e reprodu\u00e7\u00e3o \u00e9 o produto farmacol\u00f3gico mais produzido e consumido no mundo desde 1960), a miniaturiza\u00e7\u00e3o do computador e sua transforma\u00e7\u00e3o em tecnologia digital conectada e port\u00e1til, a inven\u00e7\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de g\u00eanero e de tecnologias de reprodu\u00e7\u00e3o assistida fora do \u00fatero e a transforma\u00e7\u00e3o da pornografia em cultura digital de massas s\u00e3o alguns dos indicadores desta muta\u00e7\u00e3o farmacopornogr\u00e1fica ainda em curso (Preciado 2023:72-3)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>VACINA REVOLUCION\u00c1RIA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A tarefa do escritor e do ativista \u00e9, para Burroughs, trabalhar a linguagem como inocula\u00e7\u00e3o, como vacina. Derrida teria dito <em>ph\u00e1rmakon<\/em>. Estamos doentes de linguagem e s\u00f3 podemos sarar atrav\u00e9s de um <em>d\u00e9tournement<\/em> intencional das m\u00e1quinas semi\u00f3ticas com as quais nos constru\u00edmos e aprendemos a dizer \u201ceu\u201d. Num mundo dominado pela infec\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica n\u00e3o pode haver diferen\u00e7a entre o poeta e o fil\u00f3sofo, entre o revolucion\u00e1rio e o experimentador conceitual; todos s\u00e3o, ou somos, contaminadores ou artistas diante da linguagem. A proposta de Burroughs \u00e9 que nos vacinemos, que sejamos inoculados com fragmentos de linguagem: trata-se de fortalecer a subjetividade contra as formas mais nocivas da linguagem \u2014 as palavras dos pol\u00edticos, dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, dos militares, dos psiquiatras, dos publicit\u00e1rios. Tendo isso em vista, Burroughs convidava seus concidad\u00e3os a reapropriar-se criticamente das m\u00e1quinas de inscri\u00e7\u00e3o (em sua \u00e9poca, gravadores e primeiras c\u00e2meras port\u00e1teis de v\u00eddeo) e a virar as m\u00e1quinas semi\u00f3ticas do poder contra si mesmas. (Preciado 2023:73-4)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>REVOLU\u00c7\u00c3O (smartphone como telecorpo)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[A]s ind\u00fastrias de telecomunica\u00e7\u00e3o e teleconsumo, \u00e1vidas por ampliar e globalizar sua clientela (aumentar o n\u00famero de \u201cadictos\u201d), disseminaram c\u00e2meras novas e mais potentes, moedoras e distribuidoras de linguagens entre aqueles corpos que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o haviam tido o direito de utilizar essas m\u00e1quinas de instru\u00e7\u00e3o: mulheres, crian\u00e7as, pessoas racializadas, imigrantes, homossexuais, pessoas com defici\u00eancia, trans, trabalhadores pobres\u2026 (Preciado 2023:74)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>A miniaturiza\u00e7\u00e3o das fun\u00e7\u00f5es inform\u00e1ticas permitiu a inven\u00e7\u00e3o, na segunda d\u00e9cada do novo mil\u00eanio, de um novo simbionte associado a um pequeno e relativamente acess\u00edvel dispositivo de consumo de massas: agregando ao telefone as fun\u00e7\u00f5es de gravador e c\u00e2mera port\u00e1til de v\u00eddeo, mas sobretudo conectado ao espa\u00e7o cibern\u00e9tico da internet, o smartphone transformou-se na \u201carma de longo alcance para misturar e anular linhas associativas estabelecidas pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massas\u201d10 com que sonhava Burroughs. O corpo individual era um objeto anat\u00f4mico do s\u00e9culo xv. A internet, um espa\u00e7o virtual caracter\u00edstico de fins do s\u00e9culo xx. At\u00e9 ent\u00e3o, existia entre eles um abismo ontol\u00f3gico. Eram duas modalidades de exist\u00eancia: anal\u00f3gica contra digital, org\u00e2nica contra inorg\u00e2nica, carbono contra sil\u00edcio, metabolismo da glicose contra consumo de energia el\u00e9trica. O smartphone \u00e9 a ponte eletr\u00f4nica que permite uni-las, criando uma nova forma de exist\u00eancia ciborgue. O telecorpo. [&#8230;] Uma insurrei\u00e7\u00e3o transciborgue j\u00e1 est\u00e1 em curso. (Preciado 2023:75)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>O que as ativistas do coletivo art\u00edstico vns Matrix chamaram de \u201cv\u00edrus da nova desordem mundial\u201d n\u00e3o era o sars-cov-2, mas sua pr\u00f3pria imagina\u00e7\u00e3o insurrecional propulsada pela rede cibern\u00e9tica e anunciada nos textos de Monique Wittig e Ursula K. Le Guin, na ciberfic\u00e7\u00e3o de Pat Cadigan e Octavia E. Butler, alimentada ao mesmo tempo pelo tecno e pelo rap, pela voz e pela eletricidade. [&#8230;] O <em>cut-up<\/em> de Darnella Frazier, a jovem que filmou e postou na internet o assassinato de George Floyd pela pol\u00edcia de Minneapolis, ultrapassa todas as conjecturas lis\u00e9rgicas de Burroughs. [&#8230;] Em Hong Kong, enquanto celulares se tornavam c\u00e2meras port\u00e1teis de autovigil\u00e2ncia por meio de aplicativos de reconhecimento facial, rastreamento e geolocaliza\u00e7\u00e3o, os pr\u00f3prios usu\u00e1rios come\u00e7aram a hackear os aplicativos de reconhecimento facial para filmar os rostos dos agentes que os agrediam e expor suas identidades publicamente.[&#8230;] E ent\u00e3o, em ondas agitadas, o mundo inteiro come\u00e7ou a gritar: milhares de adictos digitais, corpos disf\u00f3ricos armados apenas com celulares, deixaram a escurid\u00e3o brilhante da internet, sa\u00edram de suas jaulas cibern\u00e9ticas urbanas e se arrastaram pelas ruas, alucinando com sua hist\u00f3ria n\u00e3o contada e apagada, com sonhos, com pesadelos, expulsos das academias dos futuros desempregados, andando em dire\u00e7\u00e3o a fazendas verticais solit\u00e1rias, sabendo que n\u00e3o ter\u00e3o aposentadoria, sem buscar nada daquilo que lhes foi prometido pelos mais velhos, furiosos, tremendo, pacificamente, viraram seus telefones e filmaram a pol\u00edcia que os encurralava. [&#8230;] Agora, as m\u00e1quinas brandas, corpos adictos em agenciamento com as tecnologias farmacol\u00f3gicas e cibern\u00e9ticas, rebelam-se e gritam. O <em>cut-up<\/em> global est\u00e1 em marcha.\u201d (Preciado 2023:75-6)<\/p><\/blockquote>\n<p>Imagem gerada em https:\/\/deepdreamgenerator.com\/generate com o prompt &#8220;electronic heroin&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PRECIADO, Paul. 2023. Hero\u00edna eletr\u00f4nica. In: Dysphoria mundi: o som do mundo desmoronando. Rio de Janeiro: Zahar, pp.65-76. V\u00cdCIO ELETR\u00d4NICO Nos \u00faltimos quinze anos, o governo chin\u00eas especializou-se em criar uma s\u00e9rie de campos de reeduca\u00e7\u00e3o para \u201creabilitar\u201d um grupo cada vez mais numeroso do que eles denominam \u201cweb junkies\u201d, ou \u201cviciados em internet\u201d. 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