{"id":2349,"date":"2024-02-24T14:32:26","date_gmt":"2024-02-24T14:32:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=2349"},"modified":"2024-03-17T01:06:13","modified_gmt":"2024-03-17T01:06:13","slug":"big-other-capitalismo-de-vigilancia-e-civilizacao-informacional-em-zuboff-2018-2015","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2024\/02\/24\/big-other-capitalismo-de-vigilancia-e-civilizacao-informacional-em-zuboff-2018-2015\/","title":{"rendered":"Big Other, capitalismo de vigil\u00e2ncia e civiliza\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o em Zuboff (2018 [2015])"},"content":{"rendered":"<p>Zuboff, Shoshana. 2018 [2015]. \u201cBig other: capitalismo de vigil\u00e2ncia e perspectivas para uma civiliza\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o\u201d. Em: Fernanda Bruno, Bruno Cardoso, Marta Kanashiro, e Luciana Guilhon (eds.). <i>Tecnopol\u00edticas de Vigil\u00e2ncia: perspectivas da margem.<\/i> S\u00e3o Paulo: Boitempo, pp. 17\u201368.\u00a0 [\u201cBig Other: Surveillance Capitalism and the Prospects of an Information Civilization\u201d. <i>Journal of Information Technology<\/i> 30 (1): 75\u201389. <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1057\/jit.2015.5\">https:\/\/doi.org\/10.1057\/jit.2015.5<\/a>].<\/p>\n<h4 id=\"aparente-ag\u00eancia-algoritmica-nos-big-data-tida-como-aut\u00f4noma-destacada-do-social\">Aparente ag\u00eancia algoritmica nos big data (tida como aut\u00f4noma, destacada do social)<\/h4>\n<blockquote><p>O que essas duas afirma\u00e7\u00f5es [relat\u00f3rio da casa branca sobre prolifera\u00e7\u00e3o e controle dos dados, e afirma\u00e7\u00e3o do presidente da Google sobre reter dados do Google Search] compartilham \u00e9 a atribui\u00e7\u00e3o de ag\u00eancia \u00e0 \u201ctecnologia\u201d. O <em>big data<\/em> \u00e9 projetado como a consequ\u00eancia inevit\u00e1vel de um rolo compressor tecnol\u00f3gico que possui uma vida pr\u00f3pria totalmente exterior ao social. N\u00f3s somos apenas espectadores. (Zuboff 2018:\u00a017-8)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"origem-social-dos-big-data\">Origem social dos big data<\/h4>\n<blockquote><p>A maioria dos artigos sobre <em>big data<\/em> come\u00e7a por uma tentativa de definir a pr\u00f3pria express\u00e3o, o que indica que ainda n\u00e3o chegamos a uma defini\u00e7\u00e3o razo\u00e1vel para ela. Defendo que isso ocorre porque continuamos a ver o <em>big data<\/em> como um objeto, um efeito ou uma capacidade tecnol\u00f3gica. A inadequa\u00e7\u00e3o dessa percep\u00e7\u00e3o nos for\u00e7a a retornar sempre ao mesmo ponto. Neste artigo, adoto uma abordagem diferente, na qual o <em>big data<\/em> n\u00e3o \u00e9 uma tecnologia ou um efeito tecnol\u00f3gico inevit\u00e1vel. Tampouco \u00e9 um processo aut\u00f4nomo, como Eric Schmidt e outros querem que acreditemos. O <em>big data<\/em> tem origem no social, e \u00e9 ali que devemos encontr\u00e1-lo e estud\u00e1-lo. (Zuboff 2018:\u00a018)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"big-data-como-componente-fundamental-do-capitalismo-de-vigil\u00e2ncia---nova-l\u00f3gica-de-acumula\u00e7\u00e3o-capitalista\">Big data como componente fundamental do capitalismo de vigil\u00e2ncia &#8211; nova l\u00f3gica de acumula\u00e7\u00e3o capitalista<\/h4>\n<blockquote><p>Explorarei ent\u00e3o a proposta de que o <em>big data<\/em> \u00e9, acima de tudo, o componente fundamental de uma nova l\u00f3gica de acumula\u00e7\u00e3o, profundamente intencional e com importantes consequ\u00eancias, que chamo de <em>capitalismo de vigil\u00e2ncia<\/em>. (Zuboff 2018:\u00a018)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"objetivo-do-capitlismo-de-vigil\u00e2ncia-nova-forma-de-capitalismo-de-informa\u00e7\u00e3o-\u00e9-modular-comportamentos-produzir-lucro-e-controlar-o-mercado.\">Objetivo do capitlismo de vigil\u00e2ncia (nova forma de capitalismo de informa\u00e7\u00e3o) \u00e9 modular comportamentos, produzir lucro e controlar o mercado.<\/h4>\n<blockquote><p>Essa nova forma de capitalismo de informa\u00e7\u00e3o procura prever e modificar o comportamento humano como meio de produzir receitas e controle de mercado. (Zuboff 2018:\u00a018)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"origem-do-capitalismo-de-vigil\u00e2ncia-e-do-papel-dos-big-data-para-extra\u00e7\u00e3o-com-indiferen\u00e7a-formal-\u00e0s-popula\u00e7\u00f5es-fontealvo-na-\u00faltima-d\u00e9cada\">Origem do capitalismo de vigil\u00e2ncia (e do papel dos big data para extra\u00e7\u00e3o com indiferen\u00e7a formal \u00e0s popula\u00e7\u00f5es fonte\/alvo) na \u00faltima d\u00e9cada<\/h4>\n<blockquote><p>O capitalismo de vigil\u00e2ncia se formou gradualmente durante a \u00faltima d\u00e9cada, incorporando novas pol\u00edticas e rela\u00e7\u00f5es sociais que ainda n\u00e3o haviam sido bem delineadas ou teorizadas. Mesmo que o <em>big data<\/em> possa ser configurado para outros usos, estes n\u00e3o apagam suas origens em um projeto de extra\u00e7\u00e3o fundado na indiferen\u00e7a formal em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s popula\u00e7\u00f5es que conformam tanto sua fonte de dados quanto seus alvos finais. (Zuboff 2018:\u00a018)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"artigo-new-games-new-rules-como-refer\u00eancia-importante-para-abrir-a-caixa-preta-dos-big-data\">Artigo New games, new rules\u2019 como refer\u00eancia importante para \u201cabrir a caixa-preta\u201d dos big data<\/h4>\n<blockquote><p>Algumas pistas importantes para desvendarmos essa nova dire\u00e7\u00e3o s\u00e3o dadas por Constantiou e Kallinikos no artigo \u201cNew games, new rules: big data and the changing context of strategy\u201d3 , no qual desvelam a caixa-preta do <em>big data<\/em> para revelar os conte\u00fados epist\u00eamicos e suas problem\u00e1ticas inerentes. \u201cNew games\u201d \u00e9 uma contribui\u00e7\u00e3o potente e necess\u00e1ria para este territ\u00f3rio intelectual ainda opaco. (Zuboff 2018:\u00a018)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>O artigo toma por base avisos anteriores para delinear de forma penetrante as caracter\u00edsticas epist\u00eamicas do <em>big data<\/em> \u2013 heterog\u00eaneo, n\u00e3o estruturado, transemi\u00f3tico, descontextualizado, agn\u00f3stico \u2013 e para iluminar as descontinuidades epistemol\u00f3gicas que essas informa\u00e7\u00f5es implicam para os m\u00e9todos e mentalidades das conven\u00e7\u00f5es formais, dedutivas, introspectivas e positivistas das estrat\u00e9gias corporativas. (Zuboff 2018: 18-9)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"objetivo-do-artigo-contribuir-no-entendimento-dos-big-data-explorando-1-a-transforma\u00e7\u00e3o-da-cotidianidade-em-estrat\u00e9gia-de-comercializa\u00e7\u00e3o-2-o-ofuscamento-das-divis\u00f5es-3-a-natureza-da-empresa-e-sua-rela\u00e7\u00e3o-com-as-popula\u00e7\u00f5es\">Objetivo do artigo: contribuir no entendimento dos big data explorando 1) a transforma\u00e7\u00e3o da cotidianidade em estrat\u00e9gia de comercializa\u00e7\u00e3o 2) o ofuscamento das divis\u00f5es 3) a natureza da empresa e sua rela\u00e7\u00e3o com as popula\u00e7\u00f5es<\/h4>\n<blockquote><p>Minha inten\u00e7\u00e3o neste artigo \u00e9 contribuir com uma nova discuss\u00e3o sobre esses territ\u00f3rios ainda n\u00e3o teorizados, nos quais as ef\u00eameras misturas do <em>big data<\/em> de Constantiou e Kalliniki est\u00e3o incorporadas: a transforma\u00e7\u00e3o da cotidianidade em estrat\u00e9gia de comercializa\u00e7\u00e3o; o ofuscamento das divis\u00f5es; a natureza da empresa e sua rela\u00e7\u00e3o com as popula\u00e7\u00f5es. Come\u00e7o com uma breve revis\u00e3o de alguns conceitos fundamentais como base para os argumentos que vou apresentar. Passarei posteriormente a um exame detalhado de dois artigos do economista-chefe da Google, Hal Varian, que divulgam a l\u00f3gica e as implica\u00e7\u00f5es do capitalismo de vigil\u00e2ncia, bem como o papel fundamental do <em>big data<\/em> nesse novo regime. (Zuboff 2018:\u00a019)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"automa\u00e7\u00e3o-x-media\u00e7\u00e3o-por-computador.-produ\u00e7\u00e3o-de-informa\u00e7\u00e3o-pelas-tis.-diferen\u00e7a-entre-tecnologias-inteligentes-smart-ou-simples-dumb.\">Automa\u00e7\u00e3o x media\u00e7\u00e3o (por computador). Produ\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o pelas TIs. Diferen\u00e7a entre tecnologias inteligentes (smart) ou simples (dumb).<\/h4>\n<blockquote><p>Em 1981, desenvolvi a no\u00e7\u00e3o de \u201cmedia\u00e7\u00e3o por computador\u201d em um artigo intitulado \u201cPsychological and organizational implications of computer-mediated work\u201d5 . Tanto nesse artigo quanto em escritos subsequentes, distingui o trabalho \u201cmediado pelo computador\u201d da mecaniza\u00e7\u00e3o e automa\u00e7\u00e3o do trabalho t\u00edpicas das gera\u00e7\u00f5es anteriores, projetadas para simplificar ou at\u00e9 mesmo substituir o trabalho humano6 . Observei que a tecnologia de informa\u00e7\u00e3o \u00e9 caracterizada por uma dualidade fundamental que ainda n\u00e3o havia sido completamente apreciada. Ela podia ser aplicada para automatizar opera\u00e7\u00f5es de acordo com uma l\u00f3gica que pouco diferia daquela presente em s\u00e9culos anteriores: substituir o corpo humano por m\u00e1quinas que possibilitassem maior controle e continuidade. Por\u00e9m, na tecnologia de informa\u00e7\u00e3o, a automa\u00e7\u00e3o gera simultaneamente informa\u00e7\u00e3o que proporciona um n\u00edvel mais profundo de transpar\u00eancia a atividades que pareciam parcial ou totalmente opacas. A automa\u00e7\u00e3o n\u00e3o somente imp\u00f5e informa\u00e7\u00e3o (sob a forma de instru\u00e7\u00f5es programadas) mas tamb\u00e9m produz informa\u00e7\u00e3o. A a\u00e7\u00e3o de uma m\u00e1quina \u00e9 totalmente investida em seu objeto, mas a tecnologia de informa\u00e7\u00e3o reflete tanto em suas atividades quanto no sistema de atividades ao qual est\u00e1 relacionada. Isso produz a\u00e7\u00e3o ligada a uma voz reflexiva, pois a media\u00e7\u00e3o pelo computador representa simbolicamente eventos, objetos e processos, que se tornam vis\u00edveis, pass\u00edveis de serem conhecidos e compartilhados de uma nova maneira. Para simplificar, essa distin\u00e7\u00e3o marca a diferen\u00e7a entre \u201cinteligente\u201d e \u201csimples\u201d*. (Zuboff 2018:\u00a019-20)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>* A autora usa as palavras \u201csmart\u201d e \u201cdumb\u201d, que no campo das ci\u00eancias tecnol\u00f3gicas s\u00e3o utilizadas para diferenciar os dispositivos com mais recursos (smartphones) daqueles mais simples (dumbphones, telefones que s\u00f3 fazem chamadas). (N. T.) (Zuboff 2018: 20)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"capacidade-de-informatiza\u00e7\u00e3o-das-tis.-texto-eletr\u00f4nico-no-trabalho-mediado-por-computador.-divis\u00e3o-do-aprendizado-na-empresa.\">Capacidade de \u2018informatiza\u00e7\u00e3o\u2019 das TIs. Texto eletr\u00f4nico no trabalho mediado por computador. \u201cDivis\u00e3o do aprendizado\u201d na empresa.<\/h4>\n<blockquote><p>Para descrever essa capacidade peculiar, criei o termo \u201c<em>informate<\/em>\u201d**. Apenas a tecnologia de informa\u00e7\u00e3o possui a capacidade de automatizar e de <em>informatizar<\/em>. Como uma consequ\u00eancia do processo de <em>informatiza\u00e7\u00e3o<\/em>, o trabalho mediado pelo computador amplia a codifica\u00e7\u00e3o organizacional, resultando em uma abrangente textualiza\u00e7\u00e3o do ambiente de trabalho \u2013 o que chamei de \u201ctexto eletr\u00f4nico\u201d. Esse texto, por sua vez, criou novas oportunidades de aprendizado e, portanto, novas disputas sobre quem aprenderia, como e o qu\u00ea. A partir do momento em que uma empresa est\u00e1 imbu\u00edda da media\u00e7\u00e3o por computador, essa nova \u201cdivis\u00e3o de aprendizado\u201d se torna mais relevante do que a divis\u00e3o tradicional do trabalho. (Zuboff 2018: 20-1)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>O texto, mesmo nos anos 1980, est\u00e1gios iniciais desses desenvolvimentos, era um tanto heterog\u00eaneo e refletia os fluxos de produ\u00e7\u00e3o e os processos administrativos, assim como as interfaces de clientes, mas tamb\u00e9m revelava comportamentos humanos: chamadas telef\u00f4nicas, digita\u00e7\u00f5es, intervalos do trabalho e outros sinais de continuidades atencionais, a\u00e7\u00f5es, localiza\u00e7\u00f5es, conversa\u00e7\u00f5es, redes, compromissos espec\u00edficos com pessoas e equipamentos etc. (Zuboff 2018:\u00a021)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>** O termo \u201cinformate\u201d, em ingl\u00eas, \u00e9 um neologismo que re\u00fane as palavras \u201cinformar\u201d e \u201cautomatizar\u201d. Optamos por traduzi-lo como \u201cinformatizar\u201d para manter o sentido mais pr\u00f3ximo do proposto pela autora, ainda que n\u00e3o comporte a nuance presente no termo em ingl\u00eas. (N. T.) (Zuboff 2018:\u00a020)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"sobreposi\u00e7\u00e3o-entre-trabalho-e-aprendizado-na-contemporaneidade.-pr\u00e1ticas-institucionalizadas-e-informais\">Sobreposi\u00e7\u00e3o entre trabalho e aprendizado na contemporaneidade. Pr\u00e1ticas institucionalizadas e informais<\/h4>\n<blockquote><p>O aprendizado em tempo real, baseado em informa\u00e7\u00e3o e mediado pelo computador, tornou-se t\u00e3o end\u00f3geno para as atividades cotidianas dos neg\u00f3cios que os dois dom\u00ednios j\u00e1 se confundem, sendo aquilo que a maioria de n\u00f3s faz quando trabalha. Esses novos fatos est\u00e3o institucionalizados em milhares, se n\u00e3o milh\u00f5es, de novos tipos de a\u00e7\u00f5es dentro das organiza\u00e7\u00f5es. Algumas dessas a\u00e7\u00f5es s\u00e3o mais formais: metodologias de aperfei\u00e7oamento cont\u00ednuo, integra\u00e7\u00e3o empresarial, monitoramento de empregados, sistemas de tecnologia da informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o que proporcionam a coordena\u00e7\u00e3o global de opera\u00e7\u00f5es dispersas de manufatura, atividades profissionais, forma\u00e7\u00e3o de equipes de trabalho, informa\u00e7\u00f5es sobre clientes, cadeias de fornecedores, projetos inter-empresas, for\u00e7as de trabalho m\u00f3veis e tempor\u00e1rias e abordagens de <em>marketing<\/em> para diferentes configura\u00e7\u00f5es de consumidores. Outras s\u00e3o menos formais: o fluxo incessante de mensagens eletr\u00f4nicas, buscas <em>online<\/em>, atividades no <em>smartphone<\/em>, aplicativos, textos, videoconfer\u00eancias, intera\u00e7\u00f5es em redes sociais etc. (Zuboff 2018:\u00a021-2)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"divis\u00e3o-do-aprendizado-n\u00e3o-possui-forma-pura.-como-essas-quest\u00f5es-se-relacionam-retomar\">Divis\u00e3o do aprendizado n\u00e3o possui forma pura.<\/h4>\n<blockquote><p>A divis\u00e3o do aprendizado n\u00e3o possui uma forma pura, contudo. Ap\u00f3s vinte anos de pesquisa de campo, encontrei uma mesma li\u00e7\u00e3o com centenas de varia\u00e7\u00f5es. A divis\u00e3o do aprendizado, assim como a divis\u00e3o do trabalho, \u00e9 sempre conformada por disputas sobre as seguintes quest\u00f5es: Quem participa, e como? Quem decide quem participa? O que acontece quando a autoridade falha? Na esfera do mercado, o texto eletr\u00f4nico e o que se pode aprender a partir dele nunca foram nem podem ser \u201ccoisas em si\u201d. Eles est\u00e3o sempre j\u00e1 constitu\u00eddos pelas respostas a essas quest\u00f5es. Em outras palavras, eles j\u00e1 est\u00e3o incorporados no social, e suas possibilidades est\u00e3o circunscritas pela autoridade e pelo poder. (Zuboff 2018:\u00a022)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"l\u00f3gica-da-acumula\u00e7\u00e3o-pressuposta-no-texto-eletr\u00f4nico.-desta-forma-existe-uma-l\u00f3gica-invis\u00edvel-pressuposta-nas-tecnologias-e-que-\u00e9-tomado-como-dado-em-qualquer-modelo-de-neg\u00f3cio.\">L\u00f3gica da acumula\u00e7\u00e3o pressuposta no texto eletr\u00f4nico. Desta forma, existe uma l\u00f3gica invis\u00edvel pressuposta nas tecnologias e que \u00e9 tomado como dado em qualquer modelo de neg\u00f3cio.<\/h4>\n<blockquote><p>O ponto-chave aqui \u00e9 que o texto eletr\u00f4nico, quando estamos tratando da esfera do mercado, j\u00e1 se encontra organizado pela l\u00f3gica de acumula\u00e7\u00e3o na qual est\u00e1 incorporado, bem como pelos conflitos inerentes a essa l\u00f3gica. A l\u00f3gica de acumula\u00e7\u00e3o organiza a percep\u00e7\u00e3o e molda a express\u00e3o das capacidades tecnol\u00f3gicas em sua origem, sendo aquilo que j\u00e1 \u00e9 tomado como dado em qualquer modelo de neg\u00f3cio. Suas suposi\u00e7\u00f5es s\u00e3o amplamente t\u00e1citas e seu poder de moldar o campo das possibilidades \u00e9, ent\u00e3o, amplamente invis\u00edvel. Ela define objetivos, sucessos, fracassos e problemas, al\u00e9m de determinar o que \u00e9 mensurado e o que \u00e9 ignorado, o modo como recursos e pessoas s\u00e3o alocados e organizados, quem \u2013 e em quais fun\u00e7\u00f5es \u2013 \u00e9 valorizado, quais atividades s\u00e3o realizadas e com que prop\u00f3sitos. A l\u00f3gica de acumula\u00e7\u00e3o produz suas pr\u00f3prias rela\u00e7\u00f5es sociais e com elas suas concep\u00e7\u00f5es e seus usos de autoridade e poder. (Zuboff 2018:\u00a022)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"computa\u00e7\u00e3o-ub\u00edqua-como-truismo.-mundo-traduzido-em-uma-nova-dimens\u00e3o-simb\u00f3lica-dados.-texto-eletr\u00f4nico-universal-em-escala-e-escopo-.\">Computa\u00e7\u00e3o ub\u00edqua como truismo. Mundo traduzido em uma nova dimens\u00e3o simb\u00f3lica: dados. Texto eletr\u00f4nico universal em escala e escopo.<\/h4>\n<blockquote><p>De que forma esses blocos conceituais podem nos ajudar a tirar algum sentido do big data? Alguns pontos s\u00e3o \u00f3bvios: 3 bilh\u00f5es dos 7 bilh\u00f5es de pessoas do mundo t\u00eam uma ampla gama de atividades di\u00e1rias mediadas, muito al\u00e9m das fronteiras tradicionais do local de trabalho. Para elas, o antigo sonho da computa\u00e7\u00e3o ub\u00edqua12 \u00e9 um tru\u00edsmo que mal se nota. Como resultado da penetrante media\u00e7\u00e3o por computador, quase todos os aspectos do mundo s\u00e3o traduzidos em uma nova dimens\u00e3o simb\u00f3lica \u00e0 medida que eventos, objetos, processos e pessoas se tornam vis\u00edveis, cognosc\u00edveis e compartilh\u00e1veis de uma nova maneira. O mundo renasce como dados e o texto eletr\u00f4nico \u00e9 universal em escala e escopo13. (Zuboff 2018:\u00a023-4)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>13: Em 1986, calculamos a exist\u00eancia de 2,5 exabytes de informa\u00e7\u00e3o comprimida, dos quais somente 1% se encontrava digitalizado; M. Hilbert, \u201cTechnological information inequality as an incessantly moving target: the redistribution of information and communication capacities between 1986 and 2010\u201d, Journal of the American Society for Information Science and Technology, v. 65, n.\u00a04, 2013, p.\u00a0821-35. No ano 2000, somente 25% da informa\u00e7\u00e3o armazenada em todo o mundo era digital; V. Mayer-Scho\u0308nberger; K. Cukier, Big data: a revolution that will transform how we live, work, and think (Boston, Houghton Mifflin Harcourt K., 2013), p.\u00a09. J\u00e1 em 2007, calculamos 300 exabytes comprimidos de forma ideal com uma taxa de 94% de digitaliza\u00e7\u00e3o; M. Hilbert, \u201cTechnological information inequality as an incessantly moving target\u201d, cit. A digitaliza\u00e7\u00e3o e a datafica\u00e7\u00e3o (o programa que permite a computadores e algoritmos processar e analisar dados brutos), junto com o desenvolvimento de tecnologias de armazenamento mais baratas, produziram 1.200 exabytes de dados armazenados no mundo com uma taxa de 98% de conte\u00fado digital; V. Mayer-Scho\u0308nberger; K. Cukier, Big data, cit., p.\u00a09. (Zuboff 2018:\u00a024)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"civiliza\u00e7\u00e3o-da-informa\u00e7\u00e3o-aspecto-global-dessa-l\u00f3gica-de-acumula\u00e7\u00e3o-baseada-em-dados.\">Civiliza\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o: aspecto global dessa l\u00f3gica de acumula\u00e7\u00e3o baseada em dados.<\/h4>\n<blockquote><p>H\u00e1 n\u00e3o muito tempo, ainda parecia razo\u00e1vel concentrar nossas preocupa\u00e7\u00f5es nos desafios de um local de trabalho informacional ou de uma sociedade da informa\u00e7\u00e3o. Agora, as quest\u00f5es persistentes de autoridade e poder devem ser direcionadas ao quadro mais amplo poss\u00edvel, mais bem definido como civiliza\u00e7\u00e3o ou, especificamente, civiliza\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o. Quem aprende com os fluxos de dados globais, como e o qu\u00ea? Quem decide? O que acontece quando a autoridade falha? Qual l\u00f3gica de acumula\u00e7\u00e3o moldar\u00e1 as respostas a essas perguntas? Reconhecer sua escala civilizacional confere for\u00e7a e urg\u00eancia a essas novas quest\u00f5es. Suas respostas moldar\u00e3o o car\u00e1ter da civiliza\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o ao longo deste s\u00e9culo, assim como a l\u00f3gica do capitalismo industrial e seus sucessores moldaram o car\u00e1ter da civiliza\u00e7\u00e3o industrial nos \u00faltimos dois s\u00e9culos. (Zuboff 2018:\u00a024)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"objetivo-do-artigo-explicitar-uma-l\u00f3gica-emergente-de-acumula\u00e7\u00e3o-hegem\u00f4nica.-a-google-como-foco-pioneira-em-big-data-e-no-capitalismo-de-vigil\u00e2ncia.\">Objetivo do artigo: explicitar uma l\u00f3gica emergente de acumula\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica. A Google como foco (pioneira em <em>big data<\/em> e no capitalismo de vigil\u00e2ncia).<\/h4>\n<blockquote><p>Minha ambi\u00e7\u00e3o neste artigo \u00e9 dar in\u00edcio \u00e0 tarefa de iluminar uma l\u00f3gica emergente de acumula\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica nos espa\u00e7os interconectados atuais. O foco dessa explora\u00e7\u00e3o \u00e9 o Google, o servi\u00e7o de busca mais popular do mundo. <strong>A Google* \u00e9 considerada por muitos como a pioneira do _big data_14 e com a for\u00e7a desses feitos tamb\u00e9m foi pioneira na l\u00f3gica de acumula\u00e7\u00e3o mais ampla que denomino de capitalismo de vigil\u00e2ncia, da qual o <em>big data<\/em> \u00e9 tanto uma condi\u00e7\u00e3o quanto uma express\u00e3o.<\/strong> (Zuboff 2018: 24-5)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>* Ao longo do artigo, o servi\u00e7o de buscas que funciona a partir de um site ser\u00e1 tratado no masculino (\u201co Google\u201d), enquanto a empresa que criou e gere esse servi\u00e7o de buscas e muitos outros dos mais importantes neg\u00f3cios da internet ser\u00e1 referida no g\u00eanero feminino (\u201ca Google\u201d). (N. T.) (Zuboff 2018: 24)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"capitalismo-de-vigil\u00e2ncia-como-l\u00f3gica-emergente-e-modelo-padr\u00e3o-de-startups-online.\">Capitalismo de vigil\u00e2ncia como l\u00f3gica emergente e modelo-padr\u00e3o de startups online.<\/h4>\n<blockquote><p>Essa l\u00f3gica emergente n\u00e3o apenas \u00e9 compartilhada pelo Facebook e outras grandes empresas <em>online<\/em> mas parece ter se tornado o modelo-padr\u00e3o para a maior parte das <em>startups<\/em> <em>online<\/em> e aplicativos. (Zuboff 2018:\u00a025)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"foco-de-an\u00e1lise-documentos-de-hal-varian-economista-da-google\">Foco de an\u00e1lise: documentos de Hal Varian, economista da Google<\/h4>\n<blockquote><p>A discuss\u00e3o apresentada neste artigo \u00e9 orientada por dois documentos extraordin\u00e1rios escritos por Hal Varian, economista-chefe da Google16. Suas observa\u00e7\u00f5es e afirma\u00e7\u00f5es nos oferecem um ponto de partida para a compreens\u00e3o da l\u00f3gica sist\u00eamica da acumula\u00e7\u00e3o na qual o <em>big data<\/em> est\u00e1 incorporado. Ressalto que, mesmo que Varian n\u00e3o seja um executivo de linha da Google, seus artigos nos convidam a uma inspe\u00e7\u00e3o bem pr\u00f3xima das pr\u00e1ticas da empresa, que s\u00e3o exemplares dessa nova l\u00f3gica de acumula\u00e7\u00e3o. Varian ilumina seus argumentos com exemplos retirados da Google nesses dois escritos, muitas vezes utilizando a primeira pessoa no plural, como nas seguintes passagens: \u201cA Google tem obtido muito sucesso a partir de nossos experimentos, a ponto de os disponibilizarmos para nossos anunciantes e editores em dois programas\u201d, [\u2026] (Zuboff 2018: 25)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Parece justo supor, portanto, que as perspectivas de Varian refletem a subst\u00e2ncia das pr\u00e1ticas de neg\u00f3cios da Google e, at\u00e9 certo ponto, a vis\u00e3o de mundo que est\u00e1 subjacente a essas pr\u00e1ticas. (Zuboff 2018: 25)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"tema-dos-documentos-de-varian-transa\u00e7\u00f5es-mediadas-por-computador\">Tema dos documentos de Varian: transa\u00e7\u00f5es mediadas por computador<\/h4>\n<blockquote><p>Nos dois artigos que examino aqui, o principal assunto tratado por Varian \u00e9 a universalidade das \u201ctransa\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas mediadas por computador\u201d. Ele escreve: \u201cO computador cria um registro da transa\u00e7\u00e3o [\u2026]. Eu argumento que essas transa\u00e7\u00f5es mediadas por computador permitiram melhorias significativas na forma como as transa\u00e7\u00f5es s\u00e3o realizadas e continuar\u00e3o a impactar a economia no futuro que prevemos\u201d18. (Zuboff 2018:\u00a025-6)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"diferen\u00e7as-dessa-nova-ordem-cognosc\u00edvel-pra-quem-em-rela\u00e7\u00e3o-ao-ideal-de-mercado-neoliberal-em-hayek\">Diferen\u00e7as dessa nova ordem cognosc\u00edvel em rela\u00e7\u00e3o ao ideal de mercado neoliberal em Hayek<\/h4>\n<blockquote><p>A <em>informatiza\u00e7\u00e3o<\/em> da economia, como ele observa, \u00e9 constitu\u00edda por um registro persistente e cont\u00ednuo dos detalhes de cada transa\u00e7\u00e3o. Nessa vis\u00e3o, a media\u00e7\u00e3o por computador torna a economia transparente e cognosc\u00edvel de novas maneiras. Isso se configura como um contraste marcante com o cl\u00e1ssico ideal neoliberal do \u201cmercado\u201d como intrinsecamente inef\u00e1vel e incognosc\u00edvel. Na concep\u00e7\u00e3o de Hayek, o mercado seria como uma \u201cordem ampliada\u201d incompreens\u00edvel \u00e0 qual os meros indiv\u00edduos devem subjugar suas vontades19. Foi precisamente a impossibilidade de conhecimento do universo das transa\u00e7\u00f5es de mercado que ancorou as reivindica\u00e7\u00f5es de Hayek quanto \u00e0 necessidade de liberdade radical da interven\u00e7\u00e3o ou de regula\u00e7\u00e3o por parte do Estado. (Zuboff 2018:\u00a026)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"novos-usos-a-partir-de-transa\u00e7\u00f5es-mediadas-por-computador-1-transa\u00e7\u00e3o-e-an\u00e1lise-de-dados-2-novas-formas-contratuais-devido-a-um-melhor-monitoramento-3-personaliza\u00e7\u00e3o-e-customiza\u00e7\u00e3o-4-experimentos-cont\u00ednuos\">Novos \u2018usos\u2019 a partir de transa\u00e7\u00f5es mediadas por computador: 1) transa\u00e7\u00e3o e an\u00e1lise de dados 2) novas formas contratuais devido a um melhor monitoramento 3) personaliza\u00e7\u00e3o e customiza\u00e7\u00e3o 4) experimentos cont\u00ednuos<\/h4>\n<blockquote><p>Diante dos novos fatos a respeito de um mercado cognosc\u00edvel, Varian afirma quatro novos \u201cusos\u201d que se seguem a transa\u00e7\u00f5es mediadas por computador: \u201cextra\u00e7\u00e3o e an\u00e1lise de dados\u201d, \u201cnovas formas contratuais devido a um melhor monitoramento\u201d, \u201cpersonaliza\u00e7\u00e3o e customiza\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cexperimentos cont\u00ednuos\u201d20. Cada um deles possibilita <em>insights<\/em> sobre uma l\u00f3gica emergente de acumula\u00e7\u00e3o, a divis\u00e3o de aprendizagem que ela forma e o car\u00e1ter da civiliza\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o para a qual ela conduz. (Zuboff 2018: 26)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"origem-dos-dados-transa\u00e7\u00f5es-econ\u00f4micas-sistemas-institucionais-e-outros-fluxos-mediados-por-computador-sensores-computa\u00e7\u00e3o-ub\u00edqua\">Origem dos dados: transa\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, sistemas institucionais e outros fluxos mediados por computador (sensores, computa\u00e7\u00e3o ub\u00edqua)<\/h4>\n<blockquote><p>Os dados derivados de transa\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas mediadas por computadores constituem uma dimens\u00e3o significativa do <em>big data<\/em>. Existem, entretanto, outras fontes, incluindo fluxos que surgem de uma variedade de sistemas institucionais e transinstitucionais mediados por computador. Podemos incluir junto a estes uma segunda fonte de <strong>fluxos mediados por computador, que dever\u00e1 crescer exponencialmente: dados de bilh\u00f5es de sensores incorporados em uma ampla gama de objetos, corpos e lugares<\/strong>. (Zuboff 2018:\u00a027)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"internet-of-everything\">Internet of Everything<\/h4>\n<blockquote><p>Um relat\u00f3rio bastante citado da Cisco prev\u00ea um novo valor agregado de US$14,4 trilh\u00f5es \u00e0 \u201cinternet de todas as coisas\u201d22. (Zuboff 2018: 27)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"google-e-a-cria\u00e7\u00e3o-de-uma-nova-infraestrutura-inteligente-para-corpos-e-objetos\">Google e a cria\u00e7\u00e3o de uma \u201cnova infraestrutura inteligente para corpos e objetos\u201d<\/h4>\n<blockquote><p>Os novos investimentos da Google em **<em>machine learning<\/em>*, <em>drones<\/em>, dispositivos vest\u00edveis, carros automatizados, nanopart\u00edculas que patrulham o corpo procurando por sinais de doen\u00e7as e dispositivos inteligentes para o monitoramento do lar<strong> s\u00e3o componentes essenciais dessa cada vez maior <\/strong>rede de sensores inteligentes e dispositivos conectados \u00e0 internet** destinados a formar uma nova infraestrutura inteligente para corpos e objetos23. (Zuboff 2018: 27)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"outra-fonte-de-dados-fluxos-de-bases-de-dados-governamentais-e-corporativos\">Outra fonte de dados: fluxos de bases de dados governamentais e corporativos<\/h4>\n<blockquote><p>Uma terceira fonte de dados flui de bancos de dados governamentais e corporativos, incluindo aqueles associados aos bancos, \u00e0 intermedia\u00e7\u00e3o de pagamentos eletr\u00f4nicos, \u00e0s ag\u00eancias de avalia\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito, \u00e0s companhias a\u00e9reas, aos registros censit\u00e1rios e fiscais, \u00e0s opera\u00e7\u00f5es de planos de sa\u00fade, aos cart\u00f5es de cr\u00e9dito, aos seguros, \u00e0s empresas farmac\u00eauticas e de comunica\u00e7\u00f5es, e outros mais. (Zuboff 2018:\u00a027-8)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"o-papel-dos-data-brokers-na-disponibiliza\u00e7\u00e3o-desses-dados\">O papel dos <em>data brokers<\/em> na disponibiliza\u00e7\u00e3o desses dados<\/h4>\n<blockquote><p>Muitos desses dados, juntamente com os fluxos das transa\u00e7\u00f5es comerciais, s\u00e3o adquiridos, agregados, analisados, acondicionados e por fim vendidos por <em>data brokers<\/em> que operam (pelo menos nos Estados Unidos) de forma sigilosa, ao largo dos estatutos de prote\u00e7\u00e3o do consumidor e sem seu consentimento e conhecimento, ignorando seus direitos \u00e0 privacidade e aos devidos procedimentos legais24. (Zuboff 2018: 28)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"c\u00e2meras-de-vigil\u00e2ncia-como-fluxo-de-dados-google-na-linha-de-frente-com-o-street-view-e-google-earth\">C\u00e2meras de vigil\u00e2ncia como fluxo de dados: Google na linha de frente com o Street View e Google Earth<\/h4>\n<blockquote><p>Uma quarta fonte de <em>big data<\/em>, que fala sobre seu car\u00e1ter heterog\u00eaneo e transemi\u00f3tico, flui de c\u00e2meras de vigil\u00e2ncia p\u00fablicas e privadas, incluindo qualquer coisa desde <em>smartphones<\/em> at\u00e9 sat\u00e9lites, do Google Street View ao Google Earth. A Google tem estado na linha de frente desse dom\u00ednio contencioso de dados. (Zuboff 2018:\u00a028)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"sobre-a-pr\u00e1tica-ilegal-de-extra\u00e7\u00e3o-de-dados-pelo-google-street-view\">Sobre a pr\u00e1tica ilegal de extra\u00e7\u00e3o de dados pelo Google Street View<\/h4>\n<blockquote><p>Por exemplo, o Street View foi lan\u00e7ado em 2007 e logo encontrou resist\u00eancia em todo o mundo. Autoridades alem\u00e3s descobriram que, entre outros problemas, os carros do Street View estavam equipados com esc\u00e2neres ativados para extrair dados de redes sem fio privadas25. Em um processo movido por 39 procuradores do Estado norte-americanos contra a Google, sumariado pelo Electronic Privacy Information Center (Epic) [Centro de Informa\u00e7\u00f5es de Privacidade Eletr\u00f4nica], foi conclu\u00eddo que \u201ca empresa participou na coleta n\u00e3o autorizada de dados de redes sem fio, incluindo dados de redes Wi-Fi privadas de usu\u00e1rios de internet residencial\u201d. O relat\u00f3rio do Epic resume uma vers\u00e3o redigida de um relat\u00f3rio da FCC* que revela que a \u201cGoogle interceptou intencionalmente dados com fins comerciais e que muitos engenheiros e supervisores da empresa revisaram o c\u00f3digo-fonte e os documentos associados ao projeto\u201d26. De acordo com a reportagem do <em>The New York Times<\/em> sobre o processo, o qual resultou em um acordo de US$7 milh\u00f5es, \u201ca empresa de buscas pela primeira vez em sua hist\u00f3ria foi obrigada a policiar de forma agressiva seus empregados em assuntos de privacidade [\u2026]\u201d27. O Street View sofreu restri\u00e7\u00f5es em muitos pa\u00edses e continua a enfrentar processos litigiosos em torno do que os reclamantes caracterizam como t\u00e1ticas \u201csecretas\u201d, \u201cil\u00edcitas\u201d e \u201cilegais\u201d de coleta de dados nos Estados Unidos, na Europa e em outras regi\u00f5es28. (Zuboff 2018: 29)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"imperialismo-de-infraestrutura-da-google-m\u00e9todo-de-incurs\u00f5es-em-territ\u00f3rios-privados-n\u00e3o-protegidos-at\u00e9-que-se-encontre-resist\u00eancias\">\u201cImperialismo de infraestrutura da Google\u201d: m\u00e9todo de incurs\u00f5es em territ\u00f3rios privados n\u00e3o protegidos at\u00e9 que se encontre resist\u00eancias<\/h4>\n<blockquote><p>Com o Street View, a Google desenvolveu um m\u00e9todo declarativo que foi utilizado em outros empreendimentos relativos a dados. O <em>modus operandi<\/em> consiste em fazer incurs\u00f5es em territ\u00f3rios privados n\u00e3o protegidos at\u00e9 que alguma resist\u00eancia seja encontrada. Como um observador dos direitos do consumidor resumiu para o <em>The New York Times<\/em>, \u201ca Google coloca a inova\u00e7\u00e3o \u00e0 frente de tudo e resiste a pedir permiss\u00e3o\u201d29. A empresa n\u00e3o pergunta se pode fotografar casas para seus bancos de dados, ela simplesmente pega o que quer. A Google, ent\u00e3o, esgota seus advers\u00e1rios no tribunal ou eventualmente concorda em pagar multas que representam um investimento negligenci\u00e1vel para um retorno significativo30. Siva Vaidhyanathan chamou esse processo de \u201cimperialismo de infraestrutura\u201d31. O Epic mant\u00e9m um registro online abrangente das centenas de processos de pa\u00edses, estados, grupos e indiv\u00edduos abertos contra a Google, havendo ainda muitos outros casos que nunca se tornaram p\u00fablicos32. (Zuboff 2018: 30)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"aspecto-subjetivo-da-produ\u00e7\u00e3o-desses-dados-a-internet-como-ponto-de-n\u00e3o-retorno.\">Aspecto subjetivo da produ\u00e7\u00e3o desses dados? A internet como ponto de n\u00e3o retorno.<\/h4>\n<blockquote><p>Esses fluxos de dados produzidos institucionalmente representam o lado da \u201coferta\u201d da interface mediada por computador. Apenas com esses dados \u00e9 poss\u00edvel construir perfis individuais detalhados. Mas a universalidade da media\u00e7\u00e3o por computador se deu mediante um complexo processo de causalidade que inclui tamb\u00e9m atividades subjetivas \u2013 que constituem a sua \u201cdemanda\u201d. As necessidades individuais impulsionaram as curvas de penetra\u00e7\u00e3o acelerada da internet. Uma pesquisa da BBC realizada em 2010 descobriu que, menos de duas d\u00e9cadas ap\u00f3s o navegador Mosaic ter sido liberado ao p\u00fablico, permitindo um f\u00e1cil acesso \u00e0 <em>world wide web<\/em> (www), 79% das pessoas em 26 pa\u00edses consideraram que o acesso \u00e0 internet era um direito humano fundamental33. (Zuboff 2018:\u00a030-1)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"a-internet-como-espa\u00e7o-livre-e-de-formas-n\u00e3o-mercantis-de-produ\u00e7\u00e3o-social\">A internet como espa\u00e7o livre e de \u2018formas n\u00e3o mercantis de produ\u00e7\u00e3o social\u2019<\/h4>\n<blockquote><p>Fora dos hier\u00e1rquicos espa\u00e7os de trabalho que operam pela l\u00f3gica do mercado, o acesso, a indexa\u00e7\u00e3o e as buscas na internet significaram a possibilidade de liberdade dos indiv\u00edduos de procurar os recursos de que necessitavam para uma vida mais eficaz, sem os impedimentos impostos pelo monitoramento, pela m\u00e9trica, pela inseguran\u00e7a, por requisitos de fun\u00e7\u00e3o e pelo sigilo imposto pela empresa e sua l\u00f3gica de acumula\u00e7\u00e3o. As necessidades individuais de autoexpress\u00e3o, voz, influ\u00eancia, informa\u00e7\u00e3o, aprendizagem, empoderamento e conex\u00e3o reuniram em poucos anos uma ampla gama de novas capacidades: pesquisas do Google, m\u00fasica do iPod, p\u00e1ginas do Facebook, v\u00eddeos do YouTube, blogs, redes, comunidades de amigos, estranhos e colegas, todos ultrapassando as antigas fronteiras institucionais e geogr\u00e1ficas em uma esp\u00e9cie de exulta\u00e7\u00e3o de ca\u00e7a, coleta e compartilhamento de informa\u00e7\u00f5es para todos os prop\u00f3sitos, ou mesmo para nenhum. Era meu, e eu poderia fazer o que quisesse com isso34! Essas subjetividades de autodetermina\u00e7\u00e3o encontraram express\u00e3o em uma nova esfera individual em rede caracterizada pelo que Benkler35 resumiu adequadamente como formas n\u00e3o mercantis de \u201cprodu\u00e7\u00e3o social\u201d. (Zuboff 2018:\u00a031)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"atividades-n\u00e3o-mercantis-cotidianidade-small-data-data-exaust-como-fonte-de-dados\">Atividades n\u00e3o mercantis (cotidianidade, <em>small data<\/em>, <em>data exaust<\/em>) como fonte de dados<\/h4>\n<blockquote><p>Essas atividades n\u00e3o mercantis s\u00e3o uma quinta fonte principal de big data e a origem do que Constantiou e Kallinikos36 chamam de \u201ccotidianidade\u201d. O <em>big data<\/em> \u00e9 constitu\u00eddo pela captura de <em>small data<\/em>, das a\u00e7\u00f5es e discursos, mediados por computador, de indiv\u00edduos no desenrolar da vida pr\u00e1tica. Nada \u00e9 trivial ou ef\u00eamero em excesso para essa colheita: as \u201ccurtidas\u201d do Facebook, as buscas no Google, <em>e-mails<\/em>, textos, fotos, m\u00fasicas e v\u00eddeos, localiza\u00e7\u00f5es, padr\u00f5es de comunica\u00e7\u00e3o, redes, compras, movimentos, todos os cliques, palavras com erros ortogr\u00e1ficos, visualiza\u00e7\u00f5es de p\u00e1ginas e muito mais. Esses dados s\u00e3o adquiridos, tornados abstratos, agregados, analisados, embalados, vendidos, analisados mais e mais e vendidos novamente. Esses fluxos de dados foram rotulados pelos tecn\u00f3logos de \u201c<em>data exhaust<\/em>\u201d*. Presumidamente, uma vez que os dados s\u00e3o redefinidos como res\u00edduos, a contesta\u00e7\u00e3o de sua extra\u00e7\u00e3o e eventual monetiza\u00e7\u00e3o \u00e9 menos prov\u00e1vel. (Zuboff 2018:\u00a031-2)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"a-google-como-principal-detentora-de-tais-dados.-o-modelo-de-propagandas.\">A Google como principal detentora de tais dados. O modelo de propagandas.<\/h4>\n<blockquote><p>A Google tornou-se a maior e mais bem-sucedida empresa de <em>big data<\/em> por ter o site mais visitado e, portanto, possuir a maior quantidade de <em>data exhaust<\/em>. Como muitas outras empresas digitais, a Google correu para atender \u00e0s ondas de demanda reprimida que inundaram a esfera individual em rede nos primeiros anos da world wide web. Era um exemplo claro de empoderamento individual nas demandas de uma vida mais eficaz. Mas, \u00e0 medida que as press\u00f5es para o lucro avan\u00e7avam, os l\u00edderes da Google se preocupavam com os efeitos que o modelo de servi\u00e7os pagos poderia ter no crescimento do n\u00famero de usu\u00e1rios. Eles ent\u00e3o optaram por um modelo de propaganda. <strong>A nova abordagem dependia da aquisi\u00e7\u00e3o de dados de usu\u00e1rios como mat\u00e9ria-prima para an\u00e1lise e produ\u00e7\u00e3o de algoritmos que poderiam vender e segmentar a publicidade por meio de um modelo de leil\u00e3o exclusivo, com precis\u00e3o e sucesso cada vez maiores<\/strong>. \u00c0 medida que as receitas da Google cresciam rapidamente, aumentava a motiva\u00e7\u00e3o para uma coleta de dados cada vez mais abrangente37. <strong>A nova ci\u00eancia de an\u00e1lise de <em>big data<\/em> explodiu, impulsionada em grande parte pelo sucesso retumbante da Google<\/strong>. (Zuboff 2018:\u00a032)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Em um artigo na revista <em>Wired<\/em> em 2009 sobre \u201cGooglenomics\u201d, Varian comentou: \u201cPor que a Google disponibiliza produtos de gra\u00e7a\u2026? Qualquer coisa que aumente o uso da internet, em \u00faltima inst\u00e2ncia, enriquece a Google [\u2026]\u201d. O artigo continua: \u201c[\u2026] mais olhos fixados na <em>web<\/em> levam inexoravelmente a mais vendas de an\u00fancios para a Google [\u2026]. E, como a previs\u00e3o e a an\u00e1lise s\u00e3o t\u00e3o cruciais para o Google AdWords, qualquer <em>bit<\/em> de dados, mesmo que aparentemente trivial, tem valor potencial\u201d39. O tema \u00e9 reiterado no artigo \u201c<em>Big data<\/em>\u201d, de Mayer-Sch\u00f6nberger e Cukier: \u201cMuitas empresas projetam seus sistemas para que possam colher <em>data exhaust<\/em> [\u2026]. A Google \u00e9 a l\u00edder incontest\u00e1vel [\u2026] <strong>todas as a\u00e7\u00f5es que um usu\u00e1rio executa s\u00e3o consideradas sinais a serem analisados e que servir\u00e3o de <em>feedback<\/em> para o sistema<\/strong>\u201d40. Isso ajuda a explicar por que a Google superou todos os concorrentes pelo privil\u00e9gio de fornecer Wi-Fi gratuito para os 3 bilh\u00f5es de clientes anuais da Starbucks41. Mais usu\u00e1rios produzem mais <em>data exhausts<\/em>, que, por sua vez, melhoram o valor preditivo das an\u00e1lises e resultam em leil\u00f5es mais lucrativos. (Zuboff 2018:\u00a033)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"a-google-\u00e9-formalmente-indiferente-aos-dados-o-que-importa-\u00e9-quantidade-n\u00e3o-qualidade\">A Google \u00e9 \u2018formalmente indiferente\u2019 aos dados, o que importa \u00e9 quantidade, n\u00e3o qualidade<\/h4>\n<blockquote><p>O que importa \u00e9 a quantidade, e n\u00e3o a qualidade. Outra maneira de dizer isso \u00e9 que a Google \u00e9 \u201cformalmente indiferente\u201d ao que os usu\u00e1rios dizem ou fazem, <strong>contanto que o digam e o fa\u00e7am de forma que o Google possa capturar e converter em dados<\/strong>. (Zuboff 2018:\u00a033)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"fontes-de-dados\">Fontes de dados:<\/h4>\n<ol type=\"1\">\n<li>Fluxos institucionais e transinstitucionais mediados por computador (dos quais as transa\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas s\u00e3o parte significativa)<\/li>\n<li>Fluxos de sensores incorporados em objetos, corpos e lugares (IoT, IoE, etc.)<\/li>\n<li>Fluxos de bases de dados governamentais e corporativas (incluindo bancos, servi\u00e7os p\u00fablicos, telecomunica\u00e7\u00f5es, etc.)<\/li>\n<li>Fluxos de c\u00e2meras de vigil\u00e2ncia p\u00fablicas e privadas (desde <em>smartphones<\/em> at\u00e9 sat\u00e9lites)<\/li>\n<li>Fluxos residuais produzidos acidentalmente por usu\u00e1rios individuais (curtidas, visualiza\u00e7\u00f5es, textos, erros ortogr\u00e1ficos, etc.)<\/li>\n<\/ol>\n<h4 id=\"proemin\u00eancia-da-indiferen\u00e7a-formal-nessa-emergente-l\u00f3gica-de-acumula\u00e7\u00e3o.\">Proemin\u00eancia da indiferen\u00e7a formal nessa emergente l\u00f3gica de acumula\u00e7\u00e3o.<\/h4>\n<blockquote><p>Essa \u201cindiferen\u00e7a formal\u201d \u00e9 uma caracter\u00edstica proeminente, talvez decisiva, da emergente l\u00f3gica de acumula\u00e7\u00e3o em exame aqui. O segundo termo na frase de Varian, \u201cextra\u00e7\u00e3o\u201d, tamb\u00e9m ilumina as rela\u00e7\u00f5es sociais implicadas pela indiferen\u00e7a formal. (Zuboff 2018:\u00a033)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"extra\u00e7\u00e3o-como-ato-unidirecional-captura\">Extra\u00e7\u00e3o como ato unidirecional (captura)<\/h4>\n<blockquote><p>Em primeiro lugar, e de forma mais \u00f3bvia, a extra\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo unidirecional, e n\u00e3o um relacionamento. A extra\u00e7\u00e3o tem por conota\u00e7\u00e3o \u201ctomar algo\u201d em vez de \u201centregar\u201d ou de uma reciprocidade de \u201cdar e receber\u201d. Os processos extrativos que tornam o <em>big data<\/em> poss\u00edvel normalmente ocorrem na aus\u00eancia de di\u00e1logo ou de consentimento, apesar de indicarem tanto fatos quanto subjetividades de vidas individuais. (Zuboff 2018:\u00a033-4)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"status-de-subjetividade-como-algo-valioso-n\u00e3o-realiza\u00e7\u00e3o-individual\">Status de subjetividade como algo valioso, n\u00e3o realiza\u00e7\u00e3o individual<\/h4>\n<blockquote><p>Essas subjetividades percorrem caminhos ocultos para agrega\u00e7\u00e3o e descontextualiza\u00e7\u00e3o, apesar de serem produzidas como \u00edntimas e imediatas, ligadas a projetos e contextos individuais42. Na verdade, \u00e9 o <em>status<\/em> de tais dados como sinais de subjetividades que os tornam mais valiosos para os anunciantes. Para a Google e outros agregadores de <em>big data<\/em>, no entanto, os dados s\u00e3o apenas <em>bits<\/em>. As subjetividades s\u00e3o convertidas em objetos que reorientam o subjetivo para a mercantiliza\u00e7\u00e3o. Os sentidos individuais dados pelos usu\u00e1rios n\u00e3o interessam ao Google ou \u00e0s outras empresas nessa cadeia. (Zuboff 2018:\u00a034)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"popula\u00e7\u00e3o-como-fonte-de-estra\u00e7\u00e3o-e-alvo-das-a\u00e7\u00f5es-que-os-dados-produzem\">Popula\u00e7\u00e3o como fonte de estra\u00e7\u00e3o e alvo das a\u00e7\u00f5es que os dados produzem<\/h4>\n<blockquote><p>Dessa forma, os m\u00e9todos de produ\u00e7\u00e3o de <em>big data<\/em> a partir de <em>small data<\/em> e as formas pelas quais o <em>big data<\/em> adquire valor refletem a indiferen\u00e7a formal que caracteriza o relacionamento da empresa com suas popula\u00e7\u00f5es de \u201cusu\u00e1rios\u201d. As popula\u00e7\u00f5es s\u00e3o as fontes das quais a extra\u00e7\u00e3o de dados procede e os alvos finais das a\u00e7\u00f5es que esses dados produzem (Zuboff 2018:\u00a034)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"import\u00e2ncia-de-snowden-na-divulga\u00e7\u00e3o-das-pr\u00e1ticas-da-google\">Import\u00e2ncia de Snowden na divulga\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas da Google<\/h4>\n<blockquote><p>Suas pr\u00e1ticas parecem destinadas a ser indetect\u00e1veis ou, pelo menos, obscuras, e, se n\u00e3o fosse a den\u00fancia de Edward Snowden sobre a National Security Agency (NSA) [Ag\u00eancia de Seguran\u00e7a Nacional], aspectos importantes de suas opera\u00e7\u00f5es, especialmente quando se sobrep\u00f5em aos interesses de seguran\u00e7a do Estado, ainda estariam ocultos. (Zuboff 2018:\u00a034)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"pr\u00e1ticas-ilegais-de-invas\u00e3o-de-privacidade-e-extra\u00e7\u00e3o-de-daodos-pela-google\">Pr\u00e1ticas ilegais de invas\u00e3o de privacidade e extra\u00e7\u00e3o de daodos pela Google<\/h4>\n<blockquote><p>A maior parte do que se sabia sobre as pr\u00e1ticas da Google surgiu a partir dos conflitos que essas pr\u00e1ticas produziram43. Por exemplo, a Google enfrentou oposi\u00e7\u00e3o legal e protesto social em rela\u00e7\u00e3o a reclama\u00e7\u00f5es contra<\/p>\n<ol type=\"1\">\n<li>a pr\u00e1tica de varredura de e-mails, incluindo os de usu\u00e1rios que n\u00e3o s\u00e3o do Gmail e os de estudantes que usam seus aplicativos educacionais44,<\/li>\n<li>a captura de comunica\u00e7\u00f5es de voz45,<\/li>\n<li>ignorar as configura\u00e7\u00f5es de privacidade46,<\/li>\n<li>pr\u00e1ticas unilaterais de agrupamento de dados em seus servi\u00e7os online47,<\/li>\n<li>extensa reten\u00e7\u00e3o de dados de pesquisa48,<\/li>\n<li>rastreamento dos dados de localiza\u00e7\u00e3o dos smartphones49 e<\/li>\n<li>suas tecnologias port\u00e1teis e capacidades de reconhecimento facial50.<\/li>\n<\/ol>\n<p>(Zuboff 2018: 34-5)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"oposi\u00e7\u00e3o-nos-eua-e-europa-e-na-am\u00e9rica-latina-e-no-brasil\">Oposi\u00e7\u00e3o nos EUA e Europa (e na Am\u00e9rica Latina e no Brasil?)<\/h4>\n<blockquote><p>Esses contest\u00e1veis movimentos de coleta de dados enfrentam oposi\u00e7\u00e3o substancial na Uni\u00e3o Europeia (UE), bem como nos Estados Unidos51. (Zuboff 2018:\u00a035-6)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"reciprocidade-entre-empresa-e-popula\u00e7\u00e3o-funcion\u00e1rios-e-consumidores-no-sec-xx\">Reciprocidade entre empresa e popula\u00e7\u00e3o (funcion\u00e1rios e consumidores) no sec XX<\/h4>\n<blockquote><p>A \u201cextra\u00e7\u00e3o\u201d resume a aus\u00eancia de reciprocidades estruturais entre a empresa e suas popula\u00e7\u00f5es. Esse fato sozinho separa a Google, bem como outros que participam de sua l\u00f3gica de acumula\u00e7\u00e3o, da narrativa hist\u00f3rica das democracias de mercado ocidentais. Por exemplo, a empresa do s\u00e9culo XX, canonizada por estudiosos como Berle &amp; Means52 e Chandler Jr.53, teve sua origem e foi sustentada por profundas interdepend\u00eancias com suas popula\u00e7\u00f5es. [[ \u2026 ]] Essa forma de mercado valorizou intrinsecamente suas popula\u00e7\u00f5es de indiv\u00edduos rec\u00e9m-modernizados como fonte de funcion\u00e1rios e clientes; ela dependia de suas popula\u00e7\u00f5es de maneiras que levaram, ao longo do tempo, a reciprocidades institucionalizadas. (Zuboff 2018:\u00a037)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"google-e-big-data-n\u00e3o-depende-de-uma-popula\u00e7\u00e3o-sen\u00e3o-como-recursos-a-serem-extra\u00eddos\">Google e big data n\u00e3o depende de uma popula\u00e7\u00e3o (sen\u00e3o como recursos a serem extra\u00eddos)<\/h4>\n<blockquote><p>A Google e o projeto de <em>big data<\/em> representam uma ruptura com esse passado. Suas popula\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o mais necess\u00e1rias como fonte de clientes ou funcion\u00e1rios. Os anunciantes s\u00e3o seus clientes, junto com outros intermedi\u00e1rios que compram suas an\u00e1lises de dados. A Google empregava apenas cerca de 48 mil trabalhadores quando da publica\u00e7\u00e3o deste artigo e \u00e9 conhecida por ter milhares de candidatos para cada abertura de vaga, contrastando com a General Motors, que, no auge de seu poder, em 1953, foi a maior empregadora privada do mundo. A Google, assim sendo, tem pouco interesse em seus usu\u00e1rios enquanto funcion\u00e1rios. Esse padr\u00e3o vale para as empresas de alta tecnologia em hiperescala que alcan\u00e7am o crescimento, principalmente, ao ampliar a automa\u00e7\u00e3o. Por exemplo, as tr\u00eas maiores empresas do Vale do Sil\u00edcio em 2014 tiveram receita de US$247 bilh\u00f5es, com apenas 137 mil funcion\u00e1rios e uma capitaliza\u00e7\u00e3o de mercado combinada de US$1,09 trilh\u00e3o. Em contraste, mesmo em 1990, as tr\u00eas principais montadoras de Detroit produziram receitas de US$250 bilh\u00f5es com 1,2 milh\u00e3o de funcion\u00e1rios e uma capitaliza\u00e7\u00e3o de mercado combinada de US$36 bilh\u00f5es58 (Zuboff 2018:\u00a037-8)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Pelo contr\u00e1rio, apesar do seu papel de \u201cprincipal utilit\u00e1rio para a _world wide web_60 e seus investimentos substanciais em tecnologias com consequ\u00eancias sociais explosivas, como intelig\u00eancia artificial, rob\u00f3tica, reconhecimento facial, tecnologias vest\u00edveis, nanotecnologia, dispositivos inteligentes e drones, a Google n\u00e3o esteve sujeita a nenhuma supervis\u00e3o p\u00fablica significativa61. Em uma carta aberta \u00e0 Europa, o presidente da Google, Eric Schmidt, expressou sua frustra\u00e7\u00e3o com a perspectiva de supervis\u00e3o p\u00fablica, caracterizando-a como uma \u201cregulamenta\u00e7\u00e3o pesada\u201d, que criaria \u201cs\u00e9rios perigos econ\u00f4micos\u201d para a Europa62. (Zuboff 2018:\u00a038-9)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"hiperescala-e-explora\u00e7\u00e3o-de-recursos-com-pouco-custo\">Hiperescala e explora\u00e7\u00e3o de recursos com pouco custo<\/h4>\n<blockquote><p>A indiferen\u00e7a formal da Google e a dist\u00e2ncia funcional das popula\u00e7\u00f5es s\u00e3o ainda mais institucionalizadas nas necessidades de \u201can\u00e1lise\u201d enfatizadas por Varian. A Google \u00e9 a pioneira da hiperescala e, \u00e0 semelhan\u00e7a de outras empresas desse tipo \u2013 Facebook, Twitter, Alibaba e uma crescente lista de firmas cujo neg\u00f3cio \u00e9 o grande volume de informa\u00e7\u00f5es, como as de telecomunica\u00e7\u00f5es e as de pagamentos globais \u2013, seus centros de dados requerem milh\u00f5es de \u201cservidores virtuais\u201d que aumentam exponencialmente a capacidade de computa\u00e7\u00e3o sem exigir expans\u00e3o significativa do espa\u00e7o f\u00edsico, do resfriamento dos equipamentos ou da demanda de energia el\u00e9trica63. As empresas de hiperescala exploram o custo marginal da economia digital para rapidamente alcan\u00e7ar uma grande escala a custos quase nulos64. (Zuboff 2018:\u00a039-40)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"ativos-de-vigil\u00e2ncia-fruto-de-opera\u00e7\u00f5es-automatizadas-ub\u00edquas.-capital-de-vigil\u00e2ncia-e-capitalismo-de-vigil\u00e2ncia.\">Ativos de vigil\u00e2ncia fruto de opera\u00e7\u00f5es automatizadas ub\u00edquas. Capital de vigil\u00e2ncia e capitalismo de vigil\u00e2ncia.<\/h4>\n<blockquote><p>Esse exame da combina\u00e7\u00e3o feita por Varian entre dados, extra\u00e7\u00e3o e an\u00e1lise sugere algumas caracter\u00edsticas-chave da nova l\u00f3gica de acumula\u00e7\u00e3o associada ao <em>big data<\/em>, encabe\u00e7ada pela Google. Em primeiro lugar, as receitas dependem de ativos de dados apropriados por meio de ub\u00edquas opera\u00e7\u00f5es automatizadas. Essas opera\u00e7\u00f5es constituem uma nova classe de ativos: os <em>ativos de vigil\u00e2ncia<\/em>. Os cr\u00edticos do capitalismo de vigil\u00e2ncia podem caracterizar tais ativos como \u201cbens roubados\u201d ou \u201ccontrabando\u201d na medida em que foram tomados, em vez de fornecidos, e n\u00e3o produzem, como argumentarei a seguir, as devidas reciprocidades. A apreciada cultura da produ\u00e7\u00e3o social na esfera individual em rede apoia-se nas pr\u00f3prias ferramentas que s\u00e3o agora os principais ve\u00edculos para a apropria\u00e7\u00e3o baseada em vigil\u00e2ncia das <em>data exhausts<\/em> mais lucrativas. Esses ativos de vigil\u00e2ncia atraem investimentos significativos que podem ser chamados de <em>capital de vigil\u00e2ncia<\/em>. A Google, at\u00e9 agora, triunfou no mundo em rede atrav\u00e9s da constru\u00e7\u00e3o pioneira dessa nova forma de mercado, que \u00e9 uma variante radicalmente descolada e extravagante do capitalismo de informa\u00e7\u00e3o, que identifico como <em>capitalismo de vigil\u00e2ncia<\/em>. Rapidamente se tornou o modelo-padr\u00e3o de neg\u00f3cios na maioria das empresas e <em>startups<\/em>, em que as rotineiras estimativas de valor dependem de \u201colhos\u201d, mais do que de receita, para prever a remunera\u00e7\u00e3o dos ativos de vigil\u00e2ncia. (Zuboff 2018:\u00a040-41)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"maior-observabilidade-vigil\u00e2ncia-sobre-transa\u00e7\u00f5es-mediadas-por-computador-novos-modelos-de-neg\u00f3cio-ex-controle-sobre-o-usu\u00e1rio-de-um-produto\">Maior observabilidade (vigil\u00e2ncia) sobre transa\u00e7\u00f5es mediadas por computador: novos modelos de neg\u00f3cio (ex: controle sobre o usu\u00e1rio de um produto)<\/h4>\n<blockquote><p>De acordo com Varian: \u201cComo as transa\u00e7\u00f5es s\u00e3o agora mediadas pelo computador, podemos observar comportamentos que anteriormente n\u00e3o eram observ\u00e1veis e redigir contratos sobre esses comportamentos. Isso permite transa\u00e7\u00f5es que simplesmente n\u00e3o eram vi\u00e1veis antes [\u2026]. As transa\u00e7\u00f5es mediadas pelo computador permitiram novos modelos de neg\u00f3cio [\u2026]\u201d65. Ele oferece alguns exemplos: se algu\u00e9m parar de pagar as parcelas mensais do carro, o credor pode \u201cinstruir o sistema de monitoramento veicular a n\u00e3o permitir que o ve\u00edculo seja iniciado e sinalizar o local onde ele pode ser retirado\u201d. As companhias de seguros, ele sugere, podem contar com sistemas de monitoramento similares para verificar se os clientes est\u00e3o dirigindo com seguran\u00e7a e, assim, determinar se devem ou n\u00e3o manter o seguro dele ou lhe pagar o pr\u00eamio da ap\u00f3lice. Ele tamb\u00e9m sugere que se podem contratar agentes locais remotos para executar tarefas e usar dados de seus <em>smartphones<\/em> \u2013 geolocaliza\u00e7\u00e3o, marca\u00e7\u00e3o de hor\u00e1rio, fotos \u2013 para \u201cprovar\u201d que eles realmente realizaram suas atividades conforme previsto no contrato. (Zuboff 2018:\u00a041)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"utopia-contratual-em-williamson-eliminar-a-incerteza-e-permitir-a-express\u00e3o-de-uma-racionalidade-ilimitada\">Utopia contratual em Williamson: eliminar a incerteza e permitir a express\u00e3o de uma \u201cracionalidade ilimitada\u201d<\/h4>\n<blockquote><p>Varian parece apontar para o que Oliver Williamson chama de \u201ccondi\u00e7\u00e3o de utopia contratual\u201d66. Na economia de transa\u00e7\u00e3o de William, os contratos existem para mitigar a inevitabilidade da incerteza. Eles operam para economizar em \u201cracionalidade limitada\u201d e salvaguardar contra o \u201coportunismo\u201d \u2013 ambas condi\u00e7\u00f5es intrat\u00e1veis dos contratos no mundo real da atividade humana. Ele observa que a certeza exige \u201cracionalidade ilimitada\u201d derivada de \u201ccompet\u00eancia cognitiva irrestrita\u201d, que, por sua vez, deriva de adapta\u00e7\u00f5es \u201ccompletamente descritas\u201d a eventos contingentes \u201cpublicamente observ\u00e1veis\u201d. Williamson observa que essas condi\u00e7\u00f5es s\u00e3o inerentes a \u201cum mundo de planejamento\u201d, e n\u00e3o ao \u201cmundo da governan\u00e7a\u201d, no qual, \u201coutras coisas sendo iguais [\u2026], as rela\u00e7\u00f5es que se caracterizem pela confian\u00e7a pessoal sobreviver\u00e3o a um maior estresse e mostrar\u00e3o maior adaptabilidade\u201d67. (Zuboff 2018:\u00a041-2)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"contratos-mediados-por-computador-em-varian-como-processos-de-m\u00e1quinas-descolado-do-social.-dimens\u00e3o-espiritual-do-poder---dimens\u00e3o-material-do-poder-disciplina-e-controle.\">Contratos mediados por computador em Varian como \u201cprocessos de m\u00e1quinas\u201d (descolado do social). Dimens\u00e3o espiritual do poder -&gt; dimens\u00e3o material do poder (disciplina e controle).<\/h4>\n<blockquote><p>A vis\u00e3o de Varian dos usos de transa\u00e7\u00f5es mediadas por computador retira a incerteza do contrato, assim como a necessidade e a pr\u00f3pria possibilidade de se desenvolver a confian\u00e7a. Outra maneira de dizer isso \u00e9 que os contratos s\u00e3o descolados do social e repensados como processos de m\u00e1quinas. (Zuboff 2018:\u00a042)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>No sistema econ\u00f4mico de Varian, a autoridade \u00e9 suplantada pela t\u00e9cnica, o que eu chamo de <strong>\u201cdimens\u00e3o material do poder\u201d, em que sistemas impessoais de disciplina e controle produzem certo conhecimento do comportamento humano independentemente do consentimento<\/strong>. (Zuboff 2018:\u00a042)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"exposi\u00e7\u00e3o-sobre-contratualismo-liberdade-e-coer\u00e7\u00e3o-locke-durkheim-weber-arendt\">Exposi\u00e7\u00e3o sobre contratualismo, liberdade e coer\u00e7\u00e3o (Locke, Durkheim, Weber, Arendt)<\/h4>\n<p>(Zuboff 2018:\u00a042-3)<\/p>\n<h4 id=\"big-other-como-regime-institucional-distribuido-de-registro-modifica\u00e7\u00e3o-e-mercantiliza\u00e7\u00e3o-da-experi\u00eancia-quotidiana-visando-o-lucro\">Big Other como regime institucional distribuido de registro, modifica\u00e7\u00e3o e mercantiliza\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia quotidiana visando o lucro<\/h4>\n<blockquote><p>O revigoramento humano, a partir das falhas e triunfos das afirma\u00e7\u00f5es da previsibilidade e do exerc\u00edcio da vontade em face da incerteza natural, d\u00e1 lugar ao vazio da submiss\u00e3o perp\u00e9tua. Em vez de permitir novas formas contratuais, esses arranjos descrevem o surgimento de uma nova arquitetura universal que existe em algum lugar entre a natureza e Deus, batizada por mim de <em>Big Other<\/em>. Essa nova arquitetura configura-se como <strong>um ub\u00edquo regime institucional em rede que registra, modifica e mercantiliza a experi\u00eancia cotidiana, desde o uso de um eletrodom\u00e9stico at\u00e9 seus pr\u00f3prios corpos, da comunica\u00e7\u00e3o ao pensamento, tudo com vista a estabelecer novos caminhos para a monetiza\u00e7\u00e3o e o lucro<\/strong>. (Zuboff 2018:\u00a043-4)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"big-other-como-regime-do-planejamento-preemp\u00e7\u00e3o-que-se-contraporia-a-um-regme-da-governan\u00e7a-e-dos-contratos-democracia-de-mercado\">Big Other como regime do planejamento (preemp\u00e7\u00e3o?) que se contraporia a um regme da governan\u00e7a e dos contratos (\u201cdemocracia de mercado\u201d)<\/h4>\n<blockquote><p>O <em>Big Other<\/em> \u00e9 o poder soberano de um futuro pr\u00f3ximo que aniquila a liberdade alcan\u00e7ada pelo Estado de direito. \u00c9 um novo regime de fatos independentes e independentemente controlados que suplanta a necessidade de contratos, de governan\u00e7a e o dinamismo de uma democracia de mercado. (Zuboff 2018:\u00a044)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"big-other-ordem-ampliada-hayek\">Big Other ~ ordem ampliada (Hayek)<\/h4>\n<blockquote><p>Os processos institucionais que constituem a arquitetura do Big Other podem ser imaginados como a instancia\u00e7\u00e3o material da \u201cordem ampliada\u201d de Hayek, que ganha vida na transpar\u00eancia did\u00e1tica da media\u00e7\u00e3o por computador. (Zuboff 2018:\u00a044)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"poder-distribu\u00eddo-e-onipresente-no-big-other-em-oposi\u00e7\u00e3o-ao-pan\u00f3ptico\">Poder distribu\u00eddo e onipresente no Big Other (em oposi\u00e7\u00e3o ao pan\u00f3ptico)<\/h4>\n<blockquote><p>Esses processos reconfiguram a estrutura de poder, conformidade e resist\u00eancia herdada da sociedade de massa e simbolizada durante mais de meio s\u00e9culo pelo <em>Big Brother<\/em>. <strong>O poder n\u00e3o pode mais ser resumido por esse s\u00edmbolo totalit\u00e1rio de comando e controle centralizado<\/strong>. Mesmo o pan\u00f3ptico do projeto de Bentham, que usei como met\u00e1fora central em meu trabalho anterior72, \u00e9 prosaico em compara\u00e7\u00e3o com essa nova arquitetura. O pan\u00f3ptico era um projeto f\u00edsico que privilegiava um \u00fanico ponto de observa\u00e7\u00e3o. A conformidade antecipada que ele induzia exigia a produ\u00e7\u00e3o de comportamentos espec\u00edficos em quem estivesse dentro do pan\u00f3ptico, mas esse comportamento poderia ser deixado de lado uma vez que a pessoa abandonasse esse lugar f\u00edsico. Na d\u00e9cada de 1980, o pan\u00f3ptico constituiu-se como uma met\u00e1fora adequada para os espa\u00e7os hier\u00e1rquicos do local de trabalho. <strong>Em um mundo organizado segundo os pressupostos de Varian, os <em>habitat<\/em> dentro e fora do corpo humano est\u00e3o saturados de dados e produzem oportunidades radicalmente distribu\u00eddas para observa\u00e7\u00e3o, interpreta\u00e7\u00e3o, comunica\u00e7\u00e3o, influ\u00eancia, predi\u00e7\u00e3o e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, modifica\u00e7\u00e3o da totalidade da a\u00e7\u00e3o<\/strong>. Ao contr\u00e1rio do poder centralizado da sociedade de massa, n\u00e3o existe escapat\u00f3ria em rela\u00e7\u00e3o ao <em>Big Other<\/em>. N\u00e3o h\u00e1 lugar para estar onde o Outro tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1. (Zuboff 2018:\u00a044)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"automatiza\u00e7\u00e3o-da-conformidade-antecipat\u00f3ria-.-experi\u00eancia-do-real-baseada-em-est\u00edmulo-resposta.-desaparecimento-da-conformidade-invisibilidade-da-normatividade-algoritmica.\">Automatiza\u00e7\u00e3o da conformidade antecipat\u00f3ria. Experi\u00eancia do real baseada em est\u00edmulo-resposta. Desaparecimento da conformidade (invisibilidade da normatividade algoritmica).<\/h4>\n<blockquote><p>Nesse mundo do qual n\u00e3o existe fuga, os efeitos arrepiantes da conformidade antecipat\u00f3ria73 cedem \u00e0 medida que a ag\u00eancia mental e o autodom\u00ednio da antecipa\u00e7\u00e3o s\u00e3o gradualmente submersos em um novo tipo de automatiza\u00e7\u00e3o. A conformidade antecipat\u00f3ria assume um ponto de origem na consci\u00eancia a partir do qual \u00e9 feita a escolha de se conformar, com o objetivo de evitar san\u00e7\u00f5es e de camuflagem social. Isso tamb\u00e9m implica uma diferen\u00e7a, ou pelo menos a possibilidade de uma diferen\u00e7a, entre o comportamento que se deveria ter performado e o comportamento que se escolhe performar como uma solu\u00e7\u00e3o instrumental contra o poder invasivo. <strong>No mundo do <em>Big Other<\/em>, sem rotas de fuga, a ag\u00eancia implicada no trabalho de antecipa\u00e7\u00e3o \u00e9 gradualmente mergulhada em um novo tipo de automaticidade \u2013 uma experi\u00eancia real baseada puramente em est\u00edmulo-resposta<\/strong>. A conformidade n\u00e3o \u00e9 mais um ato t\u00edpico, como no s\u00e9culo XX, de submiss\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 massa ou ao grupo, n\u00e3o \u00e9 mais a perda de si pr\u00f3prio para o coletivo produzida pelo medo ou pela compuls\u00e3o, nem \u00e9 mais o desejo psicol\u00f3gico de aceita\u00e7\u00e3o e pertencimento. <strong>A conformidade agora desaparece na ordem mec\u00e2nica de coisas e de corpos, n\u00e3o como a\u00e7\u00e3o, mas como resultado, n\u00e3o como causa, mas como efeito. Cada um de n\u00f3s pode seguir um caminho distinto, mas esse caminho j\u00e1 \u00e9 moldado pelos interesses financeiros e\/ou ideol\u00f3gicos, que imbuem o Big Other e invadem todos os aspectos da \u201cvida privada\u201d de cada um<\/strong>. A falsa consci\u00eancia j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 produzida pelos fatos escondidos da classe e sua rela\u00e7\u00e3o com a produ\u00e7\u00e3o, mas pelos fatos ocultos da modifica\u00e7\u00e3o do comportamento mercantilizada. <strong>Se o poder j\u00e1 foi uma vez identificado com a propriedade dos meios de produ\u00e7\u00e3o, agora ele \u00e9 identificado com a propriedade dos meios de modifica\u00e7\u00e3o comportamental<\/strong>. (Zuboff 2018:\u00a045)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>73: Ver minha discuss\u00e3o sobre conformidade antecipat\u00f3ria em S. Zuboff, In the age of the smart machine, cit., p.\u00a0346-56. Para um debate mais atualizado sobre o tema, ver pesquisa recente sobre comportamento e buscas na internet feita por A. Marthews e C. Tucker, Government surveillance and internet search behavior (Cambridge, Digital Fourth, 2014); dispon\u00edvel em: <a class=\"uri\" href=\"http:\/\/www.ssrn.com\/abstract=2412564\">http:\/\/www.ssrn.com\/abstract=2412564<\/a>, acesso em: 18 jul. 2018. (Zuboff 2018:\u00a045-6)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"aproxima\u00e7\u00f5es-entre-psicologia-comportamental-v\u00f3rtice-de-est\u00edmulos-e-neoliberalismo-ordem-ampliada.-varian-adiciona-a-no\u00e7\u00e3o-de-previsibilidade-aumentando-o-reducioismo-do-humano-ao-estatuto-de-mero-animal.\">Aproxima\u00e7\u00f5es entre psicologia comportamental (v\u00f3rtice de est\u00edmulos) e neoliberalismo (ordem ampliada). Varian adiciona a no\u00e7\u00e3o de previsibilidade, aumentando o reducioismo do humano ao estatuto de \u201cmero animal\u201d.<\/h4>\n<blockquote><p>Na verdade, h\u00e1 pouca diferen\u00e7a entre a inef\u00e1vel \u201cordem ampliada\u201d do ideal neoliberal e o \u201cv\u00f3rtice de est\u00edmulos\u201d respons\u00e1vel por toda a a\u00e7\u00e3o na vis\u00e3o dos te\u00f3ricos cl\u00e1ssicos da psicologia comportamental. Nas duas vis\u00f5es de mundo, a autonomia humana \u00e9 irrelevante e a experi\u00eancia vivida da autodetermina\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica \u00e9 uma ilus\u00e3o cruel. Varian acrescenta uma nova dimens\u00e3o a ambos os ideais hegem\u00f4nicos fazendo com que agora essa \u201cvis\u00e3o de Deus\u201d possa ser totalmente explicada, especificada e conhecida, eliminando toda a incerteza. O resultado \u00e9 que as pessoas s\u00e3o reduzidas a uma mera condi\u00e7\u00e3o animal, inclinadas a servir \u00e0s novas leis do capital impostas a todos os comportamentos por meio da alimenta\u00e7\u00e3o implac\u00e1vel de registros ub\u00edquos em tempo real, baseados em fatos de todas as coisas e criaturas. (Zuboff 2018:\u00a045-6)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"hanna-arendt-sobre-o-comportamentalismo-como-realidade-produzida\">Hanna Arendt sobre o comportamentalismo como realidade produzida<\/h4>\n<blockquote><p>Hannah Arendt tratou esses temas d\u00e9cadas atr\u00e1s com uma clareza not\u00e1vel enquanto lamentava a transfer\u00eancia da nossa concep\u00e7\u00e3o de \u201cpensamento\u201d a algo que seria realizado por um \u201cc\u00e9rebro\u201d e, portanto, poss\u00edvel de ser transferido para \u201cinstrumentos eletr\u00f4nicos\u201d:<\/p>\n<blockquote><p>A \u00faltima etapa da sociedade do trabalho, a sociedade dos empregados, exige dos seus membros um completo funcionamento autom\u00e1tico, como se a vida individual tivesse sido realmente mergulhada no ciclo vital da esp\u00e9cie e a \u00fanica decis\u00e3o ativa ainda necess\u00e1ria do indiv\u00edduo fosse largar tudo, por assim dizer, abandonar sua individualidade, a dor individualmente sentida e o problema de viver, e concordar com um comportamento funcional atordoado e \u201ctranquilo\u201d. <strong>O problema com as teorias modernas do behaviorismo n\u00e3o \u00e9 que elas estejam erradas, mas que elas possam se tornar verdadeiras, que elas sejam a melhor conceitualiza\u00e7\u00e3o poss\u00edvel de certas tend\u00eancias \u00f3bvias na sociedade moderna<\/strong>. \u00c9 bem conceb\u00edvel que a era moderna \u2013 que come\u00e7ou com um surto promissor e sem precedentes de atividade humana \u2013 possa acabar na mais letal e est\u00e9ril passividade que a hist\u00f3ria j\u00e1 conheceu.74<\/p><\/blockquote>\n<p>(Zuboff 2018:\u00a046)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"privacidade-como-liberdade-individual-de-escolha-sobre-publicidade-ou-sigilo\">Privacidade como liberdade (individual) de escolha sobre publicidade ou sigilo<\/h4>\n<blockquote><p>O sigilo \u00e9 um efeito da privacidade, que \u00e9 sua causa. Exercitar o direito \u00e0 privacidade produz escolha, e uma pessoa escolhe manter algo sigiloso ou compartilh\u00e1-lo. Os direitos de privacidade conferem, assim, direitos de decis\u00e3o; a privacidade permite uma decis\u00e3o sobre onde se quer estar no espectro entre sigilo e transpar\u00eancia em cada situa\u00e7\u00e3o. (Zuboff 2018:\u00a047)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"redistribui\u00e7\u00e3o-dos-direitos-de-privacidade-no-capitalismo-de-vigil\u00e2ncia-empresas-possuem-plenos-direitos-em-oposi\u00e7\u00e3o-aos-usu\u00e1rios\">Redistribui\u00e7\u00e3o dos direitos de privacidade no capitalismo de vigil\u00e2ncia (empresas possuem plenos direitos em oposi\u00e7\u00e3o aos usu\u00e1rios)<\/h4>\n<blockquote><p>O trabalho da vigil\u00e2ncia, ao que parece, n\u00e3o \u00e9 corroer os direitos de privacidade, mas sim redistribu\u00ed-los. Em vez de um grande n\u00famero de pessoas possuindo alguns direitos de privacidade, esses direitos foram concentrados no interior do regime de vigil\u00e2ncia. Os capitalistas de vigil\u00e2ncia possuem amplos direitos de privacidade e, portanto, muitas oportunidades para segredos. Estes s\u00e3o cada vez mais utilizados para privar as popula\u00e7\u00f5es de escolha no que diz respeito a que partes de sua vida desejam manter em sigilo. Essa concentra\u00e7\u00e3o de direitos \u00e9 efetivada de duas maneiras. No caso da Google, do Facebook e de outros exemplos de capitalistas de vigil\u00e2ncia, muitos dos seus direitos parecem vir do ato de tomar os direitos de outros sem consentimento, em conformidade com o modelo do Street View. Os capitalistas de vigil\u00e2ncia exploraram de forma h\u00e1bil um lapso na evolu\u00e7\u00e3o social, uma vez que o r\u00e1pido desenvolvimento de suas habilidades de vigiar para o lucro em muito suplantou a compreens\u00e3o p\u00fablica e o eventual desenvolvimento de leis e regulamenta\u00e7\u00f5es legais. Como resultado, os direitos \u00e0 privacidade, uma vez acumulados e afirmados, podem ent\u00e3o ser invocados como legitima\u00e7\u00e3o para manter a obscuridade das opera\u00e7\u00f5es de vigil\u00e2ncia78. (Zuboff 2018:\u00a047-8)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"acumula\u00e7\u00e3o-de-direitos-no-capitalismo-de-vigil\u00e2ncia.-hiperescala-como-fator-antidemocr\u00e1tico-autoridade-absolutista-pr\u00e9-moderna.\">Acumula\u00e7\u00e3o de direitos no capitalismo de vigil\u00e2ncia. Hiperescala como fator antidemocr\u00e1tico (\u201cautoridade absolutista pr\u00e9-moderna\u201d).<\/h4>\n<blockquote><p>Esses argumentos sugerem que a l\u00f3gica da acumula\u00e7\u00e3o que sustenta o capitalismo de vigil\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 totalmente capturada pelo campo institucional convencional da empresa privada. Acumulam-se n\u00e3o apenas capital e ativos de vigil\u00e2ncia mas tamb\u00e9m direitos. Isso ocorre mediante um agenciamento \u00fanico de processos de neg\u00f3cios, que opera fora dos ausp\u00edcios de mecanismos democr\u00e1ticos leg\u00edtimos ou das tradicionais press\u00f5es do mercado, de reciprocidade e escolha do consumidor. Essa acumula\u00e7\u00e3o \u00e9 obtida por meio de uma declara\u00e7\u00e3o unilateral que se parece mais com as rela\u00e7\u00f5es sociais de uma autoridade absolutista pr\u00e9-moderna. No contexto dessa nova forma de mercado que eu chamo de capitalismo de vigil\u00e2ncia, a hiperescala se torna uma amea\u00e7a profundamente antidemocr\u00e1tica. (Zuboff 2018:\u00a049)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"big-other-como-coup-de-gens-redistribui\u00e7\u00e3o-autorit\u00e1ria-e-unilateral-de-direitos\">Big Other como <em>coup de gens<\/em>: redistribui\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria e unilateral de direitos<\/h4>\n<blockquote><p>O capitalismo de vigil\u00e2ncia, portanto, se qualifica como uma nova l\u00f3gica de acumula\u00e7\u00e3o, com uma nova pol\u00edtica e rela\u00e7\u00f5es sociais que substituem os contratos, o Estado de direito e a confian\u00e7a social pela soberania do <em>Big Other<\/em>. Ele imp\u00f5e um regime de conformidade baseado em recompensas e puni\u00e7\u00f5es e administrado privadamente, sustentado por uma redistribui\u00e7\u00e3o unilateral de direitos. O <em>Big Other<\/em> existe na aus\u00eancia de uma autoridade leg\u00edtima e \u00e9 em grande parte livre de detec\u00e7\u00e3o ou de san\u00e7\u00f5es. Neste sentido, o Big Other pode ser descrito como um golpe automatizado de cima: n\u00e3o um <em>coup d\u2019\u00c9tat<\/em>, mas sim um <em>coup des gens<\/em>*. (Zuboff 2018:\u00a049)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"responder-o-que-voc\u00ea-deseja-saber-antes-de-perguntar-modula\u00e7\u00e3o-google-now-assistente-de-voz-para-android\">Responder o que voc\u00ea deseja saber antes de perguntar (modula\u00e7\u00e3o): Google Now (assistente de voz para android)<\/h4>\n<blockquote><p>Varian sustenta que, \u201choje em dia, as pessoas esperam resultados de pesquisa e an\u00fancios personalizados\u201d. Ele diz que a Google quer fazer ainda mais. Em vez de voc\u00ea precisar fazer perguntas, a Google deve \u201csaber o que voc\u00ea deseja e lhe dizer antes que a pergunta seja feita\u201d. Essa vis\u00e3o, afirma, \u201cj\u00e1 foi realizada pelo Google Now\u201d. (Zuboff 2018:\u00a049)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"assimetrias-entre-o-que-capitalistas-de-vigil\u00e2ncia-sabem-e-o-que-o-usu\u00e1rio-sabe\">Assimetrias entre o que capitalistas de vigil\u00e2ncia sabem e o que o usu\u00e1rio sabe<\/h4>\n<blockquote><p>Por exemplo, a Google sabe muito mais sobre sua popula\u00e7\u00e3o de usu\u00e1rios do que estes sabem sobre si mesmos. De fato, n\u00e3o h\u00e1 meios pelos quais as popula\u00e7\u00f5es possam atravessar essa divis\u00e3o, dados os obst\u00e1culos materiais, intelectuais e propriet\u00e1rios necess\u00e1rios para a an\u00e1lise de dados e a aus\u00eancia de feedback loops. Outra assimetria assenta no fato de que o usu\u00e1rio t\u00edpico tem pouco ou nenhum conhecimento sobre as opera\u00e7\u00f5es comerciais da Google, sobre a ampla gama de dados pessoais com que contribui para os servidores da Google ou sobre a reten\u00e7\u00e3o desses dados ou, ainda, como eles s\u00e3o instrumentalizados e monetizados. J\u00e1 \u00e9 bem sabido que os usu\u00e1rios t\u00eam poucas op\u00e7\u00f5es significativas para a autogest\u00e3o de privacidade82. O capitalismo de vigil\u00e2ncia prospera na ignor\u00e2ncia do p\u00fablico. (Zuboff 2018:\u00a050)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"assimetria-de-poder-assentada-na-depend\u00eancia-do-usu\u00e1rio.-modula\u00e7\u00f5es-algor\u00edtmicas-como-pecado-fruto-proibido\">Assimetria de poder assentada na depend\u00eancia do usu\u00e1rio. Modula\u00e7\u00f5es algor\u00edtmicas como pecado (\u201cfruto proibido\u201d)<\/h4>\n<blockquote><p>Essas assimetrias no conhecimento s\u00e3o sustentadas por assimetrias de poder. <strong>O <em>Big Other<\/em> \u00e9 institucionalizado nas fun\u00e7\u00f5es autom\u00e1ticas indetect\u00e1veis de uma infraestrutura global que \u00e9 considerada pela maioria das pessoas como essencial para a participa\u00e7\u00e3o social b\u00e1sica<\/strong>. As ferramentas oferecidas pela Google e outras empresas capitalistas de vigil\u00e2ncia respondem \u00e0s necessidades dos indiv\u00edduos sitiados da segunda modernidade \u2013 e, assim como o fruto proibido, uma vez que s\u00e3o experimentadas, torna-se imposs\u00edvel viver sem elas. Quando o Facebook ficou fora do ar em cidades dos Estados Unidos durante algumas horas no ver\u00e3o de 2014, muitos estadunidenses chamaram seus servi\u00e7os de emerg\u00eancia locais no 911. (Zuboff 2018: 50-1)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"ferramentas-da-google-como-iscas-como-pacto-com-o-diabo-fausto-mas-um-pacto-ileg\u00edtimo\">Ferramentas da Google como iscas, como pacto com o diabo (Fausto) (mas um pacto ileg\u00edtimo)<\/h4>\n<blockquote><p>As ferramentas da Google n\u00e3o s\u00e3o objeto de valor de troca. Elas n\u00e3o estabelecem reciprocidades construtivas entre produtores e consumidores. Em vez disso, s\u00e3o as \u201ciscas\u201d que atraem os usu\u00e1rios para as opera\u00e7\u00f5es extrativistas e transformam a vida comum na renova\u00e7\u00e3o di\u00e1ria de um pacto faustiano do s\u00e9culo XXI. <strong>Essa depend\u00eancia social est\u00e1 no cerne do projeto de vigil\u00e2ncia. Necessidades fortemente sentidas como essenciais para uma vida mais eficaz se op\u00f5em \u00e0 inclina\u00e7\u00e3o para resistir ao projeto de vigil\u00e2ncia<\/strong>. Esse conflito produz uma esp\u00e9cie de entorpecimento ps\u00edquico que habitua as pessoas \u00e0 realidade de serem rastreadas, analisadas, mineradas e modificadas \u2013 ou as predisp\u00f5e a racionalizar a situa\u00e7\u00e3o com cinismo resignado. (Zuboff 2018:\u00a051)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Historicamente, essa poderosa caracter\u00edstica evolutiva da demanda levou \u00e0 expans\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e dos empregos, a sal\u00e1rios mais altos e a bens de menor custo. Essas reciprocidades n\u00e3o est\u00e3o mais no horizonte de Varian. Em vez disso, ele considera tal mecanismo de crescimento da demanda a for\u00e7a inevit\u00e1vel que empurrar\u00e1 as pessoas comuns para o pacto faustiano do Google Now de \u201cnecessidades\u201d em troca de ativos de vigil\u00e2ncia. (Zuboff 2018:\u00a052)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"possibilidades-de-resist\u00eancia-legisla\u00e7\u00e3o-nos-eua-e-europa-atitudes-individuais-conscientes-o-papel-de-assange-e-snowden\">Possibilidades de resist\u00eancia: legisla\u00e7\u00e3o nos EUA e Europa, atitudes individuais conscientes (o papel de Assange e Snowden)<\/h4>\n<blockquote><p>Um crescente conjunto de evid\u00eancias sugere que pessoas em muitos pa\u00edses podem vir a resistir ao coup des gens, j\u00e1 que a confian\u00e7a nos capitalistas de vigil\u00e2ncia se esvazia na medida em que eclodem novos fatos que indicam o impiedoso panorama da sociedade futura descrito por Varian. Essas quest\u00f5es s\u00e3o agora objeto de debate pol\u00edtico s\u00e9rio na Alemanha e na Uni\u00e3o Europeia, onde propostas para \u201cdesmembrar\u201d a Google j\u00e1 est\u00e3o sendo discutidas91. Uma pesquisa recente do Financial Times indica que tanto os europeus quanto os estadunidenses est\u00e3o alterando substancialmente seu comportamento online \u00e0 medida que buscam mais privacidade92. Um grupo de pesquisadores por tr\u00e1s de um grande estudo do comportamento online entre jovens concluiu que a \u201cfalta de conhecimento\u201d \u2013 e n\u00e3o uma \u201catitude espont\u00e2nea em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 privacidade\u201d, como alegaram os l\u00edderes das empresas de tecnologia \u2013 \u00e9 uma raz\u00e3o importante pela qual um grande n\u00famero de jovens \u201cse envolve com o mundo digital de maneira aparentemente despreocupada\u201d93. Novos estudos jur\u00eddicos revelam danos ao consumidor provocados pela sua perda de privacidade associada \u00e0 Google e ao capitalismo de vigil\u00e2ncia94. O fundador do WikiLeaks, Julian Assange, publicou um relato sobre a lideran\u00e7a, a pol\u00edtica e as ambi\u00e7\u00f5es globais da Google95. O \u00faltimo relat\u00f3rio do PEW Research Center sobre as percep\u00e7\u00f5es p\u00fablicas da privacidade na era p\u00f3s-Snowden indica que 91% dos adultos dos Estados Unidos concordam ou concordam fortemente que os consumidores perderam controle sobre seus dados pessoais, enquanto apenas 55% concordam ou concordam fortemente estar dispostos a \u201ccompartilhar algumas informa\u00e7\u00f5es sobre si com as empresas no intuito de usar gratuitamente os servi\u00e7os online\u201d96. (Zuboff 2018:\u00a053-4)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"experimentos-de-massa-como-comeplementariedade-necess\u00e1ria-\u00e0s-correla\u00e7\u00f5es-de-big-data-para-que-se-entenda-a-causalidade\">Experimentos de massa como comeplementariedade necess\u00e1ria \u00e0s correla\u00e7\u00f5es de <em>big data<\/em> para que se entenda a causalidade<\/h4>\n<blockquote><p>Como a an\u00e1lise de <em>big data<\/em> produz apenas padr\u00f5es correlacionais, Varian anuncia a necessidade de experimentos cont\u00ednuos que possam trazer \u00e0 tona quest\u00f5es de causalidade. Tais experi\u00eancias s\u00e3o f\u00e1ceis de fazer na <em>web<\/em>, \u201catribuindo grupos de tratamento e de controle com base no tr\u00e1fego, cookies, nomes de usu\u00e1rios, \u00e1reas geogr\u00e1ficas, e assim por diante\u201d97. A Google tem tido tanto sucesso na experimenta\u00e7\u00e3o que compartilhou suas t\u00e9cnicas com anunciantes e produtores de conte\u00fado. O Facebook tamb\u00e9m fez incurs\u00f5es nessa \u00e1rea, conduzindo experimentos de modifica\u00e7\u00e3o no comportamento dos usu\u00e1rios com a finalidade de monetizar seu conhecimento, sua capacidade preditiva e seu controle. Sempre que foram reveladas, no entanto, essas experi\u00eancias acenderam um intenso debate p\u00fablico98. (Zuboff 2018:\u00a054)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"ativos-de-vigil\u00e2ncia-simultaneamente-de-comportamentos-virtuais-e-reais-online-e-offline\">Ativos de vigil\u00e2ncia simultaneamente de comportamentos virtuais e reais (online e offline?)<\/h4>\n<blockquote><p>O entusiasmo de Varian pela experimenta\u00e7\u00e3o toca em um assunto maior, no entanto. As oportunidades de neg\u00f3cios associadas aos novos fluxos de dados implicam um deslocamento da an\u00e1lise <em>a posteriori<\/em> a que Constantiou e Kallinikos99 se referem, <strong>em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 observa\u00e7\u00e3o, \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o, \u00e0 an\u00e1lise, \u00e0 previs\u00e3o e \u00e0 modifica\u00e7\u00e3o em tempo real do comportamento atual e futuro<\/strong>. <strong>Isso implica outra mudan\u00e7a na fonte dos ativos de vigil\u00e2ncia, do comportamento virtual para o comportamento real, enquanto as oportunidades de monetiza\u00e7\u00e3o s\u00e3o reorientadas para combinar o comportamento virtual com o real<\/strong>. <strong>Essa \u00e9 uma nova fronteira de neg\u00f3cios composta do conhecimento sobre o comportamento em tempo real, que cria oportunidades para intervir nesse comportamento e modific\u00e1-lo objetivando o lucro<\/strong>. (Zuboff 2018:\u00a055)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"google-e-nsa-como-principais-agentes-de-minera\u00e7\u00e3o-de-dados-padr\u00f5es-de-an\u00e1lise-e-an\u00e1lise-preditiva.-neg\u00f3cio-da-realidade.\">Google e NSA como principais agentes de minera\u00e7\u00e3o de dados, padr\u00f5es de an\u00e1lise e an\u00e1lise preditiva. Neg\u00f3cio da realidade.<\/h4>\n<blockquote><p>As duas entidades na vanguarda dessa nova onda de \u201cminera\u00e7\u00e3o de realidade\u201d, \u201cpadr\u00f5es de an\u00e1lise de vida\u201d e \u201can\u00e1lise preditiva\u201d s\u00e3o o Google e a NSA. Como diz o relat\u00f3rio da Casa Branca, \u201cexiste um potencial crescente para a an\u00e1lise de <em>big data<\/em> ter um efeito imediato no ambiente em torno de uma pessoa ou nas decis\u00f5es feitas sobre sua vida\u201d101. Isso \u00e9 o que chamo de <em>neg\u00f3cio da realidade<\/em> e reflete uma evolu\u00e7\u00e3o na fronteira da ci\u00eancia de dados, indo da minera\u00e7\u00e3o de dados para a minera\u00e7\u00e3o da realidade, na qual, de acordo com Sandy Pentland, do MIT (Massachusetts Institute of Technology [Instituto de Tecnologia de Massachusetts]), sensores, telefones celulares e outros dispositivos de captura de dados fornecem os \u201colhos e ouvidos\u201d de um \u201corganismo vivo global\u201d a partir de um \u201cponto de vista de Deus\u201d102. (Zuboff 2018:\u00a055)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"expans\u00e3o-do-texto-eletr\u00f4nico-para-a-ordem-ampliada-global\">Expans\u00e3o do texto eletr\u00f4nico para a \u201cordem ampliada\u201d global<\/h4>\n<blockquote><p>Essa \u00e9 mais uma representa\u00e7\u00e3o da \u201cordem ampliada\u201d, totalmente explicada pela media\u00e7\u00e3o por computador. O texto eletr\u00f4nico do local de trabalho informatizado se transformou em um organismo vivo global \u2013 um \u201cponto de vista de Deus\u201d que \u00e9 interoperacional, transformador de comportamento, criador de mercados e tem direitos de propriedade. (Zuboff 2018:\u00a055-6)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"fic\u00e7\u00f5es-em-karl-polanyi-vida-trabalho-natureza-terra-troca-dinheiro\">Fic\u00e7\u00f5es em Karl Polanyi (vida-&gt;trabalho, natureza-&gt;terra, troca-&gt;dinheiro)<\/h4>\n<blockquote><p>O historiador Karl Polanyi observou, h\u00e1 quase setenta anos, que as economias de mercado dos s\u00e9culos XIX e XX dependiam de tr\u00eas inven\u00e7\u00f5es mentais surpreendentes que ele chamava de \u201cfic\u00e7\u00f5es\u201d. A primeira era que a vida humana pode ser subordinada \u00e0 din\u00e2mica do mercado e renascer como \u201ctrabalho\u201d. Em segundo lugar, que a natureza, subordinada tamb\u00e9m \u00e0 ordem de mercado, renasce como \u201cterra\u201d. Em terceiro lugar, a troca que renasce como \u201cdinheiro\u201d. A pr\u00f3pria possibilidade do capitalismo industrial dependia da cria\u00e7\u00e3o dessas tr\u00eas \u201cmercadorias fict\u00edcias\u201d cr\u00edticas. Vida, natureza e troca foram transformadas em coisas, para que pudessem ser lucrativamente compradas e vendidas. \u201c[A] fic\u00e7\u00e3o da mercadoria\u201d, ele escreveu, \u201cmenosprezou o fato de que deixar o destino do solo e das pessoas por conta do mercado seria o mesmo que aniquil\u00e1-los.\u201d (Zuboff 2018:\u00a056)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"quarta-mercadoria-fict\u00edcia-no-capitalismo-de-vigil\u00e2ncia-realidade-comportamento\">Quarta mercadoria fict\u00edcia no capitalismo de vigil\u00e2ncia: realidade-&gt;comportamento<\/h4>\n<blockquote><p>Com a nova l\u00f3gica de acumula\u00e7\u00e3o do capitalismo de vigil\u00e2ncia, uma quarta mercadoria fict\u00edcia emerge como caracter\u00edstica dominante da din\u00e2mica do mercado no s\u00e9culo XXI. A pr\u00f3pria realidade est\u00e1 passando pelo mesmo tipo de metamorfose fict\u00edcia por que passaram as pessoas, a natureza e a troca. <strong>A \u201crealidade\u201d \u00e9 agora subjugada \u00e0 mercantiliza\u00e7\u00e3o e \u00e0 monetiza\u00e7\u00e3o e renasce como \u201ccomportamento\u201d<\/strong>. Os dados sobre os comportamentos dos corpos, das mentes e das coisas ocupam importante lugar em uma din\u00e2mica compila\u00e7\u00e3o universal em tempo real de objetos inteligentes no interior de um dom\u00ednio global infinito de coisas conectadas. <strong>Esse novo fen\u00f4meno cria a possibilidade de modificar os comportamentos das pessoas e das coisas tendo por objetivo o lucro e o controle. Na l\u00f3gica do capitalismo de vigil\u00e2ncia, n\u00e3o h\u00e1 indiv\u00edduos, apenas o organismo mundial e todos os elementos mais \u00ednfimos em seu interior.<\/strong> (Zuboff 2018:\u00a056)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"sobre-a-exist\u00eancia-de-funcionalidades-inerentes-a-uma-tecnologia-sua-submiss\u00e3o-\u00e0s-l\u00f3gicas-institucionais-o-hacker-como-liberador-desse-entrave-institucional-\u00e0s-funcionalidades-inerentes-a-uma-tecnologia\">Sobre a exist\u00eancia de funcionalidades inerentes a uma tecnologia; sua submiss\u00e3o \u00e0s l\u00f3gicas institucionais; o hacker como liberador desse entrave institucional \u00e0s funcionalidades inerentes a uma tecnologia<\/h4>\n<blockquote><p>As tecnologias s\u00e3o constitu\u00eddas por funcionalidades espec\u00edficas, mas o desenvolvimento e a express\u00e3o dessas funcionalidades s\u00e3o moldados pelas l\u00f3gicas institucionais nas quais as tecnologias s\u00e3o projetadas, implementadas e usadas. Essa \u00e9, afinal, a origem do <em>hacker<\/em>. O hackeamento pretende liberar funcionalidades das l\u00f3gicas institucionais em que est\u00e3o congeladas e redistribu\u00ed-las em configura\u00e7\u00f5es alternativas para novos fins. Na esfera do mercado, essas l\u00f3gicas circunscritas s\u00e3o l\u00f3gicas de acumula\u00e7\u00e3o. (Zuboff 2018:\u00a056-7)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"objetivo-identificar-e-identificar-a-atual-l\u00f3gica-de-acumula\u00e7\u00e3o-baseado-em-agenciamentos-em-hiperescala-de-dados-objetivos-e-subjetivos-visando-conhecer-controlar-e-modificar-comportamentos\">Objetivo: identificar e teorizar a atual l\u00f3gica de acumula\u00e7\u00e3o baseado em agenciamentos em hiperescala de dados objetivos e subjetivos visando conhecer, controlar e modificar comportamentos<\/h4>\n<blockquote><p>Com essa vis\u00e3o em mente, meu objetivo foi come\u00e7ar a identificar e teorizar <strong>a l\u00f3gica de acumula\u00e7\u00e3o atualmente institucionalizada que produz agenciamentos em hiperescala de dados objetivos e subjetivos sobre indiv\u00edduos e seus habitat no intuito de conhecer, controlar e modificar comportamentos para produzir novas variedades de mercantiliza\u00e7\u00e3o, monetiza\u00e7\u00e3o e controle<\/strong>. (Zuboff 2018:\u00a057)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"google-como-lider-de-pr\u00e1ticas-que-passam-da-an\u00e1lise-do-comportamento-virtual-passado-para-a-modifica\u00e7\u00e3o-do-comportamento-real-futuro.-comportamentalismo-atrav\u00e9s-de-publicidades.\">Google como lider de pr\u00e1ticas que passam da an\u00e1lise do comportamento \u201cvirtual\u201d passado para a modifica\u00e7\u00e3o do comportamento \u201creal\u201d futuro. Comportamentalismo atrav\u00e9s de publicidades.<\/h4>\n<blockquote><p>O desenvolvimento da internet e de m\u00e9todos para acessar a world wide web disseminaram a media\u00e7\u00e3o por computador, antes restrita a locais de trabalho delimitados e a\u00e7\u00f5es especializadas, para a ubiquidade global tanto na interface institucional quanto nas esferas \u00edntimas da experi\u00eancia cotidiana. As empresas de alta tecnologia, <strong>lideradas pela Google<\/strong>, perceberam novas oportunidades de lucro nesses fatos. <strong>A Google compreendeu que capturar cada vez mais desses dados, armazen\u00e1-los e analis\u00e1-los lhe daria o poder de afetar substancialmente o valor da publicidade<\/strong>. As capacidades da Google nessa arena, tendo desenvolvido e atra\u00eddo lucros hist\u00f3ricos, levaram \u00e0 <strong>produ\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas sucessivamente ambiciosas que expandiram a lente dos dados do comportamento virtual passado para o comportamento real futuro. Novas oportunidades de monetiza\u00e7\u00e3o est\u00e3o assim associadas a uma nova arquitetura global de captura e an\u00e1lise de dados que produz recompensas e puni\u00e7\u00f5es destinadas a modificar e transformar em mercadoria o comportamento visando \u00e0 obten\u00e7\u00e3o de lucro<\/strong>. (Zuboff 2018:\u00a057)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"an\u00e1lise-do-porque-da-permanencia-dessas-pr\u00e1ticas-assim\u00e9tricas-institucionalizadas-invisibilidade-e-depend\u00eancia---inevitabilidade\">An\u00e1lise do porque da permanencia dessas pr\u00e1ticas assim\u00e9tricas institucionalizadas: invisibilidade e depend\u00eancia -&gt; inevitabilidade<\/h4>\n<blockquote><p>Esses novos fatos institucionais se mantiveram por diversos motivos: foram constru\u00eddos muito rapidamente e projetados para serem indetect\u00e1veis; fora de um dom\u00ednio estreito de especialistas, poucas pessoas entenderam seu significado; <strong>assimetrias estruturais de conhecimento e direitos tornaram imposs\u00edvel que as pessoas tomassem conhecimento dessas pr\u00e1ticas<\/strong>; as principais empresas de tecnologia foram respeitadas e tratadas como emiss\u00e1rios do futuro; nada na experi\u00eancia passada havia preparado as pessoas para essas novas pr\u00e1ticas, havendo, portanto, escassez de barreiras para que se protegessem; <strong>os indiv\u00edduos rapidamente passaram a depender das novas ferramentas de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o como recursos necess\u00e1rios na luta cada vez mais estressante, competitiva e estratificada para uma vida mais eficaz; as novas ferramentas, redes, aplicativos, plataformas e m\u00eddias tornaram-se requisitos para a participa\u00e7\u00e3o social<\/strong>. E, finalmente, o r\u00e1pido ac\u00famulo de fatos institucionalizados \u2013 <em>data brokers<\/em>, an\u00e1lise de dados, minera\u00e7\u00e3o de dados, especializa\u00e7\u00f5es profissionais, fluxos de caixa inimagin\u00e1veis, poderosos efeitos de rede, colabora\u00e7\u00e3o estatal, recursos materiais de hiperescala e concentra\u00e7\u00f5es sem precedentes de poder de informa\u00e7\u00e3o \u2013 produziu uma <strong>sensa\u00e7\u00e3o esmagadora de inevitabilidade<\/strong>. (Zuboff 2018:\u00a057-8)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"capitalismo-de-vigil\u00e2ncia-como-nova-l\u00f3gica-de-acumula\u00e7\u00e3o-extra\u00e7\u00e3o-e-controle-institucionalizada-baseada-no-texto-eletr\u00f4nico-generalizado-na-forma-de-um-organismo-global-inteligente-o-big-other\">Capitalismo de vigil\u00e2ncia como nova l\u00f3gica de acumula\u00e7\u00e3o (extra\u00e7\u00e3o e controle) institucionalizada baseada no texto eletr\u00f4nico generalizado (na forma de um organismo global inteligente, o <em>Big Other<\/em>)<\/h4>\n<blockquote><p>Esses desenvolvimentos tornaram-se a base para uma nova l\u00f3gica de acumula\u00e7\u00e3o totalmente institucionalizada que chamo de capitalismo de vigil\u00e2ncia. Nesse novo regime, a arquitetura global da media\u00e7\u00e3o por computador transforma o texto eletr\u00f4nico, anteriormente delimitado dentro das organiza\u00e7\u00f5es, em um organismo global inteligente que chamo de <em>Big Other<\/em>. Novas possibilidades de subjuga\u00e7\u00e3o s\u00e3o produzidas \u00e0 medida que essa l\u00f3gica institucional inovadora prospera em mecanismos inesperados e ileg\u00edveis de extra\u00e7\u00e3o e controle que exilam as pessoas de seus pr\u00f3prios comportamentos. (Zuboff 2018:\u00a058)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"divis\u00e3o-de-aprendizagem-como-quest\u00e3o-civilizacional\">Divis\u00e3o de aprendizagem como quest\u00e3o civilizacional<\/h4>\n<blockquote><p>Sob essas condi\u00e7\u00f5es, a divis\u00e3o de aprendizagem e as disputas ao redor dela passam a ter \u00e2mbito civilizacional. Para a pergunta \u201cquem participa?\u201d a resposta \u00e9 \u201caqueles com os recursos materiais, de conhecimento e financeiros para acessar o <em>Big Other<\/em>\u201d. (Zuboff 2018:\u00a058)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"os-mercados-de-controle-comportamental\">Os mercados de controle comportamental<\/h4>\n<blockquote><p>Para a pergunta \u201cquem decide?\u201d a resposta \u00e9 que o acesso ao <em>Big Other<\/em> \u00e9 decidido por novos mercados na mercantiliza\u00e7\u00e3o do comportamento: os mercados de controle comportamental. Estes s\u00e3o compostos daqueles que vendem oportunidades de influenciar comportamentos para obter lucro e daqueles que compram tais oportunidades. (Zuboff 2018:\u00a058)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"exemplos-do-funcionamento-dessa-nova-l\u00f3gica.-aproxima\u00e7\u00f5es-com-o-exemplo-do-cart\u00e3o-dividual-em-guattari-citado-por-deleuze-e-com-a-no\u00e7\u00e3o-de-governamentalidade-algor\u00edtmica\">Exemplos do funcionamento dessa nova l\u00f3gica.<\/h4>\n<blockquote><p>Assim, a Google, por exemplo, pode vender acesso a uma companhia de seguros e essa empresa compra o direito de intervir, mediante um circuito de informa\u00e7\u00f5es, em seu carro ou em sua cozinha para aumentar suas receitas ou reduzir seus custos. Pode desligar o seu carro porque voc\u00ea est\u00e1 dirigindo muito r\u00e1pido. Pode bloquear o seu refrigerador quando aumentar seu risco de desenvolver uma doen\u00e7a card\u00edaca ou diabetes tomando muito sorvete. Voc\u00ea poder\u00e1, ent\u00e3o, enfrentar a perspectiva de pr\u00eamios mais altos ou da perda de cobertura do seguro. (Zuboff 2018:\u00a058)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"substitui\u00e7\u00e3o-do-estado-e-dos-contratos-baseado-na-confian\u00e7a-por-uma-l\u00f3gica-da-preemp\u00e7\u00e3o-baseada-no-comportamentalismo-recompensas-puni\u00e7\u00f5es-est\u00edmulos-e-respostas\">Substitui\u00e7\u00e3o do Estado e dos contratos (baseado na confian\u00e7a) por uma l\u00f3gica da preemp\u00e7\u00e3o (baseada no comportamentalismo: recompensas, puni\u00e7\u00f5es, est\u00edmulos e respostas)<\/h4>\n<blockquote><p>A renderiza\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o pela Google substitui o Estado de direito e a necessidade da confian\u00e7a social como base para as comunidades humanas por um novo \u201cmundo da vida\u201d de recompensas e puni\u00e7\u00f5es, est\u00edmulos e respostas. (Zuboff 2018:\u00a059)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"distanciamento-do-social-capitalismo-de-vigil\u00e2ncia-como-autoritarismo\">Distanciamento do social, capitalismo de vigil\u00e2ncia como autoritarismo<\/h4>\n<blockquote><p>Nesse novo modelo, as popula\u00e7\u00f5es s\u00e3o alvo de extra\u00e7\u00e3o de dados. Esse descolamento radical do social \u00e9 outro aspecto do car\u00e1ter antidemocr\u00e1tico do capitalismo de vigil\u00e2ncia. Sob o capitalismo de vigil\u00e2ncia, a democracia n\u00e3o funciona mais como um meio para a prosperidade; na verdade, ela amea\u00e7a as receitas de vigil\u00e2ncia (Zuboff 2018:\u00a059)<\/p><\/blockquote>\n<h4 id=\"coparticipa\u00e7\u00e3o-do-p\u00fablico-e-privado-no-capitalismo-de-vigil\u00e2ncia\">Coparticipa\u00e7\u00e3o do p\u00fablico e privado no capitalismo de vigil\u00e2ncia<\/h4>\n<blockquote><p>Desde Edward Snowden, aprendemos sobre a confus\u00e3o de fronteiras do p\u00fablico e do privado em atividades de vigil\u00e2ncia, incluindo colabora\u00e7\u00f5es e interdepend\u00eancias construtivas entre as autoridades de seguran\u00e7a do Estado e empresas de alta tecnologia (Zuboff 2018:\u00a059)<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<br \/>\n(Baseado em fichamento originalmente publicado em: <a href=\"https:\/\/maquinacoes.rafaelg.net.br\/big-other\">https:\/\/maquinacoes.rafaelg.net.br\/big-other<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Zuboff, Shoshana. 2018 [2015]. \u201cBig other: capitalismo de vigil\u00e2ncia e perspectivas para uma civiliza\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o\u201d. Em: Fernanda Bruno, Bruno Cardoso, Marta Kanashiro, e Luciana Guilhon (eds.). Tecnopol\u00edticas de Vigil\u00e2ncia: perspectivas da margem. S\u00e3o Paulo: Boitempo, pp. 17\u201368.\u00a0 [\u201cBig Other: Surveillance Capitalism and the Prospects of an Information Civilization\u201d. Journal of Information Technology 30 (1): 75\u201389. https:\/\/doi.org\/10.1057\/jit.2015.5]. 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