{"id":201,"date":"2021-04-14T18:51:01","date_gmt":"2021-04-14T18:51:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=201"},"modified":"2021-04-14T18:51:01","modified_gmt":"2021-04-14T18:51:01","slug":"reticulacao-no-meot-simondon-2008-1958","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2021\/04\/14\/reticulacao-no-meot-simondon-2008-1958\/","title":{"rendered":"Reticula\u00e7\u00e3o no MEOT (Simondon 2008 [1958])"},"content":{"rendered":"<p>SIMONDON, Gilbert. 2008. <em>Du mode d&#8217;existence des objets techniques<\/em>. Paris: Aubier. [1958]<\/p>\n<p>Nas duas primeiras partes do livro, Simondon usa os termos &#8220;rede&#8221; e &#8220;reticula\u00e7\u00e3o&#8221; poucas vezes, sempre em sentido banal, nunca com carga conceitual. Um exemplo deste tipo de uso banal do termo \u00e9 o seguinte<\/p>\n<p><strong>REDE E CONCETIZA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A ess\u00eancia da concretiza\u00e7\u00e3o do objeto t\u00e9cnico \u00e9 a organiza\u00e7\u00e3o de sub-conjuntos funcionais no funcionamento total; partindo desse princ\u00edpio, pode-se compreender em que sentido se opera a redistribui\u00e7\u00e3o das func\u00f5es na rede de diferentes estruturas (Simondon 2008:34)<\/p><\/blockquote>\n<p>Simondon come\u00e7a a usar os termos &#8220;rede&#8221; e &#8220;reticula\u00e7\u00e3o&#8221; com sentido conceitual na terceira parte do livro, &#8220;Ess\u00eancia da tecnicidade&#8221;, mais especificamente na se\u00e7\u00e3o &#8220;II. A defasagem da unidade m\u00e1gica primitiva&#8221;, p\u00e1gina 164, como segue.<\/p>\n<p><strong>RETICULA\u00c7\u00c3O M\u00c1GICO-PRIMITIVA DO MUNDO COMO \u201cHIP\u00d3TESE GEN\u00c9TICA GERAL\u201d DA RELA\u00c7\u00c3O HUMANO-MUNDO (figura\/fundo)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>a etapa m\u00e1gica [&#8230;] [\u00e9] a estrutura\u00e7\u00e3o mais simples e fundamental do meio de um ser vivo: o nascimento de uma rede de pontos privilegiados de troca entre o ser e o seu meio. (Simondon 2008:164)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>De fato, antes da segrega\u00e7\u00e3o das unidades [sujeito e objeto], se institui uma reticula\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o e do tempo que coloca em evid\u00eancia lugares e momentos privilegiados, como se todo o poder de agir do homem e toda a capacidade do mundo de influenciar o homem se concentrassem nesses lugares e nesses momentos. Esses lugares e esses momentos det\u00eam, concentram, e exprimem as for\u00e7as contidas no fundo de realidade que os suporta. Esses pontos e esses momentos n\u00e3o s\u00e3o realidades separadas; eles retiram sua for\u00e7a do fundo que eles dominam; mas eles localizam e focalizam a atitude do ser vivo frente a seu meio. (Simondon 2008:164)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>O universo m\u00e1gico \u00e9 estruturado segundo a mais primitiva e a mais pregnante das organiza\u00e7\u00f5es: aquela da reticula\u00e7\u00e3o do mundo em lugares privilegiados e em momentos privilegiados. Um local privilegiado, um local que tem um poder, \u00e9 aquele que canaliza para ele toda a for\u00e7a e a efic\u00e1cia do dom\u00ednio que ele limita; ele resume e cont\u00e9m a for\u00e7a de uma massa compacta de realidade; ele a resume e a governa, como um lugar elevado governa e domina uma regi\u00e3o baixa [&#8230;]. O mundo m\u00e1gico \u00e9 feito, assim, de uma rede de lugares e de coisas que t\u00eam um poder e s\u00e3o ligadas \u00e0s outras coisas e aos outros lugares que tamb\u00e9m t\u00eam poder. Tal caminho, tal muralha, [&#8230;], cont\u00eam toda a for\u00e7a da regi\u00e3o, o ponto-chave da realidade e da espontaneidade das cosias, assim como de sua disponibilidade. (Simondon 2008:164-5)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>[O] pensamento m\u00e1gico [&#8230;] corresponde \u00e0 estrutura\u00e7\u00e3o mais simples, mais concreta, mais vasta e mais flex\u00edvel: aquela da reticula\u00e7\u00e3o. Na totalidade constitu\u00edda pelo homem e pelo mundo aparece, como primeira estrutura, uma rede de pontos privilegiados realizando a inser\u00e7\u00e3o do esfor\u00e7o humano, e atrav\u00e9s dos quais se efetuam as trocas entre o homem e o mundo. Cada ponto singular concentra em si a capacidade de comandar uma parte do mundo que ele representa particularmente e da qual ele traduz a realidade, na comunica\u00e7\u00e3o com o homem. Pode-se nomear esses pontos singulares de pontos-chave comandando a rela\u00e7\u00e3o homem-mundo, de maneira revers\u00edvel, pois o mundo influencia o homem como o homem influencia o mundo. S\u00e3o os cumes das montanhas ou certos desfiladeiros, naturalmente m\u00e1gicos, pois governam uma regi\u00e3o. [&#8230;] [S]\u00e3o realidades que concentram os poderes naturais assim como focalizam o esfor\u00e7o humano: elas s\u00e3o estruturas de figura com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 massa que as suporta, e que constitui seu fundo. (Simondon 2008:165)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>OS N\u00d3S DA REDE S\u00c3O OBJETIVOS-SUBJETIVOS<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Em tal rede de pontos-chave, de marcos, existe indistin\u00e7\u00e3o primitiva da realidade humana e da realidade do mundo objetivo. Tais pontos-chave s\u00e3o reais e objetivos, mas eles s\u00e3o aquilo pelo qual o ser humano \u00e9 imediatamente religado ao mundo, ao mesmo tempo para receber sua influ\u00eancia e para agir sobre ele; esses s\u00e3o os pontos de contato e de realidade mista, m\u00fatua, locais de troca e de comunica\u00e7\u00e3o pois eles s\u00e3o feitos de um n\u00f3 entre as duas realidades. (Simondon 2008:165)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ATOS DE EXCE\u00c7\u00c3O E RETICULA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O desejo de conquista e o senso de competi\u00e7\u00e3o existem, talvez, na motiva\u00e7\u00e3o que permite passar da exist\u00eancia corriqueira a [&#8230;] atos de exce\u00e7\u00e3o; mas trata-se, sobretudo, quando invocamos o desejo de conquista, de tornar leg\u00edtimo para uma comunidade um ato individual. De fato, no ser individual ou no grupo restrito daqueles que realizam o ato de exce\u00e7\u00e3o, \u00e9 um pensamento muito mais primitivo e muito mais rico que est\u00e1 operando. [&#8230;] A ascen\u00e7\u00e3o, a explora\u00e7\u00e3o, e mais geralmente todo gesto pioneiro, consistem em aderir aos pontos-chave da natureza presente. [&#8230;] [E]stabelecer com [eles] uma rela\u00e7\u00e3o de amizade. (Simondon 2008:166)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>O universo m\u00e1gico \u00e9 feito da rede dos lugares de acesso a cada dom\u00ednio de realidade: ele consiste em umbrais, cumes, limites, pontos de passagem, ligados uns aos outros por sua singularidade e seu car\u00e1ter excepcional. (Simondon 2008:166)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>TEMPO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Essa rede de limites n\u00e3o \u00e9 somente espacial, mas tamb\u00e9m temporal; existem datas not\u00e1veis, momentos privilegiados para come\u00e7ar esta ou aquela a\u00e7\u00e3o. Ali\u00e1s, a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de in\u00edcio \u00e9 m\u00e1gica (Simondon 2008:166-7)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Ora, o tempo corrente e o espa\u00e7o corrente servem de fundo a tais figuras; dissociadas do fundo, as figuras perdem sua significa\u00e7\u00e3o; folgas e celebra\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o um repouso com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vida corrente, por interrup\u00e7\u00e3o da vida corrente, mas uma busca dos lugares e das datas privilegiadas com rela\u00e7\u00e3o ao fundo cont\u00ednuo. (Simondon 2008:167)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ESTRUTURA DE FIGURA=RETICULAC\u00c3O<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Essa estrutura de figura [&#8230;] \u00e9 a reticula\u00e7\u00e3o do universo em pontos-chave privilegiados pelos quais passam as trocas entre o vivo e seu meio. (Simondon 2008:167)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>DEFASAGEM<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Enquanto os pontos-chave se objetivam na forma de ferramentas e de instrumentos concretizados, os poderes de fundo se subjetivam ao se personificar sob a forma do divino e do sagrado (Deuses her\u00f3is, sacerdotes). (Simondon 2008:168)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>IMPRESS\u00c3O EST\u00c9TICA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A impress\u00e3o est\u00e9tica implica um sentimento da perfei\u00e7\u00e3o completa de um ato, perfei\u00e7\u00e3o que lhe d\u00e1 objetivamente uma difus\u00e3o e uma autoridade pela qual ele se torna um ponto not\u00e1vel da realidade vivida, um n\u00f3 da realidade experienciada. Esse ato se torna um ponto not\u00e1vel da rede da vida humana inserida no mundo; desse ponto not\u00e1vel aos outros, um parentesco superior se cria que reconstitui um an\u00e1logo da rede m\u00e1gica do universo. (Simondon 2008:180)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>RETICULA\u00c7\u00c3O EST\u00c9TICA DO PENSAMENTO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O destino do pensamento est\u00e9tico, ou mais exatamente da inspira\u00e7\u00e3o est\u00e9tica de todo pensamento tendendo \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o, \u00e9 de reconstituir, no interior de cada modo de pensamento, uma reticula\u00e7\u00e3o que coincide com a reticula\u00e7\u00e3o dos outros modos de pensamento: a tend\u00eancia est\u00e9tica \u00e9 o ecumenismo do pensamento. [&#8230;] [P]oderia ser dito que cada pensamento tende a se reticular e a aderir novamente ao mundo ap\u00f3s ter-se afastado dele. (Simondon 2008:181)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>NOVA RETICULA\u00c7\u00c3O T\u00c9CNOEST\u00c9TICA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[U]ma nova reticula\u00e7\u00e3o, escolhida pela t\u00e9cnica, se institui dando um privil\u00e9gio a certos lugares do mundo, numa alian\u00e7a sin\u00e9rgica dos esquemas t\u00e9cnicos e dos poderes naturais. L\u00e1 aparece a impress\u00e3o est\u00e9tica, neste acordo e nesta supera\u00e7\u00e3o da t\u00e9cnica que se torna novamente concreta, inserida, religada ao mundo pelos pontos-chave mais not\u00e1veis. A media\u00e7\u00e3o entre o homem e o mundo se torna ela mesma um mundo, a estrutura do mundo. (Simondon 2008:181)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>RETICULA\u00c7\u00c3O EST\u00c9TICA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Ora, a atividade est\u00e9tica preserva precisamente essa estrutura de reticula\u00e7\u00e3o. (Simondon 2008:182)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>RETICULA\u00c7\u00c3O EST\u00c9TICA DO MUNDO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Existe no mundo um certo n\u00famero de lugares not\u00e1veis, de pontos excepcionais que atraem e estimulam a cria\u00e7\u00e3o est\u00e9tica, como existe na vida humana um certo n\u00famero de momentos particulares, radiantes, se distinguindo dos outros, que chamam \u00e0 obra. A obra, resultado dessa exig\u00eancia de cria\u00e7\u00e3o, dessa sensibilidade aos lugares e aos momentos de exce\u00e7\u00e3o, n\u00e3o copia o mundo ou o homem, mas os prolonga e se insere neles. Mesmo sendo destacada, a obra est\u00e9tica n\u00e3o vem de uma ruptura do universo ou do tempo vital do homem; ela vem somar-se \u00e0 realidade j\u00e1 dada, trazendo-lhe estruturas constru\u00eddas, mas constru\u00eddas sobre funda\u00e7\u00f5es que fazem parte do real e inseridas no mundo. Assim, a obra est\u00e9tica faz brotar o universo, o prolonga, constituindo uma rede de obras, isto \u00e9, de realidades excepcionais, radiantes, de pontos-chave do universo m\u00e1gico [&#8230;] [;] a rede espacial e temporal das obras de arte \u00e9, entre o mundo e o homem, uma media\u00e7\u00e3o que conserva a estrutura do mundo m\u00e1gico. (Simondon 2008:184)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>EDUCA\u00c7\u00c3O T\u00c9CNICA e RETICULA\u00c7\u00c3O TECNOEST\u00c9TICA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[\u00c9] preciso uma educa\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica para que a beleza dos objetos t\u00e9cnicos possa aparecer como inser\u00e7\u00e3o de esquemas t\u00e9cnicos num universo, nos pontos-chave desse universo. (Simondon 2008:186)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>OBJETO EST\u00c9TICO COMO N\u00d3 DE REDE<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Assim, pode-se dizer que o objeto est\u00e9tico n\u00e3o \u00e9 um objeto propriamente dito, mas sobretudo um prolongamento do mundo natural ou do mundo humano, que permanece inserido na realidade que o porta. Ele \u00e9 um ponto not\u00e1vel de um universo; esse ponto [&#8230;] n\u00e3o \u00e9 arbitrariamente colocado no mundo; ele representa o mundo e focaliza suas for\u00e7as, suas qualidades de fundo [&#8230;]; ele se mant\u00e9m em um estatuto intermedi\u00e1rio entre a objetividade e a subjetividade puras. (Simondon 2008:187)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A RETICULA\u00c7\u00c3O EST\u00c9TICA DO MUNDO COMO UMA REDE DE ANALOGIAS<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A realidade est\u00e9tica se encontra, assim, sobreposta \u00e0 realidade dada, mas segundo linhas que j\u00e1 existem na realidade dada; ela \u00e9 aquilo que re-introduz, na realidade dada, as fun\u00e7\u00f5es figurais e as fun\u00e7\u00f5es de fundo que, no momento da dissocia\u00e7\u00e3o do universo m\u00e1gico, se tornaram t\u00e9cnicas e religi\u00e3o. Sem a atividade est\u00e9tica, entre t\u00e9cnicas e religi\u00e3o n\u00e3o existiria nada al\u00e9m de uma zona neutra de realidade sem estrutura e sem qualidades; gra\u00e7as \u00e0 atividade est\u00e9tica, essa zona neutra, mesmo permanecendo central e equilibrada, reencontra uma densidade e uma significa\u00e7\u00e3o; ela retoma, atrav\u00e9s das obras est\u00e9ticas, a estrutura reticular que se estendia ao conjunto do universo antes da dissocia\u00e7\u00e3o do pensamento m\u00e1gico. [&#8230;] Enquanto o pensamento t\u00e9cnico \u00e9 feito de esquemas, de elementos figurais sem realidade de fundo, e o pensamento religioso \u00e9 feito de qualidades e de for\u00e7as de fundo sem estruturas figurais, o pensamento est\u00e9tico combina estruturas figurais e qualidades de fundo. Em lugar de representar, como o pensamento t\u00e9cnico, as fun\u00e7\u00f5es elementares, ou, como o pensamento religioso, as fun\u00e7\u00f5es de totalidade, o pensamento est\u00e9tico mant\u00e9m juntos elementos e totalidade, figura e fundo, na rela\u00e7\u00e3o anal\u00f3gica; a reticula\u00e7\u00e3o est\u00e9tica do mundo \u00e9 uma rede de analogias. (Simondon 2008:189)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>O pensamento est\u00e9tico apreende os seres como individuados e o mundo como uma rede de seres em rela\u00e7\u00e3o anal\u00f3gica. (Simondon 2008:191)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>TROPISMOS<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[A realidade est\u00e9tica] \u00e9 uma certa maneira de ser do vivo no mundo, comportnado caracteres de atra\u00e7\u00e3o, dire\u00e7\u00f5es, tropismos no sentido pr\u00f3prio do termo. (Simondon 2008:192)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>DESTINO RETICULAR<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O destino \u00e9 essa coincid\u00eancia da linha da vida e da realidade do mundo atrav\u00e9s de uma rede de gestos tendo valor excepcional. (Simondon 2008:195)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>RETICULA\u00c7\u00c3O EST\u00c9TICA COMO MIST\u00c9RIO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[A] arte faz com que toda realidade, singular no espa\u00e7o e no tempo, seja, no entanto, uma realidade em rede: este ponto \u00e9 hom\u00f3logo de uma infinidade de outros que lhe respondem e que s\u00e3o ele mesmo sem, no entanto, eliminar a ecceidade de cada n\u00f3 da rede: nessa estrutura reticular do real reside isso que poder\u00edamos chamar de mist\u00e9rio est\u00e9tico. (Simondon 2008:201)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>RETICULA\u00c7\u00c3O T\u00c9CNICA \u00e9 mais profunda que RETICULA\u00c7\u00c3O TRADICIONAL<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[N]a medida em que uma tecnologia polit\u00e9cnica substitui as t\u00e9cnicas separadas, as pr\u00f3prias realidades t\u00e9cnicas, na sua objetividade realizada, assumem uma estrutura de rede; elas est\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o umas com as outras, em lugar de se bastarem a si mesmas, como os trabalhos dos artes\u00e3os, e elas est\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o com o mundo que elas encerram nas malhas de seus pontos-chave: as ferramentas s\u00e3o livres e abstratas, transport\u00e1veis para qualquer lugar e para qualquer tempo, mas os conjuntos t\u00e9cnicos s\u00e3o verdadeiras redes concretamente ligadas ao mundo natural; uma barragem n\u00e3o pode ser constru\u00edda em qualquer lugar, assim como um forno solar. Algumas no\u00e7\u00f5es da cultura tradicional parecem supor que o desenvolvimento das t\u00e9cnicas causa o desaparecimento do car\u00e1ter particular de cada local e de cada regi\u00e3o, levando \u00e0 perda dos costumes e idiomas artesanais locais; na realidade, o desenvolvimento das t\u00e9cnicas cria uma concretiza\u00e7\u00e3o muito mais importante e muito mais fortemente enraizada do que aquela que ela destr\u00f3i; um costume artesanal, como um costume regional, pode se transportar, por simples influ\u00eancia, de um lugar para outro; ela quase s\u00f3 se enra\u00edza no mundo humano; ao contr\u00e1rio, um conjunto t\u00e9cnico \u00e9 profundamente enraizado no meio natural. N\u00e3o existem minas de carv\u00e3o em terrenos prim\u00e1rios. [&#8230;] Assim se constituem certos lugares privilegiados do mundo, natural, t\u00e9cnico e humano; \u00e9 o conjunto, a interconex\u00e3o desses lugares privilegiados que fazem, desse universo polit\u00e9cnico, um universo ao mesmo tempo natural e humano; as estruturas dessa reticula\u00e7\u00e3o se tornam sociais e pol\u00edticas. (Simondon 2008:219-20)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>RETICULA\u00c7\u00c3O T\u00c9CNICA exige RETICULA\u00c7\u00c3O FILOS\u00d3FICA e CULTURAL (o conceito de &#8220;rede&#8221; e o &#8220;poder regulador concreto&#8221; da cultura)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[N]\u00e3o existe um pensamento suficientemente desenvolvido para permitir a teoriza\u00e7\u00e3o dessa reticula\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica dos conjuntos concretos. \u00c9 \u00e0 filosofia que cabe a tarefa de constituir esse pensamento, pois existe a\u00ed uma realidade nova que n\u00e3o \u00e9 ainda representada na cultura. [&#8230;] Existe um mundo da pluralidade das t\u00e9cnicas, que tem suas pr\u00f3prias estruturas e que deveria encontrar representa\u00e7\u00f5es adequadas de si no mundo da cultura; ora, o termo geral &#8220;rede&#8221;, comumente empregado para designar as estruturas de interconex\u00e3o de energia el\u00e9trica, telefones, estradas de ferro, rodovias, \u00e9 impreciso demais e n\u00e3o d\u00e1 conta dos regimes particulares de causalidade e de condicionamento que existem nas redes, e que as religam funcionalmente ao mundo humano e ao mundo natural, como uma media\u00e7\u00e3o concreta entre esses dois mundos. [&#8230;] A introdu\u00e7\u00e3o, na cultura, de representa\u00e7\u00f5es adequadas aos objetos t\u00e9cnicos teria por consequ\u00eancia fazer, dos pontos-chave das redes t\u00e9cnicas, termos de refer\u00eancia reais para o conjunto de grupos humanos (Simondon 2008:220)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>NORMATIVIDADE DA REDE T\u00c9CNICA (em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0s ferramentas individuais)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[T]roca-se de ferramenta e de instrumento, pode-se construir ou consertar uma ferramenta, mas n\u00e3o se troca de rede, n\u00e3o se pode construir sozinho uma rede: s\u00f3 podemos nos ligar \u00e0 rede, nos adaptarmos a ela, participar dela; a rede domina e encerra a a\u00e7\u00e3o do ser individual, domina mesmo cada conjunto t\u00e9cnico. Tal forma de participa\u00e7\u00e3o ao mundo natural e ao mundo humano d\u00e1 uma normatividade coletiva irredut\u00edvel \u00e0 atividade t\u00e9cnica. [&#8230;] [A]trav\u00e9s das redes t\u00e9cnicas, o mundo humano adquire um alto grau de resson\u00e2ncia interna. As pot\u00eancias, as for\u00e7as, os potenciais que impulsionam \u00e0 a\u00e7\u00e3o, existem no mundo t\u00e9cnico reticular da mesma forma como poderiam existir no universo m\u00e1gico primitivo; a tecnicidade faz parte do mundo, ela n\u00e3o \u00e9 somente um conjunto de meios, mas um conjunto de condicionamentos da a\u00e7\u00e3o e de incita\u00e7\u00f5es \u00e0 a\u00e7\u00e3o; a ferramenta ou o instrumento n\u00e3o t\u00eam poder normativo por estarem permanentemente \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo; o poder normativo das redes t\u00e9cnicas aumenta junto com a resson\u00e2ncia interna da atividade humana nas realidades t\u00e9cnicas. (Simondon 2008:221)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>RETICULA\u00c7\u00c3O TECNOPOL\u00cdTICA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[T]oda doutrina pol\u00edtica e social tende a se apresentar como um absoluto, v\u00e1lido de maneira incondicional, fora de todo <em>hic et nunc<\/em> [aqui e agora]; no entanto, o pensamento social e pol\u00edtico aceita colocar problemas concretos e atuais; como o pensamento t\u00e9cnico em desenvolvimento, ela leva a uma representa\u00e7\u00e3o reticular do mundo, com pontos-chave e momentos essenciais; ele se aplica \u00e0 realidade t\u00e9cnica tratando-a como mais que um simples meio, e a apreende bem ao n\u00edvel da reticula\u00e7\u00e3o, da inser\u00e7\u00e3o no mundo natural e humano. [&#8230;] Os pensamentos social e pol\u00edtico se inserem no mundo segundo um certo n\u00famero de pontos not\u00e1veis, de pontos problem\u00e1ticos que coincidem com os pontos de inser\u00e7\u00e3o da tecnicidade encarados como rede. (Simondon 2008:223-4)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>FILO MAQU\u00cdNICO e COSMOPOL\u00cdTICA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Uma mudan\u00e7a t\u00e9cnica leva a uma modifica\u00e7\u00e3o disso que se poderia chamar de constela\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do universo: os pontos-chave se deslocam na superf\u00edcie do mundo (Simondon 2008:223)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>RETICULA\u00c7\u00c3O TECNOPOL\u00cdTICA e TECNOCRACIA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[A] reparti\u00e7\u00e3o e inser\u00e7\u00e3o de pontos-chave do pensamento pol\u00edtico e social no mundo coincide, pelo menos parcialmente, com aquela dos pontos-chave t\u00e9cnicos, e [&#8230;] essa coincid\u00eancia se torna mais perfeita \u00e0 medida que as t\u00e9cnicas se inserem mais e mais no universo sob a forma de conjuntos fixos, ligados uns aos outros, encerrando os indiv\u00edduos humanos nas malhas que eles determinam. (Simondon 2008:224)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>T\u00c9CNICA E TECNOLOGIA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[O] pensamento t\u00e9cnico deve desenvolver a rede de pontos relacionais do homem e do mundo tornando-se uma tecnologia, isto \u00e9, uma t\u00e9cnica de segundo grau de se ocupa de organizar esses pontos relacionais. (Simondon 2008:226)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CONHECER REDES T\u00c9CNICAS \u00c9 UMA EXPERI\u00caNCIA CULTURAL FUNDAMENTAL<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>\u00c9 a inser\u00e7\u00e3o concreta numa rede t\u00e9cnica particular que deve ser experimentada, na medida em que ela coloca ohomem em presen\u00e7a e no interior de uma s\u00e9rie de a\u00e7\u00f5es e de  processos que ele n\u00e3o dirige sozinho, mas dos quais participa. (Simondon 2008:228)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>TECNOLOGIA e ECUMENISMO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A apreens\u00e3o consciente da fun\u00e7\u00e3o de pluralidade e da fun\u00e7\u00e3o de unidade s\u00e3o necess\u00e1rias como bases, a fim de que a media\u00e7\u00e3o, no n\u00edvel desse reencontro entre o estatuto de pluralidade e o estatuto de superioridade com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 unidade, que realiza a estrutura de reticula\u00e7\u00e3o, seja poss\u00edvel no ponto neutro do devir do pensamento. (Simondon 2008:233)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>RETICULA\u00c7\u00c3O INTUITIVA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A intui\u00e7\u00e3o \u00e9, com efeito, rela\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo te\u00f3rica e pr\u00e1tica com o real; ela o conhece e age sobre ele, pois ela o apreende no momento em que ele dev\u00e9m; o pensamento filos\u00f3fico \u00e9 tamb\u00e9m gesto filos\u00f3fico vindo se inserir na estrutura reticular figura-fundo que se determina no ser; a filosofia interv\u00e9m como poder de estrutura\u00e7\u00e3o, como capacidade de inventar estruturas que resolvem problemas do devir, no n\u00edvel dessa natureza intermedi\u00e1ria entre a pluralidade e a totalidade, que \u00e9 a diversidade reticular dos dom\u00ednios de exist\u00eancia. (Simondon 2008:237-8)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>AS 3 INTUI\u00c7\u00d5ES\/RETICULA\u00c7\u00d5ES, A CULTURA e A RETICULA\u00c7\u00c3O NORMATIVA (&#8220;dever&#8221;; obriga\u00e7\u00e3o de devir?)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Pode-se dizer que existem tr\u00eas tipos de intui\u00e7\u00e3o, segundo o devir do pensamento: a intui\u00e7\u00e3o m\u00e1gica, a intui\u00e7\u00e3o est\u00e9tica e a intui\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica. A intui\u00e7\u00e3o est\u00e9tica \u00e9 contempor\u00e2nea do desdobramento do pensamento m\u00e1gico em t\u00e9cnicas e religi\u00e3o, e ela n\u00e3o efetua uma s\u00edntese verdadeira das duas fases opostas do pensamento: ela indica somente a necessidade de uma rela\u00e7\u00e3o, e a realiza alusivamente num dom\u00ednio limitado. O pensamento filos\u00f3fico, ao contr\u00e1rio, deve realizar realmente a s\u00edntese, e ele deve construir a cultura, coextensiva \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de todo pensamento t\u00e9cnico e de todo pensamento religioso; o pensamento est\u00e9tico \u00e9, assim, o modelo da cultura, mas ele n\u00e3o \u00e9 toda a cultura; ele \u00e9 muito mais o an\u00fancio da cultura, uma exig\u00eancia de cultura, do que a cultura em si; pois a cultura deve reunir realmente todo pensamento t\u00e9cnico a todo pensamento religioso, e por isso deve ser feita pelas intui\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas, originando-se dos acoplamentos operados entre conceitos e ideias. (Simondon 2008:238-9)<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SIMONDON, Gilbert. 2008. Du mode d&#8217;existence des objets techniques. Paris: Aubier. [1958] Nas duas primeiras partes do livro, Simondon usa os termos &#8220;rede&#8221; e &#8220;reticula\u00e7\u00e3o&#8221; poucas vezes, sempre em sentido banal, nunca com carga conceitual. Um exemplo deste tipo de uso banal do termo \u00e9 o seguinte REDE E CONCETIZA\u00c7\u00c3O A ess\u00eancia da concretiza\u00e7\u00e3o do objeto t\u00e9cnico \u00e9 a organiza\u00e7\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":202,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[48],"class_list":["post-201","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-fichamento","tag-simondon"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Simondon_capa.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/201","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=201"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/201\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":203,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/201\/revisions\/203"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/202"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=201"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=201"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=201"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}