{"id":197,"date":"2021-04-14T18:43:41","date_gmt":"2021-04-14T18:43:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=197"},"modified":"2021-04-14T18:43:41","modified_gmt":"2021-04-14T18:43:41","slug":"reticulacao-em-combes-1999","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2021\/04\/14\/reticulacao-em-combes-1999\/","title":{"rendered":"Reticula\u00e7\u00e3o em Combes (1999)"},"content":{"rendered":"<p>COMBES, Muriel. 1999. <em>Simondon: individu et collectivit\u00e9 &#8211; Pour une philosophie du transindividuel<\/em>. Paris: PUF.<\/p>\n<p><strong>RETICULA\u00c7\u00c3O \u00c9TICA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Numa tal \u00e9tica, o sujeito se eterniza afirmando seu car\u00e1ter relativo, isto \u00e9, relacional, inscrevendo o melhor que pode seus atos na rede dos outros atos. Mas essa inscri\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma simples integra\u00e7\u00e3o, [&#8230;] pois o poder de amplifica\u00e7\u00e3o que define todo ato \u00e9tico excede a simples rela\u00e7\u00e3o de harmonia entre os membros da comunidade. Agir eticamente, para um sujeito, significa, com efeito, se afirmar como &#8220;ponto singular de uma infinidade aberta de rela\u00e7\u00f5es&#8221; (IPC, p. 254), construir um campo de resson\u00e2ncia para outros atos, ou prolongar, ele mesmo, atos num campo de resson\u00e2ncia constru\u00eddo por outros; \u00e9 participar de um empreendimento de transforma\u00e7\u00e3o coletiva, de uma produ\u00e7\u00e3o de novidade em comum, na qual cada um se transforma ao oferecer aos outros um potencial de transforma\u00e7\u00e3o. Ora, esta \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o de individua\u00e7\u00e3o coletiva, que se opera na dimens\u00e3o do transindividual. (Combes 1999:107)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>RETICULA\u00c7\u00c3O PARA AL\u00c9M DA TECNOCRACIA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>E parece mesmo que, bem no interior do pensamento simondoniano sobre a t\u00e9cnica, a tematiza\u00e7\u00e3o da reticularidade seja o que nos permite escapar da universalidade da normatividade tecnol\u00f3gica. (Combes 1999:108)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>\u00c9TICA RETICULAR (n\u00e3o normativa)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A reticularidade, condi\u00e7\u00e3o da resson\u00e2ncia imediata dos atos numa estrutura\u00e7\u00e3o de potencial em comum, \u00e9 o que faz passar de um horizonte normativo para um horizonte de amplifica\u00e7\u00e3o do agir. A fidelidade ao sentido do devir \u00e9 aqui subordinada ao desdobramento transdutivo dos atos em rede, sendo a rede n\u00e3o a media\u00e7\u00e3o do ato, mas seu meio [le r\u00e9seau n&#8217;\u00e9tant pas le moyen de l&#8217;acte mais son milieu]. (Combes 1999:108)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>NORMATIVIDADE T\u00c9CNICA como \u00c9TICA RETICULAR N\u00c3O NORMATIVA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O car\u00e1ter reticular da organiza\u00e7\u00e3o das t\u00e9cnicas confere ao mundo t\u00e9cnico uma capacidade de condicionar a a\u00e7\u00e3o humana como tal. (Combes 1999:109)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>RETICULARIDADE vs. UTILIDADE<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Essa compreens\u00e3o da tecnicidade como caracterizada pela reticularidade \u00e9 precisamente o que permite interromper radicalmente a descri\u00e7\u00e3o da t\u00e9cnica pela \u00f3tica da categoria de m\u00eddia [moyen], de abandonar, em suma, o esquema da utilidade, adequado apenas \u00e0 ferramenta. Aqui, como antes, a reticularidade (os conjuntos t\u00e9cnicos integrados) se op\u00f5e ao hilemorfismo (da ferramenta). E o esquema da rede, antit\u00e9tico \u00e0quele do hilemorfismo, parece mesmo constituir, aos olhos de Simondon, uma arma contra ele, uma possibilidade de sair do modo hilem\u00f3rfico do pensamento e da ac\u00e3o. (Combes 1999:110)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>AS DUAS NORMATIVIDADES T\u00c9CNICAS EM SIMONDON<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Existe realmente, em Simondon, a id\u00e9ia de uma normatividade da t\u00e9cnica. Mas ela distingue entre, de um lado, uma normatividade contida nos <em>objetos t\u00e9cnicos<\/em>, independente da normatividade social e que pode mesmo se tornar a fonte de novas normas numa &#8220;comunidade fechada&#8221; (IPC, p. 264-265), e, do outro lado, uma normatividade da organiza\u00e7\u00e3o reticular <em>do mundo t\u00e9cnico<\/em> como condicionando o <em>agir humano<\/em>. (Combes 1999:111)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ANTI-STIEGLER<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Simondon coloca a quest\u00e3o da raz\u00e3o da transforma\u00e7\u00e3o das sociedades (cf. IPC, p.63), e n\u00e3o responde por um avan\u00e7o estrutural da t\u00e9cnica, mas pela exist\u00eancia de partes de natureza pr\u00e9-individual associadas aos indiv\u00edduos que, colocados em comum durante a individua\u00e7\u00e3o espec\u00edfica do coletivo, fazem nascer o transindividual. (Combes 1999:112)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A HIP\u00d3TESE SIMONDONIANA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>hip\u00f3tese simondoniana da exist\u00eancia de um potencial pr\u00e9-indidvidual associado aos indiv\u00edduos, hip\u00f3tese de seu comum pertencimento a uma dimens\u00e3o ontol\u00f3gica que lhes precede (Combes 1999:113)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>RETICULA\u00c7\u00c3O REDENTORA DO HILEMORFISMO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Simondon busca renovar o agir humano pelo engajamento na reticularidade dos conjuntos t\u00e9cnicos conectados. Nessa reticularidade, com efeito, Simondon v\u00ea a possibilidade de escapar, enfim, ao hilemorfismo que caracteriza a fase do ser no mundo \u00e0 qual ainda pertencemos, e na qual entramos ao romper a &#8220;liga\u00e7\u00e3o vital entre o homem e o mundo&#8221; que caracterizava &#8220;a unidade m\u00e1gica primitiva&#8221; (MEOT, p.163). (Combes 1999:114)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>[Simondon viu] no mundo t\u00e9cnico contempor\u00e2neo, <em>enquanto realidade reticular<\/em>, o meio a partir do qual se oferece a possibilidade de reconstruir uma rela\u00e7\u00e3o ao mundo an\u00e1loga \u00e0 unidade m\u00e1gica, rela\u00e7\u00e3o que n\u00e3o era uma fus\u00e3o do homem e do mundo, mas uma &#8220;reticula\u00e7\u00e3o do mundo em lugares privilegiados e em momentos privilegiados&#8221; tais que &#8220;todo o poder de agir do homem e toda a capacidade do mundo de influenciar o homem se concentram nesses lugares e nesses momentos&#8221; (MEOT, p.164). Para al\u00e9m da cis\u00e3o hilem\u00f3rfica do agir imposto pela era da ferramenta, o que interessa a Simondon n\u00e3o \u00e9 reencontrar essa rela\u00e7\u00e3o m\u00e1gica com o mundo, definitivamente perdida para n\u00f3s e caracterizada pela influ\u00eancia rec\u00edproca do homem e do mundo, na qual o homem podia &#8220;estabelecer com ele uma rela\u00e7\u00e3o de amizade&#8221; (MEOT, p.166); mas, <em>atrav\u00e9s<\/em> da rede t\u00e9cnica contempor\u00e2nea, vir a construir uma nova modalidade da rela\u00e7\u00e3o, como rela\u00e7\u00e3o transdutiva dos homens frente \u00e0 natureza e rela\u00e7\u00e3o transindividual dos homens entre si. (Combes 1999:115)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CONSCI\u00caNCIA T\u00c9CNICA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A tarefa cultural de uma &#8220;tomada de consci\u00eancia filos\u00f3fica e nocional da realidade t\u00e9cnica&#8221; deve portanto ser superada numa prova existencial da qual todo ser humano deveria participar, aquela de &#8220;se situar particularmente na rede t\u00e9cnica&#8221; (MEOT, p.228), na qual cada um experimentaria participar de uma s\u00e9rie de processos indissociavelmente humanos e maqu\u00ednicos. (Combes 1999:116)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>OBJETO T\u00c9CNICO EM REDE<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[Q]uando acionado conforme sua ess\u00eancia, isto \u00e9, n\u00e3o como uma m\u00eddia [moyen], ferramenta ou utens\u00edlio, mas como um sistema que funciona e que se inscreve numa rede de m\u00e1quinas \u00e0s quais ele est\u00e1 ligado, o objeto t\u00e9cnico se torna o lugar de uma nova rela\u00e7\u00e3o com a natureza, n\u00e3o mais rela\u00e7\u00e3o de utiliza\u00e7\u00e3o mediada pelo organismo do indiv\u00edduo humano, mas rela\u00e7\u00e3o de acoplagem imediata do pensamento humano com a natureza. (Combes 1999:125)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>RETICULA\u00c7\u00c3O TRANSINDIVIDUAL DESALIENANTE<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>\u00c9 significativo que, no momento de concluir sua obra sobre a t\u00e9cnica, Simondon insiste sobre a necess\u00e1ria constitui\u00e7\u00e3o de um modo transindividual de rela\u00e7\u00e3o com a t\u00e9cnica para poder apreender os objetos t\u00e9cnicos naquilo que neles existe de pr\u00e9-individual sedimentado. Mas isso se compreende sem dificuldade se for verdade que \u00e9 apenas no seio do coletivo transindividual que se pode construir uma rela\u00e7\u00e3o desalienada com os objetos t\u00e9cnicos, isto \u00e9, um uso de m\u00e1quinas adequado \u00e0 pot\u00eancia de amplifica\u00e7\u00e3o da rede t\u00e9cnica contempor\u00e2nea. (Combes 1999:127-8)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>REDES TECNO\u00c9TICAS<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[O] que pode a <em>tecnicidade<\/em> como rede amplificadora ainda est\u00e1 por inventar. [&#8230;] \u00c9 m\u00e9rito de Simondon haver visto que a t\u00e9cnica <em>como rede<\/em> j\u00e1 constitui um meio que condiciona o agir humano. Mesmo nesse meio, trata-se de inventar novas formas de fidelidade \u00e0 natureza transdutiva dos seres, vivos ou n\u00e3o, e de novas modalidades transindividuais de amplifica\u00e7\u00e3o do agir. (Combes 1999:128)<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>COMBES, Muriel. 1999. Simondon: individu et collectivit\u00e9 &#8211; Pour une philosophie du transindividuel. Paris: PUF. RETICULA\u00c7\u00c3O \u00c9TICA Numa tal \u00e9tica, o sujeito se eterniza afirmando seu car\u00e1ter relativo, isto \u00e9, relacional, inscrevendo o melhor que pode seus atos na rede dos outros atos. Mas essa inscri\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma simples integra\u00e7\u00e3o, [&#8230;] pois o poder de amplifica\u00e7\u00e3o que define todo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":198,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[47],"class_list":["post-197","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-fichamento","tag-combes"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/combes_capa.jpeg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/197","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=197"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/197\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":199,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/197\/revisions\/199"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/198"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=197"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=197"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=197"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}