{"id":178,"date":"2021-04-14T17:33:30","date_gmt":"2021-04-14T17:33:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=178"},"modified":"2021-04-14T17:33:30","modified_gmt":"2021-04-14T17:33:30","slug":"o-associacionismo-da-fisica-social-de-comte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2021\/04\/14\/o-associacionismo-da-fisica-social-de-comte\/","title":{"rendered":"O associacionismo da &#8220;f\u00edsica social&#8221; de Comte"},"content":{"rendered":"<p>COMTE, Autuste. 1978. Curso de filosofia positiva; Catecismo positivista. In: <em>Os pensadores<\/em>. (Trad.: Miguel Lemos) S\u00e3o Paulo: Abril Cultural. [1830-42, 1852]<\/p>\n<p><strong>F\u00cdSICA SOCIAL<\/strong><br \/>\n&#8220;Todos os seres vivos apresentam duas ordens de fen\u00f4menos essencialmente distintos, os relativos ao indiv\u00edduo e os concernentes \u00e0 esp\u00e9cie, sobretudo quando esta \u00e9 soci\u00e1vel. \u00c9 principalmente em rela\u00e7\u00e3o ao homem que esta distin\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental. A \u00faltima ordem de fen\u00f4menos \u00e9 evidentemente mais complicada e mais particular do que a primeira, depende dela sem a influenciar. Da\u00ed duas grandes se\u00e7\u00f5es da <em>f\u00edsica org\u00e2nica<\/em>: a fisiologia propriamente dita e a f\u00edsica social, fundada na primeira. [&#8230;] Em todos os fen\u00f4menos sociais observa-se, primeiramente, a influ\u00eancia das leis fisiol\u00f3gicas do indiv\u00edduo e, ademais, alguma coisa de particular que modifica seus efeitos e que prov\u00e9m da a\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos uns sobre os outros, algo que se complica particularmente na esp\u00e9cie humana por causa da a\u00e7\u00e3o de cada gera\u00e7\u00e3o sobre aquela que lhe segue. \u00c9, pois, evidente que, para estudar convenientemente os fen\u00f4menos sociais, \u00e9 preciso partir de in\u00edcio do conhecimento aprofundado das leis relativas \u00e0 vida individual. Por outro lado, essa subordina\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria dos dois estudos n\u00e3o prescreve, de modo algum, como certos fisiologistas de primeira ordem foram levados a crer, a necessidade de ver na f\u00edsica social simples ap\u00eandice da fisiologia. A despeito de os fen\u00f4menos serem por certo homog\u00eaneos, n\u00e3o s\u00e3o id\u00eanticos, e a separa\u00e7\u00e3o das duas ci\u00eancias \u00e9 duma import\u00e2ncia verdadeiramente fundamental. Pois seria imposs\u00edvel tratar o estudo coletivo da esp\u00e9cie como pura dedu\u00e7\u00e3o do estudo do indiv\u00edduo, porquanto as condi\u00e7\u00f5es sociais, que modificam a a\u00e7\u00e3o das leis fisiol\u00f3gicas, constituem precisamente a considera\u00e7\u00e3o mais essencial. Assim, a f\u00edsica social deve fundar-se num corpo de observa\u00e7\u00f5es diretas que lhe seja pr\u00f3prio, atentando, como conv\u00e9m, para sua \u00edntima rela\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria com a fisiologia propriamente dita. [&#8230;] Como resultado dessa discuss\u00e3o, a filosofia positiva se encontra, pois, naturalmente dividida em cinco ci\u00eancias fundamentais, cuja sucess\u00e3o \u00e9 determinada pela subordina\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria e invari\u00e1vel, fundada, independentemente de toda opini\u00e3o hipot\u00e9tica, na simples compara\u00e7\u00e3o aprofundada dos fen\u00f4menos correspondentes: a astronomia, a f\u00edsica, a qu\u00edmica, a fisiologia e, enfim, a f\u00edsica social. A primeira considera os fen\u00f4menos mais gerais, mais simples, mas abstratos e mais afastados da humanidade, e que influenciam todos os outros sem serem influenciados por estes. Os fen\u00f4menos considerados pela \u00faltima s\u00e3o, ao contr\u00e1rio, os mais particulares, mais complicados, mais concretos e mais diretamente interessantes para o homem; dependem, mais ou menos, de todos os precedentes, sem exercer sobre eles influ\u00eancia alguma. Entre esses extremos, os graus de especialidade, de complica\u00e7\u00e3o e de personalidade dos fen\u00f4menos v\u00e3o gradualmente aumentando, assim como sua depend\u00eancia sucessiva. Tal \u00e9 a \u00edntima rela\u00e7\u00e3o geral que a verdadeira observa\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica, convenientemente empregada, ao contr\u00e1rio de v\u00e3s distin\u00e7\u00f5es arbitr\u00e1rias, nos conduz a estabelecer entre as diversas ci\u00eancias fundamentais.&#8221; (Comte 1978[<em>Curso de Filosofia Positiva<\/em>]:31-2)<\/p>\n<p><strong>AS TR\u00caS ASSOCIA\u00c7\u00d5ES HUMANAS (fam\u00edlia-amor; cidade-progresso;<br \/>\nigreja-ordem)<\/strong><br \/>\n&#8220;Todo organismo coletivo oferece necessariamente os diversos elementos essenciais que acabo de vos explicar [i.e.: amor, progresso e ordem]. Mas eles se acham a\u00ed mais ou menos pronunciados, e, portanto, distintos, segundo a natureza e a extens\u00e3o da sociedade correspondente. O predom\u00ednio respectivo de cada um deles conduz a reconhecer tr\u00eas associa\u00e7\u00f5es diferentes, que cumpre classificar segundo a intimidade decrescente e a extens\u00e3o crescente delas. A do meio assenta na precedente e serve de base \u00e0 seguinte. \u00danica fundada naturalmente no amor, a <em>Fam\u00edlia<\/em> \u00e9 a sociedade mais \u00edntima e mais restrita, elemento necess\u00e1rio das outras duas. A atividade constitui em seguida a <em>Cidade<\/em> ou <em>P\u00e1tria<\/em>, em que o la\u00e7o resulta sobretudo de uma coopera\u00e7\u00e3o habitual, que n\u00e3o poderia ser assaz sentida se esta associa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica combinasse um n\u00famero excessivo de associa\u00e7\u00f5es dom\u00e9sticas. Vem, enfim, a <em>Igreja<\/em>, a qual, ligando-nos essencialmente pela f\u00e9, \u00e9 a \u00fanica que comporta uma verdadeira universalidade, que a religi\u00e3o positiva h\u00e1 de necessariamente realizar. Estas tr\u00eas sociedades humanas t\u00eam por centros respectivos a mulher, o patriciado e o sacerd\u00f3cio. [&#8230;] A fam\u00edlia de que cada qual prov\u00e9m pertence a uma cidade qualquer, e mesmo a uma certa igreja. Mas este \u00faltimo la\u00e7o sendo mais fraco comporta mais varia\u00e7\u00f5es, se bem que n\u00e3o sejam nunca arbitr\u00e1rias. Quando ele se torna bastante consistente, \u00e9 o \u00fanico que fornece o meio de reduzir convenientemente a cidade, em torno da qual as exist\u00eancias se concentram ordinariamente, em virtude do predom\u00ednio natural da atividade sobre a intelig\u00eancia e mesmo sobre o sentimento. De fato, o estado social n\u00e3o pode ser verdadeiramente duradouro sen\u00e3o conciliando assaz a independ\u00eancia com o concurso, condi\u00e7\u00f5es igualmente inerentes \u00e0 verdadeira no\u00e7\u00e3o da Humanidade. Ora, este acordo necess\u00e1rio imp\u00f5e \u00e0s sociedades pol\u00edticas limites de extens\u00e3o muito inferiores aos que hoje prevalecem. [&#8230;] Na Idade M\u00e9dia, a separa\u00e7\u00e3o esbo\u00e7ada entre a associa\u00e7\u00e3o religiosa e a associa\u00e7\u00e3o civil j\u00e1 permitiu substituir a livre incorpora\u00e7\u00e3o dos povos ocidentais \u00e0 incorpora\u00e7\u00e3o for\u00e7ada que lhes proporcionara a princ\u00edpio o dom\u00ednio romano. O Ocidente ofereceu, assim, durante muitos s\u00e9culos, o admir\u00e1vel espet\u00e1culo de uma uni\u00e3o sempre volunt\u00e1ria, fundada unicamente numa f\u00e9 comum e mantida por um mesmo sacerd\u00f3cio, entre na\u00e7\u00f5es cujos diversos governos tinham toda a devida independ\u00eancia. Por\u00e9m esse grande resultado pol\u00edtico n\u00e3o podia sobreviver \u00e0 emancipa\u00e7\u00e3o prematura de um poder que s\u00f3 \u00e0 religi\u00e3o positiva compete convenientemente instituir e libertar irrevogavelmente. O decl\u00ednio necess\u00e1rio do catolicismo restabeleceu a concentra\u00e7\u00e3o temporal, que se tornou ent\u00e3o indispens\u00e1vel para impedir a inteira desloca\u00e7\u00e3o pol\u00edtica a que se era impelido pela dissolu\u00e7\u00e3o crescente dos la\u00e7os religiosos. \u00c9 assim que, apesar dos costumes da Idade M\u00e9dia, cujos vest\u00edgios s\u00e3o ainda sens\u00edveis, os ocidentais deixaram que por toda parte se formassem Estados vastos demais. [&#8230;] Os motivos pol\u00edticos dessa extens\u00e3o exorbitante tendo j\u00e1 cessado suficientemente, come\u00e7am-se a sentir, mesmo na Fran\u00e7a, os perigos radicais, e tamb\u00e9m o pr\u00f3ximo termo, de semelhante anomalia. Mas a religi\u00e3o positiva reduzir\u00e1 em breve estas monstruosas associa\u00e7\u00f5es \u00e0 extens\u00e3o normal que dispensar\u00e1 o emprego da viol\u00eancia para manter a uni\u00e3o temporal entre na\u00e7\u00f5es suscet\u00edveis apenas de la\u00e7os espirituais. Tal ser\u00e1 a pr\u00f3xima aplica\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio est\u00e1tico que erige em \u00f3rg\u00e3o pol\u00edtico do Grande Ser a simples cidade, completada pelas popula\u00e7\u00f5es menos condensadas que a ela estiverem ligadas livremente. O sentimento patri\u00f3tico, hoje t\u00e3o vago e t\u00e3o fraco por causa de sua difus\u00e3o exagerada, poder\u00e1 desde ent\u00e3o desenvolver dignamente toda a energia que comporta esta concentra\u00e7\u00e3o c\u00edvica. Mas a uni\u00e3o habitual das grandes cidades se tornar\u00e1 mais real e eficaz tomando o car\u00e1ter normal de um concurso volunt\u00e1rio. A f\u00e9 positiva far\u00e1 convenientemente sentir a solidariedade e tamb\u00e9m a continuidade, que devem finalmente reinar entre todas as regi\u00f5es quaisquer do planeta humano.&#8221; (Comte 1978[<em>Catecismo Positivista<\/em>]:239)<\/p>\n<p><strong>OS DOIS PODERES (pol\u00edtico e religioso)<\/strong><br \/>\n&#8220;[C]onsideremos estaticamente o regime humano. Estudai nele a exist\u00eancia em vez do movimento, e chegareis logo \u00e0 divis\u00e3o dos dois poderes, como base universal da ordem social, partindo unicamente do princ\u00edpio da coopera\u00e7\u00e3o, sobre o qual Arist\u00f3teles fundou a verdadeira teoria da associa\u00e7\u00e3o c\u00edvica oriunda do concurso das fam\u00edlias. Com efeito, cada servidor da Humanidade deve sempre ser apreciado sob dois aspectos distintos, embora simult\u00e2neos, primeiro, em rela\u00e7\u00e3o ao seu of\u00edcio especial, depois, quanto \u00e0 harmonia geral. O primeiro dever de todo \u00f3rg\u00e3o social consiste, sem d\u00favida, em bem preencher sua pr\u00f3pria fun\u00e7\u00e3o. Mas a boa ordem exige tamb\u00e9m que cada um assista, tanto quanto poss\u00edvel, \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o dos outros of\u00edcios quaisquer. Semelhante atributo torna-se mesmo o car\u00e1ter principal do organismo coletivo, em virtude da natureza inteligente e livre de todos os seus agentes. [&#8230;] Ora, existe espontaneamente uma oposi\u00e7\u00e3o cada vez mais pronunciada entre estes dois of\u00edcios, um especial, outro geral, de cada funcion\u00e1rio humano. Porquanto, o primeiro, particularizando-se mais \u00e0 medida que a coopera\u00e7\u00e3o se desenvolve, suscita disposi\u00e7\u00f5es intelectuais, e mesmo tend\u00eancias morais, que o afastam cada vez mais de uma aprecia\u00e7\u00e3o de conjunto, que tamb\u00e9m se vai tornando cada vez mais dif\u00edcil. Tal \u00e9 o verdadeiro ponto de vista elementar da teoria geral do governo, primeiro temporal, depois espiritual. [&#8230;] Como nenhuma fun\u00e7\u00e3o, mesmo vital, e sobretudo social, pode ser bem preenchida sen\u00e3o por meio de um \u00f3rg\u00e3o pr\u00f3prio, o m\u00ednimo concurso humano exige, pois, uma for\u00e7a especialmente destinada a chamar de novo \u00e0s vistas e aos sentimentos de conjunto agentes que tendem sempre a desviar-se de tais condi\u00e7\u00f5es. Ela deve sem cessar conter as suas diverg\u00eancias e desenvolver as suas converg\u00eancias. Por outro lado, este poder indispens\u00e1vel surge naturalmente das desigualdades que sempre suscita a evolu\u00e7\u00e3o humana. [&#8230;] Apesar da \u00edntima simpatia que constitui a simples associa\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica, mesmo reduzida ao par fundamental, n\u00e3o est\u00e1 ela nunca isenta de semelhante necessidade. \u00c9 a\u00ed que se pode apreciar melhor este grande axioma: <em>N\u00e3o existe sociedade sem governo<\/em>. [&#8230;] Na ordem c\u00edvica, cada concurso de fam\u00edlias para um fim determinado faz em breve surgir um chefe pr\u00e1tico, cuja autoridade se acha espontaneamente limitada pelo conjunto das opera\u00e7\u00f5es que ele pode realmente dirigir, quer pela sua pr\u00f3pria aptid\u00e3o, quer, sobretudo, em virtude de seus capitais. \u00c9 a\u00ed que reside o verdadeiro poder temporal, igualmente capaz de impulsionar e de reter, conforme as necessidades. Todo poder mais vasto dimana necessariamente de uma fonte espiritual. Os diferentes chefes pr\u00e1ticos tendem, contudo, a se coordenar entre si, mediante uma hierarquia nascida das rela\u00e7\u00f5es naturais de seus diversos trabalhos. Este concurso espont\u00e2neo institui, pois, uma esp\u00e9cie de governo mais geral, por\u00e9m sempre reduzido ao seu poder material, mais adequado a resistir que a dirigir. Seus diferentes membros s\u00e3o ordinariamente incapazes de abarcar o conjunto correspondente, apesar da compet\u00eancia de cada um deles em rela\u00e7\u00e3o a um dos sistemas parciais. [&#8230;] A simples solidariedade bastaria, pois, quando um pouco extensa, para indicar a insufici\u00eancia do poder pr\u00e1tico e a necessidade de uma autoridade te\u00f3rica que, privando-se de toda a\u00e7\u00e3o especial, fa\u00e7a prevalecer constantemente a harmonia geral. A continuidade, por\u00e9m, da qual depende cada vez mais a ordem humana, torna essa necessidade plenamente irrecus\u00e1vel. Esses poderes emp\u00edricos, aspirando a dirigir o presente, n\u00e3o conhecem o passado que o domina, nem o futuro que ele prepara. Por isso a interven\u00e7\u00e3o deles permanece cega e ami\u00fade perturbadora, quando n\u00e3o a subordinam aos conselhos te\u00f3ricos. Ao mesmo tempo, a influ\u00eancia sacerdotal lhes \u00e9 indispens\u00e1vel, como a \u00fanica capaz de consagrar assaz seu ascendente material quase sempre exposto a invejosas contesta\u00e7\u00f5es. Cada consagra\u00e7\u00e3o consiste em representar o poder correspondente como o ministro de um poder superior geralmente respeitado: Deus sob o regime provis\u00f3rio, a Humanidade na ordem definitiva. Ora, isto sup\u00f5e sempre, mas sobretudo em rela\u00e7\u00e3o a este estado final, que o presente se prende dignamente ao passado e ao futuro. O sacerd\u00f3cio, \u00fanico que pode instituir esta dupla liga\u00e7\u00e3o, torna-se, assim, o consagrador necess\u00e1rio de todos os poderes humanos, sem precisar ele pr\u00f3prio de nenhuma consagra\u00e7\u00e3o estranha, pois \u00e9 o \u00f3rg\u00e3o direto da suprema autoridade. [&#8230;] Eis a\u00ed de onde procede este segundo axioma: <em>Nenhuma sociedade se pode desenvolver e conservar sem um sacerd\u00f3cio qualquer<\/em>. Semelhantemente indispens\u00e1vel a todos para a educa\u00e7\u00e3o e para o conselho, s\u00f3 este poder te\u00f3rico \u00e9 capaz de consagrar os governantes e de proteger os governados. Ele constitui o moderador normal da vida p\u00fablica, como a mulher o da vida privada, conquanto estas duas exist\u00eancias exijam, ali\u00e1s, o concurso cont\u00ednuo da influ\u00eancia moral com o poder intelectual. Podeis resumir o conjunto das atribui\u00e7\u00f5es sociais do sacerd\u00f3cio qualificando-o de <em>Juiz<\/em>, segundo a express\u00e3o b\u00edblica, porquanto seu tr\u00edplice of\u00edcio de conselheiro, de consagrador e de regulador se efetua sempre julgando, isto \u00e9, mediante uma aprecia\u00e7\u00e3o respeitada. [&#8230;] Qualificando de <em>espiritual<\/em> o poder te\u00f3rico, faz-se assaz sentir que o outro \u00e9 puramente material. Por este modo fica indiretamente assinalada a melhor compara\u00e7\u00e3o social que esses dois poderes comportam, a qual consiste em consider\u00e1-los como disciplinando, um as vontades, e o outro os atos. Reciprocamente, qualificar de <em>temporal<\/em> o poder pr\u00e1tico \u00e9 recordar assaz a eternidade que caracteriza o poder te\u00f3rico. Isto posto, podemos definir suficientemente seus dom\u00ednios respectivos: de um lado o presente, do outro o passado e o futuro; um institui especialmente a solidariedade, o outro a continuidade; a um pertence sobretudo a vida objetiva, ao outro a vida subjetiva. Ora, estes dois atributos essenciais, simultaneamente indicados pela pr\u00f3pria discord\u00e2ncia dos nomes usados, concorrem para lembrar tamb\u00e9m a \u00faltima oposi\u00e7\u00e3o entre os dois poderes humanos, quanto \u00e0 sua extens\u00e3o respectiva. De fato, a pot\u00eancia te\u00f3rica, j\u00e1 como espiritual, j\u00e1 como eterna, comporta espontaneamente uma inteira universalidade, ao passo que a autoridade pr\u00e1tica, por ser material e temporal, permanece necessariamente local. Deste contraste final resulta a separa\u00e7\u00e3o das duas, logo que ele se desenvolve assaz.&#8221; (Comte 1978[<em>Catecismo Positivista<\/em>]:254-56)<\/p>\n<p><strong>PROGRESSO e RELIGI\u00c3O<\/strong><br \/>\nO dom\u00ednio pr\u00e1tico da religi\u00e3o limita-se [&#8230;] \u00e0s disposi\u00e7\u00f5es verdadeiramente universais, sem penetrar no preenchimento especial de cada of\u00edcio. Ela deve, contudo, apreciar exatamente as diversas fun\u00e7\u00f5es sociais, mas s\u00f3 para lhes prescrever as regras adequadas a conservar e desenvolver a harmonia geral. Tudo o que se refere \u00e0 execu\u00e7\u00e3o particular pertence aos diferentes modos ou graus do governo propriamente dito, quer privado, quer p\u00fablico, e nunca ao sacerd\u00f3cio. [&#8230;] A fim de precisar melhor esta distin\u00e7\u00e3o fundamental, cumpre agora estender ao progresso a divis\u00e3o geral que o estudo do dogma vos tornou familiar em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ordem. Pois que decompusemos primeiro a ordem universal em ordem exterior e ordem humana, devemos apreciar semelhantemente os aperfei\u00e7oamentos que ela comporta. Distinguem-se, assim, duas esp\u00e9cies de progresso, um exterior, outro humano. Posto que ambos se refiram finalmente a n\u00f3s mesmos, s\u00f3 o \u00faltimo diz respeito \u00e0 nossa pr\u00f3pria natureza, e o primeiro limita-se \u00e0 nossa situa\u00e7\u00e3o, que ele melhora reagindo sobre todas as exist\u00eancias capazes de afetar a nossa. \u00c9 por isso que esse progresso exterior \u00e9 habitualmente qualificado de material, se bem que se estenda \u00e0 ordem vital propriamente dita, mas apenas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s esp\u00e9cies que nos servem de provis\u00f5es ou de instrumentos. O ponto de vista do progresso sendo necessariamente mais subjetivo que o da ordem, a uniformidade da linguagem nem sempre corresponde, nele, \u00e0 identidade das no\u00e7\u00f5es. [&#8230;] Esta distin\u00e7\u00e3o basta para introduzir convenientemente a divis\u00e3o fundamental entre os dom\u00ednios pr\u00e1ticos do governo e do sacerd\u00f3cio. Concebendo todas as for\u00e7as sociais como igualmente votadas ao aperfei\u00e7oamento universal, \u00e9 mister, assim, distingui-las conforme elas melhoram a ordem exterior ou a ordem humana. Tal \u00e9 a melhor origem elementar da separa\u00e7\u00e3o normal entre a a\u00e7\u00e3o temporal e a a\u00e7\u00e3o espiritual. A dignidade superior desta resulta, ent\u00e3o, da preponder\u00e2ncia natural do progresso correspondente. Assim, o dom\u00ednio pr\u00e1tico da religi\u00e3o consiste em aperfei\u00e7oar a ordem humana, primeiro f\u00edsica, depois intelectual, enfim, e sobretudo moral. Apesar da diversidade destes tr\u00eas aspectos, eles devem sempre ficar insepar\u00e1veis, em virtude de sua \u00edntima conex\u00e3o, que cumpre respeitar ainda mais para a a\u00e7\u00e3o que para a especula\u00e7\u00e3o. Quanto \u00e0 ordem exterior, seu melhoramento direto e especial n\u00e3o compete \u00e0 religi\u00e3o: constitui o dom\u00ednio pr\u00f3prio da pol\u00edtica ou da ind\u00fastria. Todavia, a religi\u00e3o acha a\u00ed indiretamente uma participa\u00e7\u00e3o importante, por\u00e9m geral, pela grande influ\u00eancia que o estado do agente humano exerce necessariamente sobre os resultados efetivos de sua a\u00e7\u00e3o qualquer. Em toda opera\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica, o bom \u00eaxito exige em primeiro lugar que cada cooperador seja honesto, inteligente e corajoso. Mas \u00e9 s\u00f3 neste sentido que a religi\u00e3o tem sempre uma parte na constitui\u00e7\u00e3o fundamental de cada ind\u00fastria especial.&#8221; (Comte 1978[<em>Catecismo Positivista<\/em>]:253)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>COMTE, Autuste. 1978. Curso de filosofia positiva; Catecismo positivista. In: Os pensadores. (Trad.: Miguel Lemos) S\u00e3o Paulo: Abril Cultural. [1830-42, 1852] F\u00cdSICA SOCIAL &#8220;Todos os seres vivos apresentam duas ordens de fen\u00f4menos essencialmente distintos, os relativos ao indiv\u00edduo e os concernentes \u00e0 esp\u00e9cie, sobretudo quando esta \u00e9 soci\u00e1vel. \u00c9 principalmente em rela\u00e7\u00e3o ao homem que esta distin\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental. 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