{"id":175,"date":"2021-04-14T17:16:56","date_gmt":"2021-04-14T17:16:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=175"},"modified":"2021-04-14T17:16:56","modified_gmt":"2021-04-14T17:16:56","slug":"a-nocao-de-estrutura-em-etnologia-levi-strauss-1952","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2021\/04\/14\/a-nocao-de-estrutura-em-etnologia-levi-strauss-1952\/","title":{"rendered":"A no\u00e7\u00e3o de estrutura em etnologia (L\u00e9vi-Strauss 1952)"},"content":{"rendered":"<p>L\u00c9VI-STRAUSS, Claude. 2012. XV. A no\u00e7\u00e3o de estrutura em etnologia; XVI. P\u00f3sf\u00e1cio ao Cap\u00edtulo XV. In: <em>Antropologia Estrutural<\/em> (Trad.: Beatriz Perrone-Mois\u00e9s) S\u00e3o Paulo: CosacNaify, pp.397-487. [1952; 1956]<\/p>\n<p><strong>XV. A no\u00e7\u00e3o de estrutura em etnologia (1952)<\/strong><br \/>\n<strong>ROUSSEAU (meta)F\u00cdSICO SOCIAL<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>As investigac\u0327o\u0303es que podem ser feitas a esse respeito na\u0303o devem ser tomadas por verdades histo\u0301ricas, mas apenas por racioci\u0301nios hipote\u0301ticos e condicionais, mais apropriados para esclarecer a natureza das coisas do que para mostrar sua verdadeira origem, e semelhantes ao que costumam fazer os fi\u0301sicos acerca da formac\u0327a\u0303o do mundo. (J.-J. Rousseau, <em>Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens<\/em>). (L\u00e9vi-Strauss 2012:397)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>&#8220;ESTRUTURA&#8221; E &#8220;CI\u00caNCIA&#8221;<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[Q]uando falamos de estrutura social, consideramos sobretudo os aspectos formais dos feno\u0302menos sociais, de modo que sai\u0301- mos do a\u0302mbito da descric\u0327a\u0303o para considerar noc\u0327o\u0303es e categorias que na\u0303o pertencem propriamente a\u0300 etnologia, mas que ela gostaria de utilizar, a exemplo de outras disciplinas cienti\u0301ficas que, ja\u0301 ha\u0301 tempos, tratam alguns de seus problemas como desejari\u0301amos tratar dos nossos. Tais problemas diferem, sem du\u0301vida, quanto ao conteu\u0301do, mas parece-nos \u2013 talvez tenhamos raza\u0303o, talvez na\u0303o \u2013 que nossos pro\u0301prios problemas poderiam ser-lhes aproximados, contanto que adotemos o mesmo tipo de formalizac\u0327a\u0303o. O interesse das pesquisas estruturais reside, precisamente, no fato de nos darem a esperanc\u0327a de que cie\u0302ncias mais avanc\u0327adas do que a nossa nesse aspecto possam nos fornecer modelos de me\u0301todos e soluc\u0327o\u0303es. (L\u00e9vi-Strauss 2012:397-8)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ESTRUTURA (modelo formal) =\/= RELA\u00c7\u00d5ES (realidade emp\u00edrica)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O princi\u0301pio fundamental e\u0301 que a noc\u0327a\u0303o de estrutura social na\u0303o remete a\u0300 realidade empi\u0301rica, e sim aos modelos construi\u0301dos a partir dela. Fica assim aparente a diferenc\u0327a entre duas noc\u0327o\u0303es ta\u0303o pro\u0301ximas que muitas vezes foram confundidas, isto e\u0301, <em>estrutura social<\/em> e <em>relac\u0327o\u0303es sociais<\/em>. As <em>relac\u0327o\u0303es sociais<\/em> sa\u0303o a mate\u0301ria-prima empregada para a construc\u0327a\u0303o de modelos que tornam manifesta a pro\u0301pria <em>estrutura social<\/em>, que jamais pode, portanto, ser reduzida ao conjunto das relac\u0327o\u0303es sociais observa\u0301veis em cada sociedade. (L\u00e9vi-Strauss 2012:400)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>As investigac\u0327o\u0303es estruturais na\u0303o apresentariam nenhum interesse se as estruturas na\u0303o fossem traduzi\u0301veis em modelos cujas propriedades formais sejam compara\u0301veis, independentemente dos elementos que os compo\u0303em. A tarefa do estruturalista e\u0301 identificar e isolar os ni\u0301veis de realidade que possuem um valor estrate\u0301gico a partir da perspectiva em que ele se coloca, isto e\u0301, que podem ser representados na forma de modelos, qualquer que seja a natureza destes u\u0301ltimos. (L\u00e9vi-Strauss 2012:407)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>AS 4 CONDI\u00c7\u00d5ES DA ESTRUTURA (com men\u00e7\u00e3o a Von Newmann)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Consideramos que, para merecerem o nome de estrutura, modelos devem exclusivamente satisfazer a quatro condic\u0327o\u0303es. [&#8230;] Em primeiro lugar, uma estrutura apresenta um cara\u0301ter de sistema. Consiste em elementos tais que uma modificac\u0327a\u0303o de qualquer um deles acarreta uma modificac\u0327a\u0303o de todos os demais. [&#8230;] Em segundo lugar, todos os modelos pertencem a um grupo de transformac\u0327o\u0303es, cada uma das quais correspondendo a um modelo da mesma fami\u0301lia, de modo que o conjunto dessas transformac\u0327o\u0303es constitui um grupo de modelos. [&#8230;] Em terceiro lugar, as propriedades indicadas acima permitem prever de que modo reagira\u0301 o modelo em caso de modificac\u0327a\u0303o de um de seus elementos. [&#8230;] Finalmente, o modelo deve ser de tal modo construi\u0301do que seu funcionamento possa dar conta de todos os fatos observados. (L\u00e9vi-Strauss 2012:400-1)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>OBSERVA\u00c7\u00c3O (rela\u00e7\u00f5es, realidade concreta) =\/= EXPERIMENTA\u00c7\u00c3O (estrutura, modelos formais)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Ha\u0301 que distinguir sempre esses dois ni\u0301veis. A observac\u0327a\u0303o dos fatos e a elaborac\u0327a\u0303o de me\u0301todos que permitam utiliza\u0301-los para construir modelos jamais devem ser confundidas com a experimentac\u0327a\u0303o por interme\u0301dio dos pro\u0301prios modelos. [&#8230;] [N]a\u0303o ha\u0301 contradic\u0327a\u0303o, mas sim i\u0301ntima correlac\u0327a\u0303o, entre a preocupac\u0327a\u0303o com o detalhe concreto, pro\u0301pria da investigac\u0327a\u0303o etnogra\u0301fica, e a validade e generalidade que reivindicamos para o modelo construi\u0301do a partir dela. (L\u00e9vi-Strauss 2012:401-2)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>No ni\u0301vel da observac\u0327a\u0303o, a regra principal \u2013 a u\u0301nica, poder-se-ia dizer \u2013 e\u0301 que todos os fatos devem ser precisamente observados e descritos, sem permitir que pressupostos teo\u0301ricos lhes alterem a natureza ou importa\u0302ncia. Essa regra implica uma outra, como decorre\u0302ncia: os fatos devem ser estudados em si mesmos (por quais processos concretos vieram a existir?) e tambe\u0301m em relac\u0327a\u0303o ao conjunto (o que quer dizer que qualquer mudanc\u0327a observada num ponto sera\u0301 remetida a\u0300s circunsta\u0302ncias globais de seu surgimento). (L\u00e9vi-Strauss 2012:402)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Entendo por \u201cexperimentac\u0327a\u0303o com os modelos\u201d o conjunto de procedimentos capazes de permitir saber como um dado modelo reage a modificac\u0327o\u0303es, ou comparar uns aos outros modelos de mesmo tipo ou de tipos diferentes. [&#8230;] Na verdade, sa\u0303o concebi\u0301veis muitos modelos, diferentes, pore\u0301m co\u0302modos em va\u0301rios aspectos para descrever e explicar um grupo de feno\u0302menos. Contudo, o melhor sempre sera\u0301 o modelo <em>verdadeiro<\/em>, isto e\u0301, aquele que, sendo o mais simples, satisfac\u0327a a dupla condic\u0327a\u0303o de utilizar u\u0301nica e exclusivamente os fatos  considerados e de explica\u0301-los todos. (L\u00e9vi-Strauss 2012:401-2)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ESTRUTURAS CONSCIENTES (aparente) x ESTRUTURAS INCONSCIENTES (profundas)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Modelos podem ser conscientes ou inconscientes, dependendo do ni\u0301vel em que funcionam. [&#8230;] Qualquer modelo pode ser consciente ou inconsciente, essa condic\u0327a\u0303o na\u0303o afeta sua natureza. [&#8230;] Boas [&#8230;] mostrou que quanto menos a sociedade em que um grupo de feno\u0302menos ocorre dispuser de um modelo consciente para interpreta\u0301-lo ou justifica\u0301-lo, mais este se prestara\u0301 a\u0300 ana\u0301lise estrutural [&#8230;]. [U]ma estrutura pro\u0301xima da superfi\u0301cie do inconsciente torna mais prova\u0301vel a existe\u0302ncia de um modelo que a encubra, como uma tela, para a conscie\u0302ncia coletiva. [&#8230;] [O]s modelos conscientes \u2013 geralmente chamados de \u201cnormas\u201d \u2013 esta\u0303o entre os mais pobres de todos, em raza\u0303o de sua func\u0327a\u0303o, que e\u0301 perpetuar crenc\u0327as e costumes, em vez de expor os mecanismos destes. A ana\u0301lise estrutural se depara, por isso, com uma situac\u0327a\u0303o paradoxal, bem conhecida pelos lingu\u0308istas: quanto mais clara for a estrutura aparente, mais difi\u0301cil sera\u0301 captar a estrutura profunda, devido aos modelos conscientes e deformados que se interpo\u0303em como obsta\u0301culos entre o observador e seu objeto. (L\u00e9vi-Strauss 2012:403-4)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Pode ser que [o etn\u00f3logo] tenha de construir um modelo correspondente a feno\u0302menos cujo cara\u0301ter de sistema na\u0303o foi percebido pela sociedade que estuda. E\u0301 a situac\u0327a\u0303o mais simples e aquela que [&#8230;] propicia o terreno mais favora\u0301vel para a investigac\u0327a\u0303o etnolo\u0301gica. Contudo, em outros casos, o etno\u0301logo na\u0303o so\u0301 tem de lidar com material bruto, mas tambe\u0301m com modelos ja\u0301 construi\u0301dos pela cultura considerada, na forma de interpretac\u0327o\u0303es. [&#8230;] Muitas culturas chamadas primitivas elaboraram modelos \u2013 de suas regras de casamento, por exemplo \u2013 melhores do que os dos etno\u0301logos profissionais. Existem, portanto, duas razo\u0303es para respeitar esses modelos \u201ccaseiros\u201d. Primeiro, eles podem ser bons ou pelo menos fornecer uma via de acesso a\u0300 estrutura; cada cultura possui seus pro\u0301prios teo\u0301ricos, cuja obra merece a mesma atenc\u0327a\u0303o que o etno\u0301logo dedica a\u0300 de seus colegas. Ale\u0301m disso, ainda que os modelos sejam tendenciosos e inexatos, a tende\u0302ncia e o tipo de erro que conte\u0302m fazem parte dos fatos a serem estudados; talvez estejam inclusive entre os mais significativos. No entanto, ao dar toda a atenc\u0327a\u0303o a esses modelos produzidos pela cultura indi\u0301gena, o etno\u0301logo nunca deve esquecer que normas culturais na\u0303o sa\u0303o automaticamente estruturas. Sa\u0303o, antes, pec\u0327as importantes para ajudar a descobrir estruturas; documentos brutos, ou contribuic\u0327o\u0303es teo\u0301ricas, compara\u0301veis a\u0300s que sa\u0303o feitas pelo pro\u0301prio etno\u0301logo. (L\u00e9vi-Strauss 2012:404-5)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ESTRUTURA =\/= MEDIDA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[N]a\u0303o existe nenhuma conexa\u0303o necessa\u0301ria entre a noc\u0327a\u0303o de <em>medida<\/em> e a de <em>estrutura<\/em>. As pesquisas estruturais surgiram nas cie\u0302ncias sociais como consequ\u0308e\u0302ncia indireta de certos desenvolvimentos da matema\u0301tica moderna, que vem dando cada vez mais importa\u0302ncia aos dados qualitativos, afastando-se, assim, da perspectiva quantitativa da matema\u0301tica tradicional. Em va\u0301rias a\u0301reas, como a lo\u0301gica matema\u0301tica, a teoria dos conjuntos, a teoria dos grupos e a topologia, percebeu-se que problemas que na\u0303o permitiam uma soluc\u0327a\u0303o me\u0301trica podiam, mesmo assim, ser submetidos a um tratamento rigoroso. (L\u00e9vi-Strauss 2012:406)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>MODELOS MEC\u00c2NICOS (mesma escala do fen\u00f4meno) =\/= MODELOS ESTAT\u00cdSTICOS (outra escala)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Um modelo cujos elementos constitutivos estejam na escala dos feno\u0302menos sera\u0301 chamado de \u201cmodelo meca\u0302nico\u201d, e \u201cmodelo estati\u0301stico\u201d sera\u0301 aquele cujos elementos esta\u0303o numa escala diferente. (L\u00e9vi-Strauss 2012:406)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Pensemos, por exemplo, no suici\u0301dio, que pode ser considerado a partir de duas perspectivas diferentes. A ana\u0301lise dos casos individuais permite construir o que chamari\u0301amos de modelos meca\u0302nicos do suici\u0301dio, cujos elementos sa\u0303o fornecidos pelo tipo de personalidade da vi\u0301tima, sua histo\u0301ria individual, as propriedades dos grupos prima\u0301rio e secunda\u0301rio a que pertenceu, e assim por diante. Mas pode-se igualmente construir modelos estati\u0301sticos, baseados na frequ\u0308e\u0302ncia dos suici\u0301dios durante um determinado peri\u0301odo, em uma ou va\u0301rias sociedades, ou ainda em grupos prima\u0301rios e secunda\u0301rios de tipos diferentes etc. Qualquer que seja a perspectiva adotada, tera\u0303o sido isolados ni\u0301veis nos quais o estudo estrutural do suici\u0301dio e\u0301 significativo, ou, em outras palavras, que autorizam a construc\u0327a\u0303o de modelos passi\u0301veis de comparac\u0327a\u0303o: primeiro, para va\u0301rias formas de suici\u0301dio; segundo, para sociedades diferentes; e terceiro para diversos tipos de feno\u0302menos sociais. Portanto, o progresso cienti\u0301fico na\u0303o consiste apenas na descoberta de constantes caracteri\u0301sticas para cada ni\u0301vel, mas tambe\u0301m no isolamento de ni\u0301veis ainda na\u0303o localizados, nos quais o estudo de determinado feno\u0302meno mante\u0301m um valor estrate\u0301gico. (L\u00e9vi-Strauss 2012:408)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>A opc\u0327a\u0303o e\u0301 sempre a mesma, estudar a fundo <em>um caso<\/em>, e a u\u0301nica diferenc\u0327a esta\u0301 no recorte do \u201ccaso\u201d, cujos elementos constitutivos estara\u0303o (dependendo do padra\u0303o adotado) na escala do modelo projetado ou numa escala diferente. (L\u00e9vi-Strauss 2012:414)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>SISTEMA DE REFER\u00caNCIA (espa\u00e7o e tempo)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Ora, e\u0301 impossi\u0301vel conceber as relac\u0327o\u0303es sociais fora de um meio comum que lhes serve de sistema de refere\u0302ncia. O espac\u0327o e o tempo sa\u0303o os dois sistemas de refere\u0302ncia que permitem pensar as relac\u0327o\u0303es sociais, em conjunto ou separadamente. (L\u00e9vi-Strauss 2012:415)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>O tempo e o espac\u0327o social tambe\u0301m devem ser distinguidos por sua escala. Etno\u0301logos utilizam \u201cmacrotempo\u201d e \u201cmicrotempo\u201d, \u201cmacroespac\u0327o\u201d e \u201cmicroespac\u0327o\u201d. Com plena legitimidade, os estudos estruturais tomam suas categorias emprestadas tanto da pre\u0301-histo\u0301ria, da arqueologia e da teoria difusionista, como da topologia psicolo\u0301gica fundada por Lewin e da sociometria de Moreno. (L\u00e9vi-Strauss 2012:416-7)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Temos, portanto, meios de estudar os feno\u0302menos sociais e mentais a partir de suas manifestac\u0327o\u0303es objetivas, numa forma exteriorizada e \u2013 poder-se-ia dizer \u2013 cristalizada. E isso na\u0303o apenas nos casos de configurac\u0327o\u0303es espaciais esta\u0301veis. Configurac\u0327o\u0303es insta\u0301veis, mas recorrentes, podem ser analisadas e criticadas do mesmo modo \u2013 as que se pode observar na danc\u0327a e no ritual, por exemplo. (L\u00e9vi-Strauss 2012:420)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CULTURA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Chamamos de cultura todo conjunto etnogra\u0301fico que, do ponto de vista da pesquisa, apresenta afastamentos significativos em relac\u0327a\u0303o a outros. Se buscarmos determinar os afastamentos significativos entre a Ame\u0301rica do Norte e a Europa, trata\u0301-las-emos como culturas diferentes, mas se, suponhamos, o interesse forem os afastamentos significativos entre Paris e Marselha, por exemplo, esses dois conjuntos urbanos podera\u0303o ser provisoriamente constitui\u0301dos como duas unidades culturais. Como o objeto u\u0301ltimo das pesquisas estruturais s\u00e3o as <em>constantes<\/em> ligadas a tais afastamentos, percebe- se que a noc\u0327a\u0303o de cultura pode corresponder a uma realidade objetiva, sem deixar de ser func\u0327a\u0303o do tipo de pesquisa em questa\u0303o. Uma colec\u0327a\u0303o de indivi\u0301duos, contanto que seja objetivamente dada no tempo e no espac\u0327o, remete simultaneamente a va\u0301rios sistemas de cultura: universal, continental, nacional, provincial, local etc., e familiar, profissional, confessional, poli\u0301tico etc. [&#8230;] Contudo, na pra\u0301tica, esse nominalismo na\u0303o deve ser levado ao extremo. Na verdade, o termo cultura e\u0301 empregado para reunir um <em>conjunto<\/em> de afastamentos significativos cujos limites, conforme prova a experie\u0302ncia, coincidem aproximadamente. O fato de tal coincide\u0302ncia nunca ser absoluta e de jamais ocorrer em todos os ni\u0301veis ao mesmo tempo na\u0303o deve nos impedir de utilizar a noc\u0327a\u0303o de cultura, que e\u0301 fundamental em etnologia, e possui o mesmo valor heuri\u0301stico que a de isolado em demografia. Do ponto de vista lo\u0301gico, as duas noc\u0327o\u0303es sa\u0303o do mesmo tipo. Alia\u0301s, os pro\u0301prios fi\u0301sicos nos encorajam a conservar a noc\u0327a\u0303o de cultura, ja\u0301 que N. Bohr escreve: \u201cAs diferenc\u0327as tradicionais (das culturas humanas) se assemelham, em va\u0301rios aspectos, aos modos diversos, mas equivalentes, como se pode descrever uma experie\u0302ncia em fi\u0301sica\u201d (1939:9). (L\u00e9vi-Strauss 2012:424-5)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>OS 4 TIPOS DE ESTRUTURAS DE COMUNICA\u00c7\u00c3O (mulheres, bens e servi\u00e7os, mensagens, genes)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Uma sociedade e\u0301 feita de indivi\u0301duos e de grupos que se comunicam entre si. Contudo, a presenc\u0327a ou ause\u0302ncia de comunicac\u0327a\u0303o na\u0303o pode ser definida de maneira absoluta. A comunicac\u0327a\u0303o na\u0303o cessa nos limites da sociedade. Em vez de fronteiras ri\u0301gidas, trata-se, antes, de limiares, marcados por um enfraquecimento ou uma deformac\u0327a\u0303o da comunicac\u0327a\u0303o, nos quais ela na\u0303o desaparece, mas atinge seu ni\u0301vel mi\u0301nimo. Essa situac\u0327a\u0303o e\u0301 suficientemente significativa para que a populac\u0327a\u0303o (tanto fora como dentro) dela tome conscie\u0302ncia. [&#8230;] Em qualquer sociedade, a comunicac\u0327a\u0303o se opera no mi\u0301nimo em tre\u0302s ni\u0301veis: comunicac\u0327a\u0303o de mulheres, comunicac\u0327a\u0303o de bens e servic\u0327os e comunicac\u0327a\u0303o de mensagens. Consequ\u0308entemente, o estudo do sistema de parentesco, o do sistema econo\u0302mico e o do sistema lingu\u0308i\u0301stico apresentam certas analogias. Aos tre\u0302s se aplica o mesmo me\u0301todo, e eles diferem apenas quanto ao ni\u0301vel estrate\u0301gico em que cada um se situa no seio de um universo comum. Poder-se-ia acrescentar que as regras de parentesco e de casamento definem um quarto tipo de comunicac\u0327a\u0303o, o dos genes entre os feno\u0301tipos. A cultura na\u0303o consiste, portanto, exclusivamente em formas de comunicac\u0327a\u0303o que lhe sa\u0303o pro\u0301prias (como a linguagem), mas tambe\u0301m \u2013 e talvez sobretudo \u2013 em <em>regras<\/em> aplica\u0301veis a todos os tipos de \u201ccomunicac\u0327a\u0303o\u201d, quer esta se efetue no plano da natureza ou no da cultura. (L\u00e9vi-Strauss 2012:425-6)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Se nos e\u0301 permitido esperar que um dia a antropologia social, a cie\u0302ncia econo\u0302mica e a lingu\u0308i\u0301stica se associem para fundar uma disciplina comum, que seria a cie\u0302ncia da comunicac\u0327a\u0303o, reconhec\u0327amos desde ja\u0301 que ela consistira\u0301 sobretudo em <em>regras<\/em>. Tais regras sa\u0303o independentes da natureza dos participantes (indivi\u0301duos ou grupos) cujo jogo regem. [&#8230;] Desse ponto de vista, a natureza dos jogadores e\u0301 irrelevante, o importante e\u0301 saber quando um jogador pode escolher e quando na\u0303o pode. (L\u00e9vi-Strauss 2012:429-30)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Introduzimos, assim, nos estudos relativos ao parentesco e ao casamento, concepc\u0327o\u0303es derivadas da teoria da comunicac\u0327a\u0303o. A \u201cinformac\u0327a\u0303o\u201d de um sistema de casamento e\u0301 func\u0327a\u0303o do nu\u0301mero de alternativas de que dispo\u0303e o observador para definir o <em>status<\/em> matrimonial (isto e\u0301, de co\u0302njuge possi\u0301vel, proibido ou designado) de um indivi\u0301duo qualquer em relac\u0327a\u0303o a um determinado pretendente. [&#8230;] Inversamente, as regras de casamento constituem a redunda\u0302ncia do sistema considerado. Poder-se-ia igualmente calcular a porcentagem das escolhas \u201clivres\u201d (na\u0303o de modo absoluto, mas em relac\u0327a\u0303o a certas condic\u0327o\u0303es postuladas por hipo\u0301tese) que ocorrem numa determinada populac\u0327a\u0303o matrimonial, e atribuir um valor nume\u0301rico a\u0300 sua \u201centropia\u201d, relativa e absoluta. [&#8230;] Com isso, abre-se uma nova possibilidade, a de converter modelos estati\u0301sticos em modelos meca\u0302nicos e vice-versa. (L\u00e9vi-Strauss 2012:430)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A M\u00c1QUINA SOCIAL (sistema) DO PARENTESCO N\u00c3O ESGOTA A ESTRUTURA SOCIAL<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Para o autor destas linhas, os sistemas de parentesco, as regras de casamento e as de filiac\u0327a\u0303o formam um conjunto coordenado, cuja func\u0327a\u0303o e\u0301 garantir a permane\u0302ncia do grupo social, entrecruzando, como num tecido, as relac\u0327o\u0303es consangu\u0308i\u0301neas e as fundadas na alianc\u0327a. Esperamos ter assim contribui\u0301do para elucidar o funcionamento da ma\u0301quina social, que extrai perpetuamente as mulheres de suas fami\u0301lias consangu\u0308i\u0301neas para redistribui\u0301-las por outros grupos dome\u0301sticos, que por sua vez se transformam em fami\u0301lias consangu\u0308i\u0301neas, e assim sucessivamente. [&#8230;] Na ause\u0302ncia de influe\u0302ncias externas, essa ma\u0301quina funcionaria indefinidamente, e a estrutura social conservaria um cara\u0301ter esta\u0301tico. Mas na\u0303o e\u0301 isso que ocorre. Devemos, consequ\u0308entemente, [&#8230;] explicar as transformac\u0327o\u0303es diacro\u0302nicas da estrutura e, ao mesmo tempo, as razo\u0303es pelas quais uma estrutura social jamais se reduz a um sistema de parentesco. (L\u00e9vi-Strauss 2012:445-6)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>TRANSITIVIDADE, ORDEM e CICLO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[S]a\u0303o introduzidas em nossos estudos noc\u0327o\u0303es como as de transitividade, ordem e ciclo, passi\u0301veis de tratamento formal e que permitem a ana\u0301lise de tipos generalizados de estruturas sociais em que os ni\u0301veis de comunicac\u0327a\u0303o e de subordinac\u0327a\u0303o podem estar integrados. Talvez se possa ir ainda mais longe, ate\u0301 a integrac\u0327a\u0303o das ordens, atuais ou virtuais. Na maioria das sociedades humanas, o que chamamos de \u201cordem social\u201d pertence a um tipo transitivo e na\u0303o ci\u0301clico: se A e\u0301 superior a B e B superior a C, A deve ser superior a C e C na\u0303o pode ser superior a A. No entanto, as pro\u0301prias sociedades que obedecem a tais regras em termos pra\u0301ticos concebem outros tipos de ordem, que poderi\u0301amos chamar \u201cvirtuais\u201d ou \u201cideais\u201d, quer no plano da poli\u0301tica, no do mito ou no da religia\u0303o, e essas ordens sa\u0303o por vezes intransitivas e ci\u0301clicas. Pensemos nos contos de reis que desposam camponesas, ou na cri\u0301tica feita por Stendhal da democracia americana, em que um <em>gentleman<\/em> obedece a\u0300s ordens de seu merceeiro. (L\u00e9vi-Strauss 2012:451-2)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>DIFERENTES TIPOS DE ESTRUTURA-ORDEM (parentesco, organiza\u00e7\u00e3o social, estratifica\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Para o etno\u0301logo, a sociedade envolve um conjunto de estruturas que correspondem a diversos tipos de ordem. O sistema de parentesco fornece um meio de ordenar os indivi\u0301duos segundo certas regras, a organizac\u0327a\u0303o social fornece outro, as estratificac\u0327o\u0303es sociais ou econo\u0302micas, um terceiro. Todas essas estruturas de ordem podem ser elas mesmas ordenadas, contanto que se percebam as relac\u0327o\u0303es que as unem e de que modo elas agem umas sobre as outras do ponto de vista sincro\u0302nico. (L\u00e9vi-Strauss 2012:452)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ORDENS VIVIDAS =\/= ORDENS CONCEBIDAS<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[A]te\u0301 agora, consideramos apenas ordens \u201cvividas\u201d, isto e\u0301, ordens que sa\u0303o elas mesmas func\u0327a\u0303o de uma realidade objetiva, e que se pode abordar do exterior, independentemente da representac\u0327a\u0303o que dela te\u0302m os homens. Observaremos agora que tais ordens \u201cvividas\u201d sempre supo\u0303em outras, que e\u0301 indispensa\u0301vel levar em considerac\u0327a\u0303o para compreender na\u0303o apenas aquelas, como tambe\u0301m o modo como cada sociedade tenta integra\u0301-las num todo ordenado. Essas estruturas de ordem \u201cconcebidas\u201d, e na\u0303o mais \u201cvividas\u201d, na\u0303o correspondem diretamente a nenhuma realidade objetiva. A\u0300 diferenc\u0327a daquelas, na\u0303o sa\u0303o passi\u0301veis de controle experimental, ja\u0301 que chegam a invocar uma experie\u0302ncia especi\u0301fica com a qual, alia\u0301s, a\u0300s vezes se confundem. O u\u0301nico controle a que podemos submete\u0302-las, para analisa\u0301-las, e\u0301 portanto o das ordens do primeiro tipo, ou ordens \u201cvividas\u201d. As ordens \u201cconcebidas\u201d correspondem ao a\u0302mbito do mito e da religia\u0303o. Podemos nos perguntar se a ideologia poli\u0301tica das sociedades contempora\u0302neas na\u0303o pertenceria tambe\u0301m a essa categoria. (L\u00e9vi-Strauss 2012:452-3)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>MODELOS ANTROPOL\u00d3GICOS: COMUNICA\u00c7\u00c3O entre MEC\u00c2NICA e ESTAT\u00cdSTICA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A antropologia, em busca de modelos, se encontra numa situac\u0327a\u0303o intermedia\u0301ria [entre modelos mec\u00e2nicos e estat\u00edsticos]: os objetos a que nos dedicamos \u2013 pape\u0301is sociais e indivi\u0301duos integrados numa dada sociedade \u2013 sa\u0303o muito mais numerosos do que os da meca\u0302nica newtoniana, mas na\u0303o o suficiente para uma ana\u0301lise estati\u0301stica e de ca\u0301lculo de probabilidades. Encontramo-nos, assim, em terreno hi\u0301brido e ambi\u0301guo; nossos fatos sa\u0303o complicados demais para serem tratados de um modo, mas na\u0303o o bastante para que se possa trata\u0301-los do outro. [&#8230;] As novas perspectivas abertas pela teoria da comunicac\u0327a\u0303o resultam, justamente, dos me\u0301todos originais que foi preciso elaborar para tratar de objetos \u2013 os signos \u2013 que podem enta\u0303o ser submetidos a uma ana\u0301lise rigorosa, embora seu nu\u0301mero seja elevado demais para a meca\u0302nica cla\u0301ssica e ao mesmo tempo reduzido demais para que os princi\u0301pios da termodina\u0302mica lhes sejam aplica\u0301veis. (L\u00e9vi-Strauss 2012:455-6)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>O atual estado das pesquisas estruturais em antropologia e\u0301, portanto, o seguinte. Conseguimos isolar feno\u0302menos que sa\u0303o do mesmo tipo dos que as teorias da estrate\u0301gia e da comunicac\u0327a\u0303o ja\u0301 permitem estudar de modo rigoroso. Os fatos antropolo\u0301gicos se encontram numa escala suficientemente pro\u0301xima da desses outros feno\u0302menos para justificar a esperanc\u0327a de um tratamento ana\u0301logo. [&#8230;] Ajustar as te\u0301cnicas de observac\u0327a\u0303o a um quadro teo\u0301rico muito mais avanc\u0327ado do que elas, eis uma situac\u0327a\u0303o paradoxal, que a histo\u0301ria das cie\u0302ncias ilustra raramente. Cabe a\u0300 antropologia moderna aceitar esse desafio. (L\u00e9vi-Strauss 2012:456-7)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>XVI. Posfa\u0301cio ao capi\u0301tulo XV<\/strong><br \/>\n<strong>ETNOLOGIA como CI\u00caNCIA RESIDUAL (busca afastamentos diferenciais entre estruturas onde elas normalmente n\u00e3o eram esperadas)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Nenhum de no\u0301s [etn\u00f3logos] jamais sonhou em substituir por um tipo ou uma estrutura fixa essa realidade palpitante. A busca de estruturas interve\u0301m num segundo esta\u0301gio, quando, depois de termos observado o que existe, tentamos extrair dai\u0301 os u\u0301nicos elementos esta\u0301veis \u2013 e sempre parciais \u2013 que permitem comparar e classificar. [&#8230;] [N]a\u0303o partimos de uma definic\u0327a\u0303o a priori do que e\u0301 estrutura\u0301vel e do que na\u0303o o e\u0301. Temos plena conscie\u0302ncia da impossibilidade de saber de antema\u0303o onde e em que ni\u0301vel de observac\u0327a\u0303o a ana\u0301lise estrutural pode ser aplicada. Nossa experie\u0302ncia do concreto ensinou-nos que, muito frequ\u0308entemente, sa\u0303o os aspectos mais fluidos, os mais fugidios, da cultura que da\u0303o acesso a uma estrutura; dai\u0301 a atenc\u0327a\u0303o apaixonada, quase mani\u0301aca, que damos aos detalhes. Mantemos sempre em mente o exemplo das cie\u0302ncias naturais, cujo progresso de uma estrutura a outra (sempre mais inclusiva e mais explicativa do que a primeira) sempre consistiu em descobrir uma estruturac\u0327a\u0303o melhor por meio de fatos mi\u0301nimos, que as hipo\u0301teses anteriores tinham deixado de lado por considerarem-nos \u201ca-estruturais\u201d. Um exemplo disso sa\u0303o as anomalias do perie\u0301lio de Mercu\u0301rio, \u201ca-estruturais\u201d no sistema de Newton, que serviriam de base para a descoberta de uma estrutura melhor pela teoria da relatividade. A etnologia, cie\u0302ncia residual por excele\u0302ncia, ja\u0301 que a parte que lhe cabe e\u0301 o \u201cresi\u0301duo\u201d de sociedades que as cie\u0302ncias humanas tradicionais na\u0303o tinham se dignado a tratar (justamente porque as consideravam \u201ca-estruturais\u201d), so\u0301 pode, por vocac\u0327a\u0303o pro\u0301pria, utilizar o me\u0301todo dos resi\u0301duos.  [&#8230;] Mas sabemos que uma sociedade concreta jamais se reduz a sua, ou melhor, a suas estruturas (pois ha\u0301 va\u0301rias delas, em diferentes ni\u0301veis, e essas diversas estruturas se encontram elas mesmas, ao menos parcialmente, \u201cem estrutura\u201d). Como eu escrevia em 1949, criticando essa forma prima\u0301ria do estruturalismo que e\u0301 chamada de funcionalismo: \u201cDizer que uma sociedade funciona e\u0301 um trui\u0301smo; mas dizer que tudo, numa sociedade, funciona e\u0301 um absurdo\u201d [&#8230;] Na verdade, nosso objetivo u\u0301ltimo na\u0303o e\u0301 tanto saber o que sa\u0303o, cada uma em si mesma, as sociedades que constituem nosso objeto de estudo, e mais descobrir como elas diferem umas das outras. Como em lingu\u0308i\u0301stica, sa\u0303o esses afastamentos diferenciais que constituem o objeto pro\u0301prio da etnologia. (L\u00e9vi-Strauss 2012:463-4)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>D&#8217;ARCY THOMPSON sobre MORFOLOGIA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Acontece frequ\u0308entemente, em morfologia, de a tarefa principal consistir em comparar formas vizinhas, mais do que definir precisamente cada uma delas; e as deformac\u0327o\u0303es de uma figura complicada podem ser um feno\u0302meno fa\u0301cil de compreender, ainda que a figura em si deva permanecer na\u0303o analisada e na\u0303o definida (D&#8217;Arcy Wentworth Thompson 1952, v. ii: 1032). (L\u00e9vi-Strauss 2012:465)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>NO\u00c7\u00c3O DE ESTRUTURA surge da NECESSIDADE de COORDENAR ESFOR\u00c7OS ISOLADOS<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Parece-me [&#8230;] digno de nota que va\u0301rios etno\u0301logos tenham-se voltado, de modo independente, para a noc\u0327a\u0303o de estrutura, durante os anos de guerra em que as circunsta\u0302ncias nos condenavam a um certo isolamento. A converge\u0302ncia mostra o quanto essa noc\u0327a\u0303o era indispensa\u0301vel para resolver problemas enfrentados por nossos predecessores. Ela fornece a nossos procedimentos compartilhados um pressuposto de validade, para ale\u0301m das diferenc\u0327as que nos distinguem em outros pontos. (L\u00e9vi-Strauss 2012:465)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ORDEM DAS ORDENS (sistemas de transforma\u00e7\u00e3o e materialismo dial\u00e9tico)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A ordem das ordens na\u0303o e\u0301 uma recapitulac\u0327a\u0303o dos feno\u0302menos submetidos a\u0300 ana\u0301lise. E\u0301 a expressa\u0303o mais abstrata das inter-relac\u0327o\u0303es entre os ni\u0301veis em que a ana\u0301lise estrutural pode ser realizada, tanto que as fo\u0301rmulas chegam a ser as mesmas para sociedades histo\u0301rica e geograficamente afastadas; um pouco, se me permitem a comparac\u0327a\u0303o, como mole\u0301culas que, apesar de possui\u0301rem composic\u0327o\u0303es qui\u0301micas diferentes, umas simples, outras complicadas, pudessem ter ambas uma estrutura \u201creta\u201d ou uma estrutura \u201cinvertida\u201d. Assim, entendo por ordem das ordens as propriedades formais do conjunto composto por subconjuntos, dos quais cada um corresponde a um ni\u0301vel estrutural dado. [&#8230;] Como diz Jean Pouillon, [&#8230;] trata-se de saber se e\u0301 possi\u0301vel elaborar \u201cum sistema de diferenc\u0327as que na\u0303o conduza nem a\u0300 sua mera justaposic\u0327a\u0303o nem a seu apagamento artificial\u201d (1956: 155). (L\u00e9vi-Strauss 2012:474-5)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Na\u0303o postulo uma espe\u0301cie de harmonia pre\u0301-estabelecida entre os diversos ni\u0301veis de estrutura. Eles podem perfeitamente estar \u2013 e muitas vezes esta\u0303o \u2013 em contradic\u0327a\u0303o uns com os outros, mas as modalidades segundo as quais se contradizem pertencem todas ao mesmo grupo. E\u0301 exatamente isso, alia\u0301s, o que mostra o materialismo histo\u0301rico, quando afirma que e\u0301 sempre possi\u0301vel passar, por transformac\u0327a\u0303o, da estrutura econo\u0302mica ou da das relac\u0327o\u0303es sociais para a estrutura do direito, da arte, ou da religia\u0303o. Mas Marx jamais pretendeu que tais transformac\u0327o\u0303es fossem de um u\u0301nico tipo, que a ideologia, por exemplo, so\u0301 pudesse refletir as relac\u0327o\u0303es sociais, como um espelho. Segundo ele, essas transformac\u0327o\u0303es sa\u0303o diale\u0301ticas e, em alguns casos, ele enfrenta dificuldades para encontrar a transformac\u0327a\u0303o indispensa\u0301vel que parecia inicialmente refrata\u0301ria a\u0300 ana\u0301lise. [&#8230;] Se admitirmos, na pro\u0301pria linha de pensamento de Marx, que as infra-estruturas e as superestruturas comportam mu\u0301ltiplos ni\u0301veis, e que ha\u0301 va\u0301rios tipos de transformac\u0327a\u0303o para passar de um ni\u0301vel a outro, sera\u0301 tambe\u0301m concebi\u0301vel a possibilidade, em u\u0301ltima ana\u0301lise e abstraindo-se os conteu\u0301dos, de caracterizar diversos tipos de sociedade por leis de transformac\u0327a\u0303o: fo\u0301rmulas indicando o nu\u0301mero, a pote\u0302ncia, o sentido e a ordem das torc\u0327o\u0303es que seria preciso anular, por assim dizer, para reencontrar uma relac\u0327a\u0303o de homologia ideal (logicamente, na\u0303o moralmente) entre os diversos ni\u0301veis estruturados. [&#8230;] Pois essa reduc\u0327a\u0303o e\u0301, ao mesmo tempo, uma cri\u0301tica. Ao substituir um modelo complexo por um modelo simples dotado de melhor rendimento lo\u0301gico, o antropo\u0301logo desvela os rodeios e artifi\u0301cios, conscientes e inconscientes, a que cada sociedade recorre para tentar resolver as contradic\u0327o\u0303es que lhe sa\u0303o inerentes ou, pelo menos, dissimula\u0301-las. (L\u00e9vi-Strauss 2012:475-6)<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>L\u00c9VI-STRAUSS, Claude. 2012. XV. A no\u00e7\u00e3o de estrutura em etnologia; XVI. P\u00f3sf\u00e1cio ao Cap\u00edtulo XV. In: Antropologia Estrutural (Trad.: Beatriz Perrone-Mois\u00e9s) S\u00e3o Paulo: CosacNaify, pp.397-487. [1952; 1956] XV. A no\u00e7\u00e3o de estrutura em etnologia (1952) ROUSSEAU (meta)F\u00cdSICO SOCIAL As investigac\u0327o\u0303es que podem ser feitas a esse respeito na\u0303o devem ser tomadas por verdades histo\u0301ricas, mas apenas por racioci\u0301nios hipote\u0301ticos e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":176,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[41],"class_list":["post-175","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-fichamento","tag-levi-strauss"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/LS_capa.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/175","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=175"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/175\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":177,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/175\/revisions\/177"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/176"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=175"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=175"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=175"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}