{"id":172,"date":"2021-04-14T17:10:43","date_gmt":"2021-04-14T17:10:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=172"},"modified":"2021-04-14T17:10:43","modified_gmt":"2021-04-14T17:10:43","slug":"novum-organum-bacon-1620","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2021\/04\/14\/novum-organum-bacon-1620\/","title":{"rendered":"<em>Novum Organum<\/em> (Bacon 1620)"},"content":{"rendered":"<p>BACON, Francis. 1620. <em>Novum Organum; ou verdadeiras indica\u00e7\u00f5es acerca da interpreta\u00e7\u00e3o da natureza<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o usada: Jos\u00e9 Aluysio Reis de Andrade.<\/p>\n<p><strong>M\u00c9TODO (uma dial\u00e9tica com lastro instrumental)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Nosso m\u00e9todo [&#8230;] \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil de ser apresentado quanto dif\u00edcil de se aplicar. Consiste no <strong>estabelecer os graus de certeza<\/strong>, determinar o alcance exato dos sentidos e rejeitar, na maior parte dos casos, o labor da mente, calcado muito de perto sobre aqueles, abrindo e promovendo, assim, a nova e certa via da mente, que, de resto, prov\u00e9m das pr\u00f3prias percep\u00e7\u00f5es sens\u00edveis. Foi, sem d\u00favida, o que tamb\u00e9m divisaram os que tanto concederam \u00e0 dial\u00e9tica. Tornaram tamb\u00e9m manifesta a necessidade de <strong>escoras para o intelecto<\/strong>, pois colocaram sob suspeita o seu processo natural e o seu movimento espont\u00e2neo. Mas tal rem\u00e9dio vinha tarde demais, estando j\u00e1 as coisas perdidas e a mente ocupada pelos usos do conv\u00edvio cotidiano pelas doutrinas viciosas e pela mais v\u00e3 idolatria. Pois a dial\u00e9tica, com precau\u00e7\u00f5es tardias, como assinalamos, e em nada modificando o andamento das coisas, mais serviu para firmar os erros que descerrar a verdade.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ANTECIPA\u00c7\u00c3O DA MENTE (dedu\u00e7\u00e3o argumetativa humana) x INTERPRETA\u00c7\u00c3O DA NATUREZA (indu\u00e7\u00e3o objetiva divina)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Que haja, pois talvez seja prop\u00edcio para ambas as partes, duas fontes de gera\u00e7\u00e3o e de propaga\u00e7\u00e3o de doutrinas. Que haja igualmente duas fam\u00edlias de cultores da reflex\u00e3o e da filosofia, com la\u00e7os de parentesco entre si, mas de modo algum inimigas ou alheia uma da outra, antes pelo contr\u00e1rio coligadas. Que haja, finalmente, dois m\u00e9todos, um destinado ao cultivo das ci\u00eancias e outro destinado \u00e0 descoberta cient\u00edfica. Aos que preferem o primeiro caminho, seja por impaci\u00eancia, por injun\u00e7\u00f5es da vida civil, seja pela inseguran\u00e7a de suas mentes em compreender e abarcar a outra via (este ser\u00e1, de longe, o caso da maior parte dos homens), a eles auguramos sejam bem sucedidos no que escolheram e consigam alcan\u00e7ar aquilo que buscam. Mas aqueles dentre os mortais, mais animados e interessados, n\u00e3o no uso presente das descobertas j\u00e1 feitas, mas em ir mais al\u00e9m; que estejam preocupados, n\u00e3o com a vit\u00f3ria sobre os advers\u00e1rios por meio de argumentos, mas na vit\u00f3ria sobre a natureza, pela a\u00e7\u00e3o; n\u00e3o em emitir opini\u00f5es elegantes e prov\u00e1veis, mas em conhecer a verdade de forma clara e manifesta; esses, como verdadeiros filhos da ci\u00eancia, que se juntem a n\u00f3s, para, deixando para tr\u00e1s os vest\u00edbulos das ci\u00eancias, por tantos palmilhados sem resultado, penetrarmos em seus rec\u00f4nditos dom\u00ednios. E, para sermos melhor atendidos e para maior familiaridade, queremos adiantar o sentido dos termos empregados. Chamaremos ao primeiro m\u00e9todo ou caminho de <em>Antecipa\u00e7\u00e3o da Mente<\/em> e ao segundo de <em>Interpreta\u00e7\u00e3o da Natureza<\/em>.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><strong>XIX<\/strong> &#8211; S\u00f3 h\u00e1 e s\u00f3 pode haver duas vias para a investiga\u00e7\u00e3o e para a descoberta da verdade. Uma, que consiste no saltar-se das sensa\u00e7\u00f5es e das coisas particulares aos axiomas mais gerais e, a seguir, descobrirem-se os axiomas intermedi\u00e1rios a partir desses princ\u00edpios e de sua inamov\u00edvel verdade. Esta \u00e9 a que ora se segue. A outra, que recolhe os axiomas dos dados dos sentidos e particulares, ascendendo cont\u00ednua e gradualmente at\u00e9 alcan\u00e7ar, em \u00faltimo lugar, os princ\u00edpios de m\u00e1xima generalidade. Este \u00e9 o verdadeiro caminho, por\u00e9m ainda n\u00e3o instaurado.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><strong>XXII<\/strong> &#8211; Tanto uma como a outra via partem dos sentidos e das coisas particulares e terminam nas formula\u00e7\u00f5es da mais elevada generalidade. Mas \u00e9 imenso aquilo em que discrepam. Enquanto que uma perpassa na carreira pela experi\u00eancia e pelo particular, a outra a\u00ed se det\u00e9m de forma ordenada, como cumpre. Aquela, desde o in\u00edcio, estabelece certas generaliza\u00e7\u00f5es abstratas e in\u00fateis; esta se eleva gradualmente \u00e0quelas coisas que s\u00e3o realmente as mais comuns na natureza.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><strong>XXIV<\/strong> &#8211; De modo algum se pode admitir que os axiomas constitu\u00eddos pela argumenta\u00e7\u00e3o valham para a descoberta de novas verdades, pois a profundidade da natureza supera de muito o alcance do argumento. Mas os axiomas reta e ordenadamente abstra\u00eddos dos fatos particulares, estes sim, facilmente indicam e designam novos fatos particulares e, por essa via, tornam ativas as ci\u00eancias.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><strong>XXVI<\/strong> &#8211; Para efeito de explana\u00e7\u00e3o, chamamos \u00e0 forma ordin\u00e1ria da raz\u00e3o humana voltar-se para o estudo da natureza de antecipa\u00e7\u00f5es da natureza (por se tratar de intento temer\u00e1rio e prematuro). E \u00e0 que procede da forma devida, a partir dos fatos, designamos por interpreta\u00e7\u00e3o da natureza.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><strong>XXVII<\/strong> &#8211; As <strong>antecipa\u00e7\u00f5es<\/strong> s\u00e3o fundamento satisfat\u00f3rio para o consenso, pois, se todos os homens se tornassem da mesma forma insanos, poderiam razoavelmente entender-se entre si.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><strong>XXVIII<\/strong> &#8211; Ainda mais, as <strong>antecipa\u00e7\u00f5es<\/strong> s\u00e3o de muito mais valia para lograr o nosso assentimento, que as interpreta\u00e7\u00f5es; pois, sendo coligidas a partir de poucas inst\u00e2ncias e destas as que mais familiarmente ocorrem, desde logo empolgam o intelecto e enfunam a fantasia; enquanto que as <strong>interpreta\u00e7\u00f5es<\/strong>, pelo contr\u00e1rio, sendo coligidas a partir de m\u00faltiplos fatos, dispersos e distanciados, n\u00e3o podem, de s\u00fabito, tocar o intelecto, de tal modo que, \u00e0 opini\u00e3o comum, podem parecer quase t\u00e3o duras e dissonantes quanto os mist\u00e9rios da f\u00e9.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><strong>XXIX<\/strong> &#8211; Nas ci\u00eancias que se fundam nas opini\u00f5es e nas conven\u00e7\u00f5es \u00e9 bom o uso das <strong>antecipa\u00e7\u00f5es<\/strong> e da dial\u00e9tica, j\u00e1 que se trata de submeter o assentimento e n\u00e3o as coisas.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><strong>XXXVI<\/strong> &#8211; Resta-nos um \u00fanico e simples m\u00e9todo, para alcan\u00e7ar os nossos intentos: levar os homens aos pr\u00f3prios fatos particulares e \u00e0s suas s\u00e9ries e ordens, a fim de que eles, por si mesmos, se sintam obrigados a renunciar \u00e0s suas no\u00e7\u00f5es e comecem a <strong>habituar-se ao trato direto das coisas<\/strong>.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><strong>XCVIII<\/strong> &#8211; Os fundamentos da experi\u00eancia \u2014 j\u00e1 que a ela sempre retomamos \u2014 at\u00e9 agora ou foram nulos ou foram muito inseguros. At\u00e9 agora n\u00e3o se buscaram nem se recolheram cole\u00e7\u00f5es de fatos particulares, em n\u00famero, g\u00eanero ou em exatid\u00e3o, capazes de informar de algum modo o intelecto. Mas, ao contr\u00e1rio, os doutos, homens indolentes e cr\u00e9dulos, acolheram para estabelecer ou confirmar a sua filosofia certos rumores, quase mesmo sussurros ou brisas de experi\u00eancia, a que, apesar de tudo, atribu\u00edram valor de leg\u00edtimo testemunho. Dessa forma, introduziu-se na filosofia, no que respeita \u00e0 experi\u00eancia, a mesma pr\u00e1tica de <strong>um reino ou Estado<\/strong> que cuidasse de seus neg\u00f3cios, n\u00e3o \u00e0 base de informa\u00e7\u00f5es de representantes ou n\u00fancios fidedignos, mas dos rumores ou mexericos de seus cidad\u00e3os.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>&#8220;PROCURE FAZER USO DE SEU PR\u00d3PRIO JU\u00cdZO&#8221;<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Procuramos cercar nossas reflex\u00f5es dos maiores cuidados, n\u00e3o apenas para que fossem verdadeiras, mas tamb\u00e9m para que n\u00e3o se apresentassem de forma inc\u00f4moda e \u00e1rida ao esp\u00edrito dos homens, usualmente t\u00e3o atulhado de m\u00faltiplas formas de fantasia. <strong>Em contrapartida, solicitamos dos homens<\/strong>, sobretudo em se tratando de uma t\u00e3o grandiosa restaura\u00e7\u00e3o do saber e da ci\u00eancia, que todo aquele que se dispuser a formar ou emitir opini\u00f5es a respeito do nosso trabalho, quer partindo de seus pr\u00f3prios recursos, da turba de autoridades, quer por meio de demonstra\u00e7\u00f5es (que adquiriram agora a for\u00e7a das leis civis), n\u00e3o se disponha a faz\u00ea-lo de passagem e de maneira leviana. Mas que, antes, se inteire bem do nosso tema; a seguir, procure acompanhar tudo o que descrevemos e tudo a que recorremos; procure habituar-se \u00e0 complexidade das coisas, tal como \u00e9 revelada pela experi\u00eancia; procure, enfim, eliminar, com serenidade e paci\u00eancia, os h\u00e1bitos pervertidos, j\u00e1 profundamente arraigados na mente. A\u00ed ent\u00e3o, tendo come\u00e7ado o pleno dom\u00ednio de si mesmo, <strong>querendo, procure fazer uso de seu pr\u00f3prio ju\u00edzo<\/strong>.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><strong>XCVII<\/strong> &#8211; <strong>At\u00e9 agora ningu\u00e9m<\/strong> surgiu dotado de mente t\u00e3o tenaz e rigorosa que haja decidido, e a si mesmo imposto, livrar-se das teorias e no\u00e7\u00f5es comuns e aplicar, integralmente, o intelecto, assim purificado e reequilibrado, aos fatos particulares. Pois a nossa raz\u00e3o humana \u00e9 constitu\u00edda de uma farragem e massa de coisas, procedentes algumas de muita credulidade, e outras do acaso e tamb\u00e9m de no\u00e7\u00f5es pueris, que recebemos desde o in\u00edcio.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>OBEDECER A NATUREZA PARA DOMIN\u00c1-LA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p><strong>I<\/strong> &#8211; O homem, <strong>ministro e int\u00e9rprete da natureza<\/strong>, faz e entende tanto quanto constata, pela observa\u00e7\u00e3o dos fatos ou pelo trabalho da mente, sobre a ordem da natureza; n\u00e3o sabe nem pode mais.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><strong>III<\/strong> &#8211; <strong>Ci\u00eancia e poder<\/strong> do homem coincidem, uma vez que, sendo a causa ignorada, frustra-se o efeito. Pois <strong>a natureza n\u00e3o se vence, se n\u00e3o quando se lhe obedece<\/strong>. E o que \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o apresenta-se como causa \u00e9 regra na pr\u00e1tica.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><strong>IV<\/strong> &#8211; No trabalho da natureza o homem n\u00e3o pode mais que unir e apartar os corpos. O restante realiza-o a pr\u00f3pria natureza, <strong>em si mesma<\/strong>.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><strong>XCVIII<\/strong> &#8211; [&#8230;] [D]a mesma maneira que na vida pol\u00edtica o car\u00e1ter de cada um, sua secreta disposi\u00e7\u00e3o de \u00e2nimo e sentimentos melhor se patenteiam em ocasi\u00f5es de perturba\u00e7\u00e3o que em outras, assim tamb\u00e9m <strong>os segredos da natureza melhor se revelam quando esta \u00e9 submetida aos assaltos das artes<\/strong> que quando deixada no seu curso natural.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><strong>CXXIX<\/strong> &#8211; [&#8230;] A esta altura, n\u00e3o seria impr\u00f3prio distinguirem-se tr\u00eas g\u00eaneros ou graus de ambi\u00e7\u00e3o dos homens. O primeiro \u00e9 o dos que aspiram ampliar seu pr\u00f3prio poder em sua p\u00e1tria, g\u00eanero vulgar a aviltado; o segundo \u00e9 o dos que ambicionam estender o poder e o dom\u00ednio de sua p\u00e1tria para todo o g\u00eanero humano, g\u00eanero sem d\u00favida mais digno, mas n\u00e3o menos c\u00fapido. Mas se algu\u00e9m se disp\u00f5e a instaurar e estender o poder e <strong>o dom\u00ednio do g\u00eanero humano sobre o universo<\/strong>, a sua ambi\u00e7\u00e3o (se assim pode ser chamada) seria, sem d\u00favida, a mais s\u00e1bia e a mais nobre de todas. Pois bem, o imp\u00e9rio do homem sobre as coisas se ap\u00f3ia unicamente nas artes e nas ci\u00eancias. <strong>A natureza n\u00e3o se domina, sen\u00e3o obedecendo-lhe<\/strong>.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ARRIMOS PARA O INTELECTO (instrumentos de registro e medida; tabelas)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p><strong>II<\/strong> &#8211; Nem a m\u00e3o nua nem o intelecto, deixados a si mesmos, logram muito. Todos os feitos se cumprem com <strong>instrumentos<\/strong> e recursos auxiliares, de que dependem, em igual medida, tanto o intelecto quanto as m\u00e3os. Assim como os instrumentos mec\u00e2nicos regulam e ampliam o movimento das m\u00e3os, os da mente agu\u00e7am o intelecto e o precav\u00eam.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><strong>CI<\/strong> &#8211; Todavia, mesmo quando esteja pronto e preparado o material de hist\u00f3ria natural e de experi\u00eancia, na quantidade requerida para a obra do intelecto, ou seja, para a obra da filosofia, nem assim o intelecto estar\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es de trabalhar o referido material espontaneamente e apenas com o aux\u00edlio da mem\u00f3ria. Seria o mesmo que se tentasse aprender de mem\u00f3ria e reter exatamente todos os c\u00e1lculos de uma t\u00e1bua astron\u00f4mica. E at\u00e9 agora, em mat\u00e9ria de inven\u00e7\u00e3o, tem sido mais importante o papel da medita\u00e7\u00e3o que o da escrita, e a experi\u00eancia n\u00e3o \u00e9 ainda literata. Apesar disso, <strong>nenhuma forma de inven\u00e7\u00e3o \u00e9 conclusiva sen\u00e3o por escrito<\/strong>. E \u00e9 de se esperar melhores frutos quando a experi\u00eancia literata for de uso corrente.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><strong>CII<\/strong> &#8211; Al\u00e9m disso, sendo t\u00e3o grande o n\u00famero dos fatos particulares, quase um ex\u00e9rcito, e achando-se de tal modo esparsos e difusos que chegam a desagregar e confundir o intelecto, n\u00e3o \u00e9 de se esperar boa coisa das escaramu\u00e7as, dos ligeiros movimentos e incurs\u00f5es do intelecto, a n\u00e3o ser que, organizando e coordenando todos os fatos relacionados a um objeto, se utilize de <strong>tabelas<\/strong> de inven\u00e7\u00e3o id\u00f4neas e bem dispostas e como que vivas. Tais tabelas servir\u00e3o \u00e0 mente como auxiliares preparados e ordenados.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><strong>CXXII<\/strong> &#8211; [&#8230;] [S]e nos acusam de arrogantes, cumpre-nos observar que isso seria verdadeiro de algu\u00e9m que pretendesse tra\u00e7ar uma linha reta ou um c\u00edrculo, melhor que algum outro, servindo-se apenas da seguran\u00e7a das m\u00e3os e do bom golpe de vista. No caso, haveria uma compara\u00e7\u00e3o de capacidade. Mas se algu\u00e9m afirma poder tra\u00e7ar uma linha mais reta e um c\u00edrculo mais perfeito servindo-se da <strong>r\u00e9gua<\/strong> e do <strong>compasso<\/strong>, em compara\u00e7\u00e3o a algu\u00e9m que fa\u00e7a uso apenas das m\u00e3os e da vista, esse com certeza n\u00e3o seria um jactancioso. O que ora dizemos n\u00e3o se refere somente aos nossos primeiros esfor\u00e7os e tentativas, mas tamb\u00e9m aos dos que se seguiram com os mesmos prop\u00f3sitos. Pois o nosso m\u00e9todo de descoberta das ci\u00eancias quase que <strong>iguala os engenhos<\/strong> e n\u00e3o deixa muita margem \u00e0 excel\u00eancia individual, pois tudo submete a <strong>regras r\u00edgidas e demonstra\u00e7\u00f5es<\/strong>. Eis por que, como j\u00e1 o dissemos muitas vezes, a nossa obra deve ser atribu\u00edda mais \u00e0 sorte que \u00e0 habilidade, e \u00e9 mais parto do tempo que do talento. Pois parece n\u00e3o haver d\u00favidas de que uma esp\u00e9cie de acaso interv\u00e9m tanto no pensamento dos homens quanto nas obras e nos fatos.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>DEUS = NATUREZA = COISAS<\/strong><\/p>\n<blockquote><p><strong>XXIII<\/strong> &#8211; N\u00e3o \u00e9 pequena a diferen\u00e7a existente entre os \u00eddolos da mente humana e as id\u00e9ias da mente divina, ou seja, entre opini\u00f5es in\u00fateis e as verdadeiras marcas e impress\u00f5es gravadas por <strong>Deus<\/strong> nas criaturas. tais como de fato se encontram.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><strong>CXXIV<\/strong> &#8211; [&#8230;] Efetivamente constru\u00edmos no intelecto humano um modelo verdadeiro do mundo, tal qual foi descoberto e n\u00e3o segundo o capricho da raz\u00e3o de fulano ou beltrano. Por\u00e9m, isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel levar a efeito, sem uma pr\u00e9via e diligent\u00edssima dissec\u00e7\u00e3o e anatomia do mundo. Por isso, decidimos correr com todas essas imagens ineptas e simiescas que a fantasia humana infundiu nos v\u00e1rios sistemas filos\u00f3ficos. Saibam os homens como j\u00e1 antes dissemos a imensa dist\u00e2ncia que separa os \u00eddolos da mente humana das id\u00e9ias da mente <strong>divina<\/strong>. Aqueles, de fato, nada mais s\u00e3o que abstra\u00e7\u00f5es arbitr\u00e1rias; estas, ao contr\u00e1rio, s\u00e3o as verdadeiras marcas do <strong>Criador<\/strong> sobre as criaturas, gravadas e determinadas sobre a mat\u00e9ria, atrav\u00e9s de linhas exatas e delicadas. Por conseguinte, as coisas em si mesmas, neste g\u00eanero, s\u00e3o verdade e utilidade, e as obras devem ser estimadas mais como garantia da verdade que pelas comodidades que propiciam \u00e0 vida humana.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>\u00cdDOLOS: da tribo (tradi\u00e7\u00f5es); da caverna (subjetivos); do foro (pol\u00edticos); e do teatro (filos\u00f3ficos)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p><strong>XXXIX<\/strong> &#8211; S\u00e3o de quatro g\u00eaneros os \u00eddolos que bloqueiam a mente humana. Para melhor apresent\u00e1-los, lhes assinamos nomes, a saber: \u00cddolos da Tribo; \u00cddolos da Caverna; \u00cddolos do Foro e \u00cddolos do Teatro.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><strong>XL<\/strong> &#8211; A forma\u00e7\u00e3o de no\u00e7\u00f5es e axiomas pela verdadeira indu\u00e7\u00e3o \u00e9, sem d\u00favida, o rem\u00e9dio apropriado para afastar e repelir os \u00eddolos.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><strong>XLI<\/strong> Os \u00eddolos da <strong>tribo<\/strong> est\u00e3o fundados na pr\u00f3pria natureza humana, na pr\u00f3pria tribo ou esp\u00e9cie humana. E falsa a asser\u00e7\u00e3o de que os sentidos do homem s\u00e3o a medida das coisas. Muito ao contr\u00e1rio, todas as percep\u00e7\u00f5es, tanto dos sentidos como da mente, guardam analogia com a natureza humana e n\u00e3o com o universo. O intelecto humano \u00e9 semelhante a um espelho que reflete desigualmente os raios das coisas e, dessa forma, as distorce e corrompe.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><strong>XLII<\/strong> &#8211; Os \u00eddolos da <strong>caverna<\/strong> s\u00e3o os dos homens enquanto indiv\u00edduos. Pois, cada um \u2014 al\u00e9m das aberra\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias da natureza humana em geral \u2014 tem uma caverna ou uma cova que intercepta e corrompe a luz da natureza: seja devido \u00e0 natureza pr\u00f3pria e singular de cada um; seja devido \u00e0 educa\u00e7\u00e3o ou conversa\u00e7\u00e3o com os outros; seja pela leitura dos livros ou pela autoridade daqueles que se respeitam e admiram; seja pela diferen\u00e7a de impress\u00f5es, segundo ocorram em \u00e2nimo preocupado e predisposto ou em \u00e2nimo equ\u00e2nime e tranq\u00fcilo; de tal forma que o esp\u00edrito humano \u2014 tal como se acha disposto em cada um \u2014 \u00e9 coisa v\u00e1ria, sujeita a m\u00faltiplas perturba\u00e7\u00f5es, e at\u00e9 certo ponto sujeita ao acaso. Por isso, bem proclamou Her\u00e1clito que os homens buscam em seus pequenos mundos e n\u00e3o no grande ou universal.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><strong>XLIII<\/strong> &#8211; H\u00e1 tamb\u00e9m os \u00eddolos provenientes, de certa forma, do intercurso e da associa\u00e7\u00e3o rec\u00edproca dos indiv\u00edduos do g\u00eanero humano entre si, a que chamamos de \u00eddolos do <strong>foro<\/strong> devido ao com\u00e9rcio e cons\u00f3rcio entre os homens. Com efeito, os homens se associam gra\u00e7as ao discurso, e as palavras s\u00e3o cunhadas pelo vulgo. E as palavras, impostas de maneira impr\u00f3pria e inepta, bloqueiam espantosamente o intelecto. Nem as defini\u00e7\u00f5es, nem as explica\u00e7\u00f5es com que os homens doutos se munem e se defendem, em certos dom\u00ednios, restituem as coisas ao seu lugar. Ao contr\u00e1rio, as palavras for\u00e7am o intelecto e o perturbam por completo. E os homens s\u00e3o, assim, arrastados a in\u00fameras e in\u00fateis controv\u00e9rsias e fantasias.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><strong>XLIV<\/strong> &#8211; H\u00e1, por fim, \u00eddolos que imigraram para o esp\u00edrito dos homens por meio das diversas doutrinas filos\u00f3ficas e tamb\u00e9m pelas regras viciosas da demonstra\u00e7\u00e3o. S\u00e3o os \u00eddolos do <strong>teatro<\/strong>: por parecer que as filosofias adotadas ou inventadas s\u00e3o outras tantas f\u00e1bulas, produzidas e representadas, que figuram mundos fict\u00edcios e teatrais. N\u00e3o nos referimos apenas \u00e0s que ora existem ou \u00e0s filosofias e seitas dos antigos. In\u00fameras f\u00e1bulas do mesmo teor se podem reunir e compor, por que as causas dos erros mais diversos s\u00e3o quase sempre as mesmas. Ademais, n\u00e3o pensamos apenas nos sistemas filos\u00f3ficos, na universalidade, mas tamb\u00e9m nos numerosos princ\u00edpios e axiomas das ci\u00eancias que entraram em vigor, merc\u00ea da tradi\u00e7\u00e3o, da credulidade e da neglig\u00eancia.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>PARA UMA NATUREZA DIVINA, UM CIENTISTA INFANTIL (<em>tabula rasa<\/em>)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p><strong>LXVIII<\/strong> &#8211; J\u00e1 falamos de todas as esp\u00e9cies de \u00eddolos e de seus aparatos. Por decis\u00e3o solene e inquebrant\u00e1vel todos devem ser abandonados e abjurados. O intelecto deve ser liberado e expurgado de todos eles, de tal modo que o acesso ao reino do homem, que repousa sobre as ci\u00eancias, possa parecer-se ao acesso ao <strong>reino dos c\u00e9us<\/strong>, ao qual n\u00e3o se permite entrar sen\u00e3o sob a figura de <strong>crian\u00e7a<\/strong>.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>EXPERIMENTOS LUC\u00cdFEROS (sem utilidade pr\u00e1tica al\u00e9m do aumento das luzes do conhecimento) x EXPERIMENTOS FRUT\u00cdFEROS (que resultam em efeitos pr\u00e1ticos para al\u00e9m do mero avan\u00e7o do conhecimento)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p><strong>XCIX<\/strong> &#8211; Por sua vez, mesmo em meio \u00e0 abund\u00e2ncia dos experimentos mec\u00e2nicos, h\u00e1 grande escassez dos que mais contribuem e concorrem para informa\u00e7\u00e3o do intelecto. De fato, o artes\u00e3o, despreocupado totalmente da busca da verdade, s\u00f3 est\u00e1 atento e apenas estende as m\u00e3os para o que diretamente serve a sua obra particular. Por isso, a esperan\u00e7a de um ulterior progresso das ci\u00eancias estar\u00e1 bem fundamentada quando se recolherem e reunirem na hist\u00f3ria natural muitos experimentos que em si n\u00e3o encerram qualquer utilidade, mas que s\u00e3o necess\u00e1rios na descoberta das causas e dos axiomas. A esses experimentos costumamos designar por <strong>luc\u00edferos<\/strong>, para diferenci\u00e1-los dos que chamamos de frut\u00edferos. Aqueles experimentos t\u00eam, com efeito, admir\u00e1vel virtude ou condi\u00e7\u00e3o: a de nunca falhar ou frustrar, pois n\u00e3o se dirigem \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de qualquer obra, mas \u00e0 revela\u00e7\u00e3o de alguma causa natural. Assim, qualquer que seja o caso, satisfazem esse intento e assim resolvem a quest\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O PARADOXO DA INVEN\u00c7\u00c3O: antes dela, ela \u00e9 inimagin\u00e1vel, e geralmente considerada imposs\u00edvel; depois dela, ela \u00e9 desprezada como \u00f3bvia e evidente.<\/strong><\/p>\n<blockquote><p><strong>CIX<\/strong> &#8211; Pode-se tamb\u00e9m acrescentar como argumento de esperan\u00e7a o fato de que muitos dos inventos j\u00e1 logrados s\u00e3o de tal ordem que antes a ningu\u00e9m foi dado sequer suspeitar da sua possibilidade. Eram, ao contr\u00e1rio, olhados como coisas imposs\u00edveis. E tal se deve a que <strong>os homens procuram adivinhar as coisas novas a exemplo das antigas e com a imagina\u00e7\u00e3o preconcebida e viciada<\/strong>. Mas essa \u00e9 uma maneira de opinar sumamente falaciosa, pois a maioria das descobertas que derivam das fontes das coisas n\u00e3o flui pelos regatos costumeiros. Assim, por exemplo, se antes da inven\u00e7\u00e3o dos <strong>canh\u00f5es<\/strong> algu\u00e9m, baseado nos seus efeitos, os descrevesse: foi inventada uma m\u00e1quina que pode, de grande dist\u00e2ncia, abalar e arrasar as mais poderosas fortifica\u00e7\u00f5es, os homens ent\u00e3o se poriam a cogitar das diferentes e m\u00faltiplas formas de se aumentar a for\u00e7a de suas m\u00e1quinas b\u00e9licas pela combina\u00e7\u00e3o de pesos e rodas e dispositivos que tais, causadores de embates e impulsos. Mas a ningu\u00e9m ocorreria, mesmo em imagina\u00e7\u00e3o ou fantasia, essa esp\u00e9cie de sopro violento e flamejante que se propaga e explode. A sua volta n\u00e3o divisavam nenhum exemplo de algo semelhante, a n\u00e3o ser o terremoto e o raio, que, como fen\u00f4menos naturais de grandes propor\u00e7\u00f5es, n\u00e3o imit\u00e1veis pelo homem, seriam desde logo rejeitados. Do mesmo modo, se antes da descoberta do <strong>fio da seda<\/strong> algu\u00e9m houvesse falado: h\u00e1 uma esp\u00e9cie de fio para a confec\u00e7\u00e3o de vestes e alfaias que supera de longe em delicadeza e resist\u00eancia e, ainda, em esplendor e suavidade, o linho e a l\u00e3, os homens logo se poriam a pensar em alguma planta chinesa, ou no p\u00ealo muito delicado de algum animal, ou na pluma ou penugem das aves; mas ningu\u00e9m haveria de imaginar o tecido de um pequeno verme t\u00e3o abundante e que se renova todos os anos. Se algu\u00e9m se referisse ao verme teria sido objeto de zombaria, como algu\u00e9m que sonhasse com um novo tipo de teia de aranha. Do mesmo modo, se antes da inven\u00e7\u00e3o da <strong>b\u00fassola<\/strong> algu\u00e9m houvesse falado ter sido inventado um instrumento com o qual se poderia captar e distinguir com exatid\u00e3o os pontos cardeais do c\u00e9u; os homens se teriam lan\u00e7ado, levados pela imagina\u00e7\u00e3o, a conjeturar a constru\u00e7\u00e3o dos mais rebuscados instrumentos astron\u00f4micos, e pareceria de todo incr\u00edvel que se pudesse inventar um instrumento com movimentos coincidentes com os dos c\u00e9us, sem ser de subst\u00e2ncia celeste, mas apenas de pedra ou metal. Contudo, tais inventos e outros semelhantes permaneceram ignorados pelos homens por tantos s\u00e9culos, e n\u00e3o foram descobertos pelas artes, mas <strong>gra\u00e7as ao acaso e oportunidade<\/strong>. Por outro lado, s\u00e3o de tal ordem (como j\u00e1 dissemos), s\u00e3o t\u00e3o heterog\u00eaneos e t\u00e3o distantes do que antes era conhecido que nenhuma no\u00e7\u00e3o anterior teria podido conduzir a eles. Desse modo, \u00e9 de se esperar que h\u00e1 ainda rec\u00f4nditas, no seio da natureza, muitas coisas de grande utilidade, que n\u00e3o guardam qualquer esp\u00e9cie de rela\u00e7\u00e3o ou paralelismo com as j\u00e1 conhecidas, mas que est\u00e3o fora das rotas da imagina\u00e7\u00e3o. At\u00e9 agora n\u00e3o foram descobertas. Mas n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que no transcurso do tempo e no decorrer dos s\u00e9culos vir\u00e3o \u00e0 luz, do mesmo modo que as antes referidas. Mas, seguindo o caminho que estamos apontando, elas podem ser mostradas muito antes do tempo usual, podem ser antecipadas, de forma r\u00e1pida, repentina e simultaneamente.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><strong>CX<\/strong> &#8211; [&#8230;] [O]s homens n\u00e3o foram capazes de notar que, se \u00e9 mais dif\u00edcil a disposi\u00e7\u00e3o dos caracteres tipogr\u00e1ficos que escrever as letras \u00e0 m\u00e3o, aqueles, uma vez colocados, propiciam um n\u00famero infinito de c\u00f3pias, enquanto que as letras \u00e0 m\u00e3o s\u00f3 servem para uma escrita. Ou talvez n\u00e3o tenham sido capazes de notar que a tinta poderia ser espessada de forma a tingir sem escorrer (mormente quando se faz a impress\u00e3o sobre as letras voltadas para cima). Eis por que por tantos s\u00e9culos n\u00e3o se p\u00f4de contar com essa admir\u00e1vel inven\u00e7\u00e3o, t\u00e3o propicia \u00e0 propaga\u00e7\u00e3o do saber. Mas a mente humana, no curso dos descobrimentos, tem estado t\u00e3o desastrada e mal dirigida que primeiro desconfia de si mesma e depois se despreza. <strong>Primeiro lhe parece imposs\u00edvel certo invento; depois de realizado, considera incr\u00edvel que os homens n\u00e3o o tenham feito h\u00e1 mais tempo<\/strong>. \u00c9 isso mesmo que refor\u00e7a os nossos motivos de esperan\u00e7a, pois subsiste ainda um sem-n\u00famero de descobrimentos a serem feitos, que podem ser alcan\u00e7ados atrav\u00e9s da j\u00e1 mencionada experi\u00eancia literata, n\u00e3o s\u00f3 para se descobrirem opera\u00e7\u00f5es desconhecidas, como tamb\u00e9m para transferir, juntar e aplicar as j\u00e1 conhecidas.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><strong>CXXX<\/strong> &#8211; [&#8230;] [N]\u00f3s, que consideramos a mente n\u00e3o meramente pelas faculdades que lhe s\u00e3o pr\u00f3prias, mas na sua <strong>conex\u00e3o com as coisas<\/strong>, devemos presumir que a arte da inven\u00e7\u00e3o robustecer-se-\u00e1 com as pr\u00f3prias descobertas.<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>BACON, Francis. 1620. 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