{"id":1667,"date":"2023-08-29T12:39:07","date_gmt":"2023-08-29T12:39:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=1667"},"modified":"2025-09-17T21:36:46","modified_gmt":"2025-09-17T21:36:46","slug":"um-levi-strauss-amoderno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2023\/08\/29\/um-levi-strauss-amoderno\/","title":{"rendered":"Um L\u00e9vi-Strauss amoderno"},"content":{"rendered":"<p>[O trecho abaixo foi extra\u00eddo do in\u00edcio do nono e \u00faltimo cap\u00edtulo (\u201cHistoire et dialectique\u201d) de <em>La pens\u00e9e sauvage<\/em>, de Claude L\u00e9vi-Strauss (1962). O trecho aproveita a \u00fanica tradu\u00e7\u00e3o brasileira da obra (L\u00e9vi-Strauss 2008), mas inclui importantes modifica\u00e7\u00f5es motivadas pelo cotejo do original e da tradu\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica (L\u00e9vi-Strauss 1966). Essas modifica\u00e7\u00f5es foram indicadas pelo uso de colchetes.]<\/p>\n<p>*          *          *<\/p>\n<p>No vocabula\u0301rio de Sartre [SARTRE, Jean-Paul. 1960. <em>Critique de la raison dialectique<\/em>, Paris: Gallimard.], definimo-nos, enta\u0303o, como materialista transcendental e como esteta. Materialista transcendental [&#8230;], pois que, para no\u0301s, a raza\u0303o diale\u0301tica na\u0303o e\u0301 <em>outra coisa que <\/em> a raza\u0303o anali\u0301tica e aquilo sobre o que se fundaria a originalidade absoluta de uma ordem humana; mas <em>alguma coisa a mais na<\/em> raza\u0303o anali\u0301tica: sua condic\u0327a\u0303o requerida para que ouse empreender a resoluc\u0327a\u0303o do humano [no] na\u0303o-humano. Esteta, pois Sartre aplica esse termo a quem pretende estudar os homens como se fossem formigas [&#8230;][.] Mas, ale\u0301m de essa atitude parecer-nos a de todo homem de cie\u0302ncia do momento, que e\u0301 agno\u0301stico, na\u0303o e\u0301 absolutamente comprometedora, pois as formigas, com [seu cultivo artificial de cogumelos], sua vida social e suas mensagens qui\u0301micas, ja\u0301 oferecem uma resiste\u0302ncia suficientemente coria\u0301cea aos empreendimentos da raza\u0303o anali\u0301tica&#8230; Aceitamos, pois, o qualificativo de esteta, por acreditar que o objetivo u\u0301ltimo das cie\u0302ncias humanas na\u0303o e\u0301 constituir o homem[,] mas dissolve\u0302-lo. O valor eminente da etnologia e\u0301 o de corresponder a\u0300 primeira etapa de um processo que comporta outras: para ale\u0301m da diversidade empi\u0301rica das sociedades humanas, a ana\u0301lise etnogra\u0301fica pretende atingir invariantes, que o presente trabalho mostra estarem situadas, a\u0300s vezes, nos mais imprevistos pontos. Rousseau [ROUSSEAU, Jean-Jacques. 1783. <em>Essai sur l&#8217;origine des langues<\/em>. \u0152uvres posthumes. Tome II, Cap.VIII, Londres.] o pressentira com sua habitual clarivide\u0302ncia: &#8220;Quando se quer estudar os homens, e\u0301 preciso olhar para perto de si; mas, para estudar o homem, e\u0301 preciso aprender a dirigir a vista para longe; e\u0301 preciso primeiro observar as diferenc\u0327as para descobrir as propriedades&#8221;. Na\u0303o obstante, na\u0303o seria bastante reabsorver humanidades particulares em uma humanidade geral; esta primeira empresa insinua outras, que Rousseau na\u0303o teria admitido de bom grado e que cabem a\u0300s cie\u0302ncias exatas e naturais: reintegrar a cultura  na natureza e, finalmente, a vida no conjunto de suas condic\u0327\u00f5es fi\u0301sico-qui\u0301micas [Nota de rodap\u00e9 80: A oposic\u0327a\u0303o entre natureza e cultura, sobre a qual insistimos outrora [L\u00c9VI-STRAUSS, Claude. 1949. <em>Les structures e\u0301le\u0301mentaires de la parente\u0301<\/em>, Paris: PUF, Caps. I e II.], parece-nos, hoje, oferecer um valor sobretudo metodol\u00f3gico.].<br \/>\n\tMas, a despeito [do contorno] voluntariamente brutal [dado \u00e0] nossa tese, na\u0303o perdemos de vista que o verbo &#8220;dissolver&#8221; na\u0303o implica de maneira nenhuma (e mesmo exclui) a destruic\u0327a\u0303o das partes constitutivas do corpo submetidas a\u0300 ac\u0327a\u0303o de um outro corpo. A soluc\u0327a\u0303o de um so\u0301lido num li\u0301quido modifica o arranjo das mole\u0301culas do primeiro; ela [oferece] tambe\u0301m, muitas vezes, um meio eficaz de coloca\u0301-las de reserva[,] para recupera\u0301-las segundo a necessidade e para melhor estudar suas propriedades. As reduc\u0327o\u0303es que enfocamos so\u0301 sera\u0303o, portanto, legi\u0301timas e mesmo possi\u0301veis, sob duas condic\u0327o\u0303es, das quais a primeira e\u0301 na\u0303o empobrecer os feno\u0302menos submetidos a\u0300 reduc\u0327a\u0303o[,] e ter certeza de que se reuniu previamente em torno de cada um tudo o que contribui para sua riqueza e originalidade distintivas[:] pois de nada serviria empunhar um martelo[,] se fosse para bater ao lado do prego.<br \/>\n\tEm segundo lugar, deve-se estar preparado para ver cada reduc\u0327a\u0303o perturbar por completo a ide\u0301ia preconcebida que se possa fazer do ni\u0301vel, qualquer que seja, que se tente alcanc\u0327ar. A ide\u0301ia de uma humanidade geral, para a qual a reduc\u0327a\u0303o etnogra\u0301fica conduz, na\u0303o tera\u0301 mais nenhuma relac\u0327a\u0303o com aquela que antes se tinha. E, no dia em que se chegar a compreender a vida como uma func\u0327a\u0303o da mate\u0301ria inerte, sera\u0301 para descobrir que esta possui propriedades bem diferentes das que lhe eram atribui\u0301das anteriormente. Portanto, na\u0303o se poderiam classificar os ni\u0301veis de reduc\u0327a\u0303o em superiores e inferiores, pois [seria necess\u00e1rio, ao contr\u00e1rio, se atentar ao fato de que, pelo efeito da redu\u00e7\u00e3o, o n\u00edvel considerado superior comunica retroativamente algo de sua riqueza ao n\u00edvel inferior ao qual ele foi assimilado]. A explicac\u0327a\u0303o cienti\u0301fica na\u0303o consiste na passagem da complexidade a\u0300 simplicidade mas na substituic\u0327a\u0303o, [por uma complexidade mais inteligi\u0301vel, de uma outra que o era menos].<\/p>\n<p>L\u00c9VI-STRAUSS, Claude. 1962. <em>La pens\u00e9e sauvage<\/em>. Paris: Plon, pp.326-8.<br \/>\nL\u00c9VI-STRAUSS, Claude. 2008. <em>O pensamento selvagem<\/em>. (Trad.: T\u00e2nia Pellegrini) Campinas: Papirus, pp.273-5.<br \/>\nL\u00c9VI-STRAUSS, Claude. 1966. <em>The savage mind<\/em>. London: Weidenfeld and Nicolson, pp.246-8.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[O trecho abaixo foi extra\u00eddo do in\u00edcio do nono e \u00faltimo cap\u00edtulo (\u201cHistoire et dialectique\u201d) de La pens\u00e9e sauvage, de Claude L\u00e9vi-Strauss (1962). O trecho aproveita a \u00fanica tradu\u00e7\u00e3o brasileira da obra (L\u00e9vi-Strauss 2008), mas inclui importantes modifica\u00e7\u00f5es motivadas pelo cotejo do original e da tradu\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica (L\u00e9vi-Strauss 1966). 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