{"id":1517,"date":"2023-04-20T17:26:17","date_gmt":"2023-04-20T17:26:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=1517"},"modified":"2023-04-20T17:26:17","modified_gmt":"2023-04-20T17:26:17","slug":"a-origem-virtual-de-todas-as-perspectivas-viveiros-de-castro-2002","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2023\/04\/20\/a-origem-virtual-de-todas-as-perspectivas-viveiros-de-castro-2002\/","title":{"rendered":"A origem virtual de todas as perspectivas (Viveiros de Castro 2002)"},"content":{"rendered":"<p>Um compasso deve ter uma de suas pernas firme, para que a outra possa girar-lhe \u00e0 volta. Escolhemos a perna correspondente \u00e0 natureza como nosso suporte, deixando a outra descrever o c\u00edrculo da diversidade cultural. Os \u00edndios parecem ter escolhido a perna do compasso c\u00f3smico correspondente ao que chamamos &#8216;cultura&#8217;, submetendo assim a nossa &#8216;natureza&#8217; a uma inflex\u00e3o e varia\u00e7\u00e3o cont\u00ednuas. A ideia de um compasso capaz de mover as duas pernas ao mesmo tempo &#8211; um relativismo finalizado &#8211; seria assim geometricamente contradit\u00f3ria, ou filosoficamente inst\u00e1vel. [&#8230;] Mas n\u00e3o devemos esquecer em primeiro lugar que, se as pontas do compasso est\u00e3o separadas, as pernas se articulam no v\u00e9rtice: <strong>a distin\u00e7\u00e3o entre natureza e cultura gira em torno de um ponto onde ela ainda n\u00e3o existe<\/strong>. Esse ponto, como Latour (1991 [<em>Jamais fomos modernos<\/em>]) t\u00e3o bem argumentou, tende a se manifestar em nossa modernidade apenas como pr\u00e1tica extra-te\u00f3rica, visto que a Teoria \u00e9 o trabalho de purifica\u00e7\u00e3o e separa\u00e7\u00e3o do &#8220;mundo do meio&#8221; da pr\u00e1tica em dom\u00ednios, subst\u00e2ncias ou princ\u00edpios opostos: em Natureza e Cultura, por exemplo. O pensamento amer\u00edndio &#8211; todo pensamento mitopr\u00e1tico, talvez &#8211; toma o caminho oposto. Pois o objeto da mitologia est\u00e1 situado exatamente no v\u00e9rtice onde a separa\u00e7\u00e3o entre Natureza e Cultura se radica. Nessa origem virtual de todas as perspectivas, o movimento absoluto e a multiplicidade infinita s\u00e3o indiscern\u00edveis da imobilidade congelada e da unidade impronunci\u00e1vel. [&#8230;] Em segundo lugar, e por fim: se os \u00edndios t\u00eam raz\u00e3o, ent\u00e3o a diferen\u00e7a entre os dois pontos de vista n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o cultural, e muito menos de mentalidade. Se os contrastes entre relativismo e perspectivismo ou entre multiculturalismo e multinaturalismo forem lidos \u00e0 luz, n\u00e3o de nosso relativismo multicultural, mas da doutrina ind\u00edgena, \u00e9 for\u00e7oso concluir que a reciprocidade de perspectivas se aplica a ela mesma, e que a diferen\u00e7a \u00e9 de mundo, n\u00e3o de pensamento (Viveiros de Castro 2022:398-9)<\/p>\n<p>VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo B. 2002. Perspectivismo e multinaturalismo na Am\u00e9rica ind\u00edgena. In: <em>A inconst\u00e2ncia da alma selvagem e outros ensaios de Antropologia<\/em>. S\u00e3o Paulo: Cosac &#038; Naify, pp347-99.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um compasso deve ter uma de suas pernas firme, para que a outra possa girar-lhe \u00e0 volta. 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