{"id":1314,"date":"2022-09-13T02:14:30","date_gmt":"2022-09-13T02:14:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/?p=1314"},"modified":"2022-09-13T02:36:36","modified_gmt":"2022-09-13T02:36:36","slug":"cosmopolitica-stengers-2018-2007","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/2022\/09\/13\/cosmopolitica-stengers-2018-2007\/","title":{"rendered":"Cosmopol\u00edtica (Stengers 2018 [2007])"},"content":{"rendered":"<p>[<a href=\"https:\/\/twitter.com\/metaleptic\/status\/805994286688784384?lang=de\">IMAGE<\/a>]<br \/>\nSTENGERS, Isabelle. 2018. <a href=\"https:\/\/www.revistas.usp.br\/rieb\/article\/view\/145663\">A proposi\u00e7\u00e3o cosmopol\u00edtica<\/a>. (Trads.: Raquel Camargo; Stelio Marras) <em>Revista do Instituto de Estudos Brasileiros<\/em> 69:442-64. [2007]<\/p>\n<p><strong>COSMOPOL\u00cdTICA como PR\u00c1TICA MINORIT\u00c1RIA (contra teoria generalizante)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Como apresentar uma proposi\u00e7\u00e3o cujo desafio n\u00e3o \u00e9 o de dizer o que ela \u00e9, nem de dizer o que ela deve ser, mas de fazer pensar; e que n\u00e3o requer outra verifica\u00e7\u00e3o sen\u00e3o esta: a forma como ela ter\u00e1 \u201cdesacelerado\u201d os racioc\u00ednios, [criado] a ocasi\u00e3o de uma sensibilidade um pouco diferente no que concerne aos problemas e situa\u00e7\u00f5es que nos mobilizam? Como, portanto, separar essa proposi\u00e7\u00e3o das quest\u00f5es de autoridade e de generalidade que se agenciam em torno da no\u00e7\u00e3o de \u201cteoria\u201d? Essa quest\u00e3o \u00e9 ainda mais importante considerando que a proposi\u00e7\u00e3o \u201ccosmopol\u00edtica\u201d, da maneira como eu tentarei caracteriz\u00e1-la, n\u00e3o se destina em primeiro lugar aos \u201cgeneralistas\u201d. Ela apenas adquire sentido nas situa\u00e7\u00f5es concretas, l\u00e1 onde trabalham os praticantes; e ela requer praticantes que [&#8230;] aprenderam a ser indiferentes \u00e0s pretens\u00f5es dos te\u00f3ricos generalizantes, estes que tendem a definir aqueles como executantes, encarregados de \u201caplicar\u201d uma teoria ou de capturar sua pr\u00e1tica como ilustra\u00e7\u00e3o de uma teoria. (Stengers 2018:443)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O IDIOTA DE DELEUZE<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[O] idiota de Deleuze, que ele tomou de empr\u00e9stimo de Dosto\u00efevski para dele fazer uma personagem conceitual, \u00e9 aquele que sempre desacelera os outros, aquele que resiste \u00e0 maneira como a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 apresentada, cujas urg\u00eancias mobilizam o pensamento ou a a\u00e7\u00e3o. E resiste n\u00e3o porque a apresenta\u00e7\u00e3o seja falsa, n\u00e3o porque as urg\u00eancias sejam mentirosas, mas porque \u201ch\u00e1 algo de mais importante\u201d. Que n\u00e3o lhe perguntemos o qu\u00ea. O idiota n\u00e3o responder\u00e1, ele n\u00e3o discutir\u00e1. O idiota faz presen\u00e7a, ou, como diria Whitehead, ele coloca um interst\u00edcio. N\u00e3o se trata de interrog\u00e1-lo: \u201co que \u00e9 mais importante?\u201d. \u201c<em>Ele n\u00e3o sabe<\/em>.\u201d Mas sua efic\u00e1cia n\u00e3o est\u00e1 em desfazer os fundamentos dos saberes, em criar uma noite onde todas os gatos s\u00e3o pardos. N\u00f3s sabemos, existem saberes, mas o idiota pede que n\u00e3o nos precipitemos, que n\u00e3o nos sintamos autorizados a nos pensar detentores do significado daquilo que sabemos. (Stengers 2018:444)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>DESACELERAR<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Na maior parte do tempo, como todos e cada um, eu acredito que sei aquilo que sei. Mas essa palavra, cosmopol\u00edtica, me veio em um momento no qual a inquietude me tomava, quando eu tinha a necessidade de desacelerar face \u00e0 possibilidade de que, com a maior das boas vontades, eu estivesse correndo o risco de reproduzir [isso que], desde que comecei a pensar, [aprendi ser o pequeno pecado] da tradi\u00e7\u00e3o \u00e0 qual perten\u00e7o: transformar em chave universal neutra, isto \u00e9, v\u00e1lida para todos, um tipo de pr\u00e1tica da qual n\u00f3s somos particularmente orgulhosos. (Stengers 2018:445)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>IDIOTA ANTI-KANT<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[O] atrativo kantiano pode induzir \u00e0 ideia de que se trata de uma pol\u00edtica visando a fazer existir um \u201ccosmos\u201d, um \u201cbom mundo comum\u201d. Ora, trata-se justamente de desacelerar a constru\u00e7\u00e3o desse mundo comum, de criar um espa\u00e7o de hesita\u00e7\u00e3o a respeito daquilo que fazemos quando dizemos \u201cbom\u201d. [&#8230;] A proposi\u00e7\u00e3o cosmopol\u00edtica \u00e9 mesmo incapaz de dar uma \u201cboa\u201d defini\u00e7\u00e3o dos procedimentos que permitem alcan\u00e7ar a \u201cboa\u201d defini\u00e7\u00e3o de um \u201cbom\u201d mundo comum. Ela \u00e9 \u201cidiota\u201d no sentido de que se dirige \u00e0queles que pensam sob essa urg\u00eancia, que ela n\u00e3o nega de forma alguma, mas vai sussurrando que, talvez, exista a\u00ed algo de mais importante. (Stengers 2018:446)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>REGIME DE ENUNCIA\u00c7\u00c3O e INSTITUI\u00c7\u00d5ES (Latour: empreitada distinta, mas preocupa\u00e7\u00e3o comum &#8211; amoderna)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O regime de enuncia\u00e7\u00e3o n\u00e3o permite julgar as institui\u00e7\u00f5es que correspondem a ele, n\u00e3o \u00e9 o ideal ao qual algumas [institui\u00e7\u00f5es] se aproximariam mais que outras, ele prop\u00f5e aproxim\u00e1-las de acordo com um \u00e2ngulo que coloca em cena sua irredutibilidade a todas as \u201craz\u00f5es gerais\u201d, culturais, simb\u00f3licas ou sociais. Consideradas por esse \u00e2ngulo, elas devem todas aparecer de forma \u201csurpreendente\u201d, de maneira tal que n\u00f3s deixar\u00edamos de nos surpreender com o fato de que \u201cos outros\u201d tenham se valido de institui\u00e7\u00f5es t\u00e3o diferentes. Trata-se, ent\u00e3o, de nos desenraizarmos de n\u00f3s mesmos [<em>d\u00e9payser<\/em>] para que \u201cos outros\u201d deixem de ser ex\u00f3ticos aos nossos olhos. Uma tal abordagem deveria, se exitosa, descolar de maneira bastante radical o regime de enuncia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das pr\u00e1ticas, institui\u00e7\u00f5es, ideais, controv\u00e9rsias que n\u00f3s associamos ao pol\u00edtico, para que deixemos de nos apresentar como tendo inventado \u201co pol\u00edtico\u201d, e isso sem no entanto chegar \u00e0 conclus\u00e3o de que outros povos \u201cfaziam pol\u00edtica sem saber\u201d (posi\u00e7\u00e3o tradicional que implica que n\u00f3s os compreendemos melhor do que eles compreendem a si pr\u00f3prios). Essa empreitada, delicada e arriscada, deve ser concebida como distinta da proposi\u00e7\u00e3o cosmopol\u00edtica, mas as duas est\u00e3o unidas por uma rela\u00e7\u00e3o de entreprova\u00e7\u00e3o rec\u00edproca, visto que compartilham uma preocupa\u00e7\u00e3o comum: sair de maneira n\u00e3o trivial (p\u00f3s-moderna) das narrativas do progresso que conduzem at\u00e9 \u201cn\u00f3s\u201d. (Stengers 2018:446 nota 5)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>COSMOS = DESCONHECIDO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>O cosmos, tal qual ele figura nesse termo, cosmopol\u00edtico, designa o desconhecido que constitui esses mundos m\u00faltiplos, divergentes, articula\u00e7\u00f5es das quais eles poderiam se tornar capazes, contra a tenta\u00e7\u00e3o de uma paz que se pretenderia final, ecum\u00eanica, no sentido de que uma transcend\u00eancia teria o poder de requerer daquele que \u00e9 divergente que se reconhe\u00e7a como uma express\u00e3o apenas particular do que constitui o ponto de converg\u00eancia de todos. N\u00e3o existe, enquanto tal, um representante, o idiota nada exige, n\u00e3o autoriza nenhum \u201ce portanto&#8230;\u201d. (Stengers 2018:447)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>IGUALDADE (simetria, inquietude) =\/= EQUIVAL\u00caNCIA (substitutibilidade)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[O] cosmos \u00e9 um operador de coloca\u00e7\u00e3o em igualdade [<em>mise \u00e0 \u00e9galit\u00e9<\/em>], sob a condi\u00e7\u00e3o de dissociar radicalmente entre coloca\u00e7\u00e3o em igualdade e coloca\u00e7\u00e3o em equival\u00eancia [<em>mise en \u00e9quivalence<\/em>], que implica uma medida comum, implicando a intercambialidade de posi\u00e7\u00f5es. Pois dessa igualdade n\u00e3o se desdobra nenhum \u201ce portanto&#8230;\u201d mas, bem ao contr\u00e1rio, o p\u00f5e em suspens\u00e3o. Operar, aqui, \u00e9 criar uma coloca\u00e7\u00e3o em inquietude [<em>mise en inqui\u00e9tude<\/em>] das vozes pol\u00edticas, um sentimento de que elas n\u00e3o definem aquilo que discutem; que a arena pol\u00edtica est\u00e1 povoada pelas sombras do que n\u00e3o tem, n\u00e3o pode ter ou n\u00e3o quer ter voz pol\u00edtica (Stengers 2018:447)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A PROPOSI\u00c7\u00c3O COSMOPOL\u00cdTICA como A PASSAGEM DE UM PAVOR<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A proposi\u00e7\u00e3o cosmopol\u00edtica, portanto, nada tem a ver com um programa, mas, muito mais com a passagem de um pavor, que faz balbuciar as seguran\u00e7as. \u00c9 esse pavor que podemos escutar no grito, dizem, um dia entoado por Cromwell: \u201cMy Brethren, by the bowels of Christ I beseech you, bethink that you may be mistaken!\u201d. Citar Crowell, aqui, esse t\u00e3o brutal pol\u00edtico, carrasco da Irlanda, se dirigindo aos seus irm\u00e3os puritanos, habitados por um verdade segura e vingativa, \u00e9 insistir que esse balbuciamento n\u00e3o se merece, n\u00e3o traduz uma particular grandeza de alma, mas acontece. E acontece sob o modo da indetermina\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, como um acontecimento ao qual nada se segue, nenhum \u201ce portanto&#8230;\u201d, mas coloca a cada um a quest\u00e3o sobre a maneira como se herdar\u00e1 algo disso. (Stengers 2018:447)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A PROPOSI\u00c7\u00c3O COSMOPOL\u00cdTICA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Conferir uma dimens\u00e3o \u201ccosmopol\u00edtica\u201d aos problemas que pensamos sob o modo da pol\u00edtica n\u00e3o se refere ao registro das respostas, mas coloca a quest\u00e3o sobre a maneira como podem ser escutados \u201ccoletivamente\u201d, no \u00e2mbito do agenciamento atrav\u00e9s do qual se prop\u00f5e uma quest\u00e3o pol\u00edtica, o grito de pavor ou o sussurro do idiota. [&#8230;] N\u00e3o se trata de se dirigir a eles, mas de agenciar o conjunto de maneira tal que o pensamento coletivo se construa \u201cem presen\u00e7a\u201d [disso cuja insist\u00eancia] eles fazem existir. Dar a essa insist\u00eancia um nome, cosmos, inventar a maneira mediante a qual a \u201cpol\u00edtica\u201d, que \u00e9 a nossa assinatura, poderia fazer existir seu \u201cduplo c\u00f3smico\u201d [<em>doublure cosmique<\/em>], as repercuss\u00f5es disso que vai ser decidido, disso que constr\u00f3i suas raz\u00f5es leg\u00edtimas, sobre isso que permanece surdo a essa legitimidade, eis a proposi\u00e7\u00e3o cosmopol\u00edtica. (Stengers 2018:448)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>M\u00c9TODO e ECONOMIA PS\u00cdQUICA DA PESQUISA CIENT\u00cdFICA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>N\u00f3s sabemos que nos laborat\u00f3rios onde se pratica a experimenta\u00e7\u00e3o animal existe todo tipo de rito, de maneira de falar, de designar os animais, o que testemunha a necessidade dos pesquisadores de se protegerem. Poder\u00edamos, ademais, nos perguntar se as grandes evoca\u00e7\u00f5es do progresso dos conhecimentos, da racionalidade, das necessidades do m\u00e9todo, n\u00e3o fazem parte desses ritos, obstruindo os interst\u00edcios por onde insiste o \u201co que estou fazendo\u201d. A necessidade de \u201cdecidir\u201d quanto \u00e0 legitimidade de uma experimenta\u00e7\u00e3o teria ent\u00e3o por correlato a inven\u00e7\u00e3o de restri\u00e7\u00f5es destinadas ativamente a essas manobras de prote\u00e7\u00e3o, for\u00e7ando os pesquisadores implicados a se expor, a decidir \u201cem presen\u00e7a\u201d daquilo que ser\u00e1 eventualmente v\u00edtima de sua decis\u00e3o. A proposi\u00e7\u00e3o vai ent\u00e3o no sentido de uma \u201cautorregula\u00e7\u00e3o\u201d, mas ela tem por interesse colocar em cena a quest\u00e3o do \u201cauto\u201d, de dar a sua plena significa\u00e7\u00e3o ao desconhecido da quest\u00e3o: o que decidiria o pesquisador \u201cpor ele mesmo\u201d se esse \u201cele mesmo\u201d estivesse ativamente despojado daquilo que as decis\u00f5es atuais parecem ter necessidade. (Stengers 2018:449)<br \/>\nEm <em>De l\u2019angoisse \u00e0 la m\u00e9thode dans les sciences du comportement<\/em> (Paris: Flammarion, 1980), Georges Devereux liga a import\u00e2ncia do m\u00e9todo nas \u201cci\u00eancias do comportamento\u201d, isto \u00e9, as ci\u00eancias que se dirigem a seres que, eles pr\u00f3prios, se dirigem ao mundo, \u00e0 necessidade de se proteger de uma ang\u00fastia que o f\u00edsico ou o qu\u00edmico n\u00e3o conhecem (\u201co que eu estou fazendo a \u2018ele\u2019?\u201d). \u00c9 por isso que o m\u00e9todo, nessas ci\u00eancias, acaba sempre, de uma maneira ou de outra, por rebaixar de forma insensata o observado (p. 80), mas tamb\u00e9m a \u201cemburrecer\u201d o pesquisador, que se apresentar\u00e1 como submisso ao m\u00e9todo, tirando m\u00e9rito das economias de pensamento e da sensibilidade que ele exige. (Stengers 2018:449 nota 6)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A PERSPECTIVA ETO-ECOL\u00d3GICA e O CASO DA EXPERIMENTA\u00c7\u00c3O ANIMAL<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Uma tal quest\u00e3o destaca uma perspectiva que chamo de \u201ceto-ecol\u00f3gica\u201d [<em>\u00e9tho-\u00e9cologique<\/em>], que afirma a inseparabilidade do <em>\u00e9thos<\/em>, da maneira de se comportar pr\u00f3pria a um ser, e do <em>oikos<\/em>, do h\u00e1bitat desse ser, da maneira que esse h\u00e1bitat satisfaz ou contraria as exig\u00eancias associadas a tal <em>\u00e9thos<\/em>, ou oferece aos novos <em>\u00e9thos<\/em> a oportunidade de se atualizarem. Quem diz inseparabilidade n\u00e3o diz depend\u00eancia funcional. Um <em>\u00e9thos<\/em> n\u00e3o \u00e9 uma fun\u00e7\u00e3o do seu meio ambiente, do seu <em>oikos<\/em>, ele sempre ser\u00e1 o <em>\u00e9thos<\/em> do ser que se revela capaz dele. N\u00f3s n\u00e3o o transformaremos de modo previs\u00edvel transformando o meio ambiente. Mas nenhum <em>\u00e9thos<\/em> \u00e9, em si mesmo, detentor da sua pr\u00f3pria significa\u00e7\u00e3o, mestre de suas raz\u00f5es. N\u00f3s n\u00e3o sabemos de que um ser \u00e9 capaz, do que pode se tornar capaz. O meio ambiente, poder\u00edamos dizer, prop\u00f5e, mas \u00e9 o ser que disp\u00f5e dessa proposi\u00e7\u00e3o, que lhe d\u00e1 ou lhe nega uma significa\u00e7\u00e3o \u201cetol\u00f3gica\u201d. N\u00f3s n\u00e3o sabemos do que um pesquisador, afirmando hoje a legitimidade, mesmo a necessidade de determinada experimenta\u00e7\u00e3o animal, poderia se tornar capaz em um <em>oikos<\/em> que lhe exige pensar \u201cem presen\u00e7a\u201d das v\u00edtimas de sua decis\u00e3o. O que importa \u00e9 que esse devir ser\u00e1 aquele de um pesquisador, e \u00e9 nesse devir que ele produziria um acontecimento e no qual aquilo que chamo de \u201ccosmos\u201d poderia ser nomeado. Localmente, no caso em que a exig\u00eancia ecol\u00f3gica seria eficaz, uma articula\u00e7\u00e3o ter\u00e1 sido criada entre o que parecia se contradizer: as necessidades da pesquisa e suas consequ\u00eancias para os animais que s\u00e3o v\u00edtimas dela. Acontecimento \u201cc\u00f3smico\u201d. (Stengers 2018:449-50)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O CONSTRANGIMENTO do \u201cIDIOTA\u201d<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Esse exemplo pode fazer sentir o motivo pelo qual eu enfatizei que o idiota n\u00e3o nega os saberes articulados, n\u00e3o os denuncia como mentira nem como a fonte escondida de um conhecimento que os transcende. Os constrangimentos [contraintes] propostos s\u00e3o \u201cidiotas\u201d nesse sentido: eles n\u00e3o designam um \u00e1rbitro capaz de julgar a legitimidade das urg\u00eancias que os experimentadores reivindicam, eles levam a s\u00e9rio, a t\u00edtulo hipot\u00e9tico (isso pode n\u00e3o funcionar) o fato de que o <em>\u00e9thos<\/em> desses experimentadores, que \u00e9 definido como problem\u00e1tico pelos advers\u00e1rios da experimenta\u00e7\u00e3o animal, parece ter necessidade de um ambiente \u201cass\u00e9ptico\u201d, e eles lhes negam o direito a tal ambiente: n\u00f3s poderemos aceitar escutar os seus argumentos quando estivermos seguros de que voc\u00eas est\u00e3o plenamente expostos \u00e0s suas consequ\u00eancias. (Stengers 2018:450)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O PROBLEMA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[O] problema n\u00e3o \u00e9 o dos saberes articulados, mas da pretens\u00e3o que redobra esses saberes: aqueles que sabem se apresentam como pretendendo saber aquilo que sabem, como sendo capazes de conhecer de um modo independente de sua situa\u00e7\u00e3o \u201cecol\u00f3gica\u201d, independente do que o seu oikos lhes obriga a levar em conta, ou, ao contr\u00e1rio, lhes permite ignorar. (Stengers 2018:450)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>TORNAR a GUERRA INTOLER\u00c1VEL<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[I]magine-se as repercuss\u00f5es se todos os sofrimentos e mutila\u00e7\u00f5es impostos pela guerra (econ\u00f4mica) fossem assim \u201ccelebrados\u201d, rememorados, ativamente protegidos do esquecimento e da indiferen\u00e7a, e n\u00e3o anestesiados pelos temas da flexibilidade necess\u00e1ria, da ardente mobiliza\u00e7\u00e3o de todos por uma \u201csociedade de conhecimentos\u201d onde cada um dever\u00e1 aceitar a r\u00e1pida obsolesc\u00eancia do que sabe e tomar para si a responsabilidade permanente de sua autorreciclagem. O fato de sermos tomados por uma guerra sem perspectiva conceb\u00edvel de paz se tornaria talvez intoler\u00e1vel. (Stengers 2018:450-1)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>TAR<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Eu gostaria agora de desdobrar a proposi\u00e7\u00e3o cosmopol\u00edtica em associa\u00e7\u00e3o com o tema da ecologia pol\u00edtica, tal como permitem entrever os trabalhos de Bruno Latour (<em>Politiques de la nature<\/em>) ou de Michel Callon e seus coautores (<em>Agir dans un monde incertain<\/em>). [&#8230;] A cultura ativa da incerteza, tal como a prop\u00f5em notadamente Callon e seu coautores, j\u00e1 \u00e9 um desafio formid\u00e1vel, e contudo, de maneira idiota, trata-se de complicar ainda mais a situa\u00e7\u00e3o; de marcar o fato de que vivemos em um mundo perigoso e de levar em conta explicitamente esse perigos. (Stengers 2018:451)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>FUNCION\u00c1RIOS para MATTERS OF CONCERN<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Como diz Bruno Latour, trata-se de fazer com que a situa\u00e7\u00e3o escape das raz\u00f5es autorizadas pelos <em>matters of fact<\/em>, como tamb\u00e9m dos valores dedut\u00edveis de um \u201cinteresse geral\u201d que permite a arbitragem. A situa\u00e7\u00e3o deve ser produzida como <em>matter of concern<\/em>, o que significa que ela deve agrupar em [torno] de si aqueles que est\u00e3o \u201cimplicados\u201d. [&#8230;] O que demandaria [&#8230;] funcion\u00e1rios cuja grandeza seria a de manter uma posi\u00e7\u00e3o de um \u201cn\u00e3o saber radical\u201d em rela\u00e7\u00e3o ao que \u00e9 do \u201cinteresse geral\u201d, e cuja tarefa seria assegurar que toda proposi\u00e7\u00e3o se apresente de um modo que a exponha efetivamente, o mais efetivamente poss\u00edvel, e que todos os objetores-proponentes tenham os meios de desdobrar plenamente a sua proposi\u00e7\u00e3o? \u00c9 toda a pol\u00edtica de pesquisa p\u00fablica que deveria, notadamente, ser revista. (Stengers 2018:451)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>NEUTRALIDADE<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>N\u00e3o se constituir\u00e1 jamais mem\u00f3ria ou experi\u00eancia sob o signo de uma neutralidade metodol\u00f3gica. Isso n\u00e3o significa \u201cabandonar a ci\u00eancia\u201d. Jamais teria existido ci\u00eancia experimental se os pesquisadores no laborat\u00f3rio n\u00e3o estivessem apaixonadamente interessados pela diferen\u00e7a entre aquilo que \u201cfunciona\u201d, que cria uma rela\u00e7\u00e3o pertinente, que produz um saber que importa, que pode interessar, e uma observa\u00e7\u00e3o metodologicamente impec\u00e1vel, mas que n\u00e3o \u00e9 suscet\u00edvel de criar qualquer diferen\u00e7a, qualquer consequ\u00eancia. (Stengers 2018:452)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>TEORIA e SEUS REPRESENTANTES <\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[O] poder das teorias \u00e9 o de definir cada situa\u00e7\u00e3o como um simples caso, isto \u00e9, proibir aos seus representantes de serem obrigados a pensar, de serem colocados em risco por esse caso. A aposta eto-ecol\u00f3gica implica, portanto, que o \u201c<em>\u00e9thos<\/em>\u201d associado ao pesquisador incapaz de abandonar a posi\u00e7\u00e3o de porta-voz de uma teoria (ou de um m\u00e9todo) que supostamente faz dele um cientista, n\u00e3o \u00e9 nem um pouco um problema grave e inultrapass\u00e1vel (do tipo: \u00e9 isso ou recairemos ao n\u00edvel da opini\u00e3o). Trata-se de uma quest\u00e3o do meio. Esse <em>\u00e9thos<\/em>, no meio atual, permite fazer carreira, mas, se o meio muda de um modo que o transforma em uma defici\u00eancia ris\u00edvel, ele pode ser modificado. (Stengers 2018:452)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>UTOPIA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A ecologia pol\u00edtica se situa, pois, na perspectiva do que poder\u00edamos chamar de uma \u201cutopia\u201d, [&#8230;] indicando por onde poderia passar uma transforma\u00e7\u00e3o que n\u00e3o deixe ningu\u00e9m intacto, isto \u00e9, que coloque em quest\u00e3o todos os \u201cter\u00edamos apenas que&#8230;\u201d que designam a simplista vit\u00f3ria dos bons contra os maus. (Stengers 2018:452-3)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>EMPOWERMENT CAPITALISTA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>\u201cN\u00f3s temos o direito de nos beneficiarmos de nossa situa\u00e7\u00e3o, n\u00f3s reivindicamos que nos restituam a possibilidade de tirar plena vantagem dela\u201d, eis o que se tornou o empowerment, e o mesmo destino espera, sem d\u00favida, qualquer outra possibilidade de p\u00f4r em causa a rela\u00e7\u00e3o entre Estado e arbitragem em nome do interesse geral. (Stengers 2018:453)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>VIVEMOS EM UM MUNDO PERIGOSO (Jamais fomos modernos \u2013 Galileu reticulador)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>N\u00f3s vivemos em um mundo perigoso, e aqui podemos pensar na antiga an\u00e1lise de Joseph Needham [<em>La science chinoise et l\u2019Occident<\/em>. Paris: Le Seuil, 1973] na qual ele se pergunta por que, na Europa, inven\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas que a China tinha absorvido podiam ser colocadas na origem do que chamamos de \u201crevolu\u00e7\u00e3o industrial\u201d. Muitos diziam, e eu ainda escutei dizer recentemente: foi a f\u00edsica que fez a diferen\u00e7a, a grande descoberta da fecundidade das matem\u00e1ticas para descrever o mundo. Needham n\u00e3o parou a\u00ed: como embriologista, ele sabia a que ponto essa fecundidade era limitada. Os trabalhos de Galileu ou Newton nada explicavam, mas o fato de que eles tenham podido \u201cfazer evento\u201d \u00e9 que devia ser explicado. E a explica\u00e7\u00e3o que ele reteve foi a que coloca em cena a liberdade que ent\u00e3o beneficiava os \u201cempreendedores\u201d europeus \u2013 aqueles que Latour mais tarde descreveu como ativando a constru\u00e7\u00e3o de redes cada vez mais longas, a despeito de toda estabilidade ontol\u00f3gica, enla\u00e7ando sem hesita\u00e7\u00e3o os interesses humanos aos n\u00e3o humanos, cada vez mais numerosos e heter\u00f3clitos. Galileu \u00e9, de fato, um construtor de redes: seu conhecimento, no fim das contas, concernia primeiramente \u00e0 forma como algumas esferas bastante lisas rolam ao longo de um plano inclinado, e esse conhecimento, somado \u00e0s suas observa\u00e7\u00f5es com a luneta, lhe permitiu acrescentar argumentos em apoio a uma hip\u00f3tese astron\u00f4mica; mas ele colocou tudo isso em comunica\u00e7\u00e3o direta com a grande quest\u00e3o da autoridade, dos direitos do conhecimento que se iniciam diante das tradi\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas e teol\u00f3gicas. E a sua condena\u00e7\u00e3o nada impediu na Europa esfacelada entre estados rivais, enquanto que, Imp\u00e9rio unificado que era a China, ele teria sido sem d\u00favida proibido de empreender. (Stengers 2018:453-4)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A MEC\u00c2NICA da RETICULA\u00c7\u00c3O CAPITALISTA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Os <em>stakeholders<\/em>, aqueles que possuem interesses em um novo empreendimento e que por ele se conectam, n\u00e3o devem ser limitados pelo que quer que seja exterior aos seus empreendimentos: o mundo emerge da multiplicidade de suas conex\u00f5es heterog\u00eaneas, e essa emerg\u00eancia tem por \u00fanica \u201cmec\u00e2nica\u201d os entreimpedimentos que eles constituem uns para os outros. N\u00f3s sempre ressaltamos a liga\u00e7\u00e3o entre essa concep\u00e7\u00e3o da livre emerg\u00eancia, sem transcend\u00eancia, com a mec\u00e2nica. Os empreendedores (e um consumidor \u00e9 igualmente um empreendedor) \u201ccomp\u00f5em\u201d \u00e0 maneira de for\u00e7as mec\u00e2nicas, por adi\u00e7\u00e3o; e a emerg\u00eancia n\u00e3o \u00e9 outra coisa que a consequ\u00eancia dos obst\u00e1culos fatuais que eles constituem uns para os outros. Cada empreendedor \u00e9, ent\u00e3o, movido por seus interesses bem definidos. Certamente, ele pode estar aberto a tudo aquilo que lhe permite avan\u00e7ar (ver os mecanismos de recrutamento descritos por Bruno Latour em <em>La science en action<\/em>). Mas o essencial \u00e9 que ele seja o homem da \u201coportunidade\u201d, surdo e cego \u00e0 quest\u00e3o do mundo de cuja constru\u00e7\u00e3o os seus esfor\u00e7os participam. Com efeito, \u00e9 precisamente essa desconex\u00e3o das escalas \u2013 aquelas dos indiv\u00edduos e aquela do que, juntos, eles fazem emergir \u2013 que permite a matematiza\u00e7\u00e3o do \u201cmercado\u201d como composi\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica, maximizando uma fun\u00e7\u00e3o que os economistas escolher\u00e3o assimilar ao bem coletivo. Toda intrus\u00e3o em nome de um outro princ\u00edpio de composi\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m toda \u201cescuta\/acordo [entente]\u201d, isto \u00e9, toda dist\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 surdez, podem ent\u00e3o ser colocados no mesmo saco: eles n\u00e3o ser\u00e3o descritos, mas condenados, pois todos t\u00eam o efeito de diminuir aquilo que o \u201clivre mercado\u201d maximiza (poder do teorema matem\u00e1tico). (Stengers 2018:454)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>EMPREENDEDORISMO como PRINC\u00cdPIO-DIREITO ou PROPOSI\u00c7\u00c3O?<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>[T]rata-se de opor aos empreendedores \u2013 definidos pelos seus interesses, por aquilo que os concerne \u2013 aqueles que \u201cse envolvem com aquilo que n\u00e3o deveria concernir a ningu\u00e9m\u201d, aquilo que n\u00e3o deveria intervir na composi\u00e7\u00e3o de for\u00e7as. [&#8230;] A quest\u00e3o, certamente, \u00e9 pol\u00edtica, e o direito de empreender permanece hoje, desse ponto de vista, como a primeira palavra. O princ\u00edpio de precau\u00e7\u00e3o tende a limitar um pouco esse direito, mas ele o respeita antes de mais nada: para limit\u00e1-lo, \u00e9 preciso estar em jogo a sa\u00fade humana ou os danos graves e\/ ou irrevers\u00edveis ao meio ambiente. N\u00e3o h\u00e1, ent\u00e3o, lugar para a quest\u00e3o dos shareholders: em que mundo queremos viver?, mas apenas desenvolvimento da possibilidade de uma posi\u00e7\u00e3o defensiva. Certamente, a ideia de \u201csustentabilidade\u201d vai mais longe, mas n\u00e3o nos surpreendamos que se trate apenas de uma ideia: a sua aplica\u00e7\u00e3o efetiva transformaria o \u201cdireito\u201d de empreender em \u201cproposi\u00e7\u00e3o\u201d, e implicaria que as ideias da ecologia pol\u00edtica se tornassem realidade institucional. (Stengers 2018:455)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ORGANICISMO CAPITALISTA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Eu destaquei o car\u00e1ter mec\u00e2nico da emerg\u00eancia por composi\u00e7\u00e3o dos interesses. Eu seguirei essa pista a fim de verificar se as ci\u00eancias da natureza nos fornecem outros modelos de emerg\u00eancia sem transcend\u00eancia. Certamente, o primeiro que se apresenta \u00e9 o modelo biol\u00f3gico: a vida democr\u00e1tica poderia ser assimilada \u00e0 harmoniosa participa\u00e7\u00e3o de cada um em um corpo \u00fanico&#8230; Velha ideia, muito sedutora, \u00e0 qual conv\u00e9m, entretanto, resistir. (Stengers 2018:455)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>COSMO-POL\u00cdTICA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Se o \u201ccosmos\u201d pode nos proteger de uma vers\u00e3o \u201cempreendedorista\u201d da pol\u00edtica, acolhendo apenas os interesses bem definidos, que t\u00eam os meios para se entreimpedir, n\u00f3s vemos no momento que a pol\u00edtica pode nos proteger de um cosmos misantropo, de um cosmos que se comunica diretamente com uma verdadeira oposi\u00e7\u00e3o aos artif\u00edcios, hesita\u00e7\u00f5es, diverg\u00eancias, desmedidas, conflitos associados \u00e0s desordens humanas. (Stengers 2018:456)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>PENSAR = RESISTIR<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Pensar o que emerge \u00e9 resistir tanto \u00e0 composi\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica de for\u00e7as indiferentes quanto \u00e0 composi\u00e7\u00e3o harm\u00f4nica do que apenas encontra a sua verdade no fazer corpo. (Stengers 2018:456)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O MODELO QU\u00cdMICO e a ORDEM DO MUNDO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Mas existe ainda um outro modelo de emerg\u00eancia, que n\u00e3o remete nem \u00e0 f\u00edsica, ci\u00eancia das leis que confirmou a palavra de ordem \u201cobedecer \u00e0 natureza para poder submet\u00ea-la\u201d, nem \u00e0 biologia, ci\u00eancia dos modos de manter junto, da qual depende a vida ou a morte do corpo. Trata-se da arte dos qu\u00edmicos que compreendem isso com que est\u00e3o lidando a partir [daquilo que isso tem o meio de os fazer fazer.] [&#8230;] Falar da arte do qu\u00edmico \u00e9 se voltar n\u00e3o para a qu\u00edmica contempor\u00e2nea, que frequentemente se pensa como uma esp\u00e9cie de \u201cf\u00edsica aplicada\u201d, mas para aquela qu\u00edmica do s\u00e9culo XVIII, que alguns pensadores das Luzes (notadamente Diderot, e certamente n\u00e3o Kant, que \u00e9 muito mais o abajur dessa aventura das Luzes) opuseram ao modelo mec\u00e2nico, ao ideal de uma defini\u00e7\u00e3o te\u00f3rica dos corpos qu\u00edmicos da qual se deveria deduzir o modo como eles entram em rea\u00e7\u00e3o (esse \u201cideal\u201d est\u00e1 longe de ser alcan\u00e7ado pela qu\u00edmica contempor\u00e2nea). Se existe arte, \u00e9 porque os corpos qu\u00edmicos s\u00e3o definidos como \u201cativos\u201d, mas sua atividade n\u00e3o pode ser atribu\u00edda a eles, ela depende das circunst\u00e2ncias e pertence \u00e0 arte dos qu\u00edmicos criar tipos de circunst\u00e2ncias nos quais os corpos se tornar\u00e3o capazes de produzir o que o qu\u00edmico deseja: arte de cat\u00e1lise, de ativa\u00e7\u00e3o, de modera\u00e7\u00e3o.  [&#8230;] Se voc\u00eas lerem o bonito livro de Fran\u00e7ois Jullien, <em>La propension des choses<\/em>, descobrir\u00e3o uma arte de emerg\u00eancia bastante pr\u00f3xima daquela do qu\u00edmico. Com efeito, nesse livro se encontra descrito o modo como os chineses honram aquilo que menosprezamos, a manipula\u00e7\u00e3o, a arte da disposi\u00e7\u00e3o que permite aproveitar-se da propens\u00e3o das coisas, de \u201cdobr\u00e1-las\u201d de tal sorte que elas realizem \u201cespontaneamente\u201d o que o artista, o homem de guerra ou o homem pol\u00edtico desejam. Fora da oposi\u00e7\u00e3o entre submiss\u00e3o e liberdade, um pensamento centrado na efic\u00e1cia. [&#8230;] Dir-se-\u00e1 que esse \u00e9 um estranho modelo para o pol\u00edtico, mas esse sentimento de estranheza traduz nossa ideia de que a \u201cboa\u201d pol\u00edtica deveria encarnar uma forma de emancipa\u00e7\u00e3o universal: removam a aliena\u00e7\u00e3o que separava os humanos da sua liberdade e voc\u00eas obter\u00e3o qualquer coisa parecida com uma democracia. A ideia de uma arte, mesmo de uma \u201ct\u00e9cnica\u201d pol\u00edtica, \u00e9, portanto, an\u00e1tema, artif\u00edcio que separa o humano da sua verdade. Referir-se \u00e0 arte do qu\u00edmico \u00e9 afirmar que o encontro pol\u00edtico n\u00e3o tem nada de espont\u00e2neo. O que chamamos de democracia ou \u00e9 a forma menos ruim de gerir o rebanho humano ou \u00e9 uma aposta centrada na quest\u00e3o n\u00e3o do que s\u00e3o os humanos, mas do que eles podem se tornar capazes. \u00c9 a quest\u00e3o que John Dewey colocou no centro da sua vida: como \u201cfavorecer\u201d, \u201ccultivar\u201d os h\u00e1bitos democr\u00e1ticos? [&#8230;] A quest\u00e3o \u00e9 \u201ceto-ecol\u00f3gica\u201d: qual <em>oikos<\/em> pode dar lugar \u00e0 emerg\u00eancia do que seria capaz de [\u201cfazer importar\u201d o que n\u00e3o pode se impor na conta]? (Stengers 2018:456-7)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>ACONTECIMENTO e DISPOSITIVO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>\u00c9 o alcance da explica\u00e7\u00e3o que se encontra transformado, articulado ao registro da arte e n\u00e3o da dedu\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se explica um acontecimento [<em>\u00e9v\u00e9nement<\/em>], mas o acontecimento se explica a partir daquilo que ter\u00e1 sabido nele criar um lugar. E uma tal arte me parece operar nos dispositivos que s\u00e3o facilmente desqualificados como supersticiosos, porque eles parecem convocar uma transcend\u00eancia. [&#8230;] Eu penso principalmente naquilo que pude aprender com o dispositivo do \u201cdiscurso\u201d [<em>palabre<\/em>; debate, discuss\u00e3o] e com a maneira com que ele faz intervir o que eu chamaria, em poucas palavras, a ordem do mundo. O que h\u00e1 de muito interessante \u00e9 que esse dispositivo ritual, que parece supor a exist\u00eancia de uma ordem do mundo que dar\u00e1 a sua justa solu\u00e7\u00e3o a uma situa\u00e7\u00e3o problem\u00e1tica, n\u00e3o confere qualquer autoridade a essa ordem. Se existe um discurso [<em>palabre<\/em>], \u00e9 porque aqueles que se re\u00fanem, aqueles que s\u00e3o reconhecidos como sabendo de alguma coisa dessa ordem n\u00e3o sabem, nesse caso espec\u00edfico, como ela vai se passar. Se eles est\u00e3o reunidos, \u00e9 por conta de uma situa\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 qual nenhum de seus saberes \u00e9 suficiente. Portanto, a ordem do mundo n\u00e3o \u00e9 um argumento, ela \u00e9 aquilo que confere aos participantes um papel que os \u201cdes-psicologiza\u201d, que faz com que eles n\u00e3o se apresentem como \u201cpropriet\u00e1rios\u201d das suas opini\u00f5es, mas como aqueles que se encontram todos igualmente habilitados a testemunhar que o mundo possui uma ordem. (Stengers 2018:457-8)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>COSMOPOL\u00cdTICA QU\u00cdMICA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Do ponto de vista dos saberes dos antigos qu\u00edmicos, o fato de que o discurso [<em>palabre<\/em>; debate, discuss\u00e3o] n\u00e3o pede aos protagonistas que decidam, mas que determinem como se passa aqui a ordem do mundo, confere a essa ordem um papel que seria aquele do \u00e1cido que desagrega os corpos e lhes permite entrar em proximidade, e tamb\u00e9m do fogo que os ativa. Em poucas palavras, pode-se caracterizar a ordem do mundo em termos de efic\u00e1cia: ela constrange cada um a se produzir, a fabricar-se a si mesmo, a partir de um modo que confere ao problema em torno do qual eles se re\u00fanem o poder de gerar pensamento, um pensamento que n\u00e3o pertencer\u00e1 a ningu\u00e9m e a ningu\u00e9m dar\u00e1 raz\u00e3o. (Stengers 2018:458)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>MAGIA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Para as bruxas, nomear-se bruxas e definir a sua arte por essa palavra, \u201cmagia\u201d, j\u00e1 s\u00e3o atos \u201cm\u00e1gicos\u201d, que criam uma experi\u00eancia desconfort\u00e1vel para todos aqueles que vivem em um mundo onde supostamente a p\u00e1gina foi definitivamente virada, com a erradica\u00e7\u00e3o de tudo que foi desqualificado, menosprezado, destru\u00eddo, enquanto triunfava o ideal de uma racionalidade p\u00fablica, de um homem idealmente mestre de suas raz\u00f5es, logo acompanhado da trivialidade da psicologia dita cient\u00edfica com suas pretens\u00f5es de identificar aquilo a que as raz\u00f5es humanas obedecem. Ousar nomear de \u201cmagia\u201d a arte de suscitar os acontecimentos nos quais est\u00e1 em jogo um \u201ctornar-se capaz\u201d \u00e9 aceitar que se deixe ecoar em n\u00f3s um grito que pode lembrar aquele de Cromwell: o que fizemos, o que continuamos fazendo quando utilizamos palavras que nos fazem os herdeiros daqueles que erradicaram as bruxas. (Stengers 2018:458)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CONVOCA\u00c7\u00c3O (efic\u00e1cia do ritual &#8211; empowerment)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A magia que as bruxas ativistas americanas cultivaram no dom\u00ednio pol\u00edtico \u00e9 uma arte experimental cuja pedra de toque \u00e9 um \u00eaxito indeterminado quanto ao seu conte\u00fado. Com efeito, essa arte mant\u00e9m algo daquilo que poder\u00edamos chamar de convoca\u00e7\u00e3o: o ritual a\u00ed chama a uma presen\u00e7a, mas aquilo que \u00e9 convocado \u2013 o que as bruxas chamam de deusa \u2013 n\u00e3o diz (n\u00e3o mais que o Cristo de Cromwell) o que \u00e9 preciso fazer, n\u00e3o d\u00e1 resposta \u00e0 decis\u00e3o que tomar, n\u00e3o entrega qualquer vis\u00e3o \u201cprof\u00e9tica\u201d. A sua efic\u00e1cia \u00e9 bem antes aquela de catalisar um regime de pensamento e de sentir que confere \u00e0quilo que importa, \u00e0quilo em torno do que se d\u00e1 a reuni\u00e3o, o poder de se tornar causa de pensamento. A efic\u00e1cia do ritual n\u00e3o \u00e9, portanto, a convoca\u00e7\u00e3o de uma deusa que inspiraria a resposta, mas a convoca\u00e7\u00e3o daquilo cuja presen\u00e7a transforma as rela\u00e7\u00f5es que cada protagonista entret\u00e9m com os seus pr\u00f3prios saberes, esperan\u00e7as, medos, mem\u00f3rias, e permite ao conjunto fazer emergir o que cada um, separadamente, n\u00e3o teria sido capaz de produzir. <em>Empowerment<\/em>, produ\u00e7\u00e3o gra\u00e7as ao coletivo, de partes capazes daquilo que elas n\u00e3o teriam sido capazes sem ele. Arte de iman\u00eancia radical, mas a iman\u00eancia \u00e9 precisamente aquilo que est\u00e1 para se criar, sendo o regime usual de pensamento aquele da transcend\u00eancia que autoriza posi\u00e7\u00e3o e julgamento. (Stengers 2018:458-9)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>V\u00cdRUS ou INUNDA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>A ecologia pol\u00edtica afirma que n\u00e3o existe conhecimento que seja ao mesmo tempo pertinente e separado [d\u00e9tach\u00e9]: n\u00e3o \u00e9 de uma \u201cdefini\u00e7\u00e3o objetiva\u201d, de um v\u00edrus ou de uma inunda\u00e7\u00e3o que podemos ter necessidade, mas daqueles cujas pr\u00e1ticas foram engajadas de modos m\u00faltiplos \u201ccom\u201d esse v\u00edrus ou \u201ccom\u201d esse rio. Mas cabe \u00e0 perspectiva cosmopol\u00edtica colocar a quest\u00e3o da efic\u00e1cia, que poderia estar associada ao \u201cn\u00e3o existe\u201d da ecologia pol\u00edtica, e de conceber a cena pol\u00edtica a partir dessa quest\u00e3o. Como o processo de emerg\u00eancia da decis\u00e3o pol\u00edtica pode, ao mesmo tempo, ser ativamente protegido da fic\u00e7\u00e3o segundo a qual \u201cos seres humanos de boa vontade decidem em nome do interesse geral\u201d, e ativado pela obriga\u00e7\u00e3o de colocar o problema associado ao v\u00edrus ou ao rio \u201cem presen\u00e7a\u201d daquele que, do contr\u00e1rio, correria o risco de ser desqualificado como \u201cinteresse ego\u00edsta\u201d, nada tendo a propor e criando um obst\u00e1culo \u00e0 \u201cconta comum\u201d em forma\u00e7\u00e3o? (Stengers 2018:459)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O PAPEL<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Pap\u00e9is foram criados [expert e diplomata], cujos constrangimentos criam as salvaguardas que protegem a emerg\u00eancia dos tipos de entendido e mal-entendido \u201cespont\u00e2neos\u201d que dominam nossas reuni\u00f5es de \u201cboa vontade\u201d. \u00c9 essa no\u00e7\u00e3o de pap\u00e9is heterog\u00eaneos que eu vou prolongar. [&#8230;] O artif\u00edcio que constitui o papel a ser sustentado faz existir o heterog\u00eaneo contra a t\u00e3o poderosa tenta\u00e7\u00e3o de tomadas de posi\u00e7\u00e3o em nome do que autoriza a conta comum (interesse geral, racionalidade, progresso etc.). Um tal papel n\u00e3o \u00e9 uma mentira, exceto quando nos lembramos que todo mentiroso \u00e9 transformado pela sua mentira. H\u00e1 uma efic\u00e1cia pr\u00f3pria ao papel, que os comediantes conhecem bem: o papel n\u00e3o \u00e9 apenas sustentado, ele \u201csustenta\u201d aquele que o endossa. (Stengers 2018:460)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O DINHEIRO e a D\u00cdVIDA<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Tudo terminar\u00e1 talvez com o dinheiro, mas n\u00e3o \u201cpelo\u201d dinheiro, pois o dinheiro n\u00e3o fecha a conta. Aqueles que se re\u00fanem devem saber que nada poder\u00e1 apagar a d\u00edvida que liga sua eventual decis\u00e3o \u00e0s suas v\u00edtimas. (Stengers 2018:462)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>IGUALDADE (presen\u00e7a) = EQUIVAL\u00caNCIA (representa\u00e7\u00e3o)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Eu apresentei, no in\u00edcio deste texto, o \u201ccosmos\u201d como um operador de igualdade por oposi\u00e7\u00e3o a toda no\u00e7\u00e3o de equival\u00eancia. [&#8230;] A igualdade n\u00e3o significa que todos possuem \u201cigualmente o mesmo direito de voz\u201d, mas que todos devem estar presentes de um modo que confira \u00e0 decis\u00e3o o seu grau m\u00e1ximo de dificuldade, que pro\u00edba qualquer atalho, qualquer simplifica\u00e7\u00e3o, qualquer diferencia\u00e7\u00e3o a priori entre aquilo que conta e aquilo que n\u00e3o conta. O cosmos, tal como ele figura na proposi\u00e7\u00e3o cosmopol\u00edtica, n\u00e3o possui representante, ningu\u00e9m fala em seu nome e ele n\u00e3o pode ser feito objeto de nenhum procedimento de consulta. O seu modo de exist\u00eancia se traduz pelo conjunto dos modos de fazer, dos artif\u00edcios cuja efic\u00e1cia \u00e9 a de expor aqueles que ter\u00e3o que decidir, de constrang\u00ea-los a esse pavor que eu associei ao grito de Cromwell [\u201c<em>My Brethren, by the bowels of Christ I beseech you, bethink that you may be mistaken!<\/em>\u201d]. Em resumo, trata-se de abrir a possibilidade de que ao murm\u00fario do idiota se responda n\u00e3o, por certo, com a defini\u00e7\u00e3o \u201cdaquilo que h\u00e1 de mais importante\u201d, mas com a desacelera\u00e7\u00e3o sem a qual n\u00e3o pode haver cria\u00e7\u00e3o. (Stengers 2018:462-3)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CIVILIZAR a NEUTRALIDADE<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Eu ressaltei que a proposi\u00e7\u00e3o cosmopol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 uma proposi\u00e7\u00e3o vale-tudo, aquela que \u201cn\u00f3s\u201d poder\u00edamos apresentar a todos como igualmente aceit\u00e1vel por todos. Ela \u00e9 muito mais uma maneira de civilizar, de tornar \u201capresent\u00e1vel\u201d essa pol\u00edtica que temos, um pouco exageradamente, a tend\u00eancia de pensar como um ideal neutro, bom para todos. (Stengers 2018:463)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O MURM\u00daRIO DO IDIOTA C\u00d3SMICO COLOCA EM SUSPENSO<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>\u00c9 preciso ousar dizer que o murm\u00fario do idiota c\u00f3smico \u00e9 indiferente ao argumento da urg\u00eancia como a qualquer outro. Ele n\u00e3o o nega, ele apenas coloca em suspenso os \u201ce portanto&#8230;\u201d dos quais n\u00f3s, t\u00e3o plenos de boa vontade, t\u00e3o empreendedores, sempre prontos a falar por todos, somos os mestres. (Stengers 2018:464)<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[IMAGE] STENGERS, Isabelle. 2018. A proposi\u00e7\u00e3o cosmopol\u00edtica. (Trads.: Raquel Camargo; Stelio Marras) Revista do Instituto de Estudos Brasileiros 69:442-64. [2007] COSMOPOL\u00cdTICA como PR\u00c1TICA MINORIT\u00c1RIA (contra teoria generalizante) Como apresentar uma proposi\u00e7\u00e3o cujo desafio n\u00e3o \u00e9 o de dizer o que ela \u00e9, nem de dizer o que ela deve ser, mas de fazer pensar; e que n\u00e3o requer outra verifica\u00e7\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":1315,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[364],"class_list":["post-1314","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-fichamento","tag-stengers"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/STENGERS-FUCK-THE-ANTHROPOCENE.jpeg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1314","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1314"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1314\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1321,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1314\/revisions\/1321"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1315"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1314"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1314"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.laspa.slg.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1314"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}